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Contra a tentação da carne

por Pedro Correia, em 18.09.19

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Pensava eu que uma universidade era um espaço de liberdade. Afinal não: é um espaço de interdição. Mais de meio século após a proclamação de Maio, que proibia todas as proibições, eis que a reitoria coimbrã, confundindo a academia com uma creche, restabelece a velha ordem com novos rótulos, tratando estudantes adultos como membros de um rebanho pastoreado pelos tele-evangelistas de turno que anunciam pragas bíblicas a quem ceder à tentação da carne.

«Razões ambientais» estarão na origem da decisão de eliminar o consumo da carne de vaca nas 14 cantinas a cargo da academia coimbrã, que se ufana assim de ser a «primeira universidade portuguesa neutra em carbono». Eis ao que chegámos: à universidade "neutra", onde a unicidade impera e os mais recentes dogmas em matéria de pureza alimentar são aceites sem um assomo de rebelião juvenil. «Vivemos um tempo de emergência climática e temos de colocar travão nesta catástrofe ambiental anunciada», anuncia com requintes de terror milenarista o douto reitor, Amílcar Falcão. Não podia ter retórica mais adequada nem apelido mais propício ao aplauso do partido animalista.

Os puritanos norte-americanos na década de 20 impuseram a Lei Seca. Agora os mastigadores de rúcula cá do burgo, com igual fúria proibicionista, pretendem impor com força legal os seus hábitos alimentares invocando - como os prosélitos de qualquer fé - o primado da moral pública, que se quer descontaminada e sã. Nada de novo debaixo do sol. Só me espanta o silêncio resignado - ia a escrever bovino - das associações de estudantes de Coimbra. Comem (algas e tofu) e calam. O que vai seguir-se? Substituição compulsiva da cerveja por água da bica? Imposição de cintos de castidade em material biodegradável? Recolher obrigatório para cumprir as horas de sono que as normas sanitárias recomendam?

Os basbaques erguem hossanas em louvor ao "progresso" contido nas novas tábuas da lei. Muitos totalitarismos começam assim: com caução "científica" e proselitismo higienista em nome de um ideal de pureza, sem um sopro de contraditório. Nunca é de mais recordar que o maior tirano que o mundo conheceu era vegetariano militante, muito amigo dos animais e quis impor o seu padrão alimentar ao mundo inteiro.

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Tempos difíceis

por Pedro Correia, em 29.08.19

Vivemos tempos difíceis. A todo o momento temos gente a policiar os nossos gestos, os nossos olhares, as nossas palavras, as nossas expressões de escárnio ou de enfado, os nossos hábitos alimentares.

As patrulhas andam aí. Mais ferozes e autoritárias que nunca. Tratam-nos como se vivêssemos em regime de internato, impondo os dogmas da correcção política com fúria punitiva.

Devemos falar como elas falam, comer o que elas comem, desfraldar as mesmas bandeiras, idolatrar os mesmos ídolos. Só assim receberemos atestados de idoneidade que nos salvaguardam do banimento cívico.

 

Vale-me a prosa iconoclasta e dissolvente de Aquilino Ribeiro, que frequento por estes dias, em elegias constantes à boa mesa e à boa cama.

Em trechos como este:
«Estavam de morrer por mais, os infalíveis bolinhos de bacalhau sobre o vinagre, e digno de D. João VI, grande papa-frangos, o polho de grão assado no espeto. Comeram e untaram a barbela, fazendo-lhes dignas honras um palhetinho alegrete e gajeiro de Leitões, colheita do Corregedor

E este:

«O que mais lisonjeia a mulher de parte dum homem em matéria de finezas é que ele a deseje. Desejada de lábios contra lábios, de braços nos braços, de poros nos poros a comunicarem-se toda a lia de que é feita a atracção universal.»

E mais este:

«Capaz de todas as tontarias, sabia por experiência o perigo que há em esbarrar quer na timidez improdutiva quer na audácia espalha-brasas, situações por igual contraproducentes no plano da sedução. Sempre tivera uma certa confiança em si e na imperiosidade de que se acompanham as leis da natureza. Não é que tudo entre homem e mulher se reduz a sexo?»

 

Parágrafos recolhidos desse magnífico romance que é A Casa Grande de Romarigães, esplendoroso tributo à língua portuguesa.

Se escrevesse hoje, estava mestre Aquilino bem tramado.

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Penso rápido (94)

por Pedro Correia, em 13.08.19

Os sintomas são iniludíveis: rumores transformados em factos, diz-que-disse alastrando como vírus ou bactéria, a lenda impressa em vez do facto. Traições, facadas nas costas, hipocrisia a rodos - um estendal de miséria humana. Sempre os melhores fins a justificar os piores meios.

Punir antes de condenar, condenar antes de julgar, julgar antes de acusar, ouvir apenas uma das partes: a negação do que deve ser a justiça. É quanto basta para erguer novos pelourinhos em nome de excelentes causas pervertidas até aos limites da abjecção.

Quem aplaude a caça às bruxas contra Woody Allen, por exemplo, é marioneta pronta a servir de pasto a qualquer totalitarismo.

Hoje, em grande parte do mundo ocidental, há menos liberdade e menos democracia do que existia entre as décadas de 70 e 90. Estamos cercados de novos tabus e proibições de todo o género em nome de dogmas identitários. Como o recente caso da interdição total de cartoons no New York Times - que costumava ser um dos faróis mundiais da liberdade de imprensa - bem demonstra.

Todos de bico calado, para evitar anátemas dos diáconos da correcção política que policiam palavras, gestos e comportamentos. Chamem-lhe o que quiserem para disfarçar, mas isto não é mais do que a ressurreição dos velhos censores. Com a agravante de estes agora nem terem a frontalidade de se assumirem como tal.

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O regime na primeira página

por Pedro Correia, em 06.08.19

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Capa do jornal A Bola de 16 de Junho de 2007

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Novas fogueiras na escuridão

por Pedro Correia, em 03.08.19

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Fotograma (censurado) de Noites Escaldantes: toda a nudez é hoje castigada

 

No momento em que escrevo estas linhas, Woody Allen filma em San Sebastián, no País Basco espanhol, após um ano de inactividade total: 2018 foi uma folha em branco no seu extenso percurso artístico.

Regressa timidamente ao exercício da profissão que o apaixona, muito longe do seu país natal. Mesmo assim, entre críticas duríssimas, vindas da chamada vox populi, à «indecência» do seu comportamento, não faltando quem lhe chame «pervertido» ao vê-lo passar e quem grite contra a «publicidade negativa» que isto trará à cidade, afugentando turistas.

Um quarto de século depois, continua acusado não na justiça verdadeira, mas nos pelourinhos de rua. Motivo: um alegado crime de natureza sexual que jurou sempre não ter cometido e baseado em supostos factos jamais comprovados não apenas na investigação judicial mas também na exaustiva e minuciosa investigação jornalística que a acompanhou.

À falta de verdade, bastou o boato: um dos mais prestigiados cineastas de todos os tempos foi condenado ainda em vida à morte civil, apedrejado nos mais diversos recantos do planeta, impedido de exercer direitos básicos - começando pelo direito ao trabalho. Mesmo assim, com admirável tenacidade, o criador de Annie Hall, Manhattan e Hannah e as Suas Irmãs tenta agora regressar à tona de água, aos 83 anos, combatendo um novo maccartismo - desta vez já não de explícita natureza política, mas sexual.

 

Allen deixou de poder estrear um filme todos os anos: o último que rodou, A Rainy Day in New York, foi adquirido e confiscado pela Amazon, que o manteve em armazém, tornando-o invisível: é um crime de lesa-arte, mas muitos sectores aplaudem o crime, como se fosse um acto heróico. Concluído em 2017, nunca entrou no circuito comercial. O realizador teve de lutar em tribunal para adquirir em nome próprio o direito de exibição em território norte-americano, mas até ao momento não conseguiu encontrar sala de projecção: todos os exibidores receiam sofrer irreversíveis danos reputacionais. Por darem a mão a alguém que, como Woody Allen, ensinou milhões de pessoas a ver, a ouvir (muitos espectadores escutaram pela primeira vez Louis Armstrong e Ella Fitzgerald nos seus filmes) e a pensar.

Actores que interpretaram A Rainy Day in New York - incluindo o protagonista, Timothée Chalamet - apressaram-se a anunciar, alto e bom som, que entregariam o salário a organizações feministas. Como se Allen tivesse peste, um coro orquestrado de actrizes e actores ergueu-se em orgástica condenação daquela alma demoníaca que havia desencaminhado uma enteada no remanso do lar - tomando o rumor como facto, negando o contraditório ao cineasta e apontando-lhe a espada justiceira. De pouco ou nada valeu lembrar que ao longo de meio século de actividade nunca o realizador foi alvo de qualquer queixa por conduta imprópria da parte de qualquer actriz, principal ou secundária.

Não tardou um olhar "revisionista" da obra integral do cineasta, passada a pente fino pelos novos censores morais que nela descobriram inúmeros indícios de pedofilia, agravados pelo impenitente machismo que lhe marca o conteúdo e a forma, antes tão incensadas pela "vanguarda" intelectual novaiorquina.

 

Woody_Allen_at_San_Sebastian_Filmfestival_2008[1].Woody Allen em San Sebastián: insultos e solidão 50 filmes depois

 

Um cineasta que não consegue estrear os filmes. E também um escritor que não consegue editar os livros: até ao momento, nenhuma chancela editorial mostrou interesse em publicar-lhe a autobiografia entretanto concluída: a estridente pressão dos movimentos neopuritanos grita mais alto, condicionando não apenas o acto criador mas toda a expressão pública de simpatia por quem ouse remar contra os novos dogmas.

Imagino um Vladimir Nabokov - que lançou a sua imortal Lolita em 1955, na Europa, após cinco temerosas editoras norte-americanas lhe terem devolvido o manuscrito e só viu o livro impresso nos EUA três anos mais tarde - nos nossos dias: seria alvo de um implacável linchamento moral, sem apelo nem agravo, condenado a expiação eterna.

Imagino um Nelson Rodrigues na actualidade: banido da escrita jornalística, impedido de divulgar os seus folhetins, proibido de encenar as suas peças teatrais em nome do histriónico combate ao «heteropatriarcado», à perpetuação dos «estereótipos de género» e à «coisificação» da mulher. Imagino actrizes que interpretaram filmes inspirados na dramaturgia do autor de Toda Nudez Será Castigada - como Darlene Glória, Vera Fischer, Sonia Braga, Lídia Brondi e Christiane Torloni - a repudiarem aqueles temas e aqueles textos com gestos de indizível horror.

 

Nesta atmosfera de convento proibicionista, povoado de façanhudas madres superioras, as cenas de sexo são abreviadas ou mesmo suprimidas. Filmes que geraram furor nos anos 80, como Atracção Fatal, Noites Escaldantes e O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, seriam hoje rejeitados como infâmia. A nudez tornou-se residual - e quase interdita aos corpos femininos, evitando assim despertar a concupiscência de machos trogloditas, passe a redundância. Tornou-se moda corrente "pixelizar" seios nus para antecipar as tesouras censórias em patrulha permanente às redes sociais.

A "indústria do entretenimento" norte-americana passou a incorporar novas brigadas fiscalizadoras, inspiradas no defunto Código Hays e agora designadas «coordenadoras da intimidade», zelando para que nenhuma actriz sinta o mais leve incómodo sob as ordens de um realizador no cinema ou na televisão. Um Fellini ou um Bergman dos nossos dias veriam as respectivas carreiras abortadas à nascença. Já para não falar num Hitchcock.

 

Enquanto escrevo estas linhas, um cineasta de 83 anos - outrora prestigiado - filma no País Basco, longe da cidade natal que ajudou a projectar como ícone planetário. Demorou quase dois anos reunir financiamento mínimo para retomar a arte que sempre o apaixonou. A Rainy Day in New York - o seu 50.º filme - continua aferrolhado pela Amazon: a milionária multinacional considera que o lançamento da película poderia causar «danos de imagem» à sua marca.

São tempos duros: os novos empestados, como ele, ardem na fogueira sem lhes ser reconhecido o exercício do contraditório. Ou, se o fazem, ninguém os escuta. Porque estão condenados à partida. E não há recurso da sentença.

O mais penoso e lamentável é que tudo isto se passa na liberalíssima América, não num obscuro Estado totalitário.

 

Leitura complementar:

Este filme acaba sempre mal (19 de Janeiro de 2018)

O apedrejamento de Woody Allen (20 de Janeiro de 2018)

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It's a steady job

por Pedro Correia, em 24.07.19

Expresso é um jornal de ideias fixas. Convicto de que os leitores são pessoas distraídas, incapazes de reter aquilo que lêem, chega a publicar a mesma notícia não apenas uma, nem sequer duas, mas três vezes na mesma edição. Com um intervalo de oito páginas.

Aconteceu assim na Revista do sábado que passou. Logo na página 10, vinha a primeira, intitulada «Lashana Lynch». Rezava assim: «O mundo está a mudar quando até o machismo de 007 é posto em causa. Embora Daniel Craig ainda faça uma perninha, a lindíssima a[c]triz britânica será a nova agente secreta em 'Bond 25'.»

 

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Estava eu ainda a interrogar-me se o faro das patrulhas de turno detectaria odor machista no superlativo «lindíssima» e se a expressão «fazer uma perninha» pode ter cunho heteropatriarcal, em alusão ao direito de pernada dos senhores medievais, e já deparava com a renotícia e o retítulo na página 14 da mesma edição do mesmíssimo periódico:

«Lashana Lynch não será James Bond, mas será a primeira mulher a tomar-lhe o lugar. Nascida em Londres, sonhou cantar e tem crescido a pulso na representação. 'Bond 25', nome provisório do 25.º filme da saga, está a pô-la nas bocas do mundo.»

Ilustrada pela cara que já vira quatro páginas atrás.

 

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Matutava eu ainda na expressão figurativa «crescer a pulso», de eventual pendor sexista sobretudo quando associada a «pô-la nas bocas do mundo», sentindo uma remota indignação a avolumar-se perante os insidiosos estereótipos de género induzidos pelo imaginário falocêntrico nesta escrita jornalística, e lá me ressurgia, na página 18, a fotografia da tal senhora que eu já vira estampada duas vezes antes no referido periódico.

 

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«O papel será interpretado pela a[c]triz britânica Lashana Lynch, que junta uma outra dimensão a esta mudança pelo facto de ser negra», alvitrava a re-renotícia da Revista do Expresso, tomando como fonte (só à terceira ficamos a saber) o tablóide londrino Daily Mail. Que ficou imortalizado na letra de uma canção contemporânea do James Bond original, Paperback Writer: «His son is working for the Daily Mail / It's a steady job, / But he wants to be a paperback writer...»

Canção dos irrepetíveis Beatles. Quatro rapazes de pele branquinha: expoentes de um mundo que não volta mais.

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Um assunto de porteiras

por Pedro Correia, em 16.07.19

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A reprodução descarada e obsessiva da lógica das redes sociais pelos órgãos de informação está a contribuir para o descrédito acentuado do jornalismo que vai restando.

Há dezenas de jornalistas, em quase todas as redacções, que nada mais fazem durante dias inteiros senão escrutinar o que se cochicha e bichana nas redes, acabando por dissociar-se por completo do mundo concreto e do país real. Nas suas prédicas em papel ou no digital, recorrem aos temas e à semântica que pupulam nessas «vias alternativas à informação», como há já quem lhes chame no meio jornalístico, disparando assim contra o próprio pé.

 

Reparem no que acontece naquilo a que ainda é costume chamar «canais de notícias» na televisão. Num curioso fenómeno de mimetismo, generalizou-se o modelo CMTV, absorvido inicialmente pela TVI 24 e agora já vampirizado também pela SIC Notícias: fecham três ou quatro mecos num estúdio durante horas a discutir coisa nenhuma sobre a bola que agora nem rola nos relvados e assim supõem cumprir a missão jornalística.

Mas não cumprem: essas tertúlias de bitaiteiros são meras correntes transmissoras de boatos e rumores. Basta comparar as imagens que reproduzo acima: foram propaladas com escassas horas de intervalo no mesmo canal - a primeira às 18.17, a segunda às 22.32. Sujeitas a esta lógica editorial mais que duvidosa: primeiro imprime-se a lenda, depois (se não chover) imprime-se o facto. Assim duplica-se a audiência (o que não parece ser o caso, longe disso, no canal em causa, a avaliar pelos mais recentes números tornados públicos).

 

Isto já se pratica hoje sem sofisticação nenhuma, como é patente no exemplo que deixo aqui em baixo. Talvez farto de publicar notícias, essa coisa anacrónica e maçadora, um jornal de difusão nacional acaba de instituir uma secção intitulada "Negócios e Rumores". Como se fosse um assunto de porteiras em vez de jornalistas, sem desprimor para as porteiras.

Assim ao menos não ilude ninguém: o leitor, à partida, já sabe que irá mesmo ser enganado. 

 

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A morte do jornalismo

por Pedro Correia, em 29.06.19

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Um dos mais conceituados jornais à escala global, o espanhol El País, saiu hoje para as bancas com esta "capa": um anúncio de página inteira. Mas não é um anúncio qualquer: trata-se de um investimento publicitário com a chancela do milionário grupo empresarial chinês Huawei, em óbvia estratégia de contenção de danos no âmbito da guerra fria que se desenrola entre Pequim e Washington na disputa da hegemonia do mercado mundial das telecomunicações.

«Nenhum computador deixou de funcionar em 2000. Nenhum Huawei vai deixar de funcionar. Calma, todos os produtos Huawei poderão continuar a ser usados com total normalidade. Tanto os já vendidos como os que estão por vender. E também todas as suas aplicações.» Assim reza o texto que substitui a habitual manchete do jornal de maior tiragem em Espanha.

Vejo isto e recordo outros tempos, com directores de jornais onde trabalhei, que faziam prevalecer a sua autoridade perante os publicitários que pretendiam condicionar a linha editorial desses periódicos. Havia espaços interditos aos anúncios - e a venda da primeira página era um deles - e nem todos eram publicados: aqueles que colidiam com o estatuto editorial ou os grandes princípios orientadores desses títulos jornalísticos, colocando eventualmente em risco a isenção na cobertura dos temas mais controversos, eram devolvidos à procedência. E havia uma claríssima linha divisória entre o que era conteúdo jornalístico e conteúdo publicitário.

Tudo isso acabou. Inclusive nos diários ou semanários que conservam um número apreciável de leitores e algum prestígio granjeado em dias de glória ainda capazes de despertar recordações nostálgicas. Mas o que esta primeira página simboliza, com toda a sua força expressiva, é a morte do jornalismo tal como o conhecemos no Ocidente nestes últimos dois séculos. O que resta é a publi-reportagem, a estória "fofinha", o evento "giro", a narrativa feel good muito amiga dos anunciantes. Informar passou de moda: o que está a dar é entreter. Com a chancela - implícita ou explícita - de marcas, empresas, clubes ou seitas. Os departamentos de publicidade, marketing e relações públicas são hoje os que têm maior capacidade efectiva de decisão editorial na generalidade dos títulos jornalísticos. Incluindo os mais prestigiados, como se vê.

A partir de agora, aguardarei por notícias no El País que possam colidir com os desígnios comerciais da Huawei. Mas confesso desde já que vou esperar sentado. 

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O regime

por Pedro Correia, em 31.05.19

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Imagem do blogue Tu Vais Vencer

 

Por vezes basta uma foto para nos explicar quase tudo. Esta, por exemplo. Que nos mostra três habitantes do reino da impunidade. 

Uma imagem que ajuda a esclarecer, com mais eficácia do que mil discursos, como é letal o vírus que vai corroendo a nossa democracia.

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Isto cheira cada vez pior

por Pedro Correia, em 30.05.19

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Esta minuciosa investigação do Luís Rosa e da Sara Antunes de Oliveira é um retrato perturbador mas fidedigno do país político e da tentacular administração pública portuguesa em descarado concubinato com redes de esquemas e negociatas. Tudo temperado com o nepotismo agora tão em voga, apesar dos platónicos alertas do Presidente da República. 

Em suma: um país em falência moral. Depois admirem-se que tantos portugueses virem costas às urnas e tanta gente esteja pronta a ovacionar o primeiro populista que irrompa ao virar da esquina. E desta vez nem precisa de vir montado num cavalo branco, como o Sidónio há cem anos: basta aparecer de vassoura em riste.

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 27.04.19

A propósito de um vulgar carioca de limão (agora, pelos vistos, nada vulgar), pode nascer um boa crónica jornalística. Esta, de Marta Reis no jornal i, intitulada precisamente "Era um carioca de limão". Que nos conta uma história e nos apresenta ao mesmo tempo um quadro impressivo da realidade lisboeta. De um quotidiano onde uns hábitos se ganham e outros se perdem, onde umas tradições vão morrendo e um consumismo de importação vai ganhando raízes.

Isto numa linguagem acessível e escorreita, em que todas as palavras estão no seu lugar e em que nada fica por entender. Algo cada vez mais raro nos dias que correm. Pode parecer simples? Pode. Mas não é.

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A futebolização do País

por Pedro Correia, em 11.04.19

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Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País. As pantalhas dedicam horas sem fim à conversa de taberna sobre bola transposta para os estúdios televisivos. Os partidos manipulam militantes, tratando-os como membros de claques de futebol. Os debates políticos estão cheios de metáforas associadas ao chamado desporto-rei. E a linguagem mediática imita o pior dos jargões ouvidos nos estádios, anunciando divergências ao som de clarins de guerra.

Há dois aspectos a ter em conta neste fenómeno: um é o factor de identidade tribal potenciado pelos clubes desportivos. Em regra este é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal e quando faltam outros, mais tradicionais, o desporto - ou, no caso português, apenas o futebol - potencia-o como forma de preencher algum vazio deixado pelos restantes (família, igrejas, sindicatos, partidos, academias, etc.)

Outro - muito diferente e claramente negativo - é o da diabolização do antagonista. Este é um fenómeno com ramificações muito diferentes, e algumas bem recentes, influenciadas pela linguagem dicotómica das redes sociais, que tendem a ver tudo a preto e branco, numa réplica do imaginário infantil (cowboys & índios; polícias & ladrões, etc) transfigurado para a idade adulta.

O eco que os meios de informação tradicionais fazem do que se publica na Rede, amplificando tudo de forma acrítica e seguidista, produz cada vez mais estragos.

A crise financeira dos media conduziu nos últimos anos a drásticas alterações de âmbito editorial. A deontologia jornalística manda auscultar todas as partes com interesses atendíveis numa determinada história, obrigando também o jornalista a não eleger uma "verdade" sem pelo menos registar a soma das "verdades" em disputa. Acontece que a urgência de conseguir leitores e audiências tem levado muitos jornais e televisões a "queimar etapas" e a elevar o tom do relato noticioso. Os adversários tornaram-se inimigos, os desafios transformaram-se em batalhas, os saudáveis confrontos derivaram para devastadoras guerras.

Somar a febre do futebol à necessidade imperiosa de estancar quebras de tiragens dos jornais e fugas dos telespectadores para canais temáticos alternativos dá nisto: visões extremadas onde a emoção substitui o raciocínio, toda a moderação é considerada imprestável e o "vencedor" proclamado dos debates é invariavelmente o que berra mais que os outros.

Eis-nos mergulhados num caldo de cultura que nada augura de bom.

 

Texto publicado no Aventar, por amável convite dos autores deste blogue, que acaba de celebrar o 10.º aniversário.

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Acabaram os "jobs for the boys"

por Pedro Correia, em 05.04.19

 

Agora o que está a dar são os "jobs for the family".

 

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Santo padroeiro da ignorância

por Pedro Correia, em 14.03.19

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É chocante a falta de memória nas redacções dos órgãos de informação. Que, assim amnésicos, não informam: só desinformam.

Ainda esta noite aconteceu. Morreu o actor Amadeu Caronho, que se tornou muito conhecido em várias produções televisivas, sobretudo na SIC, e de imediato a notícia do seu falecimento foi ilustrada com a fotografia de outro actor, Carlos Santos, que morreu em 2016.

Um jornal cometeu um erro, os outros foram atrás. Sem confirmarem, sem verificarem, sem ninguém se lembrar de perguntar a quem sabia. Percebe-se como é que aconteceu: invocaram São Google, que tantas vezes funciona como o padroeiro da ignorância, e este transmitiu-lhes a imagem errada. Ninguém ousou pôr isso em causa: a santidade não se questiona.

Deu asneira colectiva, claro. Inclusive na página digital da televisão em que o actor agora falecido mais colaborou, o que é talvez o aspecto mais lamentável.

Horas depois, há poucos minutos, várias edições em linha - no Observador e no Sol, por exemplo - continuavam a difundir a asneira.

Com uma chocante falta de respeito pelos mortos e seus familiares. E uma falta de respeito não menos chocante pelos leitores.

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Macro, micro

por Pedro Correia, em 13.03.19

As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. Alguém sopra uma coisa via telemóvel, o sopro salta para o twitter ou o facebook -- e é quanto basta para se assemelhar a ignição de fogo pronta a incendiar a pradaria mas que afinal se limita a chamuscar uns canteiros. Mal as chamas irrompem num determinado local, logo outro foco se propaga noutro sítio com o mesmo grau de aparente intensidade do anterior e com a mesma duração média, que raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso.

E assim sucessivamente. Tudo macro indignado. Até à micro indignação seguinte.

 

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Joana e os jornalistas

por Pedro Correia, em 31.01.19

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Que tenha sido uma psicóloga, num espaço televisivo de comentário político, a revelar ao País aquela que foi até agora a notícia mais importante do ano, divulgando a lista dos megadevedores da Caixa Geral de Depósitos, paga com o dinheiro de todos nós, é algo que devia envergonhar toda a classe jornalística. A começar por alguns directores de publicações, que continuam a ser pagos a peso de ouro por empresas tecnicamente falidas.

Nas últimas duas décadas, proliferaram como cogumelos os jornalistas especializados na "área económica". Deviam ter sido estes - ao menos um deles - a difundir aos portugueses a informação que Joana Amaral Dias divulgou, prestando assim um autêntico serviço público. Tal como deviam ter sido eles a alertar em devido tempo para os riscos sistémicos da governação Sócrates, em irresponsável conúbio com o Grupo Espírito Santo, instrumentalizando e depauperando grupos empresariais como a PT e a CGD.

A diferença, neste caso, é que Joana Amaral Dias nunca aceitou férias milionárias na neve, pagas por Ricardo Salgado, que assim - durante anos - foi comprando o silêncio de directores e editores de órgãos "de referência" na comunicação social. Será também ela a revelar-nos um dia a tal misteriosa lista de avençados do Grupo GES que nenhum "jornalista de investigação" até hoje conseguiu trazer a público?

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Inversão de valores

por Pedro Correia, em 22.01.19

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Numa recente edição de um mesmo jornal, que se vem especializando em fornecer aos leitores "conteúdos patrocinados" - ou seja, publicidade e propaganda em vez de jornalismo - podemos ler um rasgado elogio a um hotel português recentemente remodelado, situado no centro de uma capital de distrito. «Tivemos um grande cuidado na escolha dos colchões, roupa de cama e atoalhados», declara o administrador do hotel, citado no periódico. Enquanto se elogia o estabelecimento por ser «um espaço onde reina o sossego». Acrescentando-se: «Razão pela qual não aceita crianças com idade inferior a quatro anos, nem reservas de grupos.»

Vira-se a página, fugindo deste hotel alérgico a crianças, e o que encontramos? Outro artigo, dando um enorme destaque a esplanadas e restaurantes «onde os animais entram mesmo», como proclama o título. «Se gosta de levar o seu animal de estimação para todo o lado, esta lista é para si. Compilámos vários restaurantes 'pet-friendly' [sic], onde os animais entram mesmo e não são recambiados para as esplanadas.»

 

Estas quatro páginas - primeiro em desbragado elogio ao hotel que proíbe a entrada de crianças até quatro anos, depois em apologia não menos calorosa aos restaurantes que permitem a entrada de animais - são um perfeito retrato desta envelhecida Europa em que vivemos: bebés postos à distância e cachorrinhos acolhidos com beijos e abraços.

A narrativa corrente bestializa seres humanos (desde logo por impedirem o "sossego" alheio) e humaniza a bicharada, em versão ainda mais delicodoce do que os filmes de Walt Disney. Nesta visão, que se vai tornando dominante, um mundo perfeito seria aquele que não tivesse bebés (com o seu abominável cortejo de fraldas, sessões de choro e noites mal dormidas), entretanto substituídos por adoráveis mascotes de quatro patas com os seus irresistíveis e submissos latidos.

 

Contra a corrente, chamo a isto inversão de valores, sujeitando-me a que me chamem um impenitente reaccionário. Sinto-me, de facto, muito antigo ao defender que não existe equivalência entre seres humanos e animais nem estes são titulares de direitos na medida em que ninguém pode impor-lhes o correspondente catálogo de deveres. E sinto-me quase pré-histórico por recusar hospedar-me em hotéis que não são 'children-friendly', para usar esta expressão popularizada na modernaça escrita jornalística cá do burgo.

Até aprecio sossego. Mas esse não, obrigado.

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As palavras em vias de extinção

por Pedro Correia, em 16.01.19

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Temos a mania de mudar o que está certo. Penso nisto ao ver alteradas, em sucessivos lançamentos editoriais, antigas designações de obras-primas da ficção literária vertidas para o nosso idioma: O Monte dos Vendavais derivou primeiro para O Monte dos Ventos Uivantes e depois para O Alto dos Vendavais; a Cabra-Cega, de Roger Vailland, tornou-se Jogo Curioso (alguém estará convencido de que se adequa assim à semântica portuguesa o Drôle de Jeu original?); o Catcher in the Rye, de Salinger, passou a intitular-se À Espera no Centeio, abandonando-se Uma Agulha no Palheiro, feliz título concebido na anterior tradução, de João Palma-Ferreira.

Anda agora por aí uma recente versão de Três Homens num Bote, divertido romance de Jerome K. Jerome com este nome consagrado há décadas em português. O novo tradutor e o novo editor optaram por outro título: Três Homens num Barco. O que de algum modo confirma a intensa compressão vocabular que a língua portuguesa vai sofrendo, com a definitiva eliminação de milhares de palavras subitamente tornadas imprestáveis nesta era das mensagens instantâneas, quando até já há quem escreva “romances” por telemóvel. Se bote e barco são sinónimos, mas o segundo termo se reveste de um teor mais impreciso e sem o relance humorístico que num bote para três já se insinua, porquê rejeitar a designação já consagrada? Não custa adivinhar: a outra é de apreensão mais fácil.

Assim vamos comunicando de forma cada vez mais esquemática, prestando culto ao literalismo despido de ironia e despovoado de metáforas, com um naipe de palavras cada vez mais reduzido, o que produz reflexos óbvios no pensamento e na própria cidadania. Vocábulos rudimentares conduzem fatalmente a raciocínios esquemáticos, cada vez mais distantes da complexidade e da sofisticação que só um domínio alargado das variações semânticas induz. Daí à visão do mundo e da vida a branco e negro, numa dicotomia simplista que favorece os demagogos de todos os matizes, vai um curto passo.

«A redução de vocabulário nos últimos anos tem sido dramática. Não apenas do vocabulário culto que, não há muito tempo, faria parte do dia-a-dia numa família medianamente instruída. Mas daquele que transportava uma tradição ancestral», alerta-nos Mário de Carvalho no seu excelente manual de escrita intitulado Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, justamente galardoado em 2015 com o Prémio P.E.N. Clube para melhor ensaio. E o escritor concretiza, indo ao cerne da questão: «Se hoje muitos jovens não conseguem perceber um provérbio, isso acontece não somente porque o mundo rural desapareceu, mas porque se tem destruído a memória e ocultado a espessura da História. Uma das razões para ler é também a vontade de libertação, a expressão de um inconformismo que não aceita ficar encarcerado dentro dos limites do vocabulário básico.»

Já estivemos mais longe dos grunhidos monossilábicos como forma dominante de expressão oral. Não falta também por aí quem gostasse de os ver como matriz dominante da nossa escrita.

 

Texto escrito a convite do meu editor e amigo Manuel S. Fonseca, um dos melhores cronistas da imprensa portuguesa, para o seu novo blogue, A Página Negra.

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A minha semana em cinco palavras

por Pedro Correia, em 12.01.19

 

Vergonha.

Asco.

Lamento.

Repulsa.

Despudor.

 

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Sem certezas nem trincheiras

por Pedro Correia, em 17.10.18

Vivemos num mundo povoado de gente grávida de certezas inabaláveis. Ai dos discordantes, ai dos que duvidam, ai dos que se atrevem a exprimir opiniões moderadas, ai daqueles que não arriscam sentenças definitivas sobre qualquer assunto. São encarados, no mínimo, como cidadãos de segunda. E excomungados das trincheiras, supremo castigo nos tempos que correm.

Ninguém te perdoa se arriscas viver sem certezas nem trincheiras. Tratam-te como cidadão de segunda. Catalogam-te como instrumento insidioso do inimigo. Viram os polegares para baixo. Desamigam-te até.

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