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Delito de Opinião

A glamorização dos assassinos

Pedro Correia, 03.05.21

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Se há coisa que me repugna, entre os péssimos hábitos que começam a instalar-se na indústria mediática portuguesa, é a glamorização dos assassinos. 

Não há crime mais repugnante e hediondo sem que os protagonistas mereçam todos os holofotes jornalísticos, com ampla revelação dos seus nomes e rostos. Agora tornou-se moda picar fotografias nas redes sociais - e eis, portanto, as imagens de duas mulheres que assassinaram um homem, desmembraram o corpo e andaram a espalhar pedaços do cadáver por todo o Algarve difundidas com poses suaves e requintadas. Imitando actrizes de cinema, imortalizadas em jornais e televisões.

Mulheres, repito. Mas nas notícias recebem tratamento adocicado: chamam-lhes "jovens" enquanto repetem uma vez e outra os nomes, como se fosse gente íntima cá da casa. Algumas notícias emprestam até uma aura romântica à coisa, sublinhando que as criminosas andavam muito apaixonadas. Possuídas pelo fogo que arde sem se ver.

 

Um youtuber que "espanca namorada até à morte em directo por dinheiro" vê a sua foto estampada nos jornais, com nome associado. Foto de rede social, não da polícia: tem ares de artista em voga, não faltará quem o ache simpático. É "jovem" também, sublinham as notícias. Matar a namorada em directo talvez seja um inócuo pecadilho de juventude. E ela - sabe-se lá - pôs a jeito...

Um dia destes o assassino vai ao "confesso-me", num programa de telelixo qualquer, e obtém absolvição do respeitável público ali reunido. Também em directo. 

E siga o baile: este espectáculo alimenta-se de sessões contínuas.

O triunfo do ódio e da iliteracia

Pedro Correia, 14.04.21

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Na ânsia quase desesperada de amealhar cliques, que permitam a certos títulos continuar a subsistir no limiar da sobrevivência, a imprensa em linha continua a reproduzir injúrias e calúnias de todo o tipo. Ainda agora verifiquei isso, a propósito da morte súbita de Jorge Coelho.

Vocabulário obsceno, em diversos sentidos da expressão, foi não apenas admitido mas tolerado (se não mesmo incentivado) nas caixas de comentários dessas publicações. 

Insultos carregados de ódio pessoal ou ideológico que no DELITO DE OPINIÃO, por exemplo, vão de imediato parar ao ecoponto, ali são divulgados e ficam perpetuados na nuvem digital.

Interrogo-me se é esse o género de leitores que tais periódicos querem captar. Interrogo-me se para os responsáveis desses jornais valerá mesmo tudo para atrair e reproduzir tal lixo. Questiono-me ainda se as injúrias os visassem a eles teriam idêntica compreensão e tolerância.

E já nem me refiro apenas à linguagem caluniosa. Refiro-me também aos mais inconcebíveis erros de ortografia, que transformam a língua portuguesa numa abjecta caricatura de si própria: também ficam perpetuados, talvez para a eternidade, nessas caixas de comentários de jornais que volta e meia publicam sisudos editoriais em defesa da cultura - e desse "bem cultural" maior que é o nosso idioma, património comum de quase 300 milhões de pessoas

 

Não reproduzo aqui as injúrias, como é óbvio. Mas reproduzirei alguns dos mais primários e boçais erros ortográficos que li só numa dessas caixas de comentários de um desses jornais, supostamente de grande circulação. Para que se perceba melhor como estes títulos se demitem da sua função essencial - até reconhecida por lei - de preservação e valorização da língua portuguesa:

«Pás a sua alma...»

«... muito cordeal...»

«... acto de degnidade...»

«... falar nele nos mídea...»

«... intelectualemente honesta...»

«... desça em pás...»

«... estado portugues...»

«... sofreu 3 banca rotas económicas...»

«...quando se não vêm qualidades...»

«porque è cuando morre um pobre ninguem fala...»

 

O outro falava no triunfo dos porcos. Nós assistimos, impávidos, ao triunfo do ódio e ao triunfo da iliteracia. Todos os dias, a toda a hora, nos locais mais insuspeitos. Supostamente geridos por gente letrada que supostamente recebe ordens para acolher todo o lumpen e todo o lixo.

O direito ao nome do assassinado

Pedro Correia, 16.12.20

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Qualquer indivíduo alvo de violência policial num país como os EUA - e nem precisa de ser espancado e deixado esvair-se até à morte, em arrepiante sessão de tortura - é logo tratado nos media portugueses como alguém com nome e apelido, como se fosse figura do nosso convívio. Há até manifestações públicas, convocadas por redes sociais, enchendo ruas e praças em período de "confinamento", como no início de Junho sucedeu com o norte-americano George Floyd em várias cidades do País. O combate ao racismo sobrepôs-se ao combate ao coronavírus.

Dois meses antes desse crime cometido em Minneapolis, um ucraniano tinha sido violentamente agredido, torturado e enfim assassinado à pancada em Lisboa por presumíveis "servidores públicos", pagos com o dinheiro de todos nós, num departamento oficial supostamente regido por normas de legalidade, transparência, urbanidade e cidadania. No fundo, a tal "ética republicana" com que alguns enchem a boca.

Ao contrário do que ocorreu no continente americano, este crime - que terá contado com cumplicidades várias, numa teia muito mais abrangente do que a do reduto inicial de esbirros homicidas - não comoveu ninguém. Nenhuma manifestação foi convocada, apesar dos óbvios contornos xenófobos do assassínio, nenhuma organização trombeteou em exaltada defesa dos direitos humanos selvaticamente violentados por funcionários públicos. As notícias foram esparsas, acolhidas entre bocejos. Como se toda a indignação doméstica se esgotasse nos protestos por crimes policiais cometidos além-fronteiras.

 

Pior: a vítima não teve sequer direito ao nome. Casado, pai de dois filhos, trabalhador que procurava encontrar em Portugal o sustento que lhe era negado no país de origem, Ihor Homeniuk acabou alvo de novo crime, desta vez de carácter político, social e mediático: o crime da omissão.

Tratado como anónimo, nas semanas e nos meses que se seguiram ao seu brutal homicídio, pelos militantes da indignação selectiva.

Tratado com impiedosa indiferença pelos poderes públicos - designadamente pelo Governo, que só há cinco dias se lembrou de dirigir uma carta de condolências à viúva e de a indemnizar pela trasladação do cadáver há muito efectuada, e pelo Presidente da República, por uma vez recolhido ao silêncio precisamente numa situação em teria sido imperioso escutar uma palavra sua. Aqui Marcelo Rebelo de Sousa foi o último a falar, quando devia ter sido um dos primeiros.

 

Ihor Homeniuk não tem verbete na Wikipédia, não viu o rosto reproduzido em T-shirts, não leva ninguém a proclamar que "todas as vidas contam" - seja qual for a cor dos cabelos do agredido e violentado, seja qual for a pigmentação da sua pele. E raros são os que escrevem ou pronunciam o seu nome, ao contrário do que aqui fizeram o José Teixeira a 2 de Junho, expressando uma indignação que na altura tornaria redundantes outros textos de teor semelhante, ou o José Meireles Graça a 1 de Outubro, muito antes de os justiceiros de turno acordarem para o facto nas pantalhas cá da terra.

Ontem mesmo, na comissão parlamentar convocada para debater este crime na presença do ainda titular da pasta da Administração Interna, o nome de Ihor Homeniuk raras vezes foi pronunciado: vários deputados, quando muito, acederam em designá-lo por «cidadão ucraniano». E ficaram-se por aí.

 

Já me insurgi no DELITO contra a glória póstuma dos assassinos, que transforma qualquer celerado numa espécie de pop star em televisões e jornais. Já clamei contra os mecanismos comunicacionais, que em horas de barbárie surgem mais preocupados em desvendar o "rosto humano" dos homicidas do que em evocar as vítimas dos seus actos. Hoje venho reivindicar o mais elementar e singelo mandamento humano: o direito a sermos tratados pelo nosso nome, sem sermos reduzidos a uma etnia, uma profissão, uma nacionalidade, um emblema, uma afinidade tribal.

O  homem assassinado a 12 de Março nas instalações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras no Aeroporto Humberto Delgado (cruel ironia, tão repugnante crime ter ocorrido num local assim baptizado) chamava-se Ihor Homeniuk.

É pelo nome que esta malograda vítima do Estado português deve ser conhecida - e não de qualquer outra maneira.

E se Joe Biden usasse bigode?

Pedro Correia, 09.12.20

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Há 110 anos, o inquilino da Casa Branca era um republicano de grande corpulência e bigodes farfalhudos chamado William Howard Taft. A imagem dele, vista pelos olhos actuais, é totalmente anacrónica: Taft (na foto em baixo) foi o último presidente dos EUA a poupar nas lâminas de barbear.

Os 18 líderes norte-americanos que se seguiram, de Woodrow Wilson a Donald Trump, apresentaram-se aos eleitores de face escanhoada. Barba, pêra ou um prosaico bigode ficaram desde então arredados do número 1700 da avenida Pensilvânia, em Washington.

Com o atraso sempre habitual nestas coisas, os políticos europeus adoptaram a moda americana. Desde logo no Reino Unido, onde o rei Jorge V, falecido em 1936, foi o último monarca a usar barba, outrora um indispensável adereço da aristocracia britânica. Os filhos que lhe sucederam, Eduardo VIII e Jorge VI, disseram adeus aos pêlos faciais: patilhas, cavanhaques ou bigodes retorcidos tornaram-se símbolos de outros tempos, associados a vultos oitocentistas como Otto von Bismarck e Giuseppe Garibaldi.

 

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Apesar de tudo, o bigode resistiu mais tempo no Reino Unido. O último chefe do Governo a usá-lo foi Harold Macmillan, um conservador que abandonou o poder em 1963. Seis anos depois, os franceses viam partir do palácio do Eliseu o general Charles de Gaulle, último chefe do Estado gaulês militar, último chefe do Estado gaulês com bigode.

Mais finos ou mais exuberantes, os bigodes estiveram associados ao poder totalitário. Talvez isto explique o facto de todos os líderes políticos subsequentes a Hitler e Estaline, na Alemanha e na Rússia, terem optado pela lâmina de barbear. Foi logo assim com o primeiro chanceler alemão do pós-guerra, Konrad Adenauer (1949), e com o homem que em 1953 substituiu Estaline no Kremlin, Nikita Krutchov. E assim tem sido com todos os outros de então para cá, mais à esquerda ou mais à direita.

 

Hoje seria quase impensável um político obeso e de grandes bigodes, como Taft (1857-1930), vencer uma eleição presidencial ou legislativa. Embora esta seja a regra, há sempre uma excepção que a confirma: José María Aznar, um homem de baixa estatura e farfalhudo bigode, foi primeiro-ministro em Espanha entre 1996 e 2004. Isto apesar de a pilosidade infranasal estar associada à longa ditadura do país vizinho: Francisco Franco e outros destacados membros da sua ditadura ostentavam bigode.

Hoje as ditaduras estão fora de moda. E os bigodes também. Até na América Latina, onde outrora pontificavam tiranos como Trujillo, Stroessner, Videla e Pinochet (que usavam bigode). Ninguém gosta de ser associado a elas, ainda que de forma subliminar. Excepto os déspotas venezuelano e nicaraguense, Nicolás Maduro e Daniel Ortega, que de algum modo confirmam a regra. Ou, no continente europeu, o ditador da Bielorrússia, Aleksandr Lukachenko.

O próprio Aznar - que passou a viajar com frequência aos EUA - rendeu-se, dizendo adeus ao bigode. De Taft aos nossos dias foi uma longa caminhada.

 

Portugal: de D. Pedro a Santana Lopes

 

Em Portugal, o último chefe do Estado com bigodaça foi o marechal Óscar Carmona, falecido em 1951. Todos os dirigentes militares da ditadura instalada em 28 de Maio de 1926 – como Gomes da Costa, Mendes Cabeçadas e o próprio Carmona – ostentavam esse enfeite facial.

A moda vinha de trás: os últimos reis portugueses, de D. Pedro IV a D. Manuel II, usavam um bigode bem característico da dinastia de Bragança. E entre os sete presidentes da breve I República (1910-26), apenas o almirante João Canto e Castro, inquilino de Belém durante alguns meses, de 1918 a 1919, tinha a cara barbeada. Tal como viria a suceder com todos os presidentes e primeiros-ministros pós-25 de Abril.

António Guterres chegou a usar um típico bigode mexicano e Pedro Santana Lopes, nos seus verdes anos, gostava de aparecer de barba. Mas ambos se apresentaram de face escanhoada quando chegaram ao poder.

Em política, o que parece é.

Penso rápido (98)

Pedro Correia, 26.11.20

Demasiadas pessoas passam um ano sem ler um livro, seja de que género for. Há gente que se gaba até de nunca ter aberto um livro desde os bancos escolares. Há indivíduos que nunca folheiam sequer uma revista, excepto nas salas de espera dos consultórios médicos. Muitos eleitores presumem andar informados e esclarecidos passando ao lado de conteúdos certificados pela deontologia jornalística: preferem imaginar o que se passa espreitando tuítes da trincheira mais próxima, vídeos acéfalos na Rede ou o primeiro boato que lhes é remetido através de compinchas no WhatsApp. 

Alguém que jamais trocaria o cirurgião pelo curandeiro, o hotel pela pensão manhosa ou o produto de qualidade pela quinquilharia do chinês prefere "informar-se" recorrendo às versões digitais da intriguista do prédio, do bisbilhoteiro do bairro ou do tasqueiro fala-barato.

Quando se fala na degradação da cidadania, não podemos culpar só os políticos. Há que começar a apontar o dedo a quem anda desinformado e ainda se orgulha disso.

Como se os mortos infectassem

Pedro Correia, 02.11.20

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Dia de Finados. Escolhido hipocritamente pelos titulares do poder político como dia de luto nacional enquanto se proíbe a população de prestar tributo aos nossos mortos em grande parte do País. Vamos a caminho dos três mil falecidos só de Covid-19 - fora as outras doenças, entretanto remetidas à clandestinidade, sem cobertura mediática. Muitos dos funerais foram feitos à pressa, sem possibilidade de uma despedida digna, como se houvesse que varrer entulho. Tratando-se, em tantos casos, de pessoas que não tiveram sequer direito a um último aceno dos entes queridos.

Esta inaceitável exclusão prolonga-se hoje, com muitos cemitérios encerrados por decisão das autoridades municipais. Como se fosse impossível visitá-los por turnos, mantendo as distâncias sanitárias e tomando as precauções que conhecemos. Como se os mortos infectassem. Como se honrar a memória dos que partiram fosse um pecado. Como se existir não fosse aprender todos os dias a conviver com o abandono, sabendo que a morte não é só ausência: é também uma presença, por mais discreta que pareça.

Eis-nos, pois, num dia ainda mais triste entre tantos outros por que temos passado neste ano de pesadelo. Leio o que ontem escreveu António Barreto, na sua sábia coluna do Público, e só posso dar-lhe razão: temos «esta sensação temível de que as autoridades correm atrás dos acontecimentos e se limitam a prever o passado». Aturdidas, também elas. E aturdindo-nos a cada medida que vão tomando, de improviso em improviso, navegando à deriva rumo sabe-se lá a quê.

«Dê a pata, não seja mau»

Pedro Correia, 28.09.20

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Até há poucos anos, era padrão corrente o excesso de formalismo no modo como as pessoas se dirigiam umas às outras na televisão. Recordo uma entrevista conduzida por Judite Sousa na RTP em que a jornalista tratou cerca de trinta vezes o seu convidado por sôtor. Sem ninguém a ter advertido, antes ou depois, que duas vezes já é de mais.

De repente, passámos para o extremo oposto. Hoje quase toda a gente se trata por tu. Ontem à noite, uma dessas jovens certamente mal pagas mas com "bom visual" postas à frente da pantalha para apresentar alegados espaços informativos tratava por tu um convidado com idade para ser seu avô enquanto este resistia à tendência, tratando-a respeitosamente por você

São sinais dos tempos. Por óbvia importação da televisão americana, onde as formas de tratamento "igualitário" se tornaram de uso corrente, facilitadas pela inexistência de diferença entre tuvocê (you, em ambos os casos) no idioma inglês.

 

Acho muito bem que se desengravate a linguagem. Andámos demasiado tempo amarrados a pompas retóricas, em parte relacionadas com supostos graus académicos de que se usava e abusava nas formas de tratamento verbal. Hoje nem no Parlamento se emprega a antiga excelência, salvo para uso sarcástico. 

Mas há o risco de cair no exagero contrário. Reparem, uma vez mais, no que sucede nas televisões: quase todos os intervenientes num debate ou numa entrevista se tratam hoje pelo nome próprio. Como se fossem velhos conhecidos e estivessem a dialogar em ameno convívio nos sofás lá de casa. Também aqui por óbvio mimetismo dos EUA.

Já temos o "Presidente Marcelo", as bloquistas Catarina e Marisa, o comunista Jerónimo e até o cê-dê-esse Chicão. Nisto o partido fundado por Freitas do Amaral e Amaro da Costa tornou-se precursor: não tarda muito, teremos a proliferação dos diminutivos (embora Chicão pretenda ser aumentativo). Uma vez mais, seguindo o exemplo dos States, onde já houve um presidente chamado Jimmy e outro chamado Bill - que assinavam assim até em documentos oficiais. Não custa vaticinar que também por cá surgirão um Jaiminho ou um Gui na caça ao voto.

 

Enquanto isto sucede, inversamente, a forma de tratamento dos animais torna-se mais solene, grave e reverente. Verifico isso agora com frequência, quando caminho nas ruas do meu bairro. Não faltam damas e cavalheiros a tratar por você os cães que levam a passear, o que para mim constitui novidade absoluta. Nunca tinha ouvido nada semelhante, nem na Lisboa mais snobe.

«Sente-se aí, dê a pata, não seja mau, mostre como é bonito.» São exemplos de frases que vou escutando, reveladoras da fulgurante ascensão canídea na hierarquia urbana deste nosso século XXI. Por vezes atrevo-me pensar que anda tudo um bocado às avessas. Mas é capaz de ser defeito meu, por absoluta incapacidade de acompanhar a marcha imparável do progresso. 

Como qualquer de nós, vou-me adaptando. Há dias, pedi ao canário: «Canta para mim, Caruso.» Mas logo emendei: «Cante para mim.» E ele cantou.

A exclusão de eleitores doentes

Pedro Correia, 16.07.20

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A pandemia traz péssimas notícias para a democracia. Desde logo na participação eleitoral, como ficou patente em eleições muito recentes: a segunda volta das autárquicas em França e as regionais no País Basco registaram o menor índice de afluência às urnas de que há memória. No primeiro caso, a abstenção subiu aos 60% (o anterior máximo era de apenas 36%, ocorrido em 2014). No segundo caso, praticamente metade dos eleitores permaneceu em casa (um aumento de oito pontos percentuais). 

A baixa participação eleitoral favorece todos os extremismos e todos os populismos, que mobilizam com facilidade o voto de protesto, fazendo recuar em proporção os eleitores mais moderados, que são menos militantes.

 

Mas o mais preocupante é o precedente que acaba de ser inaugurado nas eleições espanholas - além do País Basco, também os galegos foram às urnas no passado domingo para escolherem os novos deputados do parlamento autonómico. Sem aparente respaldo constitucional, mas amparados por uma controversa decisão da junta eleitoral central, cerca de cinco centenas de eleitores recenseados nestas duas comunidades autónomas viram-se privados do direito de voto por estarem infectados com Covid-19.

O aviso que receberam foi categórico: se pretendessem votar seriam processados por delito de desobediência contra a saúde pública.

Como se não bastasse a estigmatização reputacional que estas pessoas já sofrem, ei-las agora também vítimas de estigmatização política. Com chancela oficial.

 

Esta restrição da capacidade eleitoral a pretexto da pandemia em curso é inaceitável por ferir o direito à igualdade, pedra basilar dos ordenamentos constitucionais democráticos. E pelo perigoso precedente que inaugura: em futuras eleições, qualquer pretexto sanitário pode ser invocado para retirar capacidade eleitoral aos cidadãos portadores de doença. Hoje são poucos, amanhã podem ser milhões.

Este, sim, é o "distanciamento social" que alguns idiotas apregoam por aí, confundindo-o com distanciamento físico. O adjectivo social congrega, não segrega. Quem não percebe isto dificilmente perceberá seja o que for.

Assim medra a novilíngua

Pedro Correia, 18.05.20

 

O novo normal que nos espera

Recuperação da economia: o "novo normal"

O novo normal nos hotéis e unidades de enoturismo

O novo normal em educação

A pandemia e o "novo normal" da distopia

 

Vivemos no reino dos eufemismos. Passamos o tempo a inventar expressões para não ferir susceptibilidades alheias. A cada passo que se dá, em cada calhau onde se tropeça, logo surge alguém aos berros, reivindicando reparação pública. 

De repente, a linguagem comum encheu-se de interditos. Patrulhas ideológicas fiscalizam a todo o momento o que dizemos, condicionando a comunicação verbal, lançando anátemas sobre inúmeros vocábulos de uso corrente e assumindo-se como poder fáctico, enquanto polícia do pensamento. 

Assim nasce e medra a novilíngua - cheia de contorcionismos semânticos, cada vez mais desligada da realidade. O mais recente é também o mais ridículo: "novo normal". Dois adjectivos que alguns pretendem elevar a substantivo. Para ocultar o significado, que é de teor oposto. 

A moda pegou - e eis que esta aberração lexical já vai sendo papagueada de boca em boca, até por jornalistas credenciados na condução de telediários. Numa espécie de mote destes tempos de linguagem fofinha e neutra, politicamente correcta: se a realidade perturba, logo se inventa um suave antónimo para a designar. 

O que em nada altera os factos, na sua evidência iniludível. Anormal. Bastam sete letras.

Havana? Caracas? Não: Lisboa

Pedro Correia, 13.03.20

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Parecia que passara por ali uma manada de bisontes. Ou que me via teletransportado para um "armazém do povo" em Cuba ou na Venezuela. Mas não: são imagens de um hipermercado num bairro residencial em Lisboa, captadas ontem, por volta das 11.30. A desenfreada corrida às grandes superfícies, como se estivéssemos na iminência de um bombardeamento aéreo, deixou neste estado as caixas e prateleiras do Continente em Alvalade. 

A população que adere com generosidade a iniciativas altruístas, como o Banco Alimentar Contra a Fome, é a mesma que vem revelando o mais desprezível comportamento, mal surgiram os primeiros temores e rumores relacionados com o coronavírus. Açambarcando o mais possível, comprando aquilo de que não necessita, acumulando víveres e produtos de higiene que ficarão esquecidos em armários e prateleiras lá de casa, usando a pandemia como pretexto para o consumismo mais obsceno e execrável.

Passei por lá e vi: os maiores estragos foram feitos nas zonas dos enlatados, cereais, bebidas, detergentes, iogurtes, rações para animais. Mas também nos frescos, sobretudo ao nível das frutas e legumes - bens perecíveis, não fazendo o menor sentido que sejam açambarcados.

Esta gente está mesmo a pedir a imposição de limites máximos de aquisição de bens por via administrativa. Ou, no limite, implora por senhas de racionamento - como aconteceu em Portugal, quando a Europa quase inteira estava mergulhada no pesadelo da II Guerra Mundial e os circuitos de abastecimento haviam sido torpedeados.

Mereciam viver em Havana. Ou em Caracas.

Urro racista agora é «cântico»

Pedro Correia, 17.02.20

É sempre assim: alguém desprovido de neurónios escreve um vocábulo sem lhe conhecer o significado e logo vai tudo atrás, reproduzindo o dislate. Quando o erro se torna norma, imprime-se o erro.

Eis mais um exemplo: o substantivo masculino cântico significa «ode religiosa cantada nas igrejas» em honra e louvor de uma divindade ou - fora do original contexto bíblico«poema ou hino» entoado com o propósito de louvar, adorar, algo ou alguém. Qualque banal dicionário o confirma.

Mas os imbecis adoram exibir ignorância. Daí confundirem sem sobressaltos de consciência cântico com qualquer ruído grupal zurrado em estádios de futebol. Como ainda ontem ocorreu durante o jogo V. Guimarães-FC Porto: a imitação de sons de chimpanzé, em declarada provocação racista a um jogador da equipa visitante, não tardou a ser elevada à condição de «cântico» por vários escribas de turno.

Incapazes de dominar o suposto idioma materno. Incapazes, portanto, de perceber que ao equipararem aqueles urros a odes poéticas ou hinos religiosos estão afinal a branquear o racismo.

Haverá ainda alguém lá nas redacções onde juntam palavras capaz de lhes explicar isto?

 

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Alguns exemplos:

RTP: Marega abandona jogo após cânticos racistas em Guimarães

TSF: Marega critica árbitros por cartão amarelo após cânticos racistas

Notícias ao Minuto: Marega abandona o relvado do Vitória SC por culpa de cânticos racistas

DN Madeira: Marega (ex-Marítimo) foi substituído por alegados cânticos racistas dos adeptos do Guimarães

Negócios: Marega critica árbitros por cartão amarelo após cânticos racistas

Esquerda: Marega, jogador do Porto abandonou o campo por ser vítima de cânticos racistas 

Diálogos gretados

Pedro Correia, 03.12.19

 

Ela - Gostaste de ver a Greta em Lisboa?

Ele - Não. Esta Greta não tem garbo.

Ela - Ela é determinada e fofinha. Gosto muito dela. Miúda voluntariosa e bem intencionada. Luta por uma causa que devia ser de todos.

Ele - Eu vejo-a como uma ignorante que se destaca por faltar à escola.

Ela - Incomoda e mobiliza os outros jovens para uma causa justa.

Ele - Apela aos miúdos para fazerem greve às aulas a pretexto da defesa do clima. Assim é fácil ser popularíssima. Qual o miúdo que não sonha ser liderado e manipulado por alguém assim?

Ela - A Greta não sabe o que é ser falso ou dissimulado ou manipulador. Ela é genuína, autêntica.

Ele - O problema nem é ela, mas os oportunistas que a manipulam para se tornarem "celebridades". Como estes velejadores ricaços que lhe deram boleia durante semanas no Atlântico e deliram por terem "milhões de seguidores" nas redes sociais. E os políticos que se vergam à miúda porque assim ficam bem vistos nos meios de comunicação.

Ela - O que ela diz e faz só pode incomodar negacionistas como tu e quem se sente posto em causa como cidadão por não fazer nada ou quem é de direita e imagina que os activistas pró-ambiente são todos de esquerda. Ela é um exemplo para os da geração dela, que vivem alheios a tudo e todos, sempre ligados ao telemóvel.

Ele - Os alarmistas como tu podem achar muito gracinha, mas o lugar de uma miúda como ela é na escola, na universidade. Tem de aprender, estudar, investigar. Aos 16 anos ninguém dá lições ao mundo.

Ela - A geração dela é que levará em cheio com as consequências das alterações climáticas. Portanto tem toda a legitimidade para se manifestar pois quem está no poder não faz nada. Ou não faz o suficiente. Que moralidade tem alguém para criticar a causa destes miúdos? Em última análise estão a lutar pela vida.

Ele - Quem lutou e luta pela vida não é a Greta: é a Malala, que arriscou tudo na defesa do direito das miúdas paquistanesas em frequentar as escolas quando eram perseguidas ou até mortas por quererem instruir-se. Ela levou em 2015 o Governo a aprovar a primeira lei que reconhecia o direito universal à educação lá no país. Foi gravemente ferida, esteve quase à morte, mas não desistiu. Enquanto a Malala defende as meninas nas aulas, a Greta quer tirá-las de lá. Se admiro uma, não posso admirar a outra.

Ela - Que argumento mais manipulador e demagógico! Assim não dá para manter uma discussão com pés e cabeça.

Ele - Deixemos então de discutir. Queres vir ao cinema comigo? Apetecia-me ver O Irlandês.

Ela - Não está no cinema, só dá para ver na Netflix. Vai ser o meu programa para esta noite, mas sem ti. Passa bem.

No mundo das novas censuras

Pedro Correia, 14.11.19

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1. Censura de imagem. Fotografias de um vulgar e suculento cozido galego - muito semelhante ao nosso, mas com grão - foram banidas do Instagram, por decisão de um anónimo comité censório dessa rede social. Alegação: aquelas imagens de enchidos mesclados com vegetais «infringem as normas comunitárias» pois contêm suposta «violência gráfica e linguagem [visual] que estimula o assédio ou nudez e actividade sexual». Um galego de Vigo, que publicou estas imagens em homenagem ao «primeiro cozido da temporada» em casa da mãe, senhora de aparentes virtudes culinárias, não esconde a perplexidade, alegando ter-se limitado a fotografar os alimentos tal como estavam na travessa. Presume-se que a «violência gráfica» do chouriço e do repolho tenha ferido sensibilidades de alguns devotos das religiões vegetariana e vegana.

 

2. Censura de linguagem. A Air Canada anunciou que deixará de dirigir-se aos passageiros recorrendo ao anacrónico tratamento «senhoras e senhores»: evita assim ferir putativas susceptibilidades de género, designadamente das pessoas de sexualidade «não especificada». Passarão a ser designados, uns e outros, por «toda a gente» em obediência ao novo cânone da absoluta neutralidade de género. Falta saber por quanto tempo, pois esta expressão antropocêntrica promete por sua vez ferir as susceptibilidades de alguns animais.

Gostava de ter escrito isto

Pedro Correia, 03.11.19

«Peter Handke ganhou com mérito o Nobel, apesar das suas loas a Milosevic e à turva causa sérvia. Mas, claro, a extravagante exaltação dos genocidas não tem sido esporádica entre os escritores contemporâneos: é quase uma doença profissional, tal como a silicose entre os mineiros. No entanto, se Handke houvesse sido acusado de ter tocado há trinta anos no traseiro da sua secretária sem autorização prévia, ficaria sem o Nobel.»

 

Fernando Savater, no El País (2 de Novembro)

Gostava de ter escrito isto

Pedro Correia, 02.11.19

«Aqueles que hoje, em Portugal e no mundo, lutam para culpar os homens, os brancos, os adultos, os ocidentais, os cristãos, os ricos, os heterossexuais, os democratas, os capitalistas e os militares estão evidentemente a tentar criar uma ortodoxia, uma cultura dominante e, sobretudo, a construir um "credo" que permite condenar e proibir, assim como limitar a liberdade de expressão.»

«Por que diabo hei-de perdir perdão aos escravos, aos índios, aos indianos, aos egípcios, aos judeus e aos mouros? É que, se as culpas não foram minhas, são objectivas e históricas.»

 

António Barreto, no Público (27 de Outubro)

Há vida para além das notícias

Pedro Correia, 29.10.19

Todos os dias, ao ligar o computador, recebo um "agregador de notícias" que pretende resumir-me o que de mais importante aconteceu nas horas precedentes à escala global.

Vale o que vale como fonte noticiosa: nada. Mas justifica atenção enquanto reflexo do ar do tempo. Como sintoma da espuma de irrelevância que invade o nosso quotidiano.

Esta manhã, foi este o flash noticioso que me chegou: «As saias do assessor de Joacine continuam a dar que falar, a fotografia do cão que Trump publicou e outras notícias.»

Só o anedótico, o irrisório e o descartável parecem importar na ditadura do algoritmo que condiciona os critérios editoriais. E, no entanto, a vida real continua a pulsar, indiferente aos mecanismos mediáticos que a ignoram.

Anda tudo doido (2)

Pedro Correia, 25.09.19

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«Alguém devia ter caluniado Josef K. porque uma manhã foi detido sem ter feito mal algum.»

Kafka, O Processo

 

Bernardo Silva e Benjamin Mendy são dois grandes jogadores - o primeiro é médio-ala, o segundo é lateral esquerdo. Têm ambos 25 anos. Actuam juntos num dos principais clubes europeus, o Manchester City. Antes haviam sido colegas de equipa no Mónaco.

São não apenas colegas, mas grandes amigos. Como é público e notório.

Acontece que Bernardo, magnífico internacional português de futebol, tem "pele branca" - como se convencionou chamar nestas circunstâncias, com manifesta falta de exactidão - e o francês Mendy tem um tom de pele mais escuro (espero que, escrevendo desta forma, não me caia em cima a fúria justiceira das patrulhas politicamente correctas).

Como é natural entre dois amigos, jovens e bem-humorados, trocam volta e meia umas graçolas nas redes ditas sociais. Acontece que o Bernardo, no Twitter, se lembrou de associar o colega à Conguitos, uma marca de chocolates. O outro respondeu-lhe com aqueles bonequinhos que substituem palavras: três a sorrir, outro a bater palmas - e ainda esta frase, na mesma onda bem-disposta: «1-0 para ti, mas espera.»

 

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Só isto. Mas foi quanto bastou para o jogador português começar a ser inundado de duríssimas críticas nos comentários digitais pelo suposto carácter racista do que havia publicado. Ao ponto de ver-se forçado a apagar tudo. Mas, mesmo assim, sujeita-se a uma investigação do caso pela federação inglesa de futebol, já desencadeada sob pressão de uma organização denominada Kick It Out, que exige a adopção imediata de medidas punitivas. «Os estereótipos racistas nunca são aceitáveis como brincadeira», proclamam estes furibundos diáconos Remédios, assumindo a participação contra o «comportamento ofensivo» de Bernardo Silva junto dos órgãos federativos ingleses.

Passo a passo, dia após dia, vemos cada vez mais condicionada a liberdade de expressão. Com a nova Polícia do Pensamento, acometida de ira castradora, a vigiar as comunicações digitais entre dois companheiros e amigos. De guilhotina já montada e sentença condenatória pronta a exibir, invertendo a presunção da inocência e negando o direito ao contraditório. A presunção é sempre de culpa - sobretudo se o prevaricador for homem, ocidental e de pele "branca". E a gama de temas interditos vai-se ampliando, num afã de guardiães da fé, até aos confins do impensável. Como em tempos ancestrais, a desobediência ao dogma é hoje pior que um crime: é um pecado.

Apetece escrever, parafraseando Álvaro de Campos: come chocolates, Bernardo, come chocolates. Mas nada de Conguitos: só chocolatinho branco. Enquanto a brigada dos bons costumes permitir.