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Um assunto de porteiras

por Pedro Correia, em 16.07.19

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A reprodução descarada e obsessiva da lógica das redes sociais pelos órgãos de informação está a contribuir para o descrédito acentuado do jornalismo que vai restando.

Há dezenas de jornalistas, em quase todas as redacções, que nada mais fazem durante dias inteiros senão escrutinar o que se cochicha e bichana nas redes, acabando por dissociar-se por completo do mundo concreto e do país real. Nas suas prédicas em papel ou no digital, recorrem aos temas e à semântica que pupulam nessas «vias alternativas à informação», como há já quem lhes chame no meio jornalístico, disparando assim contra o próprio pé.

 

Reparem no que acontece naquilo a que ainda é costume chamar «canais de notícias» na televisão. Num curioso fenómeno de mimetismo, generalizou-se o modelo CMTV, absorvido inicialmente pela TVI 24 e agora já vampirizado também pela SIC Notícias: fecham três ou quatro mecos num estúdio durante horas a discutir coisa nenhuma sobre a bola que agora nem rola nos relvados e assim supõem cumprir a missão jornalística.

Mas não cumprem: essas tertúlias de bitaiteiros são meras correntes transmissoras de boatos e rumores. Basta comparar as imagens que reproduzo acima: foram propaladas com escassas horas de intervalo no mesmo canal - a primeira às 18.17, a segunda às 22.32. Sujeitas a esta lógica editorial mais que duvidosa: primeiro imprime-se a lenda, depois (se não chover) imprime-se o facto. Assim duplica-se a audiência (o que não parece ser o caso, longe disso, no canal em causa, a avaliar pelos mais recentes números tornados públicos).

 

Isto já se pratica hoje sem sofisticação nenhuma, como é patente no exemplo que deixo aqui em baixo. Talvez farto de publicar notícias, essa coisa anacrónica e maçadora, um jornal de difusão nacional acaba de instituir uma secção intitulada "Negócios e Rumores". Como se fosse um assunto de porteiras em vez de jornalistas, sem desprimor para as porteiras.

Assim ao menos não ilude ninguém: o leitor, à partida, já sabe que irá mesmo ser enganado. 

 

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A morte do jornalismo

por Pedro Correia, em 29.06.19

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Um dos mais conceituados jornais à escala global, o espanhol El País, saiu hoje para as bancas com esta "capa": um anúncio de página inteira. Mas não é um anúncio qualquer: trata-se de um investimento publicitário com a chancela do milionário grupo empresarial chinês Huawei, em óbvia estratégia de contenção de danos no âmbito da guerra fria que se desenrola entre Pequim e Washington na disputa da hegemonia do mercado mundial das telecomunicações.

«Nenhum computador deixou de funcionar em 2000. Nenhum Huawei vai deixar de funcionar. Calma, todos os produtos Huawei poderão continuar a ser usados com total normalidade. Tanto os já vendidos como os que estão por vender. E também todas as suas aplicações.» Assim reza o texto que substitui a habitual manchete do jornal de maior tiragem em Espanha.

Vejo isto e recordo outros tempos, com directores de jornais onde trabalhei, que faziam prevalecer a sua autoridade perante os publicitários que pretendiam condicionar a linha editorial desses periódicos. Havia espaços interditos aos anúncios - e a venda da primeira página era um deles - e nem todos eram publicados: aqueles que colidiam com o estatuto editorial ou os grandes princípios orientadores desses títulos jornalísticos, colocando eventualmente em risco a isenção na cobertura dos temas mais controversos, eram devolvidos à procedência. E havia uma claríssima linha divisória entre o que era conteúdo jornalístico e conteúdo publicitário.

Tudo isso acabou. Inclusive nos diários ou semanários que conservam um número apreciável de leitores e algum prestígio granjeado em dias de glória ainda capazes de despertar recordações nostálgicas. Mas o que esta primeira página simboliza, com toda a sua força expressiva, é a morte do jornalismo tal como o conhecemos no Ocidente nestes últimos dois séculos. O que resta é a publi-reportagem, a estória "fofinha", o evento "giro", a narrativa feel good muito amiga dos anunciantes. Informar passou de moda: o que está a dar é entreter. Com a chancela - implícita ou explícita - de marcas, empresas, clubes ou seitas. Os departamentos de publicidade, marketing e relações públicas são hoje os que têm maior capacidade efectiva de decisão editorial na generalidade dos títulos jornalísticos. Incluindo os mais prestigiados, como se vê.

A partir de agora, aguardarei por notícias no El País que possam colidir com os desígnios comerciais da Huawei. Mas confesso desde já que vou esperar sentado. 

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O regime

por Pedro Correia, em 31.05.19

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Imagem do blogue Tu Vais Vencer

 

Por vezes basta uma foto para nos explicar quase tudo. Esta, por exemplo. Que nos mostra três habitantes do reino da impunidade. 

Uma imagem que ajuda a esclarecer, com mais eficácia do que mil discursos, como é letal o vírus que vai corroendo a nossa democracia.

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Isto cheira cada vez pior

por Pedro Correia, em 30.05.19

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Esta minuciosa investigação do Luís Rosa e da Sara Antunes de Oliveira é um retrato perturbador mas fidedigno do país político e da tentacular administração pública portuguesa em descarado concubinato com redes de esquemas e negociatas. Tudo temperado com o nepotismo agora tão em voga, apesar dos platónicos alertas do Presidente da República. 

Em suma: um país em falência moral. Depois admirem-se que tantos portugueses virem costas às urnas e tanta gente esteja pronta a ovacionar o primeiro populista que irrompa ao virar da esquina. E desta vez nem precisa de vir montado num cavalo branco, como o Sidónio há cem anos: basta aparecer de vassoura em riste.

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 27.04.19

A propósito de um vulgar carioca de limão (agora, pelos vistos, nada vulgar), pode nascer um boa crónica jornalística. Esta, de Marta Reis no jornal i, intitulada precisamente "Era um carioca de limão". Que nos conta uma história e nos apresenta ao mesmo tempo um quadro impressivo da realidade lisboeta. De um quotidiano onde uns hábitos se ganham e outros se perdem, onde umas tradições vão morrendo e um consumismo de importação vai ganhando raízes.

Isto numa linguagem acessível e escorreita, em que todas as palavras estão no seu lugar e em que nada fica por entender. Algo cada vez mais raro nos dias que correm. Pode parecer simples? Pode. Mas não é.

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A futebolização do País

por Pedro Correia, em 11.04.19

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Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País. As pantalhas dedicam horas sem fim à conversa de taberna sobre bola transposta para os estúdios televisivos. Os partidos manipulam militantes, tratando-os como membros de claques de futebol. Os debates políticos estão cheios de metáforas associadas ao chamado desporto-rei. E a linguagem mediática imita o pior dos jargões ouvidos nos estádios, anunciando divergências ao som de clarins de guerra.

Há dois aspectos a ter em conta neste fenómeno: um é o factor de identidade tribal potenciado pelos clubes desportivos. Em regra este é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal e quando faltam outros, mais tradicionais, o desporto - ou, no caso português, apenas o futebol - potencia-o como forma de preencher algum vazio deixado pelos restantes (família, igrejas, sindicatos, partidos, academias, etc.)

Outro - muito diferente e claramente negativo - é o da diabolização do antagonista. Este é um fenómeno com ramificações muito diferentes, e algumas bem recentes, influenciadas pela linguagem dicotómica das redes sociais, que tendem a ver tudo a preto e branco, numa réplica do imaginário infantil (cowboys & índios; polícias & ladrões, etc) transfigurado para a idade adulta.

O eco que os meios de informação tradicionais fazem do que se publica na Rede, amplificando tudo de forma acrítica e seguidista, produz cada vez mais estragos.

A crise financeira dos media conduziu nos últimos anos a drásticas alterações de âmbito editorial. A deontologia jornalística manda auscultar todas as partes com interesses atendíveis numa determinada história, obrigando também o jornalista a não eleger uma "verdade" sem pelo menos registar a soma das "verdades" em disputa. Acontece que a urgência de conseguir leitores e audiências tem levado muitos jornais e televisões a "queimar etapas" e a elevar o tom do relato noticioso. Os adversários tornaram-se inimigos, os desafios transformaram-se em batalhas, os saudáveis confrontos derivaram para devastadoras guerras.

Somar a febre do futebol à necessidade imperiosa de estancar quebras de tiragens dos jornais e fugas dos telespectadores para canais temáticos alternativos dá nisto: visões extremadas onde a emoção substitui o raciocínio, toda a moderação é considerada imprestável e o "vencedor" proclamado dos debates é invariavelmente o que berra mais que os outros.

Eis-nos mergulhados num caldo de cultura que nada augura de bom.

 

Texto publicado no Aventar, por amável convite dos autores deste blogue, que acaba de celebrar o 10.º aniversário.

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Acabaram os "jobs for the boys"

por Pedro Correia, em 05.04.19

 

Agora o que está a dar são os "jobs for the family".

 

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Santo padroeiro da ignorância

por Pedro Correia, em 14.03.19

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É chocante a falta de memória nas redacções dos órgãos de informação. Que, assim amnésicos, não informam: só desinformam.

Ainda esta noite aconteceu. Morreu o actor Amadeu Caronho, que se tornou muito conhecido em várias produções televisivas, sobretudo na SIC, e de imediato a notícia do seu falecimento foi ilustrada com a fotografia de outro actor, Carlos Santos, que morreu em 2016.

Um jornal cometeu um erro, os outros foram atrás. Sem confirmarem, sem verificarem, sem ninguém se lembrar de perguntar a quem sabia. Percebe-se como é que aconteceu: invocaram São Google, que tantas vezes funciona como o padroeiro da ignorância, e este transmitiu-lhes a imagem errada. Ninguém ousou pôr isso em causa: a santidade não se questiona.

Deu asneira colectiva, claro. Inclusive na página digital da televisão em que o actor agora falecido mais colaborou, o que é talvez o aspecto mais lamentável.

Horas depois, há poucos minutos, várias edições em linha - no Observador e no Sol, por exemplo - continuavam a difundir a asneira.

Com uma chocante falta de respeito pelos mortos e seus familiares. E uma falta de respeito não menos chocante pelos leitores.

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Macro, micro

por Pedro Correia, em 13.03.19

As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. Alguém sopra uma coisa via telemóvel, o sopro salta para o twitter ou o facebook -- e é quanto basta para se assemelhar a ignição de fogo pronta a incendiar a pradaria mas que afinal se limita a chamuscar uns canteiros. Mal as chamas irrompem num determinado local, logo outro foco se propaga noutro sítio com o mesmo grau de aparente intensidade do anterior e com a mesma duração média, que raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso.

E assim sucessivamente. Tudo macro indignado. Até à micro indignação seguinte.

 

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Joana e os jornalistas

por Pedro Correia, em 31.01.19

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Que tenha sido uma psicóloga, num espaço televisivo de comentário político, a revelar ao País aquela que foi até agora a notícia mais importante do ano, divulgando a lista dos megadevedores da Caixa Geral de Depósitos, paga com o dinheiro de todos nós, é algo que devia envergonhar toda a classe jornalística. A começar por alguns directores de publicações, que continuam a ser pagos a peso de ouro por empresas tecnicamente falidas.

Nas últimas duas décadas, proliferaram como cogumelos os jornalistas especializados na "área económica". Deviam ter sido estes - ao menos um deles - a difundir aos portugueses a informação que Joana Amaral Dias divulgou, prestando assim um autêntico serviço público. Tal como deviam ter sido eles a alertar em devido tempo para os riscos sistémicos da governação Sócrates, em irresponsável conúbio com o Grupo Espírito Santo, instrumentalizando e depauperando grupos empresariais como a PT e a CGD.

A diferença, neste caso, é que Joana Amaral Dias nunca aceitou férias milionárias na neve, pagas por Ricardo Salgado, que assim - durante anos - foi comprando o silêncio de directores e editores de órgãos "de referência" na comunicação social. Será também ela a revelar-nos um dia a tal misteriosa lista de avençados do Grupo GES que nenhum "jornalista de investigação" até hoje conseguiu trazer a público?

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Inversão de valores

por Pedro Correia, em 22.01.19

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Numa recente edição de um mesmo jornal, que se vem especializando em fornecer aos leitores "conteúdos patrocinados" - ou seja, publicidade e propaganda em vez de jornalismo - podemos ler um rasgado elogio a um hotel português recentemente remodelado, situado no centro de uma capital de distrito. «Tivemos um grande cuidado na escolha dos colchões, roupa de cama e atoalhados», declara o administrador do hotel, citado no periódico. Enquanto se elogia o estabelecimento por ser «um espaço onde reina o sossego». Acrescentando-se: «Razão pela qual não aceita crianças com idade inferior a quatro anos, nem reservas de grupos.»

Vira-se a página, fugindo deste hotel alérgico a crianças, e o que encontramos? Outro artigo, dando um enorme destaque a esplanadas e restaurantes «onde os animais entram mesmo», como proclama o título. «Se gosta de levar o seu animal de estimação para todo o lado, esta lista é para si. Compilámos vários restaurantes 'pet-friendly' [sic], onde os animais entram mesmo e não são recambiados para as esplanadas.»

 

Estas quatro páginas - primeiro em desbragado elogio ao hotel que proíbe a entrada de crianças até quatro anos, depois em apologia não menos calorosa aos restaurantes que permitem a entrada de animais - são um perfeito retrato desta envelhecida Europa em que vivemos: bebés postos à distância e cachorrinhos acolhidos com beijos e abraços.

A narrativa corrente bestializa seres humanos (desde logo por impedirem o "sossego" alheio) e humaniza a bicharada, em versão ainda mais delicodoce do que os filmes de Walt Disney. Nesta visão, que se vai tornando dominante, um mundo perfeito seria aquele que não tivesse bebés (com o seu abominável cortejo de fraldas, sessões de choro e noites mal dormidas), entretanto substituídos por adoráveis mascotes de quatro patas com os seus irresistíveis e submissos latidos.

 

Contra a corrente, chamo a isto inversão de valores, sujeitando-me a que me chamem um impenitente reaccionário. Sinto-me, de facto, muito antigo ao defender que não existe equivalência entre seres humanos e animais nem estes são titulares de direitos na medida em que ninguém pode impor-lhes o correspondente catálogo de deveres. E sinto-me quase pré-histórico por recusar hospedar-me em hotéis que não são 'children-friendly', para usar esta expressão popularizada na modernaça escrita jornalística cá do burgo.

Até aprecio sossego. Mas esse não, obrigado.

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As palavras em vias de extinção

por Pedro Correia, em 16.01.19

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Temos a mania de mudar o que está certo. Penso nisto ao ver alteradas, em sucessivos lançamentos editoriais, antigas designações de obras-primas da ficção literária vertidas para o nosso idioma: O Monte dos Vendavais derivou primeiro para O Monte dos Ventos Uivantes e depois para O Alto dos Vendavais; a Cabra-Cega, de Roger Vailland, tornou-se Jogo Curioso (alguém estará convencido de que se adequa assim à semântica portuguesa o Drôle de Jeu original?); o Catcher in the Rye, de Salinger, passou a intitular-se À Espera no Centeio, abandonando-se Uma Agulha no Palheiro, feliz título concebido na anterior tradução, de João Palma-Ferreira.

Anda agora por aí uma recente versão de Três Homens num Bote, divertido romance de Jerome K. Jerome com este nome consagrado há décadas em português. O novo tradutor e o novo editor optaram por outro título: Três Homens num Barco. O que de algum modo confirma a intensa compressão vocabular que a língua portuguesa vai sofrendo, com a definitiva eliminação de milhares de palavras subitamente tornadas imprestáveis nesta era das mensagens instantâneas, quando até já há quem escreva “romances” por telemóvel. Se bote e barco são sinónimos, mas o segundo termo se reveste de um teor mais impreciso e sem o relance humorístico que num bote para três já se insinua, porquê rejeitar a designação já consagrada? Não custa adivinhar: a outra é de apreensão mais fácil.

Assim vamos comunicando de forma cada vez mais esquemática, prestando culto ao literalismo despido de ironia e despovoado de metáforas, com um naipe de palavras cada vez mais reduzido, o que produz reflexos óbvios no pensamento e na própria cidadania. Vocábulos rudimentares conduzem fatalmente a raciocínios esquemáticos, cada vez mais distantes da complexidade e da sofisticação que só um domínio alargado das variações semânticas induz. Daí à visão do mundo e da vida a branco e negro, numa dicotomia simplista que favorece os demagogos de todos os matizes, vai um curto passo.

«A redução de vocabulário nos últimos anos tem sido dramática. Não apenas do vocabulário culto que, não há muito tempo, faria parte do dia-a-dia numa família medianamente instruída. Mas daquele que transportava uma tradição ancestral», alerta-nos Mário de Carvalho no seu excelente manual de escrita intitulado Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, justamente galardoado em 2015 com o Prémio P.E.N. Clube para melhor ensaio. E o escritor concretiza, indo ao cerne da questão: «Se hoje muitos jovens não conseguem perceber um provérbio, isso acontece não somente porque o mundo rural desapareceu, mas porque se tem destruído a memória e ocultado a espessura da História. Uma das razões para ler é também a vontade de libertação, a expressão de um inconformismo que não aceita ficar encarcerado dentro dos limites do vocabulário básico.»

Já estivemos mais longe dos grunhidos monossilábicos como forma dominante de expressão oral. Não falta também por aí quem gostasse de os ver como matriz dominante da nossa escrita.

 

Texto escrito a convite do meu editor e amigo Manuel S. Fonseca, um dos melhores cronistas da imprensa portuguesa, para o seu novo blogue, A Página Negra.

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A minha semana em cinco palavras

por Pedro Correia, em 12.01.19

 

Vergonha.

Asco.

Lamento.

Repulsa.

Despudor.

 

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Sem certezas nem trincheiras

por Pedro Correia, em 17.10.18

Vivemos num mundo povoado de gente grávida de certezas inabaláveis. Ai dos discordantes, ai dos que duvidam, ai dos que se atrevem a exprimir opiniões moderadas, ai daqueles que não arriscam sentenças definitivas sobre qualquer assunto. São encarados, no mínimo, como cidadãos de segunda. E excomungados das trincheiras, supremo castigo nos tempos que correm.

Ninguém te perdoa se arriscas viver sem certezas nem trincheiras. Tratam-te como cidadão de segunda. Catalogam-te como instrumento insidioso do inimigo. Viram os polegares para baixo. Desamigam-te até.

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Os bolsonaros de cá

por Pedro Correia, em 12.10.18

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Ontem os órgãos de informação portugueses - incluindo todos os canais de televisão - tiveram o seu enésimo momento Bruno de Carvalho. Preenchendo, uma vez mais, manchetes e tempo de antena com uma não-notícia, logo desdobrada em infindáveis horas de comentários em estúdio, serão adiante, sempre a propósito de coisa nenhuma.

Foi assim: o antigo presidente do Sporting anunciou que iria comparecer voluntariamente no campus da Justiça, em Lisboa, para proferir declarações perante os órgãos de investigação criminal num processo para o qual não havia sido convocado, nem como arguido nem como testemunha. De imediato uma chusma de jovens jornalista, obedecendo certamente à pressão de editores em pânico por perderem o "exclusivo", se precipitou para o local, de telemóveis e câmaras em riste, para registar o depoimento da desvairada personagem. Que nada tinha a dizer excepto que estava à disposição da justiça, como compete a qualquer cidadão, blablablá patati patatá. Falou na rua, claro, pois dentro das instalações do Ministério Público, para as quais não havia sido chamada, ninguém teve tempo nem pachorra para lhe prestar atenção.

Repito: esta não-notícia mereceu parangonas, ultrapassando tudo o resto na hierarquia informativa da tarde de ontem - e prolongou-se, na requentada forma de "debate em estúdio", noite adiante.

«Bruno de Carvalho foi ao DCIAP, passou para o DIAP mas não vai ser (para já) ouvido no caso da Academia», apressou-se a titular o Observador. «Soube que seria emitido um mandato (sic) em seu nome, na sexta-feira - portanto, decidira antecipar-se e apresentar-se perante os procuradores», pormenorizou o Expresso. «Bruno de Carvalho não foi ouvido», esclareceu a TSF. Tudo isto debitado hora a hora, minuto a minuto, nas sofisticadas plataformas tecnológicas de que dispomos, moderníssimos meios de propagar vacuidades à moda antiga.

 

«Ex-presidente do Sporting foi bater à porta errada», rezava o jornal i, informando que esta foi a sua "notícia" mais lida do dia. Sem surpresa, o Correio da Manhã não descolava da figura em causa: «Actriz revela que Bruno de Carvalho lhe liga "quando precisa"», assim se intitula a mais lida deste matutino. Com previsivel sofisticação, fazendo a diferença, o Expresso em linha revela-nos que a sua notícia mais lida tem este título: «A meio da viagem o bebé começa a chorar. Alguém pede para calar o bebé. Não se calou. Atiraram-no borda fora.»

Estes e outros meios de comunicação estão cheios de sisudos comentadores que nos alertam o tempo todo contra os riscos da vaga populista em curso. Sem perceberem que, do Brasil às Filipinas, de Itália ao Reino Unido, eles próprios fazem parte do problema. Porque difundem boatos em vez de notícias, porque abusam do sensacionalismo mais rasteiro, porque andam a reboque do alarido das redes sociais.

Sim, cá também existem bolsonaros. Por enquanto, apenas no jornalismo - alguns, curiosamente, disfarçados de anti-Bolsonaro. Enquanto recitam a ladainha contra o "populismo", fazem tudo para fabricar o líder ultrademagogo, desbragado e radical que está para desembarcar na política. Potenciais candidatos não faltam. Basta perceber quem são aqueles a quem os repórteres de turno mais estendem o microfone.

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Complicar o que é simples

por Pedro Correia, em 28.09.18

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Compro uma embalagem de lombos de atum em conserva. Bom atum, açoriano, da ilha de São Jorge.

Reparo no rótulo da embalagem: é um modelo de correcção política. Além dos elementos básicos, relativos aos ingredientes e ao prazo de validade, sou municiado com um estendal de "informação nutricional".

Energia.

Lípidos.

Lípidos saturados.

Açúcares.

Hidratos de carbono.

Fibras alimentares.

Proteínas.

Sem esquecer o sal. 

Mas não fica por aqui. Garante-me a pequena embalagem de atum Santa Catarina que o atum foi capturado com recurso a "pesca salto e vara": não percebo o português, mas devem querer dizer que o bicho não sofreu no momento da captura. Asseguram-me que o atum é "laborado manualmente": continuo sem entender o português, mas parece algo destinado a apaziguar por antecipação a minha suposta ira contra a morte de seres vivos destinados à alimentação humana, como se eu fosse um feroz militante animalista. 

O espaço é curto, mas os dados informativos estão longe de esgotar-se. "Pescamos artesanalmente à cana" e "protegemos os golfinhos", proclama ainda a simpática indústria conserveira de São Jorge.

 

Tudo numa simples lata.

Enquanto cozinho sem peso na consciência o meu prosaico esparguete de atum com molho de tomate e cogumelos, vou pensando que, de ansiedade em ansiedade, passamos hoje o tempo a complicar o que é simples. Depois não nos sobram horas, por vezes sequer minutos, para as coisas verdadeiramente importantes. 

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A incompetente mediocridade

por Pedro Correia, em 31.08.18

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Tanto se fala hoje em dia no crescente desinteresse que suscita a leitura dos jornais. Os teóricos do costume adiantam as mais diversas teses para o fenómeno - sociais, económicas e até "civilizacionais".

Eu proponho uma tese menos bombástica mas talvez mais colada à realidade. E muito mais benévola para a capacidade de discernimento dos leitores, divorciados da galopante mediocridade evidenciada em tantos textos que nunca deveriam ter saído do tinteiro e fartos de lerem tanta frase grosseiramente incompetente naquilo a que se convencionou chamar "imprensa de referência". 

Eis aqui um exemplo, entre tantos outros - neste caso, um título publicado há dias num jornal de grande expansão nacional. Se coisas destas afugentam leitores, é sinal de inteligência e lucidez da parte destes.

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Durante anos, recomendei aos estagiários a quem dava formação em exercício que tivessem sempre presente uma das regras básicas da profissão de jornalista: «Não tens de ser o primeiro a divulgar a notícia. Só deves ser o primeiro a dar a notícia certa, devidamente comprovada.»

Acontece que esta regra se tornou obsoleta. Hoje, na desenfreada "caça ao clique" e perante a propagação acéfala do que quer que seja através das redes sociais, a salvaguarda mínima da veracidade das notícias foi empurrada para a borda do prato - tantas vezes não por culpa dos jornalistas que assinam a peça mas pelos superiores hierárquicos que incentivam a sua publicação imediata, trocando o rigor dos factos pelo algoritmo "viral".

Andam alguns por aí a justificar a crise do jornalismo no desinteresse crescente do receptor, quando deviam apontar o dedo ao emissor. Sexta-feira passada, registou-se uma das mais chocantes adulterações do jornalismo, pervertido pela ânsia da "publicação imediata", sem cuidar da veracidade do que se publica. Ao fim da manhã, um jornal digital garantia ao País, em estrondosa manchete, que Bruno de Carvalho reassumira a presidência do Sporting por determinação judicial.

 

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«Tribunal terá dado razão a Bruno de Carvalho. (...) Trocado por miúdos, o antigo líder volta a ser presidente», rezava a putativa notícia, intitulada «E o impensável aconteceu: Bruno de Carvalho é de novo presidente do Sporting.»

Repare-se na caótica distribuição das formas verbais. O título proclama um categórico «é», que não admite dúvidas. A primeira frase da pseudo-notícia mostra-se dubitativa: o tribunal «terá dado razão» a Carvalho, destituído da presidência do clube pelos sócios que acorreram à assembleia geral de 23 de Junho. No final, regressavam as certezas: «O antigo líder volta a ser presidente.»

O jornal escreveu e publicou estas linhas incendiárias sem documentação, sem possibilitar o exercício do contraditório, sem ler o despacho judicial a que fazia referência: tudo errado. Baseou-se apenas na suposta técnica do "bitaite" soprado por aquele a quem interessava que o boato se transformasse em notícia: o próprio Bruno de Carvalho.

 

Foi quanto bastou, nesse dia, para fazer mudar os alinhamentos de todos os telediários da hora do almoço.

A SIC, por exemplo, abriu o seu Primeiro Jornal com uma repórter presente no estádio José Alvalade a debitar isto: «Bruno de Carvalho veio trazer uma providência cautelar que cancela, que anula, a assembleia destitutiva realizada a 23 de Junho.»

A TVI colocou o tema logo em segundo lugar no seu Jornal da Uma. Também com uma "enviada" a Alvalade, que nos comunicou em tom categórico: «Este documento judicial anula essa assembleia geral. Essa reunião magna não é válida.»

A RTP, mais prudente, remeteu a peça só para o minuto 17 do seu Jornal da Tarde. Mas lá estava também o repórter junto às instalações do Sporting, embora neste caso o tom fosse visivelmente cauteloso: «Fomos informados de que Bruno de Carvalho teria na sua posse um documento do tribunal que colocaria em causa algumas das decisões tomadas na assembleia destitutiva.» Confessando o jornalista, com assinalável honestidade, não ter visto documento algum: daí ter colocado todos os verbos no condicional.

Entretanto, não faltou quem convocasse para comentar em estúdio os habituais tudólogos, especialistas em comentar o que não conhecem.

 

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Durante mais de duas horas, o boato foi tomado como verdadeiro e transmitido como facto a todos os cantos do País. Sem ninguém conhecer o teor concreto daquilo em que era suposto basear-se a notícia. Só interessavam os cliques e a corrente "viral" que potenciam receitas publicitárias.

O fenómeno contagiou quase todos os títulos jornalísticos, baseado noutra nova regra que passou a imperar na profissão desde o predomínio do digital: "Se os outros falam, nós falamos também."

Até que houve quem percebesse enfim que tudo não passara de um rebate falso, propagado pelo primeiro dirigente desportivo demitido pelos sócios em 112 anos de história do Sporting. Não havia tribunal nenhum a dar-lhe razão, o voto emitido na assembleia geral continuava válido e os actuais órgãos sociais leoninos, de carácter provisório até às eleições de 8 de Setembro, têm plena validade jurídica.

Centenas de linhas e milhares de palavras depois, lá surgiu o volte face. Imprimiu-se a notícia de teor oposto, desta vez num título quilométrico: «Bruno de Carvalho tentou apresentar providência mas era fumo sem fogo: continua suspenso de sócio e ex-presidente.»

Um fumo sem fogo que gerou imensos cliques. E que ajuda a explicar, de modo eloquente, a grave crise reputacional do jornalismo português.

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A literatura sobrevive a tudo

por Pedro Correia, em 18.06.18

No ano passado, antes de rumar às férias primaveris, comprei um livro de um autor muito recomendado em determinadas selectas - figura com presença regular nos ecrãs televisivos e incensada em solos de violino nas gazetas da praxe. Dispus-me a ler aquilo: era volume grosso, de quatrocentas e tantas páginas.

Deu-me para três horas de viagem de comboio. Chegado ao destino, apeei-me na página 100. E nunca mais retornei ao calhamaço. O romance - é de um livro de ficção que falo - permanece adormecido na prateleira de um armário. Não tenciono despertá-lo.

Lembro-me vagamente do fio do enredo: havia uma mulher fechada em casa, assombrada por fantasmas íntimos. Cem páginas adiante, nada sucedera de relevante, aquilo dava um passo em frente e outro atrás sem nunca sair do mesmo sítio.

O que não invalidou que a obra em causa recebesse hossanas em ritmo cadenciado. Certos autores têm este condão de suscitar coros afinados, sempre em estilo laudatório.

 

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Ontem, ao entrar numa das livrarias que frequento com regularidade, deparei com dois romances de estreia, assinados por jovens autores. Uma menina e um rapaz.

Senti curiosidade em ler as frases iniciais.

Escreveu ele: «Se existe algo que eu aprendi é que a vida é estranha.»

Escreveu ela: «Adoro o cheiro dele quando chega perto de mim. Ele ainda não chegou e eu já sei que ele vem.»

 

Não sei o que mais me impressionou nestes parágrafos de abertura.

Talvez o monumento à irrelevância em letra impressa. Ou a vacuidade do estilo. Ou a profusão de pronomes pessoais, por clara influência da sintaxe brasileira hoje dominante nos circuitos digitais. Ou o culto narcísico tão característico destes dias em que o auto-retrato domina todas as modas.

Talvez a impressionante compressão vocabular nesta era em que há quem jure ser capaz de escrever romances no Twitter - algo equivalente a dançar o tango numa cabina telefónica.

Mas não duvido que ambos, com a rede de conhecimentos adequada, serão capazes de se tornarem "autores de sucesso". Talvez mesmo se elevem à condição de "bestas céleres", como dizia o arguto Alexandre O'Neill.

Espreito-lhes os perfis nas badanas: surgem-me como figuras exemplares desta época. Ele tem «45 mil seguidores no Facebook» - anoto as conotações quase litúrgicas do vocábulo seguidores. Ela é «formadora de softskills», expressão cujo significado ignoro mas que me soa a algo importante. Não me admirava que venham a cometer mais romances. Podem até fazê-lo a um ritmo semestral: há quem viva disto e seja sempre anunciado com laudatórias trombetas mediáticas. Como se estivéssemos perante uma Cartuxa de Parma ou uma Guerra e Paz.

 

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Regresso a casa, retomo a leitura de um dos meus livros favoritos: Africa Minha, de Karen Blixen. E de novo me salta à vista aquela suave cadência das frases de abertura que logo nos convidam a viajar no tempo e no espaço. Recuando cem anos, ao Quénia colonial.

«Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. O equador passa 160 quilómetros a norte desta região e a fazenda ficava a uma altitude de mais de dois mil metros. Durante o dia sentíamo-no mais perto do sol, mas as madrugadas e o fins de tarde eram límpidos e tranquilos e a noites frias. A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem inigualável.»

A melhor literatura sobrevive a tudo. Até ao inqualificável abuso das más práticas que se multiplicam invocando em vão o seu sagrado nome.

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Há espera

por Pedro Correia, em 28.05.18

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Quando se fala na crise no jornalismo, provocada pela revolução tecnológica, pela globalização dos fluxos noticiosos, pela explosão das chamadas redes sociais e pelos novos hábitos de leitura, omite-se em regra uma das principais causas: a irrevogável incompetência de vários dos seus responsáveis actuais. Que produzem, validam e autorizam títulos como este, que esteve horas em exposição na montra digital de um periódico.

As falhas sistemáticas do controlo de qualidade de um produto, na área informativa como noutra qualquer, costumam ser penalizadas pelos consumidores, cada vez mais esclarecidos. E fazem bem.

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