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Eduardo Prado Coelho

por Patrícia Reis, em 25.08.16

"O mais terrível é sentirmos a irreversibilidade do tempo. Que mesmo quando tudo se repete, já nada se repete, pela primeira vez. E que nós nos gastamos como borrachas na demorada corrosão das coisas. Um dia acordamos e já não é a primeira vez. A não ser quando a paixão nos diz que, nupcial e navegante, cada gesto de amor é sempre o primeiro."

De Quem nos Deixa Saudades

por Francisca Prieto, em 04.12.15

enfeite de natal.jpg

A tia Mette sempre foi a nossa tia exótica. Dinamarquesa, casou com o meu tio Eduardo por duas vezes. Da primeira, de vestido branco, comprido, como manda a tradição. O cabelo curto e os dentes da frente ligeiramente encavalitados faziam adivinhar um espírito irreverente. Pelo menos nos anos sessenta de uma Lisboa onde as mulheres ainda andavam de saias e nem todas eram detentoras de carta de condução.

A tia Mette era para mim o cúmulo da sofisticação. Fumava longos cigarros SG gigante em pose de revista; à noite, na cozinha, segurava num copo de vinho de pé alto e brindava em dinamarquês com o meu tio e, sobretudo, conduzia o seu citroen com as mãos na parte de dentro do volante.

A sua casa combinava o melhor gosto das tradições portuguesas, com móveis de madeira nórdica, maciça, e algumas referências de pintura taitiana do seu bisavô – o pintor Paul Gauguin.

No Natal, ao contrário das árvores com bolas de todas as cores e fitas estridentes que povoavam as nossas casas, em casa da tia Mette havia sempre decorações de um bom gosto inédito. Claro que hoje sabemos que eram compradas no Ikea de Copenhaga, mas na altura sabíamos lá o que era o Ikea.

Como o aniversário de um dos meus primos é a 31 de Dezembro, passávamos sempre lá o ano em família. Os adultos à mesa, com talheres de um dourado baço a combinar com o serviço de loiça egípcio da minha avó, e nós, a miudagem, a correr pela casa, fazendo razias à árvore de Natal com velas verdadeiras acesas. Nem sei como nunca nos imolámos inadvertidamente.

Um dia, quando eu tinha uns doze anos, os meus tios desentenderam-se e a tia Mette pegou nos três filhos e em meia dúzia de malotes e rumou à Dinamarca.

Tive um desgosto tremendo e durante muitos anos lembrava-me desta tia com uma imensa saudade.

Passaram-se uma catrefada de anos e um dia fiquei a saber que o tio Eduardo e a tia Mette se iam casar outra vez. Parece que foram jantar fora um dia e que ela, arisca, lhe terá perguntado se ele queria ser seu amante. Reza a história que ele terá respondido que sim, mas só se ela se casasse com ele.

De maneira que foi assim que a tia voltou às nossas vidas. Um par de décadas mais velha, com mais meia dúzia de quilos, mas sempre com um sorriso e um piscar de olho que nos fazia saber o quanto gostava de nós.

Viveu em Portugal os últimos quinze ou vinte anos da sua vida, feliz, sempre de porta aberta para receber com pratos exóticos esta família que também era a sua.

Um dia, a dormir, chamaram-na do céu e lá foi ela, deixando-nos a nós outra vez cheios de saudades.

Lembrei-me disto tudo a propósito de uns enfeites de Natal que comprei no outro dia, iguaizinhos aos que ela costumava ter. Não sei se agora está no céu a evangelizar o Menino Jesus sobre a importância do sentido de humor, ou se só vive nos interstícios dos nossos corações mas, seja como for, desejo-lhe um Natal de arromba.

É malhar neles enquanto está quente

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.10.15

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"Se nestas condições objectivamente favoráveis o Partido não alcançou nenhum dos objectivos políticos imediatos ao seu alcance - aumento substancial da votação nas listas do Partido e eleição de uma representação parlamentar - tal fica unicamente a dever-se à incompetência, oportunismo e anticomunismo primário do secretário-geral do Partido e dos quatro membros do comité permanente do comité central, que tudo fizeram para sabotar a aplicação do comunismo, do marxismo-leninismo, dos métodos de trabalho, do programa político e da linha de massas que sempre caracterizaram a vida e luta do Partido."

 

Deste o tempo de Durão Barroso que não via se via nada assim. Agora é que isto vai animar. O PS que ponha os olhos neles.

Longa vida ao camarada Espártaco! Rua com os sabotadores!

Vasco Graça Moura

por Patrícia Reis, em 03.01.15

A Isabel já o disse, mas não faz mal reafirmar: a falta que faz. Hoje faria anos. Resta-nos o que nos deixou.

 

soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Os comentários ficam para os especialistas

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.10.14

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Bernardo

por Patrícia Reis, em 24.06.14

 

Faria hoje 44 anos.

Senhor Comandante

por Patrícia Reis, em 05.03.13

Todos nós o tratávamos assim.

O Senhor Comandante, era sabido, gostava de doces e de contar as suas histórias.

Dizia ser um marinheiro que, afinal, acabara a ser piloto. Foi para a Marinha para não irritar a mãe, ela que não o queria lá no alto, a voar. Ele, já sabendo que podia ser piloto da Marinha, trocou-lhe as voltas.

As histórias são muitas: a vida fez-se com cinco filhos, nove netos, dois bisnetos. E foi uma vida com altos e baixos mas bonita. Não se pode dizer de outra forma.

Depois um Verão terrível, o senhor Comandante despediu-se, prometendo não morrer no dia do aniversário de um dos bisnetos ou da mulher. Morreu no meio. Os sentimentos são sempre contraditórios e é difícil ver a morte com bons olhos.

Vivemos, imediatamente depois da sua morte, momentos extraordinários: os primos juntaram-se para um almoço e discutiram tudo,  a importância de manter a família unida, as receitas para a consoada e ainda a existência de som no espaço (parece que não há, dizem os meus primos!).

O meu filho mais novo salvou o natal inventando um personagem estranho chamado Dipak que falava inglês com sotaque e todos nos rimos e abraçámos. As minhas primas, de um lado, fizeram um livro com as fotografias e as histórias e textos do avô com design gráfico da mais nova. Todos nos ligámos ao Facebook, todos tentamos ir ao mural uns dos outros de quando em vez e colocar uma mensagem. Porque uns vivem no Algarve, outros em Inglaterra, porque o tempo tem voltas e revoltas. Hoje, o senhor comandante faria anos. Nós, os netos e bisnetos, tal como os filhos, brindamos com saudade. Mas com alegria. Por tudo isto, aprendi que se pode olhar a morte nos olhos e sorrir. Levemente.

Ontem, um dia tão triste, o director do JN escreveu na última página que aquela coluna em cinza, com a fotografia de Manuel António Pina no topo, não será ocupada por ninguém. De todos os gestos no âmbito dos jornais este foi o mais comovente. Defendi o mesmo face ao espaço que Eduardo Prado Coelho ocupou dez anos no jornal Público, ninguém quis saber. Manuel António Pina escrevia no JN há 30 anos. Ainda bem que há respeito, amor e, claro, saudade.


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