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Tantos que não servem para nada

por Pedro Correia, em 23.10.20

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Existe em Portugal, desde 2016, uma coisa chamada Conselho Nacional de Saúde (CNS). 

Serve para quê?

Segundo a página oficial deste organismo, para «apreciar e emitir pareceres e recomendações sobre temas relacionados com a política de saúde», por iniciativa própria a solicitação do Governo. «Produz e apresenta ao ministro da Saúde e à Assembleia da República um relatório sobre a situação da saúde em Portugal, formulando as recomendações que considerar necessárias». E visa «promover uma cultura de transparência e prestação de contas perante a sociedade» . 

É composto, espantosamente, por 30 membros. Reunindo em plenário pelo menos duas vezes por ano e sempre que for considerado necessário, por decisão do presidente deste mesmo órgão ou de um terço dos seus membros, ou em qualquer ocasião a pedido do Governo. Beneficia do apoio permanente de um conjunto de peritos.

Fui à página oficial do CNS, cliquei em "a[c]tas das reuniões plenárias": a mais recente remonta a 4 de Julho. Podia ser pior: ainda não se cumpriram quatro meses de intervalo. Menos actuais são os  "relatórios de a[c]tividades": a contabilidade parece ter parado em 2018.

Enfim, senti curiosidade em perceber que notícias tinha produzido este órgão de consulta do Governo durante todo o Verão pandémico. Nada. Lembrou-se há dois dias de dar sinal de vida, interrompendo um pesado sono para parir uma "reflexão" em dez pontos. Em forma de decálogo e com a linguagem solene e desajustada da realidade a que os burocratas nos habituaram.

Lá surgem inanidades como esta: «Definir e implementar urgentemente um plano nacional de retoma da prestação de cuidados de saúde, que contemple estratégias de resposta à epidemia de COVID-19, assim como estratégias dirigidas ao cuidado das outras doenças agudas e crónicas e da promoção da saúde. Este plano deverá ser inclusivo e ter especial atenção às pessoas mais afe[c]tadas pela pandemia e às em situação de maior vulnerabilidade.» Ou esta: «Reforçar e investir em estratégias de promoção da saúde física e mental e de prevenção da doença, contribuindo para a literacia em saúde e a resiliência da população, envolvendo os recursos disponíveis em entidades governamentais, profissionais de saúde, media e redes sociais para a criação de espaços seguros e promotores de saúde, nomeadamente em escolas, lares e locais de trabalho.»

Fiquei esclarecido: isto não serve mesmo para nada.

 

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Já havia este Conselho Nacional de Saúde. Mas o Governo, não satisfeito com isso, decidiu criar em Janeiro um Conselho Nacional de Saúde Pública (CNSP). Outro organismo de consulta, este especificamente destinado a emitir recomendações «no âmbito da prevenção e do controlo das doenças transmissíveis». 

Segundo o despacho ministerial que o criou, na tal linguagem pastosa e burocrática que menciono acima, o CNSP «integra representantes dos se[c]tores público, privado e social, incluindo as áreas académica e científica, pretendendo-se eclé[c]tica e abrangente, mas operacional e a[c]tuante».

Não fazem a coisa por menos: este órgão integra 20 membros, aqui enumerados - incluindo um pleonástico assento destinado ao presidente do Conselho Nacional de Saúde. 

O CNSP existe, fundamentalmente, para «análise e avaliação das situações graves, nomeadamente surtos epidémicos de grande escala e pandemias». Pensaríamos, portanto, que teria reunido diversas vezes desde que o surto epidémico em curso provocou a primeira vítima mortal no nosso país, a 16 de Março. Pura ilusão: não reuniu vez nenhuma.

Esta galeria de sumidades juntara-se apenas uma vez, antes dessa triste data, e manteve-se posta em sossego - como a doce Inês de Castro nos versos de Camões - até agora. Mais de seis meses depois, volta a reunir-se esta tarde com a ministra, por vídeo-conferência, para analisar a «implementação de medidas de saúde pública». A anterior reunião havia ocorrido a 11 de Março. E produziu uma inútil recomendação, que o Governo fez bem em não seguir, pronunciando-se contra o encerramento das escolas no âmbito do combate à pandemia.

 

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Balanço de tudo isto: já havia um órgão inútil, criado por este Governo. Desde Janeiro, passou a haver dois. Enquanto a pandemia alastra a um ritmo avassalador, já com mais de três mil infecções diárias, esta gente nem se dá ao incómodo de fingir que mostra serviço.

Estão lá para quê?

Natal virtual

por Pedro Correia, em 13.10.20

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Quase em uníssono, numa verdadeira demonstração de unicidade institucional, o Presidente da República (nas linhas) e a ministra da Saúde (nas entrelinhas) vieram alertar-nos: o Natal, este ano, não será Natal.

Será um Natal virtual, à distância, com a brigada anti-contágios sempre vigilante. Contra o novo coronavírus, enquanto os portugueses vão morrendo (mais seis mil do que a média dos cinco anos anteriores) sobretudo com as velhas doenças. Mas morrem entre as quatro paredes domésticas, solitários como nunca, cada vez mais fechados em casa por terem medo de frequentar os hospitais.

Como não recear a nova peste se todas as noites, serão após serão, somos brindados com horas de noticiário em exclusivo sobre a pandemia, criando-se assim a ilusão de que todas as outras causas de infecção e morte foram banidas do planeta?

 

Deixou de haver doenças cardíacas, deixou de haver doenças oncológicas, deixou de haver acidentes vasculares cerebrais. Já não há homicídios, já não há suicídios, já não há "sinistralidade rodoviária" (eufemística alusão aos assassínios no asfalto), já não há violência doméstica. Ninguém mais ouviu falar de tudo isto, que antes dominava os telediários.

Nem sequer uma palavra, nos dias que vão correndo, sobre os riscos do aquecimento global, o degelo no Pólo Norte e a desmatação da Amazónia. Até a menina Greta se eclipsou do mapa mediático. "Vinte-vinte" é o ano do vírus. E 2021 ameaça repetir a dose, sem fim à vista.

 

Entretanto os centros comerciais vão fazendo pela vida nesta era de incertezas. Num deles, vi há uma semana exacta o cartaz que ilustra este texto - prova evidente de que o Natal se tornou mera abstracção, alheio às contingências do calendário. Falta pouco para começar na Páscoa. Ou no Carnaval.

Natal partilhado à distância de um clique no ilusório aconchego do zoom. Com distância física de tudo, excepto de um ecrã de computador.

O passo seguinte será a instalação de barreiras de acrílico em todas as divisões dos apartamentos domésticos, sob minuciosa fiscalização das brigadas sanitárias. E depois outras, a dividir cada divisão. Até cada um de nós se encerrar, devidamente "higienizado", no metro quadrado tumular que lhe couber em sorte ainda em vida.

 

Prendas para a quadra? Façam desde já a vossa lista: máscaras com símbolos natalícios, luvas da cor da barba do Pai Natal, álcool gel com aroma de rena nórdica - tudo made in China, o país de origem do vírus. Deve ser isto a que alguns chamam "economia circular".

Feliz Natal, portanto. Seja lá o que isso for.

Eutanásia social

por Pedro Correia, em 29.09.20

Está em curso uma autêntica eutanásia social. O morticínio que tem acontecido nos chamados "lares de idosos" - muitos dos quais clandestinos, perante a criminosa indiferença de tantas autoridades autárquicas, de norte a sul do País - é algo que devia chocar todos os portugueses. Das quase duas mil vítimas mortais por Covid-19 oficialmente já registadas, cerca de 40% ocorreram naqueles antros. Vitimando gente indefesa, que na grande maioria dos casos nem pode sair daquelas instalações, onde na prática vigora um regime de reclusão forçada desde que foi declarada a pandemia.

Só em Reguengos de Monsaraz, como num filme de terror, morreram 18. Nunca a bela palavra lar foi tão conspurcada e pervertida.

Infelizmente este assunto, como se tornou hábito, vem sendo tratado apenas enquanto dado estatístico na generalidade dos órgãos de informação. E siga para bingo, pois tristezas não pagam dívidas e há que continuar a promover "spots da moda" e inserir publirreportagens nos telediários recomendando "passeios inesquecíveis" (com gel e máscara).

E colar mais um arco-íris na janela com a frase "vai ficar tudo bem". Num país em que mais de 12 milhões de consultas e cirurgias permanecem por fazer.

Frases de 2020 (27)

por Pedro Correia, em 11.09.20

 

«Temos excelentes profissionais de saúde que dão o seu melhor para nos tratar se estivermos doentes.»

António Costa, ontem, numa longa mensagem ao País no Palácio da Ajuda

De improviso em improviso

por Pedro Correia, em 11.09.20

image.jpgFoto: Tiago Petinga / Lusa

 

Para não variar, a directora-geral da Saúde voltou a fazer uma declaração inaceitável. Em que, uma vez mais, menospreza e subalterniza o desporto. Como se uma sociedade em que a prática desportiva organizada, promovida por agremiações clubísticas, não fosse parte iniludível da saúde, tanto na componente individual como colectiva.

 

A mesma responsável que autorizou viagens aéreas em voos lotados, o regresso dos concertos, das sessões de cinema, dos espectáculos teatrais, dos circos e das touradas, a mesma alta funcionária governamental que deu luz verde às manifestações e concentrações de rua promovidas por forças partidárias, movimentos cívicos ou grupos espontâneos de cidadãos, a mesma senhora que permitiu eventos tão diversos como a Festa do Avante no Seixal ou a realização do Grande Prémio de Fórmula 1 em Portimão continua a vetar o regresso do público aos recintos desportivos.

Com argumentos sem pés nem cabeça, confundindo aquilo que não deve ser confundido e até fazendo alusões demagógicas ao início do ano escolar, como se isso tivesse alguma coisa a ver com as modalidades colectivas em geral e o futebol em particular.

 

«Público nos estádios e reabertura das discotecas não será certamente nos próximos tempos. Temos de ver esta grande experiência que é o retorno às aulas e qual será o seu impacto nos números», afirmou anteontem Graça Freitas. Equiparando assim as bancadas de um estádio - onde os lugares estão marcados, é muito fácil estabelecer limite máximo de entradas e o espectáculo decorre ao ar livre - ao interior de uma discoteca, onde o espaço é fechado, as pessoas estão sempre em trânsito e não há possibilidade de assegurar distanciamento físico.

Pior: ao englobar na mesma frase bancadas de estádios e discotecas nocturnas, Graça Freitas confirma ter absurdos preconceitos contra o futebol e não fazer a menor ideia sobre a importância do desporto no "desconfinamento" cada vez mais urgente da sociedade.

Como aqui assinalei, futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas - e as receitas de lugares nas bancadas ou camarotes, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de agremiações desportivas que põem centenas de milhares de portugueses a fazer exercício físico. Porque uma sociedade onde não se pratica desporto é uma sociedade doente.

Não compreender isto é nada compreender de essencial.

 

Noutras circunstâncias, eu recomendaria que Graça Freitas se aconselhasse com o secretário de Estado do Desporto. Mas não o faço porque João Paulo Rebelo já demonstrou ser tão insensível e tão ignorante na matéria como ela. Só isso explica que, numa recente entrevista, este governante tenha desvalorizado o facto de largos milhares de jovens continuarem impedidos de treinar ou competir sem restrições, dando-se até ao luxo de fazer uma graçola com a brutal quebra de receitas das agremiações desportivas: «Não temos conhecimento de nenhum clube que tenha fechado portas.»

Seria simplesmente ridículo se não fosse grave.

 

Uma directora-geral que mete estádios e discotecas no mesmo saco, um secretário de Estado totalmente alheado do dramático quotidiano do sector confiado à sua tutela: assim vamos, seis meses após a declaração da pandemia.

De improviso em improviso, de disparate em disparate.

Os 35 mais infectados

por Pedro Correia, em 10.09.20

Dois meses depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora 908.434 mortos e 28.050.208 infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos. Neste período, o número de óbitos quase duplicou, enquanto os novos casos entretanto detectados subiram cerca de 130%.

Um registo que me leva a ordenar assim os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

Catar: 43.039 casos por milhão de habitantes

Barém: 33,553

Panamá: 22.886

Chile: 22.302

Koweit: 21.502

Peru: 21.258

EUA: 19.765

Brasil: 19.729

Omã: 17.140

Israel: 15.553

Arménia: 15.291

Colômbia: 13.471

Espanha: 11.621

Argentina: 11.315

África do Sul: 10.806

Bolívia: 10.539

Moldóvia: 10.204

Costa Rica: 10.038

Singapura: 9.767

República Dominicana: 9.287

Arábia Saudita: 9.251

Suécia: 8.493

Bielorrússia: 7.768

Bélgica: 7.732

Emirados Árabes Unidos: 7.665

Rússia: 7.170

Quirguistão: 6.828

Bósnia-Herzegovina: 6.793

Iraque: 6.779

Honduras: 6.603

Equador: 6.339

Irlanda: 6.096

PORTUGAL: 6.039

Casaquistão: 5.663

França: 5.269

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior: a pandemia continua em progressão acelerada na zona do Golfo Pérsico e na América Central e do Sul. Em ritmo galopante em países tão diversos como o Panamá (era sétimo em Julho e agora é terceiro), Peru (estava em nono, agora é sexto), Colômbia, Argentina, Bolívia e Costa Rica (que nem figuravam entre os 25 mais infectados). O Brasil sobe de décimo para oitavo.

Pelo contrário, há um claro abrandamento da escalada comparativa de infecções na generalidade dos países europeus. Com destaque para a Suécia (baixa de 13.º para 22.º, Bielorrússia (desce de 14.º para 23.º), Bélgica (era 18.º, agora está em 24.º) e a Irlanda (que passa do vigésimo posto para 32.º). 

Evolução positiva também no Reino Unido (que em Junho era o 15.º país proporcionalmente mais infectado e agora é o 37.º) e em Itália (que baixa de 25.º para 42.º).

Tendência seguida igualmente em Portugal: nestes dois meses, passámos de 23.º para 33.º. Mesmo assim, em termos relativos, somos ainda o quinto país da União Europeia com mais casos de Covid-19 por milhão de habitantes.

Excepção à regra é a nossa vizinha Espanha, que teima em manter-se no pelotão da frente. Pelos piores motivos. Em Julho, estava no 15.º posto desta lista nada invejável e desde então subiu ao 13.º lugar. Neste momento é o único país europeu que figura entre os vinte primeiros.

 

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Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes. Seleccionando desta vez 30 para incluir a estatística portuguesa:

Peru: 915

Bélgica: 855

Espanha: 634

Reino Unido: 612

Chile: 611

Bolívia: 611

Equador: 605

Brasil: 604

EUA: 589

Itália: 589

Suécia: 578

México: 535

Panamá: 489

França: 472

Colômbia: 433

Holanda: 364

Irlanda: 360

Arménia: 306

Moldóvia: 272

Irão: 269

África do Sul: 255

Canadá: 242

Argentina: 235

Suíça: 233

Roménia: 209

Bósnia-Herzegovina: 206

Honduras: 206

Iraque: 191

PORTUGAL: 181

República Domicana: 176

 

O destaque pela negativa, desta vez, cabe ao Peru: um salto dramático do 11.º lugar ao primeiro posto nestes dois meses. A mesma tendência ascendente verifica-se noutros países sul-americanos: Chile (de nono para quinto), Equador (de 13.º para sétimo) e Brasil (de 12.º ao oitavo lugar). Além da Bolívia, que em Julho nem figurava entre os vinte com mais óbitos em termos proporcionais. 

Na América do Norte, regista-se um sinal inverso já patente no Canadá (que desce do 15.º ao 22.º posto) e nos EUA (ainda entre os dez mais, mas agora em nono, tendo baixado dois lugares). Só o México contraria esta tendência: subiu do 14.º ao 12.º lugar.

A Itália - que já esteve em primeiro - situa-se hoje na décima posição: há dois meses surgia em quarto. Destaque igualmente para a Suécia, que baixa do 5.º para o 11.º lugar. 

Em rumo inverso, a Espanha troca com o Reino Unido no nada invejável terceiro posto.

 

Ao contrário do que vinha ocorrendo nos meses anteriores, esta lista deixa de ter maioria europeia: neste momento situam-se no Velho Continente apenas quatro das dez nações mais enlutadas, na proporção entre mortos por Covid-19 e a população de cada país. Em Julho, eram oito: Suécia, França, Holanda e Irlanda deixaram de figurar no top ten deste macabro rol dos óbitos mundiais por Covid-19.

Para Portugal, a melhor notícia é a queda para o 29.º posto, confirmando a tendência para a descida já verificada em Julho, quando estávamos em 21.º. Em quatro meses, caímos 17 lugares: convém recordar que no início de Maio ocupávamos a 12.ª posição. A instável Roménia, que na contabilidade anterior tinha cerca de metade do número de óbitos registados em Portugal, está agora à nossa frente.

A má notícia é que ainda figuramos entre os dez mais da União Europeia em número proporcional de mortos. Duplicando os números da Áustria. Apresentando cerca do triplo registado em nações como Polónia, Finlândia e Hungria. E com cerca de seis vezes mais óbitos do que a Grécia, nossa concorrente directa na captação de receitas turísticas internacionais.

A saúde dos portugueses vs o grande capital

por Paulo Sousa, em 17.07.20

Como acontece com todas as utopias, o liberalismo utópico equivaleria a um retrocesso civilizacional.

Depois de salvaguardado este ponto prévio, tenho de salientar que apesar da fama de defender sempre o grande capital, o liberalismo representado no nosso país pela IL mostra um lado humano defendendo que o dinheiro gasto para salvar a TAP seria mais bem gasto na saúde dos portugueses.

A quem não sofra de frémitos de autocensura recomendo a leitura desta entrevista, onde Carlos Guimarães Pinto desmonta o discurso de Pedro Nuno Santos, e demonstra com clareza a dimensão de mais este erro do governo.

"O dinheiro que será injectado na TAP, apenas nesta primeira fase, daria para pagar ao sector privado as consultas e cirurgias em atraso, evitando parte deste desastre. Infelizmente para o governo a saúde dos portugueses não é estratégica, ao contrário da TAP. Talvez fosse boa altura para mudar as prioridades."

É curioso como são os socialistas, os sempre autodenominados donos dos valores do humanismo, a pôr em práctica exactamente o contrário.

São vários os analistas que defendem que António Costa entregou o Ministério das Infraestruturas a Pedro Nuno Santos para o queimar. Quanto pior lhe corra a vida política e mais desastrosas forem as consequências das suas decisões, mais distante ele ficará da liderança do PS. Este é o tipo de decisões que mostram que entre as lutas internas no seu partido e o interesse do país, o PM coloca as nossas algibeiras e o nosso futuro último lugar.

Os 25 mais infectados

por Pedro Correia, em 09.07.20

Um mês depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora 552.438 mortos e 12.187.474 infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos.

Chamo especial atenção para a proporção entre o número de infectados e cada milhão de habitantes dos países que constam deste quadro incompleto (a Coreia do Norte e o Turquemenistão, por exemplo, estão ausentes).

Um registo que me leva a ordenar assim os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações extra-europeias com menos de um milhão de habitantes:

 

Catar: 36.168 casos por milhão de habitantes

Barém: 18.174

Chile: 15.852

Koweit: 12.175

Arménia: 10.240

Omã: 9.829

Panamá: 9.558

EUA: 9.544

Peru: 9.488

Brasil: 8.073

Singapura: 7.763

Luxemburgo: 7.426

Suécia: 7.312

Bielorrússia: 6.797

Espanha: 6.408

Arábia Saudita: 6.322

Islândia: 5.509

Bélgica: 5.367

Emirados Árabes Unidos: 5.362

Irlanda: 5.172

Rússia: 4.847

Moldóvia: 4.579

PORTUGAL: 4.400

Reino Unido: 4.227

Itália: 4.405

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior: a pandemia continua em progressão acelerada na zona do Golfo Pérsico (que os telediários portugueses nunca reportam) e na América Central e do Sul. No Brasil, mais do que duplicaram os registos de infecção ao longo deste mês, no Chile duplicaram e no Panamá quase triplicaram. 

Os países europeus deixaram pela primeira vez de figurar entre os dez mais infectados. Agora o mais próximo de nós que integra este quadro é a Arménia, já situada na Ásia Menor. Vale a pena acentuar o caso de Espanha, que há 30 dias estava no 6.º lugar e agora caiu para 15.º, em evidente regressão comparativa. Ao contrário da Suécia, que sobe ligeiramente (de 14.º para 13.º).

Em queda estão também o Luxemburgo (antes em 5.º, agora em 12.º), a Bélgica (baixa de 11.º para 18.º), a Irlanda (cai de 12.º para vigésimo), e sobretudo a Itália (há dois meses era a quinta mais infectada, há um mês figurava em 18.º lugar e agora ocupa o último posto destes 25). Igual tendência verifica-se no Reino Unido (baixa de 15.º para 24.º).

Mantém-se a ausência neste quadro de países europeus como França, Holanda e Suíça, que já estiveram em lugares cimeiros. Nos dez mais, destaca-se a entrada do Brasil, onde a progressão de novos casos de coronavírus segue em aceleração contínua: basta recordar que há um mês estava oficialmente atrás de Portugal, na 23.ª posição.

O nosso país continua entre os 25 mais infectados, tendo recuado apenas um posto: a nossa queda comparativa é muito inferior, por exemplo à do Reino Unido, que há 30 dias estava em 15.º lugar e passou a ter menos infectados por milhão de habitante do que nós. Em termos relativos, somos hoje o sexto país da União Europeia com mais casos de Covid-19, o que explicará, em larga medida, o facto de integrarmos várias listas de nações a evitar pelos turistas no âmbito comunitário.

 

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Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes. Seleccionando desta vez vinte e um para incluir a estatística portuguesa:

Bélgica: 844

Reino Unido: 656

Espanha: 607

Itália: 577

Suécia: 543

França: 459

EUA: 407

Holanda: 358

Chile: 344

Irlanda: 352

Peru: 338

Brasil: 320

Equador: 276

México: 254

Canadá: 231

Suíça: 227

Panamá: 190

Arménia: 181

Luxemburgo: 176

Rep. Dem. Congo: 172

PORTUGAL: 160

 

Destaco aqui a permanência no topo da Bélgica (um país de que se fala muito pouco em associação com a pandemia, apesar de quase todos os órgãos de informação portugueses terem correspondentes em Bruxelas). A Itália - que já esteve em primeiro - mantém-se agora fora do pódio. E a Espanha cede pelo segundo mês consecutivo ao Reino Unido o nada invejável segundo posto.

Destaques, também aqui, para os óbitos registados no continente americano: desde logo os Estados Unidos da América (que sobem de sétimo para oitavo), o nada badalado Canadá (que cai do 11.º para o 15.º posto) e o preocupante Chile (pela primeira vez na lista dos dez países com mais óbitos por milhão de habitantes, ultrapassando até Brasil e Peru). 

Mesmo assim, esta continua a ser uma lista predominantemente europeia, com oito em dez nações nesta proporção entre mortos por Covid-19 e a população de cada país. 

Para Portugal, a melhor notícia é a nossa ausência da macabra lista dos vinte com mais óbitos. Saímos à tangente, estando agora em 21.º lugar, devido à entrada de um país africano, a República Democrática do Congo. Em dois meses, caímos nove lugares: no início de Maio, convém recordar, ocupávamos a 12.ª posição.

A má notícia é que ainda integramos este triste top ten da União Europeia. Com cerca do dobro de óbitos ocorridos em países como Áustria ou Roménia. Ou cerca do triplo registado em nações como Noruega, Finlândia e Hungria. E quatro vezes mais do que na Polónia, Sérvia ou Bulgária. E cerca de oito vezes mais do que a Grécia, nossa concorrente directa na captação de receitas turísticas internacionais.

Artigo 13.º CRP *

por Paulo Sousa, em 06.07.20

O facto dos sindicatos da função pública exigirem há muito que os trabalhadores com contrato individual de trabalho (CIT) tenham acesso à ADSE comprova o que todos sabemos mas que por vezes acaba por haver sempre alguém a querer negar. A assistência médica da ADSE é superior à do SNS. Isto não é uma segunda descoberta da roda mas apenas um ponto prévio, de forma a evitar o normal desvio do debate em que os seus beneficiários venham dizer que a ADSE não é assim tão boa.

Pelo que ouvi dizer, é normal que os seus beneficiários sejam encaminhados para unidades privadas de prestação de serviços de saúde. Importa salientar que estas entidades privadas são aquelas que o governo e seus apoiantes (e também seus beneficiários), não se cansam de dizer com desprezo que “visam o lucro”. Depois de dizerem a palavra “lucro” vão a correr lavar os dentes com a convicção de quem despreza as gengivas. Eles, os ungidos, pelo contrário valorizam é o SNS, por visar o prejuízo, mas com a ressalva de que seja apenas destinado aos outros, aos que pagam esse prejuízo.

Soube-se agora que, mesmo sem que tenha havido qualquer adjudicação, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), o mesmo ministério que gere o SNS, está a pagar aos seus funcionários com CIT um seguro privado de saúde.

Segundo a notícia, o ex-presidente da administração dos SPMS, responsável pela aquisição dos seguros de saúde, justifica isto com o facto de ser necessário amenizar as desigualdades dentro da empresa.

Pelo que entendi, o jornalista não terá perguntado ao ex-presidente da administração dos SPMS, nem à Ministra da Administração Pública, nem à Ministra da Saúde, nem ao Primeiro-Ministro, nem já agora ao Presidente da República, o que acham sobre as desigualdades entre estes portugueses e os restantes que não têm acesso a estas versões Premium do SNS.

* Princípio da igualdade:

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

Falta de decência

por Paulo Sousa, em 18.06.20

Era uma vez um país em que um quinto dos seus cidadãos vivia na pobreza ou no seu limiar, que tinha recebido milhares de milhões de euros por ano em transferências de fundos europeus, que mesmo assim tinha conseguido ir à falência, e que depois disso continuava a aumentar a sua dívida em várias dezenas de milhares de milhões euros por ano.
Nesse país, um dia reuniram-se as três principais figuras de Estado para anunciar pelas televisões ao país que - orgulho! - a Final da Champions seria realizada na nossa capital!!
Dizem que o tipo que escrevia os discursos do PM lá do sítio não jogava com o baralho todo, coitado. Os pais eram primos direitos e ele babava-se um bocado, mas tinha sido o melhor no ensino especial. Deixavam-no andar por ali porque ajudava a preencher as quotas para que a equipa de assessores fosse inclusiva.
O discurso tinha de mostrar ao país que esta grande conquista – não, não tínhamos nenhum astronauta na ISS, era muito melhor do que isso – era uma conquista de todos os cidadãos. O gajo adorava bola e estava em êxtase. Ele latejava de inspiração e o teclado já estava em brasa.
Se estivéssemos a atravessar mais uma época de incêndios, esta fantástica e maravilhosa conquista seria um prémio para os nossos bombeiros, os nossos heróis, mas como ainda não está a fazer calor... então ia bem era para os profissionais de saúde, pronto! Isso sim, era uma boa ideia. As palmas na varanda já lá vão. Eles mereciam alguma coisa objectiva e de efectivo valor. Era por isto que eles ambicionavam!
Felizmente o chefe dos Spins leu o discurso antes de o passar para as mãos do PM e achou que afirmar que este evento “era um prémio merecido para os profissionais de saúde” seria ofensivo para os próprios, riscou a frase e, à costa da mão, deu uma bofetada ao anormal que a tinha escrito.
E assim o último limite da decência foi salvo.

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No hospital d' aquém-Tejo

por jpt, em 05.06.20

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Uma indisposição, felizmente não gravosa, de familiar bem próximo conduziu-me ontem ao hospital distrital deste aquém-Tejo. Na triagem a categoria atribuída foi verde (bela cor, claro). Após 2 horas e tal de espera telefono a médica amiga, "fita verde? aí? Tens para oito horas...", e sosseguei, qual esse outro Flávio, o tio-avoengo Marco Aurélio. Enfim, foram mais de sete horas de espera. À porta, em pé - ali há apenas um pequeno banco, para duas pessoas, alambique de covid-19. O cafézito, pepsi-cola a 1,8 euros? "Posso-me sentar? Sim, durante 20 minutos" diz-me a simpática "colaboradora" (como agora sói dizer-se), imune à decerto ilegalidade da afronta."Porque não foste ao hospital ...!?", o privado, claro, depois, já noite mesmo, e isso neste Junho de ocasos lentos, me barafustaram amigos. Sorrio, não elaboro introspecções, e nunca em público. E muito menos falo deste escândalo do funcionalismo público. Ululantes na verborreia dos "direitos adquiridos" e das nobres causas. Mas na hora doente alheados de nós ali, a obesidade pobre, velhos pouco-validos, os sotaques agudos e ondulantes, ciganos, apatetado eu e talvez algum outro, negros (pós)imigrados. Para quê falar disso se o meu familiar está bem, para quê resmungar?

Simpáticos os "seguranças" como agora se chamam os contínuos, desprovidos da arrogância que os uniformes tanto convocam. "Posso entrar só para ir ver o meu ai-Jesus?", pergunto a um deles. "Sim, mas pouco tempo, sff" anui. E lá está a "carne da minha carne", sentada na cadeirinha de plástico fixada à parede, ombreando com a longa de fila de doentes, todos mais juntinhos do que os passageiros da TAP a olharem em frente, como manda a dra. Graça, a Freitas ("vão visitar os idosos", dizia ela quando os tontos espanhóis fecharam os lares e o povo gosta da senhora, "tão competente", e a burguesia e o funcionalismo público ainda mais gosta pois "tão PS"). Repito, ombro a ombro, ali estão os doentes, da fita amarela até à menos urgente.

Falar disto para quê, se o meu familiar está bem, para quê resmungar? No caminho para casa conta o "sangue do meu sangue", na estupefacção de quem tal nunca vira, "ao meu lado um doente velho dizia ao telefone "não via uma coisa destas desde os tempos da Guiné", e eu imagino-lhe a tatuagem "amor de mãe, 70-73", veterano agora transposto para hospital de campanha. "As velhinhas na maca a pedirem água e ninguém lhes dava" e eu a relativizar, coisas da necessária dureza do trabalho hospitalar. "As enfermeiras aos gritos umas com as outras e a não ligarem aos doentes", e eu aduzindo que talvez sejam "auxiliares", que há destrinça nos uniformes, etc. É a era do Covid-19, dirão. Mas talvez não seja. É este aquém-Tejo, célebre pela rudeza das gentes, cultura ríspida. Talvez, ainda que isto aqui seja de povoamento tão recente. Pois, de facto, apenas é.

Portanto, uma indisposição, felizmente não gravosa. À qual se segue uma mudança nas vidas. Deslocações. E quarentenas. Não porque não possamos apanhar o tal covid-19 (tão anunciado no tal hospital). Mas porque não posso conviver com os meus circundantes, os tais "grupos de risco". Porque estivemos num hospital, público. Comandado pela simpática ministra. "O barato sai caro", diz o povo, condenado ao barato.

Entretanto, nem eu posso ir à bola nem o tal familiar pode ir às festas, ralhou-lhe Sousa.

Cambada de imbecis

por Pedro Correia, em 27.05.20

 

13 de Maio:

VÍRUS PODE NUNCA DESAPARECER

Michael Ryan, director-executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS) para Emergências Sanitárias, declarou que, na pior das hipóteses, o novo coronavírus pode nunca desaparecer, passando a integrar o lote de vírus que todos os anos afectam a população mundial.

 

17 de Maio:

VÍRUS PODE DESAPARECER NATURALMENTE

Karol Sikora, director médico dos Centros para o Cancro de Rutherford e antigo chefe do programa de oncologia da Organização Mundial de Saúde, afirmou que «há uma possibilidade real de o vírus desaparecer naturalmente antes que alguma vacina seja desenvolvida».

 

25 de Maio:

SEGUNDA VAGA É IMPROVÁVEL

A directora do departamento de Saúde Pública da Organização Mundial de Saúde, Maria Neira, considerou «cada vez mais» improvável uma segunda grande vaga do novo coronavírus, Na sua perspectiva, «há muitas possibilidades, desde novos surtos pontuais a uma nova vaga importante, mas esta última possibilidade é cada vez mais de descartar».

 

25 de Maio:

SEGUNDA VAGA ESTÁ QUASE A CHEGAR

O director-executivo do programa de Emergências Sanitárias da Organização Mundial de Saúde, Michael Ryan, alertou que «não podemos supor [que os números de novas infecções] vão continuar a descer», advertindo que «temos alguns meses para nos preparamos para uma segunda vaga».

 

"Va Pensiero" em tempo de vírus

por Pedro Correia, em 30.03.20

 

Impressionante homenagem aos médicos e enfermeiros italianos por cantores de ópera em quarentena devido ao coronavírus. Nunca o coro dos escravos hebreus, do Nabucco de Verdi, foi tão comovente como agora.

A coisa

por Pedro Correia, em 25.03.20

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Há uma coisa chamada Conselho Nacional de Saúde. Estava posta em sossego, sem ninguém imaginar que existia, quando a emergência sanitária a fez despertar da letargia.

Com relutância, a coisa reuniu-se. Ficámos a saber que tem trinta membros, incluindo «seis representantes dos utentes, eleitos pela Assembleia da República», «dois representantes das autarquias, designados um pela Associação Nacional de Municípios Portugueses e outro pela Associação Nacional de Freguesias» e «cinco personalidades indicadas pela Comissão Permanente de Concertação Social, sob proposta das respectivas organizações sindicais e empresariais».

 

A reunião decorreu à margem das mais elementares normas sanitárias, sem que os membros da coisa respeitassem as distâncias de segurança, numa sala apinhada. Ao fim de seis ou sete horas de reunião, os conselheiros deliberaram... recomendar ao Governo que mantivesse abertos os museus e os estabelecimentos de ensino. Por unanimidade

Sem surpresa, António Costa procedeu exactamente ao contrário, marimbando-se para a recomendação da coisa.

 

Um putativo porta-voz da coisa, chamado Jorge Torgal, esmiuçou o seu pensamento desta forma, em entrevista ao jornal Público:

«O quadro global nacional [sobre o coronavírus] é relativamente positivo, face à morbilidade de outras patologias com que convivemos todos os dias.»

«As pessoas agem como se fosse uma doença facilmente transmissível por contacto social e não é. (...) É um quadro muito limitado que não é compatível com todo o alarme social que existe.»

«Fechar as escolas é ajudar e justificar o medo, que não tem razão de ser.»

 

Esta entrevista, note-se, foi concedida já depois de a Organização Mundial de Saúde ter qualificado de pandemia o coronavírus.

E ocorreu seis dias antes da declaração do actual estado de emergência em Portugal.

 

Já a 28 de Fevereiro, o mesmo cavalheiro produzira estas pérolas, em entrevista ao Jornal de Notícias

«[O Covid-19] é menos perigoso que o vírus da gripe! Existe um pânico completamente desproporcional à realidade.»

 «É uma doença que tem tratamento.»

«Em Portugal, em 2014, os casos de legionela em Vila Franca de Xira mataram muita gente e deixarem sequelas em muitas mais. Isso, sim, é preocupante.»

 

Raras vezes tenho visto alguém bolçar uma colecção tão grande de inanidades. Questiono-me se os familiares dos 43 portugueses que faleceram em apenas oito dias, vítimas do Covid-19, não deveriam apresentar queixa judicial contra este senhor.

Indaguei entretanto se a coisa ainda se mantinha em funções. Disseram-me que sim. Sem sequer registar uma deserção, depois de ter ficado evidente, aos olhos dos portugueses, que não serve para nada.

Diário do coronavírus (2)

por Pedro Correia, em 15.03.20

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Não me recordo de ter visto a cidade tão vazia - nem nos feriados de Agosto, há cerca de dez anos, quando Lisboa estava fora dos circuitos turísticos. Hoje, a meio da manhã, eram assim as vistas na Praça de Alvalade e na Avenida de Roma: podíamos circular a meio do asfalto sem nos preocuparmos com os carros, ausentes em parte incerta. Há vírus por aí - o ameaçador coronavírus. Mas, seguramente, respiramos menos dióxido de carbono.

Junto às farmácias, que abundam nesta zona da capital, concentram-se pessoas em estrito respeito das distâncias de segurança. Muitas delas, no entanto, vão em busca do que já não há. Os letreiros nas fachadas esclarecem os incautos: «Não temos álcool, álcool-gel, luvas, máscaras.» Ou seja, tudo quanto é mais procurado de momento.

Apesar de ser um bem escasso, cruzo-me na rua com várias pessoas de máscara na cara. Numa paragem de autocarro, duas mulheres discutem em voz alta, gesticulando muito - ambas mascaradas, o que torna a situação ridícula. Dois fulanos circulam de máscara na testa - outra imagem caricata, tal como a desta jovem que suspende a máscara para fumar, sem suspeitar sequer que a zona do filtro do cigarro pode estar contaminada pois acabou de lhe tocar com os dedos.

 

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Não é de mais sublinhar que as máscaras devem ser usadas apenas por quem já está contaminado, como modo de precaução acrescido para esses doentes, ou para quem trabalha na área da saúde. O único meio seguro para travar a propagação do vírus é o gel desinfectante. Além, claro, do mais antigo, simples e acessível: água e sabão.

Boris Johnson recomendou aos britânicos que cantassem duas vezes os "parabéns a você" enquanto lavavam as mãos, cada vez que chegassem a casa. Boa recomendação: é precisamente isso o que faço. Enquanto vou sabendo que em Espanha o número de mortos já ultrapassa as duas centenas e a própria mulher do presidente do Governo, Pedro Sánchez, está contaminada. Há uma semana, irresponsavelmente, Begoña Gómez e as ministras da Igualdade, Irene Montero, e da Política Territorial, Carolina Darias, participaram num grande desfile em Madrid para assinalar o Dia Internacional da Mulher. Ignorando todos os avisos e as mais elementares medidas de precaução, distribuíram beijinhos e abraços durante horas: na quinta-feira, as ministras ficaram a saber que também são portadoras do vírus. Consequência de terem menosprezado as mais elementares normas de saúde pública.

 

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Com os péssimos exemplos a virem de onde vêm, não admira que Espanha seja já o segundo país na Europa e o quinto à escala mundial com mais vítimas mortais e mais infectados. Agora Sánchez e Pablo Iglesias - companheiro de Irene Montero e vice-presidente do Governo, que apesar de estar de quarentena compareceu ontem no Conselho de Ministros, noutra evidente demonstração de irresponsabilidade - correm atrás do prejuízo, declarando o estado de emergência e mandando aplicar as primeiras multas aos transgressores. 

Entretanto os espanhóis, sobretudo os residentes em Madrid, fogem para o nosso país. E vários deles, contaminados, estão a ser tratados nos nossos hospitais, tão carecidos de meios técnicos e recursos humanos. O que justifica este comentário de Miguel Sousa Tavares: «É inacreditável que o Governo nos recomende que fiquemos em casa enquanto a porta está aberta para os espanhóis virem para cá tratarem-se.»

Um desabafo compreensível, sem tropeçar nas palavras. E sem necessitar de máscara.

Então e o exemplo de Macau?

por Teresa Ribeiro, em 14.03.20

Porque será que Macau, cuja medida emblemática foi decretar o uso obrigatório de máscaras em espaços públicos, é apresentada como exemplo espectacular de controlo bem sucedido do Covid-19 e ao mesmo tempo por cá, médicos e autoridades sanitárias desvalorizam a importância dessa protecção?

Terá a ver com a ruptura de stocks? De repente é a única explicação que me ocorre, mas que não justifica que profissionais de saúde andem por aí a espalhar que o uso de máscara só é relevante para quem já está contaminado.

Frases de 2020 (9)

por Pedro Correia, em 14.03.20

 

«Que cada um de nós recorra à horta de um amigo. Não açambarquem.»

Graça Freitas, directora-geral da Saúde (10 de Março)

Diário do coronavírus

por Pedro Correia, em 12.03.20

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Bairro pachorrento, estranhamente despovoado: há muito menos gente a circular na rua, o trânsito parece de domingo apesar de estarmos a meio da semana, os transportes públicos deixaram de andar apinhados. Tudo em casa? Tudo não: espreito o Continente, habitualmente vazio a esta hora: está repleto de gente a acotovelar-se junto às caixas, exibindo carrinhos a transbordar de compras como se receassem um bombardeamento aéreo. Sem perceberem que o local menos indicado para fugirem ao vírus é ali mesmo, naquelas filas.

Pelo menos cinco estabelecimentos comerciais encerrados «por motivos de saúde», segundo letreiro colocado à porta. Passo pelo Celeiro, sou atendido pela empregada mais bonita das redondezas. Uma brasileira que não esconde a preocupação: «Minha mãe me disse para eu não atender pessoas sem estar de máscara. Tenho medo de estar aqui.» Não permitem que ela use máscara. Aliás nem existem máscaras, como verifiquei há duas semanas, só a título de curiosidade, junto das sete farmácias da Avenida da Igreja. Material esgotado, novas encomendas, não fazem a menor ideia quando voltarão a renovar o stock, já têm muitos clientes em lista de espera. 

 

Eis-nos reconduzidos às questões essenciais - da vida e da morte, da saúde e da doença - no momento presente, sem preenchermos a agenda mediática com engenharias sociais ou hipotéticas calamidades futuras. Aliás não sobra tempo nem espaço nos meios de comunicação para outro assunto: os telediários tornaram-se monotemáticos. E, ao contrário do que sucede em Espanha, por exemplo, a oposição eclipsou-se: deve estar também de quarentena preventiva, como o Presidente da República. Sem possibilidade nem vontade, portanto, de questionar o Governo sobre a decisão tardia de suspender as ligações aéreas com Itália, principal foco de infecção na Europa, e de continuar a permitir a entrada de dezenas de milhares de pessoas em cruzeiros de luxo que aportam a Lisboa e de forasteiros que aterram nos aeroportos sem rastreio de qualquer espécie à chegada.

Um amigo recém-desembarcado da Europa de Leste diz-me, com espanto: «Fiz esta viagem com máscaras e gel para as mãos a toda a hora. Vi precauções em todos os países - nos aeroportos e em todo o lado. Em Portugal, nada.»

 

Entre um Governo que "desdramatiza" para não baixar nas sondagens e uma oposição hibernada, a maralha corre para as praias como se não houvesse amanhã, confundindo quarentena sanitária face à pandemia com férias ao sol. Enquanto o incessante vozear televisivo sobre futebol dá lugar ao incessante vozear televisivo sobre coronavírus, com mil putativos especialistas em epidemologia a surgirem debaixo de todas as pedras da rua.

Salva-se, ao serão na TVI 24, a voz sensata mas firme de António Lobo Xavier: «Há qualquer coisa que não está a ser captada pela opinião pública, com uma certa doçura das mensagens. Olhando para o modo como progride esta epidemia - uma pessoa infectada pode infectar três por dia, em seis semanas sem controlo pode dar origem a três mil infectados - [critico] um certo laxismo mediterrânico, baseado num certo aventureirismo pessoal, numa certa autonomia privada, com cada um a correr os riscos que entende. Este ponto de vista é profundamente negativo e tem de ser criticado. Não é um problema de autonomia nem de liberdade pessoal. É preciso explicar que quem não acata as medidas básicas tem comportamento criminoso em vários planos: origina o agravamento de risco de outros cidadãos, causa mortes das pessoas mais frágeis, provoca danos incomensuráveis. A negligência face às regras custa vidas de pessoas e problemas de saúde, afecta hospitais que deviam estar a tratar dos cuidados normais e causa um dano brutal ao País. É inaceitável o desprezo individual e colectivo de massas de portugueses que se comportam como se não houvesse problema algum.»

Tudo quanto há de essencial ficou dito nestas palavras.

Cancro da Mama

por jpt, em 03.10.19

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[Cartaz da exposição* que decorre desde anteontem, 1.10, no Instituto Português de Oncologia do Porto. Página no Facebook, com as fotografias e os textos da exposição, estes últimos da autoria de artistas musicais e escritores. Grupo no Facebook aberto a quem queira escrever sobre as fotografias, sob o mote "movimento de empatia"]

No átrio da ala do cancro da mama, no I.P.O. do Porto, estão expostas dúzia e meia de fotografias. Os modelos são homem e mulheres que disso padecem. Sem rebuços, surgem com as suas amputações, como agora vão, mostrando-se na sua beleza, a de cada um, o quinhão dela que a cada um de nós coube, maior ou menor consoante quem nos vê e como nos olha. E na formosura da imensidão da força que denotam e da esperança com que nos reconfortam.

Propõe o projecto que cada um faça o seu "exercício de empatia" escrevendo algo - ou pensando algo, presumo eu. Hesito, procuro o tom, esse que poderá parecer adequado, o do sentimento, fraterno/amoroso, talvez aposto em vestes de requebros poéticos, abraçando com palavras o camarada homem, e sendo algo mais caloroso, até aprisionado pelo atrevimento próprio àquela toxicidade que agora vem sendo denunciável, com as camaradas mulheres. Assim louvando-lhes a coragem, celebrando-lhes a beleza, nada idealizada mas sim esta, óbvia, do tal qual estamos neste agora. Talvez até, distraindo-me, elevando uma ou outra, ou mesmo o conjunto, a arquétipo. Esse que falso, é óbvio, pois ali estão apenas indivíduos. Belos, corajosos. Desejáveis. Seguiria eu então para um ensaio (antropológico) sobre a constituição do desejo?, um poemaço romântico? uma narrativa erótica?, uma qualquer-coisa assim ficcionando sentimentos?

Mas eu não sou esse tipo. Pois vejo as fotografias e vivo outras histórias, menos poetizáveis, até menos narráveis. E é essa minha empatia, rude, descelebratória, que me ocorre. Pois surge-me Sousa, o cidadão presidente, no seu constante "somos os melhores do mundo". E concordo. Pois, dizem-me, somos nós, portugueses, os campeões europeus do divórcio com as mulheres com cancro da mama. Seguimos nº 1 do ranking,  mais de 60% ... Implacáveis seguimos, nisso competentes. Vem o cancro às nossas mulheres? Partimos para outras. Tratamentos? As unhas macilentas, quebradiços os dentes, corpos engordados com os químicos, ancas alargadas, nem um pêlo para amostra, da vagina à cabeça, que aos de abaixo pouco prezamos, olhos baços, e nem falo do medo, quantas vezes até desespero, dos padeceres que nem imagino, dos temores de desacompanhar os filhos, quando os há, tudo isso tão pouco apelativo? E ainda por cima cortam-lhes as nossas tão queridas mamas, a uma ou mesmo às duas? E ainda para mais arrancam-lhes o útero? Nisso tudo durante tempo mulheres sem desejos, vontades? Não foi isto que contratualizámos. Ficou danificada?, vamos para outras. Nisso, nessa mobilidade, nesse verdadeiro empreendedorismo, seguimos "Os melhores da Europa", competentes. E isto vai assim em todos os estratos, "acontece nas melhores famílias". E há bónus, não acaba aqui. Que há quem não se separe, que isto do divórcio empobrece - e de que maneira, como o afiançará quem por ele passa. E assim, conta quem sabe, tantas são as mulheres do cancro da mama, essas durante temporadas menos atreitas ao sexo, menos belas, e, se calhar pior do que tudo, menos airosas como fadas do lar, que às mágoas da doenças juntam as marcas das agressões, as dos "apenas" dichotes e as das verdadeiras pancadas dos extremosos maridos. E isto já não entra para o "ranking".

É esta a minha "empatia". Antipatizando, imenso, com o meu à volta. Compatriota.

*Fotografados / Textos: Telma Feio / Samuel Úria; Susana Neto / Fernando Ribeiro (Moonspell); Susana Cunha / The Legendary Tigerman; Sandra Gil / João Gil; Rute Vieira /  Rita Redshoes; Lourdes Pereira / Ricardo Ramos, Beatriz Rodrigues (The Dirty Coal Train); Paula Pereira / Jorge Benvinda, Nuno Figueiredo (Virgem Suta); Maria Maria / Olavo Bilac; Lucinda Maria Almeida / Jorge Palma; Ivete Oliveira / José Cid; Cristina Filipe Nogueira / António Bizarro; Carla Sofia Henriques / Alice Vieira; Ana Bee / Suzi Silva; Joana Barros / Ana Isabel Pereira; Agostinho Branco / Lena d'Água

 

E então, bate bate coração

por Maria Dulce Fernandes, em 06.05.19

Não creio que seja novidade para alguém o estado clínico de Iker Casillas, guarda-redes espanhol ao serviço do FC Porto, que sofreu um enfarte agudo do miocárdio durante o treino. Felizmente Casillas está bem, está estável e com o problema cardíaco resolvido, mas outros houve, com o músculo mais debilitado, que não foram tão afortunados.
Algumas situações têm prognóstico muito reservado. Em outras menos graves, recorre-se a pacemakers e ao novíssimo HeartMate3, por exemplo, restando a solução do transplante com compatibilidade comprovada para aqueles casos considerados inviáveis do ponto de vista imunitário.
Um transplante bem sucedido e o paciente poderá viver alguns (vários) anos com o seu novo coração.
Como me foi dado a aprofundar recentemente que “não há comportamento humano que não tenha origem biológica”, poderei inferir que o órgão transplantado poderá ter um comportamento errático, por conflitos de informação no código genético existente no DNA e RNA? O dogma central da biologia sintetizará o código comportamental existente num músculo estranho à sua essência? Será pertinente cogitar que o paciente passaria a viver com dois códigos genéticos distintos, o que o tornaria na mítica quimera?
Claro que Hollywood pensou nisto tudo desde os primórdios, com o monstro de Frankenstein possuidor de um músculo em processo de decomposição reavivado por um desfibrilador trovejante, mais humano do que muito músculo pulsante. Poderemos considerar o transplante do Prometeu Moderno, como o primeiro transplante de coração de que há narrativa, ficcionada que seja, em que o comportamento tem origem biológica, apesar de se focar essencialmente mais na mecânica do que na química do processo da criação.

Menosprezando os muitos entraves e obstáculos que todas as “logias” possam colocar, é legítimo cosiderar que suturar um coração e vê-lo palpitar dentro de um peito clinicamente morto será o primeiro passo para um complexo de Deus?
Cogito ergo sum, ou então não.


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