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Delito de Opinião

Saúde e direitos: um retrato

Sérgio de Almeida Correia, 23.01.21

tdmradio.jpgPermitam-me que chame a vossa atenção para o excelente trabalho radiofónico da jornalista Diana do Mar, da TDM-Rádio Macau, sobre o difícil equilíbrio entre a saúde e os direitos numa região que não tem casos locais há largos meses.

Os depoimentos dos entrevistados, entre os quais destaco o da Prof. Vera Lúcia Raposo, da Faculdade de Direito da Universidade de Macau, são incontornáveis, dão uma imagem correcta das preocupações de muitos residentes e dos problemas a que pode conduzir o excesso de zelo, a xenofobia e o nacionalismo serôdio.

E se...

Paulo Sousa, 19.01.21

Qual teria sido o desempenho do nosso tão partidarizado SNS, somado à eficácia dos nossos serviços públicos, considerando a independência dos técnicos superiores da Administração Pública, juntamente com o rigor do nosso Ministério da Administração Interna, sem esquecer a capacidade de decisão e clareza no discurso do nosso PM e ainda mais com a firmeza do nosso PR, se.... em vez de no mercado de Wuhan, o vírus SARS-COV2 tivesse surgido no mercado de Alvalade, da Nazaré ou de Famalicão?

Quando a ciência e a humanidade dão as mãos

Paulo Sousa, 14.01.21

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Esta história deve ser lida e relida.

Nestes tempos em que temos o desassossego por companhia, em que as más notícias nos rodeiam por todos os lados e em que é fácil nos sentirmos perdidos, vale a pena ler e celebrar o que aconteceu na secção de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria.

Desde a primeira contaminação Covid da família, até ao momento actual, nada teria sido possível sem um profundo sentido de humanidade, com especial destaque para os profissionais médicos envolvidos. Não que duvidássemos do sentido de missão e de devoção pelo outro que move, e durante uma pandemia mais do que nunca, um exército de devotados servidores da medicina, mas se há histórias que merecem ser celebradas, esta é uma delas.

Sem rumo

Paulo Sousa, 08.01.21

Quinze dias após a consoada (qual é mesmo o período de encubação da covid?), o número dos infectados disparou a ponto de que teremos de regressar a um confinamento geral.

Aí vamos nós novamente, encosta e abaixo sem travões, derreter os farrapos que restam da nossa frágil economia. Mas há uma coisa que nos alegra, salvámos o Natal!

Exaurimos os serviços públicos, mas conseguimos maquilhar o défice!

Temos a electricidade mais cara da Europa, mas somos os campeões nas ventoinhas fora da paisagem lisboeta!

Até novembro foram contabilizadas 1.186.110 horas extraordinárias no Hospital de Santa Maria, tendo superado as de 2019, mas reduzimos o horário de trabalho dos servidores públicos para as 35 horas!

A mortalidade não covid disparou, mas a culpa é do calor, é do frio, é do sector privado, é de tudo e mais um par de botas, desde que não se fale nas decisões políticas que levaram a que entrássemos nesta pandemia com um SNS já doente.

Esta é a nossa sina na mão dos socialistas.

Este é o tipo de escolhas a que estamos habituados. Benefício enganador no curto prazo, e depois lá para a frente logo se vê!

Temos um PR que em público assume que transmitiu ao PM que uma ministra do seu governo deveria deixar de o ser, e este, ignorando a sua opinião, garante-lhe apoio na sua recandidatura. Pudera, ele quer lá alguém a quem possa ignorar e que não se importe de ficar a falar para o boneco. Faz sentido.

Os idiotas dos americanos arranjaram um sarilho com a votação por correspondência, nós que somos muito mais evoluídos iremos resolver isso quando faltarem duas semanas para as eleições. Ainda dá tempo.

O grunho do Trump colocou os americanos uns contra os outros, preferindo arriscar a estabilidade do país desde que assegurasse o seu poder. Deu-se mal, prestou um péssimo serviço e fez do seu país motivo de chacota global. O nosso governo limita a ADSE para os seus, os outros que engrossem as listas de espera. Hoje celebraram o decreto-lei que alarga este SNS Premium a 100.000 contratados pela Administração Pública, e são os operadores privados de saúde que maioritariamente prestam estes serviço. No privado esta possibilidade está reservada a quem possa pagar por ela. Fico impressionado com tanto humanismo.

O país está sem rumo. É incapaz de se reformar e, tal como um sabonete numa pia molhada, vai deslizando sem oposição, numa velocidade crescente em direcção ao próximo sobressalto. A questão de fundo não é se vamos voltar a ser sacudidos pela realidade, mas apenas quando é que isso irá acontecer. A culpa desta vez será da pandemia.

Organização Mundial da Doença (actualizado)

Pedro Correia, 20.11.20

«A Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou para o excesso de procura de máscaras e outros equipamentos de protecção contra o novo coronavírus, o que pode comprometer a segurança dos que realmente precisam, os profissionais de saúde.»

7 de Fevereiro

 

«A directora de saúde pública da OMS, Maria Neira, assegurou hoje que é "irracional e desproporcionado" que se esgotem as máscaras e os desinfectantes nas farmácias por medo do coronavírus. Neira afirmou que a medida mais efectiva para prevenir o contágio é lavar as mãos com frequência e insistiu que não se justifica que se esgotem as máscaras e os geles desinfectantes, referindo que a situação se baseia no "medo e na angústia das pessoas", o que deve ser evitado.»

26 de Fevereiro

 

«O director do programa de emergências sanitárias da OMS, Michael Ryan, desaconselhou o uso de máscaras generalizado por causa dos perigos do uso impróprio. (...) "Não há evidências específicas que sugiram que o uso de máscara por parte da população geral tenha algum benefício em particular. Aliás, há até indícios que sugerem o contrário", disse Ryan.»

30 de Março

 

«Maria Neira, directora do departamento de Saúde Pública da Organização Mundial de Saúde, afirmou esta segunda-feira que é "cada vez mais" improvável uma segunda grande vaga do novo coronavírus.»

25 de Maio

 

«A OMS admite que o uso generalizado de máscara, quer em espaços públicos, ou privados, pode impedir até 281 mil mortes até Fevereiro do próximo ano.»

15 de Outubro

 

«Hans Kluge, director regional da Organização Mundial da Saúde para a Europa, pronuncia-se contra novas medidas de confinamento e o encerramento de escolas. "Se o uso das máscaras atingisse os 95%, os confinamentos não seriam necessários", sublinhou.»

19 de Novembro

Um pesadelo sem fim à vista

Pedro Correia, 17.11.20

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Vivemos submersos em más notícias. É assim há nove meses. Manhã após manhã, serão após serão. Uma das mais perturbantes foi esta a que o semanário Expresso deu destaque na edição de sexta-feira (mudou o dia habitual de saída devido ao estado de emergência): «Contágio não baixou nos concelhos fechados há mais tempo».

Até que ponto esta amostra recolhida em Paços de Ferreira, Lousada e Felgueiras pode servir de fundamento para uma tese geral? O facto de serem três concelhos caracterizados por larga actividade industrial será determinante para que o fluxo de infecções prossiga sem travão apesar de ali vigorar há quase um mês o regime de semiconfinamento entretanto alargado a outros 188 perímetros municipais? Haverá relação entre o número de contágios e a idade média da população, visto Lousada e Paços serem os dois concelhos com população mais jovem do País?

Algumas interrogações que persistem em ficar sem resposta. Como uma infinidade de outras, ecoadas por tantas vozes ansiosas desde o início de um ano que prometia ser risonho e próspero e afinal se transformou num pesadelo sanitário, económico e social sem fim à vista.

Organização Mundial da Doença

Pedro Correia, 27.10.20

Tantos que não servem para nada

Pedro Correia, 23.10.20

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1

Existe em Portugal, desde 2016, uma coisa chamada Conselho Nacional de Saúde (CNS). 

Serve para quê?

Segundo a página oficial deste organismo, para «apreciar e emitir pareceres e recomendações sobre temas relacionados com a política de saúde», por iniciativa própria a solicitação do Governo. «Produz e apresenta ao ministro da Saúde e à Assembleia da República um relatório sobre a situação da saúde em Portugal, formulando as recomendações que considerar necessárias». E visa «promover uma cultura de transparência e prestação de contas perante a sociedade» . 

É composto, espantosamente, por 30 membros. Reunindo em plenário pelo menos duas vezes por ano e sempre que for considerado necessário, por decisão do presidente deste mesmo órgão ou de um terço dos seus membros, ou em qualquer ocasião a pedido do Governo. Beneficia do apoio permanente de um conjunto de peritos.

Fui à página oficial do CNS, cliquei em "a[c]tas das reuniões plenárias": a mais recente remonta a 4 de Julho. Podia ser pior: ainda não se cumpriram quatro meses de intervalo. Menos actuais são os  "relatórios de a[c]tividades": a contabilidade parece ter parado em 2018.

Enfim, senti curiosidade em perceber que notícias tinha produzido este órgão de consulta do Governo durante todo o Verão pandémico. Nada. Lembrou-se há dois dias de dar sinal de vida, interrompendo um pesado sono para parir uma "reflexão" em dez pontos. Em forma de decálogo e com a linguagem solene e desajustada da realidade a que os burocratas nos habituaram.

Lá surgem inanidades como esta: «Definir e implementar urgentemente um plano nacional de retoma da prestação de cuidados de saúde, que contemple estratégias de resposta à epidemia de COVID-19, assim como estratégias dirigidas ao cuidado das outras doenças agudas e crónicas e da promoção da saúde. Este plano deverá ser inclusivo e ter especial atenção às pessoas mais afe[c]tadas pela pandemia e às em situação de maior vulnerabilidade.» Ou esta: «Reforçar e investir em estratégias de promoção da saúde física e mental e de prevenção da doença, contribuindo para a literacia em saúde e a resiliência da população, envolvendo os recursos disponíveis em entidades governamentais, profissionais de saúde, media e redes sociais para a criação de espaços seguros e promotores de saúde, nomeadamente em escolas, lares e locais de trabalho.»

Fiquei esclarecido: isto não serve mesmo para nada.

 

2

Já havia este Conselho Nacional de Saúde. Mas o Governo, não satisfeito com isso, decidiu criar em Janeiro um Conselho Nacional de Saúde Pública (CNSP). Outro organismo de consulta, este especificamente destinado a emitir recomendações «no âmbito da prevenção e do controlo das doenças transmissíveis». 

Segundo o despacho ministerial que o criou, na tal linguagem pastosa e burocrática que menciono acima, o CNSP «integra representantes dos se[c]tores público, privado e social, incluindo as áreas académica e científica, pretendendo-se eclé[c]tica e abrangente, mas operacional e a[c]tuante».

Não fazem a coisa por menos: este órgão integra 20 membros, aqui enumerados - incluindo um pleonástico assento destinado ao presidente do Conselho Nacional de Saúde. 

O CNSP existe, fundamentalmente, para «análise e avaliação das situações graves, nomeadamente surtos epidémicos de grande escala e pandemias». Pensaríamos, portanto, que teria reunido diversas vezes desde que o surto epidémico em curso provocou a primeira vítima mortal no nosso país, a 16 de Março. Pura ilusão: não reuniu vez nenhuma.

Esta galeria de sumidades juntara-se apenas uma vez, antes dessa triste data, e manteve-se posta em sossego - como a doce Inês de Castro nos versos de Camões - até agora. Mais de seis meses depois, volta a reunir-se esta tarde com a ministra, por vídeo-conferência, para analisar a «implementação de medidas de saúde pública». A anterior reunião havia ocorrido a 11 de Março. E produziu uma inútil recomendação, que o Governo fez bem em não seguir, pronunciando-se contra o encerramento das escolas no âmbito do combate à pandemia.

 

3

Balanço de tudo isto: já havia um órgão inútil, criado por este Governo. Desde Janeiro, passou a haver dois. Enquanto a pandemia alastra a um ritmo avassalador, já com mais de três mil infecções diárias, esta gente nem se dá ao incómodo de fingir que mostra serviço.

Estão lá para quê?

Natal virtual

Pedro Correia, 13.10.20

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Quase em uníssono, numa verdadeira demonstração de unicidade institucional, o Presidente da República (nas linhas) e a ministra da Saúde (nas entrelinhas) vieram alertar-nos: o Natal, este ano, não será Natal.

Será um Natal virtual, à distância, com a brigada anti-contágios sempre vigilante. Contra o novo coronavírus, enquanto os portugueses vão morrendo (mais seis mil do que a média dos cinco anos anteriores) sobretudo com as velhas doenças. Mas morrem entre as quatro paredes domésticas, solitários como nunca, cada vez mais fechados em casa por terem medo de frequentar os hospitais.

Como não recear a nova peste se todas as noites, serão após serão, somos brindados com horas de noticiário em exclusivo sobre a pandemia, criando-se assim a ilusão de que todas as outras causas de infecção e morte foram banidas do planeta?

 

Deixou de haver doenças cardíacas, deixou de haver doenças oncológicas, deixou de haver acidentes vasculares cerebrais. Já não há homicídios, já não há suicídios, já não há "sinistralidade rodoviária" (eufemística alusão aos assassínios no asfalto), já não há violência doméstica. Ninguém mais ouviu falar de tudo isto, que antes dominava os telediários.

Nem sequer uma palavra, nos dias que vão correndo, sobre os riscos do aquecimento global, o degelo no Pólo Norte e a desmatação da Amazónia. Até a menina Greta se eclipsou do mapa mediático. "Vinte-vinte" é o ano do vírus. E 2021 ameaça repetir a dose, sem fim à vista.

 

Entretanto os centros comerciais vão fazendo pela vida nesta era de incertezas. Num deles, vi há uma semana exacta o cartaz que ilustra este texto - prova evidente de que o Natal se tornou mera abstracção, alheio às contingências do calendário. Falta pouco para começar na Páscoa. Ou no Carnaval.

Natal partilhado à distância de um clique no ilusório aconchego do zoom. Com distância física de tudo, excepto de um ecrã de computador.

O passo seguinte será a instalação de barreiras de acrílico em todas as divisões dos apartamentos domésticos, sob minuciosa fiscalização das brigadas sanitárias. E depois outras, a dividir cada divisão. Até cada um de nós se encerrar, devidamente "higienizado", no metro quadrado tumular que lhe couber em sorte ainda em vida.

 

Prendas para a quadra? Façam desde já a vossa lista: máscaras com símbolos natalícios, luvas da cor da barba do Pai Natal, álcool gel com aroma de rena nórdica - tudo made in China, o país de origem do vírus. Deve ser isto a que alguns chamam "economia circular".

Feliz Natal, portanto. Seja lá o que isso for.

Eutanásia social

Pedro Correia, 29.09.20

Está em curso uma autêntica eutanásia social. O morticínio que tem acontecido nos chamados "lares de idosos" - muitos dos quais clandestinos, perante a criminosa indiferença de tantas autoridades autárquicas, de norte a sul do País - é algo que devia chocar todos os portugueses. Das quase duas mil vítimas mortais por Covid-19 oficialmente já registadas, cerca de 40% ocorreram naqueles antros. Vitimando gente indefesa, que na grande maioria dos casos nem pode sair daquelas instalações, onde na prática vigora um regime de reclusão forçada desde que foi declarada a pandemia.

Só em Reguengos de Monsaraz, como num filme de terror, morreram 18. Nunca a bela palavra lar foi tão conspurcada e pervertida.

Infelizmente este assunto, como se tornou hábito, vem sendo tratado apenas enquanto dado estatístico na generalidade dos órgãos de informação. E siga para bingo, pois tristezas não pagam dívidas e há que continuar a promover "spots da moda" e inserir publirreportagens nos telediários recomendando "passeios inesquecíveis" (com gel e máscara).

E colar mais um arco-íris na janela com a frase "vai ficar tudo bem". Num país em que mais de 12 milhões de consultas e cirurgias permanecem por fazer.

De improviso em improviso

Pedro Correia, 11.09.20

image.jpgFoto: Tiago Petinga / Lusa

 

Para não variar, a directora-geral da Saúde voltou a fazer uma declaração inaceitável. Em que, uma vez mais, menospreza e subalterniza o desporto. Como se uma sociedade em que a prática desportiva organizada, promovida por agremiações clubísticas, não fosse parte iniludível da saúde, tanto na componente individual como colectiva.

 

A mesma responsável que autorizou viagens aéreas em voos lotados, o regresso dos concertos, das sessões de cinema, dos espectáculos teatrais, dos circos e das touradas, a mesma alta funcionária governamental que deu luz verde às manifestações e concentrações de rua promovidas por forças partidárias, movimentos cívicos ou grupos espontâneos de cidadãos, a mesma senhora que permitiu eventos tão diversos como a Festa do Avante no Seixal ou a realização do Grande Prémio de Fórmula 1 em Portimão continua a vetar o regresso do público aos recintos desportivos.

Com argumentos sem pés nem cabeça, confundindo aquilo que não deve ser confundido e até fazendo alusões demagógicas ao início do ano escolar, como se isso tivesse alguma coisa a ver com as modalidades colectivas em geral e o futebol em particular.

 

«Público nos estádios e reabertura das discotecas não será certamente nos próximos tempos. Temos de ver esta grande experiência que é o retorno às aulas e qual será o seu impacto nos números», afirmou anteontem Graça Freitas. Equiparando assim as bancadas de um estádio - onde os lugares estão marcados, é muito fácil estabelecer limite máximo de entradas e o espectáculo decorre ao ar livre - ao interior de uma discoteca, onde o espaço é fechado, as pessoas estão sempre em trânsito e não há possibilidade de assegurar distanciamento físico.

Pior: ao englobar na mesma frase bancadas de estádios e discotecas nocturnas, Graça Freitas confirma ter absurdos preconceitos contra o futebol e não fazer a menor ideia sobre a importância do desporto no "desconfinamento" cada vez mais urgente da sociedade.

Como aqui assinalei, futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas - e as receitas de lugares nas bancadas ou camarotes, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de agremiações desportivas que põem centenas de milhares de portugueses a fazer exercício físico. Porque uma sociedade onde não se pratica desporto é uma sociedade doente.

Não compreender isto é nada compreender de essencial.

 

Noutras circunstâncias, eu recomendaria que Graça Freitas se aconselhasse com o secretário de Estado do Desporto. Mas não o faço porque João Paulo Rebelo já demonstrou ser tão insensível e tão ignorante na matéria como ela. Só isso explica que, numa recente entrevista, este governante tenha desvalorizado o facto de largos milhares de jovens continuarem impedidos de treinar ou competir sem restrições, dando-se até ao luxo de fazer uma graçola com a brutal quebra de receitas das agremiações desportivas: «Não temos conhecimento de nenhum clube que tenha fechado portas.»

Seria simplesmente ridículo se não fosse grave.

 

Uma directora-geral que mete estádios e discotecas no mesmo saco, um secretário de Estado totalmente alheado do dramático quotidiano do sector confiado à sua tutela: assim vamos, seis meses após a declaração da pandemia.

De improviso em improviso, de disparate em disparate.

Os 35 mais infectados

Pedro Correia, 10.09.20

Dois meses depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora 908.434 mortos e 28.050.208 infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos. Neste período, o número de óbitos quase duplicou, enquanto os novos casos entretanto detectados subiram cerca de 130%.

Um registo que me leva a ordenar assim os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

Catar: 43.039 casos por milhão de habitantes

Barém: 33,553

Panamá: 22.886

Chile: 22.302

Koweit: 21.502

Peru: 21.258

EUA: 19.765

Brasil: 19.729

Omã: 17.140

Israel: 15.553

Arménia: 15.291

Colômbia: 13.471

Espanha: 11.621

Argentina: 11.315

África do Sul: 10.806

Bolívia: 10.539

Moldóvia: 10.204

Costa Rica: 10.038

Singapura: 9.767

República Dominicana: 9.287

Arábia Saudita: 9.251

Suécia: 8.493

Bielorrússia: 7.768

Bélgica: 7.732

Emirados Árabes Unidos: 7.665

Rússia: 7.170

Quirguistão: 6.828

Bósnia-Herzegovina: 6.793

Iraque: 6.779

Honduras: 6.603

Equador: 6.339

Irlanda: 6.096

PORTUGAL: 6.039

Casaquistão: 5.663

França: 5.269

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior: a pandemia continua em progressão acelerada na zona do Golfo Pérsico e na América Central e do Sul. Em ritmo galopante em países tão diversos como o Panamá (era sétimo em Julho e agora é terceiro), Peru (estava em nono, agora é sexto), Colômbia, Argentina, Bolívia e Costa Rica (que nem figuravam entre os 25 mais infectados). O Brasil sobe de décimo para oitavo.

Pelo contrário, há um claro abrandamento da escalada comparativa de infecções na generalidade dos países europeus. Com destaque para a Suécia (baixa de 13.º para 22.º, Bielorrússia (desce de 14.º para 23.º), Bélgica (era 18.º, agora está em 24.º) e a Irlanda (que passa do vigésimo posto para 32.º). 

Evolução positiva também no Reino Unido (que em Junho era o 15.º país proporcionalmente mais infectado e agora é o 37.º) e em Itália (que baixa de 25.º para 42.º).

Tendência seguida igualmente em Portugal: nestes dois meses, passámos de 23.º para 33.º. Mesmo assim, em termos relativos, somos ainda o quinto país da União Europeia com mais casos de Covid-19 por milhão de habitantes.

Excepção à regra é a nossa vizinha Espanha, que teima em manter-se no pelotão da frente. Pelos piores motivos. Em Julho, estava no 15.º posto desta lista nada invejável e desde então subiu ao 13.º lugar. Neste momento é o único país europeu que figura entre os vinte primeiros.

 

.........................................................................

 

Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes. Seleccionando desta vez 30 para incluir a estatística portuguesa:

Peru: 915

Bélgica: 855

Espanha: 634

Reino Unido: 612

Chile: 611

Bolívia: 611

Equador: 605

Brasil: 604

EUA: 589

Itália: 589

Suécia: 578

México: 535

Panamá: 489

França: 472

Colômbia: 433

Holanda: 364

Irlanda: 360

Arménia: 306

Moldóvia: 272

Irão: 269

África do Sul: 255

Canadá: 242

Argentina: 235

Suíça: 233

Roménia: 209

Bósnia-Herzegovina: 206

Honduras: 206

Iraque: 191

PORTUGAL: 181

República Domicana: 176

 

O destaque pela negativa, desta vez, cabe ao Peru: um salto dramático do 11.º lugar ao primeiro posto nestes dois meses. A mesma tendência ascendente verifica-se noutros países sul-americanos: Chile (de nono para quinto), Equador (de 13.º para sétimo) e Brasil (de 12.º ao oitavo lugar). Além da Bolívia, que em Julho nem figurava entre os vinte com mais óbitos em termos proporcionais. 

Na América do Norte, regista-se um sinal inverso já patente no Canadá (que desce do 15.º ao 22.º posto) e nos EUA (ainda entre os dez mais, mas agora em nono, tendo baixado dois lugares). Só o México contraria esta tendência: subiu do 14.º ao 12.º lugar.

A Itália - que já esteve em primeiro - situa-se hoje na décima posição: há dois meses surgia em quarto. Destaque igualmente para a Suécia, que baixa do 5.º para o 11.º lugar. 

Em rumo inverso, a Espanha troca com o Reino Unido no nada invejável terceiro posto.

 

Ao contrário do que vinha ocorrendo nos meses anteriores, esta lista deixa de ter maioria europeia: neste momento situam-se no Velho Continente apenas quatro das dez nações mais enlutadas, na proporção entre mortos por Covid-19 e a população de cada país. Em Julho, eram oito: Suécia, França, Holanda e Irlanda deixaram de figurar no top ten deste macabro rol dos óbitos mundiais por Covid-19.

Para Portugal, a melhor notícia é a queda para o 29.º posto, confirmando a tendência para a descida já verificada em Julho, quando estávamos em 21.º. Em quatro meses, caímos 17 lugares: convém recordar que no início de Maio ocupávamos a 12.ª posição. A instável Roménia, que na contabilidade anterior tinha cerca de metade do número de óbitos registados em Portugal, está agora à nossa frente.

A má notícia é que ainda figuramos entre os dez mais da União Europeia em número proporcional de mortos. Duplicando os números da Áustria. Apresentando cerca do triplo registado em nações como Polónia, Finlândia e Hungria. E com cerca de seis vezes mais óbitos do que a Grécia, nossa concorrente directa na captação de receitas turísticas internacionais.

A saúde dos portugueses vs o grande capital

Paulo Sousa, 17.07.20

Como acontece com todas as utopias, o liberalismo utópico equivaleria a um retrocesso civilizacional.

Depois de salvaguardado este ponto prévio, tenho de salientar que apesar da fama de defender sempre o grande capital, o liberalismo representado no nosso país pela IL mostra um lado humano defendendo que o dinheiro gasto para salvar a TAP seria mais bem gasto na saúde dos portugueses.

A quem não sofra de frémitos de autocensura recomendo a leitura desta entrevista, onde Carlos Guimarães Pinto desmonta o discurso de Pedro Nuno Santos, e demonstra com clareza a dimensão de mais este erro do governo.

"O dinheiro que será injectado na TAP, apenas nesta primeira fase, daria para pagar ao sector privado as consultas e cirurgias em atraso, evitando parte deste desastre. Infelizmente para o governo a saúde dos portugueses não é estratégica, ao contrário da TAP. Talvez fosse boa altura para mudar as prioridades."

É curioso como são os socialistas, os sempre autodenominados donos dos valores do humanismo, a pôr em práctica exactamente o contrário.

São vários os analistas que defendem que António Costa entregou o Ministério das Infraestruturas a Pedro Nuno Santos para o queimar. Quanto pior lhe corra a vida política e mais desastrosas forem as consequências das suas decisões, mais distante ele ficará da liderança do PS. Este é o tipo de decisões que mostram que entre as lutas internas no seu partido e o interesse do país, o PM coloca as nossas algibeiras e o nosso futuro último lugar.

Os 25 mais infectados

Pedro Correia, 09.07.20

Um mês depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora 552.438 mortos e 12.187.474 infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos.

Chamo especial atenção para a proporção entre o número de infectados e cada milhão de habitantes dos países que constam deste quadro incompleto (a Coreia do Norte e o Turquemenistão, por exemplo, estão ausentes).

Um registo que me leva a ordenar assim os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações extra-europeias com menos de um milhão de habitantes:

 

Catar: 36.168 casos por milhão de habitantes

Barém: 18.174

Chile: 15.852

Koweit: 12.175

Arménia: 10.240

Omã: 9.829

Panamá: 9.558

EUA: 9.544

Peru: 9.488

Brasil: 8.073

Singapura: 7.763

Luxemburgo: 7.426

Suécia: 7.312

Bielorrússia: 6.797

Espanha: 6.408

Arábia Saudita: 6.322

Islândia: 5.509

Bélgica: 5.367

Emirados Árabes Unidos: 5.362

Irlanda: 5.172

Rússia: 4.847

Moldóvia: 4.579

PORTUGAL: 4.400

Reino Unido: 4.227

Itália: 4.405

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior: a pandemia continua em progressão acelerada na zona do Golfo Pérsico (que os telediários portugueses nunca reportam) e na América Central e do Sul. No Brasil, mais do que duplicaram os registos de infecção ao longo deste mês, no Chile duplicaram e no Panamá quase triplicaram. 

Os países europeus deixaram pela primeira vez de figurar entre os dez mais infectados. Agora o mais próximo de nós que integra este quadro é a Arménia, já situada na Ásia Menor. Vale a pena acentuar o caso de Espanha, que há 30 dias estava no 6.º lugar e agora caiu para 15.º, em evidente regressão comparativa. Ao contrário da Suécia, que sobe ligeiramente (de 14.º para 13.º).

Em queda estão também o Luxemburgo (antes em 5.º, agora em 12.º), a Bélgica (baixa de 11.º para 18.º), a Irlanda (cai de 12.º para vigésimo), e sobretudo a Itália (há dois meses era a quinta mais infectada, há um mês figurava em 18.º lugar e agora ocupa o último posto destes 25). Igual tendência verifica-se no Reino Unido (baixa de 15.º para 24.º).

Mantém-se a ausência neste quadro de países europeus como França, Holanda e Suíça, que já estiveram em lugares cimeiros. Nos dez mais, destaca-se a entrada do Brasil, onde a progressão de novos casos de coronavírus segue em aceleração contínua: basta recordar que há um mês estava oficialmente atrás de Portugal, na 23.ª posição.

O nosso país continua entre os 25 mais infectados, tendo recuado apenas um posto: a nossa queda comparativa é muito inferior, por exemplo à do Reino Unido, que há 30 dias estava em 15.º lugar e passou a ter menos infectados por milhão de habitante do que nós. Em termos relativos, somos hoje o sexto país da União Europeia com mais casos de Covid-19, o que explicará, em larga medida, o facto de integrarmos várias listas de nações a evitar pelos turistas no âmbito comunitário.

 

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Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes. Seleccionando desta vez vinte e um para incluir a estatística portuguesa:

Bélgica: 844

Reino Unido: 656

Espanha: 607

Itália: 577

Suécia: 543

França: 459

EUA: 407

Holanda: 358

Chile: 344

Irlanda: 352

Peru: 338

Brasil: 320

Equador: 276

México: 254

Canadá: 231

Suíça: 227

Panamá: 190

Arménia: 181

Luxemburgo: 176

Rep. Dem. Congo: 172

PORTUGAL: 160

 

Destaco aqui a permanência no topo da Bélgica (um país de que se fala muito pouco em associação com a pandemia, apesar de quase todos os órgãos de informação portugueses terem correspondentes em Bruxelas). A Itália - que já esteve em primeiro - mantém-se agora fora do pódio. E a Espanha cede pelo segundo mês consecutivo ao Reino Unido o nada invejável segundo posto.

Destaques, também aqui, para os óbitos registados no continente americano: desde logo os Estados Unidos da América (que sobem de sétimo para oitavo), o nada badalado Canadá (que cai do 11.º para o 15.º posto) e o preocupante Chile (pela primeira vez na lista dos dez países com mais óbitos por milhão de habitantes, ultrapassando até Brasil e Peru). 

Mesmo assim, esta continua a ser uma lista predominantemente europeia, com oito em dez nações nesta proporção entre mortos por Covid-19 e a população de cada país. 

Para Portugal, a melhor notícia é a nossa ausência da macabra lista dos vinte com mais óbitos. Saímos à tangente, estando agora em 21.º lugar, devido à entrada de um país africano, a República Democrática do Congo. Em dois meses, caímos nove lugares: no início de Maio, convém recordar, ocupávamos a 12.ª posição.

A má notícia é que ainda integramos este triste top ten da União Europeia. Com cerca do dobro de óbitos ocorridos em países como Áustria ou Roménia. Ou cerca do triplo registado em nações como Noruega, Finlândia e Hungria. E quatro vezes mais do que na Polónia, Sérvia ou Bulgária. E cerca de oito vezes mais do que a Grécia, nossa concorrente directa na captação de receitas turísticas internacionais.

Artigo 13.º CRP *

Paulo Sousa, 06.07.20

O facto dos sindicatos da função pública exigirem há muito que os trabalhadores com contrato individual de trabalho (CIT) tenham acesso à ADSE comprova o que todos sabemos mas que por vezes acaba por haver sempre alguém a querer negar. A assistência médica da ADSE é superior à do SNS. Isto não é uma segunda descoberta da roda mas apenas um ponto prévio, de forma a evitar o normal desvio do debate em que os seus beneficiários venham dizer que a ADSE não é assim tão boa.

Pelo que ouvi dizer, é normal que os seus beneficiários sejam encaminhados para unidades privadas de prestação de serviços de saúde. Importa salientar que estas entidades privadas são aquelas que o governo e seus apoiantes (e também seus beneficiários), não se cansam de dizer com desprezo que “visam o lucro”. Depois de dizerem a palavra “lucro” vão a correr lavar os dentes com a convicção de quem despreza as gengivas. Eles, os ungidos, pelo contrário valorizam é o SNS, por visar o prejuízo, mas com a ressalva de que seja apenas destinado aos outros, aos que pagam esse prejuízo.

Soube-se agora que, mesmo sem que tenha havido qualquer adjudicação, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), o mesmo ministério que gere o SNS, está a pagar aos seus funcionários com CIT um seguro privado de saúde.

Segundo a notícia, o ex-presidente da administração dos SPMS, responsável pela aquisição dos seguros de saúde, justifica isto com o facto de ser necessário amenizar as desigualdades dentro da empresa.

Pelo que entendi, o jornalista não terá perguntado ao ex-presidente da administração dos SPMS, nem à Ministra da Administração Pública, nem à Ministra da Saúde, nem ao Primeiro-Ministro, nem já agora ao Presidente da República, o que acham sobre as desigualdades entre estes portugueses e os restantes que não têm acesso a estas versões Premium do SNS.

* Princípio da igualdade:

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

Falta de decência

Paulo Sousa, 18.06.20

Era uma vez um país em que um quinto dos seus cidadãos vivia na pobreza ou no seu limiar, que tinha recebido milhares de milhões de euros por ano em transferências de fundos europeus, que mesmo assim tinha conseguido ir à falência, e que depois disso continuava a aumentar a sua dívida em várias dezenas de milhares de milhões euros por ano.
Nesse país, um dia reuniram-se as três principais figuras de Estado para anunciar pelas televisões ao país que - orgulho! - a Final da Champions seria realizada na nossa capital!!
Dizem que o tipo que escrevia os discursos do PM lá do sítio não jogava com o baralho todo, coitado. Os pais eram primos direitos e ele babava-se um bocado, mas tinha sido o melhor no ensino especial. Deixavam-no andar por ali porque ajudava a preencher as quotas para que a equipa de assessores fosse inclusiva.
O discurso tinha de mostrar ao país que esta grande conquista – não, não tínhamos nenhum astronauta na ISS, era muito melhor do que isso – era uma conquista de todos os cidadãos. O gajo adorava bola e estava em êxtase. Ele latejava de inspiração e o teclado já estava em brasa.
Se estivéssemos a atravessar mais uma época de incêndios, esta fantástica e maravilhosa conquista seria um prémio para os nossos bombeiros, os nossos heróis, mas como ainda não está a fazer calor... então ia bem era para os profissionais de saúde, pronto! Isso sim, era uma boa ideia. As palmas na varanda já lá vão. Eles mereciam alguma coisa objectiva e de efectivo valor. Era por isto que eles ambicionavam!
Felizmente o chefe dos Spins leu o discurso antes de o passar para as mãos do PM e achou que afirmar que este evento “era um prémio merecido para os profissionais de saúde” seria ofensivo para os próprios, riscou a frase e, à costa da mão, deu uma bofetada ao anormal que a tinha escrito.
E assim o último limite da decência foi salvo.

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No hospital d' aquém-Tejo

jpt, 05.06.20

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Uma indisposição, felizmente não gravosa, de familiar bem próximo conduziu-me ontem ao hospital distrital deste aquém-Tejo. Na triagem a categoria atribuída foi verde (bela cor, claro). Após 2 horas e tal de espera telefono a médica amiga, "fita verde? aí? Tens para oito horas...", e sosseguei, qual esse outro Flávio, o estóico tio-avoengo Marco Aurélio. Enfim, foram mais de sete horas de espera. À porta, em pé - ali há apenas um pequeno banco, para duas pessoas, alambique de covid-19. O cafézito, pepsi-cola a 1,8 euros? "Posso-me sentar? Sim, durante 20 minutos" diz-me a simpática "colaboradora" (como agora sói dizer-se), imune à decerto ilegalidade da afronta."Porque não foste ao hospital ...!?", o privado, claro, depois, já noite mesmo, e isso neste Junho de ocasos lentos, me barafustaram amigos. Sorrio, não elaboro introspecções, e nunca em público. E muito menos falo deste escândalo do funcionalismo público. Ululantes na verborreia dos "direitos adquiridos" e das nobres causas. Mas na hora doente alheados - por via dos privilégios do tal funcionalismo - de nós ali, a obesidade pobre, velhos pouco-validos, os sotaques agudos e ondulantes, ciganos, apatetado eu e talvez algum outro, negros (pós)imigrados. Para quê falar disso se o meu familiar está bem, para quê resmungar?

Simpáticos os "seguranças" como agora se chamam os contínuos, desprovidos da arrogância que os uniformes tanto convocam. "Posso entrar só para ir ver o meu ai-Jesus?", pergunto a um deles. "Sim, mas pouco tempo, sff" anui. E lá está a "carne da minha carne", sentada na cadeirinha de plástico fixada à parede, ombreando com a longa de fila de doentes, todos mais juntinhos do que os passageiros da TAP a olharem em frente, como manda a dra. Graça, a Freitas ("vão visitar os idosos", dizia ela quando os tontos espanhós fecharam os lares e o povo gosta da senhora, "tão competente", e a burguesia e o funcionalismo público ainda mais gosta pois "tão PS"). Repito, ombro a ombro, ali estão os doentes, da fita amarela até à menos urgente.

Falar disto para quê, se o meu familiar está bem, para quê resmungar? No caminho para casa conta o "sangue do meu sangue", na estupefacção de quem tal nunca vira, "ao meu lado um doente velho dizia ao telefone "não via uma coisa destas desde os tempos da Guiné", e eu imagino-lhe a tatuagem "amor de mãe, 70-73", veterano agora transposto para hospital de campanha. "As velhinhas na maca a pedirem água e ninguém lhes dava" e eu a relativizar, coisas da necessária dureza do trabalho hospitalar. "As enfermeiras aos gritos umas com as outras e a não ligarem aos doentes", e eu aduzindo que talvez sejam "auxiliares", que há destrinça nos uniformes, etc. É a era do Covid-19, dirão. Mas talvez não seja. É este aquém-Tejo, célebre pela rudeza das gentes, cultura ríspida. Talvez, ainda que isto aqui seja de povoamento tão recente. Pois, de facto, apenas é.

Portanto, uma indisposição, felizmente não gravosa. À qual se segue uma mudança nas vidas. Deslocações. E quarentenas. Não porque não possamos apanhar o tal covid-19 (tão anunciado no tal hospital). Mas porque não posso conviver com os meus circundantes, os tais "grupos de risco". Porque estivemos num hospital, público. Comandado pela simpática ministra. "O barato sai caro", diz o povo, condenado ao barato.

Entretanto, nem eu posso ir à bola nem o tal familiar pode ir às festas, ralhou-lhe Sousa.

Cambada de imbecis

Pedro Correia, 27.05.20