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Delito de Opinião

Está na hora de mandar o Pinto Luz para a Saúde

Sérgio de Almeida Correia, 03.11.25

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(créditos: daqui)

Ele já tinha dito que "nunca antes os portugueses gastaram tanto na sua própria saúde como agora". Foram milhões e milhões de euros sem resultados.

Em Portugal, há oito anos, o Serviço Nacional de Saúde consumia cerca de 8 mil milhões de euros. Neste momento, consome quase 14 mil milhões de euros. A quase duplicação do valor entregue ao SNS não corresponde a uma melhoria e da eficiência da capacidade de resposta aos problemas dos cidadãos”. Neste momento era antes do PSD chegar ao Governo.

Só que desta vez a ministra da Saúde garantiu que se tratava de “uma grávida que não era acompanhada até que deu entrada no Amadora-Sintra já com 38 semanas”. O problema estava identificado: com os governos de Montenegro as grávidas passaram a vir de jacto para parir. 

Logo haviam de aparecer uns tipos da confiança da ministra dar cabo do programa "Acreditar" e dizer-nos que "a grávida havia realizado duas consultas de vigilância". E que além disso comparecera a consultas de obstetrícia em 17 de Setembro e 29 de Outubro, esta última dois dias antes de perder a vida.

Compreendo que depois de tanta berraria – não é só o Andrézito que berra – o incómodo seja grande, mas o problema talvez se resolvesse com o tal "sistema de informação clínica plenamente integrado", que evitasse que a ministra da Saúde andasse a saber do que se passa no seu sector pelos sinais de fumo que de quando em vez alguns índios lhe enviam.

De qualquer modo, o OE para 2026 diz-nos que os 14 mil milhões dos despesistas que antecederam os actuais governantes já ficaram para trás. A factura ultrapassará 17 mil milhões, pese embora não se saiba ainda quantas mais mulheres vão continuar a parir algures, em todo o lado menos nas maternidades.

Enquanto não chega esse sistema de informação clínica integrado, sugiro que o primeiro-ministro Luís Montenegro faça uma troca de pastas entre Ana Paula Martins e Miguel Pinto Luz.

Os portugueses sabem que os problemas aeroportuários, ferroviários, portuários e da habitação são insolúveis; que lobbies há em todo o lado, e que irão continuar a pagar. E se assim é não se perdia nada em mandar Ana Paula Martins para o Ministério das Infra-estruturas e Habitação.

Montenegro continuava com a senhora no Executivo sem correr o risco dela fazer mais estragos. Ao mesmo tempo dava-se uma oportunidade ao novo menino de ouro do PSD, Pinto Luz, para mostrar na Saúde toda a sua valia na melhoria do SNS e num aumento da eficiência da capacidade de resposta aos problemas dos cidadãos. 

Refluxo

Maria Dulce Fernandes, 15.05.25

Lembro-me bem de, menina de tenra idade, caminhar com a minha mãe a muitas consultas de diversos médicos e especialistas, devido “à dor”. A menina tinha uma dor, estava sempre mal disposta, não queria comer e parecia um pau de virar tripas.

Não houve diagnóstico nem medicação que tratasse o problema. Só por volta dos meus 12, 13 anos o médico de família do Centro de Saúde das Florindas me diagnosticou um refluxo gastroesofágico. Comecei por tomar um “pó” com fórmula de preparação farmacêutica  que se misturava na água e ficava com uma aparência e consistência leitosas, muito parecido com a fórmula que o meu pai tomava para a úlcera gástrica, e só bem mais tarde passei a tomar um “inibidor da bomba de protões”, então apenas mediante receita médica e presentemente de venda livre  em qualquer espaço de saúde.

Quem sofre desta condição sabe o que deve fazer para a minimizar a azia e o desconforto. A minha tia Adelaide sofria do mesmo problema e cada vez que os sintomas se agudizavam era sempre “ataque cardíaco” e corrida para o hospital, onde, cliente habitual, lhe era ministrado um medicamento para os gases e um calmante e mais nada. Mas com 90 anos a hipocondria é desculpável.

Para além do “inibidor da bomba de protões” em s.o.s, comer bem, com moderação e no mínimo quatro horas antes de se deitar, resolvem na maioria das vezes a situação, sem dramas nem sustos.

Uma vez habituados às poucas regras que a condição acarreta, uma qualquer crise mais aguda não é de modo algum impeditiva de fazer uma vida normal e activa, onde a prática do desporto é vivamente aconselhada. Tudo o mais é um perfeito exagero.

Começar 2025 em grande

Sérgio de Almeida Correia, 03.01.25

A Televisão de Macau deu a notícia no Telejornal de ontem.

Esta manhã, o jornalista contava mais um episódio da quase tragédia grega que se abateu sobre a Escola Portuguesa de Macau, os seus professores e alunos:

"A Escola Portuguesa de Macau (EPM) despediu no final do ano civil [31/12/2024] dois professores que tinham sido contratados localmente, numa altura em que se depara com falta de docentes e pretende autorizações de licenças especiais junto do Ministério de Educação, Ciência e Inovação (MECI) para trazer docentes de Portugal.

Um dos docentes demitidos leccionava a disciplina de economia e o outro as disciplinas de matemática e físico-química. Ambos foram contratados com o corrente ano lectivo em andamento, numa tentativa de preencher o quadro de docentes, depois de várias saídas da instituição durante o Verão, que motivaram inclusive queixas às autoridades locais."

Calculo que esta tenha sido mais uma medida para diminuir o número de alunos sem aulas, situação que é acompanhada em Lisboa com a devida atenção e que certamente visa dar corpo ao compromisso anteriormente reafirmado pelo responsável do Governo português que supervisiona o caos.

Não obstante, quer-me parecer que começa a ser evidente a necessidade da Fundação da Escola Portuguesa de Macau, que ainda deverá ter – embora faltem alguns meses para as eleições presidenciais – por principal missão garantir o funcionamento e desenvolvimento da Escola Portuguesa de Macau, passar da área governativa do Ministério da Educação, Ciência e Inovação para a alçada do Ministério da Saúde.

É preciso garantir as horas de sono, o respeito pelos fusos horários e o bem-estar de docentes e discentes.

[06/01/2025: um oportuno esclarecimento]

 

Uma questão de saúde

Cristina Torrão, 09.12.23

A partir de um link da página SAPO, fui direccionada para um artigo de opinião de Carla Baltazar.  É apresentada como "gestora e mentora" e eu nunca tinha ouvido falar dela. Achei, porém, o artigo interessante, até porque vinha de encontro a algo que o meu marido ouviu num documentário televisivo.

A propósito do COP28, Carla Baltazar pergunta-se: podemos pensar na saúde do planeta como pensamos na nossa? O facto é que, se o fizermos, entendemos melhor porque nos custa tanto adoptar certas medidas e comportamentos, tendo em vista a preservação da Natureza.

Quando estamos doentes, ou a dar cabo do nosso organismo com maus hábitos, temos de prescindir de certos comportamentos, ou confortos, por vezes, temos mesmo de nos sujeitar a tratamentos dolorosos. Claro, trata-se sempre de uma opção pessoal. A maior parte de nós sujeita-se ao que os médicos prescrevem, ou aconselham. Para os que não o fazem, as consequências podem ser catastróficas. E há quem só se deixe tratar, quando é tarde demais.

Sei que é difícil para muitas pessoas resistir aos prazeres do dia a dia porque é difícil imaginar o que será esse futuro distante. E é isto que vem de encontro ao que o meu marido me contou. O tal documentário ocupava-se da pergunta: porque é tão difícil a muitas pessoas adoptarem comportamentos benéficos para o planeta? Resposta: porque os resultados não são imediatos.

Assim como não adianta dizer a certos jovens que olhem pela sua saúde, caso contrário, sentirão as consequências, quando forem mais velhos, também muitas pessoas não vêem razão para mudar certos hábitos, tendo, como meta, benefícios a longo prazo.

Um dia será tarde demais. Nessa altura, porém, já não somos nós a sofrer. Apenas os nossos filhos, netos e bisnetos. Há quem se preocupe com isso. E há quem encolha os ombros e diga: "que se aviem!"

Século XXI, às portas de Lisboa

Pedro Correia, 23.08.23

Um cidadão português chega ao Hospital de Loures com uma anca fracturada e morre estendido numa maca de bombeiros num corredor das urgências, onde aguardou durante seis horas transferência para o Hospital de Santa Maria por alegada falta de ambulâncias disponíveis.

Às portas de Lisboa, neste século XXI. Sob a maravilhosa "gestão pública" que agora promete, com a habitual língua de pau dos burocratas, a «abertura de um processo de inquérito com carácter de urgência para cabal apuramento dos factos». 

Quando o diagnóstico está feito pelo próprio Ricardo Leão, autarca socialista do concelho de Loures: o hospital deve regressar sem demora à gestão privada.

 

Leitura complementar: «Nem deixaram tratar o meu pai, morreu no corredor.»

A saúde em primeiro lugar

Paulo Sousa, 10.07.23

Soubemos há dias que o Hospital de Santa Maria (HSM) enviou uma grávida de risco para o Hospital da CUF. A decisão médica que levou a que esta medida fosse tomada resultará da consciência da incapacidade do HSM em prestar os devidos cuidados, assim como da inquestionável opção em colocar o utente, e o bebé neste caso, no centro da acção médica.

Ao contrário do que fariam os mais empedernidos defensores da lógica pervertida de que uma decisão médica se deve centrar na natureza económica do prestador, o corpo clínico do HSM decidiu bem.

Muitos dos problemas que sentimos na saúde em Portugal seriam ultrapassados, ou significativamente reduzidos, se as ideologias saíssem desta equação e fosse possível combinar a capacidade instalada entre o sistema público e os recursos existentes no privado.

Ecografias, electrocardiogramas, raio-X, análises ao sangue e muitos outros diagnósticos funcionam nesta combinação de recursos. Para cada um destes serviços existe um preçário definido pelo SNS e o utilizador dirige-se ao prestador que considera mais adequado às suas necessidades. O critério de escolha pode ser a proximidade geográfica, o horário de funcionamento, a qualidade de atendimento, a rapidez na entrega dos resultados ou qualquer outro à sua escolha. A concorrência entre os operadores privados estimula-os a melhorar, com vantagens óbvias para quem recorre aos seus serviços. Tal e qual como acontece com os supermercados, bombas de combustível, restaurantes ou outros negócios, com a variedade de escolha é sempre o cliente que sai beneficiado.

Com diferentes nuances, é dentro desta lógica que funcionam sistemas públicos da saúde que são muito mais eficientes que o nosso. Pelo que já li, podemos aqui referir o exemplo alemão e o inglês.

No nosso rectângulo, o debate entre estas duas formas de gerir os cuidados médicos é habitual que a prioridade do serviço prestado ao cidadão seja atropelada por interesses corporativos, sindicais e políticos.

Do ponto de vista dos sindicatos é preferível concentrar o máximo número de trabalhadores sob a mesma entidade laboral. Se estes estiverem dispersos por vários empregadores, o sindicato perde poder.

Reformas que levem a mudanças de rotinas e que interrompam interesses instalados geram sempre fricções contra quem as decida fazer e o actual poder político é avesso a essas coisas.

O número, sempre crescente, de portugueses sem médico de família, as listas de espera por cirurgias e por outros actos médicos, envergonham o país. A estatística confirma que a mortalidade está a aumentar. Em resultado da falta de vontade governativa em fazer as reformas necessárias, hoje vive-se menos, vive-se pior e morre-se por causas que um sistema público de saúde centrado no cidadão, e não nos prestadores, conseguiria evitar.

O governo prefere apostar nos arranjos cosméticos, como é o caso das maternidades de serviço rotativo que colocam enorme pressão nas grávidas. Os casos de partos em ambulâncias que circulam de maternidade em maternidade, à procura de uma porta aberta, são tão frequentes que até criam a ilusão de que a natalidade está a aumentar, o que infelizmente não é verdade. Em Abril passado, soubemos da perda de um bebé, cuja mãe "esteve mais de duas horas dentro da ambulância sem saber para que unidade hospitalar iria".

A situação que motiva este postal, um hospital que num caso complicado recorre a outro hospital, não deveria gerar qualquer espanto, mas infelizmente a notícia justifica-se.

Muitos palermas conservadores, enquistados pelo ódio ao lucro e pela inveja da não dependência do erário público, do alto do seu acesso ao ADSE, ou similar, tentam defender a situação insatisfatória em que um SNS disfuncional acaba por ser destinados apenas aos mais pobres.

Estão errados acima de tudo pela visão afunilada que têm e que os impede de tomar consciência de que quando alguém precisa de assistência médica não quer saber se quem o assiste é funcionário público ou não. Insistir numa receita que sabemos não trazer os resultados pretendidos é um sinal de burrice, de alienação da realidade e de imoralidade para com os compatriotas.

As queixas dos portugueses

Paulo Sousa, 19.06.23

Na sexta-feira passada assisti a uma Assembleia Municipal que, de forma diferente do habitual, decorreu fora da sede de concelho. Há uns anos instituiu-se uma rotação esporádica destas sessões entre as diferentes freguesias do Município de Porto de Mós. Julgo que estas Assembleias Municipais Descentralizadas ocorram uma vez por ano e esta foi a primeira vez que visitaram a Freguesia do Juncal.

O público não aderiu em massa, longe disso. Pelo que já verifiquei noutros tempos, em que durante alguns anos me deslocava a Porto de Mós e não perdia uma, na generalidade o público não sente a vida autárquica como sendo coisa sua. Excepção feita nas campanhas eleitorais em que, ágil, se desloca às sessões de esclarecimento, vulgo porco no espeto com minis e vinho a gasto.

Antes de se deslocar a uma AM, para usar da palavra no designado “período antes da ordem do dia”, o público prefere cumprir a sequência natural das coisas e começa por apresentar as suas reclamações na respectiva Junta de Freguesia. Só depois de repetidos pedidos não terem resultado é que então, talvez, se desloque ao plenário municipal. Como resultado disso, ao se ouvirem os Presidentes de Junta, escutam-se as queixas mais representativas dos seus fregueses.

Pelo que me recordava doutros tempos, o padrão dos assuntos mais repetidos prende-se com buracos por tapar, equidistância na distribuição dos contentores do lixo e o estado de estradas e caminhos.

Desta vez, apercebi-me que o padrão se alterou. Em praticamente todas as intervenções dos Presidentes de Junta, repetiu-se a queixa pela falta de médicos e pelo deficiente estado do SNS.

O Presidente, Jorge Vala, explicou que existe no concelho uma Unidade de Saúde Familiar (USF), constituída por, julgo, três antigos Centros de Saúde, e também por diversas Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP). A maioria das queixas prende-se com este último modelo.

A regular abertura de concursos para colmatar a falta de médicos há muito que passou a ser apenas uma esfarrapada desculpa para a evidência de que este modelo não é capaz de atrair profissionais de saúde. Pelo contrário, há muito menos queixas do funcionamento das USF, onde o sistema de incentivo, assente em critérios objectivos de desempenho, leva a que quem ali trabalhe possa beneficiar de um significativo aumento salarial.

Fiz umas pesquisas e tropecei nesta avaliação custos-consequências comparativa das USF e UCSP. Respeita ao ano de 2015 e não sei se haverá alguma mais recente. Na generalidade comprova as vantagens do modelo USF relativamente ao das UCSP. Sobressai uma enorme diferença entre o custo por inscrito e o custo por utilizador. As UCSP têm mais utentes inscritos e assim, estatisticamente, podem diluir os seus custos por uma base mais alargada, o que explica o seu menor custo por inscrito.

Mas se observarmos ao número de pessoas que realmente as elas recorre a situação inverte-se, pois as USF, embora tendo menos utentes inscritos (também por serem poucas), compensam isso com o facto de serem úteis muito mais vezes. Assim conseguem um bem menor custo por utilizador.

Ao ver isto, recordei-me do que assisti há pouco tempo, uns dias antes de uma viagem sobre a qual aqui postei. Como ali conto, o meu companheiro caiu de bicicleta e ficou com um significativo golpe no nariz. Depois de uma lavagem com a água que transportávamos para hidratação, pedalámos ainda uns quinze quilómetros até chegar a uma destas UCSP. E é aqui que as duas histórias se juntam.

O senso comum de um leigo como eu dizia que a coisa se resolvia com uns pontos. Após demorado debate, os técnicos ali presentes acabaram por concluir que ele teria de ir para o hospital, pois podíamos estar perante uma situação grave. Não valia a pena argumentar que se fosse esse o caso ele não teria ali chegado a pedalar. Além disso, não sou entendido na matéria e, pior ainda, eu estava de calções, o que anula qualquer razão que se possa ter num debate.

Lá chamaram uma ambulância dos Bombeiros Voluntários e lá foi o João para o Hospital de Leiria. Valerá a pena lembrar que, entre a queda e a chegada ao Hospital, já tinham passado umas três horas. O médico que o assistiu nas urgências não se coibiu de reclamar pela falta de noção que fizera mobilizar uma ambulância e dois bombeiros, sobrecarregar as urgências, para simplesmente aplicar três pontos.

Atrevo-me a dizer que, a boa-vontade que terá faltado na avaliação que desencadeou toda aquela operação não se teria verificado se, em vez de se alimentar um aparentemente inócuo jogo do empurra (é verdade que se aproximava a regimental hora do “despegar”), houvesse ali aquele pequeno benefício material chamado incentivo pelo desempenho.

Ora, se o serviço prestado pelas USF é comprovadamente melhor, porque é que se insiste em manter as UCSP? A resposta mais provável é que isso obrigaria a fazer reformas e o governo maioritário de António Costa é incapaz de tal travessura.

Regressando à AM, perante tamanhas falhas de serviço, os Presidentes de Câmara não têm como acorrer à sua população nos pedidos desta natureza. Isso é especialmente difícil para um autarca do PS, porque se sentirá com menor margem para apontar para o verdadeiro culpado de não reformar, de não resolver, de não decidir.

Ora, tendo o meu Presidente da Câmara sido eleito por um partido da oposição, acaba por ter mais margem de manobra para se escudar em explicações à população. Apesar disso, imagino que por achar que não foi eleito para apontar culpados contratou no ano passado com uma seguradora o Plano de Saúde para Todos os munícipes que, não obrigando ninguém a nenhum pagamento, lhes permite aceder a um alargado leque de consultas de diversas especialidades no privado, com descontos significativos. Esta medida tem conseguido um elevado nível de satisfação.

Recordo um dos Presidentes de Junta que lembrou o que as estatísticas já comprovam: o facto de se estar a morrer mais cedo, por falta de assistência médica. Há gente a morrer antes da idade que a ciência dos nossos dias permitiria.

A redução da esperança média de vida já levou até a uma correcção da idade da reforma. A explicação oficiosa é que isso resulta da pandemia, mas os números mostram-nos que o aumento da mortalidade não-covid é uma realidade.

Constatar isto, que não deixa de ser uma forma de miséria, é triste.

António Costa insiste em desmentir a realidade, fazendo afirmações que não são mais do que tentativas de criar uma narrativa. Insiste e, sem temer o ridículo, volta a insistir. Quem é que ainda se lembra daquela segunda-feira, em que de entre o cerrado nevoeiro iria surgir não o Dom Sebastião, mas a solução de parte dos problemas do SNS? E os palermas aplaudem, em especial os beneficiários da ADSE (o SNS versão Premium). A ideologia que lhes sustenta a visão sectária do país, consome-lhes o humanismo, que se gabam de ter em abundância. São a manifestação de uma outra forma de miséria.

A miséria final vai para a oposição do PSD de Montenegro que, em vez de dar voz aos portugueses, em vez de tomar a iniciativa e de marcar conferências de imprensa ao lado das filas de espera, onde milhares de portugueses passam madrugadas para conseguirem uma consulta, continua apostada na velha regra de que para conseguir chegar ao poder lhe basta fingir-se de morto. Perante o que vejo, mais do que fingir-se de morto, o PSD de Montenegro, precisa antes de conseguir fingir que está vivo.

Chamem o almirante

Pedro Correia, 31.08.22

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António Costa, confrontado com o irrevogável pedido de demissão da titular da pasta da Saúde na última madrugada das suas férias, revelou ao País que Marta Temido já antes tinha querido sair do governo - confirmando assim a sua vocação para fritar ministros na praça pública.

Espantosamente, acrescentou não sentir urgência em removê-la. Como se a caótica situação no Serviço Nacional de Saúde não exigisse decisões rápidas em vez de hesitações movidas por tacticismo político ou mera acrimónia pessoal. 

Se o impasse perdurar, talvez o melhor seja chamar outra vez o almirante. Intervenção castrense no SNS, com médicos obedecendo a uma possante voz de comando e sujeitos ao Regulamento de Disciplina Militar. Sob o lema «Tu vais para a tropa, pá!»

A Super-Marta

jpt, 31.08.22

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Quando no Verão de 2019 voltei a Portugal algumas vezes comisquei com gente médica, que me é muito próxima. E querida. Gente que não é paladina do marxismo, em qualquer das suas versões, nem da estatização da sociedade. Mas que é radical defensora do Serviço Nacional de Saúde.
 
Nesses convívios muito me disseram sobre a decadência do SNS, apontando que o país está há décadas no mesmo processo que o britânico, o que promove um serviço público (e fragilizado) para os pobres e um privatizado (e reforçado) para os remediados. Mais me avançaram - com argumentos substantivos, de profissionais que reflectem - que o problema não está na "medicina privada" ("os barões da medicina" como ainda alardeiam os demagogos do costume) mas sim nas concepções e práticas políticas, dominantes quase há 30 anos. E nisso muito por influência - entre outras estratégias relevantes - de uma mundividência igualitarista do "funcionalismo público" (um pouco à imagem daquela que vigorou para o ensino), tendente à devastação da carreira médica.
 
Nessas conversas, e como factor bem secundário, era também referida a insuficiência da então ministra da Saúde, Temido, percebida como incapaz de qualquer inflexão no processo degenerativo do SNS.
 
Depois veio a COVID-19, foi o que foi - de facto até à intervenção militar no processo de vacinação muito foi errático para fora e apenas reactivo no que respeita à organização interna dos serviços. O enorme peso da propaganda governativa levou a que Temido fosse promovida a "Super-Marta" pelos avençados e pelos "idiotas úteis". Depois foi ainda alcandorada (apesar de "socialista-nova") a hipotética sucessora de Costa, rumores emitidos apenas para sublinhar a propalada excelência do seu desempenho ministerial.
 
Foi reconduzida e, apenas alguns meses depois, demite-se, "sem condições" para o exercício, tão óbvio é o desnorte e a inércia que vêm sendo produzidos, antes dela e muito com ela. Podem agora os "intelectuais orgânicos" do PS, as escritoras subsidiadas, os jornalistas avençados e quejandas figuras, sair à rua a tecer loas à "dedicação" e ao "empenho" da "Super-Marta". Fazem-no pois uns são pagos para isso, directa ou indirectamente. E outros porque têm ADSE... Mas de facto Temido não foi importante, foi apenas um má ministra, na senda da decadência da Saúde no país. Um mero epifenómeno, que arregala os olhos, para encanto dos tontos, ceguetas. E dos avençados, claro.
 
(Postal que coloquei ontem no Nenhures)

Parece uma nave de loucos

Pedro Correia, 30.08.22

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Do céu ao inferno, na política, vai um curto passo. Marta Temido que o diga. Foi vedeta no congresso socialista de 2021, enaltecida pelas pitonisas ligadas ao Largo do Rato como possível futura candidata a secretária-geral do PS, mas tornou-se ministra descartável, cada vez mais ignorada por António Costa e abandonada pela mesma engrenagem mediática que lhe entoava hossanas.

Acaba de anunciar a demissão do cargo. Deixando o Ministério da Saúde muito pior do que estava quando assumiu funções, há quase quatro anos. 

 

Confirma-se: este governo socialista absoluto - o segundo, desde o de José Sócrates - transmite sinais de iniludível esgotamento.

Alguns dos seus membros parecem competir num concurso de dislates - desde a ministra da Agricultura, que se atreveu a dar um ralhete à CAP por não ter recomendado o voto no PS, ao ministro das Infraestruturas, flagelado pelo primeiro-ministro na caótica gestão do sempre adiado aeroporto de Lisboa. Passando, claro, pelo inefável titular das Finanças, envolvido na trapalhada com o amigo que lhe havia dado palco durante anos na TVI, numa escandalosa teia de favorecimentos que nenhum código de boa conduta governamental devia permitir. Ou pela secretária de Estado da Protecção Civil, que vendo Portugal devastado por incêndios, com prejuízos patrimoniais incalculáveis, congratulou-se por «apenas» ter ardido 70% do que estava previsto num suposto algoritmo que lhe serve de guião.

Parece uma nave de loucos.

 

Exausta, a ministra que abria telediários sem já nada ter para dizer acaba de bater com a porta. Não tão exaurida, apesar de tudo, como o SNS que tutelou até agora.

Como aqui escrevi há dois meses, «o Serviço Nacional de Saúde, peça central da narrativa propagandística do Governo, está a precisar de cuidados intensivos. Não é de agora, mas a situação agrava-se a ritmo acelerado. E o rosto desta crise, com picos caóticos que levaram ao encerramento de diversas urgências hospitalares nos últimos dias, é o da ministra da tutela. Que por vezes fala como se fosse recém-chegada ao cargo».

Primeira deserção no Executivo absoluto volvidos apenas cinco meses desde a posse. Costa, como de costume, reagirá com indiferença olímpica. Caiu uma simples peça do dominó político que deixou de lhe ser útil. A prioridade do primeiro-ministo é Bruxelas, não Portugal.

Dar luta à salmonela, inimiga declarada do SNS

Graça Freitas

Pedro Correia, 10.07.22

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Entramos em Julho e apetece dar graças (o trocadilho aqui funciona) por faltarem ainda 30 dias para que chegue o temível Agosto. Porque, acima de qualquer outro, esse é o mês menos recomendável para necessitar de cuidados médicos, segundo a advertência feita aos portugueses pela mais credenciada fonte: a directora-geral da Saúde.

No seu posto de incansável zeladora e cuidadora do sacrossanto Serviço Nacional de Saúde, Maria da Graça Gregório de Freitas, 64 anos, lançou o aviso: «A pior coisa que nos pode acontecer é adoecer em Agosto.»

Fala do que bem conhece, pois encontra-se desde 2018 à frente da autoridade sanitária nacional, onde aliás já antes pontificava como subdirectora. Poucos como ela podem pronunciar-se com tanta minudência sobre a manifesta incapacidade do SNS em prestar cuidados de saúde a quem cá vive. E também a quem nos visita, pois o mês que vem costuma atrair dezenas de milhares de turistas a este recanto soalheiro da Europa.

É indispensável que estes forasteiros desembarquem prevenidos com um manual de instruções para enfrentarem a precária rede sanitária pública. A menos que tenham a intenção expressa de experimentarem uma modalidade de turismo radical enquanto “utentes” (palavra agora muito na moda) da urgência de um hospital – incluindo naquelas unidades que há poucos anos eram consideradas modelos de excelência, quando estavam sob gestão privada. Como o de Braga, um dos estabelecimentos que há dias encerraram durante 24 horas o serviço de urgência de ginecologia e obstetrícia por falta de clínicos disponíveis. Cenário de terceiro mundo naquela que se orgulha de ser a cidade mais jovem do rectângulo lusitano.

 

Já conhecíamos a posição da ministra da tutela face ao colapso da rede hospitalar e ao contínuo êxodo de médicos para o sector privado: confrontada com críticas de todas as latitudes ao ponto de se ver forçada a interromper as férias, Marta Temido nomeou uma comissão para analisar o caso antes de voltar a banhos. Faltava ouvir Graça Freitas, também dotada de notáveis atributos oratórios. Valeu a pena esperar. A directora-geral rompeu o silêncio para nos recomendar máxima precaução contra o consumo do popular bacalhau à Brás. Porque este prato é confeccionado com ovos, que em período estival têm o risco acrescido de conterem salmonelas, fonte de intoxicações alimentares.

A salmonela – tal como os privados, que “só visam o lucro”, na perspectiva da coordenadora do Bloco de Esquerda, e os velhos “barões da medicina” diabolizados em lapidares versos do poeta Ary dos Santos – é inimiga declarada do SNS, do estado social, das “conquistas de Abril”.

Há que dar luta à salmonela, evitando adoecer. Sobretudo em Agosto, mês de todos os perigos. E há que evitar dar à luz, genericamente, durante todo o Verão na segunda nação mais envelhecida da Europa. A menos que se queira aguardar nove horas numa “urgência hospitalar” – se por acaso estiver aberta.

Este país não é para grávidas. Bem-haja, doutora Graça Freitas, pelo clarividente alerta que nos deixou.

 

Texto publicado no semanário Novo

As consultas

José Meireles Graça, 28.06.22

Ao médico disse que determinado exame não havia feito – contei a história há tempos – porque na clínica não havia quarto-de-banho com bidé ou chuveiro.

Não há, realmente, disse o facultativo. Não sei bem porquê, acrescentou.

Não sabe?, disse eu. Mas a razão é simples, decorre do facto de certas formações, nomeadamente em Medicina e Economia, serem tributárias dos ensinamentos e dos progressos nos EUA e, um pouco, no Reino Unido. Ou seja, num país feito com o lúmpen social de outros, e cujos habitantes, portanto, não têm maneiras à mesa nem hábitos de higiene; e noutro, o dos Filhos da Ilha, que vivem enregelados e perpetuamente com chuva e brumas, donde muito pouco inclinados a tomar banho. A França poderia compensar se tivesse a influência que perdeu há muito e não se desse o caso de, no tempo em que se julgava que os banhos prejudicavam a saúde, ter inventado os perfumes. Estes vieram a revelar-se um excelente artigo de exportação, juntamente com as revoluções, de modo que os locais ganharam um horror definitivo à limpeza – as vedetas do cinema francesas só vieram a atingir o estrelato porque a tela não veicula odores.

A Alemanha não tem, graças a Deus, qualquer influência na Medicina e pouca na Economia, nem é absolutamente seguro que exista localmente a primeira destas ciências com um mínimo de créditos. Quanto à segunda, resolveu o problema do desemprego com o regime nazi, que ninguém quer copiar, e foi berço do economista Marx, cujas doutrinas, infelizmente, muita gente copia. De modo que na realidade a circunstância de o país se exprimir numa língua incompreensível se traduz numa bênção.

Portugal poderia salvar-se neste naufrágio mas tem respeito a menos por si mesmo, e a mais pelo estrangeiro.

O médico sugeriu um expediente que resolveria o meu problema, e separamo-nos nos melhores termos. Por mero proforma, inquiri na recepção o preço da consulta, confiante em que os honorários devidos seriam compensados pelos da que havia ministrado. Mas não: 75 Euros.

Palavra de António Costa

Paulo Sousa, 20.06.22

Na passada sexta-feira, António Costa inquirido sobre o caos que se vive no SNS, quis sossegar os portugueses e garantiu que “parte dos problemas do SNS estará resolvida na segunda-feira”.

Mesmo perante as afirmações de Adalberto Campos Ferreira, o seu anterior ministro da Saúde, segundo o qual “o problema das urgências é estrutural”, António Costa, Primeiro-Ministro há sete anos, não vacila nas garantias e afirma que num fim-de-semana consegue ultrapassar a situação.

E hoje já temos mais notícias.

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A Saúde necessita de cuidados intensivos

Marta Temido

Pedro Correia, 20.06.22

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O Serviço Nacional de Saúde, peça central da narrativa propagandística do Governo, está a precisar de cuidados intensivos. Não é de agora, mas a situação agrava-se a ritmo acelerado. E o rosto desta crise, com picos caóticos que levaram ao encerramento de diversas urgências hospitalares nos últimos dias, é o da ministra da tutela. Que por vezes fala como se fosse recém-chegada ao cargo. Mas não é: Marta Alexandra Fartura Braga Temido de Almeida Simões, 48 anos, conduz o Ministério da Saúde desde Outubro de 2018. Recebeu elogios pelo combate à pandemia, a mesma lógica leva-a ser criticada neste momento de notório desgaste do SNS, incapaz de dar resposta aos problemas que se acumulam sem solução à vista.

Nenhuma máquina de propaganda oculta as evidências. «Existe um problema estrutural sério no SNS, que se está a agravar muito, de incapacidade de planeamento e gestão de recursos», declarou há dias Adalberto Campos Fernandes, antecessor de Marta Temido, pondo o dedo na ferida em entrevista à CNN portuguesa. É médico, foi ministro, sabe bem do que fala.

A profissão está envelhecida, o sector público há muito deixou de ser aliciante. Cerca de 40% dos clínicos de medicina geral e familiar têm mais de 65 anos. Os serviços de atendimento permanente revelam incapacidade de organizar escalas face aos recursos disponíveis. Os médicos somam mais de oito milhões de horas extraordinárias no SNS, tendo atingido em Maio o limite máximo previsto para o ano inteiro.

Metade dos obstetras já transitou para o privado. E a situação agrava-se neste período em que todos os dias recebemos milhares de turistas. O caso de uma grávida que perdeu o bebé por aparente falta de especialistas no hospital das Caldas da Rainha introduziu uma componente de tragédia num quadro que se tornou dramático. Desmentindo a imagem de inefável modernidade que o Governo tenta exibir ao mundo para atrair visitantes.

A ministra, que parecia desaparecida, falou enfim esta semana. Mas quase nada disse, refugiando-se numa oratória sem conteúdo, truque retórico que aprendeu com António Costa quando nada há de concreto para anunciar.

Não adianta iludir a questão, ocultando-a com torrentes de palavras. Os extenuados profissionais do SNS exigem de Marta Temido a revisão das carreiras, a garantia de melhores remunerações e a existência de condições de trabalho que lhes permitam exercer com eficácia a relevante missão que desempenham. Caso contrário, a sangria para os hospitais privados prosseguirá. Ou até o recurso à emigração.

Há em Portugal 1,3 milhões de cidadãos sem médico de família, contrariando todas as promessas feitas pelo primeiro-ministro em campanha eleitoral. Isto ajuda a perceber por que motivo 4,5 milhões de portugueses já optaram por seguros de saúde ou subsistemas como a ADSE.

Todos fazem um diagnóstico preciso da situação. E sabem que nenhum problema sério nesta área se cura com ideologia ou hossanas incessantes a um serviço público que necessita de atendimento urgente. Para não sucumbir de vez.

 

Texto publicado no semanário Novo.