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S. Vicente (9): a certeza de voltar

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.08.10

“(…) tantos versos depois, ainda os escuto

grasnando aquém dos muros carcerários,

com a grafite da superstição a enegrecer-lhes

o voo; depois de já tudo tombar

nesse torpor a que chamam paz

 

 

“(...) pois toda a vida é passado que regressa

com as nossas vozes, lua nascente,

como as ervas de um tempo póstumo

sibilando num sonho imaculado de salitre

  

(excertos de dois poemas de José Luiz Tavares, poeta cabo-verdeano nascido em 10 de Junho de 1967, em "Paraíso apagado por um trovão", edição da Universidade de Santiago)

 

 

Em jeito de despedida, esta canção de Ildo Lobo, tendo ainda na memória, ao longo destes breves apontamentos de viagem, a recordação de Eduardo Prado Coelho, com quem tanto aprendi na simples leitura das suas crónicas no Público. Muito em particular sobre as várias dimensões da lusofonia. Só Deus sabe a falta que elas me fazem quando se trata de olhar para o futuro.  

S. Vicente (8)

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.08.10

O Centro Cultural do Mindelo funciona na antiga Alfândega, fundada no reinado de D. Pedro V,  “sendo ministro do Mar e do Ultramar o Visconde de Sá da Bandeira e Govr. Gªl da Provª de Cabo Verde o Conselhº Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes”. Foi aí que teve lugar a Feira do Livro Lusófono.

O marquês de Sá da Bandeira, combatente da Guerra Peninsular e herói do cerco do Porto, um dos “bravos do Mindelo”, conhecido pela sua tenacidade e coerência, qualidades cada vez mais em desuso entre nós, e um dos primeiros a lutar contra a escravatura e a promover o desenvolvimento dos territórios africanos em prol das suas populações, chegando a ser referido por Alexandre Herculano como o “português mais ilustre do século”, certamente que ficaria satisfeito por saber do sucesso gerado por esta pequena feira do livro lusófono entre as gentes da terra.

Poucos minutos bastaram, após a sua abertura, para eu comprovar o interesse que os 1500 títulos distribuídos por 8000 exemplares desencadearam entre os visitantes. Os livros técnicos – Direito, Arquitectura, Ambiente, Engenharia – infanto-juvenis, e a literatura cabo-verdiana (Baltazar Lopes e Teixeira de Sousa), eram dos mais manuseados. Não deu para perceber se todos os potenciais adquirentes acabaram por comprar os livros, nem se possuíam os meios para tal. Porém, o interesse com que se acercavam das bancas, logo a seguir à abertura, e o desvelo com que acariciavam os livros eram de tal forma evidentes que tive vontade de me tornar num ser invisível e oferecer livros àquela gente toda.

Pelo que me disseram a feira teve o apoio do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento e é o resultado de uma parceria com o Instituto Nacional da Biblioteca e do Livro de Cabo Verde. Espero que esteja para durar e que seja possível promover idênticas iniciativas noutros locais da lusofonia.

Se há investimento com retorno é todo aquele que possa ser feito em prol da língua, da cultura e do desenvolvimento. Bem sei que não serve para pagar os ordenados de homens como Zeinal Bava ou António Mexia, mas é uma aposta reprodutiva de geração em geração. E que é capaz de uni-las sem que para isso seja necessário vender a alma aos vizinhos.

Ficam então explicadas as razões para que este breve apontamento de viagem seja ilustrado com a imagem de uma acácia rubra – que com a oliveira constituem as minhas árvores de eleição, talvez simbolizando a ponte entre a identidade cultural e a dimensão espacial da língua – defronte da Alliance Française, no Mindelo. Não foi possível “encaixar” a acácia no passeio. Ela teve de ficar na rua, junto à berma. Mas ela está lá, florida, lindíssima, numa ilha semi-desértica, mostrando toda a sua pujança e resistência. Oxalá haja gente em Lisboa que seja capaz de entendê-la.

S. Vicente (7)

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.08.10

Já que não era viável um mergulho em Santa Luzia, em especial depois daquela magnífica imersão no afundado “Mackário”, em plena baía do Mindelo, entre o Monte Cara e o Ilhéu, optei por passar o dia em Santo Antão.

Inicialmente baptizada de Santo António, a ilha é a segunda maior do arquipélago e foi descoberta em 17 de Janeiro de 1462 por Diogo Afonso. Ficou famosa por a linha imaginária de Tordesilhas passar 370 léguas a oeste, mas só a partir de 1548 começaria a ser colonizada.

A paisagem é marcada pelo contraste ente uma parte semi-desértica e uma zona fortemente arborizada, onde é possível ver pinheiros e eucaliptos. A névoa e a chuva que caiu impediram-me de tirar todo o partido da visita. Só que foram as condições atmosféricas adversas que encontrei, as magníficas paisagens entre a Ponta do Sol e o Paúl e o recorte da costa, que me deixaram com vontade de voltar e de mergulhar nos seus fundos.

Terra de António Vicente Lopes, o famoso violinista e multi-instrumentista "Travadinha", falecido em 1987, a ilha onde Agostinho Neto esteve deportado precisa de um empurrão que a torne mais conhecida e mais visitada. Quem sabe se esta ilha, onde segundo me disseram já existe um centro de mergulho fundado e dirigido por um espanhol (!), não entrará em breve nas grandes rotas do mergulho? Potencialidades não lhe faltam.

S. Vicente (6)

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.08.10

Quando a avistei ao longe duvidei do que via. A placa assinalando a presença de Cavaco Silva no passado dia 7 de Julho não enganava. Tratava-se mesmo de uma réplica, embora mais pequena, da Torre de Belém. Lembrava-me de ter visto, algures na China, uma espécie de Portugal dos Pequeninos e miniaturas de uma série de monumentos europeus. Mas jamais me passaria pela cabeça encontrar uma mini-Torre de Belém na marginal do Mindelo, repleta dos símbolos que nos habituámos a ver nos livros de História dos primeiros anos de escola; afinal os mesmos que marcavam as caravelas que dobraram a Boa Esperança.

O sentido desta réplica é bem diferente de tudo aquilo que se possa conjecturar e das comparações que eventualmente se seja tentado a estabelecer com o que se vê noutros locais. Além do mais, não se cobram bilhetes à entrada. E lá dentro encontramos uma mostra de trabalhos de artistas contemporâneos.  

A dimensão não é de todo importante quando uma simples janela nos projecta para o mundo sem sairmos de nós próprios. Esta gente sabe que “quem de si mesmo se deserta em céu algum se achará” (José Luiz Tavares). E isso faz toda a diferença quando se trata de encarar o futuro. Cada dia que passa aprendo mais alguma coisa com os Tommys desta terra.

S. Vicente (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.08.10

Nas comemorações de um certo Dez de Junho tive o privilégio de ouvir Cesária Évora. Pouco tempo antes chegara-me às mãos um disco da senhora do Mindelo. Fiquei marcado pelo tema Sodade. A voz dela nessa canção foi também um hino ao talento de Luis Morais e à inspiração de Amândio Cabral.

A grata memória desse momento empurrou-me para agora ir ouvir o som do cavaquinho, do violino e do violão.

Já me tinham dito ser o Mindelo o sítio ideal. Quem o fez só não me disse que a fusão da nobre lagosta com o coco, o caril e os coentros numa cama de sons e cores melodiosas, numa noite tropicalíssima, em que o violino e a percussão crioula se misturavam com Racine e Camões, tinha um efeito tão poderoso.

Os sentidos e os sabores de uma portugalidade orgulhosamente mesclada com a acolhedora influência da poderosa negritude, que Senghor tão bem cantou, numa sociedade cujos padrões democráticos estão cada vez mais enraizados, são uma garantia de futuro.

Uma sociedade que aposta tudo o que tem na cultura e na educação das suas gentes, na preservação da sua herança histórica e cultural, na gestão racional dos seus escassos recursos, tem quase tudo o que necessita para singrar e consolidar-se. É essa a melhor garantia de perenidade da lusofonia por estas paragens.

O poeta ficaria satisfeito se soubesse da maneira como os cabo-verdianos vão alargando as fronteiras do seu mar. Da sua língua. Da sua alma. Dele. Deles. Nossa.

S. Vicente (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.08.10

Hoje, ao final da tarde, fomos dar uma volta até ao Mindelo. Começava a sentir-me em casa. Mergulhar longe da confusão do Sal, entre gente que falava a minha língua com apreço e me descrevia os primeiros golos da época como se tivesse Sport TV em casa e fosse todos os domingos ao Estádio da Luz, enquanto exaltava as qualidades de Kardec, Coentrão e Carlos Martins, era algo que não me passaria pela cabeça encontrar em S. Vicente.

É arrepiante perceber a forma como a presença portuguesa continua a ser apreciada, vivida e protegida nalguns locais. Ver o antigo palácio do governador português, agora chamado Casa do Povo, a velha alfândega do Mindelo, os bustos de Camões e de Sá da Bandeira, a águia que assinala os setenta anos da viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ou a estátua erguida ao primeiro donatário de São Vicente, tudo em perfeito estado de conservação, não obstante as dificuldades do país, tudo em perfeita harmonia com a cidade e as suas gentes, sem perturbantes complexos coloniais ou pós-coloniais, devia fazer pensar alguns dos nossos responsáveis políticos. E em especial a subserviente comunidade empresarial portuguesa que se predispõe a correr para o primeiro local de onde lhes acenem com um maço de notas, sabendo que no fim vão ter de aturar modos rudes, faltas de educação e de cortesia, demorar anos a receber e, ainda, subservientemente, perdoar juros e dívidas por imposição dos novos sobas. Os mesmo que compram hoje em Paris e no Rio de Janeiro com o dinheiro das comissões recebidas por debaixo da mesa o que outros não se atreveriam a comprar em Lisboa. Com dinheiro limpo.

S. Vicente (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.08.10

Algumas nuvens no horizonte não seriam suficientes para me fazer temer pelas condições do mar. Um rápido pequeno-almoço e de novo os preparativos. A verificação do material e as inevitáveis perguntas. O matraquear do velho compressor podia deixar a condescendente vizinhança em polvorosa, mas isso não seria nada que o espírito “nô stress” das gentes da terra não ajudasse a ultrapassar.

Pouco passava das 10:00, quando, depois de uma luta intensa, conseguimos entrar com o material no pequeno bote do Mike. Uma odisseia digna dos fuzileiros a antever continuação para os dias seguintes face à ausência de um cais ou pontão onde a embarcação pudesse acostar para ser carregada e descarregada.

Ali, no azul intenso e profundo do Atlântico, desfilavam milhares de olhos curiosos, polvilhados de tons de amarelo, azul, laranja, verde, vermelho, branco… Bodiões, garoupas, agulhas, trombetas, badejos, barbeiros de pinta amarela, pequenos besugos de cauda amarela, passarinhos, papagaios velhos e grandes, moreias brancas com pintas pretas e manchas amarelo vivo no peito, outras sem pintas, safios, lucianos, garoupas de pintas roxas, um ou outro esmoregal, sargos bicudos e, de repente, junto a uma reentrância, ali estavam eles, majestosos, postos em realce pela beleza do coral, “duas gatas”. Um com 4m e o outro, mais pequeno, com 3,5m. À distância de dois braços, silenciosos, expectantes. Instintivamente recuei enquanto o Tommy e o Ginha se aproximavam deles.

Senti-me estranhamente tranquilo e abençoado. Eram os primeiros “gatas” (ou as primeiras, a confusão estava definitivamente instalada no meu espírito) que via em mais de vinte e cinco anos de mergulho. Nem em Palau, nem em Molokini, nem em Soma Bay, nem em Moorea ou no Norman Reef, tivera a sorte ver “gatas” tão perto. Vi muitos cinzentos do recife, tigres, de ponta branca, de ponta negra, limões, frades e algumas variantes nos mares da Tailândia e das Filipinas,  mas nunca vira  “uma gata” tão perto.

Os encontros voltaram a repetir-se durante o resto da tarde. Quando no final do dia dobrámos a ponta do farol de S. Pedro, e uma corrente mais forte nos fez antecipar o final do segundo mergulho, eu era já um homem satisfeito.

S. Vicente (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.08.10

O local fez-me lembrar o Faial. As encostas junto ao vulcão dos Capelinhos. Mas o mar era mais turquesa e mais mexido. Não tive tempo para contemplar a vista. Logo ouvi alguém que não conhecia dizer o meu nome em voz alta e perguntar a quem estava se algum dos presentes era eu. Apresentei-me e fiquei a saber que estava ali um senhor à minha espera. Tommy Monteiro, 1,80 m de pele negra num sorriso imaculadamente branco. Tinha sido contactado para me acompanhar durante a minha permanência na ilha e tinha a obrigação de me levar até onde eu queria ir, até os fundos marinhos onde se abrigam os tubarões-gata, “as gatas” no linguajar dos pescadores de S. Pedro.

Combinei um primeiro mergulho exploratório para as 16h e fui preparar o equipamento. Pouco depois sou confrontado com um telefonema que me informou da impossibilidade de se arranjar um barco para esta tarde. O Mike, nick name que lhe fora dado por ser parecido com Michael Jackson, dera conta de não poder sair. Os dois filhos ainda estavam no mar e ele não queria partir sem que eles chegassem. Era razão mais do que suficiente para eu aceitar a justificação e acertar as horas para amanhã.

Depois, aproveitei para olhar à minha volta e dar um primeiro mergulho nas águas quentes e cristalinas da baía. Com 27º C, dentro e fora da água, apenas com uma ligeira brisa, a coisa prometia.

Quando à noite me deitei, iluminado pelo luar prateado, tendo a meus pés a violenta sinfonia provocada pelas ondas e os acordes distantes da “Rainha Estrela” de Tito Paris, dei comigo a pensar na sorte que Deus me deu. Se a ASAE existisse naquele lugar a praia teria sido encerrada. O barulho semelhante ao ribombar de um trovão provocado de cada vez que as ondas se esmagavam na praia e contra as rochas seguramente que excedia os limites aceitáveis da lei do ruído.

S. Vicente (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.08.10

Há coisas que não deviam acontecer. Uma delas é ter um voo marcado para as 10:00, vê-lo reagendado para as 06:45, e no fim sair às 10:10 sem que um tipo chegue a perceber por que razão o fizeram saltar da cama às 03:30. Tirando esse pormenor, enquanto se espera vai-se imaginando como será o mar na baía de S. Pedro. Apreciam-se os rostos que nos começam a cercar e as expressões e os sorrisos a que não estamos habituados. Logo na Portela percebi que esta deslocação seria bem mais do que um breve período de descanso. O enorme pássaro elevou-se, rumou a sul e a leitura do Público também ficou para trás. Não é preciso sair de Portugal para se viajar na língua, mas sem se sair do rectângulo nunca se perceberá a dimensão da lusofonia.


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