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Delito de Opinião

Combater o esquecimento é serviço público

Pedro Correia, 09.08.21

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Uma das missões fundamentais do jornalismo é resgatar do esquecimento factos relevantes da nossa vida colectiva. Alguns destes factos, como no célebre filme de John Ford, vão dando lugar a mitos. Sucedeu isto a propósito das auto-designadas Forças Populares 25 de Abril, organização terrorista que esteve activa já no Portugal democrático. O recente desaparecimento de Otelo Saraiva de Carvalho funcionou como pretexto para avivar a memória já muito difusa daqueles sete anos em que o Estado de Direito permaneceu sob ameaça constante de um grupo armado que assaltava, destruía, feria e matava. Sob a liderança de Otelo, que ao obter apenas 1,5% nas presidenciais de 1980 viu definitivamente derrotado nas urnas o seu projecto de implantar uma “democracia popular”. Na certeira síntese de Ramalho Eanes, coube-lhe então a «autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências». Como autor moral ou cúmplice de actos de violência extrema, incluindo quase duas dezenas de homicídios comprovados em tribunal.

A RTP destacou-se neste combate contra a desmemória num documentário intitulado Palavra de Otelo. Da jornalista Márcia Rodrigues, com imagem de Hélder Oliveira e edição de Paulo Nunes. Com recurso ao seu rico acervo de imagens, e a uma entrevista feita a Otelo em 1996, a estação pública desvenda-nos aqui fragmentos do complexo retrato do homem que quis implantar em Portugal o “verdadeiro socialismo” com recurso às baionetas. Muito antes de haver FP-25.

No Verão quente de 1975, por exemplo, Saraiva de Carvalho fez esta declaração textual aos jornalistas: «As forças armadas nesta altura estão dispostas a entrar num caminho muito duro, de repressão, que temos evitado até agora. Aqui há uns tempos, disse algumas palavras muito candidamente através da Rádio Renascença dizendo que oxalá não tenhamos de pôr no Campo Pequeno os contra-revolucionários, mas estou convencido de que a curto prazo temos de [os] pôr mesmo. A coisa parece que se está a encaminhar nesse sentido, infelizmente. Vai-se tornando impossível ter uma revolução socialista, na totalidade, por via pacífica.»

Nas últimas décadas de vida, este homem que durante o PREC comandava a mais destacada força de intervenção militar e ordenou centenas de prisões políticas sem mandado judicial, sempre negou ter proferido a frase que Márcia Rodrigues resgatou da poeira dos arquivos. Prestando verdadeiro serviço público.

Notável também, o documentário intitulado FP-25 – Terrorismo Português, que passou numa destas noites na CMTV. Da jornalista Mónica Palma, com edição de Francisco Mata. Aqui dá-se voz às vítimas – às que sobreviveram aos actos de terrorismo naquele Portugal da década de 80, às que sofreram feridas jamais cicatrizadas. Fala-se do filho que aos 17 anos viu o pai baleado na nuca à porta de casa, fala-se de um jovem agente da PJ que deixou viúva grávida, fala-se daquele bebé “contra-revolucionário” que dormia no berço quando foi morto à bomba. Avivam-se memórias anestesiadas pelo esquecimento. Serviço público também.

 

Texto publicado no semanário Novo

 

Antes pôr as mãos na água do que no fogo

Pedro Correia, 27.07.21

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Há verdadeiros mistérios nos canais informativos. Um deles acontece todas as semanas, na SIC Notícias. Nuno Rogeiro apresenta um excelente espaço de notícia e análise de temas internacionais em condições quase clandestinas: é remetido para o princípio da tarde de domingo, algures no Jornal das 2, numa rubrica de duração incerta intitulada “Leste Oeste”. Com direito a separador próprio, mas tratada como se a quisessem esconder.

Dia impróprio, horário impróprio. Merecia outro tempo e outro espaço. Porque este comentador fala do que mais ninguém diz, não apenas na SIC mas noutros canais de produção doméstica. A sua rubrica é uma genuína janela sobre o mundo num contexto televisivo que reduz o noticiário internacional a fenómenos climáticos, catástrofes naturais e acidentes em larga escala. Rogeiro rema contra esta maré tablóide, alargando-nos horizontes. E não raras vezes destaca o que os outros ignoram. Foi assim, por exemplo, no drama do terrorismo de matriz islâmica em Cabo Delgado: andou meses a mencionar este tema, a que mais ninguém ligava. Calculo o que terão dito vários editores nas mais diversas redacções: milhares de mortos sem ser por fogos ou cheias em Moçambique “não é notícia”. 

Quem tem lugar cativo nos alinhamentos televisivos é Marcelo Rebelo de Sousa – o “Tio Celito”, como muitos o conhecem em Angola. Consegue estar em foco precisamente quando não há notícia, fomentando corridas entre canais na tentativa de captar as imagens mais irrelevantes. O prémio, na recente deslocação de Marcelo a Luanda, coube a Tiago Contreiras, um dos enviados especiais da RTP: conseguiu imagens exclusivas do engravatado Presidente a molhar os dedos no oceano interdito a banhos e a dizer: “Está quente!”

Pensando bem, mais vale um político pôr as mãos na água do que no fogo. O “tio Celito” esteve em Luanda, tal como António Costa, para participar na cimeira comemorativa dos 25 anos da CPLP. Apesar das bodas de prata, quatro dos nove chefes do Estado faltaram: Jair Bolsonaro (Brasil), Filipe Nyusi (Moçambique), Francisco Guterres (Timor-Leste) e o controverso ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang. O Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Embaló, deu lá um pulo mas saiu mais cedo. E o de São Tomé e Príncipe, Evaristo Carvalho, só pensa na despedida: o seu mandato chegou ao fim.

O aparente imobilismo da CPLP face ao drama de Cabo Delgado diz muito sobre a ineficácia desta organização, que devia “deixar de ser um clube de países amigos para descer aos cidadãos”, como acentuou Cândida Pinto, outra enviada especial da RTP a Luanda. Eis um tema que Nuno Rogeiro várias vezes tem abordado na sua rubrica. Faria muito bem a SIC Notícias em tirá-lo da clandestinidade, colocando o seu “Leste Oeste” em horário de maior audiência em vez de surgir como tapa-buracos das tardes de domingo. Fica a sugestão. O público-alvo do canal, cada vez mais exigente, certamente agradeceria.

 

Texto publicado no semanário Novo

"Melhorar", diz ela

João Sousa, 24.07.21

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Honra lhe seja feita, a deputada socialista Mara Lagriminha nem se preocupa em disfarçar ao que vem. Disse ela ontem sobre o aumento de financiamento da RTP: "Que fique muito claro que, da nossa parte, do grupo parlamentar do Partido Socialista, faremos o que for necessário, trabalharemos para poder melhorar este financiamento através do aumento da CAV [contribuição para o audiovisual]".

O dinheiro, dizia o fundador Soares, há-de sempre aparecer. Sentindo-se incentivado pela bloquista Mariana Mortágua que afirmava, no início do costismo, ser necessário "perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem o está a acumular", o PS actual já nem se envergonha de inventar formas de o ir buscar, para financiar a sua clientela, a quem ainda tenha algum para amostra.

Mas não se pense que o PS está sozinho. Temos também o deputado do PSD Paulo Rios de Oliveira: depois de enxovalhado pela deputada Lagriminha (parece ser este o papel a que Rui Rio limita o seu partido), afirmou-se "refrescado" por ter ouvido "a forma muito sóbria como o presidente do Conselho de Administração admitiu que a RTP tem problemas e tem problemas graves e tem que os ultrapassar."  Recordemos só, para compor o ramalhete, que este "sóbrio", "refrescante" e fresquíssimo presidente do Conselho de Administração da RTP, que ainda a tinta das paredes do seu novo gabinete não secou já vem de mão estendida pedir (mais) algumas pazadas de dinheiro para a RTP, é o inacreditável Nicolau Santos - o mesmo Nicolau Santos impulsionador da farsa "ouçam Baptista da Silva" e que, antes da RTP,  já tinha sido colocado pelo PS na presidência da Lusa.

Isto está bonito!

O ministro apareceu quatro vezes

Pedro Correia, 26.05.21

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Com o fim dos sucessivos estados de emergência e o adeus ao desconfinamento em quase todo o território nacional, temos assistido ao regresso dos engarrafamentos nos acessos às cidades e nas ruas dos grandes centros urbanos.

Já se esperava isto. Menos previsível é que alguns membros do Governo também provocassem engarrafamentos nos telejornais. Ora isso tem acontecido, a um ritmo que acompanha o do novo fluxo rodoviário.

Neste capítulo, o primeiro lugar do pódio cabe sem margem para dúvida ao titular da pasta dos Negócios Estrangeiros. O portuense Augusto Santos Silva, talvez por jogar em casa, foi o astro de serviço no último Jornal da Tarde de sábado [8 de Maio] da RTP. A pretexto da cimeira social que no passado fim de semana congregou na Cidade Invicta os principais líderes da União Europeia.

 

Mal abrira o serviço noticioso, eram 13.01, quando o chefe da nossa diplomacia surgiu pela primeira vez no ecrã. Em pose institucional, como convém ao exercício do cargo. «O processo de decisão institucional na UE implica concertação entre os 27 Estados. (…) Nós devemos ter sempre em conta que os direitos de propriedade intelectual existem para proteger a inovação. É uma discussão que se faz há muito tempo», declarou, a propósito da mais recente controvérsia em torno das vacinas.

Não tardou a voltar ao ecrã. Eram 13.03 quando o vimos num cenário diferente, desta vez para emitir opinião sobre a importância dos consensos em Bruxelas. Excerto do que disse nos três minutos em que ocupou a antena: «As políticas sociais são típicas dos Estados nacionais, mas esta convergência para metas comuns, cada uma pelo seu caminho, é muito importante para reforçarmos o modelo social europeu.»

Não havia decorrido uma hora e lá irrompia de novo na pantalha, eram duas da tarde em ponto. Congratulando-se pelo anunciado regresso dos visitantes britânicos às praias lusitanas: «É muito bom chegar a esta altura e saber que o Reino Unido, que é o primeiro mercado de origem dos turistas em Portugal, reconheceu que a situação pandémica em Portugal é muito razoável.»

 

Três vezes no mesmo telediário: nem o próprio Marcelo Rebelo de Sousa consegue tamanha proeza com tanta facilidade. Mas ainda teríamos direito a outra intervenção do mesmo ministro, noutro enquadramento, um pouco mais descontraído. Eram 14.15: o inquilino do Palácio das Necessidades visitava as instalações onde trabalhavam os jornalistas que cobriam a cimeira e lá voltou o microfone da RTP a ser apontado na sua direcção. Para registar estas palavras: «Eu vim aqui ver se o espaço era suficiente, se havia boas condições de trabalho, se estava bom ambiente, e verifico que sim. E sei que esta galeria tem todas as condições para o vosso trabalho.»

O Jornal da Tarde é produzido no Porto: haverá compreensíveis afinidades bairristas com o ministro natural da cidade. Mas talvez isto não baste para explicar tanta insistência. Será que Augusto Santos Silva começa a ser lançado como eventual sucessor de António Costa num futuro próximo? As grandes caminhadas começam com pequenos passos.

 

Texto publicado no semanário Novo

Tristes Olhos Castanhos

Maria Dulce Fernandes, 07.02.21

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Foi há cerca de 56 anos que o cantor romântico dos "Olhos Castanhos" , numa actuação em directo no programa TV Clube, resolve  "informar" o país da absurda discriminação e grande disparidade de cachets perpetrada pela RTP, entre artistas nacionais e estrangeiros. Tão abrupta e surpreendente foi a intervenção, que ninguém sabia o que fazer e a emissão continuou no ar durante algum tempo.

Claro está que o ano era 1964 e a censura, apanhada de surpresa nada pôde fazer senão mandar parar a emissão em directo, mas nessa altura o "mal" já estava feito.

O caso "Chico Zé" teve  repercussões populares à boca pequena a nível nacional e, como seria de esperar, a sua carreira em Portugal acabou ali.

Teve um revivalismo anos mais tarde após a Revolução de Abril, mas nunca voltou a atingir a popularidade de que gozava antes de 1964.

Para ler

https://expresso.pt/cultura/2021-02-06-O-dia-em-que-o-cantor-Francisco-Jose-desafiou-a-RTP-em-direto

https://museu.rtp.pt/livro/50Anos/Livro/DecadaDe60/RTPAos10Anos/Pag30/default.htm

 

Foto Google/Expresso

A culpa é do Passos Coelho

jpt, 04.02.21

Ana Drago teve alguma celebridade no advento do BE parlamentar. Alguma verve, cara jovem e laroca. Saiu do Parlamento há oito anos, ingressou no LIVRE, passo que foi insuficiente para que os quadros desse neo-MES ascendessem na orgânica estatal. E algo desapareceu da vida política. Mas mantém, sabe-se lá devido a que critérios, estatuto de comentadora política no serviço público televisivo. Representatividade política? Não pode ser, dada a contínua exiguidade de comentadores associáveis a partidos com assento parlamentar como PCP e PAN, e mesmo o IL e o CHEGA. Estatuto intelectual, advindo de obra publicada? Não me parece, pelo que o google anuncia. A cara laroca? Não é argumento aceitável nestes tempos. Ter sido deputada? Não o foram, nas últimas décadas, algumas centenas de portugueses?

Vejo isto ontem. No momento da maior crise social, sanitária e económica que o país conhece desde o final do Estado Novo, com hospitais cheios, incremento da mortalidade, o que se requer a quem comenta no serviço público? Alguma densidade interpretativa, claro que sempre subjectiva. E alguma seriedade. O que vem esta velha cara laroca dizer? Explica o incremento exponencial das infecções pela disseminação da "variante inglesa" - conhecida bem antes do Natal, ao invés do que o nosso primeiro-ministro mentiu. E que esta disseminação se deve à "emigração no tempo da troika" e de Passos Coelho. O atrevimento é tão grande que a comentadora não se contém e ri-se ao proferir a mariolagem. Friso neste momento gravíssimo é este tipo de gente, este tipo de argumentação chocarreira, que a RTP, serviço público, convoca para "informar" o país. Sob que critérios, a que propósitos? Para que "serviço público"? O de elidir quaisquer responsabilidades do actual poder político, é óbvio.

E de seguida, se formos afectados pela "variante brasileira", que virá a ex-laroca Drago dizer? Apontar a culpa de algum rei constitucional, incapaz de afrontar o tráfico de "escravatura branca",  a assim dita emigração portuguesa em XIX, ou a recente "abrilada" que a alguns fez partir para o Brasil? Se nos chegar a "variante sul-africana" (que me parece estar a devastar Maputo) virá ela clamar que a responsabilidade é dos colonialistas Afonso Costa ou Salazar - ou mesmo de Rosa Coutinho e de Almeida Santos, como apontariam logo tantos dos ex-colonos?

Enfim, a questão é esta: a que propósito é que o serviço público convoca esta miséria moral e intelectual para comentar tamanha crise? De viçosa nada tem. Segue apenas sabuja. No afã de encapuçar este miserável estado das coisas.

Um documentário sobre o Gulag

jpt, 20.11.20

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(Fotografia de Marc Garanger)

A RTP está a transmitir a série documental "Gulag, uma história soviética", em três episódios, um documentário francês realizado por Patrick Rotman, Nicolas Werth e François Aymé (uma entrevista de Rotman aqui). 

Julgo saber que se trata de uma (interessante) iniciativa da nova directora do Museu do Aljube, a qual organizou (e patrocinou) a transmissão deste excelente documentário histórico no canal público de televisão. Bem haja, Rita Rato. 

Nota: Para prévios elogios a Rita Rato ler  Alexandre PomarJoão Pedro George, Pedro Correia.

Adenda: Quem tiver pressa poderá ver os três episódios aqui.

Dois magníficos documentários

Pedro Correia, 27.09.20

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O documentarismo televisivo português atravessa uma das melhores fases de sempre. Comprovei isso nos últimos dias, vendo dois magníficos documentários - um no segundo canal da RTP, outro na SIC. Nenhum deles alvo de promoção especial pelas respectivas estações, algo que já não estranho: o espectador atento tem de descobrir pela sua própria intuição o que de melhor ali se oferece.

O da SIC, exibido faz hoje oito dias no âmbito da rubrica "Vida Selvagem", intitula-se Mar da Minha Terra - Almada Atlântica. Pede meças aos melhores filmes sobre fauna e flora do planeta exibidos há décadas em estações de referência no género, como a BBC. 

Com realização de Luís Quinta, credenciado fotógrafo da natureza, e competente locução de Augusto Seabra, este documentário mostra-nos o que muitos desconhecíamos: «Entre a Costa da Caparica e o Cabo Espichel existe um imenso mar de segredos onde criaturas belas e raras nadam, voam e encontram refúgio. Aqui, gigantes marinhos coexistem com seres minúsculos de micromundos. À fauna local juntam-se viajantes oceânicos.»

É, para muitos de nós, uma revelação: a escassos quilómetros do areal que tanta gente frequenta, com a arriba fóssil bem à vista, nadam tartarugas, golfinhos, roazes, tubarões azuis, baleias anãs e orcas. Filmados neste habitat que, em muitos casos, constitui já sua morada permanente. Comprovando assim a qualidade destas águas e destas praias, não por acaso distinguidas anos a fio com a bandeira azul. A natureza segue aqui o seu curso: toda uma revelação para quem só costuma ver as águas oceânicas portuguesas associadas a deprimentes notícias que dão conta da sua degradação com carácter irreversível. 

 

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O outro documentário, exibido a 16 de Setembro no canal estatal, intitula-se Exílio no Atlântico e revela-nos um episódio ignorado, dos muitos em que Portugal funcionou como refúgio nos dias sangrentos da II Guerra Mundial: cerca de dois mil habitantes de Gibraltar, evacuados do enclave-rochedo por decisão do comando militar britânico, encontraram asilo na Ilha da Madeira e ali permaneceram cinco anos, entre 1940 e 1945. Resguardados do conflito mais dilacerante que a História já conheceu.

É um filme assinado por Pedro Mesquita, que nos narra a história dessas famílias, amputadas do local de nascimento, da residência, da ligação umbilical a Londres e, em muitos casos, até de alguns parentes muito próximos, mobilizados em acções bélicas a centenas ou milhares de quilómetros de distância. Ao mesmo tempo ficamos a saber um pouco mais sobre as virtudes hospitaleiras dos portugueses e a vocação do nosso país - que tantas vezes menosprezamos sem motivo válido - para funcionar como porto de abrigo.

«Nós, na Madeira, pudemos considerar-nos muito afortunados. Porque vivemos uma vida normal, sem nenhuma preocupação com a guerra», lembra um desses refugiados - então menino, hoje um ancião grato à inesperada dádiva que recebeu na roleta da existência. É comovente ver como a marca da infância experimentada na Pérola do Atlântico, território neutral num mundo em chamas, ficou impressa para sempre naquelas crianças e adolescentes ainda capazes de falar e cantar em português. Uma lição de vida. E uma demonstração prática de como as circunstâncias fortuitas podem mudar-nos o destino. Dependemos sempre do acaso, o outro nome que atribuímos ao desconhecido.

Um sábio

Pedro Correia, 31.07.20

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Foto: Bruno Gonçalves / Sol

 

Uma entrevista pode ser um grande momento de televisão. Aconteceu na semana passada, no primeiro canal da RTP, no programa Grande Entrevista. António Barreto - um dos genuínos senadores portugueses - pensou em voz alta, durante quase uma hora, sobre algumas das mais relevantes questões nacionais. Com a eloquência habitual e uma notável capacidade de articular ideias. Sem enrolar palavras, sem fazer vénias, sem receio de dizer aquilo que realmente pensa.

Enfim, um sábio. Em diálogo com o jornalista Vítor Gonçalves, hoje um dos melhores entrevistadores da televisão portuguesa. Alguém que está ali realmente para ouvir os entrevistados e não para se ouvir a si próprio - o que vai sendo cada vez mais raro.

Gostei tanto que partilho convosco alguns excertos desta Grande Entrevista. Recomendando, de qualquer modo, que escutem a versão integral. Vale mesmo a pena. Por ser verdadeiro serviço público.

 

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«A dimensão [deste pacote financeiro de emergência da UE para enfrentar a crise pandémica] é muito superior à do Plano Marshall americano, depois da guerra, para toda a Europa. Haver um plano de recuperação económica que ultrapassa largamente a dimensão financeira do Plano Marshall é impressionante.»

 

«Lamento imenso ouvir pessoas dizer que querem "aproveitar a crise" da doença. Para acabar com o capitalismo, para criar Deus sabe o quê, para resolver os problemas... As crises não se aproveitam: o melhor é tratar delas. Ultrapassar a crise para voltar a adquirir meios para encontrar as soluções.»

 

«Os países do Norte [da Europa] têm razão quando exigem fiscalização e supervisão [das verbas]. Primeiro, e sobretudo, porque é dinheiro deles. Depois porque é dinheiro europeu, de nós todos. E em terceiro lugar porque emprestar ou dar sem saber para que serve é quase criminoso. Dizer isto em Portugal passa quase por traição à pátria, o que não me incomoda.»

 

«Parece uma especialidade nossa: nós perdemos muito tempo com a guerra colonial, com a revolução, com a nacionalização da economia, com a reprivatização da economia. Há cerca de 20 anos que o crescimento português é praticamente nulo.»

 

«Quase todos os países da Europa Central e Oriental que entraram depois de nós [na UE] souberam fazer mais rapidamente as reformas, souberam [criar] economias mais competitivas, souberam encontrar soluções adequadas e não ficaram eufóricos com a adesão. Portugal perdeu muito tempo, muito tempo, muito tempo.»

 

«Precisamos de quantidades enormes de capital de investimento, sobretudo privado. E de investimento produtivo novo, não é chegar cá e comprar o que já existe. É preciso fazer novas empresas, novos produtos, novas indústrias, novos edifícios... Mas precisamos de quantidades colossais. Se só tivermos este balão de oxigénio [da UE], não chega. Daqui a dez anos vamos encontrar a mesma vulnerabilidade, o mesmo tempo perdido.»

 

«[O caso BES] é um dos maiores crimes cometidos na história de Portugal, se tudo aquilo for provado. Crime de roubo, crime de desvio, crime de esbulho do País, das classes sociais que trabalham, esbulho do Estado, utilização intensiva de todos os meios de corrupção, de compra, de venda... Não há na história portuguesa nada que se pareça com isto... Eles contribuíram para dar cabo de Portugal.»

 

«Não devemos esquecer o que se passou nesses dez anos: o ciclo Sócrates mais as crises financeiras, mais a bancarrota (nós ficámos a dias da bancarrota), mais a austeridade, mais toda a questão dos fogos florestais, que parece de somenos mas não é. O BES, por cima disto tudo. E agora a pandemia. Este conjunto de fenómenos em dez anos é destruidor de uma geração, é destruidor do País.»

 

«Era bom conseguirmos castigar quem deve ser castigado. E há muita gente para ser castigada. Se a nossa justiça estiver à altura - e eu não sei se está - era bom castigar para dissuadir e para resolver este problema da corrupção, do nepotismo, do favoritismo e do esbulho dos recursos nacionais.»

 

«O BES foi autor, ou ajudou, ou empurrou, ou acarinhou a destruição do que havia melhor em Portugal do sistema financeiro, do sistema industrial e do tecido empresarial. Nas grandes destruições - estou a pensar na PT, por exemplo - esteve sempre o [Grupo] Espírito Santo.»

 

«Daqui a uns anos será interessante ver quem foi na conversa do Espírito Santo. Quase toda a gente: políticos, partidos, governos, empresários (pequenos, médios, grandes), quase toda a gente...»

 

«O Governo está num momento de ausência de oposição quase total, o que é péssimo. (...) Isto não faz bem nem a Portugal nem ao Governo.»

 

«O primeiro-ministro tem conseguido algumas vitórias importantes. Durar, já é uma vitória política. Tem sabido tratar com as oposições todas, tem sabido tratar com o Presidente da República, tem sabido libertar-se do pior deste Governo, que é a terrível herança Sócrates. Agora não tem nenhuma oposição séria, o que é muito mau.»

 

«Nunca vi um parlamento onde se berrasse tanto como o parlamento português. (...) Dar nobreza ao debate parlamentar era uma obrigação dos nossos políticos.»

 

«Vivi 40 anos em Portugal de concorrência institucional entre o Presidente e o Governo, aquilo que se chama - aflitivamente - o semipresidencialismo. Lembro-me dos problemas gravíssimos que houve entre todos os presidente e quase todos os governos. Estes [Marcelo e Costa] decidiram colaborar e cooperar. Aplaudo, acho bem. O País ganha com isso. Onde começa o problema? Da cooperação e da colaboração, é fácil chegar à cumplicidade. E creio que já lá chegámos. Não gosto da cumplicidade. Quero que o Presidente da República tenha recuo, altura, espaço para poder avisar, advertir, controlar, alertar, fiscalizar.»

Higiene visual e auditiva

Pedro Correia, 29.07.20

 

Durante anos recebemos no sossego do lar o entulho verbal de cartilheiros, muitas vezes ligados ao cordão umbilical de clubes desportivos e agindo como marionetas destes, poluindo as pantalhas com os seus gritos histéricos, o seu sectarismo patológico e a sua desonestidade intelectual. E a coisa, pelos vistos, até rende para além do reduto da bola: um desses pantomineiros, por sinal um dos mais sabujos, é hoje deputado da nação e lidera um putativo partido político.

Numa decisão que só peca por tardia, o director de informação da SIC acaba de pôr cobro a esta desbunda anunciando que deixará de dar tempo de antena aos chamados comentadores de cachecol, convocados para as diatribes em estúdio apenas por revelarem total falta de isenção. Esta medida de elementar higiene visual e auditiva não tardou a ser secundada pela direcção de informação da TVI, agora em início de funções.

 

Tudo bem. Questiono-me apenas se este gesto profiláctico não deveria ter sido assumido em primeiro lugar pela RTP, empresa estatal de televisão e rádio - e, portanto, com especiais responsabilidades, nomeadamente na não-discriminação de emblemas clubísticos nos seus painéis de comentário sobre futebol. Recordo-me que entre os bitaiteiros de cachecol com lugar cativo na RTP já figurou o actual presidente da Câmara do Porto, aliás protagonista de um contundente "abandono em directo" entre gritaria que terá congregado grande audiência.

Motivo acrescido para a minha interrogação: ao privilegiar os chamados "três grandes", ignorando todos os outros emblemas desportivos, a vetusta empresa de comunicação televisiva paga com o dinheiro dos nossos impostos entra em colisão com os princípios de serviço público. O mesmo se passa com a Antena 1 no plano radiofónico.

Mais vale tarde que nunca. Eis chegado o momento de perguntar se a Direcção de Informação da RTP tenciona seguir o bom exemplo agora posto em prática por dois canais privados ou se vai manter tudo na mesma, fingindo que nada tem a ver com este filme.

Serviço público televisivo

jpt, 14.06.20

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Trump agradece eficácia de SS a protegê-lo contra manifestantes (RTPNotícias, 12 de Junho)

Esta é a "notícia" que a empresa de serviço público televisivo publicou, acompanhada desta mesma imagem. O que se pode dizer é curto. Pedir o despedimento de alguém é sempre duro. Mas neste caso é inultrapassável. O Estado não pode ter no seu serviço noticioso alguém que tem este entendimento do jornalismo. Não é um caso de incompetência nem um erro. É a vigência, descarada, da concepção de que ser jornalista é manipular factos e opiniões, e sem qualquer limite. É óbvio que quem redigiu esta aldrabice tem que ser despedido. Tal como é que o responsável deste serviço público noticioso (RTPNotícias) que não só deixou passar esta atoarda como não fez por a apagar nas 40 horas subsequentes também tem que ser afastado. Não apenas dessas funções de chefia mas da empresa pública. Entenda-se  bem: despedido. E nós, cidadãos, temos de ser informados pela administração desta empresa pública não só sobre quem são estes dois desonestos profissionais como do momento exacto da sua saída de funções remuneradas por uma empresa estatal.

E isto não tem nada a ver com Trump. Como é evidente. Tem a ver com a desfaçatez destes profissionais. Aldrabões.

 

Festa na RTP

José Meireles Graça, 10.04.20

António Costa não percebe e acredito que, contra os seus hábitos, esteja a ser sincero: não percebe mesmo. A ideia de que não compete ao Estado sustentar artistas, oferecendo ao público aquilo a que o público pode aceder, se quiser, pagando do seu próprio bolso, não lhe ocorre. E menos ainda lhe passa pela cabeça que o Estado nunca oferece nada: o que gasta com uns deixa de gastar com outros; e não pode nunca dar sem cobrar primeiro ꟷ com juros, se for depois.

Dos artistas a inaugurar a série (Fernando Tordo, Marisa Liz, Ricardo Ribeiro e Rita Guerra) só conheço o primeiro, mas não foi pelo ardente desejo de não ouvir os seus gorjeios que assinei a petição para cancelar o deboche. Para isso bastava-me não ligar o canal ou canais onde ele tivesse lugar, coisa que aliás faço quase sempre que a música seja ligeira.

A simpática e desnorteada ministra da Cultura deve ter ficado varada com a reacção. Porém, uma petição que recolhe num dia mais de 20.000 assinaturas não a deveria impressionar por aí além se estivesse a fazer alguma coisa que coubesse dentro das atribuições do seu ministério e correspondesse a alguma política consistente de cultura.

Uma petição é uma manifestação na internet, que tem duas vantagens sobre as de rua: agrega quem dificilmente se daria ao trabalho de se misturar com os profissionais do ramo do berreiro; e diz claramente ao que vem, como as outras, mas explica porque vem.

Sucede que o artigo do Público para que remete o link acima abunda nas tradicionais queixas dos que ficaram de fora e na discussão dos critérios a que deve obedecer a distribuição de subsídios. Quaisquer que sejam os critérios, ou a falta deles, seja para pôr uns maganos a gemer a um microfone, para juntar uma troupe para realizar um filme que ninguém quer ver ou encenar uma peça a que ninguém quer assistir, para ajudar uns futuros génios a borrar umas telas, ou para desfear o espaço público com esculturas ou instalações de consagrados como Cabrita Reis, a quem sobra em lata e influência o que falta em talento, há sempre quem discorde.

Os que discordam acham que deviam ser eles os beneficiados, ou a seita deles. Compreendo os queixumes, de mais a mais agora que haverá artistas que estão a passar mal e a ver a vida a andar para trás; e, na verdade, não me incomodo excessivamente com a caridade pública de não os deixar morrer de fome.

Mas uma coisa é ocorrer a desvalidos; e outra, muito diferente, coonestar este negócio obsceno, que dura há demasiado tempo, de comprar o apoio da gente dita da cultura com o expediente de a sustentar com dinheiros públicos.

Entendamo-nos: o Estado gasta pouco com o ensino musical, na minha discutível opinião, mas isso é um assunto de educação, e logo doutra pasta; o mercado não sustenta, só por si, orquestras sinfónicas ou teatros, mas nem por isso os conservatórios ou os teatros nacionais devem ser encerrados, mas isso não tem directamente a ver com o passadio de A ou B.

O ideal seria que o ministério da cultura tratasse dos monumentos em ruínas, das bibliotecas sem condições, dos museus sem acervos que prestem, ou mal conservados, ou ocultos; e que, em suma, se tiver de apoiar a cultura, na ausência de outros mecenas que não a Gulbenkian, porque em Portugal até os ricos são pobres, subsidie organizações sólidas e com tradição segundo critérios objectivos compreensíveis, não circo para a populaça nem bodos para grupos de amigos muito lá de casa.

Fora da caixa (29)

Pedro Correia, 11.10.19

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«A estratégia de uns não é isolada. Conta também a estratégia dos outros, que são os adversários e também têm a sua estratégia para ganhar.»

David Justino, ontem, em entrevista à RTP 3

 

Vi ontem, com atenção e alguma comiseração, uma entrevista concedida à RTP 3 por David Justino, antigo ministro da Educação e actual braço direito de Rui Rio. A comiseração deveu-se ao facto de este estratego-mor da direcção laranja ter implorado pela enésima vez a necessidade de haver «entendimentos alargados» com o partido do Governo.

Natalidade, impostos, descentralização: eis três áreas concretas que integram o conjunto das preces de Justino aos socialistas. «Estes problemas, para nós, são fundamentais e sabemos de antemão que só são concretizáveis se houver um entendimento alargado com várias forças políticas, em especial com o maior partido do Governo», declarou o vice-presidente do PSD no seu léxico muito peculiar. No preciso momento em que António Costa, como decorre da lógica natural das coisas, estabelece pontes com todos os partidos à sua esquerda, ignorando olimpicamente os desesperados apelos emanados da Rua de Santana à Lapa.

Na entrevista ao canal público, muito bem conduzida pela jornalista Cristina Esteves, Justino chegou ao ponto de entoar este madrigal a Costa: «Após quatro anos a distribuir rendimento, com sacrifício de investimento público e de crescimento económico, é natural que as pessoas não tenham razões objectivas para mudarem a sua opção de voto. Estes quatro anos, de alguma forma, correram bem à "geringonça".»

Com toda a franqueza, mal consigo distinguir esta "oposição" do Executivo socialista.

Ab amore Dei

Pedro Correia, 26.10.18

Acabo de ouvir a Filomena Cautela dizer "por amor de Deus" no 5 para a Meia Noite, da RTP. Ainda antes da meia-noite, o que torna a coisa mais grave. Àquela hora estavam certamente criancinhas a ouvir. E as criancinhas devem ser poupadas a expressões eventualmente traumáticas como esta.

Bem sei que o programa tem bolinha no canto superior direito do ecrã. Mesmo assim, trata-se de algo inaceitável num Estado laico. Expressões de conteúdo teológico deviam ser rigorosamente interditas no canal público. Que esperam o Conselho de Administração, o Conselho de Opinião e o Conselho Geral Independente da RTP para aprovarem um Index Verbis Prohibitorum que possa prevenir tais despautérios?

Primeiro o Bruno, depois o acessório

João Pedro Pimenta, 04.06.18

Eu sei que a crise do Sporting interessa muito aos portugueses e é motivo para especulações e discussões infinitas. Mas era mesmo preciso que a RTP abrisse o noticiário da noite de sexta-feira com a conferência "de imprensa" de Bruno de Carvalho num dia em que a Espanha e a Itália ganharam novos governos? Já nem falo das últimas medidas proteccionistas de Trump em busca da quimera do renascimento da indústria do aço no Midwest. Se isto são as prioridades de informação da televisão pública, então nem quero imaginar as das privadas. Na volta até são mais sensatas.

Final da taça ou fim da linha?

Sérgio de Almeida Correia, 20.05.18

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Depois de durante dias seguidos ter sido bombardeado com a novela de Alcochete, a que se seguiu a novela da Taça de Portugal, com as rescisões, as ameaças, os desmentidos, os comunicados, as entrevistas e as conferências de imprensa com as catatuas e os marginais habituais; sem esquecer o último jornal da RTP com os títulos da imprensa diária comentados em directo, estava convencido de que a RTP, já nem digo a Televisão de Macau (que transmite os jogos da Liga dos Campeões e da Liga Europa, dos campeonatos de futebol da China e do Japão e, ainda, da segunda divisão inglesa, tendo já anunciado em canal aberto os 64 jogos do Mundial da Rússia), permitiria a todos os que vivem na Ásia, e àqueles que estão de viagem por estas paragens, como a equipa B do Sporting Clube de Portugal, assistirem em directo à final. 

Mas não. À mesma hora a que se jogava no Estádio Nacional o Aves - Sporting, por aqui tínhamos de gramar na RTP Ásia, uma vez mais, com os comentários futebolísticos dos "paineleiros" da bola com mais uma retransmissão de um programa requentado sobre a crise do Sporting.

Nem mesmo através da RTP Play era possível ver o jogo que a RTP 1 estava a transmitir em directo. Quanto à  RTP Internacional anunciava "Got Talent Portugal" (convém ensinar inglês aos provincianos que vivem fora de Portugal) e "Volta ao Mundo". Um verdadeiro serviço público de excelência para os portugueses que vivem fora. Curiosamente, ainda ontem vi a final da Taça de Inglaterra. 

Ouvir o relato pela rádio fez-me regressar, em 2018, aos domingos à tarde, em Moçambique, no final das décadas de sessenta e início de setenta do século passado, quando não havia RTP Internacional ou televisão a cores, e eu me escapava para acompanhar os relatos dentro do carro do meu pai.

E depois aparecem por aí umas cavalgaduras com os bolsos carregados de porta-chaves e pacotes de manteiga, para largarem uns perdigotos a enaltecer a herança camoniana, a lusofonia e a importância dos "portugueses da diáspora" (sic), enquanto nós suamos em bica e eles aproveitam para distribuir a granel a lataria do Dez de Junho. Não corresse eu o risco destas linhas serem lidas por menores e dir-lhes-ia o que podiam fazer com a tralha que nos trarão dentro de mais uns dias. 

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Uma vergonha

Pedro Correia, 04.05.18

Prática inaceitável e vergonhosa revelada em reportagem da RTP: deputados de vários partidos - alguns até residentes a poucos metros da Assembleia da República - recebem ajudas de custo diárias e "abonos de deslocação" por indicarem no Parlamento moradas longínquas como habitação permanente. Enquanto no Tribunal Constitucional deixam evidente que residem em Lisboa.

Parabéns à Sandra Machado Soares pela investigação. Eis um exemplo de bom jornalismo.