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Delito de Opinião

No Rio também há dias sem sol

Ana CB, 16.10.25

Quatro da tarde, e parecia hora de ponta na entrada do Parque Bondinho, ao pé da Praia Vermelha. É verdade que era domingo, e para os brasileiros o bilhete é mais barato do que para os estrangeiros (que eram nitidamente poucos). Só que… o sol ia desaparecer por volta das cinco e meia, e na minha cabeça rodava uma interrogação: o que é que tanta gente vai fazer ao Pão de Açúcar a esta hora? Resposta óbvia: o mesmo que tu – ou seja, ver o pôr-do-sol num dos lugares mais icónicos do Brasil e do mundo. Mas seria “só” isso?

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Não, não era.

Para mim, o Pão de Açúcar foi sempre o conjunto dos dois monólitos, um mais alto do que o outro, eternizados nas milhentas imagens do Rio difundidas por todo o lado. Só que não é. O Pão de Açúcar é o mais alto dos dois. O mais baixo é o Morro da Urca. E se para chegar ao cimo deste morro existe um trilho pedestre – muito íngreme, é certo, mas devidamente marcado e mantido – para subir ao Pão de Açúcar só em modo escalada na rocha. Portanto, a solução é mesmo usar os dois teleféricos que ligam a cidade aos miradouros instalados no topo dos morros.

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Turismo e rentabilidade oblige, o conceito de miradouro neste caso está bastante expandido. Três minutos de ascensão no teleférico deixaram-nos 220 metros acima do nível do mar, num espaço alargado ao ar livre em que o ambiente era de festa. A animação maior era ditada por um DJ aos comandos do equipamento que debitava música de dança, rodeado de um mar balançante de gente, bebida na mão ou telemóvel no ar para gravar o momento. O Morro da Urca é lugar de entretenimento. Há restaurantes, barzinhos de espécies várias e lojas de marca. Há o Museu do Teleférico e uma Árvore dos Desejos, espelhos deformadores no Beco das Ilusões, e malabaristas que distraem os visitantes durante os longos minutos de espera nas filas para subir ou descer nos bondinhos. Há até um heliporto, de onde saem helicópteros que levam quem pode em voo panorâmico sobre o Rio de Janeiro.

E há – claro! – vistas sem fim sobre a beleza, feita de mar e serra, da Baía de Guanabara e o seu entorno. Por trás da praia de Botafogo, com a água pintada de um laranja pálido, já descia um sol envergonhado, a sua luz filtrada pelas nuvens acasteladas sobre a Serra da Carioca. No topo do Corcovado, que mais parece um irmão gémeo do Pão de Açúcar, o Cristo Redentor era só uma cruz escura contra o céu cinza claro. A superfície glauca e imóvel da baía estava mosqueada com dezenas de embarcações, quase todas tão imóveis como a água por baixo delas. Ali do alto, os inúmeros arranha-céus que ocupam a maior parte do Rio perdem importância, e a cidade justifica que a adjectivem de maravilhosa.

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Outro trajecto de bondinho, tão curto quanto o primeiro, e chegámos ao Pão de Açúcar. A atmosfera aqui estava mais calma, condizente com o lusco-fusco que se instalava em modo acelerado. O espaço disponível é bem mais reduzido que o do Morro da Urca, mas aquele que a vista alcança, a quase 400 metros de altitude, é muito superior: abrange de Niterói a Copacabana, oferecendo-nos uma paisagem em que a água se impõe a tudo o resto.

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A oferta de restauração e lojas no Pão de Açúcar é menor do que na paragem anterior, e isso também ajuda à tranquilidade do lugar. Em compensação, há um percurso entre o arvoredo, a que chamam Bosque das Artes, aproveitado agora para expor alguns trabalhos do artista plástico Carlos Vergara, um dos mais representativos do movimento da Nova Figuração no Brasil (inspirado na pop art americana dos anos 60). O projecto inclui três esculturas do artista, colocadas em pontos estratégicos, e é complementado com uma sugestão de jornada digital interactiva, em que vamos encontrando informações sobre a Mata Atlântica e a sua biodiversidade.

A escuridão chegou quase de repente, como é habitual nestas latitudes. As descidas foram intercaladas por tempos alargados de espera – a maior parte dos visitantes não fica por ali até ao encerramento do parque, que tem horário variável – pois cada bondinho só transporta um máximo de 65 pessoas por viagem. A demora teve, ainda assim, um lado positivo: a possibilidade de ver o Rio sob outra luz, e ficar a saber que nem a noite lhe diminui a sedução.

 

Lugares com história

O condutor do Uber como que materializou os meus pensamentos em palavras: “Sem sol, nem parece o Rio”. Pelos vistos, estávamos em sintonia. A cidade que eu imaginava e aquela onde ele vive são um Rio onde o sol brilha a maior parte do tempo – só que não desta vez. A excepção certamente confirmará a regra, mas o clima está a mudar. E a verdade é que nos dias em que estive no Rio de Janeiro, o sol nunca se mostrou completamente, substituído por nuvens grossas que de vez em quando decidiam aliviar a sua carga em forma de chuva.

Não seria isso que iria estragar a nossa estadia. Trocam-se as sandálias por ténis, veste-se uma gabardina (fininha, que a temperatura não baixa assim tanto), e vamos lá à descoberta da cidade. O Rio conhece-se ao ar livre. Quando a chuva aparece, aproveita-se para entrar numa loja, num café ou numa igreja. Quando ela vai embora, voltamos à rua e seguimos caminho. Há muito para ver, e não é uma chuvinha que vai arruinar-nos os planos.

O Rio dos nossos dias é uma cidade imensa, espalhada por bairros de carácter muito distinto. Numa primeira visita, por onde começar? Para nós, depois de a vermos do alto, fez sentido começar a descobri-la por alguns dos lugares ligados à sua história. Porque a verdade é que nós, portugueses, só conhecemos a história do Brasil que nos é contada nos bancos da escola, e que quase se resume a dois momentos: a chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500, e a independência proclamada por D. Pedro em 1822.

O Rio é de Janeiro porque foi esse o mês em que no ano de 1502, uma frota portuguesa enviada por D. Manuel I e comandada por Gaspar de Lemos entrou na imensa enseada hoje conhecida como Baía de Guanabara. Na altura, a região era habitada por povos indígenas provenientes da Amazónia, conhecidos como tamoios ou tupinambás. Durante algumas décadas, a baía tornou-se palco de encontros e tensões. Franceses e portugueses disputaram o comércio do pau-brasil e a amizade dos autóctones, que conheciam a fundo aquelas águas e manguezais. Em 1555, os franceses, sob o comando de Villegaignon, tentaram fixar-se, erguendo a chamada França Antártica. A resposta portuguesa não tardou: após anos de confrontos, em 1565, Estácio de Sá fundava oficialmente a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, ao pé do Morro Cara de Cão, selando o domínio luso sobre uma das paisagens mais cobiçadas do Atlântico.

Em 1567, a jovem cidade foi transferida para o Morro do Castelo, onde se ergueram igrejas, colégios e fortalezas, tornando-se o verdadeiro berço urbano do Rio de Janeiro até ao século XVIII. Hoje o morro já não existe (foi demolido nas reformas urbanísticas do início do século XX), mas a sua memória corresponde grosso modo ao actual centro da cidade, onde se encontram alguns dos lugares importantes para compreender a evolução do Rio de Janeiro.

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Por estarmos num alojamento ali bem perto, começámos pelo bairro da Saúde, um dos cinco bairros que abrigam o porto da cidade. Num dos seus extremos, bem de frente para a Baía de Guanabara, a Praça Mauá foi desde sempre um palco privilegiado da história carioca. No século XIX, era a porta de entrada do porto, espaço de comércio intenso, marcado pelo vaivém de mercadorias e pelo peso silencioso do tráfico atlântico de escravizados, que ali deixou cicatrizes. Durante muito tempo, porém, a praça foi esquecida, sufocada pelo tráfego pesado e pela sombra de armazéns que a separavam do mar.

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Com o projecto Porto Maravilha, iniciado em 2009, o espaço renasceu. As avenidas foram abertas à luz, os armazéns deram lugar a esplanadas amplas e o mar voltou a estar em contacto com a cidade. Hoje, a Praça Mauá é o coração de um novo eixo cultural: de um lado o Museu de Arte do Rio (MAR), instalado em dois edifícios díspares (o palacete Dom João VI e um antigo terminal rodoviário modernizado) e que guarda e narra a pluralidade da vida urbana; do outro, sobre um cais antigo, o audacioso Museu do Amanhã, cuja arquitectura futurista se projecta como uma nave sobre as águas – e basta um olhar para se intuir que o edifício foi concebido por Santiago Calatrava, pese embora o arquitecto não se tenha socorrido, para esta obra, das suas habituais linhas arredondadas.

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Ao percorrer esta área, não há como ignorar uma das páginas mais duras da História: a do tráfico atlântico de escravizados, que fez do Rio um dos maiores portos negreiros do mundo. Em quase 400 anos de esclavagismo, a cidade recebeu cerca de 20% de todos os africanos escravizados que chegaram vivos às Américas – a maior transferência forçada de população na história da humanidade. Esta herança pode ser sentida em lugares de memória hoje recuperados, como é o caso do Cais do Valongo. Situado na zona portuária da cidade, não muito longe da Praça Mauá, é um dos lugares mais marcantes da história da escravatura no mundo atlântico. Construído em 1811, o Cais do Valongo foi pensado para afastar do centro urbano o desembarque dos africanos escravizados, que até então ocorria em áreas mais visíveis da cidade. Durante décadas, tornou-se a principal porta de entrada de homens, mulheres e crianças trazidos à força de África: calcula-se que mais de um milhão, vindos na sua maioria do Congo e de Angola, tenham pisado aquelas pedras.

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Redescoberto em 2011, aquando das obras de revitalização da zona portuária (o projecto Porto Maravilha, iniciado em 2009), a Prefeitura do Rio acolheu a proposta do Movimento em Defesa do Direito do Negro e devolveu ao Cais do Valongo o lugar que lhe pertence na memória colectiva: um espaço preservado, onde as lajes de pedra e estruturas expostas permitem hoje um contacto directo com um passado que é difícil, mas incontornável. Desde então, o cais integra o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, um percurso que convida a visitar as marcas deixadas pela diáspora africana na região portuária, e que inclui o Jardim Suspenso do Valongo, a Largo do Depósito, a Pedra do Sal, o Centro Cultural José Bonifácio e o Cemitério dos Pretos Novos. Em 2017 foi classificado como Património Mundial da UNESCO.