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Com a Bíblia

por jpt, em 20.05.19

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("Violando a Bíblia", na Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson)

Ainda que incréu nutro o maior respeito pela fé alheia. Tendo sido alfabetizado ainda mais saúdo aqueles que seguem o(s) Bom(ns) Livro(s). Mas com a idade cada vez mais me custa aturar os fanáticos, os que interpretam o(s) tal(is) livro(s) à letra: aqueles dos islâmicos que em ânsias de cortar as mãos aos ladrões; os liberais vendo a total livre empresa como o bólide que nos conduz ao Eden; os marxistas que tudo querem do Estado, que julgam Santo; os, talvez os piores, do culto de Foucault, que a todos os tipos de poderes dizem ilegítimos e perversos; os cristãos, que nem nos deixam invocar o nome de deus em vão, nem tão pouco cobiçar as mulheres porque "de outros"; os do PS, que afirmam ser silvestre a entidade Berardo; etc. Todos estes se agarram aos textos que dizem sacros e se empertigam, nas suas falsárias falsas verdades. Assim tanto nos incomodando. E prejudicando.

Mas depois todos eles se desdizem. São uns mariolas pois, de facto, dos tais bons livros só retiram o que lhes dá jeito. Aos cristãos poderemos entoar isto: "Obedeçam às minhas leis. "Não cruzem diferentes espécies de animais. "Não plantem duas espécies de sementes na sua lavoura. "Não usem roupas feitas com dois tipos de tecido." (Levítico 19:19).

E aos outros bastará abrir os livros (deles). Ao "calhas". E mostrar, com breves citações, o quão inconsequentes vão. Os tais mariolas.

(Talvez a melhor cena literária do abrir a Bíblia ao calhas e de como se manipula o "Bom Livro" seja a da Ilha do Tesouro (Stevenson), a da manha do carismático "bom pirata", o soberbo Long John Silver, uma das grandes personagens literárias de sempre. Aqui em versão "marretiana" ...)

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Instantes em sépia, com capa de muitas cores (4)

por Maria Dulce Fernandes, em 14.05.19

Hoje a Lídia veio tomar café comigo. É uma espécie em extinção, esta das colegas da escola primária, especialmente quando somos pessoas algo antigas, não declaradamente clássicos artefactos de museu claro está, mas peças daquelas que ainda se conseguem encontrar se se procurar bem, em alguma loja de antiguidades na Rua de S. Bento. 

Falámos de coisas que tinham tanto pó e teias de aranha, que foi uma risota conseguir restaurar-lhes algum do antigo brilho.  

Falámos como crianças, de como crianças de 8 anos se divertiam com...nada! É uma verdade paradigmaticamente prodigiosa! 

 Veio logo à ideia a natação, as peripécias, os mergulhos, o espalhafato… A natação que, como diz a letra da música, era obrigatória na instrução primária nos externatos particulares. Uma piscina na altura era o expoente máximo da riqueza e do estatuto social de alguém.  

Os afortunados de Belém/Restelo que podiam pagar, tinham acesso a um lago, tina, qualquer coisa com água e peixes, que devido à sua densidade e cor, era carinhosamente apelidado de "Caldo Verde" e fazia parte dos lagos exóticos do antigo Jardim do Ultramar. 

 Foi lá que aprendi a nadar; primeiro a bater pés agarrada a um varão, depois com uma tábua, com um cinto...  

O professor de natação era um rapagão bem constituído que fazia as delícias das sopeiras e das amas e que dava pela alcunha de "Cochicho". Tinha um ponteiro de bambu comprido com que nos batia nos braços, nas pernas e na cabeça, quando não conseguíamos sincronizar os movimentos com as respirações. 

 Pelos padrões de hoje o Cochicho seria um espectáculo de homem bem trabalhado. Pessoalmente, sempre o achei feínho, como qualquer menina até aos 10 anos, para quem os padrões de beleza masculina eram os ternurentos e bochechudos querubins de olhos azuis e cabelos louros que revestiam as pinturas religiosas espalhadas por todos os recantos de todas as igrejas modernas daquela altura. 

 Acontece que no antigamente a educação Moral e Religiosa fazia também parte do programa lectivo e todas as alunas da minha classe aos Domingos de manhã, em jejum e de cabeça coberta, frequentavam as aulas de catequese que culminavam com a confissão a um padre, que antecedia sempre a missa e a comunhão. 

 Num desses dias depois da aula de catequese, dirigi-me ao  genuflexório bafiento e gasto que tinha ficado livre, e depois do "Padre , perdoe-me porque pequei", lá comecei a contar a minha semana ao indivíduo na sombra para lá das ripas de madeira. Acabada a confissão, soa uma voz aterradora, profunda e trovejante que me diz, " E o Cochicho, menina, o que é que tem a dizer sobre o Cochicho ?" Morri. 

 O drama, o horror, a vergonha, o medo... não sei explicar. Só podia ser Deus, porque nunca vira um padre na natação !!! ... e eu que até nem achava grande piada ao Cochicho ! 

 Aterrorizada, desatei num pranto, e foi necessária a intervenção da catequista para me tirar dali, levar para casa e entregar-me aos meus pais, informando-os da penitência em Padres Nossos, Ave Marias e Salve Rainhas, e que falassem comigo sobre os pecados mortais.  

 Assim que terminei os catecismos e as comunhões obrigatórias para completar a escolaridade imposta pelo regime, excepto em ocasiões de casamentos e baptizados, não voltei à igreja. Terminei com o jugo do medo, mas as cicatrizes morais, essas acho que nunca desapareceram. 

 A colega foi embora em abraços de saudade e eu quedei-me em pensamentos, a cogitar no Cochicho de quem nunca soube o verdadeiro nome, e na voz que tanto me atemorizou e que agora quem sabe não a reconhecerei como o tal de subconsciente, que também nunca conheci pessoalmente, mas que sei que tem tido muito que se me diga. 

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O Sri Lanka e o estado do Ocidente

por jpt, em 22.04.19

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Não há muito para dizer sobre os terríveis atentados no Sri Lanka que a imprensa não tenha já relatado (ou venha a relatar, acontecida que foi há pouco outra explosão) - talvez lembrar que nos últimos dias houve um ataque do ISIS no Congo, e que a "insurgência" islamita em Moçambique se vai disseminando para sul. Entre tantos outros países onde formas super-agressivas de islamismo político se vão disseminando, isto para além das habituais formas de ditaduras políticas e intolerância sociocultural - os militantes "activistas" e "identitaristas", bem como os Estados europeus, são completamente excêntricos ao autoritarismo religioso do Islão, patente nas formas inaceitáveis de tratamento da apostasia e de perseguição dos ateus, bem como da perseguição e discriminação de minorias religiosas. Tanto nos países de maioria muçulmana como nas práticas das populações muçulmanas residentes na União Europeia "dos direitos humanos". Alguém se interroga sobre como actuam os líderes religiosos muçulmanos em Portugal (e na UE) face aos que querem abandonar a sua religião, como pregam sobre o assunto, que pedagogia da tolerância praticam, que modalidades institucionais instauram? De facto, a liberdade de culto, um dos valores fundamentais conquistados na Europa é posta em causa no interior de núcleos crescentes da população sem que isso seja apontado pela maioria dos intelectuais dos países europeus (algemados aos pós-marxismo identitarista) e sob o silêncio (timorato) dos Estados. 

Um dos grandes problemas é o do negacionismo do processo em curso. Trata-se de uma "guerra civil" islâmica, uma "guerra santa" endógena, uma enorme conflitualidade interna ao islamismo, uma religião política por excelência, talvez a mais política de todas, promovida pela desvairada violência do "integrismo", querendo esmagar (converter ou exterminar) outras correntes. Aquilo  que é um "ur-fascismo", para usar a problemática definição de Umberto Eco. Mas também, concomitantemente, de uma "guerra santa" contra os cristãos (e também contra os hindús, mas mais calma em termos de atentados ainda que a conflitualidade latente entre Índia e Paquistão não augure nada de bom neste domínio). É tendencialmente uma guerra universal, inegociável, pois os "integristas" tudo querem, não há como negociar.

Nesse âmbito temos o supremo problema de que o "ocidente", ao confundir democracia com "multiculturalismo" - versão secularismo, à qual em Portugal Rebelo de Sousa deu carta de corso logo que tomou posse, diante do silêncio ignorante e estuporado da classe intelectual e dos políticos (dos jornalistas já nem se fala) - não coloca o problema tal e qual ele existe. Começa isso por não o nomear, em requebros e meneios que são verdadeiramente suicidários. O exemplo do dia, tonitruante por vir de quem vem, é a forma como Obama e Clinton se referiram às vítimas dos horríveis atentados no Sri Lanka. Repare-se bem nisto: se há um mês o desgraçado morticínio numa mesquita neo-zelandesa foi enunciado pelo ex-presidente americano como uma agressão à "comunidade islâmica" (e não aos "Adoradores do Profeta" ou aos "Adoradores do Pedregulho"), agora os atentados são por ele (e pela sua ex-vice) considerados como atingindo os "Adoradores da Páscoa" (e não a "comunidade cristã"). Nesta vergonhosa pantomina retórica reina o substrato negacionismo, o propósito de não identificar, sonoramente e com exactidão, os alvos: os cristãos.

O inimigo é, evidentemente, o ur-fascismo islâmico. Mas é evidente que Obama, e os tantos "Adoradores do Obama", são perigosos. Chamberlains actuais, nada mais do que isso.

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Votos de uma Santa Páscoa

por jpt, em 19.04.19

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Os meus votos de uma Santa Páscoa, para todos os leitores do DO e também para os apenas por aqui passantes. Para todos, em particular para os ateus (como eu) e ainda mais para os anti-cristãos disfarçados de anti-clericais.

A Páscoa é a celebração da esperança na ressurreição (para os crentes metafísicos). E da esperança na segunda hipótese em vida (para os utópicos materialistas, e lá vou eu nisso).

Sabeis o que é a Páscoa? É um tipo na "sexta-feira santa" sair à rua apenas em camisa, e de manga curta, pela primeira vez em oito meses. E quase chorar de comoção por apenas isso. Porque afinal ... há páscoas.

 

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O Papa que quis ser maestro

por Pedro Correia, em 21.03.19

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Quando era pequenino, Jorge Mario Bergoglio – primeiro Papa oriundo do continente americano – queria ser maestro. Sentia-se vocacionado para conduzir orquestras que acompanhassem óperas italianas – as mesmas que escutava religiosamente todos os sábados, na companhia da mãe, filha de um modesto carpinteiro, na rádio nacional argentina. A avó materna, ouvindo-o exprimir tal vocação, disse-lhe: «Mas para isso é preciso estudar. E para estudar é preciso esforço, não é fácil…»

Foi uma das lições que a vida transmitiu ao futuro chefe da Igreja Católica: nada de relevante se consegue sem trabalho árduo e persistente. «Graças a Deus tive os meus quatro avós até tarde», recorda hoje o Papa. Os pais, oriundos de uma região pobre de Itália, viram-se forçados a rumar à Argentina na década de 20: o primeiro idioma que este filho de emigrantes aprendeu em casa foi o dialecto piemontês. Uma das suas recordações mais antigas remonta a Agosto de 1945, quando tinha oito anos, no quintal lá de casa: chegou uma vizinha alvoroçada e comunicou à família que a guerra terminara.

Ordenado sacerdote aos 33 anos, Bergoglio teve ocasião de testemunhar outros períodos em que Deus parece ter-se divorciado do destino humano. Durante a brutal ditadura argentina, por exemplo, foram assassinadas pessoas de quem estava próximo. Incluindo uma amiga comunista do Paraguai que costumava emprestar-lhe livros e a quem agora agradece por tê-lo «ensinado a pensar»: prisioneira política alvo de torturas, acabaria morta em 1977 por um método muito associado a esse regime: meteram-na num avião e lançaram-na ao mar.

 

Diálogo com agnóstico

 

São revelações contidas no livro Um Futuro de Fé, nascido de um conjunto de doze conversas travadas entre Fevereiro de 2016 e Fevereiro de 2017, no Vaticano, entre o Sumo Pontífice e o sociólogo francês Dominique Wolton, especialista em comunicação e autor de obras similares com o filósofo Raymond Aron (1981), o arcebispo de Paris Jean-Marie Lustiger (1987) e o presidente da Comissão Europeia Jacques Delors (1994).

«O homem é, fundamentalmente, um ser comunicante», disse o Papa ao assumido agnóstico que durante um ano foi seu interlocutor na modesta Casa de Santa Marta que lhe serve de residência após ter recusado viver no sumptuoso Palácio Apostólico onde se alojavam os anteriores pontífices.

Com três diplomas universitários (licenciaturas em Engenharia Química e Filosofia, doutoramento em Teologia), Bergoglio tornou-se o Papa Francisco em 13 de Março de 2013. À conversa com Wolton – exprimindo-se «num francês melhor do que faria crer», segundo o sociólogo – lembra esses dias que lhe mudaram a vida para sempre. Chegou a Roma vindo de Buenos Aires, onde era arcebispo, «com uma pequena mala e um bilhete de regresso.» Nem lhe passava pela cabeça, confessa, sentar-se no trono de São Pedro: «Havia três ou quatro “grandes” nomes… Para os corretores de apostas em Londres, eu era o 42.º ou 46.º»

Nesse fim de tarde, foi apresentado ao mundo como novo líder espiritual de mais de mil milhões de católicos. «Boa noite» foi a primeira mensagem que dirigiu à multidão concentrada a seus pés. Porquê? «Não sabia que outra coisa dizer naquele momento.»

 

Chaplin e Dostoievski

 

Outras frases marcantes acompanham o pontificado deste bispo de Roma que se manifesta contra os fundamentalismos, exprime sérias reservas à globalização que «destrói a diversidade» e admite ter uma aversão inata à hipocrisia. Algumas das mais significativas surgem neste livro-entrevista dividido em oito capítulos e que talvez deva ser lido a partir do último – o mais confessional, em termos humanos. Eis três delas: «Cuidado com o analfabetismo afectivo»; «Não confundamos a felicidade com um sofá»; «É preciso construir pontes e derrubar muros.»

Um Futuro de Fé revela-nos um Papa que na Argentina natal sentiu necessidade de fazer psicanálise. Que fala de Platão, Hegel e Dostoievski. Que menciona filmes como Tempos Modernos e A Festa de Babette. Que se comove ao ver o quadro A Conversão de São Francisco, de Caravaggio. Que aponta a vantagem suprema da religião: «Lembra-nos que é necessário elevar o espírito para o Alto a fim de construir a cidade dos homens.» E que partilha o que sentiu ao visitar o antigo campo de extermínio de Auschwitz: «Vi como era o homem sem Deus.»

 

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Um Futuro de Fé, do Papa Francisco, em diálogos com Dominique Wolton (Planeta, 2019). Tradução de Maria Leitão. 342 páginas.
Classificação: *****
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

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Se Deus Quiser

por jpt, em 22.10.18

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Tabu de Marcelo: diz que não faz mais campanhas “se Deus quiser”; e recandidatura “está nas mãos de Deus”

 

A forma como os locutores da tv estatal se dirigem aos "caros telespectadores" é algo relevante e passível de crítica. Não só pela disseminação do sotaque televisivo (a potenciação do canibalismo fonético da classe média lisboeta) que muito obsta à nossa compreensão pelos outros falantes de português - que é algo relevante quando se discute o AO90, ainda que os especialistas lusocentrados, mesmo quando oponentes daquela tralha, nunca notam. Ouçam com atenção António Costa a falar (o qual, de facto, fala só um bocadinho pior do que eu) para atentar neste "linguacídio" (diz-se glotocício, mas enfim, há quem esqueça o termo) em marcha ...

Mas há outros detalhes. Há anos muito me irritava, por descabido, o piscar de olho com que JRS se despedia no final do telejornal ("quem é este gajo para nos piscar o olho?"). E, mais do que tudo, irritava-me, e cheguei a blogar sobre isso, logo no início da minha blogomania, em Dezembro de 2003, a descabida expressão de José Alberto Carvalho que costumava anunciar, impante, ser o telejornal transmitido para "todo o mundo português". Saberia o tipo sabia que passava em directo na RTP-África? Não haveria alguém que lhe dissesse (e não havia mesmo) o bafiento tom colonial que isso transmitia?

 

Mas enfim, leio agora que uma conhecida jornalista critica uma colega por se despedir com o tão usual "se Deus quiser". Como ateu e defensor da laicidade dos serviços estatais também concordo, "não havia necessidade" como dizia o grande humorista ...

 

E lembro-me de tempos muito recuados, quando vigorava o "compromisso histórico", como se diz geringonça em italiano, no português arcaico erudito dito "bloco central", quando as instituições se congregavam para trancar as investigações sobre as aleivosias dos políticos, em suma quando do PR se esperava que ajudasse a correr com a procuradora-geral da República, para Sócrates, sua "entourage", a elite socialista, e os "clientes" do grande banco privado brindassem, suspirando de alívio. Nesses tão recuados tempos as prestigiadas jornalistas, alimentadoras e apoiantes de blogs anónimos e remunerados (quais Steve Bannions avant la lettre, ainda que artesanais) não se incomodavam com as figuras estatais a invocarem deus. Nem mesmo que fosse o PR.

 

Mas agora, nesta nova era? Resolvida a tarefa? Calafetado o caminho? Ofendem-se muito com as alusões às divindades ... Deus Nosso Senhor nos valha, que vem aí borrasca. Lá dentro do bloco central.

 

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Fazedor de chuva

por jpt, em 01.11.17

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O cardeal de Lisboa, Manuel Clemente, anunciou que quer fazer chuva. Associo-me ao seu benéfico esforço partilhando imagem de um dos seus colegas, sito entre os Kxatla (na África do Sul), aqui rodeado dos seus paroquianos enquanto promovia chuvadas, cerca dos anos 1920s (eu suponho que a fotografia é do grande Isaac Schapera mas não consigo comprovar isso).

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Santa Páscoa!

por Teresa Ribeiro, em 15.04.17

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Dedico este post aos católicos que são assim, como a criatura de Deus que aparece na foto, quando vêm à discussão assuntos polémicos sobre a sua Igreja e que rilham os dentes quando lhes falam do seu Papa Francisco,"esse 'comuna' que só veio desestabilizar".

Em tempo de Páscoa, por favor meditem nas palavras do padre Anselmo Borges, que transcrevo a partir da entrevista que deu ao Expresso, para esta última edição, e cuja leitura integral recomendo:

"É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima"; "A Igreja é misógina"; "A Igreja não pode impor como lei aquilo que Jesus entregou à liberdade. É preciso acabar com as vidas duplas" (a propósito do celibato obrigatório dos padres); "A hierarquia vive na ostentação e não se bate pelos direitos humanos"; "Este Papa é um cristão no sentido mais radical, não é apenas baptizado, ele segue Jesus". 

São críticas velhas, mas quando vêm de um homem da ICAR com a sua envergadura intelectual, têm outro valor.

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Todas as horas de um homem

por Pedro Correia, em 14.04.17

«Morrer por uma religião é mais simples do que vivê-la com plenitude; lutar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um acto é menos que todas as horas de um homem.»

Jorge Luis Borges, O Aleph

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Uma Mesquita em Lisboa

por João André, em 31.05.16

Não acompanhei o assunto no início e cheguei a ele pelo post do Luís. Depois vi uma partilha do texto de João Miguel Tavares (um comentador de quem não gosto por diversas razões - que pouco têm a ver com as suas opiniões) no Facebook.

 

Deixo apenas o texto que um amigo, o Paulo Granja, colocou na sua página do Facebook e que me pareceu bastante melhor - independentemente das opiniões - que o de JMT.

 

JMT não sabe do que fala

Antes de mais, a intervenção urbana que tem sido reduzida à construção de uma mesquita insere-se numa operação de maior dimensão de requalificação urbana “entre o Martim Moniz e o Intendente, com o nome Praça-Mouraria”, e prevê a criação de um jardim, uma sala polivalente, de uma praça coberta e de uma ligação entre a Rua da Palma e a Rua do Benformoso, para além da referida mesquita (creio que também se prevê a requalificação/integração do Arquivo fotográfico municipal, já existente num edifício contíguo, mas não me recordo agora se o Arquivo será ou não formalmente integrado no projeto), sendo que o interior da mesquita ficará a cargo da comunidade muçulmana (creio que mais precisamente a cargo do Centro Islâmico do Bengladesh). A construção da mesquita neste bairro, e neste local em particular, justifica-se pela forte comunidade muçulmana do Bangladesh aí existente. De facto, já existiram 3 mesquitas em edifícios próximos, estando a última, frequentada por cerca de 600 pessoas, localizada num edifício para habitação, se não estou em erro, no Beco de S. Marçal, compreensivelmente com grande incomodo para moradores e para a vizinhança.

Segundo, o projeto de intervenção insere-se no Plano de Urbanização do Núcleo Histórico da Mouraria (o único ponto em que admito que JMT possa ter alguma razão é na aparente contradição entre a exigência feita ao proprietário/PUNH e a intervenção projetada, mas a legislação prevê que os poderes possam estabelecer exceções às regras e planos que os próprios fizeram aprovar, em nome do interesse público – como creio que foi feito com o PDM para a construção do novo Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia -, mas se isso é bom ou mau é já outra discussão), e está a ser pensado desde 2009, altura em que mereceu apoios do FEDER/QREN. O projeto final de arquitetura foi apresentado a discussão pública e votado favoravelmente por todas as forças partidárias com representação na Assembleia Municipal de Lisboa em 2012.

Em terceiro lugar, sim, a CML também patrocina igrejas, sinagogas e templos de Shiva (se o deveria fazer ou não é outra questão…). Que me lembre, a CML já apoiou o Centro Ismaili, O Centro Hindu, O Museu Judaico e a (re)construção de várias igrejas católicas – estou a lembrar-me da Nova Catedral de Lisboa, a construir perto da Parque Expo. Nalguns casos (Museu Judaico e Igreja Católica), os apoios financeiros chegam também aos vários milhões de euros, já para não falar nas operações urbanísticas envolvidas (creio que no caso do Museu Judaico está prevista a intervenção/requalificação de vários edifícios no centro histórico de Alfama, mesmo ao lado da Igreja de S. Miguel).

Resumindo, não se trata apenas de pagar uma mesquita.
Não houve falta de discussão pública, nem atropelos à legislação e regulamentos camarários – se houve, serão dirimidos em local próprio, os tribunais.
Não foi uma proposta socialista ou sequer de esquerda feita a revelia dos partidos de direita, a direita também votou favoravelmente o projeto.
E sim, a CML, e não o Partido Socialista, apoia financeira e logisticamente, várias outras confissões religiosas.

JMT pode contentar-se em comentar artigos publicados no jornal onde escreve sem se dar ao trabalho de se informar. Isso também eu posso fazer, a diferença é que não sou jornalista e não me pagam para isso.

 

Leitura complementar: A mesquita da Mouraria, o Google e o Facebook.

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Vá, não custa nada:

por Fernando Sousa, em 24.05.16

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 Estão abertas as inscrições para o próximo ano lectivo. A Celestina passou por lá.

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O Papa que ri

por Teresa Ribeiro, em 28.02.16

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O ódio contra o Papa Franciso grassa. Não me espanta. Entrou no seu pontificado como um elefante em loja de santinhos e partiu a loiça toda. Falou dos casos de pedofilia, da corrupção no Vaticano e dos seus crimes económicos, dos católicos divorciados, dos católicos gays... Demasiados issues. Uma poeira que não assenta. Quem é ele para expor assim as fragilidades de uma instituição que se quer sólida e vista como a referência moral e espiritual do ocidente?

Não me surpreende o ódio da hierarquia e de todos os que beneficiam directamente do statu quo, o que me encanita é a reacção das "bases". Dos católicos que desconfiam do seu chefe supremo porque prescindiu da gravitas da função e prefere chegar às pessoas, porque não assobia para o lado e, ao contrário, faz mea culpa, em nome da Igreja, por todos os podres que se lhe reconhecem. Porque denuncia, ao estilo de Cristo, tudo o que no mundo deve ser, aos olhos de um verdadeiro cristão, abominável. Finalmente porque usa e abusa da palavra de Deus para confrontar as suas ovelhas com contradições e hipocrisias quotidianas. Mas não é essa a função de um líder espiritual?

Esta parte, a das consciências, é a que mais mói.  É este ódio que nasce da incomodidade que anda, não duvido, a envenenar parte da comunidade católica. Há dias li no El Mundo, assinada por Fernando Sánchez Dragó, uma crónica intitulada  "Incapacitación" que põe à discussão a necessidade imperiosa de desencadear o impeachment de Francisco: "Es necesario meter en cintura al hereje Francisco si se niega a cambiar el rumbo de su pontificado o a dimitir", escreve este romancista, ensaísta e crítico literário, conhecido pelo seu conservadorismo social e ultra-liberalismo económico. Aqui está um bom discurso de ódio. Das primeiras acusações veladas que começaram a circular no início do pontificado às críticas mais inflamadas foi um passo. Mas agora já entrámos noutro domínio, o dos apelos à rebelião.

Enquanto Dragó traçava estas linhas, o Papa dava um passo que por si só seria suficiente para inscrever o nome de Francisco como um dos mais notáveis na história da ICAR. Em Cuba reunia-se com o chefe da Igreja Ortodoxa, algo que não se via desde 1054.

Nada que esmoreça os que o odeiam de coração. Pelo contrário. Para estes, quanto melhor ele estiver, pior.

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Natal com o Menino Jesus

por José António Abreu, em 24.12.15

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A fé na qual me educaram foi-se esvaindo na racionalidade (na minha racionalidade) e na indiferença (não acredito mas, acima de tudo, não penso no assunto). Ainda assim, incomoda-me o carácter cada vez mais laico do Natal. Incomodam-me os esforços que se fazem para extrair dele a religião, alegando respeitos para com quem não deveria ter motivos para se sentir desrespeitado: a matriz de um país - feita também da religião que, mal e bem, o foi construindo - não deveria agredir quando celebrada, apenas quando imposta. A substituição progressiva mas inexorável do Menino Jesus pelo Pai Natal (e eu acho piada à figura acolhedora e transbordante de bonomia do Pai Natal), o frenesi consumista, a repetição anual de reportagens televisivas ocas, os actos formais de prazer duvidoso (os presentes que se compram porque tem de ser, os sublimes jantares de empresa), as manifestações de cariz turístico-comercial que se tornam lugar de semi-indiferente peregrinação (quantas vilas-Natal há hoje em dia?), parecem-me tentativas desesperadas para encontrar um sentido para a quadra, fora daquele que ela possui há séculos. Tentativas inglórias, como seria de esperar: cada vez mais as pessoas julgam pueris os seus esforços e se sentem mais isoladas.

Expurgamos a religião do Natal, esquecendo (ou ignorando) que quase todas as nossas celebrações estão ligadas a ela: a Páscoa, os dias de Todos-os-Santos e de Finados, até esse momento de origem pagã, o Carnaval, último excesso antes da Quaresma. E, na verdade, é melhor quando assim ocorre. Os feriados religiosos têm uma densidade, um peso histórico, social, identitário, que nenhum dos restantes consegue atingir, ainda que pretendam celebrar o país (25 de Abril, 10 de Junho, 5 de Outubro, 1 de Dezembro) ou direitos conquistados (1 de Maio). Não é preciso celebrar a religião para aceitar que o Natal deve ser celebrado com ela. Basta saber aceitar a história e os valores que formam uma verdadeira comunidade: desde logo, a «inclusão» e a «tolerância» de que tanto se fala. Permitam-me pois que os votos de um ateu (creio) sejam de um Santo Natal para todos. 

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A fé em alegria

por Isabel Mouzinho, em 12.05.15

Acho que devia ter uns sete anos quando estive em Fátima. Terá sido a primeira e a única vez. Guardo dessa visita imagens um pouco difusas, mas na verdade nunca tive vontade de lá voltar. Porque é um lugar  que associo a uma vivência da fé que me diz pouco, que entendo mal, que me parece excessivamente sofredora, dolorosa, como uma imensa lamúria. É bonita, de certo modo, a "procissão das velas"; mas há naquele "Avé, Avé.." arrastado, qualquer coisa que me deprime. Que respeito, mas que não tem nada a ver comigo.

Na verdade é muito mais com a alegria espanhola que me identifico e tenho pela Virgen del Rocío uma devoção como a que muitos terão por Fátima. Maio é também, por isso, mês de Romaria para mim. Mas é num outro mundo, em que a fé se celebra em festa e na exultação da vida. Esta romaria andaluza, que reune numa aldeia da província de Huelva, nos limites do Parque Nacional de Doñana, milhares de" romeiros" vindos de toda Espanha e do mundo, acontece sempre no Pentecostes e até já calhou coincidir com o nosso 13 de Maio.

Foi há exactamente dois anos, que escrevi este texto. Ele explica brevemente do que se trata; e porque penso muito em tudo isto durante o mês de Maio, hoje tive vontade de o trazer até aqui.

 

O Rocío colado ao coração

 

 

Esta é a semana do Rocío, a que antecede o fim de semana da Romería, que se celebra sempre  no Pentecostes. Por esta altura, as mais de cem hermandades preparam-se para fazer o caminho até à  Aldea del Rocío, a pé, a cavalo, em carroça, levando consigo o sinpecado (insígnia com a figura da Virgem do Rocío)  e a carreta que o transporta, os vestidos de flamenca, chapéus e flores nos cabelos, medalhas de romeiro ao peito e o coração cheio de alegria e de fé, na ilusão de viver uma vez mais um reencontro de amigos e de "irmãos", que se juntam, cada ano, naquela enorme festa, que parece sempre igual mas nunca  é a mesma, para rezar à Blanca Paloma e celebrar a vida.

 

 

 

 

 

 

Durante todo o fim de semana e até segunda-feira, quando acaba a Romería, o Rocío é uma aldeia que não dorme, em clima de festa permanente levada até ao limite do que o corpo aguenta, as casas de portas abertas, misturando o canto e a dança, a guitarra, a flauta e o tamboril com o trote dos cavalos e o chiar das carroças em incessante vai e vem pelas ruas de areia.

No Sábado, o dia é marcado pelas apresentações à Virgem, um desfile de hermandades que dura todo o dia e se vive em alegria, entre vivas e olés, palmas a compas de sevillanas, chapéus lançados ao ar, foguetes e lágrimas incontidas.

Mas é na madrugada de Domingo que toda a  aldeia converge para junto da ermita, para assistir ao momento mais alto e comovente da Romería:  a saída da Virgem, num silêncio imenso, quebrado pelas  palmas da multidão emocionada, unida pela força desabrida da fé, no momento tão ansiado em que se avista a imagem dourada surgir na noite,  sob o céu estrelado. E, até  ao amanhecer, a Virgem percorre a aldeia,  a visitar as hermandades, regressando de novo ao seu altar, na ermita branca, quando o sol já vai alto. 

 

 

 

E, no entanto, o Rocío é muito mais do que tudo isto. Porque para lá da realidade dos factos está, principalmente, o que não pode contar-se. Como se explica o Rocío a quem nunca o viveu? Como exprimir em palavras, o que é só sentimento e emoções à flor da pele?

Como transmitir a frescura do rebujito com sabor a hortelã? A comoção de ver chegar as hermandades com o cheiro dos pinheiros e o pó do caminho ainda agarrados à pele, o corpo cansado e os olhos brilhantes por chegar enfim à aldeia? Como revelar o som enlouquecido e cadenciado dos sinos,  tocando sem cessar? Ou  a calma tranquilidade do entardecer quieto e silencioso da marisma, a contrastar com o bulício da festa? Que palavras poderão dizer a sensação do recolhimento no meio da multidão, em silêncio diante da Virgem, sentindo a força da sua protecção, experiência única  de reencontro com o mais fundo de nós? Ou a magia dos instantes em que a festa se interrompe, às duas da manhã, e as luzes se apagam para entoar a Salve,  num coro arrebatado em que todas as vozes se unem e soam como um só clamor:  olé olé olé olé olé al Rocío yo quiero volver pa cantarle a la virgen con fe, con un olé, olé olé olé olé... 

Só quem já viveu o Rocío, nem que seja uma vez, pode entender aquilo de que falo. Há naquele lugar, na verdade,  um encanto especial que  se nos cola à vida e se guarda no coração. Porque há lugares assim, que se tornam nossos para sempre.

        

 

Depois de 2000, quando tive o privilégio de estar na Romería pela primeira vez, já voltei mais sete vezes. E em cada ano que não vou, como este, é como se alguma coisa se quebrasse no mais fundo da minha alma, o que faz com que, à medida que a data vai ficando mais próxima, alastre no peito o sentimento doloroso de não estar onde devia.

E quer vá, quer não, quando chega o mês de Maio penso muito na Romería, momento fundamental do meu ano, com aquela dimensão espiritual que nos aproxima da nossa essência, como têm a Páscoa, ou o Natal, por exemplo.

Só os que, como eu, trazem este lugar consigo, marcado no peito e na pele para sempre, mais forte e mais fundo que  uma tatuagem, conseguem entender a nostalgia que me enche o coração, o pensamento a fugir para muito longe daqui, a querer levar-me para o Rocío nestes dias, detendo-se naquela aldeia tão extraordinária, onde nos evadimos e abstraímos do resto do mundo, tão diferente de tudo que chega a parecer irreal, como uma utopia onde o sonho e realidade se misturam e a vida se reinventa e ganha maior sentido.

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A Oxford University Press, uma das maiores editoras do mundo, começou a avisar os autores de livros escolares para banirem a palavra “porco” ou qualquer referência ao animal. O objetivo é não ofender judeus e muçulmanos, já que para ambas as religiões o porco é considerado um animal impuro.

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E tão poderoso não será

por Rui Rocha, em 10.01.15

Se precisa que outros matem por Ele.

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Religião é incomodidade

por Teresa Ribeiro, em 04.01.15

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Sendo cristã, mas tendo feito a minha formação religiosa numa igreja evangélica baptista, sempre tive uma relação distante com o catolicismo, tanto quanto se pode ter quando se nasce e vive num país católico. Até hoje nunca nenhum Papa me conquistou ao ponto de me reconhecer nele sem reservas. A Francisco, que mais uma vez foi eleito em diversos meios da comunicação social uma das Figuras do Ano, vejo como um cristão, muito mais do que como o chefe da ICAR. Um cristão como eu imagino que seriam os pioneiros, destemido e apostado em erguer a bandeira do cristianismo muito acima da igreja, pois que esta é apenas - não podemos esquecer - obra dos homens.

Muitos católicos, ciosos do que consideram ser as marcas da sua identidade, não estão a aceitar a forma desassombrada com que o seu líder supremo coloca à discussão dos fiéis temas fracturantes e interpela a hierarquia, convidando-a a saltar do andor para chegar mais perto dos homens. Esta frontalidade bem como a humildade que Francisco coloca em cada um dos seus gestos, mostra-lhes um homem mais próximo do pescador de almas que a Bíblia reclama do que da figura do "santo padre" que a ICAR há muito entronizou. É este back to basics que está a encantar alguns cristãos - católicos e não católicos - e a confundir os que vêem na religião um baluarte inexpugnável, garante de uma moral e sobretudo de uma estética que precisam de preservar para seu próprio conforto de espírito. 

Estes acérrimos defensores da tradição esquecem-se que todas as Igrejas, sem excepção, abusam do nome de Deus e que as diferenças entre as várias confissões religiosas de inspiração cristã se alguma coisa provam é que a verdade universal não é exclusivo de nenhuma. Desta evidência devia retirar-se a primeira lição de humildade, que é algo que tem faltado a toda esta gente que torce o nariz à discussão e reclama para si o morno sono dos justos.   

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O cinema a despir a religião

por João André, em 03.11.14

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Uma tendência recente em Hollywood é a de voltar a temas religiosos e míticos, umas vezes criando novos objectos, outras simplesmente refazendo-os. Infelizmente, uma tendência crescente destes filmes é tentar uma desconstrução do tema, por exemplo despindo-o dos elementos que o tornam míticos (Tróia sem deuses é um exemplo) ou acrescentando outros elementos desconhecidos de forma a humanizar as personagens (o Noé do filme é consideravelmente diferente do da Bíblia).

 

Obviamente que não argumento existir uma única forma de abordar um tema - qualquer tema. Tão pouco ignoro que a escolha de determinadas histórias é propositada para poder fazer o exercício de reflexão sem ter de criar um cenário inicial. Em Noé, o estudo sobre o tipo de pessoa que a personagem bíblica seria, de um ponto de vista humano, é simplificado por não ter de se explicar em demasiado qual o contexto da história. Estamos à partida parcialmente familiarizados com Noé e o Dilúvio, pelo que não se torna necessário explicar muito. Já se o objecto deste estudo de Aronofsky tivesse sido Abraão (na minha opinião, mais adequado às conclusões finais), a sua história teria de ser explicada em detalhe, uma vez que seria menos conhecida de quem não esteja familiarizado com a Bíblia.

 

Seja como for, penso que despir um filme dos elementos mais básicos da sua história o torna menos forte no tema que aborda. Um dos principais aspectos dos filmes baseados em religiões é o imaginário que evocam. Visualmente estes filmes deveriam ser imediatamente impressionantes. Não é por acaso que Lawrence da Arábia, não sendo um filme religioso, evoca esse imaginário retratando T.E. Lawrence como uma figura semi-mitológica. Também não é por acaso que autores ateus como Pasolini, o próprio Aronofsky, Buñuel, Rossellini ou John Huston sempre estiveram fascinados pelo imaginário - e visual - religioso. É também por isso que filmes fiéis a esse imaginário continuam a ser hoje em dia fascinantes, mesmo para ateus como eu. E é por isso que quando os filmes tentam humanizar ou contextualizar as acções divinas com explicações seculares, o cinema só tem a perder.

 

Abordo este tema por duas razões: primeiro porque, segundo leio, Ridley Scott pretende, no seu novo filme Exodus (nova variação sobre a história de Moisés baseado no mesmo livro da Bíblia) criar explicações cientificamente mais aceitáveis para os milagres (segundo parece, um terramoto explicaria a passagem do Mar Vermelho). Por outro lado vamos vendo hoje uma muito pobre exploração da imagética religiosa usando e abusando das CGIs, sendo um exemplo o filme de Aronofsky ou Imortais, de Tarsem Singh. Estes dois filmes, sendo visualmente muito interessantes (especialmente o segundo), são também preguiçosos, deixando de lado a fotografia para usarem a solução mais básica do digital. Veja-se a diferença de imagens entre o filme de Aronofsky e o de Huston (em A Bíblia, a encimar o post). o segundo retrata a arca contra o sol, mostrando claramente a chegada dos animais em pares e de forma ordeira, como Deus ordenaria. No segundo, temos uma arca estranha, num panorama preguiçoso e com os animais a chegar em debandada, como que a mostrar a qualidade da reconstrução digital.

 

Hollywood pode estar de facto a tentar aproveitar o filão aberto por Ridley Scott com a sua recriação dos filmes de espadas e sandálias (Gladiador), os quais serão uma tentativa de explorar o desejo de temas simples e transcendentais, longe do frenesim da modernidade e secularidade (as razões deste ressurgimento darão certamente muitas teses de doutoramento). No entanto, do ponto de vista artístico, penso que estes filmes só terão a perder na comparação com os clássicos do passado. Aquilo que ficou perfeito não deve ser recriado. As cópias saem sempre a perder.

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Religião, realidade e felicidade

por João André, em 31.07.14

Nos últimos tempos um estudo que indica que as crianças religiosas são menos capazes de distinguir fantasia e realidade tem feito umas piscinas no Facebook. Todos os dias algum dos meus contactos o indica, seja para o apresentar, defender ou denegrir. Não tendo possibilidade de ler o estudo científico original, decidi dar uma espreitadela a artigos que o citam e acabei a ler outros artigos que referem mais uns estudos dentro da mesma área.

 

Antes de mais o óbvio: o estudo que toda a gente refere foi feito com 66 crianças e, pormenor importante, não estabelece uma clara distinção em relação às histórias fantásticas (que no exemplo usam um nome muito facilmente identificável como bíblico). As crianças seculares terão maior tendência para identificar a história fantástica como não real, mas de acordo com as notícias não existe uma divisão absoluta neste aspecto entre elas e as crianças religiosas. Num outro estudo referido aqui, o mesmo tipo de teste mas algo diferente foi também administrado a crianças. A diferença é que no segundo estudo foram usados episódios bíblicos ou, segundo o artigo, com inspiração em episódios bíblicos.

 

Os estudos são portanto limitados na extensão e poderão não ser os ideais em termos de metodologia. Haveria também que contabilizar a localização: se os estudos forem feitos em regiões de maior fervor religioso, é óbvio que a influência da religião será superior, em ambos os grupos de crianças (as crianças seculares receberiam uma educação mais reactiva à influência do meio religioso circundante).

 

Outro aspecto a considerar seria então a influência da religião ao educar crianças para serem adultos na sua sociedade. Nesse aspecto parece, segundo outro estudo, que as crianças religiosas têm uma melhor saúde mental, são mais equilibradas e felizes. Como qualquer bom cientista, o autor aponta para o facto de a causalidade não estar provada, sendo que poderá estar aqui envolvida uma questão do tipo ovo ou galinha. Por outro lado, outros estudos indicam que a religião não é necessariamente um factor importante para o desenvolvimento mental da criança. Muita da sua importância estará relacionada, mais uma vez, com o meio ambiente: num meio religioso, a religião serve como factor identificativo e de integração para a criança e - igualmente importante - a sua família. Em meios seculares, seriam crianças seculares a integrarem-se melhor.

 

Por fim há a questão da idade a considerar: estas diferenças acentuam-se durante o tsunami emocional/hormonal da adolescência mas reduzem-se na idade adulta. Isto demonstra que, no final de contas, a religião não é assim tão decisiva (positiva ou negativamente) na formação das crianças e adultos quanto muitas pessoas poderão pensar. Influencia obviamente a felicidade em função da sociedade em que o indivíduo está inserido, mas também escolhas políticas, desportivas ou amorosas o poderão fazer. Para quem é intrínsecamente religioso, a religião oferece conforto e uma sensação de pertença a algo de superior, de transcendente. Para quem é, como eu, intrínsecamente ateu, essa falta de crença oferece um outro tipo de conforto, mais intelectual e que ajuda a admirar as maravilhas pelo lado dos factos.

 

No fim de contas, o essencial será a sociedade em que cada indivíduo está inserido. Enquanto ateu, cresci num país essencialmente católico. A minha bússola moral demonstra-o claramente quando me comparo com protestantes. O mesmo se pode dizer para um amigo, ateu que cresceu num país muçulmano e outro, judeu, que cresceu num país católico. Isto deveria ser óbvio para qualquer pessoa sem ter necessidade de contar argumentos científicos (a ironia...) como espingardas.

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Comungar ou não comungar, eis a questão

por Teresa Ribeiro, em 18.01.14

Digamos que do ponto de vista católico, D. Januário considera algumas das práticas deste governo "anticonstitucionais".

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