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Delito de Opinião

Venturoso

Maria Dulce Fernandes, 06.11.25

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Estando eu absorta na visualização da “entrevista” do chegano na CNN, não estava a prestar minimamente atenção às palavras da minha neta, que tanto quanto vim depois a constatar, entabulara conversação havia algum tempo e, em não obtendo qualquer resposta, ipirangueou alto e bom som: "Mas estás a ouvir ou não, avó?” O quê? Disseste o quê? ”Fartei-me de falar várias coisas e tu nem ouviste.” És capaz de ter razão. Diz lá então… “Estava eu a dizer que não percebo a tua azia com Ventura, porque ventura é uma coisa boa, até tivemos um rei que foi chamado Venturoso, por ter alcançado grandes feitos."

É uma espertalhona, a minha neta, mas tem ainda muito caminho para andar para bater em trocadilhos uma “trocadilheira” diplomada. “É verdade que ventura é uma palavra positiva e de bons augúrios, mas neste caso particular em que Ventura é apelido, não se deve aplicar, por falta de fundamento verídico, porque tanto quanto sei, não se refere a uma pessoa venturosa. É uma espécie de paradoxo. Sabes o que é paradoxo?" ”Não, acho que não…" “É uma afirmação que significa algo e também o seu contrário.” Como assim? “Por exemplo dizer que uma piada é séria, é um paradoxo… deu para perceber?” "Como quando dizes que menos é mais?" "Exactamente!”

“Este Ventura, de ventura só tem apelido, neta. Não vale o sal que come. É dono de uma política desventurada, de um discurso viciado e de uma visão obtusa. Não é flor que se cheire. Não tem mesmo nada de D. Manuel I, certo?" "Não sei. Tenho de me informar melhor, mas és capaz de ter razão”.

"Faz isso. Democracia é isso mesmo, cada um deve ser livre de pensar pela sua própria cabeça, opinar e até mesmo  contrariar as mais sensatas ideias avoengas." ”Podes explicar-me o que é democracia…" Posso tentar, mas hoje não. Palpita-me que tenho de me preparar bem melhor.

Os nomes dos reis portugueses

Afonso, João e Pedro: assim se chamaram metade dos monarcas

Pedro Correia, 17.10.25

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D. João II (1481-1495) e D. Pedro V (1853-1861) em notas de banco: dois reis muito populares

 

Em quase 800 anos, Portugal teve 34 reis. Trinta e dois titulares e dois monarcas consortes - casados com as rainhas que asseguravam a chefia do Estado, primeiro Maria Francisca (1777-1816), depois Maria da Glória (1834-1853). 

Mas de rainhas falarei noutro dia. Hoje interessa-me mencionar nomes masculinos. E anotar que bastaram três deles para crismar metade dos nossos reis. Houve seis Afonsos (nos séculos XII, XIII, XIV, XV e XVII). João, outros seis (séculos XIV, XV, XVI, XVII, XVIII e XIX). E cinco Pedros (séculos XIV, XVII, XVIII e XIX). 

Seguiram-se os três Filipes durante a união dinástica, entre 1580 e 1640, com o nosso país submetido à soberania castelhana. 

Três outros nomes surgem em duplicado. Houve dois Sanchos (séculos XII e XIII), dois Fernandos (séculos XIV e XIX) e dois Manuéis (séculos XV-XVI e XX). 

A lista completa-se com estes oito: Dinis (1279-1325), Duarte (1433-1438), Sebastião (1557-1578), Henrique (1578-1580), José (1750-1777), Miguel (1828-1834), Luís (1861-1889) e Carlos (1889-1908).

Foi quanto bastou. Pode concluir-se que quase todos estes nomes continuam muito populares entre os portugueses. A excepção será Sancho, agora menos frequente. Mas João, Duarte, Afonso e Miguel incluem-se entre os dez ainda hoje mais escolhidos (os outros são Francisco, Lourenço, Vicente, Tomás, Gabriel e Santiago). 

 

Dos 34, quatro eram estrangeiros. Os Filipes, naturalmente - embora Filipe I (1580-1598), em estrito rigor, fosse luso-flamengo-espanhol: seu pai, o imperador romano-germânico Carlos V, era natural da Flandres e sua mãe, D. Isabel, foi a primeira filha do nosso D. Manuel I. Chegou a ser considerada a mais bela mulher do seu tempo.

Sophia de Mello Breyner alude a ela num célebre poema, "Meditação do Duque de Gándia sobre a Morte de Isabel de Portugal": «Nunca mais / A tua face será pura limpa e viva / Nem o teu andar como onda fugitiva / Se poderá nos passos tecer. / E nunca mais darei ao tempo a minha vida.»

Embora natural de Valladolid, o primeiro Filipe teve o nosso idioma como língua materna e viveu dois anos em Portugal (1581-1583). Seu filho e neto homónimos mantiveram uma relação muito mais fria e distante com o reino lusitano. 

O quarto estrangeiro que se sentou no trono português era austríaco: D. Fernando II. Obteve o título de príncipe real ao casar-se aos 19 anos com a Rainha D. Maria II, em 1836, sendo designado Rei no ano seguinte, ao nascer o primogénito do casal, futuro D. Pedro V. Foi um genuíno português de adopção, tendo deixado bem claro o seu amor ao nosso país nas mais diversas circunstâncias até falecer, aos 69 anos, em 1885.

 

Poderia ter havido monarcas portugueses com outros nomes?

Pelo menos dois.

D. Jorge (1481-1550), filho bastardo de D. João II. O pai sonhou vê-lo no trono mal ocorreu a trágica morte do herdeiro legítimo, o príncipe D. Afonso, em 1491, com apenas 16 anos. Mas a Rainha viúva, D. Leonor, impediu tal sucessão: seria o seu irmão, D. Manuel I, a suceder ao Príncipe Perfeito.

D. Teodósio (1634-1653), Príncipe do Brasil - título criado em sua honra. Era o primogénito de D. João IV, tendo sido educado para suceder ao pai. A sua morte prematura, com apenas 19 anos, impediu tal desígnio. O que seria trágico não apenas para a família, mas para Portugal: Afonso VI, o monarca seguinte, era mentalmente incapaz e acabou por ser destituído de funções. 

Mas a História é o que é, não aquilo que gostaríamos que fosse.

A vida breve e trágica de vários reis

Pedro Correia, 24.05.25

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D. Afonso Henriques: só ele e mais dois monarcas portugueses ultrapassaram os 70 anos de idade

 

Fiz há dias uma investigação sumária, por mera curiosidade, sobre os 34 monarcas que reinaram durante quase nove séculos em Portugal e cheguei a uma conclusão inesperada: só oito morreram mais velhos do que a minha actual idade.

A morte prematura foi uma constante no trono português, em qualquer das dinastias. E a esperança média de vida, em vez de aumentar, foi diminuindo. Basta anotar que o nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques, foi também um dos que viveram mais tempo - faleceu em 1185, aos 76 anos. Enquanto o último, D. Manuel II, morreu com apenas 42, em 1932.

Destas cabeças coroadas, apenas uma chegou a octogenária: D. Maria I, falecida aos 81 anos. De pouco lhe valeu a longevidade física: passou o último quarto de século de vida como doente mental.

Septuagenários, apenas três. Além do fundador do Reino de Portugal, já mencionado, D. João I chegou aos 76 anos e Filipe I (luso-espanhol e o primeiro de três que durante seis décadas ocuparam simultaneamente os tronos em Madrid e Lisboa) morreu aos 71. Ninguém mais.

 

Ser monarca, na História de Portugal, parece ter implicado quase sempre falta de saúde. Até reis sexagenários, tivemos poucos. Eis o registo, por ordem cronológica: D. Afonso III (falecido aos 68 anos), D. Afonso IV (66), D. Henrique (68), Filipe III (60), D. João V (60), D. José (62) e D. Miguel (64).

Os nove monarcas da Dinastia Afonsina, entre 1143 e 1383, viveram em média 54 anos. A Dinastia de Avis, entre 1385 e 1580, teve oito reis, com 51 anos como idade média. Seguiu-se o domínio filipino, de 1580 a 1640: três cabeças coroadas, 58 anos anos de longevidade média. Superior à da Dinastia de Bragança, que se estendeu de 1640 a 1910: 14 monarcas, sem ultrapassar os 50 anos como idade média.

 

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Não faltaram óbitos abaixo dos quarenta. Segue a lista, pela mesma ordem a contar do início: D. Afonso II (37 anos), D. Sancho II (38), D. Fernando I (37), D. Sebastião (24), D. Pedro IV (35), D. Maria II (34) e D. Pedro V (24).

Por causas muito variadas: D. Afonso II morreu com lepra, D. Duarte (46 anos) e D. Manuel I (52 anos) com peste. D. Afonso VI (40 anos) e D. Pedro IV foram vitimados pela tuberculose. D. João III (55 anos) e D. José sucumbiram a tromboses. D. Maria II (retratada na imagem ao lado) morreu de parto e seu primogénito, o malogrado D. Pedro V, enlutou os súbditos ao desaparecer muito jovem, com febre tifóide. Tinha a mesma idade do infeliz D. Sebastião, um dos dois reis portugueses que sofreram morte violenta, tendo perecido na batalha de Álcacer-Quibir (1578). Já no século XX (1908), D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço. Tinha 44 anos.

Há fortes suspeitas de que pelo menos três acabaram envenenados: D. Fernando I em 1383, D. João II em 1495 (40 anos) e D. João VI em 1826 (58 anos). 

Vidas breves, em grande parte. Vidas trágicas, em vários casos. Quase todas davam séries ou filmes de pendor dramático.

 

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D. Manuel II, último Rei português, faleceu em 1932 com apenas 42 anos

Juan Carlos com lugar garantido na História

Faz hoje dez anos que o Rei emérito renunciou ao trono

Pedro Correia, 02.06.24

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Juan Carlos de Borbón com Adolfo Suárez, os dois artífices da exemplar transição espanhola

 

«El balance del reinado de Juan Carlos es extraordinariamente positivo.»

Felipe González (El País, 2 de Junho de 2014)

«El reinado de Juan Carlos I se corresponde con el tiempo de mayor estabilidad democrática, disfrute y ampliación de las libertades y de progreso social de la historia de España.»

José Luis R. Zapatero (El Mundo, 2 de Junho de 2014)

 

Faz hoje dez anos, Juan Carlos I anunciou que abdicava do trono de Espanha. Após quase 39 anos de reinado.

Quando ascendeu ao posto cimeiro do poder em Madrid, Espanha era um país isolado politicamente, com uma das ditaduras mais retrógadas do mundo ocidental, níveis socio-económicos muito abaixo da média europeia e divisões que pareciam insanáveis entre os herdeiros dos dois grupos que combateram na guerra civil. Em todos estes parâmetros é hoje um país incomparavelmente melhor. Dotado com a Constituição de 1978, autêntico marco civilizacional que já garantiu o maior período de vida democrática desde sempre existente no país.

Tendo nascido em 1938 no exílio em Roma, sete anos após o seu avô Afonso XIII renunciar ao trono, Juan Carlos de Borbón soube impor-se como expoente da restaurada monarquia - conquistada a pulso. Contra a vontade do próprio pai, o Conde de Barcelona. E contra os primos, que lhe cobiçavam o trono (um deles casou até com a neta primogénita do generalíssimo Franco, para lá chegar mais depressa). E contra a clique do ditador, que preferia outros. E contra os "ventos da história". E contra a esmagadora maioria da "opinião pública", dama mais volúvel do que Madame Bovary.

Entre Novembro de 1975 e Junho de 2014, fez mais do que qualquer outra personalidade para unir os espanhóis. Trabalhou com governos de diversas cores políticas, irrepreensível no plano institucional. Por isso foi elogiado pela larga maioria da sociedade espanhola - e desde logo pelos principais partidos, PP e PSOE: nenhum deles põe em causa o sistema monárquico, referência de estabilidade e concórdia.

O Rei emérito tem lugar garantido na História de Espanha. E será recordado, sem qualquer dúvida, como um dos maiores estadistas que o país vizinho já conheceu.

Uma estátua para D. João II

Pedro Correia, 18.06.19

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D. João II (retrato do século XVI)

 

Quase todas as grandes cidades portuguesas têm estátuas de figuras ilustres da nossa História. Incluindo, naturalmente, dos monarcas que contribuíram para fundar e robustecer este Estado-Nação, um dos mais antigos do mundo com as suas actuais fronteiras, definidas no rectângulo continental desde 1249, com a conquista do Algarve, e na sua globalidade desde o século XV, com a descoberta e povoamento das ilhas atlânticas.

São conhecidas da generalidade dos portugueses estátuas tão majestosas e emblemáticas como a de D. José implantada em 1775 no Terreiro do Paço, ou a de D. Pedro IV, descerrada em 1866 no coração da Baixa portuense. Sem esquecer a do nosso monarca fundador, D. Afonso Henriques, que se ergue junto ao castelo de Guimarães. Ou a moderna evocação de D. Sebastião, no centro de Lagos.

Várias outras cidades ou vilas têm estátuas de reis que de algum modo lhes estiveram ligados por acontecimentos diversos - ou por lá terem nascido, ou por lhes terem atribuído carta de foral ou ali feito uma inauguração de vulto, ou porque as tomaram aos mouros, alargando o perímetro das fronteiras portuguesas. Acontece, por exemplo, na Guarda (D. Sancho I), em Silves (D. Sancho II), Faro (D. Afonso III), Leiria (D. Dinis), Cascais (D. Pedro I), Lisboa (D. João I), Alcochete (D. Manuel I), Coimbra (D. João III), Vila Viçosa (D. João IV), Mafra (D. João V), Queluz (D. Maria I), Castelo de Vide (D. Pedro V) ou Cascais (D. Carlos). Com maior ou menor mérito, todos são ostensivamente recordados em mármore ou bronze.

Há, no entanto, uma evidente lacuna neste vasto conjunto de estátuas régias distribuídas de norte a sul do País. Refiro-me a D. João II, que passou à História com o cognome de Príncipe Perfeito. Reinou durante 14 anos, entre 1481 e 1495, embora tenha assumido a governação do Estado desde 1477, por abdicação efectiva de seu pai, Afonso V. Foi sob o seu comando que Portugal deu um impulso decisivo à epopeia das navegações, assumindo-se como precursor da globalização em vários marcos: chegada de Diogo Cão às costas de Angola e da Namíbia; início da colonização de São Tomé e Príncipe; envio de Pero da Covilhã por terra à Etiópia, Cairo, Adém, Ormuz e Goa; passagem do cabo da Boa Esperança, assim baptizado por Bartolomeu Dias; assinatura do Tratado de Tordesilhas com os reis de Espanha; preparação da armada de Vasco da Gama que inauguraria o caminho marítimo para a Índia.  

D. João II é o único dos nossos grandes reis ainda sem estátua numa cidade portuguesa. Em 1998, numa rotunda do que hoje se chama Parque das Nações, foi inaugurada uma peça em bronze supostamente em sua homenagem: é um bloco abstracto, que em nada alude ao Príncipe Perfeito. Fica o desafio aos decisores políticos, a nível nacional, regional ou autárquico: pôr fim a esta chocante omissão erguendo um monumento a D. João II realmente digno desse nome. Em 2020 assinala-se o 525.º aniversário da morte do monarca: é um ano apropriado para tal fim.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

Conhecer D. Afonso Henriques.

Luís Menezes Leitão, 30.11.16

 

Leio aqui que "os reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, estão em Portugal e foram recebidos com pompa e circunstância pelas altas entidades e pelo povo, em Guimarães, no Porto e em Lisboa. Na Cidade Invicta disputaram selfies com o Presidente da República, e Marcelo Rebelo de Sousa levou-os a conhecer D. Afonso Henriques". Calculo que D. Afonso Henriques, ainda jovial, apesar dos seus 907 anos de idade, actualmente a residir num Lar da Terceira Idade do Porto, se terá manifestado encantado em conhecer tão ilustres personagens. A pensar em retribuir a iniciativa, D. Felipe VI deve ter referido a Marcelo Rebelo de Sousa não ter a certeza se o primeiro Rei de Espanha, D. Pelayo, ainda era vivo, uma vez que já deveria andar pelos 1300 anos de idade, mas prometeu tudo fazer para o encontrar.

Tristes tempos!

Luís Menezes Leitão, 29.11.16

Ainda sou do tempo em que na escola primária se ensinava a verdadeira tragédia nacional que foi o desastre de Alcácer-Quibir, que implicou que a Coroa de Portugal viesse a ser herdada dois anos mais tarde por Filipe II de Espanha. Seguiram-se 60 anos de decadência nacional, com Filipe III e Filipe IV, em que o país quase se converteu numa província espanhola. Só escapámos a esse destino graças ao heroísmo dos conjurados do 1º de Dezembro de 1640, que voltaram a colocar no trono um Rei português, D. João IV. Na altura ensinavam-nos na escola que por esse motivo é que celebrávamos o 1º de Dezembro, data da restauração da nossa independência.

 

Passados mais de 370 anos sobre essa data, tive ocasião de assistir à vergonha de ver um primeiro-ministro português decretar a abolição desse feriado. Este ano voltou a ser reinstituído mas, na véspera do mesmo, assiste-se à visita de outro Filipe, desta vez o VI, que pelos vistos a população do Porto entende que deve ser recebido com gritos de "Viva o Rei!", enchendo-se a cidade com bandeiras espanholas, como se estivéssemos em Madrid. Estou convencido de que nem em Barcelona ou em Vigo o Rei de Espanha seria recebido assim. Pelos vistos, há muita gente em Portugal que perdeu de vez, não só o orgulho nacional, como também a própria noção do ridículo. Tristes tempos, na verdade!

A tal história de reis

Marta Spínola, 19.03.13

A propósito deste post do Pedro, lembrei-me de um episódio a que assisti numa aula na universidade. 

O meu curso, ainda que por acabar, é História. Tenho para mim que se há coisa simples em História é perceber que se um Afonso é II ou III é porque antes dele houve um ou dois. E sempre achei que não era preciso explicar isto a uma criança. Mal sabia eu...

 

Estava no quarto ano, numa aula do terceiro porque tinha de fazer ainda História Moderna Geral desse ano. Era a aula das 8 da manhã, aquela não era a minha turma, tudo me aborrecia, e eu sentava-me logo na primeira fila para tirar apontamentos e nem me distrair. 

O professor falava nessa manhã sobre a sucessão de Carlos VIII, "que não tendo descendência masculina directa, foi então sucedido pelo primo Luis XII". Apontamento tiradinho, pronta para continuar.

Alice não, a Alice quis saber, quis indagar, estranhou e avançou: "Pode repetir?" e o professor, paciente, simpático, repetiu: "como Carlos VIII não tinha descendência masculina directa, quem lhe sucedeu foi primo, Luis XII, o parente mais próximo". Mas a estranheza da Alice estava noutra questão, e não  hesitou, juro que ainda a vejo encostar a caneta ao lábio antes de atirar: "Mas isso não faz muito sentido, pois não? Devia ser Luis IX." (a numeração romana é minha, ela pensou em "9º", tenho essa convicção).