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Delito de Opinião

Reflexão do dia

Pedro Correia, 22.05.22

«Só os ucranianos, que estão a defender a sua pátria com a vida e um enorme heroísmo, podem dizer em que condições aceitam a paz. E, no entanto, já começamos a ouvir alguns líderes europeus insistir em que "não se deve humilhar a Rússia" ou, por outras palavras, que se lhe deve dar alguma coisa. Certamente não um pedaço da França ou da Alemanha, mas talvez um pedaço da Ucrânia.»

Teresa de Sousa, no Público

Reflexão do dia

Pedro Correia, 07.05.22

«Se o PCP estivesse ameaçado de ilegalização por causa do que diz sobre a Ucrânia, eu seria o primeiro a defendê-lo. Mas, sendo Portugal uma democracia liberal, nos antípodas das ideias que o PCP quis impor após o 25 de Abril, também me reservo o direito de o criticar livremente sem levar com a acusação alucinada de que sou fascista.»

Francisco Mendes da Silva, no Público

Reflexão do dia

Pedro Correia, 22.04.22

«Os cadáveres na Ucrânia ou o desespero dos confinados em Xangai relembram-nos as virtudes da democracia liberal em que vivemos. A admiração pela força de Putin e das autoridades chinesas foi substituída pelo choque em ver como os regimes autocráticos desprezam a liberdade individual e a vida e o bem-estar dos seus cidadãos.»

Ricardo Reis, no Expresso

Reflexão do dia

Pedro Correia, 09.04.22

«Os últimos dias provocaram duas mudanças dramáticas na discussão. Em primeiro lugar, deixou de fazer sentido a ideia de que a Rússia sairá inevitavelmente vencedora da invasão. O falhanço da conquista da capital mostra que, para além da capacidade admirável de resistir ao agressor, a Ucrânia pode mesmo derrotá-lo. Em segundo lugar, os destroços materiais e humanos mostraram o verdadeiro significado de uma ocupação russa, além de que as subsequentes mentiras de Moscovo revelaram o valor real da palavra de Putin. Como é que, perante isto, se negoceia um acordo de paz com cedências territoriais?»

 

Francisco Mendes da Silva, no Público

Reflexão do dia

Pedro Correia, 03.04.22

«Bastava passar os olhos pelas redes sociais portuguesas para assistir a um mar de gente a defender o "estalo na cara" de Smith pela "ofensa" alegadamente feita à mulher. Algumas dessas pessoas eu conheço - e até ir jurar que são "boas pessoas" - o que torna a coisa ainda mais perturbadora. Portanto, para uma parte do nosso mundo, é aceitável responder com um murro a uma piada. Sinceramente, acho a piada boa e inofensiva, mas se fosse péssima era a mesma coisa. Em que dia é que uma agressão física e uma frase passaram a ser equivalentes? Um destes dias haverá pessoas a fazer um "index" sobre os assuntos de que se pode fazer piadas sem ofender. Conhecemos isso durante 48 anos: chamava-se censura e destinava-se a proteger os valores que a ditadura considerava essenciais.»

 

Ana Sá Lopes, no Público

Reflexão do dia

Pedro Correia, 30.03.22

«Devia ter ficado claro que uma sociedade decente acha que a reacção a uma piada não pode ser uma agressão. Uma vez que o agressor [Will Smith] continuou na sala [da gala dos Óscares] e menos de uma hora depois estava a ser ovacionado enquanto pedia desculpa a toda a gente menos ao agredido [Chris Rock], e justificava o seu comportamento com o "amor", que "nos faz fazer coisas malucas", e com o nobre propósito de "proteger a família", julgo que não ficou muito claro.»

Ricardo Araújo Pereira, hoje, no Público

Reflexão do dia

Pedro Correia, 13.03.22

«À medida que a brutalidade avançava e a irrazoabilidade surgia como um muro, e a ideia de um gigantesco campo de concentração de extermínio para a Ucrânia se foi esclarecendo, começou a ficar bem claro que estamos perante alguma coisa de um outro domínio. O domínio perigoso de quando deixa de existir qualquer lei válida e qualquer ideologia, para se lutar corpo a corpo até à morte, como na idade da pedra a luta pela cabeça de um bisonte.»

Lídia Jorge, no Público

Reflexão do dia

Pedro Correia, 03.02.22

«Porque haveria o eleitorado "centrista" e de "direita" de votar nesse PSD-cópia-fiel-do-PS, se podia sufragar o original, ainda por cima já no poder, ou votar numa alternativa radical, configurada no Chega e na IL? Nesse sentido, Rui Rio tem toda a razão ao colocar o acento tónico no facto de "a direita" não ter votado "útil". Mas não tem nenhuma autoridade moral para se queixar do facto.»

Nuno Rogeiro, na revista Sábado

Reflexão do dia

Pedro Correia, 04.12.21

«Eduardo Cabrita sucumbiu à palavra. É o problema de uma comunicação de improviso. Pode tornar-se sempre numa armadilha. Quando disse que era "apenas o passageiro" do carro que, em excesso de velocidade, esteve envolvido no acidente que matou um trabalhador na autoestrada, o ministo traçou o destino que tanto procurou adiar. É que, de facto, Cabrita não era apenas o passageiro que comprara um bilhete para apanhar o autocarro. Era o patrão do motorista que não iria tão depressa só porque queria chegar cedo a casa.»

Vítor Serpa, n' A Bola

Reflexão do dia

Pedro Correia, 30.10.21

«Na farsa do Orçamento, as esquerdas saltaram pela janela. Mas as direitas em exibição também andam a rondar o parapeito, não vá o dr. Costa sentir-se sozinho na descida. Aliás, se há algo que define esta direita, é a vocação para se encavalitar nas costas dos outros rumo à dependência e à nulidade: o CDS pendurado no PSD e o PSD pendurado no PS para partilhar o bolo do poder e do dinheiro. Tirando os respectivos fanáticos, quem leva a sério esta gente?»

João Pereira Coutinho, no Correio da Manhã

Reflexão do dia

Pedro Correia, 25.05.21

«Esta foi a época em que o recém-eleito Luís Filipe Vieira foi depor à comissão de inquérito ao Novo Banco, e em que nesse depoimento demonstrou, para além de qualquer dúvida razoável, que o Benfica é a porta giratória por onde circulam os seus negócios, os seus amigos, os seus sócios, o seu crédito, os seus favores, a reestruturação das suas dívidas e, sobretudo, o seu poder.»

João Miguel Tavares, no Público

Reflexão do dia

Pedro Correia, 05.04.21

«Os cultores da teoria do "racismo sistémico" dos países ocidentais não ajudam nada a entender o que se passa em Cabo Delgado. Para quem considera o racismo um exclusivo europeu, como interpretar algo que resulta em grande parte de conflitos inter-étnicos e inter-religiosos entre macondes cristãos e muânis muçulmanos? Isto num meio de extrema pobreza (Moçambique persiste em aparecer na meia dúzia de países mais pobres do mundo), onde a grande questão é a apropriação pela elite governamental dos rendimentos de um projecto de extracção de gás natural de uma multinacional europeia, sem benefícios para as miseráveis populações locais. As quais são ainda vítimas das brutalidades do exército moçambicano, que os militares portugueses vão agora ajudar a formar. Já se contam em milhares os mortos e em quase um milhão os deslocados. São vidas negras, mas não vimos manifestações da classe média pelas ruas das cidades europeias em sua homenagem.»

 

Luciano Amaral, no Correio da Manhã

Estaremos simplesmente a ficar velhos?

João André, 27.02.20

Uma das coisas que mais me fascinam são os textos pessimistas. Não falo de textos como os do falecido Vasco Pulido Valente, que apesar de invariavelmente pessimista, tinha esse pessimismo como resultado de um pensamento apurado e meticuloso. Eu discordava frequentemente dele e não me agradava a acidez dele, mas o seu brio intelectual era quase sempre inatacável.

Quando falo de pessimismo, falo daquele que, na maioria das vezes, assume de forma directa ou indirecta um cunho de "no meu tempo..." ou "já não se fazem como antes", ou até de "os tempos mudaram muito". Esta última instância é normal: os tempos de facto mudaram muito. Temos a Indústria 4.0  - ou a 4ª revolução industrial, mas hoje em dia (cá estamos) as coisas só são levadas a sério com um ".0" algures no nome. Temos Internet. Temos redes sociais. Temos internacionalizações e viagens facilitadas. Temos notícias na ponta dos dedos com uma velocidade e variedade incomparável na história humana (mesmo quando a precisão e a minúcia sofrem). As mudanças são muitas, mas são essencialmente tecnológicas ou derivadas de tecnologia.

Só que não são novas. Um dos tipos de textos que mais gosto de ler na The Economist são aqueles que traçam paralelos das queixas presentes com as do passado. É frequente esses textos fazerem referência a alterações (jornais, cafés, comunicações, automóveis, etc) especialmente do final do século XIX e notarem as preocupações que tais alterações induziam nessa altura. Por vezes os textos começam com excertos de (por exemplo) 1895  e nós somos levados a pensar que se escreve sobre algum caso actual. O texto do Sérgio, sem fazer juízos específicos sobre ele, lembra-me isso. Leio-o e, dos temas que acompanho, concordo em traços gerais. Pergunto-me no entanto se tal texto, com uma ou outra modificação, não poderia ter sido escrito em 1950, ou 1920 ou 1880.

Lembro-me com frequência de quando a RTP1 e RTP2 eram as únicas televisões e os telejornais não excediam a meia hora (que a seguir vinha a novela e depois o filme). Não vou queixar-me da qualidade da informação, mas antes de como hoje temos informação sobre tudo e mais alguma coisa. Se um homem matar a mulher em Cabeça Gorda no Alentejo, teremos em algumas horas directos do local, com os repórteres a repetirem as mesmas coisas de hora a hora e a dizer o estado do tempo só para encher chouriços. Em 1991, esse assassinato seria provavelmente ignorado, dado que não se podia enviar o repórter lá e isso só seria um problema se sequer se soubesse de tal caso. A realidade é que há hoje muito mais abundância de notícias e, com a natureza humana inalterada, "if it bleeds it leads", as notícias más serão sempre amplificadas nos noticiários e nas nossas mentes.

Estamos melhor hoje ou antes? Pessoalmente não creio que haja demasiada diferença, mas prefiro saber de mais um caso de violência doméstica, de insegurança rodoviária em Abrantes ou de falta de cuidados médicos em Sátão. Com essa informação sempre se pode exigir alguma coisa. De outra forma ficamos no nosso "vamos andando".

Há lados maus? Claro que sim, isso é inevitável. No entanto penso que, levando tudo em conta, o mundo continua, como sempre terá continuado desde há séculos, dois passos à frente e um atrás, a melhorar e a progredir. Teremos umas pestilências, guerras, fomes e mortes pelo caminho? Por algum motivo já vêm desde o Novo Testamento. São parte da natureza humana.

Por isso, mais que um regredir dos tempos, creio mais num avançar dos anos de quem profere (proferimos) estas palavras. Não é o mundo que está pior, mais perigoso ou mais feio. Creio que somos nós que estamos mais velhos. E o Restelo não está (pelo menos para mim) aqui nada perto.