«A nomeação [de Centeno] para governador do Banco de Portugal seria em Julho de 2020. Dois meses antes, António Costa e Mário Centeno simulam um conflito em torno da injecção de dinheiro no Novo Banco. Marcelo Rebelo de Sousa intervém para dar razão a Costa. Logo aí ficou acordado que Centeno sairia no final de Junho depois de apresentar orçamento retificativo, um mês antes da indigitação do novo governador do Banco de Portugal (uma coincidência tão grande como a que Costa teria três anos mais tarde ao ser forçado a demitir-se pouco tempo antes da eleição para presidente do Conselho Europeu – a vida política portuguesa está cheia de azares felizes).
Centeno é substituído pelo seu secretário de Estado, que dias depois indica o seu antigo patrão no ministério para governador do Banco de Portugal. Costa esquece o conflito que tinha tido um mês antes e indigita o ministro que tinha acabado de demitir para governador do Banco de Portugal. Três anos e meio depois, quando Costa se demite a propósito do caso Influencer, indica como possível sucessor para um governo apoiado pela maioria absoluta do PS precisamente Mário Centeno, o ainda governador do Banco de Portugal.
Em resumo: um ministro de um governo PS simula um conflito semanas antes da indigitação do governador para poder ser indicado para o cargo pelo seu ex-secretário de Estado e confirmado pelo seu ex-chefe de governo. Três anos depois é conotado para liderar um governo desse mesmo partido. Independentemente das suas qualificações, que garantias de independência pode dar alguém nesta situação?
(...) Ninguém pode de boa fé, comparar esta história com a de Álvaro Santos Pereira, um ministro que chega como independente e sai ao fim de dois anos e depois passa 12 anos sem ligações partidárias, num cargo técnico ao qual acedeu por concurso.»
Carlos Guimarães Pinto, no SAPO