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Redes

por José Meireles Graça, em 05.01.21

Os mandarins da opinião paga tendem a ter pelas redes sociais um ódio frenético. Pacheco Pereira, por exemplo, casca nelas com furor sempre que a ocasião é, ou ele a faz, oportuna. Acha que são perigosas, veiculam ideias primárias, põem no mesmo plano a opinião do condutor de empilhadores zangado com o mundo, que acredita que a terra é plana e que há várias conspirações mundiais destinadas a engenheirar as sociedades, e a do académico com obra reconhecida pelos pares.

Depois, as redes são usadas por grupos terroristas, extremistas de vária pinta, vigaristas de todo o tipo, predadores sexuais, etc. E todos os dias pessoas e grupos fabricam notícias falsas, ilustradas com fotografias ou vídeos manipulados, afirmações de responsáveis descontextualizadas, e toda uma panóplia de aldrabices sortidas, que são instantaneamente reproduzidas às centenas de milhar por tribos ansiosas pela confirmação das suas crenças.

Que há conspirações é um facto. Mas isso não impediu o nascimento de organizações de fact check, utilíssimas mas que já deram abundantes provas de, quando as notícias põem em causa poderes públicos, se limitarem a papaguear a versão oficial dos factos – consequência do trabalho sentado ao computador, e do viés socialista que afecta a classe jornalística, ao menos entre nós, e que leva os autores (os fact check têm autores de carne e osso) a tomarem-se por pastores da grei, com a obrigação de divulgarem a mensagem certa, se a notícia a verificar for excessivamente desalinhada.

Com fact checks podemos nós bem – acreditamos ou não, ninguém nos obriga. E, o Pacheco Pereira que tenha paciência, com básicos e chanfrados a expectorar asneiras e a vomitar ódio em português das novas oportunidades, também. Até porque no embrulho podem vir, e vêm, coisas boas.

O problema é que Pacheco, e alguns outros Pachecos gurus da comunidade, acham que as escolhas as devem fazer eles, e não nós, a massa anónima dos consumidores de treta. E acham isso, oficialmente, por não quererem a difusão de nódoas ideológicas nas nossas sociedades, mas realmente (processo de intenção meu) por não quererem concorrência: nas redes aparece quem, de graça, tem tanta ou mais audiência do que eles, a propagar ideias que abominam e que querem esmagar com um interdito.

É com este pano de fundo da alegada necessidade de controlar as redes que, pacificamente, assistimos ao espectáculo de os seus donos, à boleia do combate à violência, ao ódio, ao racismo, à pornografia e mais um par de botas, terem desenhado algoritmos que permitem calar – sem processo, sem recurso e, quase sempre, sem publicidade, quem quer que seja que tenha um discurso que ofenda as suas convicções, ou as que acham mais convenientes para não afugentar anunciantes.  E esta prática já levou inclusive a que um homúnculo se tenha permitido impunemente fechar a matraca ao presidente dos EUA. Deu nas vistas, claro, como não dão os milhares ou milhões de mensagens que todos os dias são canceladas por coisas tão banais como a exibição de um par de mamas ou, pior, um sexo cabeludo (como o de Courbet, na Criação do Mundo, que o algoritmo púdico de Zuckerberg censurou) mas também apologias ou refutações do nazismo, racismo, alterações climáticas, igualdade de género, perigosidade da Covid e uma longa lista de delitos, dependendo das queixas de ofendidos.

Há aqui uma confusão: as redes são de propriedade privada mas o seu meio é um bem público, a liberdade de opinião. Permitir-se que um idiota como Zuckerberg ou qualquer outro magnata decida o que pode ou não dizer-se no Facebook não é diferente de o dono de um café proibir a entrada de pretos ou hindus: num caso ofende-se a liberdade de opinião e no outro a igualdade dos cidadãos perante a lei, e portanto no acesso a espaços públicos.

Eu gosto das redes, sobretudo do Facebook, e na minha bolha aprendo com frequência alguma coisa, divirto-me com os disparates, espanto-me com a ignorância, aborreço-me com gente pomposa e irrito-me com cretinos que querem çalvar Portugal a golpes de indignações avulsas, maiúsculas, pontos de exclamação e confessada admiração pelas eructações do dr. Ventura.

Tenho lidado com muita gente, e hesitado pouco na hora de saltar da rede para a rua e a conhecer pessoalmente. E, ó espanto, essa gente não é diferente do que imaginava pelos seus avatares. Posso dizer que hoje conto como amigos pessoais, e companheiros de jantaradas e tertúlias, que conheci via Facebook e blogosfera. Que, sendo muitos, ainda são menos do que aqueles que nunca vi por estarem longe e termos vidas desencontradas. De modo que – vai-te lixar Pacheco – as redes têm um saldo largamente positivo, para mim e milhões.

Pois bem: Tenho um amigo facebookiano que prezo muito por pensar (algumas vezes mal, na minha opinião, que naturalmente respeito) com originalidade sobre os mais diversos assuntos. De sólida formação científica na área da Física (que julga, em conjunto com outras ciências duras, o alfa e o ómega da cultura e da lucidez), acrescenta-lhe uma grande simplicidade, que o leva a discutir com todo o cão e gato. E numa discussão sobre um incidente num jogo de futebol, em que um negro se sentiu ofendido pela atitude de um árbitro (peço desculpa por não me lembrar dos detalhes da historieta, e não ter paciência para a procurar), cometeu o erro de argumentar com um pateta justiceiro, um tipo de personalidade muito frequente nas redes. Zás: “A tua publicação desrespeitou os nossos Padrões da Comunidade relativos a discurso de incentivo ao ódio”, toma lá 30 dias de suspensão.

A liberdade de expressão nunca teve muitos amigos, por ser um perigo para os poderes – todos os poderes – e porque quase toda a gente a defende desde que não sirva para ofender aquilo em que se acredita – a fé, a democracia, a pátria e mais umas grandiloquências, que variam consoante as pessoas. Pelo menos era assim; agora é assado porque a lista do que não se pode dizer vem aumentando à medida que se lhe acrescentam novos valores, entre eles o discurso de ódio, a igualdade de género e das civilizações, bem como outras frescuras.

Fizeram-me falta os 30 dias do meu amigo. Não é esquerdista, não é preto nem cigano, não é pobre nem explorado, não é situacionista nem convencional. Azar dele: os tempos vão para quem pensa como deve ser; para os outros há suspensões.

Vai para a tua terra!

por jpt, em 16.11.20

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, "Ljubomir Stanisic", manifestação na Baixa de Lisboa, 14.11.2020)

O meu amigo Miguel Valle de Figueiredo continua, paulatinamente, a fotografar esta época do Covidoceno lisboeta - e lembro que já publicou o livro "Cidade Suspensa: Lisboa em Estado de Emergência". Anteontem foi à Baixa fotografar a manifestação de trabalhadores do sector da restauração que ali decorreu. Não conheço o pormenor das reclamações apresentadas nem sei quais os "orgânicos" organizadores. Enviaram-me um filme telefónico com um discurso, algo tétrico, um orador numa torrente de imprecações e insultos a tudo e todos. Boçal. Mas uma boçalidade tão desesperada que pungente, até cativando piedade - talvez o menos solidário dos sentimentos ...

Uma das imagens que o mvf trouxe foi esta, um (ao que me dizem) conhecido cozinheiro e dono de restaurante, Ljubomir Stanisic, que é figura relevante deste movimento profissional, e que tem tido discursos críticos ao poder político - nunca o ouvi, dizem-me que assim é. Trata-se de um cidadão português, antigo imigrante proveniente da Bósnia-Herzegovina.

Entretanto o que leio nas redes sociais?, para o que me chamam a atenção? Um deputado socialista alude ao financiamento bancário que o homem tem, como se isso possa minorar os seus direitos de cidadania - numa óbvia, ainda que subjacente, ameaçadora alusão ao seu estatuto de ex-imigrante, qual cidadão deficitário [e não substituirão o deputado, ainda por cima conhecido por se furtar a uma pena devido a condução inebriada, através de influências políticas, algo vergonhoso ... Pois pecar todos pecamos mas se assim é penar também é para todos]. E leio inúmeras pessoas invectivando que o homem volte para a terra dele. Assim mesmo, sem mais. Que isto de um "estrangeiro" criticar o governo é inaceitável. Esteja ou não naturalizado, pouco importa ... Esta mole humana socialista pensa - e alguns deles falam e escrevem - exactamente como a rapaziada do Chega. Já se vira aquando da eleição do Bolsonaro, quando no Expresso, no DN, na junta de Arroios e por tantas socialistas casas e teclados, se escreveu (e "laicou") que fossem os imigrantes brasileiros expulsos pois maioritariamente eleitores do novo presidente (esse uma peça irrecomendável, mas isso é assunto deles).

Amigo cruel chama-me a atenção para que um deputado (e plumitivo) socratista aproveita a onda e alude pejorativamente à "macholice" deste homem. Uns gritam a este português que vá para a terra dele porque criticou este governo (e mesmo que fosse imigrante isso seria curial, mas a tanto já não se pode imaginar que esta gente chegue ...). E este socratista chama-lhe "machola", como se diminuindo-o.

Fosse este homem oriundo de outro qualquer recanto onde tivesse havido guerra fraticida, tivesse este homem outra cor de pele, e estes pantomineiros gritariam pelo seu direito à livre expressão - para dizer as patacoadas que entender, o que muito provavelmente é o caso. E se fosse um invertido histriónico, uma "bicha louca", também o defenderiam com dentadas e unhadas, ao seu direito para que se exprimisse em liberdade consoante a sua "natureza". Mas não neste caso. Pois, pior do que tudo, crítico do PS. Por isso estrangeiro, devedor, atrevido, até ingrato. "Machola".

Esta gente - locutora, laicadora, e os tantos habituais das "boas causas" agora tão inertes nos clics (des)laicadores e nos irados "indignismos" - é o "Chega". 

A liberdade de desmentir

por Paulo Sousa, em 07.08.20

Pela primeira vez o Facebook removeu uma publicação do Presidente Trump com a justificação que a mesma não era verdadeira.

Faço parte do imenso grupo de vários biliões de seres humanos que desprezam o sujeito Donald Trump. Mas este grupo tem uma grande diversidade. Nele junta-se quem ache que os EUA pelo que representam, e pelo que contribuíram para o actual concerto das nações, nunca tiveram um representante de tão baixo nível, em termos humanos inclusivamente. Mas este grupo inclui também os que apoiam regimes autoritários e até totalitários. Esses odeiam Trump pelo que é, mas acima de tudo pelo que os EUA representam.

Uns e outros, com maior ou menor contenção, alegraram-se pela remoção desta publicação de Trump. Mas, pergunto eu, em que outro país com dimensão para ter uma rede social própria (seja a Qzone, a Weibo, a VK, a Odnoklassniki, a TikTok, ou outras) seria possível desmentir desta forma o líder do próprio país?

Deixei um postal, meio esparvoado, sobre comentadores televisivos. Um desses azedos comentadores anónimos, aqui habituais, que se saracoteia na internet como "makiavel", pergunta qual o assunto do postal - precisamos de ter assunto numa actividade gratuita como é blogar? Continuo a perguntar-me, qual a pertinência do azedume espetado nos comentários de um blog, gratuito, sem agenda e até algo heterogéneo em termos intelectuais e ideológicos? Discordar de textos sim, mas há um punhado de anónimos que aqui vem constantemente deixar fel (até agora, neste terrível momento nacional e internacional, de congregação moral, caramba). Eu não falo de "Lavoura", que é - cônscia ou inconscientemente - algo pitoresco nas suas constantes picardias. Falo de outros, sob alcunhas, que os leitores habituais do blog já conhecerão. 

Para sublinhar a sua reacção ao postal sem assunto deixa o tal makiavel esta adenda: "“(...) livros e vêm utilidade em lê-los.” Não será ‘veêm’?". O autor do postal, eu-mesmo, deixou um erro ortográfico e o acidozinho logo se solta. Impante.

Cometi eu um erro ortográfico? Foi uma "gralha"? É isso denotativo da falta de assunto do postal, de défice intelectual do bloguista? É isso suficiente para ir comentar com o "leve toque de azedo"?

Foi um erro? Eu reproduzo um velho postal, escrito quando era professor. E sim, o que quis escrever foi "vêem".  E não vejo, continuo a não ver, qualquer interesse em acumular comentários deste tipo de comentadores anónimos.

(Postal no blog ma-schamba de 7 de Agosto de 2014)

 (Matola-rio, Junho 2014)

Houve uma avaliação aos professores em Portugal. Não faço a mínima ideia do seu conteúdo ou qualidade. Apenas leio uma notícia com o título "Maioria dos professores deu erros [porventura o jornal quereria dizer "errou"] de português na prova da avaliação", "ortográficos [de ortografia?], de pontuação [pontuativos?], de sintaxe [sintácticos?]". O breve título é repetido no DN, no JN e no Público, deixando adivinhar alguma origem que lhes é estranha, talvez até oficial. Enfim, bastará o seu coloquialismo e a ilógica presente nas poucas cinco palavras que descrevem os erros acontecidos para provar que isto de escrever português é um martírio. Infelizmente não há notícias sobre hipotéticos erros em matemática, química, desenho, história ou outras quejandas coisas.

Como os visitantes do blog bem sabem cometo falhas ortográficas. Não muitas, mas algumas: ainda há pouco foi um "insonso" que me valeu insultos de visita discordante, ... E esforço-me, sempre atrapalhado com isto dos hífens, e agora ainda mais devido à tralha ortográfica, sempre entre o dicionário e o google. Quanto à sintaxe e à pontuação é melhor nem falar, uma constante trapalhada - esta tendência de virgular cada arquejo, para travessar cada meneio. Por isso estou solidário com os colegas erradores.

E espero que não levem purrada.

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(Postal para o meu mural de facebook)

Meus queridos amigos,

de súbito brotou um "même" nas redes sociais, o gozo aos comentadores televisivos que, pois agora confinados em casa, surgem na tv via seus computadores tendo atrás estantes apinhadas de livros. Ou seja, é ridículo ter livros e fatela mostrá-los.

Eu percebo as irritações por princípio, os "preconceitos" como agora se diz. Ou, melhor, os "ódios de estimação", como o magnífico MEC lhes chamou um dia, aqui há atrasado. Eu, apesar de mim-mesmo, também os pratico. E enuncio-os: detesto o presidente da Assembleia-Geral do Sporting, o dr. Rogério Alves, apenas e exclusivamente porque trata toda a gente por "querido amigo" (ver acima, neste postal). E abomino, até ao desejo de extermínio, todos os patetas que se (auto)representam com a queixada sob a palma da mão, como se sinalizando o peso do intelecto, tamanho que assim necessita de suporte (ver foto avulsa). Por isso percebo, humano que sou, que detestem só por detestar os tipos que têm livros em casa, amontoados num estrado a que chamam estante e guardados (para hipotética consulta, em alguns casos) numa divisão - recordo que os livros acumulam pó, nisso ácaros, e que não convém tê-los nos quartos de dormir. Por questões sanitárias, mais que não seja.

Há pessoas que têm livros. Eu próprio os tenho. Aqui me selfizei (como vós, "meus queridos amigos", agora falais) na sala da pequena casa aquém-Tejo na qual me aboletei. Um T1, rústico e maravilhoso, no qual está a estante. Duas prateleiras (correspondentes a uma mala de viagem e uns sacos) de livros meus, vindos para este pré-apocalipse, três outras com livros residentes. Faz parte ... Desde há uns tempos, séculos até (consta que pelo menos desde D. Quixote), os remediados têm prazer em comprar livros e vêem utilidade em lê-los. E nas casas (térreas ou apartamentos) congregam-nos numa divisão na qual alguns, segundo a profissão, até trabalham. Ou estudam. Chamam-lhes escritórios, por vezes. Os meus avós tinham-no (magnífico o do meu avô materno, até com mesa de fumo, belíssima, oferta de um regimento que comandou. Vem essa passando de mão em mão, por linha masculina [mas não varonil]. Chegou-me e depois de a viver dei-a, há uns dois anos, a um sobrinho que um dia a virá a passar a seu filho, presumo). Os meus pais também tinham escritórios, carregados de livros. E era o meu pai pessoa bem-educada, tal como o é a minha mãe. Mesmo assim tinham escritórios. Eu tenho-o - ainda que os livros estejam também noutras divisões da casa (no corredor, na sala de refeições, burguesmente dita "de jantar" - a gente já não pode almoçar em casa -, nos quartos e até, para minha vergonha, na cave).

Ou seja, é normal que um tipo que tem que aparecer na tv emitindo a partir de casa o faça desde o seu local doméstico de trabalho. No qual tem livros, já que é um burguês e - sendo opinador - presumivelmente trabalhador intelectual. Sei que muitos de vós usam os telefones na sanita [já agora é "sanita" que se diz e não "retraite", ó seus bimbos armados em finórios]. Mas, de facto, o mais normal é que quem tem que falar em público desde casa não o faça sentado na sanita. Nem em locais com usos estritamente domésticos (ex. o tanque de lavar roupa). Ainda para mais quando, muito provavelmente, lá estão os outros membros da família.

É óbvio que há excepções. Temáticas. Ontem passei pelo canal 11, da bola. E nele estava um friso de 6 comentadores em simultâneo, a falarem (sei-lá-do-quê). Todos tinham as traseiras lisas, nem um livro à mostra. Acredito que os tenham em casa, a alguns exemplares. Mas para aquele público - os compatriotas mais morcões que assistem a painéis futeboleiros - parece mal mostrar livros, descredibiliza os locutores. Não sei se os "meus queridos amigos" me estão a seguir no silogismo ... são os que comungam sensibilidade e gosto com estes espectadores da bola, os tais compatriotas mais morcões, que agora andam a gozar com os literatos que falam na tv.

Enfim: não há qualquer razão para gozar com os tipos que têm livros e que falam desde casa para a tv com as estantes atrás. Repito, é normal tê-los (até eu os tenho), e é normal que se fale para fora numa pequena sala com as paredes algo cobertas de livros.

O que os meus queridos amigos poderiam analisar, e até gozar, é o que esses comentadeiros dizem. E, se tiverem paciência para tal, especularem sobre as agendas, pessoais e colectivas, que transportam no perorar. Muito mais à frente, talvez apenas em era pós-covidiana, poderiam até questionar este tipo de fazer informação televisiva, sem reportagens substantivas e com uma série infinda de charlas inócuas e/ou interesseiras.

Entretanto, e porque confinado, eu vou gozando com os tais morcões. Os que julgam que têm piadola.

Já acabaram com as teorias estapafúrdias?

por João Pedro Pimenta, em 12.03.20

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Já que anda tudo a lançar a sua opinião sobre o coronavírus nas redes sociais (uns, inconscientes ou engraçadinhos, como se isto se tratasse com bagaço, outros quase apocalípticos, a dizer que "há 15 dias que devia estar tudo fechado", ou seja, quando não havia casos em Portugal) e a divulgar as últimas informações que ouviram, podíamos começar a mudar alguns hábitos, e não falo só de higiene (mas também: a quantidade de pessoas que não lava as mãos quando deve é atroz). As teorias da conspiração, por exemplo.

Espero que aquelas pessoas que andaram com aquela conversa de que "isto é um plano da China para diminuir população" (travar a economia para morrerem escassos milhares de pessoas? Será isso, o brilhante plano?) ou então que "isto é um vírus inventado nos laboratórios para as famacêuticas ganharem milhões com a vacina" (então porque é que ainda não a começaram a vender num mercado como o chinês, quando os números decrescem a olhos vistos e o pânico se instala no Ocidente?) tenham um pouco mais de juízo quando começam com os seus "cá para mim". Isso aplica-se também a "comunicadores", como aquela célebre apresentadora que afirmava há poucas semanas que o vírus só infectava os chineses. E mais ainda a chefes de estado de países de grande população, com o incumbente de Vera Cruz, que acha que o coronavírus é fantasia propagada pela "mídia".

Infelizmente as teorias e os boatos existem desde que o mundo é mundo. Mas como agora as redes sociais as divulgam muito mais facilmente, pedia-se um bocadinho de contenção, e se possível, de juizinho, que bem vai ser preciso.

No mundo das novas censuras

por Pedro Correia, em 14.11.19

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1. Censura de imagem. Fotografias de um vulgar e suculento cozido galego - muito semelhante ao nosso, mas com grão - foram banidas do Instagram, por decisão de um anónimo comité censório dessa rede social. Alegação: aquelas imagens de enchidos mesclados com vegetais «infringem as normas comunitárias» pois contêm suposta «violência gráfica e linguagem [visual] que estimula o assédio ou nudez e actividade sexual». Um galego de Vigo, que publicou estas imagens em homenagem ao «primeiro cozido da temporada» em casa da mãe, senhora de aparentes virtudes culinárias, não esconde a perplexidade, alegando ter-se limitado a fotografar os alimentos tal como estavam na travessa. Presume-se que a «violência gráfica» do chouriço e do repolho tenha ferido sensibilidades de alguns devotos das religiões vegetariana e vegana.

 

2. Censura de linguagem. A Air Canada anunciou que deixará de dirigir-se aos passageiros recorrendo ao anacrónico tratamento «senhoras e senhores»: evita assim ferir putativas susceptibilidades de género, designadamente das pessoas de sexualidade «não especificada». Passarão a ser designados, uns e outros, por «toda a gente» em obediência ao novo cânone da absoluta neutralidade de género. Falta saber por quanto tempo, pois esta expressão antropocêntrica promete por sua vez ferir as susceptibilidades de alguns animais.

O consumo e a leitura de jornais tem caído imenso, como o Pedro Correia tem referido amiúde neste espaço, e não é só o modelo em papel. As redes sociais ocuparam grande parte do seu lugar e ameaçam a imprensa tradicional. É algo preocupante, porque a informação torna-se selectiva, superficial, quando não falsa, reduzindo-se a títulos ou a agit-prop, e mesmo que a imprensa não seja isenta, ao menos sabemos quem escreveu os artigos e quem responsabilizar. O problema é que os jornais também não fazem grande esforço para a sua credibilização e continuam a cavar a sua própria cova.

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Miguel Sousa Tavares escrevia há dias no Expresso, com mira afinada e não pela primeira vez, que o Público se tem tornado numa tribuna por excelência do politicamente correcto. E não é preciso procurar muito para provar até que ponto isso é verdade. O diário fundado por Vicente Jorge Silva, que tão bons trabalhos já proporcionou aos seus leitores, estafa-se em colocar artigos parciais sobre as novas questões fracturantes. O suplemento semanal Y e demais páginas culturais passam o tempo a apresentar os novos valores feministas, trans, negros, etc, vindos em grande parte do Brasil, e "que estão a mudar a face da música", mas quando se quer ver a crítica a um filme acabado de chegar, ou, como procurei em vão, a um festival pop-rock como o de Vilar de Mouros, é o vazio total.

Nos últimos tempos é a defesa da "diversidade de género" que o jornal da SONAE tem empreendido, qual Duarte de Almeida a defender o pendão real em Toro. No dito Y, no dia 30 de Agosto, logo na segunda página, vemos um dos guardiões mais encarniçados destas questões, António Guerreiro, a falar da ideologia "atávica e obscurantista" que condena a ideologia de género (que curiosamente não considera uma ideologia, colocando-a entre aspas). De resto, os inúmeros artigos publicados no jornal sobre o assunto falam sempre dos seus opositores com um tom de mal disfarçado desprezo e dão apenas a palavra à parte contrária, normalmente os prestimosos especialistas em diversidade de género, uma disciplina que parece que tem boas saídas de emprego, além de artigos de opinião semanais de representantes do Observatório de Justiça, do professor Boaventura Sousa Santos, como uma investigadora de seu nome Ana Cristina Santos, que neste exemplo cabal acusa Ricardo Araújo Pereira de "ridicularizar a inclusão social na linguagem", de "defender o pendor autoritário do senso comum", porque "se há pessoas que se sentem excluídas pelo uso do universal masculino... considerandos estéticos deixam de ter cabimento". Ou como alguém, se se sentir incomodada com a língua, esse mero "considerando estético", pode exigir a sua mudança. A autora até ajuda e dá como exemplo o "tod@s" ou "tdxs" como linguagem inclusiva. Ou seja, a "inclusão" não é mais que um uma novilíngua infantil que desvirtua algo que devia ser superiormente protegido, mas que para alguns não passa de "considerandos estéticos". Já se sabe, nada de ideologia.

Nas últimas semanas tem sido um sem fim de artigos que referi em cima. Podia ser uma discussão proveitosa se se colocassem dois pensamentos e dois grupos de argumentos e confronto, mas não. Neste outro artigo lá vem a costumeira reportagem com "os jovens do futuro", em que avulta um rapazinho que critica os professores «que partem do princípio que os alunos são todos homens "cis"», e que "as associações de estudantes deviam representar as lutas sociais dos estudantes negros, comunidade LGBT ou questões feministas... sem qualquer tipo de preconceito ou conservadorismo". O jovem é identificado como militante do Bloco, coisa bastante crível dado o tipo de linguagem e de causas. Mas é pena que o jornal, uma vez que lhe dá voz, não lhe pergunte se as associações não deviam defender todos os estudantes, e não apenas as minorias que o BE estabelece (que podem nem existir em tantas escolas), ou se não percebe a contradição de, achando que não deve haver "conservadorismo", como se não pudesse haver estudantes conservadores, isso ser um preconceito da sua parte.

Por fim, mais uma peça apresentada quase como um estudo, mas mais uma vez apenas com uma parte, sobre a questão "há ou não ideologia de género", a que o jornal generosamente responde que não, recorrendo de novo a uma parte da barricada, que acusa todos os que acham que se trata realmente de uma ideologia de serem "uma sombra... que ameaça direitos das pessoas LGBTI, saúde sexual e reprodutiva das mulheres e estudos de género". Nada de novo, excepto talvez uma maior radicalização da linguagem. Mas aqui expõe-se tremendamente. É que o artigo online é só para assinantes, mas na versão em papel pode-se ler, mesmo no fim, que "as despesas da viagem foram pagas pela ILGA-Europa. 

Sim, isto é um problema. Ao aceitar ser custeado por uma organização que tem todo o interesse que o jornal escreva aquilo só com a "sua" versão, o Público prostitui-se declaradamente. Não está a apresentar um artigo de discussão, ainda que pendendo mais para um lado, mas a sua verdade com a patrocínio de uma entidade externa longe de ser neutra.

Assumir posições políticas inequívocas é não só aceitável como desejável. Os leitores sabem ao que vão. Em Portugal, como é sabido, a maioria dos jornais não assume qualquer posição política, à excepção dos jornais partidários, como o Avante!, ou de uma ou outra publicação, como o extinto Independente. Mesmo o Observador, claramente à direita, é muito ambíguo no seu estatuto editorial. O Público sempre pendeu para uma esquerda moderada. Porque estará tão freneticamente empenhado agora em questões tão ostensivamente fracturantes? Vontade de agradar a um certo público? Seja o que for, só contribui para que se diga que tem uma agenda política mal disfarçada, porque aparentemente tem mesmo - e como é sabido, o termo "agenda" hoje em dia é entendido de forma pejorativa, como uma conspiração maléfica.

Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Os jornais ou se assumem ou então que deixem de ser tão explicitamente implícitos, sobretudo em questões que não são pacíficas. E é por coisas como estas, como diria Manuel Alegre, que aparecem os Bolsonaros. Prontos a apoucar a imprensa e a espalhar sem filtro tudo o que lhes sirva nas redes (as)sociais fora.

Deus ex Google

por Maria Dulce Fernandes, em 21.08.19

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As pessoas são chatas e convencidas. Nasceram assim ou fizeram-se deste modo, nesta sociedade do audiovisual e das redes sociais?
Em mais uma das minhas fases anuais de morcego, descobri um novo tipo de animal humano, que prima pela omnisciência que adquire tipo mousse Alsa: basta juntar água.

Refiro-me ao Homogooglens, o tudólogo do Google.

O nível de conhecimento que o Google confere a estas pessoas, que proliferam como mosquitos ao redor da luz que emana da partícula de Deus que carregam permanentemente consigo como se do fogo primordial se tratasse, é excepcional, elevadíssimo e sempre correcto.

Como pode um comum mortal de provecta idade competir com um homogooglens de brilhante telefone na mão, a debitar impropérios acerca da incompetência das pessoas que não cumprem o que está escarrapachado no Google com todas as letras, mapas e imagens?

Isto merece uma crítica negativa no Facebook, no Instagram ou no Twitter.

Tal inépcia mimoseia-nos com entrada directa para a candidatura a desqualificado de primeiro grau, pela incapacidade de ler e fazer cumprir o que diz o Google ali, logo na primeira página, após uma pesquisa que devolve mais de cinco mil entradas.

Tentar explicar ao homogooglens que em Montain View os Senhores não gerem as páginas particulares de cada um, limitam-se a ser um motor de busca no geral, por sinal bastante competente, mas cujas actualizações deixam bastante a desejar, não é tarefa fácil, é tarefa impossível. É que está ali, ALI, na sua mão, vê? Vejo, mas está errado. Provecta, estúpida e iletrada, que nem ler sabe...

Imprimo um printscreen da página oficial e mostro-o ao homogooglens... papel e tinta para deitar para o lixo, claro... isso é de onde? Não está no Google! Está, se procurar e não se ficar pela fachada...

Já experimentou googlar o seu nome? Então faça-o e veja quantos são e qual deles é o Senhor.


Deixo-os no vício, entretidos a descobrir-se na internet e ao êxtase que lhes proporciona o imenso saber que lhes oferece.
Está quase na hora de sair para o escuro e tentar encontrar no silêncio da noite a absolvição para os meus pecados, que devem ser muitos e copiosos, porque ninguém merece tão insensata expiação.

Um assunto de porteiras

por Pedro Correia, em 16.07.19

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A reprodução descarada e obsessiva da lógica das redes sociais pelos órgãos de informação está a contribuir para o descrédito acentuado do jornalismo que vai restando.

Há dezenas de jornalistas, em quase todas as redacções, que nada mais fazem durante dias inteiros senão escrutinar o que se cochicha e bichana nas redes, acabando por dissociar-se por completo do mundo concreto e do país real. Nas suas prédicas em papel ou no digital, recorrem aos temas e à semântica que pupulam nessas «vias alternativas à informação», como há já quem lhes chame no meio jornalístico, disparando assim contra o próprio pé.

 

Reparem no que acontece naquilo a que ainda é costume chamar «canais de notícias» na televisão. Num curioso fenómeno de mimetismo, generalizou-se o modelo CMTV, absorvido inicialmente pela TVI 24 e agora já vampirizado também pela SIC Notícias: fecham três ou quatro mecos num estúdio durante horas a discutir coisa nenhuma sobre a bola que agora nem rola nos relvados e assim supõem cumprir a missão jornalística.

Mas não cumprem: essas tertúlias de bitaiteiros são meras correntes transmissoras de boatos e rumores. Basta comparar as imagens que reproduzo acima: foram propaladas com escassas horas de intervalo no mesmo canal - a primeira às 18.17, a segunda às 22.32. Sujeitas a esta lógica editorial mais que duvidosa: primeiro imprime-se a lenda, depois (se não chover) imprime-se o facto. Assim duplica-se a audiência (o que não parece ser o caso, longe disso, no canal em causa, a avaliar pelos mais recentes números tornados públicos).

 

Isto já se pratica hoje sem sofisticação nenhuma, como é patente no exemplo que deixo aqui em baixo. Talvez farto de publicar notícias, essa coisa anacrónica e maçadora, um jornal de difusão nacional acaba de instituir uma secção intitulada "Negócios e Rumores". Como se fosse um assunto de porteiras em vez de jornalistas, sem desprimor para as porteiras.

Assim ao menos não ilude ninguém: o leitor, à partida, já sabe que irá mesmo ser enganado. 

 

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Macro, micro

por Pedro Correia, em 13.03.19

As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. Alguém sopra uma coisa via telemóvel, o sopro salta para o twitter ou o facebook -- e é quanto basta para se assemelhar a ignição de fogo pronta a incendiar a pradaria mas que afinal se limita a chamuscar uns canteiros. Mal as chamas irrompem num determinado local, logo outro foco se propaga noutro sítio com o mesmo grau de aparente intensidade do anterior e com a mesma duração média, que raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso.

E assim sucessivamente. Tudo macro indignado. Até à micro indignação seguinte.

 

Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 10.03.19

Na sociedade atomizada do instagram e do facebook, podemos dispensar a presença física do outro, mas nunca a sua opinião sobre nós. Para viver em palco, precisamos de público.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Rebolar na lama

por João André, em 14.02.19

«Nunca lutes com um porco na lama. Ficas sujo e o porco gosta»

Esta frase vem-me frequentemente à cabeça quando leio caixas de comentários (aqui ou noutros locais, especialmente Facebook). A quantidade de pessoas que pululam nas mesmas para fazer avançar as suas agendas anti-liberais, quando não mesmo fascistas (a níveis diferentes) é elevada e, mais importante, são extremamente activas. São pessoas que ou compram quaisquer teorias, por mais disparatadas que sejam, desde que se oponham ao establishment e recusam quaisquer provas ou dados ou lógica que lhes desmontem a argumentação. Nisto caem as conspirações anti-semitas, negacionistas das alterações climáticas, anti-migração, liberais extremistas, antivaxxers, extremistas raciais (habitualmente brancos) ou culturais (habitualmente judaico-cristãos europeus e brancos e embora também os haja árabes e islamistas, não andam nas mesmas caixas).

Com eles não há discussão. Há apenas gritos e rejeição de toda e qualquer argumentação que lhes negue as opiniões. E preciso rejeitar ciência? Faça-se. É necessário demonizar outros povos ou culturas? Vamos a isso. Relativizar sofrimentos ou riscos? Fácil. Mentir? Uma constante.

Na Europa vemos cada vez mais disso. Salvini é neste momento o mais destacado representante na forma como está a controlar completamente o seu parceiro-fantoche de coligação e toma atitudes que estão contra qualquer decência. Orban na Hungria parece querer fazer avançar tudo o que lhe convenha, mesmo que tenha que avançar conspirações anti-semitas, obrigar trabalhadores a ficar no trabalho sem salário, proibir a entrada de imigrantes que nem sequer o almejam, dar contratos e proteger subsídios da família e amigos. Na Polónia Kaczyński tenta seguir o conceito Orban. Na Turquia Erdogan caminha para a ditadura usando o espantalho Güllen. Fora da Europa, na Venezuela felizmente o ditador é incompetente (sem Cuba já teria deaparecido). Nos EUA Trump continua a denegrir toda e qualquer pessoa que discorde dele (até tenta levar Bezos para a lama referindo-se à sua vida privada). No Brasil Bolsonaro agita o espantalho inexistente da ameaça do comunismo. O casos surgem quase todos os dias.

E depois temos os trolls deles. Muitos deles serão pagos, outros simplesmente idiotas úteis. Veremos nos próximos meses o resultado das suas acções nas eleições europeias.

Não conheço a solução. Sei que entrar nessas discussões é inútil. Regulação para evitar a propagação de falsidades nas redes sociais (ou caixas de comentários de media) seria útil, mas não suficiente. Discutir como lidar com o uso de mentiras em campanhas eleitorais seria boa ideia. Não falo de promessas que niguém irá cumprir (não há inocentes nesse aspecto), antes do uso de mentiras óbvias. Entretanto, o melhor seria evitar dar-lhes um megafone maior que o que têm. Ignorar esta suinidade não resolve o problema, mas não piora e não suja mais ninguém.

Pensamento da semana

por Marta Spínola, em 10.02.19

 

Das redes sociais: quando não és mais do que se lê, és quem (a)parece aqui. E tudo bem. Até ao dia.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

 

Espicaçado por um dos nosso mais fiéis comentadores, e considerando que é digna de reflexão por mais do que um motivo, não resisto a escrever sobre uma das notícias que, entre um turbilhão de outras mais, varreu os noticiários e as páginas da net. Falo do questionário feito a alunos do ciclo preparatório da escola Francisco Torrinha, que tanta celeuma deu.

 

Antes de mais, respondo ao nosso fidelíssimo Luís Lavoura, que neste post do Pedro Correia lançou a hipótese do tal questionário ser uma "fake new". Lamento desiludi-lo, mas não é: o questionário foi mesmo distribuído como "ficha sociodemográfica" a alunos do 5º ano (ou 1ª ano do ciclo preparatório, como quiserem), com 9 a 10 anos, perguntando logo à cabeça o sexo e a identidade de género (homem, mulher ou "outro"), se namorava actualmente ou se já tinha namorado antes e se se sentiam atraído/as por "homens, mulheres ou ambos". Repito, isto era o questionário a crianças de 9 e 10 anos. Por acaso sei quem são os pais da criança em questão, e sei também como começou e se espalhou a notícia: numa mera conversa de Whatsapp de amigos, em que se discutem os mais variados assuntos, na sequência da qual o amigo que tinha revelado o questionário a colocou na sua página de Facebook, explicando o seu contexto. O post teve imensos comentários, começou a ser partilhado de forma crescente, qual bola de neve, e no dia seguinte já tinha centenas de partilhas, algumas aproveitadas abusivamente por forças políticas. Não demorou muito até que os jornais se referissem ao assunto, as televisões fizessem directos em frente ao Torrinha, o Ministério da Educação "apurasse informação" e as redes sociais prolongassem a discussão (como quase nenhuma aprovação do documento). A notícia chegou mesmo à Catalunha, com uma breve notícia no La Vanguardia. Fica pois o nosso caro Lavoura esclarecido de que não é uma notícia falsa e que tem aqui uma testemunha disso mesmo.

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Mas o caso merece reflexão por três razões: a primeira é saber porque que é que estas perguntas foram feitas nesta fase escolar a alunos desta idade que previsivelmente nunca namoraram e que não fazem ideia do que é a "identidade de género" ou "atracção por ambos". Qual é a finalidade do mesmo? Para que serve? E que dados ou resultados práticos se podem extrair daqui? Se é para confundir as crianças, provavelmente acertaram no alvo; se o propósito é mais ideológico, então é caso para preocupação; falava aqui há dias desta tendência para a sexualização da infância, como se se estivesse a formar um exército de autómatos programados e não a tratar de pessoas cujas fases etárias deviam ser acauteladas; e a propósito, é caso para pedir que o Torrinha não organize, no âmbito da "estratégia nacional para a Cidadania e Igualdade de Gênero", visitas guiadas dos alunos do 5º ano ou de outro à exposição de Mapplethorpe, em Serralves, ali a poucas centenas de metros, na outra ponta da "Marechal". A demonstração prática do questionário teria certamente efeitos desastrosos.

 

A segunda é recordar que no ano em que entrou em vigor uma nova lei de protecção de Dados Pessoais - que deu origem, aliás, a um bombardeamento maciço de emails de tudo quanto era empresa ou associação, a pedir consentimento para o tratamento dos dados - possa haver uma interferência tão visível nestes dados, mais a mais sendo crianças e tocando em elementos absolutamente íntimos e que ainda nem sequer estão devidamente desenvolvidos.

 

A terceira é, mais uma vez, a velocidade a que certos assuntos se propagam nas redes sociais: este começou num grupo de whatssap que nem sequer é muito grande, e colocado no Facebook, formou uma vaga surfada depois pela comunicação social tradicional, até fora de Portugal. Tudo isto em menos de 24 horas. Não tinha testemunhado tão de perto estes efeitos, mas é suficiente para causar admiração, e porque não dizê-lo, alguma apreensão. De qualquer maneira, e ao contrário do que ouvi nalguns comentários, não é preciso nenhum Bolsonaro nem nenhum candidato a protoditador para se fazer ouvir: basta a sociedade civil reagir, sem notícias falsas, e colocar as questões devidas em casos de suspeitas de abuso de poder.

O novo macartismo

por Diogo Noivo, em 27.09.18

"Há opiniões que não devem ser ouvidas. A punição que a pessoa identificada merece é a expulsão da comunidade. Sabíamos que não havia necessidade de condenação: a acusação era suficiente. (...) O caso de Ian Buruma revela um novo elemento: a proibição já não afecta apenas a pessoa que cometeu a transgressão ou o crime, mas também aquele que permite que o transgressor se expresse."

 

Ensaio oportuno de Daniel Gáscon sobre a demissão de Ian Buruma da New York Review of Books.

Indignações

por Diogo Noivo, em 30.08.18

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Rober Bodegas 

 

O humorista galego Rober Bodegas fez uma série de piadas sobre ciganos num programa de televisão e colocou o vídeo no Twitter. A indignação voraz ateou a pira moral. Acusaram-no de discurso de ódio. Foi insultado por todos os “colectivos” possíveis e imaginários. Foi até comparado a Le Pen e a Salvini. Depois vieram as ameaças de morte. Em violenta ebulição nas redes sociais, o caso chegou às primeiras páginas dos jornais. Bodegas pediu desculpa e apagou  o vídeo da rede social. Vozes como a de Dani Acosta, humorista de etnia cigana, que alertavam para o óbvio – uma piada é uma piada –, foram olimpicamente ignoradas.

No El Pais, o escritor Andrés Barba traçou o mapa deste tipo de casos: 1) Comediante faz uma piada sobre um grupo étnico, colectivo, comunidade autónoma ou figura política; 2) Coletivo, grupo étnico ... descontextualiza o comentário e ataca em massa contra o comediante com uma violência que excede em muito a piada que o provocou e que acaba por dar à piada uma difusão que nunca teria tido de outro modo; 3) Um certo grupo de intelectuais argumenta que, embora seja verdade que a piada é de um extraordinário mau gosto, não é menos verdade que a liberdade de expressão é garantia de direitos democráticos e um dos pilares da civilização ocidental; 4) Oprimido por ameaças de morte ou pelas consequências da piada no plano laboral, o comediante dramatiza um pedido de desculpas que não sente, faz um comunicado de imprensa e reza a todos os santos para que o caso caia no esquecimento  o mais rapidamente possível.

O melhor resumo de esta e de outras indignações a propósito de textos de humor surgiu na rede que mais zurziu Bodegas, o Twitter: “não façam piadas, por favor. As piadas ofendem. Uma piada matou o meu cão e toda a minha família. Ainda recordo quando uma piada entrou pela minha janela e os matou a todos. É preciso ter cuidado com as piadas”.

Porco machista

por Diogo Noivo, em 24.08.18

O João Pedro George é uma das minhas leituras semanais imprescindíveis. No mês passado escreveu um texto intitulado “Mulheres”, culto, irónico e pouco consentâneo com o pensamento único, embora nele nada houvesse de insultuoso ou chocante. Versava sobre a importância das mulheres na vida de alguns escritores portugueses, autores de outras épocas e, por conseguinte, de sociedades diferentes daquela onde vivemos. Como se diz em Espanha, lo han puesto a parir. Entre os vários mimos repartidos por leitores indignados surgiu o proverbial “porco machista”, epíteto usado como título da crónica onde João Pedro George responde às críticas. Dessa resposta, retenho este parágrafo:

 

As pessoas são completamente livres para lerem estas crónicas como quiserem, porém, e usando da mesma liberdade, deixem-me que vo-lo diga que algumas lêem apenas para não pensar. Todas saberão ler palavras soltas, mas nem todas as entenderão combinadas, sobretudo quando assentam em técnicas de discurso e em procedimentos retóricos como a ironia, as antífrases, os subentendidos, a sátira, em suma, quando exigem mais do que um nível de leitura ou de interpretação (além de um certo esforço de atenção). Por certo, é a capacidade ou incapacidade de identificar esses e outros efeitos textuais que distingue aqueles que sabem ler um texto e aqueles que, ignorantes das infinitas possibilidades da escrita, não conseguem ir além dos estreitos sentidos literais e das análises superficiais. Será verdade, como oiço tantas vezes dizer, que os tempos não vão para leituras atentas e meditadas, e que há cada vez mais pessoas que precisam de tudo minuciosamente explicado e óbvio, sem ironias, nem entrelinhas, nem associações ou cruzamentos entre planos da realidade

 

De facto, quem não entende isto, azeite. Resta saber se há lagares em quantidade suficiente. 

Blogue da semana

por Marta Spínola, em 05.08.18

Sigo a Ana no twitter há vários anos, já lhe pedi uma outra opinião, e recebi até umas simpáticas amostras para aferir o que me tinha sido dito. O blog: The skin game

Pragmática e descomplicada, a Ana fala clara e abertamente no que a sua formação em Farmácia, atrevo-me a dizer paixão, lhe ensinou e vai ensinando diariamente. Percebe-se o empenho e entusiasmo na aprendizagem constante. Para conhecer um pouco mais da Ana é ler aqui

Desta vez a Ana põe o dedo na ferida. Perante um disparate de alguém com 40k seguidores, a Ana avançou e desmistifica os medos sobre protectores solares

Deixo a parte técnica para a Ana. Mas além desse lado, é importante salientar uma vez mais a irresponsabilidade com que se fala para 40k pessoas. Dir-me-ão que se seguem merecem, mas infelizmente não me parece assim tão simples. Nem todo o influenciador é uma boa influência. O sentido crítico está adormecido em muita gente, e isso é assustador. 

Saibamos seguir, ouvir e tirar as nossas conclusões. E já não é pouco. 

Penso rápido (90)

por Pedro Correia, em 21.05.18

Os novos censores usam as "redes sociais" como pelourinhos. E já há governos tornados censores usando as "redes sociais" como alibi.
Esses que andam a levantar os novos pelourinhos ainda não perceberam a perversidade da coisa. Alguns acabarão também pendurados neles. Novos Dantons, novos Robespierres: a criatura acabará por ganhar autonomia, virando-se contra os criadores. Seguindo o exemplo da guilhotina, sua feroz mana mais velha.


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