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Delito de Opinião

O Facebook

jpt, 24.10.22

Pieter_Bruegel cocanha.jpg

(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Há um bom par de anos que chamei a este facebook a "likeland", a terra onde partilhamos aprazíveis "gostares", uma verdadeira "utopia" de bem-estar moral. Não é um defeito, é uma saudável panaceia que nos intervala os males do mundo. Cada vez isso mais me é visível, pelo menos no nicho das interacções que o algoritmo anima entre as minhas milhares de ligações - os "amigos-FB" com os quais interajo, neste "comércio" mais ou menos frequente de "sorrisos", "anuências" e "saudações", os "likes" (e "comentários"), que (n)os vão fazendo verdadeiros vizinhos, pois nomes que se me vão tornando conhecidos mesmo que nos desconheçamos na vida real, essa incómoda "real land", tópica.
 
Mais percebo isso pois as nossas características, as desta minha "comunidade" de entreajuda moral, a dos envolvidos neste nosso (quase)diário "estamos juntos", que se quer avessa à solidão - mesmo que enfrente apenas o "sozinhismo" -, implica que me acolhem com ruído prazeroso e solidário, e assim basto "gostável", as novas e notas da minha vida: uns dizeres sobre o meu Sporting, ecos de uma patuscada entre amigos reais, um resmungo com a minha ciática que afinal também é gota mas esta, afinal e vá lá, é apenas um entorse, ainda que bastante incomodativo, um sucesso da minha (magnífica) filha, um livrito para o qual me consegui concentrar, uma memória do "meu" Moçambique, uma nota sobre um bom filme visto na TV ou sobre uma tasca que descobri, uma piada menos brejeira que recebi no Whatsapp. E algum, escasso, etc.
 
Já algo oposta é a reacção se me ponho a opinar, ou a ecoar opiniões alheias, sobre os "males do mundo", os da tal "real land". As quais vou percebendo como uma violação do protocolo que nos une aqui, neste espaço de suspensão das preocupações e querelas, essas que preenchem a vida e, também, os dizeres nas "rádio, tv, disco e cassete pirata" que nos inundam o quotidiano. Que colhem um silêncio que não será exactamente uma discordância comigo ou com a minha forma - pois para isso há o "desamigar", o neologismo daqui - mas muito mais um até mudo "ó amigo/vizinho Teixeira, deixe-se disso, quer falar de coisas sérias, incómodas? Guarde isso para os blogs, homem...". Ou, até, "para si...", num "já viu como está a sua vida? Estivesse estado você calado...!", que é coisa que não é raro dizerem-me os da "vida real".
 
Enfim, resta-me anuir a este nosso protocolo (numa concordância ao velho mandamento "se está mal mude-se"). Aceitar esta nossa prazerosa "likeland" tal qual ela é - ainda que consciente e convicto de que esta terra não é a Cocanha.
 
Mas ainda assim deixo, pois renitente, uma citação que Paulo Sousa colocou agora no Delito De Opinião, sobre esta nossa terra Portugal. Um excerto de um texto que não é de um furioso esquerdista nem de um paladino do professor Ventura, nem de um publicista da sempre pérfida "oposição". É de Ricardo Costa, director do tão institucional de alinhado "Expresso" e também irmão do nosso primeiro-ministro desde 2015. Deixo-a aqui, à transcrição, sabendo que poucos "gostarão" dela. E que, pior ainda, poucos nela atentarão. Pois afronta o sossego identitário de tantos dos "vizinhos":
 

Gostos

Sérgio de Almeida Correia, 08.09.22

Por aqui, onde vivo, não se fala noutra coisa. Era por isso chegada a hora de me debruçar sobre esse assunto.

Debruçar é mesmo a palavra adequada. Quando um problema não se afigura claro, por vezes, convém que se mude de posição para se poder analisá-lo. E aí a gente debruça-se, o que pode sempre constituir um risco, porque tanto nos pode entrar um cisco pelo olho adentro, uma mosca pela narina acima, ou um tipo estatelar-se de bruços se estiver num local elevado e perder o equilíbrio na análise.

Qualquer uma dessas hipóteses causava-me imenso desconforto. Tomei, pois, as devidas precauções e coloquei uma máscara KN95 e uns óculos de protecção quando tratei de me concentrar no assunto.

Agora importa aqui deixar algumas ideias, que aliás não são muitas, confesso, mas que, creio, deverão ser tomadas em conta nas sugestões que vierem a ser feitas sobre uma consulta pública que anda para aí a ser muito badalada e que no futuro poderão ser tomadas em consideração pela Assembleia da República e o Governo de Portugal na hora de legislarem sobre as reacções nas redes sociais. 

Já tinha ouvido falar na ideia, por sinal brilhante, de serem escrutinados pelas autoridades os "gostos" (likes) colocados pelos participantes em redes sociais, coisa que na nossa sociedade, "muito pequena", como alguém disse, onde "toda a gente se conhece" e "não é preciso as autoridades policiais investigarem", constitui uma tendência perigosa e reveladora de problemas de mentalidade e ideologia. Inicialmente desconfiei. Não percebi. Mas, como referi, se "não é preciso as autoridades policiais investigarem" é também porque as leis são muito boas, únicas e irrepetíveis em qualquer outra parte do mundo, e há boas ideias por estes lados que deverão ser consideradas. A do recurso aos "likes" para análise social, disciplinar e criminológica pelas polícias parece-me, afinal, muito razoável, pelo que desde esta manhã passei a subscrever a sugestão do nosso Secretário responsável pelo pelouro dos "likes", um quadro formado pela última administração portuguesa de Macau no rigor dos princípios então vigentes. 

A sugestão, todavia, convém que seja melhorada para se evitarem confusões e se dispensarem futuras investigações, sempre morosas e caras. Deverá ser tudo escarrapachado na lei, não vá aparecer aí algum figurão a dizer que não é bem assim, a ver se escapa à bordoada.

É que não se pode simplesmente analisar os "likes" a eito. Importa introduzir algumas regras científicas que sustentem as conclusões da análise. Não só aos "likes" simples que um funcionário público ou qualquer outro indivíduo coloca nas redes sociais ao que se passa noutras jurisdições, mas a todas as reacções possíveis. Porque todas elas, dependendo da perspectiva, podem ser reveladoras de diversos graus de perigosidade da sua mentalidade e ideologia.

A minha primeira sugestão vai, pois, no sentido da criação de um catálogo de reacções, sanções, atenuantes e incentivos de carreira, ou pecuniários (estes serão mais populares), em função das reacções dos participantes nas redes sociais ao que se publica. Um catálogo tipificado às reacções dos participantes nas redes sociais, à semelhança do que acontece no direito penal com os crimes. Isso é importante para segurança de todos nós e o problema, admito, não está a ser tratado com o devido rigor por quem de direito. Tem de ficar tudo na lei. Preto no branco.

Se repararem, actualmente, temos o "like" ou gosto simples, o coração vermelho, o riso, o espanto, o choro e a ira (ou o zangado). Para este efeito são tudo "likes" em sentido lato. Ora, é preciso que não se fique pela análise do "like" simples, havendo que extrair conclusões das restantes reacções, sob pena de estarmos a atirar para cima das polícias uma investigação perfeitamente desnecessária.

Se um tipo colocar um coração vermelho nas declarações de um governante é porque aprecia o estilo deste, gosta da gravata, do fato, fascinou-lhe o conteúdo das declarações proferidas ou ficou apaixonado pelo presente que aquele ofereceu à mulher, uma senhora que em tempos violou a disciplina do partido e está agora hospedada no "Coloane Hilton" a cumprir pena?

E então se for o boneco do riso numa publicação da agência de notícias Xinhua, sobre o papel dos observadores estrangeiros nas eleições em Angola, isso quer dizer o quê? Que a notícia teve piada? Que os observadores são especialistas de stand up comedy? Ou porque a fonte foi o Dr. Marques Mendes?

Eu poderia trazer para aqui mais uma série de exemplos e situações em relação a cada um dos "likes", chamemos-lhes assim, em que muitas vezes um "like" simples acaba por corresponder a um "dislike", ou, o que é pior e deverá ser sempre evitado, a uma reacção de gozo. Tenho um amigo do Sporting, que ninguém quer lá, que coloca "likes" nas publicações do SLB e quando diz que "vamos ser campeões" nunca ninguém sabe se é o Sporting, o SLB ou o F. C. Porto, onde milita o filho. Uma confusão que dá sempre granel lá em casa.

É preciso que fique na lei que o que vai na cabeça do participante na rede social no momento em que reage à publicação também é penalizado ou louvado. Há sempre uns engraçados que colocam risos nas fotografias dos camaradas do partido. É evidente que se depois se arrependem e colocam um "like" simples ou um coração vermelho, isso deverá ser considerado uma atenuante na hora da avaliação do desempenho do funcionário público ou de qualquer residente. Mas se se voltarem a arrepender e colocarem, à terceira, o boneco irado em substituição do "like" simples, após assistirem à última conferência de imprensa sobre o controlo da pandemia, então é porque estão a precisar de ser "fulminados". Aí só há um caminho: mandá-los para a Mongólia interior ou um campo de reeducação do tipo daqueles que Michelle Bachelet visitou, onde possam desenvolver as suas competências e adoptar comportamentos constantes em matéria de reacções às publicações nas redes sociais. 

Agora é hora de colocar mãos à obra e pedir a um dos cientistas da Universidade de Macau que elabore o catálogo de  reacções (alguns serão crimes) atinentes às publicações nas redes sociais que deverão ficar a constar da lei. Talvez o Prof. Figueiredo Dias, como professor visitante, possa aprender alguma coisa com eles, atenta a criatividade de que os seus académicos ultimamente têm dado mostras, para propor ao Ministério da Justiça.

A censura no Facebook

jpt, 29.07.22

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Leio o João Gonçalves (agora também João S. Gonçalves) desde os tempos do seu blog Portugal dos Pequeninos. Verve cáustica, mente inquieta e, acima de tudo, imensa verrina. Concordando ou não - até porque ele estará duas ou três braçadas à minha direita -, gostando ou desatinando, o certo é que nestas quase duas décadas o homem tornou-se item da minha paisagem.
 
Após a "intervenção militar" russa na Ucrânia o João Gonçalves embicou, e com afã, contra as posições europeias e um (aparente, digo eu) unanimismo ucranófilo. No início, uma ou duas vezes lá terei resmungado em comentários - julgo que aquela posição é um erro de compreensão - mas depois desisti. Pois às minhas atoardas guardo-as para o meu mural (e blogs), para quê chatear os outros em sua "casa"? Ora, e até porque o seu mural é muito activo (imensos "gostadores", múltiplos comentários), o "Algoritmo" mostrava-me os seus vários postais diários e a azáfama dialogante que lá sempre acontece. Também por isso um dia irritei-me com aquilo e cortei a ligação, num "quando acabar a guerra pedir-lhe-ei "amizade" outra vez"..." em busca das (outras) caneladas que ele vai distribuindo a eito. Passados uns tempos ele criou um outro perfil (João S. Gonçalves) e reestabeleceu a ligação e eu, que estaria em dia menos zelenskiano, acolhi-a sem mais.
 
Percebi agora que as suas duas contas foram "canceladas" durante um mês. Não sei exactamente porquê. Talvez por motivos lexicais, não me surpreenderá - um amigo co-bloguista acaba de me avisar que ele próprio está suspenso do Facebook porque utilizou um substantivo abstracto derivado da célebre "Mariquinhas" (!!), e eu já fui informado que, e apenas por ter comentado alhures interrogando se tal substantivo era "ilegal", seria suspenso se repetisse tamanha agressão a uns inditos "valores comunitários". Ou então foi barrado devido às suas posições políticas.
 
Independentemente da razão isto é inaceitável. Há no Facebook um controlo global (robótico, dizia-se) iconográfico, algo atrapalhado - o episódio da censura ao "A Origem do Mundo" de Courbet foi um risonho exemplo, tornado ainda mais anacrónico face à recente pornografia via vídeos "reels" divulgados nesta rede - mas que se poderá justificar, pois avesso à transformação da plataforma num avatar dos porn hubs. Mas o controlo lexical é patético, não só por questões de princípios mas também pela polissemia dos termos que se querem barrar - as "mensagens odiosas" de que a empresa Meta se quer expurgar dependem da sintaxe e não do léxico.
 
E há, acima de tudo - e este caso deve depender disso -, o controlo censório avulso. Executado pelos pobres avençados da empresa e, muito, pelos inúmeros utilizadores "denunciantes". Que "denunciam" através do "barrar" de outrem, dando sinal ao sistema que essoutro tem más práticas, algo cujo somatório provoca sanções - já me aconteceu um punhado de vezes, até com gente que conheço, antigas visitas de casa, recentemente um antigo aluno a quem cortei a ligação devido ao seu desbragado putinismo e que assim se "vingou", colegas antropólogos por razões que desconheço -, ou mesmo "denunciam" postais com os quais não concordam.
 
Ou seja, a coberto de uma aparente "cidadania", de uma defesa dos tais "valores comunitários" (quais?, qual "comunidade"?), o que grassa é a vil bufaria, a da maledicência frustrada, ciosa da sua mediocridade. No fundo, bem no fundo, apenas gente dessas "coitadinhas", furiosas diante da "Pretendida, desejada / Altiva como as rainhas / Ri das muitas, coitadinhas / Que a censuram rudemente / Por verem cheia de gente / A casa da Mariquinhas".
 

Alfredo Marceneiro - Casa da Mariquinhas

Shock the Monkey

jpt, 05.06.22

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É comum ler "doutores" - académicos e jornalistas, ciosos ciumentos saudosistas do seu estatuto de intermediários do Saber, como se Sábios pedagogos pairando sobre nós-plebe - criticarem os perigos da internet, aterro de lixo (e nisso quantas vezes citam Eco). E apupando as "redes sociais" - as quais reduzem ao FB e ao Twitter -, quais pântanos da nossa popular malévola ignorância.
 
São nisso broncos - como alguém que refute bibliotecas porque (também) têm maus livros. São broncos e não têm vergonha de o ser pois ninguém lhes diz isso, dado que infelizmente continuamos naquilo do "respeitinho é muito bonito", chapéu na mão diante do "sô dôtor".
 
Boto isto nesta nebulosa manhã dominical não porque tenha acordado possuído por uma réstia de Michel Serres (esse que reduziu esses filisteus à tralha que são). Mas apenas para louvar, em cúmulo de gratidão, o que estes meios me dão, por malvados capitalistas que os detenham... Pois foi numa "rede social", em murais dos populares que por lá pululam, que soube da transmissão na RTP2 da "Akhnaten" de Glass. A qual está disponível na RTP Play (na tal internet dos miasmas intelectuais) - versão aparentemente majestosa, pelo pouco que já vi. E que verei completa após o jogo da selecção de hoje.
 
Mas muito mais, foi ali noutra "rede social" musical que ontem voltei ao "Live in Athens 1987" - um Peter Gabriel soberbo, já liberto da pirosa tralha Genesis, no pico da voz, no cume da sua inovação no rock. E com um lendário grupo de músicos fabulosos (David Sancious, David Rhodes, Manu Katché, Tony Levin).
 
Sim, o som do meu computador não é grande coisa, eu vou um bocado mouco. E perro, tanto que já nem sozinho ao espelho danço... Mas ainda assim estou há horas, desde a alvorada, a ouvir em loop esta Shock the Monkey - que o autor diz ser sobre o ciúme mas que sempre imaginei como uma canção sobre como o amor nos fez evoluir. E que aqui vem numa versão sublime.
 
E neste longo e intenso loop rejuvenesço décadas, cada vez mais... com a má contrapartida de que assim, de súbito tão jovem, percebo o quão irrelevante, sem sentido e mesmo incompetente é o texto word que tento culminar. Mas que importa isso quando se é jovem?
 
Aqui deixo a canção (retirada de uma outra rede social). Ouvi em loop, comprovai o rejuvenescimento.... Ou então ide ler os "doutores":
 

Macro, micro

Pedro Correia, 16.02.22

As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. Alguém sopra uma coisa via telemóvel, o sopro salta para o twitter ou o facebook -- e é quanto basta para se assemelhar a ignição de fogo pronta a incendiar a pradaria mas que afinal se limita a chamuscar uns canteiros. Mal as chamas irrompem num determinado local, logo outro foco se propaga noutro sítio com o mesmo grau de aparente intensidade do anterior e com a mesma duração média, que raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso.

E assim sucessivamente. Tudo macro indignado. Até à micro indignação seguinte.

Saneamentos

José Meireles Graça, 06.07.21

Em tempos, o Facebook suspendeu-me um amigo por 30 dias, por causa de uma piada qualquer aparentemente racista (e que fosse, a piada e ele; mas, incidentalmente, o amigo em questão de racista tem nada). Irritado, escrevi um texto onde reflectia sobre as redes sociais.

Acabava assim: Fizeram-me falta os 30 dias do meu amigo. Não é esquerdista, não é preto nem cigano, não é pobre nem explorado, não é situacionista nem convencional. Azar dele: os tempos vão para quem pensa como deve ser; para os outros há suspensões.

De então para cá o mesmo incontinente verbal já foi suspenso várias vezes, pelas mais diversas razões, e calhou conhecê-lo em pessoa: é, como previa, igual ao que previa. Se vivêssemos na mesma cidade, é provável que frequentássemos o mesmo café, nos sentássemos às mesmas mesas e asneirássemos com pertinácia, à vez; e seguro que com ele aprendesse alguma coisa porque isso é o normal quando se têm percursos de vida, experiências, formações e interesses muito diferentes, se houver um fundo inato de tolerância, curiosidade, alguma coisa para a troca e predisposição para levar o mundo, sempre que possível, na desportiva.

O Facebook é um café em ponto grande, tão grande que há uma quantidade infinita de grupinhos que não se podem ver uns aos outros, e numerosos clientes dos quais a prudência aconselha a manter uma confortável distância. Mas todos têm o direito de beber a sua meia-de-leite, ou a imperial, ou o bagaço, ou o que seja, é ao gosto de cada qual. E se o camarada tem por hábito arrotar, ou cuspir, ou mesmo vomitar, o espaço sobra e por isso o dono do estabelecimento não se incomoda, até porque os bêbados e os malcomportados tendem a juntar-se uns aos outros ou, quando venham às mesas dos civilizados, serem acolhidos com fleuma nuns casos, e com abundância de pontapés noutros.

Não se incomoda com isso, e faz muito bem, mas três coisas lhe importam: a primeira é que se diga mal do Governo; a segunda são mentiras; e a terceira a nudez.

Governo é como quem diz, não é bem isso: é mais um conjunto de ideias que acha que desagradam aos costureiros das tendências e à maioria dos clientes. Mentiras também não, é mais, além das propriamente ditas, verdades ou hipóteses que não tenham chancelas oficiais dos mandarins do pensamento. E nudez porque, coitado, é americano e lhe ensinaram de pequenino que é pecado, além do que muitos clientes são também daquela infeliz nacionalidade, ou não são mas ingeriram na infância quantidades consideráveis de pudicícia e hipocrisia.

Pois bem: há dias o meu mural, velhinho de dez anos e pesado de milhares de histórias, fotografias, links, reflexões, levou completo sumiço: nada, zero, niente, kaput. Alguém num servidor em Denver, Colorado, alterou a palavra-passe e o endereço de e-mail, de modo que semelhante arca do tesouro estará talvez perdida para a humanidade, que ficará com certeza impassível enquanto eu furibundo. Adiante, que talvez o meu eu pretérito ainda venha a renascer.

Sucede que outro amigo, da variedade com vastíssima plateia, notoriedade pública e créditos firmados como autor de crónicas, no caso sobretudo sobre assuntos económicos e de políticas públicas, reproduziu há dias uma capa da revista Playboy onde aparecia a Lenka do Preço Certo de mamas ao léu, num comentário. No dia seguinte, ao querer publicar um link para outro assunto, ficou ciente de que estava impedido de o fazer. Chegou-lhe a mostarda ao nariz e bazou de vez – não está para aturar insolências moralistas de uns merdas que ninguém sabe quem são e que, quase planetariamente, decidem o que se pode e não publicar num meio que só teve o sucesso que teve, e que se traduz em incontáveis milhões para os proprietários, porque deu voz a quem não a tinha, ou permitiu ampliar os púlpitos de alguns pregadores, preservando o direito de cada um ler apenas o que lhe interessa, escrever para grupos ou, se houver audiência, um público mais vasto, e interagir com quem aceite interacções.

Grandes burros, o sucesso cega-os: quase toda a gente é conformista e aprecia indignar-se contra os que não o são. Mas são estes o chamariz, o exercício da liberdade de opinião incomoda mas a sua ausência acaba por fazer os ambientes enjoativos.

Suponho que se vai arrepender: quem está habituado a um café imenso achará qualquer outro acanhado; e o paleio de que há coisas muito mais produtivas para fazer, sendo de conteúdo verdadeiro, deixa de lado que pois sim mas nem só de pão vive o homem – também vive de se irritar com disparates, dar umas ensinadelas nos dias bons a alguns pedantes, receber outras nos maus, aturar uma turba de irrelevantes, aprender alguma coisa sobre o que lhe interessa e o que julgava que não lhe interessava, e divertir-se no durante e nos intervalos.

A mim, que porque sou velho sou mais sensato (também já era em novo, mas não quero pôr-me para aqui com gabarolices), não é impossível que isto irrite mais do que a ele. É genericamente um tipo de esquerda, no sentido de que liga muito mais importância à igualdade material entre os cidadãos, e tem muito mais confiança nos poderes demiúrgicos do Estado, do que eu. Mas não é um idiota que diz coisas porque sim, antes se dá ao trabalho de as medir, e como é de profissão professor de economia, usa ancorar-se em doutrina, estudos, pareceres, tudo embrulhado em despretensão, a que soma uma declinação própria. Por último, e sem ser o menos, não se leva demasiado a sério, em contraste com a suficiência que é quase uma marca d’água da profissão, e aprecia discretear nas redes sobre o que se chama a espuma dos dias, a qual não é menos saborosa do que a na parte de cima de um fino (imperial, para quem viver nas partes para onde o Saara se vai expandir primeiro) bem tirado.

O Facebook vai fazer-lhe falta, e ele a mim. Razões porque o aconselho a fazer o que se fazia nos tempos da Velha Senhora: encontrar maneiras de dizer o que se quer de forma que os coronéis deixem passar.

Somos muitos a apreciar-te, Luís Aguiar-Conraria, mesmo na versão light, que não é a mesma dos artigos de opinião. E se isso não te diz grande coisa, informo que também não falta quem não te grame: queres dar-lhes essa alegria?

Redes

José Meireles Graça, 05.01.21

Os mandarins da opinião paga tendem a ter pelas redes sociais um ódio frenético. Pacheco Pereira, por exemplo, casca nelas com furor sempre que a ocasião é, ou ele a faz, oportuna. Acha que são perigosas, veiculam ideias primárias, põem no mesmo plano a opinião do condutor de empilhadores zangado com o mundo, que acredita que a terra é plana e que há várias conspirações mundiais destinadas a engenheirar as sociedades, e a do académico com obra reconhecida pelos pares.

Depois, as redes são usadas por grupos terroristas, extremistas de vária pinta, vigaristas de todo o tipo, predadores sexuais, etc. E todos os dias pessoas e grupos fabricam notícias falsas, ilustradas com fotografias ou vídeos manipulados, afirmações de responsáveis descontextualizadas, e toda uma panóplia de aldrabices sortidas, que são instantaneamente reproduzidas às centenas de milhar por tribos ansiosas pela confirmação das suas crenças.

Que há conspirações é um facto. Mas isso não impediu o nascimento de organizações de fact check, utilíssimas mas que já deram abundantes provas de, quando as notícias põem em causa poderes públicos, se limitarem a papaguear a versão oficial dos factos – consequência do trabalho sentado ao computador, e do viés socialista que afecta a classe jornalística, ao menos entre nós, e que leva os autores (os fact check têm autores de carne e osso) a tomarem-se por pastores da grei, com a obrigação de divulgarem a mensagem certa, se a notícia a verificar for excessivamente desalinhada.

Com fact checks podemos nós bem – acreditamos ou não, ninguém nos obriga. E, o Pacheco Pereira que tenha paciência, com básicos e chanfrados a expectorar asneiras e a vomitar ódio em português das novas oportunidades, também. Até porque no embrulho podem vir, e vêm, coisas boas.

O problema é que Pacheco, e alguns outros Pachecos gurus da comunidade, acham que as escolhas as devem fazer eles, e não nós, a massa anónima dos consumidores de treta. E acham isso, oficialmente, por não quererem a difusão de nódoas ideológicas nas nossas sociedades, mas realmente (processo de intenção meu) por não quererem concorrência: nas redes aparece quem, de graça, tem tanta ou mais audiência do que eles, a propagar ideias que abominam e que querem esmagar com um interdito.

É com este pano de fundo da alegada necessidade de controlar as redes que, pacificamente, assistimos ao espectáculo de os seus donos, à boleia do combate à violência, ao ódio, ao racismo, à pornografia e mais um par de botas, terem desenhado algoritmos que permitem calar – sem processo, sem recurso e, quase sempre, sem publicidade, quem quer que seja que tenha um discurso que ofenda as suas convicções, ou as que acham mais convenientes para não afugentar anunciantes.  E esta prática já levou inclusive a que um homúnculo se tenha permitido impunemente fechar a matraca ao presidente dos EUA. Deu nas vistas, claro, como não dão os milhares ou milhões de mensagens que todos os dias são canceladas por coisas tão banais como a exibição de um par de mamas ou, pior, um sexo cabeludo (como o de Courbet, na Criação do Mundo, que o algoritmo púdico de Zuckerberg censurou) mas também apologias ou refutações do nazismo, racismo, alterações climáticas, igualdade de género, perigosidade da Covid e uma longa lista de delitos, dependendo das queixas de ofendidos.

Há aqui uma confusão: as redes são de propriedade privada mas o seu meio é um bem público, a liberdade de opinião. Permitir-se que um idiota como Zuckerberg ou qualquer outro magnata decida o que pode ou não dizer-se no Facebook não é diferente de o dono de um café proibir a entrada de pretos ou hindus: num caso ofende-se a liberdade de opinião e no outro a igualdade dos cidadãos perante a lei, e portanto no acesso a espaços públicos.

Eu gosto das redes, sobretudo do Facebook, e na minha bolha aprendo com frequência alguma coisa, divirto-me com os disparates, espanto-me com a ignorância, aborreço-me com gente pomposa e irrito-me com cretinos que querem çalvar Portugal a golpes de indignações avulsas, maiúsculas, pontos de exclamação e confessada admiração pelas eructações do dr. Ventura.

Tenho lidado com muita gente, e hesitado pouco na hora de saltar da rede para a rua e a conhecer pessoalmente. E, ó espanto, essa gente não é diferente do que imaginava pelos seus avatares. Posso dizer que hoje conto como amigos pessoais, e companheiros de jantaradas e tertúlias, que conheci via Facebook e blogosfera. Que, sendo muitos, ainda são menos do que aqueles que nunca vi por estarem longe e termos vidas desencontradas. De modo que – vai-te lixar Pacheco – as redes têm um saldo largamente positivo, para mim e milhões.

Pois bem: Tenho um amigo facebookiano que prezo muito por pensar (algumas vezes mal, na minha opinião, que naturalmente respeito) com originalidade sobre os mais diversos assuntos. De sólida formação científica na área da Física (que julga, em conjunto com outras ciências duras, o alfa e o ómega da cultura e da lucidez), acrescenta-lhe uma grande simplicidade, que o leva a discutir com todo o cão e gato. E numa discussão sobre um incidente num jogo de futebol, em que um negro se sentiu ofendido pela atitude de um árbitro (peço desculpa por não me lembrar dos detalhes da historieta, e não ter paciência para a procurar), cometeu o erro de argumentar com um pateta justiceiro, um tipo de personalidade muito frequente nas redes. Zás: “A tua publicação desrespeitou os nossos Padrões da Comunidade relativos a discurso de incentivo ao ódio”, toma lá 30 dias de suspensão.

A liberdade de expressão nunca teve muitos amigos, por ser um perigo para os poderes – todos os poderes – e porque quase toda a gente a defende desde que não sirva para ofender aquilo em que se acredita – a fé, a democracia, a pátria e mais umas grandiloquências, que variam consoante as pessoas. Pelo menos era assim; agora é assado porque a lista do que não se pode dizer vem aumentando à medida que se lhe acrescentam novos valores, entre eles o discurso de ódio, a igualdade de género e das civilizações, bem como outras frescuras.

Fizeram-me falta os 30 dias do meu amigo. Não é esquerdista, não é preto nem cigano, não é pobre nem explorado, não é situacionista nem convencional. Azar dele: os tempos vão para quem pensa como deve ser; para os outros há suspensões.

Vai para a tua terra!

jpt, 16.11.20

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, "Ljubomir Stanisic", manifestação na Baixa de Lisboa, 14.11.2020)

O meu amigo Miguel Valle de Figueiredo continua, paulatinamente, a fotografar esta época do Covidoceno lisboeta - e lembro que já publicou o livro "Cidade Suspensa: Lisboa em Estado de Emergência". Anteontem foi à Baixa fotografar a manifestação de trabalhadores do sector da restauração que ali decorreu. Não conheço o pormenor das reclamações apresentadas nem sei quais os "orgânicos" organizadores. Enviaram-me um filme telefónico com um discurso, algo tétrico, um orador numa torrente de imprecações e insultos a tudo e todos. Boçal. Mas uma boçalidade tão desesperada que pungente, até cativando piedade - talvez o menos solidário dos sentimentos ...

Uma das imagens que o mvf trouxe foi esta, um (ao que me dizem) conhecido cozinheiro e dono de restaurante, Ljubomir Stanisic, que é figura relevante deste movimento profissional, e que tem tido discursos críticos ao poder político - nunca o ouvi, dizem-me que assim é. Trata-se de um cidadão português, antigo imigrante proveniente da Bósnia-Herzegovina.

Entretanto o que leio nas redes sociais?, para o que me chamam a atenção? Um deputado socialista alude ao financiamento bancário que o homem tem, como se isso possa minorar os seus direitos de cidadania - numa óbvia, ainda que subjacente, ameaçadora alusão ao seu estatuto de ex-imigrante, qual cidadão deficitário [e não substituirão o deputado, ainda por cima conhecido por se furtar a uma pena devido a condução inebriada, através de influências políticas, algo vergonhoso ... Pois pecar todos pecamos mas se assim é penar também é para todos]. E leio inúmeras pessoas invectivando que o homem volte para a terra dele. Assim mesmo, sem mais. Que isto de um "estrangeiro" criticar o governo é inaceitável. Esteja ou não naturalizado, pouco importa ... Esta mole humana socialista pensa - e alguns deles falam e escrevem - exactamente como a rapaziada do Chega. Já se vira aquando da eleição do Bolsonaro, quando no Expresso, no DN, na junta de Arroios e por tantas socialistas casas e teclados, se escreveu (e "laicou") que fossem os imigrantes brasileiros expulsos pois maioritariamente eleitores do novo presidente (esse uma peça irrecomendável, mas isso é assunto deles).

Amigo cruel chama-me a atenção para que um deputado (e plumitivo) socratista aproveita a onda e alude pejorativamente à "macholice" deste homem. Uns gritam a este português que vá para a terra dele porque criticou este governo (e mesmo que fosse imigrante isso seria curial, mas a tanto já não se pode imaginar que esta gente chegue ...). E este socratista chama-lhe "machola", como se diminuindo-o.

Fosse este homem oriundo de outro qualquer recanto onde tivesse havido guerra fraticida, tivesse este homem outra cor de pele, e estes pantomineiros gritariam pelo seu direito à livre expressão - para dizer as patacoadas que entender, o que muito provavelmente é o caso. E se fosse um invertido histriónico, uma "bicha louca", também o defenderiam com dentadas e unhadas, ao seu direito para que se exprimisse em liberdade consoante a sua "natureza". Mas não neste caso. Pois, pior do que tudo, crítico do PS. Por isso estrangeiro, devedor, atrevido, até ingrato. "Machola".

Esta gente - locutora, laicadora, e os tantos habituais das "boas causas" agora tão inertes nos clics (des)laicadores e nos irados "indignismos" - é o "Chega". 

A liberdade de desmentir

Paulo Sousa, 07.08.20

Pela primeira vez o Facebook removeu uma publicação do Presidente Trump com a justificação que a mesma não era verdadeira.

Faço parte do imenso grupo de vários biliões de seres humanos que desprezam o sujeito Donald Trump. Mas este grupo tem uma grande diversidade. Nele junta-se quem ache que os EUA pelo que representam, e pelo que contribuíram para o actual concerto das nações, nunca tiveram um representante de tão baixo nível, em termos humanos inclusivamente. Mas este grupo inclui também os que apoiam regimes autoritários e até totalitários. Esses odeiam Trump pelo que é, mas acima de tudo pelo que os EUA representam.

Uns e outros, com maior ou menor contenção, alegraram-se pela remoção desta publicação de Trump. Mas, pergunto eu, em que outro país com dimensão para ter uma rede social própria (seja a Qzone, a Weibo, a VK, a Odnoklassniki, a TikTok, ou outras) seria possível desmentir desta forma o líder do próprio país?

O ambiente de comentário nos blogs

jpt, 27.03.20

Deixei um postal, meio esparvoado, sobre comentadores televisivos. Um desses azedos comentadores anónimos, aqui habituais, que se saracoteia na internet como "makiavel", pergunta qual o assunto do postal - precisamos de ter assunto numa actividade gratuita como é blogar? Continuo a perguntar-me, qual a pertinência do azedume espetado nos comentários de um blog, gratuito, sem agenda e até algo heterogéneo em termos intelectuais e ideológicos? Discordar de textos sim, mas há um punhado de anónimos que aqui vem constantemente deixar fel (até agora, neste terrível momento nacional e internacional, de congregação moral, caramba). Eu não falo de "Lavoura", que é - cônscia ou inconscientemente - algo pitoresco nas suas constantes picardias. Falo de outros, sob alcunhas, que os leitores habituais do blog já conhecerão. 

Para sublinhar a sua reacção ao postal sem assunto deixa o tal makiavel esta adenda: "“(...) livros e vêm utilidade em lê-los.” Não será ‘veêm’?". O autor do postal, eu-mesmo, deixou um erro ortográfico e o acidozinho logo se solta. Impante.

Cometi eu um erro ortográfico? Foi uma "gralha"? É isso denotativo da falta de assunto do postal, de défice intelectual do bloguista? É isso suficiente para ir comentar com o "leve toque de azedo"?

Foi um erro? Eu reproduzo um velho postal, escrito quando era professor. E sim, o que quis escrever foi "vêem".  E não vejo, continuo a não ver, qualquer interesse em acumular comentários deste tipo de comentadores anónimos.

(Postal no blog ma-schamba de 7 de Agosto de 2014)

 (Matola-rio, Junho 2014)

Houve uma avaliação aos professores em Portugal. Não faço a mínima ideia do seu conteúdo ou qualidade. Apenas leio uma notícia com o título "Maioria dos professores deu erros [porventura o jornal quereria dizer "errou"] de português na prova da avaliação", "ortográficos [de ortografia?], de pontuação [pontuativos?], de sintaxe [sintácticos?]". O breve título é repetido no DN, no JN e no Público, deixando adivinhar alguma origem que lhes é estranha, talvez até oficial. Enfim, bastará o seu coloquialismo e a ilógica presente nas poucas cinco palavras que descrevem os erros acontecidos para provar que isto de escrever português é um martírio. Infelizmente não há notícias sobre hipotéticos erros em matemática, química, desenho, história ou outras quejandas coisas.

Como os visitantes do blog bem sabem cometo falhas ortográficas. Não muitas, mas algumas: ainda há pouco foi um "insonso" que me valeu insultos de visita discordante, ... E esforço-me, sempre atrapalhado com isto dos hífens, e agora ainda mais devido à tralha ortográfica, sempre entre o dicionário e o google. Quanto à sintaxe e à pontuação é melhor nem falar, uma constante trapalhada - esta tendência de virgular cada arquejo, para travessar cada meneio. Por isso estou solidário com os colegas erradores.

E espero que não levem purrada.

As estantes dos livros na televisão

jpt, 26.03.20

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(Postal para o meu mural de facebook)

Meus queridos amigos,

de súbito brotou um "même" nas redes sociais, o gozo aos comentadores televisivos que, pois agora confinados em casa, surgem na tv via seus computadores tendo atrás estantes apinhadas de livros. Ou seja, é ridículo ter livros e fatela mostrá-los.

Eu percebo as irritações por princípio, os "preconceitos" como agora se diz. Ou, melhor, os "ódios de estimação", como o magnífico MEC lhes chamou um dia, aqui há atrasado. Eu, apesar de mim-mesmo, também os pratico. E enuncio-os: detesto o presidente da Assembleia-Geral do Sporting, o dr. Rogério Alves, apenas e exclusivamente porque trata toda a gente por "querido amigo" (ver acima, neste postal). E abomino, até ao desejo de extermínio, todos os patetas que se (auto)representam com a queixada sob a palma da mão, como se sinalizando o peso do intelecto, tamanho que assim necessita de suporte (ver foto avulsa). Por isso percebo, humano que sou, que detestem só por detestar os tipos que têm livros em casa, amontoados num estrado a que chamam estante e guardados (para hipotética consulta, em alguns casos) numa divisão - recordo que os livros acumulam pó, nisso ácaros, e que não convém tê-los nos quartos de dormir. Por questões sanitárias, mais que não seja.

Há pessoas que têm livros. Eu próprio os tenho. Aqui me selfizei (como vós, "meus queridos amigos", agora falais) na sala da pequena casa aquém-Tejo na qual me aboletei. Um T1, rústico e maravilhoso, no qual está a estante. Duas prateleiras (correspondentes a uma mala de viagem e uns sacos) de livros meus, vindos para este pré-apocalipse, três outras com livros residentes. Faz parte ... Desde há uns tempos, séculos até (consta que pelo menos desde D. Quixote), os remediados têm prazer em comprar livros e vêem utilidade em lê-los. E nas casas (térreas ou apartamentos) congregam-nos numa divisão na qual alguns, segundo a profissão, até trabalham. Ou estudam. Chamam-lhes escritórios, por vezes. Os meus avós tinham-no (magnífico o do meu avô materno, até com mesa de fumo, belíssima, oferta de um regimento que comandou. Vem essa passando de mão em mão, por linha masculina [mas não varonil]. Chegou-me e depois de a viver dei-a, há uns dois anos, a um sobrinho que um dia a virá a passar a seu filho, presumo). Os meus pais também tinham escritórios, carregados de livros. E era o meu pai pessoa bem-educada, tal como o é a minha mãe. Mesmo assim tinham escritórios. Eu tenho-o - ainda que os livros estejam também noutras divisões da casa (no corredor, na sala de refeições, burguesmente dita "de jantar" - a gente já não pode almoçar em casa -, nos quartos e até, para minha vergonha, na cave).

Ou seja, é normal que um tipo que tem que aparecer na tv emitindo a partir de casa o faça desde o seu local doméstico de trabalho. No qual tem livros, já que é um burguês e - sendo opinador - presumivelmente trabalhador intelectual. Sei que muitos de vós usam os telefones na sanita [já agora é "sanita" que se diz e não "retraite", ó seus bimbos armados em finórios]. Mas, de facto, o mais normal é que quem tem que falar em público desde casa não o faça sentado na sanita. Nem em locais com usos estritamente domésticos (ex. o tanque de lavar roupa). Ainda para mais quando, muito provavelmente, lá estão os outros membros da família.

É óbvio que há excepções. Temáticas. Ontem passei pelo canal 11, da bola. E nele estava um friso de 6 comentadores em simultâneo, a falarem (sei-lá-do-quê). Todos tinham as traseiras lisas, nem um livro à mostra. Acredito que os tenham em casa, a alguns exemplares. Mas para aquele público - os compatriotas mais morcões que assistem a painéis futeboleiros - parece mal mostrar livros, descredibiliza os locutores. Não sei se os "meus queridos amigos" me estão a seguir no silogismo ... são os que comungam sensibilidade e gosto com estes espectadores da bola, os tais compatriotas mais morcões, que agora andam a gozar com os literatos que falam na tv.

Enfim: não há qualquer razão para gozar com os tipos que têm livros e que falam desde casa para a tv com as estantes atrás. Repito, é normal tê-los (até eu os tenho), e é normal que se fale para fora numa pequena sala com as paredes algo cobertas de livros.

O que os meus queridos amigos poderiam analisar, e até gozar, é o que esses comentadeiros dizem. E, se tiverem paciência para tal, especularem sobre as agendas, pessoais e colectivas, que transportam no perorar. Muito mais à frente, talvez apenas em era pós-covidiana, poderiam até questionar este tipo de fazer informação televisiva, sem reportagens substantivas e com uma série infinda de charlas inócuas e/ou interesseiras.

Entretanto, e porque confinado, eu vou gozando com os tais morcões. Os que julgam que têm piadola.

Já acabaram com as teorias estapafúrdias?

João Pedro Pimenta, 12.03.20

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Já que anda tudo a lançar a sua opinião sobre o coronavírus nas redes sociais (uns, inconscientes ou engraçadinhos, como se isto se tratasse com bagaço, outros quase apocalípticos, a dizer que "há 15 dias que devia estar tudo fechado", ou seja, quando não havia casos em Portugal) e a divulgar as últimas informações que ouviram, podíamos começar a mudar alguns hábitos, e não falo só de higiene (mas também: a quantidade de pessoas que não lava as mãos quando deve é atroz). As teorias da conspiração, por exemplo.

Espero que aquelas pessoas que andaram com aquela conversa de que "isto é um plano da China para diminuir população" (travar a economia para morrerem escassos milhares de pessoas? Será isso, o brilhante plano?) ou então que "isto é um vírus inventado nos laboratórios para as famacêuticas ganharem milhões com a vacina" (então porque é que ainda não a começaram a vender num mercado como o chinês, quando os números decrescem a olhos vistos e o pânico se instala no Ocidente?) tenham um pouco mais de juízo quando começam com os seus "cá para mim". Isso aplica-se também a "comunicadores", como aquela célebre apresentadora que afirmava há poucas semanas que o vírus só infectava os chineses. E mais ainda a chefes de estado de países de grande população, com o incumbente de Vera Cruz, que acha que o coronavírus é fantasia propagada pela "mídia".

Infelizmente as teorias e os boatos existem desde que o mundo é mundo. Mas como agora as redes sociais as divulgam muito mais facilmente, pedia-se um bocadinho de contenção, e se possível, de juizinho, que bem vai ser preciso.

No mundo das novas censuras

Pedro Correia, 14.11.19

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1. Censura de imagem. Fotografias de um vulgar e suculento cozido galego - muito semelhante ao nosso, mas com grão - foram banidas do Instagram, por decisão de um anónimo comité censório dessa rede social. Alegação: aquelas imagens de enchidos mesclados com vegetais «infringem as normas comunitárias» pois contêm suposta «violência gráfica e linguagem [visual] que estimula o assédio ou nudez e actividade sexual». Um galego de Vigo, que publicou estas imagens em homenagem ao «primeiro cozido da temporada» em casa da mãe, senhora de aparentes virtudes culinárias, não esconde a perplexidade, alegando ter-se limitado a fotografar os alimentos tal como estavam na travessa. Presume-se que a «violência gráfica» do chouriço e do repolho tenha ferido sensibilidades de alguns devotos das religiões vegetariana e vegana.

 

2. Censura de linguagem. A Air Canada anunciou que deixará de dirigir-se aos passageiros recorrendo ao anacrónico tratamento «senhoras e senhores»: evita assim ferir putativas susceptibilidades de género, designadamente das pessoas de sexualidade «não especificada». Passarão a ser designados, uns e outros, por «toda a gente» em obediência ao novo cânone da absoluta neutralidade de género. Falta saber por quanto tempo, pois esta expressão antropocêntrica promete por sua vez ferir as susceptibilidades de alguns animais.

Jornais e causas fracturantes não assumidas (e o mau exemplo do Público)

João Pedro Pimenta, 18.09.19

O consumo e a leitura de jornais tem caído imenso, como o Pedro Correia tem referido amiúde neste espaço, e não é só o modelo em papel. As redes sociais ocuparam grande parte do seu lugar e ameaçam a imprensa tradicional. É algo preocupante, porque a informação torna-se selectiva, superficial, quando não falsa, reduzindo-se a títulos ou a agit-prop, e mesmo que a imprensa não seja isenta, ao menos sabemos quem escreveu os artigos e quem responsabilizar. O problema é que os jornais também não fazem grande esforço para a sua credibilização e continuam a cavar a sua própria cova.

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Miguel Sousa Tavares escrevia há dias no Expresso, com mira afinada e não pela primeira vez, que o Público se tem tornado numa tribuna por excelência do politicamente correcto. E não é preciso procurar muito para provar até que ponto isso é verdade. O diário fundado por Vicente Jorge Silva, que tão bons trabalhos já proporcionou aos seus leitores, estafa-se em colocar artigos parciais sobre as novas questões fracturantes. O suplemento semanal Y e demais páginas culturais passam o tempo a apresentar os novos valores feministas, trans, negros, etc, vindos em grande parte do Brasil, e "que estão a mudar a face da música", mas quando se quer ver a crítica a um filme acabado de chegar, ou, como procurei em vão, a um festival pop-rock como o de Vilar de Mouros, é o vazio total.

Nos últimos tempos é a defesa da "diversidade de género" que o jornal da SONAE tem empreendido, qual Duarte de Almeida a defender o pendão real em Toro. No dito Y, no dia 30 de Agosto, logo na segunda página, vemos um dos guardiões mais encarniçados destas questões, António Guerreiro, a falar da ideologia "atávica e obscurantista" que condena a ideologia de género (que curiosamente não considera uma ideologia, colocando-a entre aspas). De resto, os inúmeros artigos publicados no jornal sobre o assunto falam sempre dos seus opositores com um tom de mal disfarçado desprezo e dão apenas a palavra à parte contrária, normalmente os prestimosos especialistas em diversidade de género, uma disciplina que parece que tem boas saídas de emprego, além de artigos de opinião semanais de representantes do Observatório de Justiça, do professor Boaventura Sousa Santos, como uma investigadora de seu nome Ana Cristina Santos, que neste exemplo cabal acusa Ricardo Araújo Pereira de "ridicularizar a inclusão social na linguagem", de "defender o pendor autoritário do senso comum", porque "se há pessoas que se sentem excluídas pelo uso do universal masculino... considerandos estéticos deixam de ter cabimento". Ou como alguém, se se sentir incomodada com a língua, esse mero "considerando estético", pode exigir a sua mudança. A autora até ajuda e dá como exemplo o "tod@s" ou "tdxs" como linguagem inclusiva. Ou seja, a "inclusão" não é mais que um uma novilíngua infantil que desvirtua algo que devia ser superiormente protegido, mas que para alguns não passa de "considerandos estéticos". Já se sabe, nada de ideologia.

Nas últimas semanas tem sido um sem fim de artigos que referi em cima. Podia ser uma discussão proveitosa se se colocassem dois pensamentos e dois grupos de argumentos e confronto, mas não. Neste outro artigo lá vem a costumeira reportagem com "os jovens do futuro", em que avulta um rapazinho que critica os professores «que partem do princípio que os alunos são todos homens "cis"», e que "as associações de estudantes deviam representar as lutas sociais dos estudantes negros, comunidade LGBT ou questões feministas... sem qualquer tipo de preconceito ou conservadorismo". O jovem é identificado como militante do Bloco, coisa bastante crível dado o tipo de linguagem e de causas. Mas é pena que o jornal, uma vez que lhe dá voz, não lhe pergunte se as associações não deviam defender todos os estudantes, e não apenas as minorias que o BE estabelece (que podem nem existir em tantas escolas), ou se não percebe a contradição de, achando que não deve haver "conservadorismo", como se não pudesse haver estudantes conservadores, isso ser um preconceito da sua parte.

Por fim, mais uma peça apresentada quase como um estudo, mas mais uma vez apenas com uma parte, sobre a questão "há ou não ideologia de género", a que o jornal generosamente responde que não, recorrendo de novo a uma parte da barricada, que acusa todos os que acham que se trata realmente de uma ideologia de serem "uma sombra... que ameaça direitos das pessoas LGBTI, saúde sexual e reprodutiva das mulheres e estudos de género". Nada de novo, excepto talvez uma maior radicalização da linguagem. Mas aqui expõe-se tremendamente. É que o artigo online é só para assinantes, mas na versão em papel pode-se ler, mesmo no fim, que "as despesas da viagem foram pagas pela ILGA-Europa. 

Sim, isto é um problema. Ao aceitar ser custeado por uma organização que tem todo o interesse que o jornal escreva aquilo só com a "sua" versão, o Público prostitui-se declaradamente. Não está a apresentar um artigo de discussão, ainda que pendendo mais para um lado, mas a sua verdade com a patrocínio de uma entidade externa longe de ser neutra.

Assumir posições políticas inequívocas é não só aceitável como desejável. Os leitores sabem ao que vão. Em Portugal, como é sabido, a maioria dos jornais não assume qualquer posição política, à excepção dos jornais partidários, como o Avante!, ou de uma ou outra publicação, como o extinto Independente. Mesmo o Observador, claramente à direita, é muito ambíguo no seu estatuto editorial. O Público sempre pendeu para uma esquerda moderada. Porque estará tão freneticamente empenhado agora em questões tão ostensivamente fracturantes? Vontade de agradar a um certo público? Seja o que for, só contribui para que se diga que tem uma agenda política mal disfarçada, porque aparentemente tem mesmo - e como é sabido, o termo "agenda" hoje em dia é entendido de forma pejorativa, como uma conspiração maléfica.

Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Os jornais ou se assumem ou então que deixem de ser tão explicitamente implícitos, sobretudo em questões que não são pacíficas. E é por coisas como estas, como diria Manuel Alegre, que aparecem os Bolsonaros. Prontos a apoucar a imprensa e a espalhar sem filtro tudo o que lhes sirva nas redes (as)sociais fora.

Deus ex Google

Maria Dulce Fernandes, 21.08.19

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As pessoas são chatas e convencidas. Nasceram assim ou fizeram-se deste modo, nesta sociedade do audiovisual e das redes sociais?
Em mais uma das minhas fases anuais de morcego, descobri um novo tipo de animal humano, que prima pela omnisciência que adquire tipo mousse Alsa: basta juntar água.

Refiro-me ao Homogooglens, o tudólogo do Google.

O nível de conhecimento que o Google confere a estas pessoas, que proliferam como mosquitos ao redor da luz que emana da partícula de Deus que carregam permanentemente consigo como se do fogo primordial se tratasse, é excepcional, elevadíssimo e sempre correcto.

Como pode um comum mortal de provecta idade competir com um homogooglens de brilhante telefone na mão, a debitar impropérios acerca da incompetência das pessoas que não cumprem o que está escarrapachado no Google com todas as letras, mapas e imagens?

Isto merece uma crítica negativa no Facebook, no Instagram ou no Twitter.

Tal inépcia mimoseia-nos com entrada directa para a candidatura a desqualificado de primeiro grau, pela incapacidade de ler e fazer cumprir o que diz o Google ali, logo na primeira página, após uma pesquisa que devolve mais de cinco mil entradas.

Tentar explicar ao homogooglens que em Montain View os Senhores não gerem as páginas particulares de cada um, limitam-se a ser um motor de busca no geral, por sinal bastante competente, mas cujas actualizações deixam bastante a desejar, não é tarefa fácil, é tarefa impossível. É que está ali, ALI, na sua mão, vê? Vejo, mas está errado. Provecta, estúpida e iletrada, que nem ler sabe...

Imprimo um printscreen da página oficial e mostro-o ao homogooglens... papel e tinta para deitar para o lixo, claro... isso é de onde? Não está no Google! Está, se procurar e não se ficar pela fachada...

Já experimentou googlar o seu nome? Então faça-o e veja quantos são e qual deles é o Senhor.


Deixo-os no vício, entretidos a descobrir-se na internet e ao êxtase que lhes proporciona o imenso saber que lhes oferece.
Está quase na hora de sair para o escuro e tentar encontrar no silêncio da noite a absolvição para os meus pecados, que devem ser muitos e copiosos, porque ninguém merece tão insensata expiação.

Um assunto de porteiras

Pedro Correia, 16.07.19

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A reprodução descarada e obsessiva da lógica das redes sociais pelos órgãos de informação está a contribuir para o descrédito acentuado do jornalismo que vai restando.

Há dezenas de jornalistas, em quase todas as redacções, que nada mais fazem durante dias inteiros senão escrutinar o que se cochicha e bichana nas redes, acabando por dissociar-se por completo do mundo concreto e do país real. Nas suas prédicas em papel ou no digital, recorrem aos temas e à semântica que pupulam nessas «vias alternativas à informação», como há já quem lhes chame no meio jornalístico, disparando assim contra o próprio pé.

 

Reparem no que acontece naquilo a que ainda é costume chamar «canais de notícias» na televisão. Num curioso fenómeno de mimetismo, generalizou-se o modelo CMTV, absorvido inicialmente pela TVI 24 e agora já vampirizado também pela SIC Notícias: fecham três ou quatro mecos num estúdio durante horas a discutir coisa nenhuma sobre a bola que agora nem rola nos relvados e assim supõem cumprir a missão jornalística.

Mas não cumprem: essas tertúlias de bitaiteiros são meras correntes transmissoras de boatos e rumores. Basta comparar as imagens que reproduzo acima: foram propaladas com escassas horas de intervalo no mesmo canal - a primeira às 18.17, a segunda às 22.32. Sujeitas a esta lógica editorial mais que duvidosa: primeiro imprime-se a lenda, depois (se não chover) imprime-se o facto. Assim duplica-se a audiência (o que não parece ser o caso, longe disso, no canal em causa, a avaliar pelos mais recentes números tornados públicos).

 

Isto já se pratica hoje sem sofisticação nenhuma, como é patente no exemplo que deixo aqui em baixo. Talvez farto de publicar notícias, essa coisa anacrónica e maçadora, um jornal de difusão nacional acaba de instituir uma secção intitulada "Negócios e Rumores". Como se fosse um assunto de porteiras em vez de jornalistas, sem desprimor para as porteiras.

Assim ao menos não ilude ninguém: o leitor, à partida, já sabe que irá mesmo ser enganado. 

 

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Macro, micro

Pedro Correia, 13.03.19

As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. Alguém sopra uma coisa via telemóvel, o sopro salta para o twitter ou o facebook -- e é quanto basta para se assemelhar a ignição de fogo pronta a incendiar a pradaria mas que afinal se limita a chamuscar uns canteiros. Mal as chamas irrompem num determinado local, logo outro foco se propaga noutro sítio com o mesmo grau de aparente intensidade do anterior e com a mesma duração média, que raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso.

E assim sucessivamente. Tudo macro indignado. Até à micro indignação seguinte.