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Penso rápido (90)

por Pedro Correia, em 21.05.18

Os novos censores usam as "redes sociais" como pelourinhos. E já há governos tornados censores usando as "redes sociais" como alibi.
Esses que andam a levantar os novos pelourinhos ainda não perceberam a perversidade da coisa. Alguns acabarão também pendurados neles. Novos Dantons, novos Robespierres: a criatura acabará por ganhar autonomia, virando-se contra os criadores. Seguindo o exemplo da guilhotina, sua feroz mana mais velha.

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Interessa é participar

por Marta Spínola, em 25.03.18

Hoje li o seguinte tweet:

 

Twitter 2011: twittava "aula de física mo chato" rolava duas curtida um RT e alguém comenta "é mesmo" Twitter 2018: twitta "aula de física é mó chato" 5k de curtida 2k de RT nos comentários todos brigam sobre a importância da física, te xingam e falam q vc votou no PT

 

Sou utilizadora diária do twitter desde 2009 e confirmo o que ali está. Claro que se trata de um tweet brasileiro, mas o essencial está lá, e aplica-se globalmente: antes lia-se e percebia-se comentando ou não. Agora lê-se e dá-se uma lição. Tento manter-me à margem desta tendência, mas é geral, as redes estão sufocantes com moralismos e filosofia de pacotilha. E como esta não é uma questão de agora, fiz uma busca pelos meus posts no Delito e encontrei este, sobre como nos comentários em geral as pessoas apontam muito rapidamente o dedo, sem pensar muito, importa é participar (da pior maneira possível). 

Tenho pena que o twitter também esteja agora a sofrer com isso. E não, digo já a quem nunca o usou muito, não era assim, a tendência era a inversa. Ali podíamos rir de subtilezas e coceguinhas no cérebro, quem percebia percebia e dava um RT ou interagia, complementava, alimentava uma espiral saudável de boas piadas, quem não percebia passava à frente e ria para a próxima. A timeline seguia o seu curso e pelo meio divertia-me muito. Ainda me divirto, ainda me rio, mas já faço um esforço por procurar o conteúdo e antes não era preciso.

O pior continua a ser o Facebook parece-me (e caixas de comentários de jornais), e nem é preciso procurar. Às vezes vejo o Jogo do Tanso, da Cátia Domingues para crer. É possível que o missing link esteja entre os visados. 

Tenho a convicção de que a saturação com o comentário maldoso vai chegar e teremos o reverso nas redes em geral, ou pelo menos o sossego nas redes. Pode ser só wishful thinking. 

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A inveja nas redes sociais?

por jpt, em 14.02.18

reforma-protestante.jpg

 (Martin Luther afixando um postal no "site" da capela de Wittenberg, 31.10.1517, sem indicação de hora)

 

Olho o pensamento da semana no DO, colocado pelo João André. Não podia discordar mais. Este meu postal não é ad hominem  pois o que me conduz é que esta ideia, este fastio pelas "redes sociais", pelas poses atitudinais que elas potenciarão, é recorrente. Essa sensação de que são elas (nas quais se devem integrar os já vetustos blogs) um rizomático "Grande Irmão" alienante. E sobrealimentado pela perfídia invejosa, essa grande e tortuosa arma do controlo social, do aquiescimento do destino, próprio e colectivo.

 

Intelectualmente este fastio parece-me muito discutível. Nestes tempos de pós-marxismo isto é o avatar possível da velha grande teoria revolucionária. Deslustrada que está a ideia de que "a luta de classes é o motor da história" ficamos com esta simples, e simplista, sequela de que, afinal, "a inveja é o motor da história", pois é ela que nos conduz representações  e práticas. Mas este mal-estar, na sua bruma desconfiada, é eclético, no pior sentido deste termo, o de infértil. Pois advém também da degenerescência da concepção liberal, travestindo a procura do interesse individual  (como "motor da história", se me permito a usurpação) em mera inveja actuante. Esta infértil amálgama não passa assim de uma confusa noção, radicalmente conflitual, da vida social, derivada de um mero psicologismo (o primado da tal malfadada "inveja"), quantas vezes carnavalizado de um "culturalismo", este já de si tão pobre, como no tão habitual "os portugueses são ...".

 

O certo é que nem sequer representa o real. Na pequena parcela desse real a que tenho acesso os factos são outros. As páginas necrológicas passaram para as redes sociais ("morreu o meu marido", "morreu a minha mãe", "o funeral do nosso pai será amanhã"), tal como as notícias das doenças ("a minha irmã está hospitalizada e a recuperar", "obrigado ao estimável pessoal médico do hospital ...", "tenho que deixar de beber álcool") ou as efemérides dolorosas ("faz cinco anos que morreu o meu amor", "meu pai faria hoje 9... anos"), as rupturas de relações amorosas, etc. (os exemplos são todos de postais de facebook que vi nos últimos dias). Partilham-se pensamentos alheios e próprios. Imagens, orações, música, eventos da  vida colectiva, vicinal ou nacional, e individual, poemas, citações, notícias, memórias. Posições políticas, protestos desabridos, proto-ensaios, piadas, brejeiras umas outras nem tanto. Interessantes ou não, consoante o receptor. Ou seja, utilizam-se estes meios tecnológicos actuais para comunicar, para difundir "o que nos vai na alma". Tal como Luther o fez em Wittenberg. De facto, nem todos somos Luther mas todos temos uma "alma" na qual se passa algo. E muitos querem-no mostrar - indivíduos que todos são (somos) diante desse "Deus" que são os outros, com Ele (eles) contactar, "comungar" directamente, sem mediação, e nisso muito de Luther ressurge. Sendo certo que as pessoas, as tais "almas", assim estrategizam, sobre a imagem própria, quanto aos objectivos dos relacionamentos. Mas, e é isso que tanto me afasta destas visões conspiratórias adversas às "redes sociais", e tão cegas quanto ao que conduz a acção social, essas estratégias não são um defeito (uma imoralidade, uma malandrice). São uma característica, o que não macula, por si só, os actos.  

 

Há nisto uma encenação? Sim, na medida em que nos representamos. Acabo de reler, 30 anos depois, "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, um livro de que nada gostara. Ao contrário de agora (apesar daquilo do excedente idealizador da amada, mas enfim, será feitio meu ..). Coloco-o, como faço às minhas leituras não profissionais, na minha conta da goodreads, um belo clube de livro, "rede social" onde se trocam indicações de leitura e opiniões sobre o lido. Andamos ali a armar-nos em grandes leitores, a invejar as bibliotecas alheias? Ou a "conversar" sobre livros, aprendendo? Como ando com pouco tempo não meti a capa nem a foto do escritor na minha conta da pinterest, uma "rede social" óptima para coleccionadores de cromos, como eu o fui. Andamos ali a invejar-nos, a encenar-nos cultos e sensíveis? Ou a fruir imagens que nos agradam? Já agora, e porque tenho estado muito fechado em casa, raras são as vezes que vou ao cinema mas vou vendo filmes na tv, nas noites de insónia. Coloco-os na "rede social" IMDb, que disponibiliza informação vasta sobre os filmes, vistos ou desejados, e nos deixa opinar ("votar", criticar). É encenação, eu qual cinéfilo? Promovo inveja?

 

Não se trata apenas de mim, não me tomo pelo todo, são milhões de pessoas a fazer estas "maluquices". Inúteis, porventura? Se assim é, ainda bem, apartando-nos do "utilitarismo" básico, de pacotilha, que brota de tantos locutores silvestres. Estaremos a propagandear, melífluos, o nosso "sucesso" de consumidores, invejável aos outros? Afirmando um "capital cultural" mais relevante, procurando a "distinção", o estatuto social? Será isso mesmo?  Não haverá mesmo nada de prosaico na vida social? Não haverá espaço para "conversar" com outros sobre o que se vê e o que se pode ver? Neste rossio actual, neste átrio de igreja d'hoje, que as disponibilidades actuais tão mais alargam? E sem estarmos obrigados a ouvir apenas a prédica do cura local ou a dos "mestres do pensamento", "os senhores doutores" da aldeola, e nós de chapéu na mão ou de cálice na taberna, escutando-os? É assim tamanho o pecado de apenas ... irmos andando como se que por nós próprios?

 

Há alguns anos criei uma conta na "rede social" academia.edu, onde meto os textos mais "académicos" (alguns não o são, mas isso é outra conversa). Esta rede é um filão, pois congrega imensa gente, imensos textos. Dando acesso ao que não tínhamos nem conhecíamos. Divulgam-se textos próprios (provocando a tal "inveja"? procurando o tal "sucesso"?) e alheios (convocando, estrategicamente, a reciprocidade?). Certo, há quem critique este "acesso aberto", quem denuncie o "grande capital" a pilhar o trabalho intelectual. Mas isso é outra temática. O que interessa neste âmbito é perceber se o que move os milhões de participantes nesta rede de cariz profissional é a procura do "sucesso" por esta via? Se são movidos pela "inveja"? Somos assim tão  básicos? Ou se, pelo menos também, ali interagem, interagimos, comungando saberes, articulando fontes. Estrategicamente, claro. 

 

Há uma encenação nisto tudo? Em parte trata-se da forma como as pessoas recebem o que vem de outrem. Lembro sempre este ápice: durante anos bloguei em Moçambique, quando os blogs eram  mesmo uma "rede social" - a "blogosfera" dizia-se, com seminários, encontros organizados, jantares. E, mais do que tudo, "links" entre blogs e entre textos, críticas e debates, uma verdeira "esfera", cheia de amores e desamores, clubes e partidos. Enfim, "amizades", como na "rede" paradigmática de agora. Nesse meu blog meti crónicas de viagens feitas naquele país. Achava-lhes piada, até as imaginei em livro mas acabei por as juntar numa "rede social" (este "Ao Balcão da Cantina"). Mas antes disso, blogara eu uma dessas andanças e nessa noite recebi um simpaticíssimo comentário de uma leitora: "você deve ter uma vida extraordinária". Não pude deixar de me rir. Não é que me queixe da vida - "filha", dizia eu há uns anos à minha, após a morte de um querido amigo, "se me der o badagaio", "ó pai, não digas isso, cala-te", "nada, ouve, se me der o badagaio, lembra-te que a morte aos 50 já não é precoce. E que tenho levado uma bela vida, já fiz muito mais do que imaginara" ("o que não quer dizer que não queira cá ficar mais uns tempos") - mas aquele comentário apanhou-me a preparar aulas noite fora, a reler pdfs de fotocópias de Bachofen e McLennan, uns evolucionistas oitocentistas, leituras muito interessantes para quem estuda história da antropologia. Mas não exactamente "uma vida extraordinária". Ou seja, muito depende das formas como aquilo que nós, "redistas sociais", colocamos é apreendido e assim reconstruído. E não tanto a nossa volúpia egocentrada e vaidosona.

 

Diz Vergílio Ferreira, e por isto é que fui buscar o "Cântico Final", falando do tempo que nos passa ao longo da biografia: "viver era agora quase só durar". E a verdadeira encenação é negar esta clarividente verdade. Nós duramos, porque temos e/ou queremos. Para durarmos não precisaremos de fugir totalmente ao real nem de uma completa amnésia. Mas não o conseguiremos se ficarmos monopolizados pelas dores e insucessos, próprios e alheios. E nem só desses podemos recolher ensinamentos para o viver, para este durar. Temos que gostar de algo, manifestá-lo ou, pelo menos, aparentá-lo, um algo muleta da travessia. Dele falar a nós próprios. Demonstrá-lo quando em conversa com outrem. Por isso mostro os meus cães e gatos (que não tenho), a minha querida filha (raríssimas vezes), festas familiares (não sendo eu grande filho nem magnífico parente), uma ou outra comezaina se mais pitoresca (e sou frugal à mesa, menos atento à faca e garfo do que ao copo, é certo), a minha ida a Alvalade (e nem sequer tenho SportTV), etc. Duro. Resisto.

 

Exemplifico melhor neste assim. Estou em Bruxelas, vim ver a minha filha. Fomos ver a exposição "Magritte, Broodthaers & Contemporary Art". Pensei em fazer um postal sobre isso. E também sobre o Anima, o festival de cinema de animação de Bruxelas, no qual descubro ser o realizador José Miguel Ribeiro um dos jurados. Pensei também meter um postal no És a Nossa Fé, sobre o Sá Pinto que treina com sucesso o Standard de Liége. Talvez umas fotos, de prédios ou detalhes no meu mural de facebook, tudo isso a ecoar, como sempre, na minha conta do twitter. Enceno-me cosmopolita (ainda que, enfim, hoje em dia vir a Bruxelas não seja exactamente um "must")? Publicito um qualquer especial "capital cultural", com estes devaneios de consumo artístico? Anuncio um qualquer sucesso, existencial, familiar, económico? Tudo de molde a incentivar a inveja alheia, o mero "respeito" que seja? Entretanto, há quinze dias o colectivo DO juntou-se em jantar. Eu estava tão "tchonado" (o calão moçambicano para "teso") que me foi necessário conter-me e faltar. Mas não me passa, nem passou, pela cabeça fazer um postal sobre isso. Sendo certo que esse episódio é muito mais relevante sobre mim do que o Sá Pinto em Liége ou um detalhe do Horta bruxelense. Mas estamos, estou, cá para durar. E a comunicação, as partilhas, são sobre como duramos. Não exige a vasculha do íntimo, o intimismo auto-punitivo. Pois aprendemos, tomamos consciência, com as dores e maleitas, próprias e alheias, mas enfrentadas com filtros. Caso contrário afogar-nos-emos no caldeirão dessas dores

 

E o mais importante é que não são as dores e as maleitas que nos congregam ou alimentam. Numa rede social, real, dita (excepto pelos tolos hiper-liberais) sociedade. A qual não vive só do conflito, invejoso ainda para mais, como alguns quiseram crer, como estes "neo-commies" querem ressuscitar. Mas muito disto de nos apreciarmos. Com as nossas coisas. Apesar das nossas "coisas". Deixemo-nos pois de "coisas". E ombreemos. Estrategicamente, é certo. E com aquilo, também, da inveja. Que faz parte. E, tantas vezes, tão útil e produtiva é. Para fazer a "rede".

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Frases de 2018 (10)

por Pedro Correia, em 09.02.18

«Desamiguem o Facebook.»

Jim Carrey, na sua conta do Twitter (6 de Fevereiro)

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Por razões que são fáceis de entender não aprovei a publicação de comentários jocosos ou ofensivos, em especial de comentadores anónimos, relativos a um post interior com este titulo.

Desde o início da minha colaboração com o Delito de Opinião tenho libertado todo o género de comentários, dos mais elogiosos aos mais ofensivos. Hoje decidi que acaba a democracia disfarçada no anonimato e, no caso específico do comentador ou comentadora que me enviou uma mensagem com ameaça implícita, tratando-me por "minha menina", chamando-me à atenção para o meu futuro, agradeço que tenha em conta que eu sou o tipo de pessoa que guarda estas coisas e vai à Polícia Judiciária sem qualquer problema.

Aos restantes, peço desculpa por este post. Sempre considerei o debate essencial. As redes sociais ao abrigo do anonimato não são exercícios de liberdade e de argumentação, são apenas cobardia.

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Penso rápido (86)

por Pedro Correia, em 07.12.17

Não gosto de ver termos que estiveram ligados a um passado de ignomínia transpostos para a linguagem comum nas redes sociais. Termos como genocídio, holocausto, nazi, colaboracionista, "solução final": tudo isto se vulgariza, no debate político actual, como quem diz que amanhã estará de chuva. Tais rótulos vão-se banalizando ao ponto de perderem por completo o significado e a sua precisão histórica. E tornando-nos cada vez mais imunes à sua verdadeira acepção, como símbolo concreto do horror absoluto.

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O que me ficou do jantar no Panteão

por João Pedro Pimenta, em 16.11.17

É claro que fazer jantares no Panteão é patético e de gosto duvidoso. É evidente que fait divers destes dão cada vez mais azo a oportunismos polí­ticos, sejam do Governo ou da oposição (a última pérola neste sentido é de Gabriela Canavilhas, uma das mais notórias yes women do PS). E é cristalino que é deste tipo de coisas que se alimentam as sempre insaciáveis redes sociais, sendo que esta polémica partiu precisamente de um blogue - o de Seixas da Costa.

 

Mas duas coisas me ficaram: uma delas é, como escreveu o Rodrigo Adão da Fonseca, que os nossos governantes e os nossos organismos públicos reagem crescentemente sob a pressão das tais "redes sociais" e respectivos estados de humor, sobretudo quando estão "indignadas", o que nos leva a uma caótica e degenerada noção de "democracia directa"; a outra é que se os tais web summiters, ou lá como lhes chamam, não perceberam minimamente onde estavam, é porque a sua visão somente apontada à tecnologia, a um certo tipo de empreendedorismo, e ao culto da "informalidade" faz tábua rasa de qualquer conceito de sacralidade e de respeito pelo passado e pela memória. Ou seja, um caldo de economicismo e de modernidade a todo o custo baseados na tecnologia, que recorda os "progressistas" do século XIX, que não hesitavam em derrubar os traços medievais existentes, como castelos, palácios ou igrejas (e o nosso país bem sofreu com isso), para construir as suas particulares visões de futuro e de "civilização". Bem vistas as coisas, não admira que as suas reuniões se tenham vindo a fazer em Portugal.

 

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Lápis azul é coisa de meninos

por Pedro Correia, em 05.09.17

«As redes sociais denunciaram um caderno de exercícios da Porto Editora em que as meninas são tratadas de maneira diferente dos meninos, nas cores, no imaginário e no grau de dificuldade. As redes sociais são uma espécie de amplificador de som que ninguém ousa contrariar. Nem sequer - ficámos agora a saber - o Governo, que não hesitou em abrir o mais grave precedente de que há memória no pós 25 de Abril de 1974 da censura. Em pouco mais de 24 horas, sem comparação e sem reflexão aprofundada, nem tão pouco debate, recomendou a retirada dos cadernos do mercado editorial. Como se a questão da liberdade de género se resolvesse com o regresso ao lápis azul. Eis a política da preguiça.»

Helena Teixeira da Silva, no Jornal de Notícias (27 de Agosto)

 

«Uma editora publicou um bloco de actividades em duas versões, um para meninos e outro para meninas. Foi também fortemente criticada nas redes sociais - que é um tabefe de que ninguém está livre - e a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género com um piquinho de azul no lápis, que é coisa própria de meninos, recomendou a retirada dos livros do mercado por terem estereótipos de género. A patrulha da igualdade do governo devia saber que censurar é pior do que colocar à venda versões distintas da mesma coisa.»

Fernanda Cachão, no Correio da Manhã (29 de Agosto)

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Jornalixo científico e reflexos sociais

por João André, em 05.09.17

Há uns tempos surgiu um artigo no Independent que andou a dar a volta por Facebook e alguns blogs. O artigo do Independent, que tinha por título "Atheists are less open-minded than religious people, study claims" citava o estudo de um investigador da Université Catholique de Louvain onde este apresentava os resultados da análise das posições de pessoas religiosas e não religiosas a afirmações que analisavam a sua abertura de espírito.

 

O primeiro aspecto que na altura me incomodou foi a forma como os comentários ao partilhar a notícia do Independent (ou subsequentes) pareceram incidir apenas sobre o título da notícia, dando como adquirido que os ateus são simplesmente menos tolerantes que pessoas religiosas, assim, sem quaisquer outras considerações. As pessoas religiosas apresentaram a notícia como prova que são mais tolerantes e as não religiosas atacaram o estudo sem notar mais do que o facto de sair de uma universidade católica, como se a origem fosse automaticamente desqualificadora de rigor.

 

Em qualquer dos casos é pena. Primeiro porque o título da notícia equipara pessoas "não crentes" a "ateus" (algo que o título do artigo também faz). Depois porque qualquer conclusão retirada do artigo do independent é abusiva, dado que o artigo em si é curto, pouco informativo sobre o estudo e não apresenta as devidas ressalvas que qualquer estudo científico de qualidade deve apresentar.

 

A mais importante destas é o facto de o artigo salientar que é um estudo preliminar e que a amostra é pequena (por exemplo: os prticipantes que se declararam como ateus ou agnósticos constituíam 60% da amostra - dificilmente corresponde à realidade de qualquer sociedade moderna, por muito secular que seja. Por outro lado, os resultados indicaram que em certos indicadores, os não crentes demonstravam menos abertura de espírito a outros conceitos e noutros demonstravam mais. Ou seja, comportavam-se tal e qual os crentes: nalguns aspectos são mais dogmáticos e noutros menos. Aquilo que o artigo terá trazido de forma mais clara é precisamente o facto que os não crentes não são sempre mais tolerantes. Isto deveria ser óbvio, mas é também para isso (para provar ou contrariar a sabedoria "popular") que a ciência existe. [outras leituras sobre o artigo/notícia].

 

O que o artigo do Independent demonstra novamente em relação aos jornais é como estes estão mal equipados para tratar os assuntos científicos. Não os compreendem, lêem o essencial, fazem meia dúzia de perguntas de algibeira aos autores (quando fazem) e escrevem as conclusões mais sensacionalistas de que forem capazes. Aquilo que a disseminação do artigo vem provar, por outro lado, é que os consumidores destas "notícias" por via das redes sociais aceitam a primeira linha do cabeçalho do post, não lêem o que têm em frente, não compreendem o que lêem se o fizerem e que quando criticam o fazem através do preconceito mais à mão (neste caso: "os ateus são obviamente intolerantes" ou "tinha que ser de uma universidade católica").

 

No fundo, isto não passa do mesmo ciclo que refere o Pedro. Jornalixo, apenas aplicado à Ciência.

 

[Pequena nota: refiro o nome francês da universidade porque há duas universidades belgas que seriam traduzidas da mesma forma, a referida acima e a Katholieke Universiteit Leuven. No passado eram uma e a mesma universidade e apenas se separaram por idiomas em 1968. Penso que ainda existem sinergias entre elas, especialmente no que diz respeito a bibliotecas, administração e algumas iniciativas, mas para todos os efeitos são universidades diferentes]

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Do jornalismo ao jornalixo

por Pedro Correia, em 31.08.17

As chamadas "redes sociais" são hoje a maior rede de amplificação de mentiras no quotidiano português. Qualquer aldrabice ali posta a circular ganha eco imediato, com opiniões definitivas cavadas em trincheiras, sem ninguém cuidar da verdade dos factos.

Nos últimos dias isto ficou bem evidente na absurda polémica dos caderninhos de apontamentos pré-escolares com capas a azul e cor-de-rosa, com centenas de pessoas a pronunciar-se sobre algo que nunca tinham visto nem faziam a menor ideia do que era. Bastaram uns bitaites no Twitter para logo a bola de neve engrossar. Da "rede social" a estória saltou para todos os media e destes para um obscuro organismo oficial pomposamente designado Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, e daqui para o gabinete do ministro adjunto do primeiro-ministro, que fez um inédito apelo público à retirada desses cadernos do mercado - onde se encontravam, sem qualquer polémica, desde Julho de 2016!

 

Tudo isto em apenas 24 horas e sem que se estabelecesse uma versão contraditória: estava em curso um linchamento colectivo e ululante, passatempo favorito das "redes". Ninguém fez caso do que disse  Susana Baptista, responsável pelas publicações infanto-juvenis da Porto Editora, ninguém ouviu a autora, Catarina Águas - licenciada em Educação de Infância na Escola Superior de Educação de Lisboa -, ou as ilustradoras dos tais cadernos, Ana Valente e Rita Duque. Todas do "genero" feminino, todas profissionais respeitáveis, todas ignoradas. Como se estivesse em causa uma empresa de vão de escada e não a maior editora portuguesa, com uma reputação alicerçada em sete décadas nos domínios da pedagogia e da didáctica.

Foi preciso um humorista - neste caso Ricardo Araújo Pereira - repor a verdade dos factos para a polémica se esvaziar quase tão depressa como tinha começado. Sem carteira profissional de jornalista, ele fez o que qualquer bom jornalista deveria ter feito: apurar o que realmente se passava, sem emprenhar de ouvido.

Este episódio envergonha os jornalistas portugueses. E ajuda a explicar por que motivo todos os títulos da imprensa continuam a cair a pique, como demonstram os calamitosos números referentes ao primeiro semestre de 2017 agora divulgados pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação.

 

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Anteontem, embora com menos destaque, aconteceu uma história semelhante, também iniciada nas redes sociais. Sobre os supostos maus-tratos dados a um galo numa remota aldeia do concelho de Seia: o bicho, garantiam os arautos da pós-verdade refastelados nos seus sofás lisboetas sem nunca terem posto os pés na referida povoação, seria morto à paulada, com requintes de sadismo. Com a ave "agonizando lentamente fruto da malvadez".

Foi quanto bastou para que o PAN salivasse de indignação. A coisa meteu comunicado oficial do partido animalista, denúncias ao Ministério Público e à Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária. De imediato os órgãos de informação reproduziram tudo isto - uma vez mais, sem apurarem os factos, como mandaria a deontologia profissional.

Parecia um filme de terror. Com o ligeiro problema de ser mentira. Como a Câmara Municipal de Seia, presidida pelo socialista Carlos Filipe Camelo, se encarregou de esclarecer, desfazendo o boato. Entretanto, lamentavelmente, apenas o Jornal de Notícias tinha cumprido o dever jornalístico, estabelecendo o contraditório ao ouvir as pessoas daquela aldeia que desmentiram a atoarda sem rodeios numa peça escrita pela jornalista Madalena Ferreira (infelizmente não disponível em versão digital no momento em que escrevo estas linhas).

 

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Acontece que as redes estão-se nas tintas para a verdade. Essa "turba inorgânica", como bem lhe chama Francisco Mendes da Silva, quer indignar-se o tempo todo contra não importa o quê. Tal como os viciados em drogas duras, os junkies das caixas de comentários dos jornais - os mesmos que espalham qualquer atoarda no Twitter e no Facebook - fazem prova de vida berrando por escrito sobre assuntos acerca dos quais nada percebem, nada querem perceber e têm raiva a quem perceba.

Isto explica que as putativas agressões ao tal galo só existente na delirante imaginação do PAN tenham dado azo à habitual javardice histérica, com dezenas de pessoas disparando contra um alvo afinal inexistente.

 

Uma vez sem exemplo, aqui transcrevo algumas dessas opiniões, colhidas ao longo de 24 horas na caixa de comentários da edição electrónica do JN, para se avaliar bem o nível intelectual desta gente:

«Haja vergonha! Haja respeito por seres que sentem como nós!»

«Quais são as origens dessa barbaridade? Religião ou vudu?»

«Voltamos à idade da pedra mas da pior forma. É que nessa época matava-se para comer, agora mata-se por diversão.»

«É uma tradição de merda e já devia ter acabado.»

«Outra tradição para atrasados mentais... já não basta os doentes de Barrancos...»

«Que façam tradição com os seus familiares. Não têm que o fazer a seres inofensivos que estão ali por obrigação.»

«E que tal serem eles e a sua "tradição de caca" a levarem paulada?»

«Estes divertimentos de merda à custa do sofrimento dos animais pôem-me doente. Que tal substituir o galo pela besta (humana) lá da aldeia?»

«Sugiro para as pessoas que são a favor deste tipo de tradições seguirem a minha nova tradição: amarrar um de vocês e bater-lhes com um barrote até morrerem.»

«Podem substituir o galo pelo António Costa?»

 

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No meio deste vendaval de imbecilidades, uma  leitora ainda tentou repor a verdade: «Se há uma coisa que abomino é a falta de profissionalismo jornalístico e a política suja que se pratica no nosso pais. Para aqueles que gostam de opinar sem o devido conhecimento, informo que morte do galo é na verdade a morte do ovo: não andam à palauda ao galo mas ao ovo .»

Como era de calcular, ninguém fez caso: os "factos alternativos" são muito mais sedutores do que a verdade nua e crua.

Assim vamos andando: dispara-se primeiro e reflecte-se depois. Com o genuíno jornalismo praticamente em vias de extinção, entretanto absorvido pelas "redes". Cada vez mais travestido de jornalixo: vociferante, acéfalo, populista, irresponsável e mentiroso.

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A semente totalitária

por Pedro Correia, em 30.03.17

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Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria - e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.

Muitos apregoam os direitos humanos, havendo-os para todos os gostos e feitios, reais ou imaginários - e não falta até quem queira estendê-los aos animais e aos vegetais. Mas quanto mais se fala, menos se faz: alguns direitos fundamentais vão sendo comprimidos sem surpresa ou escândalo de ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, hoje ameaçados de modo quase irreversível numa sociedade que elege o narcisismo exibicionista acima de tudo o resto.

O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas "redes sociais" funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público.

 

Um misto de apatia, hedonismo e alheamento cívico caracteriza muito do comportamento dominante no mundo ocidental. E ajuda a explicar esta permanente sensação de crise larvar, que ultrapassa em larga escala o plano económico. É uma crise de valores, que o fundamentalismo islâmico procura colmatar à sua maneira apelando ao instinto gregário e aos códigos tribais em decomposição nas chamadas sociedades "evoluídas".

Isto tem uma capacidade de sedução que ultrapassa largamente o círculo de convertidos, seduzindo novas hordas de fanáticos em potência desprovidos de valores alternativos.

 

Quem não perceber isto nada percebe de essencial.

Como há-de o Estado - mesmo o Estado democrático - respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Como se a semente totalitária não estivesse já no meio de nós.

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Nem-Nem

por Diogo Noivo, em 28.02.17

As redes sociais aproximam as pessoas de uma forma inovadora e surpreendente. Além de encurtarem distâncias e de superarem barreiras culturais, as redes sociais ligam indivíduos que, de outra forma, jamais coexistiriam sob um mesmo tecto. Por vezes, a ligação oferecida pela experiência em plataformas como o Twitter ou o Facebook é de tal forma intensa que, mais do que ligar pessoas, opera ligações dentro delas. Nomeadamente ligando-lhes o cérebro ao duodeno.
Estou consciente que a afirmação anterior é tudo menos consensual pois, argumentarão alguns, a ligação directa da massa encefálica ao tracto gastrointestinal é muitas vezes uma condição pré-existente que as redes sociais apenas potenciam. Seja como for, as consequências são palpáveis – e lamentáveis. Nas redes sociais, a reacção antecede com frequência a compreensão. Legiões imolam-se em retórica inconsequente sem perceberem bem porquê. Como escreveu Miguel Tamen, nunca o intervalo entre espasmos e prosa foi tão curto.
Alguns jornais aproveitam-se do estado de catatonia funcional dos nativos digitais, não para trazer alguma elevação à arena, mas sim para tirar partido da idiotia. O método mais habitual designa-se clickbait, em tradução livre «engodo para clicks», e visa captar clicks e visualizações, dois elementos essenciais para definir o preço da publicidade – e, assim, as receitas do jornal. Em regra, o clickbait assume duas formas. Primeiro, e sabendo que os conteúdos partilhados nas redes sociais raras vezes são abertos, os jornais recorrem a parangonas que agitam curiosidades. Por exemplo, uma notícia titulada “O novo amor de António Costa” uma vez aberta dá conta ao leitor que o Primeiro-Ministro descobriu a sua paixão por sushi ou pela chanfana.
A segunda expressão de clickbait, especialmente desonesta, recorre a títulos que instigam indignações fáceis. Mais do que teorizar sobre esta segunda abordagem, proponho que olhemos para uma ‘notícia’ publicada há dias pelo jornal i. Lê-se no título que “Jovens que não estudam nem trabalham vão receber 700€ mensais de subsídios estatais”. Logo, todos os jovens que não trabalham nem estudam vão receber 700€ do Estado. Avançamos para o lead e confirmamos o título. Por outro lado, a fotografia que ilustra a ‘notícia’, e que é todo um tratado sobre mensagens subliminares, mostra jovens ociosos que aparentam ter uma vida folgada, ficando portanto implícito que vivem à conta de terceiros. Isto é, à primeira, à segunda e à terceira vistas tudo indica que o Estado vai sustentar todos os jovens portugueses que não trabalham nem estudam. Como seria de esperar, a notícia provocou revolta ardente e generalizada nas redes sociais.
Contudo, lendo o texto na íntegra, ou socorrendo-nos de notícias a sério sobre o mesmo tema, como esta do Observador, percebemos que se trata de um programa de apoio ao empreendedorismo de jovens que não trabalham nem estudam – habitualmente designados em Portugal como jovens “nem-nem”. Para aceder ao programa, estes jovens têm de cumprir um conjunto de requisitos, como ter concluído o ensino obrigatório, têm de se candidatar, têm de apresentar os seus projectos, têm de ser seleccionados, e só então poderão aceder aos apoios disponíveis. Importa referir ainda que o programa tem 315 vagas, um número inferior aos cerca de 300 mil jovens portugueses que estão sem trabalho e que não estudam. Em suma, a realidade dos factos é substancialmente diferente daquilo que nos é sugerido pelo jornal i.
Tudo contado e somado, percebemos que o texto publicado pelo i espelha, porventura por simpatia, o tandem sobre o qual versa: nem é um trabalho respeitável nem mostra estudo deontológico.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 03.02.17

«As redes sociais transmitem a imagem de um povo constantemente furioso, absurdamente furioso. A massa é de tal forma caótica, disforme e precipitada nos julgamentos que se neste momento o poder passasse para as redes sociais não havia poder. É um pouco como o nosso mundo: um mundo que demonizou o poder. Tudo isso não é saudável para a esfera pública. As redes sociais são uma espécie de "Queda da Bastilha" do nosso tempo. Aquele "povo" é um povo propagandeado e indignado. Tudo em pé de igualdade, a dizer qualquer coisa. Mas é óbvio que as coisas que se dizem não têm todas o mesmo valor.»

Pedro Lomba, no Jornal Económico

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Num pronto

por José Navarro de Andrade, em 06.01.17

A excitação social da semana é uma incrível briga entre púberes almadenses. Sempre alerta, as repugnadas consciências cívicas já debatem com ardor e profundidade se é de exigir justiça drástica e célere ou se há que culpar a sociedade por inteiro ou em parte. Todavia a zaragata deu-se no princípio de Novembro – porquê só agora se engasgam as vozes de comoção? Porque só agora foi posto clip nas “redes sociais”. Pavlovianamente, quando as “redes sociais” espigam as orelhas é quando a “comunicação social” dá ao rabo. Depois é só espiralar por aí acima. Assim se fabrica, fermenta e se fornece a informação e a opinião em pt. Entretanto a polícia não dorme e garantiu que as “diligências necessárias” tramitam resolutamente por todas as instâncias adequadas. Caramba, só passaram 2 meses.

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As redes sociais contra o jornalismo.

por Luís Menezes Leitão, em 14.11.16

É uma verdade absoluta que a campanha de Trump demonstrou o poder das redes sociais contra o jornalismo tradicional. Enquanto os media tradicionais barraram completamente Trump, ridicularizando e tornando-o anedótico, e só falando do avanço triunfal de Hillary Clinton, Trump utilizou as redes sociais para fazer passar a sua mensagem, como demonstra o vídeo aqui exibido. E essa mensagem foi clara: vamos recuperar o nosso país de novo, que foi tomado por uma elite criminosa, de que os Clinton são o maior exemplo. A mensagem não passa de um arremedo da teoria da conspiração, mas o facto de ser ignorada pelos media e pela sua adversária só facilitou a vitória de Trump. A primeira regra na política é a de que não se pode subestimar os adversários. E, ao contrário do que julgava Emídio Rangel, hoje as televisões já não vendem Presidentes como quem vende sabonetes. As redes sociais deixaram campo livre para que as mensagens se espalhem independentemente de qual o seu conteúdo e, como se viu, uma mensagem eficiente e bem difundida pode ser o caminho aberto para a vitória.

 

Claro que é sempre possível reagir a isso, dizendo que Trump ganhou com o apoio de ignorantes, incultos, mal-formados, e gente deplorável. É bem capaz de ser verdade, mas essa é a regra da democracia. Quem não quer que o povo inculto vote, a única coisa que pode fazer é propor o regresso aos tempos anteriores à revolução francesa, em que a nobreza e o clero tudo decidiam de forma culta e esclarecida. Não é seguramente uma solução praticável. Compreender os anseios do povo e saber lidar com eles parece muito mais adequado. E para isso os jornalistas não podem ignorar o que se passa à sua volta.

 

 

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Impotência

por Ana Vidal, em 07.06.16

Mais um atentado hoje em Istambul.

 

Uma das maiores perversidades deste mundo da informação global imediata, dominado sobretudo pelas redes sociais, é fazer-nos sentir culpados e insensíveis quando não comentamos as grandes tragédias, como se as ignorássemos ou lhes fôssemos indiferentes. Mas, que palavra nossa manteria à tona um barco no Mediterrâneo, abarrotado de gente faminta e atraiçoada? Que indignação suspenderia o choque de impacientes placas tectónicas no Nepal ou no Chile? Que like deteria o sabre ou o cinto de explosivos de um fanático islâmico? Que post impediria a violação de uma criança na Nigéria? Que fotografia chocante, que poema, que música mudariam alguma coisa na vida e na morte destes eternos filhos de um deus menor? Perante o horror, quase sempre se me secam as palavras na garganta e as lágrimas nos olhos. Fica só um tumulto cá dentro, surdo, mudo, cego. Que não ajuda ninguém.

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Em flagrante dislate

por Pedro Correia, em 01.06.16

Vivemos submersos em diluviões de retórica suscitada pelos mais irrelevantes temas. Ontem, ao  que me dizem, o dia nas redes sociais foi preenchido por refregas verbais em torno das declarações de um popular cantor a um canal de televisão que ninguém ouve nem ninguém vê. Rasgaram-se as vestes e flagelaram-se as carnes a propósito de uma frase polémica da pessoa em causa como se tivesse sido proferida na véspera. Acontece que eram extraídas de uma entrevista de 2010. Os responsáveis do dito canal, em concorrência directa com a RTP Memória e conscientes de que bastam duas semanas bem preenchidas com política e futebol para dissolver lembranças colectivas, decidiram ressuscitar o morto – isto é, recuperar a entrevista de há seis anos e devolver-lhe honras de antena, fomentando a ilusão de que se tratava de matéria nova.

E tudo aconteceu como se assim fosse. Alguém por engano espreitou aquilo e lembrou-se de incendiar as redes com afrontamentos de indignação. Logo as labaredas varreram essa pradaria que a todo o momento perverte o nobre adjectivo “social”, sem ninguém se interrogar sequer se havia justificação para envolver palavras velhas com erupções de fúria nova.

O resultado não tardou: muitos daqueles que em Janeiro de 2015 se apressaram a pôr a mão no peito dizendo que eram “Charlie” estiveram agora na primeira linha do apedrejamento em rede ao tal cantor, esquecendo as efémeras juras de fidelidade eterna à liberdade de expressão formuladas há menos de ano e meio também em coro afinadinho. Na linha daquele sindicalista que, confrontado há dias pela primeira vez com uma farpa análoga às saraivadas de palavras que costuma disparar contra terceiros, ergueu o dedo virginal em riste mandando anunciar que iria recorrer aos tribunais para reparar o orgulho ferido.

A este, que também andou armado em "Charlie", recomendo a leitura de um estimulante artigo de Francisco Teixeira da Mota sobre a amplitude do direito à crítica nas democracias liberais. Aos outros, que apelam ao linchamento reputacional de figuras públicas apanhadas em flagrante dislate, limito-me a sugerir que apliquem a estas questões a banalíssima regra dos iogurtes: reparar na data antes de consumir. Evitando palrar primeiro e só pensar depois.

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Pela não vulgarização das reticências

por Marta Spínola, em 26.05.16

Li ali, não interessa onde (foi no Facebook, pronto), uma pessoa defender o seu discurso pontuado exclusivamente por reticências com o argumento "é.. Para fazer... Pausas... Na conversa..."

Vamos lá a ver uma coisa: a gramática prevê pausas, chamam-se vírgulas e pontos finais. As reticências, para quem sabe ler, deixam uma ideia no ar, ou arrastam o discurso. Que ideia é esta de que são pausas? Se... Eu... Escrever um post... Assim... Isto não irrita ler?

De repente, há esta convicção de que pontuar tudo e um par de botas com três pontinhos está certo. Conta os três pontos de exclamação já, e bem, indignação. E este abuso das reticências? Ridículo, no mínimo.

Eu assumo que nem sempre ponho uma vírgula no lugar certo, se calhar faço parágrafos que podiam estar num só, mas... Esta... Coisa... Aborrecida... Das reticências... A... Fazer... Uma frase... Não, tenham paciência, mas as reticências eu sei bem quando usar.

As reticências são maravilhosas para a ironia e o sarcasmo, por exemplo. São óptimas para um flirtzinho ou uma picardia. Não as banalizem, se faz favor.

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Concorrência

por Ana Vidal, em 19.05.16

As redes sociais inventaram um novo desporto de massas: a indignação inconsequente. O futebol que se cuide, em adrenalina e número de adeptos devem estar taco-a-taco.

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Para que conste

por Pedro Correia, em 02.03.16

Dizem-me que há clamores enfurecidos de boicote à obra e mensagens de ódio em diversos matizes descarregadas contra o autor nas impropriamente chamadas "redes sociais". A turba dos indignados volta a atacar: em vez do debate de ideias, prefere o aconchegado silêncio dos "consensos". E atemoriza uns quantos timoratos, sempre prontos a amochar perante quem berra mais alto.

Lá estarei portanto, a partir das 18.30 de terça-feira, na Bertrand das Picoas, para assistir ao lançamento do livro do Henrique Raposo.

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Vivemos tempos - sinto que já posso usar expressões como "vivemos tempos", depois dos 35 anos dei comigo a dizer coisas assim - em que muito se aponta o dedo e pouco se sugere. Sempre se fez isto, com as redes sociais só ficou mais evidente. Eu frequento mais o twitter que o Facebook, mas é neste segundo que vejo mais vezes acontecer. Bom, agora que penso nisso no twitter também haverá comportamentos semelhantes... mas a timeline desce, desaparece e a coisa passa, não se presta tanto ao forum e ao ódio em escalada. 

Alguém toma uma iniciativa, e logo vem o dedo em riste "eu já vi isso, isso já foi feito na Islândia, assim não vale". Um jornal, uma empresa, alguém copiam assumidamente uma ideia porque acharam boa, e logo alguém se insurge "ah, não não. Isso era muito giro, mas imitado já não, lamento".

Diariamente tropeço em inquisidores de sofá. Imagino-os muito aborrecidos, entre um candy crush e um like, a destilar os seus ódiozinhos e irritações. Talvez seja terapêutico, não sei. E são assim no humor, nas séries, na vida: "Isso já foi feito, eu vi muito primeiro, não contem comigo para gostar". Acho cansativo e redutor, mas que sei eu. 

E sugerem alternativas, têm ideias, perguntam-me. Não, têm zero. Se eles estão aborrecidos temos de o estar todos. Toma lá que já te apontei o dedo, perdi tempo num comentário azedo, e arrumei-te. 

Se querem sobressair podem apenas fazer um comentário com uma referência inteligente "ah muito giro, tinha visto *inserir pessoa/local/plataforma/marca* e achei boa ideia também", boa? Eu não sou nada de andar sempre com o discurso "na vida é preciso sorrir", mas claramente precisamos. De sorrir e usar mais português. Também acho que passa muito pelo não se saber escrever mais que o vulgarzinho de Lineu (também posso usar esta).

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Ética pública 2.0

por João André, em 26.01.15

Este post do Rui lembrou-me uma outra questão que surgiu há uns tempos em Inglaterra. Um jogador de futebol fora condenado a prisão por violação e, após ser libertado condicionalmente, o antigo clube considerou recontratá-lo. Ora, Jessica Ennis, cujo nome adorna uma das bancadas do estádio, avisou que exigiria que o seu nome fosse retirado caso Ched Evans (assim se chama o futebolista) voltasse ao clube. O resultado é que recebeu uma avalanche de insultos e ameaças no twitter. Quando os trolls foram por seu turno condenados - e é aqui que queria chegar - defenderam-se com a "liberdade de expressão".

 

O caso que o Rui invoca é semelhante. Na idade das redes sociais, o insulto e a ameaça - mesmo que vazia - pode ser feito de forma anónima (ou quase), directa e pública. As leis dos vários países contemplam a possibilidade de condenação por injúria, mas a fronteira entre esta e a liberdade de expressão é relativamente ténue (e daí os muitos casos de processos contra jornais). Se quando os media estão envolvidos no assunto há sempre especialistas em liberdade de expressão presentes (juristas, os próprios jornalistas, editores, etc), já no caso das redes sociais isto não é o caso.

 

Infelizmente, apesar de termos presente o conceito básico que desconhecimento de uma lei não pode ser apresentado como defesa, a verdade é que não há uma educação real dos jovens em relação ao que significa liberdade de expressão, liberdade de imprensa, direito à privacidade, direito à honra, etc. A maior parte dos jovens entendem a liberdade de expressão como a liberdade de dizer aquilo que bem lhes apetecer e nem sequer entendem a diferença entre as liberdades de expressão e de imprensa (nem a forma como a imprensa tem certos direitos e deveres naquilo que reporta).

 

Neste mundo digitalizado, 2.0 se quisermos, falta a educação que não o torne num wild west. Não falo necessariamente de regulamentos, esses já existem ao nível civil, mas talvez de uma discussão que permita a sua adequação ao mundo em que vivemos hoje. Não precisamos de alguém que ande a correr a net em busca de trolls, mas se eu quiser atacar alguém, necessito de saber (eu e o meu alvo) quais os limites para o meu ataque. E o meu alvo necessita também de saber quais os mecanismos de defesa à sua disposição.

 

É normal que as revoluções tecnológicas apanhem a sociedade desprevenida. Sempre assim foi e sempre assim será. O necessário é fazer avançar o debate para que esta possa alcançar a tecnologia.

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A sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia sobre o direito ao esquecimento reabre a polémica entre as exigências da liberdade de expressão que se contrapõem ao direito ou necessidade de proteger a vida privada.

 

Os grandes inventos que mudaram o curso da História, os costumes de milhões de pessoas, o modo de vivermos, comunicarmos ou divertirmo-nos passaram pela fase experimental, pela exploração comercial e, por fim, pela regulação jurídica. Quando apenas circulavam uns pouco automóveis pelas cidades não havia semáforos. A norma acaba por criar-se e impor-se para proteger os direitos e deveres de todos.

 

Como compaginar a transparência e o direito ao esquecimento num meio tão complexo e mutável como a internet? Como se traça a linha entre o que é informação, opinião e demais formas de livre expressão, e o que se esconde no anonimato, na mentira, em comentários que incitam ao ódio ou à violência ou se comprazem com actos lastimáveis?

 

Algum tipo de regulação global deverá estabelecer-se para nos protegermos da mentira ou dos rumores que adquirem categoria de notícia verídica. Escrevo neste blogue e tenho conta nas redes sociais mais importantes, e entendo que haja pessoas que me critiquem e inclusive me insultem. É um preço a pagar, admito-o. Mas parece-me de uma escassa ou nula legitimidade cívica e democrática que se falseiem intencionalmente os factos, que se minta, que se difame a partir do anonimato quem não partilha os mesmos critérios sobre qualquer questão opinável. A infâmia não deve andar à solta.

 

As redes sociais estão aí para ficar e as suas vantagens são infinitamente superiores aos seus inconvenientes. Mas o que não se pratica na vida civil ou pública tão-pouco deveria permitir-se no fórum mundial que é a internet. Pode escrever-se qualquer coisa desde qualquer ponto do planeta. Mas a palavra não é inócua. Tem consequências. E, portanto, deveria também comportar responsabilidade. Não entender isto não é ser libertário, é ser perigosamente pueril; não é ser pela expressão livre, é ser pela barbárie.

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Frases de 2014 (9)

por Pedro Correia, em 03.05.14

«As redes sociais têm um lado perverso: por detrás do anonimato as pessoas sentem-se no direito de vilipendiar as outras, de proferir insultos gratuitos, deitar abaixo.»

João Tordo

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Isto não vai demorar nada. Jonet revisitada

por Marta Spínola, em 02.04.14

Há muitas vezes um silêncio quando alguém diz mal do facebook ou outra rede social. Se calhar por não acharmos fundamental defender, cada um está onde quer estar, quem não quer ter nenhuma não tem e vivemos bem assim. 

Mas depois há estes momentos em que acho o silêncio injusto. Cada um fará o que entender com o facebook, e se for só ter jogos pois seja. Eu uso para tudo e mais um par de botas.
Ao ler hoje (eu sei, ainda leio, para quê? Não sei, é o meu acidente na estrada, para esses não olho, olho para isto) as declarações de Isabel Jonet sobre os desempregados e as redes sociais, não consigo não dizer nada. Porque mais uma vez se generaliza sem, imagino eu, saber. 
Num resumo, direi apenas: 
  • em ano e meio desempregada, os trabalhos e contactos que maior efeito surtiram nesse sentido surgiram através do facebook. 
  • antes de estar desempregada também foi por ali que fui contactada para os melhores trabalhos que já fiz.
  • neste ano e meio tomei conta de dois bebés, cujos pais são meus amigos de infância e não teria reencontrado se não fosse pelo Facebook 
Eu sou uma pessoa tímida, quem me lê no facebook ou me segue no twitter não o diz. Mas mesmo que não o fosse, há coisas que escrevemos mais facilmente do que surgem numa conversa falada (ou numa entrevista de trabalho, já que estamos nesse âmbito). E chegam a mais pessoas numa rede social, e ainda bem, não tenho dúvidas que foi assim que muitas pessoas me foram conhecendo um pouco melhor, e elogios e cumprimentos ao que digo e penso - mesmo que sejam delírios, tolices, o que me dá na real gana, nunca escrevo nada muito profundo, garanto - só puderam existir porque me leram, porque eu estava no facebook/twitter/blogosfera. Se isso um dia me dará novo emprego? Não sei, mas não me distrai certamente de o continuar a procurar.
 
Para terminar, e não quero confundir pessoa e Instituição, para a qual contribuo, muito menos o trabalho dos voluntários que nada têm que ver com isto, a verdade é que precisando mais depressa pedia um ovo no facebook que ao Banco Alimentar. E sei que o receberia. 
(também publicado ali)

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Boas maneiras

por Teresa Ribeiro, em 27.02.14

"Ignorar é a forma mais elegante de maldade" - postou ela no Facebook

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Pergunta para queijo:

por João Campos, em 24.02.14

Que qualificações ou pensamentos habilitam alguém como Marinho Pinto a falar na televisão sobre redes sociais?

 

 

(certo: é o "Prós e Contras"; já se sabe que o nível dos convidados não costuma, passe o eufemismo, ser elevado. Mas ainda assim)

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Os meus problemas com o Facebook

por Teresa Ribeiro, em 17.02.14

Aquilo que faz sentido comentar com os amigos do liceu, não faz sentido comentar com os meus colegas de trabalho. O que faz sentido comentar com os meus colegas de trabalho, não interessa às minhas primas. O que interessa às minhas primas pode não interessar aos meus parceiros de blogue. O que os meus parceiros de blogue gostam de discutir pode não ser assunto para os meus colegas de curso.

Podem argumentar: ah mas para comunicações mais personalizadas pode mandar-se mensagem. Só que para esse efeito, digo eu, tenho o meu email.

Uma solução para este imbróglio comunicacional é procurar um denominador comum entre os vários grupos de "amigos" e só comentar o que possa interessar a todos, como as notícias que circulam no momento e trivialidades do dia-a-dia, ou seja, conversa de café. Só que esse é o tipo de conversa que para ser completa precisa de gestos e inflexões de voz. O LOL não me estimula e o like é um assentimento que pode ter múltiplas leituras. A falta que fazem as inflexões de voz quando se trocam piadas e a prosa corre sanguínea ou ligeira, conforme os humores...

Ná! Por escrito, uma conversa de café não é a mesma coisa.

Há quem diga que se serve do Facebook só para questões de trabalho. Mas nesse caso não faz mais sentido usar as redes de profissionais?

 

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Sumol de lata

por Rui Rocha, em 11.01.13

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Macro, micro

por Pedro Correia, em 09.02.12

As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. Alguém sopra uma coisa via telemóvel, o sopro salta para o twitter ou o facebook -- e é quanto basta para se assemelhar a ignição de fogo pronta a incendiar a pradaria mas que afinal se limita a chamuscar uns canteiros. Mal as chamas irrompem num determinado local, logo outro foco se propaga noutro sítio com o mesmo grau de aparente intensidade do anterior e com a mesma duração média, que raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso.

E assim sucessivamente. Tudo macro indignado. Até à micro indignação seguinte.

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Psst

por Paulo Gorjão, em 29.12.10

Vejo-me obrigado a interromper a minha licença sabática. Mas então neste blogue ninguém fala do caso Ensitel? Twitter, Facebook, Blogues, até os snail media já estão em cima do assunto e nós por aqui, nada?

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