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Delito de Opinião

As malvadas redes sociais

jpt, 31.10.25
 

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Vivemos sob um superavit de informação, um “potlatch” (um ritual esbanjo histriónico) de imagens que nos veda a compreensão, muitos nos afiançam. Este não é um argumento novo. Por exemplo, no já vetusto 1999, João de Almeida Santos encetou o seu interessante “Breviário Político-Filosófico” com um “De tanto ver e ouvir, corremos o risco da cegueira e da surdez”. E esta alienação, de que parecemos ser passivos objectos, acresce-se nas malfadadas “redes sociais”, indignificadoras de argumentos e seus locutores. Isso nos asseguram vultos proeminentes - que normalmente se julgam algo “gauchistes” -, como o publicista José Pacheco Pereira e o jornalista Miguel Sousa Tavares - que as quer proibir, sem que alguém apode de fascista quem é pago para dizer tais coisas.

Esta ideia da indignidade das “redes sociais” - decalcada do repúdio jornalístico pelos blogs, naqueles 2003/4 - vai grassando. Não só mas também por reacção corporativa, entre os avalizados para a “palavra pública” e entre os funcionários públicos, estes ancorados na sua percepção de exercerem uma “tutela” sobre nós-povo, enlameados que estamos pelos pântanos insalubres das tais “redes”.

Anteontem telefonou-me um jornalista, a propósito de dois textos (maldispostos) que escrevi há um ano (num desprezível blog...). E disse-me que o responsável da instituição alvo do meu resmungo lhe respondera “não comento declarações em redes sociais”. Terá toda a razão o referido responsável (aliás, em termos gerais a sua resposta fora muito curial). Eu retorqui ao jornalista: “pois, mas depois de ter escrito o texto desafiaram-me a escrever para um jornal” - e se o tivesse feito já seria agora “comentável”. “Sabe porque não o fiz?”, aduzi.... “porque não me pagariam para isso”. Vi-lhe o sorriso, do lado de lá do telefone. “Para que é que vou escrever para um jornal, se não me pagam?”, coisa pouca que fosse, o gasto mensal da água, por exemplo... Posso-o fazer por algo que alcandore a “causa” minha - a atenção sobre a situação moçambicana, e já o fiz. Ou a abjecta malvadez das candidaturas PS à junta de freguesia dos Olivais, e não o fiz. Mas as meras opiniões? A meter-me em cuidados de as enformar, com detalhes e rodapés, para publicar gratuitamente em jornais? Para quê? Para o prestígio (aos 60 anos)? Por narcisismo (para este basta-me o blog)? Para almejar ser comentado por um funcionário público?

Mas este desprezo pela palavra pública não é apenas corporativo. Pois este mescla-se com o ideológico. Há dias ouvi a prelecção de um fotógrafo espanhol - que ali apresentava boas fotografias de guerra na Síria, justiça lhe seja feita. Invectivou as redes sociais, alienantes, claro. Os milhões de imagens que afogam a nossa Razão e a nossa Sensibilidade. Tudo para sublinhar que a “nossa” sociedade (depreendi que acima de tudo a europeia, pois democrática liberal - pois este é discurso típico da extrema-esquerda -, mas isso ele não especificou, deixando no ar que se tratava de um diagnóstico universalizante) está doente como nunca e nisso desatenta aos conflitos - e mais do que depreendi que se referia à situação de Gaza. E muito decerto que devido às invectivadas “redes sociais”.

No final da veemente arenga seguiu-se o habitual período de “perguntas”. Com (espero) notória simpatia não lhe referi que sendo ele da minha idade, pois isso aparentava, ambos tínhamos chegado a adultos quando a América Central e do Sul vivia sob tais ditaduras que até Pinochet seria algo “manso” diante dos Stroessner, Videla, Somoza e quejandos. Que em África havia guerras violentíssimas e ditaduras execráveis (os Live Aid acorriam a fomes que tinha tantas causas políticas como ecológicas, pelo menos, o apartheid jugulava a África do Sul - e a Namíbia). Que na Ásia o pós-maoísmo era pouco “pós”, Pol Pot ainda guerrilhava e muito, a Indonésia era Indonésia, e por aí afora. E que metade da Europa era brejnevista ou pior. Nada disso lhe disse porque tal lhe prejudicaria o argumento escatológico - isto de vivermos um quase fim do mundo devido ao atrevimento das gentes comunicarem entre si. (E ao capitalismo, claro).

Disse-lhe apenas que escrevo em redes sociais. E que há conflitos e situações sobre as quais aqui no país nenhum “encartado” fala. Ou falam pouco. Referi a guerrilha no Cabo Delgado em Moçambique - sobre a qual em Portugal houve enorme silêncio, que agora de novo vigora. E do qual recebi e recebo ainda inúmeras notícias e desgraçadas fotografias e filmes - emanadas do “jornalismo digital” (amador) e da “cidadania digital”, esses que ele e seus apaniguados tanto denigrem. Como não falam do Sudão - e apontei o exemplo do excelente recente artigo de Anne Applebaum, que ela publicou em “The Atlantic” mas também no seu blog (hélas!) na Substack. E que mesmo tendo ela vindo agora ao festival literário de Óbidos ninguém pegou no assunto. E aludi à situação em Madagáscar, aqui silenciada.

O “nosso irmão” nem me respondeu. Atentou noutras breves perguntas e apenas en passant (qual as velhas carnavalescas bisnagas vira-bicos) deixou cair um arreigado “apenas um jornalista tem a capacidade para escrever um texto analítico e sintético sobre uma situação”. Eu, antropólogo, sorri num “para mais tarde recordar”. Ainda para mais porque o homem estava ladeado por um fotógrafo do “Público” - esse jornal “de referência” no qual durante décadas li patéticos dislates sobre Moçambique, desde o tráfico de orgãos levados de Nacala para Maputo por caminho-de-ferro, passando pelo generalizado “pânico em Maputo” devido a raptos, até Venâncio Mondlane filho de Eduardo Chivambo Mondlane, e por um enorme aí afora de disparates encartados e ... convictos.

Vem tudo isto a propósito de uma memória. Há uns anos fui à Feira do Livro de Bruxelas. Numa banca havia uma sessão de autógrafos de vários autores, que eu desconhecia. Folheei livros. Deparei-me com uma delícia, verdadeira peróla para meu gosto, e comentei (em português) para o meu lado do meu agrado. À minha frente estava um autor que, sorridente ao perceber todo aquele meu encanto expresso em língua que lhe era estranha, me disse “o autor é aquele”. Lá fui, pedir o autógrafo... Tratava-se do “Back to Al Bak”, um regresso à cidade natal do malgaxe Dwa, um talentoso aguarelista que faz banda desenhada. Belíssima.

Desde então que o sigo nas “redes sociais”. À recente convulsão em Madagáscar acompanhei-a aqui, na sua página do Facebook, através das suas magníficas ilustrações. Não nos “periódicos”, mudos sobre aquela gigantesca ilha. Mas em Dwa…

Há muita tralha na internet? Há - acima de tudo quem adoece não deve ir ao Doutor Google. Mas deixemo-nos de exageros, a “cidadania digital” é agora fundamental.

E, mais do que tudo, se puderem comprem os livros de Dwa. São uma delícia.

(Também colocado no meu blog "O Pimentel")

A fossa séptica social

João André, 30.08.24

Não tenho Twitter, Instagram ou Tiktok. Tenho Facebook mas com audiência altamente limitada e quase e só para manter contactos com amigos. Menos que 100 ligações (e algumas porque mo pedem com mais frequência que aquela que tenho paciência para recusar).

Tenho LinkedIn para assuntos profissionais e tento escrever o mínimo possível, até porque se tem vindo a tornar um novo Facebook. Fora isso só escrevo aqui, embora frequentemente pense em criar novo espaço para a minha escrita.

Sou assim porque a internet, e especialmente as redes sociais, se têm tornado uma fossa séptica de opiniões. Quando antigamente a comunicação era mais pessoal, a maior parte das pessoas demonstravam respeito uma para com as outras ou pelas opiniões, ou mantinham uma distância saudável em relação aos que não o faziam. A internet veio mudar isto. O anonimato, ou pelo menos a falta de contacto pessoal, tem feito com que o respeito por outros e opiniões se tenha reduzido. É quase universal e eu, por muito que o tente evitar, não sou alheio a isso.

No entanto isto custa-me muito. Comentários negativos não me custam, mas trolls com comentários parvos sim. O meu post abaixo (que entretanto decidi limpar) é um exemplo que até quase parece positivo. Se calhar o problema é meu. Certamente que o é. Por isso decidi acabar com isto de chafurdar na lama.

De ora e diante, os meus posts, poucos e raros que sejam, serão apontados a assuntos pouco controversos. Se abordar algum aspecto mais complicado (como fiz antes), ou deixarei os comentários fechados ou completamente abertos sem moderação. Deixarei de olhar para eles e deixarei de comentar. A minha saúde mental não mo permite. Quem quiser chafurdar, a caixa está abaixo. Eu abri a porta, mas não esperem que eu olhe para a fossa.

O Determismo Reducionista

jpt, 07.07.24

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Através das "redes sociais" (pérfido instrumentos de alienação, como adiante se verá) dois amigos enviam-me declarações de teor político emanadas agora por três romancistas. Um enviou-me o texto no "El País" com breve entrevista de Michel Houellebecq sobre as eleições francesas de hoje, na qual ele - enquanto, até distraidamente, deixa cair o seu sentido de voto avesso ao pacote lepenista - se declara "pessimista e resignado" e avança, ainda que num registo conversacional algo superficial, algumas causas sociológicas para a complexa deriva francesa.
 
Outra amiga, cruel, enviou-me o "Expresso", em óbvio convite para que eu lesse os artigos de Miguel Sousa Tavares e Clara Ferreira Alves, que há décadas acompanham os nichos de classe média leitora do semanário. São duas, longas (estes colunistas têm direito a página inteira), bojardas, ignaras, nisto até indignas. Pouco francesas, dir-se-ia se comparando com o exemplo anterior. Aquilo a que décadas atrás, quando se discutia o efeito do marxismo, se chamava "determinismo", "reducionismo economicista (tecnológico)". Os dois "fazedores de opiniões" dos licenciados lusos de meia-idade e seniores, abordam as eleições mundiais actuais, atribuindo a viragem "à direita" à perniciosa e malévola influência das redes sociais, à instrumentalização executada pelos seus magnatas. CFA centra-se no debate presidencial americano e vê o evidente colapso democrata como causado pelos tais magnatas - nem um caractere sobre as características do plutocrata sistema político americano, sobre a sua socioeconomia, sobre a degenerescência do partido democrata, sobre a sua incapacidade de gerar em XXI candidatos e ideários. Pois a "culpa" é das redes sociais.
 
MST insurge-se contra este generalizado "Triunfo dos ressabiados". Diante deste seu título logo me lembro de quando há uma década voltei ao país e encontrei esta constante utilização por parte dos socialistas e seus compagnons de route. Todos nós, que vozeávamos contra o miserável socratismo e a cáfila dos seus apoiantes, éramos ditos "ressentidos" e "ressabiados" - um antigo meu colega e, depois, chefe, teve até a descarada lata de cortar relações comigo, por razões "políticas", usando esses termos. Ou seja, todos os que nos opunhamos a este lamaçal antidesenvolvimentista sofreríamos de doenças de foro psicológico, por causas psicóticas (o "ressentimento") ou orgânicas (o "ressaibo"). Era - e essa escumalha socratista, estadodependente, nem o percebia - a tradução lusa, nos nossos propalados "brandos costumes", da velha prática soviética: os "dissidentes" eram doentes psíquicos e deviam ser internados em hospícios.
 
E MST vem agora preencher mais uma das suas páginas de "Expresso" com estes disparates, tão queridos dos tais leitores "classe-média". Aborda um feixe de eleições recentes (e manipula tanto que foge a referir as últimas eleições britânicas que não lhe dariam jeito ao ditirambo), funda os seus resultados no "algoritmo" das redes sociais, atribui a "viragem à direita" à ignorância dos povos, dos jovens e, claro, ... à ultrapassagem da mediação dos jornalistas. Ou seja, antes é que era bom, reinava a "iluminação" global.
 
Entretanto os imbecis, licenciados, continuam a comprar esta tralha "Expresso". E, pior, a ler estes "intelectuais" da treta. E consomem os produtos que publicitam no douto semanário.
 
E nós outros, "ressentidos" e "ressabiados", chafurdamos, orgásticos, sob o Algoritmo.

O Facebook

jpt, 24.10.22

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(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Há um bom par de anos que chamei a este facebook a "likeland", a terra onde partilhamos aprazíveis "gostares", uma verdadeira "utopia" de bem-estar moral. Não é um defeito, é uma saudável panaceia que nos intervala os males do mundo. Cada vez isso mais me é visível, pelo menos no nicho das interacções que o algoritmo anima entre as minhas milhares de ligações - os "amigos-FB" com os quais interajo, neste "comércio" mais ou menos frequente de "sorrisos", "anuências" e "saudações", os "likes" (e "comentários"), que (n)os vão fazendo verdadeiros vizinhos, pois nomes que se me vão tornando conhecidos mesmo que nos desconheçamos na vida real, essa incómoda "real land", tópica.
 
Mais percebo isso pois as nossas características, as desta minha "comunidade" de entreajuda moral, a dos envolvidos neste nosso (quase)diário "estamos juntos", que se quer avessa à solidão - mesmo que enfrente apenas o "sozinhismo" -, implica que me acolhem com ruído prazeroso e solidário, e assim basto "gostável", as novas e notas da minha vida: uns dizeres sobre o meu Sporting, ecos de uma patuscada entre amigos reais, um resmungo com a minha ciática que afinal também é gota mas esta, afinal e vá lá, é apenas um entorse, ainda que bastante incomodativo, um sucesso da minha (magnífica) filha, um livrito para o qual me consegui concentrar, uma memória do "meu" Moçambique, uma nota sobre um bom filme visto na TV ou sobre uma tasca que descobri, uma piada menos brejeira que recebi no Whatsapp. E algum, escasso, etc.
 
Já algo oposta é a reacção se me ponho a opinar, ou a ecoar opiniões alheias, sobre os "males do mundo", os da tal "real land". As quais vou percebendo como uma violação do protocolo que nos une aqui, neste espaço de suspensão das preocupações e querelas, essas que preenchem a vida e, também, os dizeres nas "rádio, tv, disco e cassete pirata" que nos inundam o quotidiano. Que colhem um silêncio que não será exactamente uma discordância comigo ou com a minha forma - pois para isso há o "desamigar", o neologismo daqui - mas muito mais um até mudo "ó amigo/vizinho Teixeira, deixe-se disso, quer falar de coisas sérias, incómodas? Guarde isso para os blogs, homem...". Ou, até, "para si...", num "já viu como está a sua vida? Estivesse estado você calado...!", que é coisa que não é raro dizerem-me os da "vida real".
 
Enfim, resta-me anuir a este nosso protocolo (numa concordância ao velho mandamento "se está mal mude-se"). Aceitar esta nossa prazerosa "likeland" tal qual ela é - ainda que consciente e convicto de que esta terra não é a Cocanha.
 
Mas ainda assim deixo, pois renitente, uma citação que Paulo Sousa colocou agora no Delito De Opinião, sobre esta nossa terra Portugal. Um excerto de um texto que não é de um furioso esquerdista nem de um paladino do professor Ventura, nem de um publicista da sempre pérfida "oposição". É de Ricardo Costa, director do tão institucional de alinhado "Expresso" e também irmão do nosso primeiro-ministro desde 2015. Deixo-a aqui, à transcrição, sabendo que poucos "gostarão" dela. E que, pior ainda, poucos nela atentarão. Pois afronta o sossego identitário de tantos dos "vizinhos":
 

Gostos

Sérgio de Almeida Correia, 08.09.22

Por aqui, onde vivo, não se fala noutra coisa. Era por isso chegada a hora de me debruçar sobre esse assunto.

Debruçar é mesmo a palavra adequada. Quando um problema não se afigura claro, por vezes, convém que se mude de posição para se poder analisá-lo. E aí a gente debruça-se, o que pode sempre constituir um risco, porque tanto nos pode entrar um cisco pelo olho adentro, uma mosca pela narina acima, ou um tipo estatelar-se de bruços se estiver num local elevado e perder o equilíbrio na análise.

Qualquer uma dessas hipóteses causava-me imenso desconforto. Tomei, pois, as devidas precauções e coloquei uma máscara KN95 e uns óculos de protecção quando tratei de me concentrar no assunto.

Agora importa aqui deixar algumas ideias, que aliás não são muitas, confesso, mas que, creio, deverão ser tomadas em conta nas sugestões que vierem a ser feitas sobre uma consulta pública que anda para aí a ser muito badalada e que no futuro poderão ser tomadas em consideração pela Assembleia da República e o Governo de Portugal na hora de legislarem sobre as reacções nas redes sociais. 

Já tinha ouvido falar na ideia, por sinal brilhante, de serem escrutinados pelas autoridades os "gostos" (likes) colocados pelos participantes em redes sociais, coisa que na nossa sociedade, "muito pequena", como alguém disse, onde "toda a gente se conhece" e "não é preciso as autoridades policiais investigarem", constitui uma tendência perigosa e reveladora de problemas de mentalidade e ideologia. Inicialmente desconfiei. Não percebi. Mas, como referi, se "não é preciso as autoridades policiais investigarem" é também porque as leis são muito boas, únicas e irrepetíveis em qualquer outra parte do mundo, e há boas ideias por estes lados que deverão ser consideradas. A do recurso aos "likes" para análise social, disciplinar e criminológica pelas polícias parece-me, afinal, muito razoável, pelo que desde esta manhã passei a subscrever a sugestão do nosso Secretário responsável pelo pelouro dos "likes", um quadro formado pela última administração portuguesa de Macau no rigor dos princípios então vigentes. 

A sugestão, todavia, convém que seja melhorada para se evitarem confusões e se dispensarem futuras investigações, sempre morosas e caras. Deverá ser tudo escarrapachado na lei, não vá aparecer aí algum figurão a dizer que não é bem assim, a ver se escapa à bordoada.

É que não se pode simplesmente analisar os "likes" a eito. Importa introduzir algumas regras científicas que sustentem as conclusões da análise. Não só aos "likes" simples que um funcionário público ou qualquer outro indivíduo coloca nas redes sociais ao que se passa noutras jurisdições, mas a todas as reacções possíveis. Porque todas elas, dependendo da perspectiva, podem ser reveladoras de diversos graus de perigosidade da sua mentalidade e ideologia.

A minha primeira sugestão vai, pois, no sentido da criação de um catálogo de reacções, sanções, atenuantes e incentivos de carreira, ou pecuniários (estes serão mais populares), em função das reacções dos participantes nas redes sociais ao que se publica. Um catálogo tipificado às reacções dos participantes nas redes sociais, à semelhança do que acontece no direito penal com os crimes. Isso é importante para segurança de todos nós e o problema, admito, não está a ser tratado com o devido rigor por quem de direito. Tem de ficar tudo na lei. Preto no branco.

Se repararem, actualmente, temos o "like" ou gosto simples, o coração vermelho, o riso, o espanto, o choro e a ira (ou o zangado). Para este efeito são tudo "likes" em sentido lato. Ora, é preciso que não se fique pela análise do "like" simples, havendo que extrair conclusões das restantes reacções, sob pena de estarmos a atirar para cima das polícias uma investigação perfeitamente desnecessária.

Se um tipo colocar um coração vermelho nas declarações de um governante é porque aprecia o estilo deste, gosta da gravata, do fato, fascinou-lhe o conteúdo das declarações proferidas ou ficou apaixonado pelo presente que aquele ofereceu à mulher, uma senhora que em tempos violou a disciplina do partido e está agora hospedada no "Coloane Hilton" a cumprir pena?

E então se for o boneco do riso numa publicação da agência de notícias Xinhua, sobre o papel dos observadores estrangeiros nas eleições em Angola, isso quer dizer o quê? Que a notícia teve piada? Que os observadores são especialistas de stand up comedy? Ou porque a fonte foi o Dr. Marques Mendes?

Eu poderia trazer para aqui mais uma série de exemplos e situações em relação a cada um dos "likes", chamemos-lhes assim, em que muitas vezes um "like" simples acaba por corresponder a um "dislike", ou, o que é pior e deverá ser sempre evitado, a uma reacção de gozo. Tenho um amigo do Sporting, que ninguém quer lá, que coloca "likes" nas publicações do SLB e quando diz que "vamos ser campeões" nunca ninguém sabe se é o Sporting, o SLB ou o F. C. Porto, onde milita o filho. Uma confusão que dá sempre granel lá em casa.

É preciso que fique na lei que o que vai na cabeça do participante na rede social no momento em que reage à publicação também é penalizado ou louvado. Há sempre uns engraçados que colocam risos nas fotografias dos camaradas do partido. É evidente que se depois se arrependem e colocam um "like" simples ou um coração vermelho, isso deverá ser considerado uma atenuante na hora da avaliação do desempenho do funcionário público ou de qualquer residente. Mas se se voltarem a arrepender e colocarem, à terceira, o boneco irado em substituição do "like" simples, após assistirem à última conferência de imprensa sobre o controlo da pandemia, então é porque estão a precisar de ser "fulminados". Aí só há um caminho: mandá-los para a Mongólia interior ou um campo de reeducação do tipo daqueles que Michelle Bachelet visitou, onde possam desenvolver as suas competências e adoptar comportamentos constantes em matéria de reacções às publicações nas redes sociais. 

Agora é hora de colocar mãos à obra e pedir a um dos cientistas da Universidade de Macau que elabore o catálogo de  reacções (alguns serão crimes) atinentes às publicações nas redes sociais que deverão ficar a constar da lei. Talvez o Prof. Figueiredo Dias, como professor visitante, possa aprender alguma coisa com eles, atenta a criatividade de que os seus académicos ultimamente têm dado mostras, para propor ao Ministério da Justiça.

A censura no Facebook

jpt, 29.07.22

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Leio o João Gonçalves (agora também João S. Gonçalves) desde os tempos do seu blog Portugal dos Pequeninos. Verve cáustica, mente inquieta e, acima de tudo, imensa verrina. Concordando ou não - até porque ele estará duas ou três braçadas à minha direita -, gostando ou desatinando, o certo é que nestas quase duas décadas o homem tornou-se item da minha paisagem.
 
Após a "intervenção militar" russa na Ucrânia o João Gonçalves embicou, e com afã, contra as posições europeias e um (aparente, digo eu) unanimismo ucranófilo. No início, uma ou duas vezes lá terei resmungado em comentários - julgo que aquela posição é um erro de compreensão - mas depois desisti. Pois às minhas atoardas guardo-as para o meu mural (e blogs), para quê chatear os outros em sua "casa"? Ora, e até porque o seu mural é muito activo (imensos "gostadores", múltiplos comentários), o "Algoritmo" mostrava-me os seus vários postais diários e a azáfama dialogante que lá sempre acontece. Também por isso um dia irritei-me com aquilo e cortei a ligação, num "quando acabar a guerra pedir-lhe-ei "amizade" outra vez"..." em busca das (outras) caneladas que ele vai distribuindo a eito. Passados uns tempos ele criou um outro perfil (João S. Gonçalves) e reestabeleceu a ligação e eu, que estaria em dia menos zelenskiano, acolhi-a sem mais.
 
Percebi agora que as suas duas contas foram "canceladas" durante um mês. Não sei exactamente porquê. Talvez por motivos lexicais, não me surpreenderá - um amigo co-bloguista acaba de me avisar que ele próprio está suspenso do Facebook porque utilizou um substantivo abstracto derivado da célebre "Mariquinhas" (!!), e eu já fui informado que, e apenas por ter comentado alhures interrogando se tal substantivo era "ilegal", seria suspenso se repetisse tamanha agressão a uns inditos "valores comunitários". Ou então foi barrado devido às suas posições políticas.
 
Independentemente da razão isto é inaceitável. Há no Facebook um controlo global (robótico, dizia-se) iconográfico, algo atrapalhado - o episódio da censura ao "A Origem do Mundo" de Courbet foi um risonho exemplo, tornado ainda mais anacrónico face à recente pornografia via vídeos "reels" divulgados nesta rede - mas que se poderá justificar, pois avesso à transformação da plataforma num avatar dos porn hubs. Mas o controlo lexical é patético, não só por questões de princípios mas também pela polissemia dos termos que se querem barrar - as "mensagens odiosas" de que a empresa Meta se quer expurgar dependem da sintaxe e não do léxico.
 
E há, acima de tudo - e este caso deve depender disso -, o controlo censório avulso. Executado pelos pobres avençados da empresa e, muito, pelos inúmeros utilizadores "denunciantes". Que "denunciam" através do "barrar" de outrem, dando sinal ao sistema que essoutro tem más práticas, algo cujo somatório provoca sanções - já me aconteceu um punhado de vezes, até com gente que conheço, antigas visitas de casa, recentemente um antigo aluno a quem cortei a ligação devido ao seu desbragado putinismo e que assim se "vingou", colegas antropólogos por razões que desconheço -, ou mesmo "denunciam" postais com os quais não concordam.
 
Ou seja, a coberto de uma aparente "cidadania", de uma defesa dos tais "valores comunitários" (quais?, qual "comunidade"?), o que grassa é a vil bufaria, a da maledicência frustrada, ciosa da sua mediocridade. No fundo, bem no fundo, apenas gente dessas "coitadinhas", furiosas diante da "Pretendida, desejada / Altiva como as rainhas / Ri das muitas, coitadinhas / Que a censuram rudemente / Por verem cheia de gente / A casa da Mariquinhas".
 

Alfredo Marceneiro - Casa da Mariquinhas

Shock the Monkey

jpt, 05.06.22

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É comum ler "doutores" - académicos e jornalistas, ciosos ciumentos saudosistas do seu estatuto de intermediários do Saber, como se Sábios pedagogos pairando sobre nós-plebe - criticarem os perigos da internet, aterro de lixo (e nisso quantas vezes citam Eco). E apupando as "redes sociais" - as quais reduzem ao FB e ao Twitter -, quais pântanos da nossa popular malévola ignorância.
 
São nisso broncos - como alguém que refute bibliotecas porque (também) têm maus livros. São broncos e não têm vergonha de o ser pois ninguém lhes diz isso, dado que infelizmente continuamos naquilo do "respeitinho é muito bonito", chapéu na mão diante do "sô dôtor".
 
Boto isto nesta nebulosa manhã dominical não porque tenha acordado possuído por uma réstia de Michel Serres (esse que reduziu esses filisteus à tralha que são). Mas apenas para louvar, em cúmulo de gratidão, o que estes meios me dão, por malvados capitalistas que os detenham... Pois foi numa "rede social", em murais dos populares que por lá pululam, que soube da transmissão na RTP2 da "Akhnaten" de Glass. A qual está disponível na RTP Play (na tal internet dos miasmas intelectuais) - versão aparentemente majestosa, pelo pouco que já vi. E que verei completa após o jogo da selecção de hoje.
 
Mas muito mais, foi ali noutra "rede social" musical que ontem voltei ao "Live in Athens 1987" - um Peter Gabriel soberbo, já liberto da pirosa tralha Genesis, no pico da voz, no cume da sua inovação no rock. E com um lendário grupo de músicos fabulosos (David Sancious, David Rhodes, Manu Katché, Tony Levin).
 
Sim, o som do meu computador não é grande coisa, eu vou um bocado mouco. E perro, tanto que já nem sozinho ao espelho danço... Mas ainda assim estou há horas, desde a alvorada, a ouvir em loop esta Shock the Monkey - que o autor diz ser sobre o ciúme mas que sempre imaginei como uma canção sobre como o amor nos fez evoluir. E que aqui vem numa versão sublime.
 
E neste longo e intenso loop rejuvenesço décadas, cada vez mais... com a má contrapartida de que assim, de súbito tão jovem, percebo o quão irrelevante, sem sentido e mesmo incompetente é o texto word que tento culminar. Mas que importa isso quando se é jovem?
 
Aqui deixo a canção (retirada de uma outra rede social). Ouvi em loop, comprovai o rejuvenescimento.... Ou então ide ler os "doutores":
 

Macro, micro

Pedro Correia, 16.02.22

As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. Alguém sopra uma coisa via telemóvel, o sopro salta para o twitter ou o facebook -- e é quanto basta para se assemelhar a ignição de fogo pronta a incendiar a pradaria mas que afinal se limita a chamuscar uns canteiros. Mal as chamas irrompem num determinado local, logo outro foco se propaga noutro sítio com o mesmo grau de aparente intensidade do anterior e com a mesma duração média, que raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso.

E assim sucessivamente. Tudo macro indignado. Até à micro indignação seguinte.

Saneamentos

José Meireles Graça, 06.07.21

Em tempos, o Facebook suspendeu-me um amigo por 30 dias, por causa de uma piada qualquer aparentemente racista (e que fosse, a piada e ele; mas, incidentalmente, o amigo em questão de racista tem nada). Irritado, escrevi um texto onde reflectia sobre as redes sociais.

Acabava assim: Fizeram-me falta os 30 dias do meu amigo. Não é esquerdista, não é preto nem cigano, não é pobre nem explorado, não é situacionista nem convencional. Azar dele: os tempos vão para quem pensa como deve ser; para os outros há suspensões.

De então para cá o mesmo incontinente verbal já foi suspenso várias vezes, pelas mais diversas razões, e calhou conhecê-lo em pessoa: é, como previa, igual ao que previa. Se vivêssemos na mesma cidade, é provável que frequentássemos o mesmo café, nos sentássemos às mesmas mesas e asneirássemos com pertinácia, à vez; e seguro que com ele aprendesse alguma coisa porque isso é o normal quando se têm percursos de vida, experiências, formações e interesses muito diferentes, se houver um fundo inato de tolerância, curiosidade, alguma coisa para a troca e predisposição para levar o mundo, sempre que possível, na desportiva.

O Facebook é um café em ponto grande, tão grande que há uma quantidade infinita de grupinhos que não se podem ver uns aos outros, e numerosos clientes dos quais a prudência aconselha a manter uma confortável distância. Mas todos têm o direito de beber a sua meia-de-leite, ou a imperial, ou o bagaço, ou o que seja, é ao gosto de cada qual. E se o camarada tem por hábito arrotar, ou cuspir, ou mesmo vomitar, o espaço sobra e por isso o dono do estabelecimento não se incomoda, até porque os bêbados e os malcomportados tendem a juntar-se uns aos outros ou, quando venham às mesas dos civilizados, serem acolhidos com fleuma nuns casos, e com abundância de pontapés noutros.

Não se incomoda com isso, e faz muito bem, mas três coisas lhe importam: a primeira é que se diga mal do Governo; a segunda são mentiras; e a terceira a nudez.

Governo é como quem diz, não é bem isso: é mais um conjunto de ideias que acha que desagradam aos costureiros das tendências e à maioria dos clientes. Mentiras também não, é mais, além das propriamente ditas, verdades ou hipóteses que não tenham chancelas oficiais dos mandarins do pensamento. E nudez porque, coitado, é americano e lhe ensinaram de pequenino que é pecado, além do que muitos clientes são também daquela infeliz nacionalidade, ou não são mas ingeriram na infância quantidades consideráveis de pudicícia e hipocrisia.

Pois bem: há dias o meu mural, velhinho de dez anos e pesado de milhares de histórias, fotografias, links, reflexões, levou completo sumiço: nada, zero, niente, kaput. Alguém num servidor em Denver, Colorado, alterou a palavra-passe e o endereço de e-mail, de modo que semelhante arca do tesouro estará talvez perdida para a humanidade, que ficará com certeza impassível enquanto eu furibundo. Adiante, que talvez o meu eu pretérito ainda venha a renascer.

Sucede que outro amigo, da variedade com vastíssima plateia, notoriedade pública e créditos firmados como autor de crónicas, no caso sobretudo sobre assuntos económicos e de políticas públicas, reproduziu há dias uma capa da revista Playboy onde aparecia a Lenka do Preço Certo de mamas ao léu, num comentário. No dia seguinte, ao querer publicar um link para outro assunto, ficou ciente de que estava impedido de o fazer. Chegou-lhe a mostarda ao nariz e bazou de vez – não está para aturar insolências moralistas de uns merdas que ninguém sabe quem são e que, quase planetariamente, decidem o que se pode e não publicar num meio que só teve o sucesso que teve, e que se traduz em incontáveis milhões para os proprietários, porque deu voz a quem não a tinha, ou permitiu ampliar os púlpitos de alguns pregadores, preservando o direito de cada um ler apenas o que lhe interessa, escrever para grupos ou, se houver audiência, um público mais vasto, e interagir com quem aceite interacções.

Grandes burros, o sucesso cega-os: quase toda a gente é conformista e aprecia indignar-se contra os que não o são. Mas são estes o chamariz, o exercício da liberdade de opinião incomoda mas a sua ausência acaba por fazer os ambientes enjoativos.

Suponho que se vai arrepender: quem está habituado a um café imenso achará qualquer outro acanhado; e o paleio de que há coisas muito mais produtivas para fazer, sendo de conteúdo verdadeiro, deixa de lado que pois sim mas nem só de pão vive o homem – também vive de se irritar com disparates, dar umas ensinadelas nos dias bons a alguns pedantes, receber outras nos maus, aturar uma turba de irrelevantes, aprender alguma coisa sobre o que lhe interessa e o que julgava que não lhe interessava, e divertir-se no durante e nos intervalos.

A mim, que porque sou velho sou mais sensato (também já era em novo, mas não quero pôr-me para aqui com gabarolices), não é impossível que isto irrite mais do que a ele. É genericamente um tipo de esquerda, no sentido de que liga muito mais importância à igualdade material entre os cidadãos, e tem muito mais confiança nos poderes demiúrgicos do Estado, do que eu. Mas não é um idiota que diz coisas porque sim, antes se dá ao trabalho de as medir, e como é de profissão professor de economia, usa ancorar-se em doutrina, estudos, pareceres, tudo embrulhado em despretensão, a que soma uma declinação própria. Por último, e sem ser o menos, não se leva demasiado a sério, em contraste com a suficiência que é quase uma marca d’água da profissão, e aprecia discretear nas redes sobre o que se chama a espuma dos dias, a qual não é menos saborosa do que a na parte de cima de um fino (imperial, para quem viver nas partes para onde o Saara se vai expandir primeiro) bem tirado.

O Facebook vai fazer-lhe falta, e ele a mim. Razões porque o aconselho a fazer o que se fazia nos tempos da Velha Senhora: encontrar maneiras de dizer o que se quer de forma que os coronéis deixem passar.

Somos muitos a apreciar-te, Luís Aguiar-Conraria, mesmo na versão light, que não é a mesma dos artigos de opinião. E se isso não te diz grande coisa, informo que também não falta quem não te grame: queres dar-lhes essa alegria?

Redes

José Meireles Graça, 05.01.21

Os mandarins da opinião paga tendem a ter pelas redes sociais um ódio frenético. Pacheco Pereira, por exemplo, casca nelas com furor sempre que a ocasião é, ou ele a faz, oportuna. Acha que são perigosas, veiculam ideias primárias, põem no mesmo plano a opinião do condutor de empilhadores zangado com o mundo, que acredita que a terra é plana e que há várias conspirações mundiais destinadas a engenheirar as sociedades, e a do académico com obra reconhecida pelos pares.

Depois, as redes são usadas por grupos terroristas, extremistas de vária pinta, vigaristas de todo o tipo, predadores sexuais, etc. E todos os dias pessoas e grupos fabricam notícias falsas, ilustradas com fotografias ou vídeos manipulados, afirmações de responsáveis descontextualizadas, e toda uma panóplia de aldrabices sortidas, que são instantaneamente reproduzidas às centenas de milhar por tribos ansiosas pela confirmação das suas crenças.

Que há conspirações é um facto. Mas isso não impediu o nascimento de organizações de fact check, utilíssimas mas que já deram abundantes provas de, quando as notícias põem em causa poderes públicos, se limitarem a papaguear a versão oficial dos factos – consequência do trabalho sentado ao computador, e do viés socialista que afecta a classe jornalística, ao menos entre nós, e que leva os autores (os fact check têm autores de carne e osso) a tomarem-se por pastores da grei, com a obrigação de divulgarem a mensagem certa, se a notícia a verificar for excessivamente desalinhada.

Com fact checks podemos nós bem – acreditamos ou não, ninguém nos obriga. E, o Pacheco Pereira que tenha paciência, com básicos e chanfrados a expectorar asneiras e a vomitar ódio em português das novas oportunidades, também. Até porque no embrulho podem vir, e vêm, coisas boas.

O problema é que Pacheco, e alguns outros Pachecos gurus da comunidade, acham que as escolhas as devem fazer eles, e não nós, a massa anónima dos consumidores de treta. E acham isso, oficialmente, por não quererem a difusão de nódoas ideológicas nas nossas sociedades, mas realmente (processo de intenção meu) por não quererem concorrência: nas redes aparece quem, de graça, tem tanta ou mais audiência do que eles, a propagar ideias que abominam e que querem esmagar com um interdito.

É com este pano de fundo da alegada necessidade de controlar as redes que, pacificamente, assistimos ao espectáculo de os seus donos, à boleia do combate à violência, ao ódio, ao racismo, à pornografia e mais um par de botas, terem desenhado algoritmos que permitem calar – sem processo, sem recurso e, quase sempre, sem publicidade, quem quer que seja que tenha um discurso que ofenda as suas convicções, ou as que acham mais convenientes para não afugentar anunciantes.  E esta prática já levou inclusive a que um homúnculo se tenha permitido impunemente fechar a matraca ao presidente dos EUA. Deu nas vistas, claro, como não dão os milhares ou milhões de mensagens que todos os dias são canceladas por coisas tão banais como a exibição de um par de mamas ou, pior, um sexo cabeludo (como o de Courbet, na Criação do Mundo, que o algoritmo púdico de Zuckerberg censurou) mas também apologias ou refutações do nazismo, racismo, alterações climáticas, igualdade de género, perigosidade da Covid e uma longa lista de delitos, dependendo das queixas de ofendidos.

Há aqui uma confusão: as redes são de propriedade privada mas o seu meio é um bem público, a liberdade de opinião. Permitir-se que um idiota como Zuckerberg ou qualquer outro magnata decida o que pode ou não dizer-se no Facebook não é diferente de o dono de um café proibir a entrada de pretos ou hindus: num caso ofende-se a liberdade de opinião e no outro a igualdade dos cidadãos perante a lei, e portanto no acesso a espaços públicos.

Eu gosto das redes, sobretudo do Facebook, e na minha bolha aprendo com frequência alguma coisa, divirto-me com os disparates, espanto-me com a ignorância, aborreço-me com gente pomposa e irrito-me com cretinos que querem çalvar Portugal a golpes de indignações avulsas, maiúsculas, pontos de exclamação e confessada admiração pelas eructações do dr. Ventura.

Tenho lidado com muita gente, e hesitado pouco na hora de saltar da rede para a rua e a conhecer pessoalmente. E, ó espanto, essa gente não é diferente do que imaginava pelos seus avatares. Posso dizer que hoje conto como amigos pessoais, e companheiros de jantaradas e tertúlias, que conheci via Facebook e blogosfera. Que, sendo muitos, ainda são menos do que aqueles que nunca vi por estarem longe e termos vidas desencontradas. De modo que – vai-te lixar Pacheco – as redes têm um saldo largamente positivo, para mim e milhões.

Pois bem: Tenho um amigo facebookiano que prezo muito por pensar (algumas vezes mal, na minha opinião, que naturalmente respeito) com originalidade sobre os mais diversos assuntos. De sólida formação científica na área da Física (que julga, em conjunto com outras ciências duras, o alfa e o ómega da cultura e da lucidez), acrescenta-lhe uma grande simplicidade, que o leva a discutir com todo o cão e gato. E numa discussão sobre um incidente num jogo de futebol, em que um negro se sentiu ofendido pela atitude de um árbitro (peço desculpa por não me lembrar dos detalhes da historieta, e não ter paciência para a procurar), cometeu o erro de argumentar com um pateta justiceiro, um tipo de personalidade muito frequente nas redes. Zás: “A tua publicação desrespeitou os nossos Padrões da Comunidade relativos a discurso de incentivo ao ódio”, toma lá 30 dias de suspensão.

A liberdade de expressão nunca teve muitos amigos, por ser um perigo para os poderes – todos os poderes – e porque quase toda a gente a defende desde que não sirva para ofender aquilo em que se acredita – a fé, a democracia, a pátria e mais umas grandiloquências, que variam consoante as pessoas. Pelo menos era assim; agora é assado porque a lista do que não se pode dizer vem aumentando à medida que se lhe acrescentam novos valores, entre eles o discurso de ódio, a igualdade de género e das civilizações, bem como outras frescuras.

Fizeram-me falta os 30 dias do meu amigo. Não é esquerdista, não é preto nem cigano, não é pobre nem explorado, não é situacionista nem convencional. Azar dele: os tempos vão para quem pensa como deve ser; para os outros há suspensões.

Vai para a tua terra!

jpt, 16.11.20

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, "Ljubomir Stanisic", manifestação na Baixa de Lisboa, 14.11.2020)

O meu amigo Miguel Valle de Figueiredo continua, paulatinamente, a fotografar esta época do Covidoceno lisboeta - e lembro que já publicou o livro "Cidade Suspensa: Lisboa em Estado de Emergência". Anteontem foi à Baixa fotografar a manifestação de trabalhadores do sector da restauração que ali decorreu. Não conheço o pormenor das reclamações apresentadas nem sei quais os "orgânicos" organizadores. Enviaram-me um filme telefónico com um discurso, algo tétrico, um orador numa torrente de imprecações e insultos a tudo e todos. Boçal. Mas uma boçalidade tão desesperada que pungente, até cativando piedade - talvez o menos solidário dos sentimentos ...

Uma das imagens que o mvf trouxe foi esta, um (ao que me dizem) conhecido cozinheiro e dono de restaurante, Ljubomir Stanisic, que é figura relevante deste movimento profissional, e que tem tido discursos críticos ao poder político - nunca o ouvi, dizem-me que assim é. Trata-se de um cidadão português, antigo imigrante proveniente da Bósnia-Herzegovina.

Entretanto o que leio nas redes sociais?, para o que me chamam a atenção? Um deputado socialista alude ao financiamento bancário que o homem tem, como se isso possa minorar os seus direitos de cidadania - numa óbvia, ainda que subjacente, ameaçadora alusão ao seu estatuto de ex-imigrante, qual cidadão deficitário [e não substituirão o deputado, ainda por cima conhecido por se furtar a uma pena devido a condução inebriada, através de influências políticas, algo vergonhoso ... Pois pecar todos pecamos mas se assim é penar também é para todos]. E leio inúmeras pessoas invectivando que o homem volte para a terra dele. Assim mesmo, sem mais. Que isto de um "estrangeiro" criticar o governo é inaceitável. Esteja ou não naturalizado, pouco importa ... Esta mole humana socialista pensa - e alguns deles falam e escrevem - exactamente como a rapaziada do Chega. Já se vira aquando da eleição do Bolsonaro, quando no Expresso, no DN, na junta de Arroios e por tantas socialistas casas e teclados, se escreveu (e "laicou") que fossem os imigrantes brasileiros expulsos pois maioritariamente eleitores do novo presidente (esse uma peça irrecomendável, mas isso é assunto deles).

Amigo cruel chama-me a atenção para que um deputado (e plumitivo) socratista aproveita a onda e alude pejorativamente à "macholice" deste homem. Uns gritam a este português que vá para a terra dele porque criticou este governo (e mesmo que fosse imigrante isso seria curial, mas a tanto já não se pode imaginar que esta gente chegue ...). E este socratista chama-lhe "machola", como se diminuindo-o.

Fosse este homem oriundo de outro qualquer recanto onde tivesse havido guerra fraticida, tivesse este homem outra cor de pele, e estes pantomineiros gritariam pelo seu direito à livre expressão - para dizer as patacoadas que entender, o que muito provavelmente é o caso. E se fosse um invertido histriónico, uma "bicha louca", também o defenderiam com dentadas e unhadas, ao seu direito para que se exprimisse em liberdade consoante a sua "natureza". Mas não neste caso. Pois, pior do que tudo, crítico do PS. Por isso estrangeiro, devedor, atrevido, até ingrato. "Machola".

Esta gente - locutora, laicadora, e os tantos habituais das "boas causas" agora tão inertes nos clics (des)laicadores e nos irados "indignismos" - é o "Chega". 

A liberdade de desmentir

Paulo Sousa, 07.08.20

Pela primeira vez o Facebook removeu uma publicação do Presidente Trump com a justificação que a mesma não era verdadeira.

Faço parte do imenso grupo de vários biliões de seres humanos que desprezam o sujeito Donald Trump. Mas este grupo tem uma grande diversidade. Nele junta-se quem ache que os EUA pelo que representam, e pelo que contribuíram para o actual concerto das nações, nunca tiveram um representante de tão baixo nível, em termos humanos inclusivamente. Mas este grupo inclui também os que apoiam regimes autoritários e até totalitários. Esses odeiam Trump pelo que é, mas acima de tudo pelo que os EUA representam.

Uns e outros, com maior ou menor contenção, alegraram-se pela remoção desta publicação de Trump. Mas, pergunto eu, em que outro país com dimensão para ter uma rede social própria (seja a Qzone, a Weibo, a VK, a Odnoklassniki, a TikTok, ou outras) seria possível desmentir desta forma o líder do próprio país?

O ambiente de comentário nos blogs

jpt, 27.03.20

Deixei um postal, meio esparvoado, sobre comentadores televisivos. Um desses azedos comentadores anónimos, aqui habituais, que se saracoteia na internet como "makiavel", pergunta qual o assunto do postal - precisamos de ter assunto numa actividade gratuita como é blogar? Continuo a perguntar-me, qual a pertinência do azedume espetado nos comentários de um blog, gratuito, sem agenda e até algo heterogéneo em termos intelectuais e ideológicos? Discordar de textos sim, mas há um punhado de anónimos que aqui vem constantemente deixar fel (até agora, neste terrível momento nacional e internacional, de congregação moral, caramba). Eu não falo de "Lavoura", que é - cônscia ou inconscientemente - algo pitoresco nas suas constantes picardias. Falo de outros, sob alcunhas, que os leitores habituais do blog já conhecerão. 

Para sublinhar a sua reacção ao postal sem assunto deixa o tal makiavel esta adenda: "“(...) livros e vêm utilidade em lê-los.” Não será ‘veêm’?". O autor do postal, eu-mesmo, deixou um erro ortográfico e o acidozinho logo se solta. Impante.

Cometi eu um erro ortográfico? Foi uma "gralha"? É isso denotativo da falta de assunto do postal, de défice intelectual do bloguista? É isso suficiente para ir comentar com o "leve toque de azedo"?

Foi um erro? Eu reproduzo um velho postal, escrito quando era professor. E sim, o que quis escrever foi "vêem".  E não vejo, continuo a não ver, qualquer interesse em acumular comentários deste tipo de comentadores anónimos.

(Postal no blog ma-schamba de 7 de Agosto de 2014)

 (Matola-rio, Junho 2014)

Houve uma avaliação aos professores em Portugal. Não faço a mínima ideia do seu conteúdo ou qualidade. Apenas leio uma notícia com o título "Maioria dos professores deu erros [porventura o jornal quereria dizer "errou"] de português na prova da avaliação", "ortográficos [de ortografia?], de pontuação [pontuativos?], de sintaxe [sintácticos?]". O breve título é repetido no DN, no JN e no Público, deixando adivinhar alguma origem que lhes é estranha, talvez até oficial. Enfim, bastará o seu coloquialismo e a ilógica presente nas poucas cinco palavras que descrevem os erros acontecidos para provar que isto de escrever português é um martírio. Infelizmente não há notícias sobre hipotéticos erros em matemática, química, desenho, história ou outras quejandas coisas.

Como os visitantes do blog bem sabem cometo falhas ortográficas. Não muitas, mas algumas: ainda há pouco foi um "insonso" que me valeu insultos de visita discordante, ... E esforço-me, sempre atrapalhado com isto dos hífens, e agora ainda mais devido à tralha ortográfica, sempre entre o dicionário e o google. Quanto à sintaxe e à pontuação é melhor nem falar, uma constante trapalhada - esta tendência de virgular cada arquejo, para travessar cada meneio. Por isso estou solidário com os colegas erradores.

E espero que não levem purrada.

As estantes dos livros na televisão

jpt, 26.03.20

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(Postal para o meu mural de facebook)

Meus queridos amigos,

de súbito brotou um "même" nas redes sociais, o gozo aos comentadores televisivos que, pois agora confinados em casa, surgem na tv via seus computadores tendo atrás estantes apinhadas de livros. Ou seja, é ridículo ter livros e fatela mostrá-los.

Eu percebo as irritações por princípio, os "preconceitos" como agora se diz. Ou, melhor, os "ódios de estimação", como o magnífico MEC lhes chamou um dia, aqui há atrasado. Eu, apesar de mim-mesmo, também os pratico. E enuncio-os: detesto o presidente da Assembleia-Geral do Sporting, o dr. Rogério Alves, apenas e exclusivamente porque trata toda a gente por "querido amigo" (ver acima, neste postal). E abomino, até ao desejo de extermínio, todos os patetas que se (auto)representam com a queixada sob a palma da mão, como se sinalizando o peso do intelecto, tamanho que assim necessita de suporte (ver foto avulsa). Por isso percebo, humano que sou, que detestem só por detestar os tipos que têm livros em casa, amontoados num estrado a que chamam estante e guardados (para hipotética consulta, em alguns casos) numa divisão - recordo que os livros acumulam pó, nisso ácaros, e que não convém tê-los nos quartos de dormir. Por questões sanitárias, mais que não seja.

Há pessoas que têm livros. Eu próprio os tenho. Aqui me selfizei (como vós, "meus queridos amigos", agora falais) na sala da pequena casa aquém-Tejo na qual me aboletei. Um T1, rústico e maravilhoso, no qual está a estante. Duas prateleiras (correspondentes a uma mala de viagem e uns sacos) de livros meus, vindos para este pré-apocalipse, três outras com livros residentes. Faz parte ... Desde há uns tempos, séculos até (consta que pelo menos desde D. Quixote), os remediados têm prazer em comprar livros e vêem utilidade em lê-los. E nas casas (térreas ou apartamentos) congregam-nos numa divisão na qual alguns, segundo a profissão, até trabalham. Ou estudam. Chamam-lhes escritórios, por vezes. Os meus avós tinham-no (magnífico o do meu avô materno, até com mesa de fumo, belíssima, oferta de um regimento que comandou. Vem essa passando de mão em mão, por linha masculina [mas não varonil]. Chegou-me e depois de a viver dei-a, há uns dois anos, a um sobrinho que um dia a virá a passar a seu filho, presumo). Os meus pais também tinham escritórios, carregados de livros. E era o meu pai pessoa bem-educada, tal como o é a minha mãe. Mesmo assim tinham escritórios. Eu tenho-o - ainda que os livros estejam também noutras divisões da casa (no corredor, na sala de refeições, burguesmente dita "de jantar" - a gente já não pode almoçar em casa -, nos quartos e até, para minha vergonha, na cave).

Ou seja, é normal que um tipo que tem que aparecer na tv emitindo a partir de casa o faça desde o seu local doméstico de trabalho. No qual tem livros, já que é um burguês e - sendo opinador - presumivelmente trabalhador intelectual. Sei que muitos de vós usam os telefones na sanita [já agora é "sanita" que se diz e não "retraite", ó seus bimbos armados em finórios]. Mas, de facto, o mais normal é que quem tem que falar em público desde casa não o faça sentado na sanita. Nem em locais com usos estritamente domésticos (ex. o tanque de lavar roupa). Ainda para mais quando, muito provavelmente, lá estão os outros membros da família.

É óbvio que há excepções. Temáticas. Ontem passei pelo canal 11, da bola. E nele estava um friso de 6 comentadores em simultâneo, a falarem (sei-lá-do-quê). Todos tinham as traseiras lisas, nem um livro à mostra. Acredito que os tenham em casa, a alguns exemplares. Mas para aquele público - os compatriotas mais morcões que assistem a painéis futeboleiros - parece mal mostrar livros, descredibiliza os locutores. Não sei se os "meus queridos amigos" me estão a seguir no silogismo ... são os que comungam sensibilidade e gosto com estes espectadores da bola, os tais compatriotas mais morcões, que agora andam a gozar com os literatos que falam na tv.

Enfim: não há qualquer razão para gozar com os tipos que têm livros e que falam desde casa para a tv com as estantes atrás. Repito, é normal tê-los (até eu os tenho), e é normal que se fale para fora numa pequena sala com as paredes algo cobertas de livros.

O que os meus queridos amigos poderiam analisar, e até gozar, é o que esses comentadeiros dizem. E, se tiverem paciência para tal, especularem sobre as agendas, pessoais e colectivas, que transportam no perorar. Muito mais à frente, talvez apenas em era pós-covidiana, poderiam até questionar este tipo de fazer informação televisiva, sem reportagens substantivas e com uma série infinda de charlas inócuas e/ou interesseiras.

Entretanto, e porque confinado, eu vou gozando com os tais morcões. Os que julgam que têm piadola.

Já acabaram com as teorias estapafúrdias?

João Pedro Pimenta, 12.03.20

                                                             Resultado de imagem para théories du complot

 

Já que anda tudo a lançar a sua opinião sobre o coronavírus nas redes sociais (uns, inconscientes ou engraçadinhos, como se isto se tratasse com bagaço, outros quase apocalípticos, a dizer que "há 15 dias que devia estar tudo fechado", ou seja, quando não havia casos em Portugal) e a divulgar as últimas informações que ouviram, podíamos começar a mudar alguns hábitos, e não falo só de higiene (mas também: a quantidade de pessoas que não lava as mãos quando deve é atroz). As teorias da conspiração, por exemplo.

Espero que aquelas pessoas que andaram com aquela conversa de que "isto é um plano da China para diminuir população" (travar a economia para morrerem escassos milhares de pessoas? Será isso, o brilhante plano?) ou então que "isto é um vírus inventado nos laboratórios para as famacêuticas ganharem milhões com a vacina" (então porque é que ainda não a começaram a vender num mercado como o chinês, quando os números decrescem a olhos vistos e o pânico se instala no Ocidente?) tenham um pouco mais de juízo quando começam com os seus "cá para mim". Isso aplica-se também a "comunicadores", como aquela célebre apresentadora que afirmava há poucas semanas que o vírus só infectava os chineses. E mais ainda a chefes de estado de países de grande população, com o incumbente de Vera Cruz, que acha que o coronavírus é fantasia propagada pela "mídia".

Infelizmente as teorias e os boatos existem desde que o mundo é mundo. Mas como agora as redes sociais as divulgam muito mais facilmente, pedia-se um bocadinho de contenção, e se possível, de juizinho, que bem vai ser preciso.