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Rebolar na lama

por João André, em 14.02.19

«Nunca lutes com um porco na lama. Ficas sujo e o porco gosta»

Esta frase vem-me frequentemente à cabeça quando leio caixas de comentários (aqui ou noutros locais, especialmente Facebook). A quantidade de pessoas que pululam nas mesmas para fazer avançar as suas agendas anti-liberais, quando não mesmo fascistas (a níveis diferentes) é elevada e, mais importante, são extremamente activas. São pessoas que ou compram quaisquer teorias, por mais disparatadas que sejam, desde que se oponham ao establishment e recusam quaisquer provas ou dados ou lógica que lhes desmontem a argumentação. Nisto caem as conspirações anti-semitas, negacionistas das alterações climáticas, anti-migração, liberais extremistas, antivaxxers, extremistas raciais (habitualmente brancos) ou culturais (habitualmente judaico-cristãos europeus e brancos e embora também os haja árabes e islamistas, não andam nas mesmas caixas).

Com eles não há discussão. Há apenas gritos e rejeição de toda e qualquer argumentação que lhes negue as opiniões. E preciso rejeitar ciência? Faça-se. É necessário demonizar outros povos ou culturas? Vamos a isso. Relativizar sofrimentos ou riscos? Fácil. Mentir? Uma constante.

Na Europa vemos cada vez mais disso. Salvini é neste momento o mais destacado representante na forma como está a controlar completamente o seu parceiro-fantoche de coligação e toma atitudes que estão contra qualquer decência. Orban na Hungria parece querer fazer avançar tudo o que lhe convenha, mesmo que tenha que avançar conspirações anti-semitas, obrigar trabalhadores a ficar no trabalho sem salário, proibir a entrada de imigrantes que nem sequer o almejam, dar contratos e proteger subsídios da família e amigos. Na Polónia Kaczyński tenta seguir o conceito Orban. Na Turquia Erdogan caminha para a ditadura usando o espantalho Güllen. Fora da Europa, na Venezuela felizmente o ditador é incompetente (sem Cuba já teria deaparecido). Nos EUA Trump continua a denegrir toda e qualquer pessoa que discorde dele (até tenta levar Bezos para a lama referindo-se à sua vida privada). No Brasil Bolsonaro agita o espantalho inexistente da ameaça do comunismo. O casos surgem quase todos os dias.

E depois temos os trolls deles. Muitos deles serão pagos, outros simplesmente idiotas úteis. Veremos nos próximos meses o resultado das suas acções nas eleições europeias.

Não conheço a solução. Sei que entrar nessas discussões é inútil. Regulação para evitar a propagação de falsidades nas redes sociais (ou caixas de comentários de media) seria útil, mas não suficiente. Discutir como lidar com o uso de mentiras em campanhas eleitorais seria boa ideia. Não falo de promessas que niguém irá cumprir (não há inocentes nesse aspecto), antes do uso de mentiras óbvias. Entretanto, o melhor seria evitar dar-lhes um megafone maior que o que têm. Ignorar esta suinidade não resolve o problema, mas não piora e não suja mais ninguém.

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Pensamento da semana

por Marta Spínola, em 10.02.19

 

Das redes sociais: quando não és mais do que se lê, és quem (a)parece aqui. E tudo bem. Até ao dia.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

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Espicaçado por um dos nosso mais fiéis comentadores, e considerando que é digna de reflexão por mais do que um motivo, não resisto a escrever sobre uma das notícias que, entre um turbilhão de outras mais, varreu os noticiários e as páginas da net. Falo do questionário feito a alunos do ciclo preparatório da escola Francisco Torrinha, que tanta celeuma deu.

 

Antes de mais, respondo ao nosso fidelíssimo Luís Lavoura, que neste post do Pedro Correia lançou a hipótese do tal questionário ser uma "fake new". Lamento desiludi-lo, mas não é: o questionário foi mesmo distribuído como "ficha sociodemográfica" a alunos do 5º ano (ou 1ª ano do ciclo preparatório, como quiserem), com 9 a 10 anos, perguntando logo à cabeça o sexo e a identidade de género (homem, mulher ou "outro"), se namorava actualmente ou se já tinha namorado antes e se se sentiam atraído/as por "homens, mulheres ou ambos". Repito, isto era o questionário a crianças de 9 e 10 anos. Por acaso sei quem são os pais da criança em questão, e sei também como começou e se espalhou a notícia: numa mera conversa de Whatsapp de amigos, em que se discutem os mais variados assuntos, na sequência da qual o amigo que tinha revelado o questionário a colocou na sua página de Facebook, explicando o seu contexto. O post teve imensos comentários, começou a ser partilhado de forma crescente, qual bola de neve, e no dia seguinte já tinha centenas de partilhas, algumas aproveitadas abusivamente por forças políticas. Não demorou muito até que os jornais se referissem ao assunto, as televisões fizessem directos em frente ao Torrinha, o Ministério da Educação "apurasse informação" e as redes sociais prolongassem a discussão (como quase nenhuma aprovação do documento). A notícia chegou mesmo à Catalunha, com uma breve notícia no La Vanguardia. Fica pois o nosso caro Lavoura esclarecido de que não é uma notícia falsa e que tem aqui uma testemunha disso mesmo.

questionário torrinha.jpg

 

Mas o caso merece reflexão por três razões: a primeira é saber porque que é que estas perguntas foram feitas nesta fase escolar a alunos desta idade que previsivelmente nunca namoraram e que não fazem ideia do que é a "identidade de género" ou "atracção por ambos". Qual é a finalidade do mesmo? Para que serve? E que dados ou resultados práticos se podem extrair daqui? Se é para confundir as crianças, provavelmente acertaram no alvo; se o propósito é mais ideológico, então é caso para preocupação; falava aqui há dias desta tendência para a sexualização da infância, como se se estivesse a formar um exército de autómatos programados e não a tratar de pessoas cujas fases etárias deviam ser acauteladas; e a propósito, é caso para pedir que o Torrinha não organize, no âmbito da "estratégia nacional para a Cidadania e Igualdade de Gênero", visitas guiadas dos alunos do 5º ano ou de outro à exposição de Mapplethorpe, em Serralves, ali a poucas centenas de metros, na outra ponta da "Marechal". A demonstração prática do questionário teria certamente efeitos desastrosos.

 

A segunda é recordar que no ano em que entrou em vigor uma nova lei de protecção de Dados Pessoais - que deu origem, aliás, a um bombardeamento maciço de emails de tudo quanto era empresa ou associação, a pedir consentimento para o tratamento dos dados - possa haver uma interferência tão visível nestes dados, mais a mais sendo crianças e tocando em elementos absolutamente íntimos e que ainda nem sequer estão devidamente desenvolvidos.

 

A terceira é, mais uma vez, a velocidade a que certos assuntos se propagam nas redes sociais: este começou num grupo de whatssap que nem sequer é muito grande, e colocado no Facebook, formou uma vaga surfada depois pela comunicação social tradicional, até fora de Portugal. Tudo isto em menos de 24 horas. Não tinha testemunhado tão de perto estes efeitos, mas é suficiente para causar admiração, e porque não dizê-lo, alguma apreensão. De qualquer maneira, e ao contrário do que ouvi nalguns comentários, não é preciso nenhum Bolsonaro nem nenhum candidato a protoditador para se fazer ouvir: basta a sociedade civil reagir, sem notícias falsas, e colocar as questões devidas em casos de suspeitas de abuso de poder.

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O novo macartismo

por Diogo Noivo, em 27.09.18

"Há opiniões que não devem ser ouvidas. A punição que a pessoa identificada merece é a expulsão da comunidade. Sabíamos que não havia necessidade de condenação: a acusação era suficiente. (...) O caso de Ian Buruma revela um novo elemento: a proibição já não afecta apenas a pessoa que cometeu a transgressão ou o crime, mas também aquele que permite que o transgressor se expresse."

 

Ensaio oportuno de Daniel Gáscon sobre a demissão de Ian Buruma da New York Review of Books.

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Indignações

por Diogo Noivo, em 30.08.18

rober bodegas.jpg

Rober Bodegas 

 

O humorista galego Rober Bodegas fez uma série de piadas sobre ciganos num programa de televisão e colocou o vídeo no Twitter. A indignação voraz ateou a pira moral. Acusaram-no de discurso de ódio. Foi insultado por todos os “colectivos” possíveis e imaginários. Foi até comparado a Le Pen e a Salvini. Depois vieram as ameaças de morte. Em violenta ebulição nas redes sociais, o caso chegou às primeiras páginas dos jornais. Bodegas pediu desculpa e apagou  o vídeo da rede social. Vozes como a de Dani Acosta, humorista de etnia cigana, que alertavam para o óbvio – uma piada é uma piada –, foram olimpicamente ignoradas.

No El Pais, o escritor Andrés Barba traçou o mapa deste tipo de casos: 1) Comediante faz uma piada sobre um grupo étnico, colectivo, comunidade autónoma ou figura política; 2) Coletivo, grupo étnico ... descontextualiza o comentário e ataca em massa contra o comediante com uma violência que excede em muito a piada que o provocou e que acaba por dar à piada uma difusão que nunca teria tido de outro modo; 3) Um certo grupo de intelectuais argumenta que, embora seja verdade que a piada é de um extraordinário mau gosto, não é menos verdade que a liberdade de expressão é garantia de direitos democráticos e um dos pilares da civilização ocidental; 4) Oprimido por ameaças de morte ou pelas consequências da piada no plano laboral, o comediante dramatiza um pedido de desculpas que não sente, faz um comunicado de imprensa e reza a todos os santos para que o caso caia no esquecimento  o mais rapidamente possível.

O melhor resumo de esta e de outras indignações a propósito de textos de humor surgiu na rede que mais zurziu Bodegas, o Twitter: “não façam piadas, por favor. As piadas ofendem. Uma piada matou o meu cão e toda a minha família. Ainda recordo quando uma piada entrou pela minha janela e os matou a todos. É preciso ter cuidado com as piadas”.

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Porco machista

por Diogo Noivo, em 24.08.18

O João Pedro George é uma das minhas leituras semanais imprescindíveis. No mês passado escreveu um texto intitulado “Mulheres”, culto, irónico e pouco consentâneo com o pensamento único, embora nele nada houvesse de insultuoso ou chocante. Versava sobre a importância das mulheres na vida de alguns escritores portugueses, autores de outras épocas e, por conseguinte, de sociedades diferentes daquela onde vivemos. Como se diz em Espanha, lo han puesto a parir. Entre os vários mimos repartidos por leitores indignados surgiu o proverbial “porco machista”, epíteto usado como título da crónica onde João Pedro George responde às críticas. Dessa resposta, retenho este parágrafo:

 

As pessoas são completamente livres para lerem estas crónicas como quiserem, porém, e usando da mesma liberdade, deixem-me que vo-lo diga que algumas lêem apenas para não pensar. Todas saberão ler palavras soltas, mas nem todas as entenderão combinadas, sobretudo quando assentam em técnicas de discurso e em procedimentos retóricos como a ironia, as antífrases, os subentendidos, a sátira, em suma, quando exigem mais do que um nível de leitura ou de interpretação (além de um certo esforço de atenção). Por certo, é a capacidade ou incapacidade de identificar esses e outros efeitos textuais que distingue aqueles que sabem ler um texto e aqueles que, ignorantes das infinitas possibilidades da escrita, não conseguem ir além dos estreitos sentidos literais e das análises superficiais. Será verdade, como oiço tantas vezes dizer, que os tempos não vão para leituras atentas e meditadas, e que há cada vez mais pessoas que precisam de tudo minuciosamente explicado e óbvio, sem ironias, nem entrelinhas, nem associações ou cruzamentos entre planos da realidade

 

De facto, quem não entende isto, azeite. Resta saber se há lagares em quantidade suficiente. 

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Blogue da semana

por Marta Spínola, em 05.08.18

Sigo a Ana no twitter há vários anos, já lhe pedi uma outra opinião, e recebi até umas simpáticas amostras para aferir o que me tinha sido dito. O blog: The skin game

Pragmática e descomplicada, a Ana fala clara e abertamente no que a sua formação em Farmácia, atrevo-me a dizer paixão, lhe ensinou e vai ensinando diariamente. Percebe-se o empenho e entusiasmo na aprendizagem constante. Para conhecer um pouco mais da Ana é ler aqui

Desta vez a Ana põe o dedo na ferida. Perante um disparate de alguém com 40k seguidores, a Ana avançou e desmistifica os medos sobre protectores solares

Deixo a parte técnica para a Ana. Mas além desse lado, é importante salientar uma vez mais a irresponsabilidade com que se fala para 40k pessoas. Dir-me-ão que se seguem merecem, mas infelizmente não me parece assim tão simples. Nem todo o influenciador é uma boa influência. O sentido crítico está adormecido em muita gente, e isso é assustador. 

Saibamos seguir, ouvir e tirar as nossas conclusões. E já não é pouco. 

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Penso rápido (90)

por Pedro Correia, em 21.05.18

Os novos censores usam as "redes sociais" como pelourinhos. E já há governos tornados censores usando as "redes sociais" como alibi.
Esses que andam a levantar os novos pelourinhos ainda não perceberam a perversidade da coisa. Alguns acabarão também pendurados neles. Novos Dantons, novos Robespierres: a criatura acabará por ganhar autonomia, virando-se contra os criadores. Seguindo o exemplo da guilhotina, sua feroz mana mais velha.

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Interessa é participar

por Marta Spínola, em 25.03.18

Hoje li o seguinte tweet:

 

Twitter 2011: twittava "aula de física mo chato" rolava duas curtida um RT e alguém comenta "é mesmo" Twitter 2018: twitta "aula de física é mó chato" 5k de curtida 2k de RT nos comentários todos brigam sobre a importância da física, te xingam e falam q vc votou no PT

 

Sou utilizadora diária do twitter desde 2009 e confirmo o que ali está. Claro que se trata de um tweet brasileiro, mas o essencial está lá, e aplica-se globalmente: antes lia-se e percebia-se comentando ou não. Agora lê-se e dá-se uma lição. Tento manter-me à margem desta tendência, mas é geral, as redes estão sufocantes com moralismos e filosofia de pacotilha. E como esta não é uma questão de agora, fiz uma busca pelos meus posts no Delito e encontrei este, sobre como nos comentários em geral as pessoas apontam muito rapidamente o dedo, sem pensar muito, importa é participar (da pior maneira possível). 

Tenho pena que o twitter também esteja agora a sofrer com isso. E não, digo já a quem nunca o usou muito, não era assim, a tendência era a inversa. Ali podíamos rir de subtilezas e coceguinhas no cérebro, quem percebia percebia e dava um RT ou interagia, complementava, alimentava uma espiral saudável de boas piadas, quem não percebia passava à frente e ria para a próxima. A timeline seguia o seu curso e pelo meio divertia-me muito. Ainda me divirto, ainda me rio, mas já faço um esforço por procurar o conteúdo e antes não era preciso.

O pior continua a ser o Facebook parece-me (e caixas de comentários de jornais), e nem é preciso procurar. Às vezes vejo o Jogo do Tanso, da Cátia Domingues para crer. É possível que o missing link esteja entre os visados. 

Tenho a convicção de que a saturação com o comentário maldoso vai chegar e teremos o reverso nas redes em geral, ou pelo menos o sossego nas redes. Pode ser só wishful thinking. 

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A inveja nas redes sociais?

por jpt, em 14.02.18

reforma-protestante.jpg

 (Martin Luther afixando um postal no "site" da capela de Wittenberg, 31.10.1517, sem indicação de hora)

 

Olho o pensamento da semana no DO, colocado pelo João André. Não podia discordar mais. Este meu postal não é ad hominem  pois o que me conduz é que esta ideia, este fastio pelas "redes sociais", pelas poses atitudinais que elas potenciarão, é recorrente. Essa sensação de que são elas (nas quais se devem integrar os já vetustos blogs) um rizomático "Grande Irmão" alienante. E sobrealimentado pela perfídia invejosa, essa grande e tortuosa arma do controlo social, do aquiescimento do destino, próprio e colectivo.

 

Intelectualmente este fastio parece-me muito discutível. Nestes tempos de pós-marxismo isto é o avatar possível da velha grande teoria revolucionária. Deslustrada que está a ideia de que "a luta de classes é o motor da história" ficamos com esta simples, e simplista, sequela de que, afinal, "a inveja é o motor da história", pois é ela que nos conduz representações  e práticas. Mas este mal-estar, na sua bruma desconfiada, é eclético, no pior sentido deste termo, o de infértil. Pois advém também da degenerescência da concepção liberal, travestindo a procura do interesse individual  (como "motor da história", se me permito a usurpação) em mera inveja actuante. Esta infértil amálgama não passa assim de uma confusa noção, radicalmente conflitual, da vida social, derivada de um mero psicologismo (o primado da tal malfadada "inveja"), quantas vezes carnavalizado de um "culturalismo", este já de si tão pobre, como no tão habitual "os portugueses são ...".

 

O certo é que nem sequer representa o real. Na pequena parcela desse real a que tenho acesso os factos são outros. As páginas necrológicas passaram para as redes sociais ("morreu o meu marido", "morreu a minha mãe", "o funeral do nosso pai será amanhã"), tal como as notícias das doenças ("a minha irmã está hospitalizada e a recuperar", "obrigado ao estimável pessoal médico do hospital ...", "tenho que deixar de beber álcool") ou as efemérides dolorosas ("faz cinco anos que morreu o meu amor", "meu pai faria hoje 9... anos"), as rupturas de relações amorosas, etc. (os exemplos são todos de postais de facebook que vi nos últimos dias). Partilham-se pensamentos alheios e próprios. Imagens, orações, música, eventos da  vida colectiva, vicinal ou nacional, e individual, poemas, citações, notícias, memórias. Posições políticas, protestos desabridos, proto-ensaios, piadas, brejeiras umas outras nem tanto. Interessantes ou não, consoante o receptor. Ou seja, utilizam-se estes meios tecnológicos actuais para comunicar, para difundir "o que nos vai na alma". Tal como Luther o fez em Wittenberg. De facto, nem todos somos Luther mas todos temos uma "alma" na qual se passa algo. E muitos querem-no mostrar - indivíduos que todos são (somos) diante desse "Deus" que são os outros, com Ele (eles) contactar, "comungar" directamente, sem mediação, e nisso muito de Luther ressurge. Sendo certo que as pessoas, as tais "almas", assim estrategizam, sobre a imagem própria, quanto aos objectivos dos relacionamentos. Mas, e é isso que tanto me afasta destas visões conspiratórias adversas às "redes sociais", e tão cegas quanto ao que conduz a acção social, essas estratégias não são um defeito (uma imoralidade, uma malandrice). São uma característica, o que não macula, por si só, os actos.  

 

Há nisto uma encenação? Sim, na medida em que nos representamos. Acabo de reler, 30 anos depois, "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, um livro de que nada gostara. Ao contrário de agora (apesar daquilo do excedente idealizador da amada, mas enfim, será feitio meu ..). Coloco-o, como faço às minhas leituras não profissionais, na minha conta da goodreads, um belo clube de livro, "rede social" onde se trocam indicações de leitura e opiniões sobre o lido. Andamos ali a armar-nos em grandes leitores, a invejar as bibliotecas alheias? Ou a "conversar" sobre livros, aprendendo? Como ando com pouco tempo não meti a capa nem a foto do escritor na minha conta da pinterest, uma "rede social" óptima para coleccionadores de cromos, como eu o fui. Andamos ali a invejar-nos, a encenar-nos cultos e sensíveis? Ou a fruir imagens que nos agradam? Já agora, e porque tenho estado muito fechado em casa, raras são as vezes que vou ao cinema mas vou vendo filmes na tv, nas noites de insónia. Coloco-os na "rede social" IMDb, que disponibiliza informação vasta sobre os filmes, vistos ou desejados, e nos deixa opinar ("votar", criticar). É encenação, eu qual cinéfilo? Promovo inveja?

 

Não se trata apenas de mim, não me tomo pelo todo, são milhões de pessoas a fazer estas "maluquices". Inúteis, porventura? Se assim é, ainda bem, apartando-nos do "utilitarismo" básico, de pacotilha, que brota de tantos locutores silvestres. Estaremos a propagandear, melífluos, o nosso "sucesso" de consumidores, invejável aos outros? Afirmando um "capital cultural" mais relevante, procurando a "distinção", o estatuto social? Será isso mesmo?  Não haverá mesmo nada de prosaico na vida social? Não haverá espaço para "conversar" com outros sobre o que se vê e o que se pode ver? Neste rossio actual, neste átrio de igreja d'hoje, que as disponibilidades actuais tão mais alargam? E sem estarmos obrigados a ouvir apenas a prédica do cura local ou a dos "mestres do pensamento", "os senhores doutores" da aldeola, e nós de chapéu na mão ou de cálice na taberna, escutando-os? É assim tamanho o pecado de apenas ... irmos andando como se que por nós próprios?

 

Há alguns anos criei uma conta na "rede social" academia.edu, onde meto os textos mais "académicos" (alguns não o são, mas isso é outra conversa). Esta rede é um filão, pois congrega imensa gente, imensos textos. Dando acesso ao que não tínhamos nem conhecíamos. Divulgam-se textos próprios (provocando a tal "inveja"? procurando o tal "sucesso"?) e alheios (convocando, estrategicamente, a reciprocidade?). Certo, há quem critique este "acesso aberto", quem denuncie o "grande capital" a pilhar o trabalho intelectual. Mas isso é outra temática. O que interessa neste âmbito é perceber se o que move os milhões de participantes nesta rede de cariz profissional é a procura do "sucesso" por esta via? Se são movidos pela "inveja"? Somos assim tão  básicos? Ou se, pelo menos também, ali interagem, interagimos, comungando saberes, articulando fontes. Estrategicamente, claro. 

 

Há uma encenação nisto tudo? Em parte trata-se da forma como as pessoas recebem o que vem de outrem. Lembro sempre este ápice: durante anos bloguei em Moçambique, quando os blogs eram  mesmo uma "rede social" - a "blogosfera" dizia-se, com seminários, encontros organizados, jantares. E, mais do que tudo, "links" entre blogs e entre textos, críticas e debates, uma verdeira "esfera", cheia de amores e desamores, clubes e partidos. Enfim, "amizades", como na "rede" paradigmática de agora. Nesse meu blog meti crónicas de viagens feitas naquele país. Achava-lhes piada, até as imaginei em livro mas acabei por as juntar numa "rede social" (este "Ao Balcão da Cantina"). Mas antes disso, blogara eu uma dessas andanças e nessa noite recebi um simpaticíssimo comentário de uma leitora: "você deve ter uma vida extraordinária". Não pude deixar de me rir. Não é que me queixe da vida - "filha", dizia eu há uns anos à minha, após a morte de um querido amigo, "se me der o badagaio", "ó pai, não digas isso, cala-te", "nada, ouve, se me der o badagaio, lembra-te que a morte aos 50 já não é precoce. E que tenho levado uma bela vida, já fiz muito mais do que imaginara" ("o que não quer dizer que não queira cá ficar mais uns tempos") - mas aquele comentário apanhou-me a preparar aulas noite fora, a reler pdfs de fotocópias de Bachofen e McLennan, uns evolucionistas oitocentistas, leituras muito interessantes para quem estuda história da antropologia. Mas não exactamente "uma vida extraordinária". Ou seja, muito depende das formas como aquilo que nós, "redistas sociais", colocamos é apreendido e assim reconstruído. E não tanto a nossa volúpia egocentrada e vaidosona.

 

Diz Vergílio Ferreira, e por isto é que fui buscar o "Cântico Final", falando do tempo que nos passa ao longo da biografia: "viver era agora quase só durar". E a verdadeira encenação é negar esta clarividente verdade. Nós duramos, porque temos e/ou queremos. Para durarmos não precisaremos de fugir totalmente ao real nem de uma completa amnésia. Mas não o conseguiremos se ficarmos monopolizados pelas dores e insucessos, próprios e alheios. E nem só desses podemos recolher ensinamentos para o viver, para este durar. Temos que gostar de algo, manifestá-lo ou, pelo menos, aparentá-lo, um algo muleta da travessia. Dele falar a nós próprios. Demonstrá-lo quando em conversa com outrem. Por isso mostro os meus cães e gatos (que não tenho), a minha querida filha (raríssimas vezes), festas familiares (não sendo eu grande filho nem magnífico parente), uma ou outra comezaina se mais pitoresca (e sou frugal à mesa, menos atento à faca e garfo do que ao copo, é certo), a minha ida a Alvalade (e nem sequer tenho SportTV), etc. Duro. Resisto.

 

Exemplifico melhor neste assim. Estou em Bruxelas, vim ver a minha filha. Fomos ver a exposição "Magritte, Broodthaers & Contemporary Art". Pensei em fazer um postal sobre isso. E também sobre o Anima, o festival de cinema de animação de Bruxelas, no qual descubro ser o realizador José Miguel Ribeiro um dos jurados. Pensei também meter um postal no És a Nossa Fé, sobre o Sá Pinto que treina com sucesso o Standard de Liége. Talvez umas fotos, de prédios ou detalhes no meu mural de facebook, tudo isso a ecoar, como sempre, na minha conta do twitter. Enceno-me cosmopolita (ainda que, enfim, hoje em dia vir a Bruxelas não seja exactamente um "must")? Publicito um qualquer especial "capital cultural", com estes devaneios de consumo artístico? Anuncio um qualquer sucesso, existencial, familiar, económico? Tudo de molde a incentivar a inveja alheia, o mero "respeito" que seja? Entretanto, há quinze dias o colectivo DO juntou-se em jantar. Eu estava tão "tchonado" (o calão moçambicano para "teso") que me foi necessário conter-me e faltar. Mas não me passa, nem passou, pela cabeça fazer um postal sobre isso. Sendo certo que esse episódio é muito mais relevante sobre mim do que o Sá Pinto em Liége ou um detalhe do Horta bruxelense. Mas estamos, estou, cá para durar. E a comunicação, as partilhas, são sobre como duramos. Não exige a vasculha do íntimo, o intimismo auto-punitivo. Pois aprendemos, tomamos consciência, com as dores e maleitas, próprias e alheias, mas enfrentadas com filtros. Caso contrário afogar-nos-emos no caldeirão dessas dores

 

E o mais importante é que não são as dores e as maleitas que nos congregam ou alimentam. Numa rede social, real, dita (excepto pelos tolos hiper-liberais) sociedade. A qual não vive só do conflito, invejoso ainda para mais, como alguns quiseram crer, como estes "neo-commies" querem ressuscitar. Mas muito disto de nos apreciarmos. Com as nossas coisas. Apesar das nossas "coisas". Deixemo-nos pois de "coisas". E ombreemos. Estrategicamente, é certo. E com aquilo, também, da inveja. Que faz parte. E, tantas vezes, tão útil e produtiva é. Para fazer a "rede".

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Frases de 2018 (10)

por Pedro Correia, em 09.02.18

«Desamiguem o Facebook.»

Jim Carrey, na sua conta do Twitter (6 de Fevereiro)

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Por razões que são fáceis de entender não aprovei a publicação de comentários jocosos ou ofensivos, em especial de comentadores anónimos, relativos a um post interior com este titulo.

Desde o início da minha colaboração com o Delito de Opinião tenho libertado todo o género de comentários, dos mais elogiosos aos mais ofensivos. Hoje decidi que acaba a democracia disfarçada no anonimato e, no caso específico do comentador ou comentadora que me enviou uma mensagem com ameaça implícita, tratando-me por "minha menina", chamando-me à atenção para o meu futuro, agradeço que tenha em conta que eu sou o tipo de pessoa que guarda estas coisas e vai à Polícia Judiciária sem qualquer problema.

Aos restantes, peço desculpa por este post. Sempre considerei o debate essencial. As redes sociais ao abrigo do anonimato não são exercícios de liberdade e de argumentação, são apenas cobardia.

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Penso rápido (86)

por Pedro Correia, em 07.12.17

Não gosto de ver termos que estiveram ligados a um passado de ignomínia transpostos para a linguagem comum nas redes sociais. Termos como genocídio, holocausto, nazi, colaboracionista, "solução final": tudo isto se vulgariza, no debate político actual, como quem diz que amanhã estará de chuva. Tais rótulos vão-se banalizando ao ponto de perderem por completo o significado e a sua precisão histórica. E tornando-nos cada vez mais imunes à sua verdadeira acepção, como símbolo concreto do horror absoluto.

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O que me ficou do jantar no Panteão

por João Pedro Pimenta, em 16.11.17

É claro que fazer jantares no Panteão é patético e de gosto duvidoso. É evidente que fait divers destes dão cada vez mais azo a oportunismos polí­ticos, sejam do Governo ou da oposição (a última pérola neste sentido é de Gabriela Canavilhas, uma das mais notórias yes women do PS). E é cristalino que é deste tipo de coisas que se alimentam as sempre insaciáveis redes sociais, sendo que esta polémica partiu precisamente de um blogue - o de Seixas da Costa.

 

Mas duas coisas me ficaram: uma delas é, como escreveu o Rodrigo Adão da Fonseca, que os nossos governantes e os nossos organismos públicos reagem crescentemente sob a pressão das tais "redes sociais" e respectivos estados de humor, sobretudo quando estão "indignadas", o que nos leva a uma caótica e degenerada noção de "democracia directa"; a outra é que se os tais web summiters, ou lá como lhes chamam, não perceberam minimamente onde estavam, é porque a sua visão somente apontada à tecnologia, a um certo tipo de empreendedorismo, e ao culto da "informalidade" faz tábua rasa de qualquer conceito de sacralidade e de respeito pelo passado e pela memória. Ou seja, um caldo de economicismo e de modernidade a todo o custo baseados na tecnologia, que recorda os "progressistas" do século XIX, que não hesitavam em derrubar os traços medievais existentes, como castelos, palácios ou igrejas (e o nosso país bem sofreu com isso), para construir as suas particulares visões de futuro e de "civilização". Bem vistas as coisas, não admira que as suas reuniões se tenham vindo a fazer em Portugal.

 

Resultado de imagem para panteão web summit

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Lápis azul é coisa de meninos

por Pedro Correia, em 05.09.17

«As redes sociais denunciaram um caderno de exercícios da Porto Editora em que as meninas são tratadas de maneira diferente dos meninos, nas cores, no imaginário e no grau de dificuldade. As redes sociais são uma espécie de amplificador de som que ninguém ousa contrariar. Nem sequer - ficámos agora a saber - o Governo, que não hesitou em abrir o mais grave precedente de que há memória no pós 25 de Abril de 1974 da censura. Em pouco mais de 24 horas, sem comparação e sem reflexão aprofundada, nem tão pouco debate, recomendou a retirada dos cadernos do mercado editorial. Como se a questão da liberdade de género se resolvesse com o regresso ao lápis azul. Eis a política da preguiça.»

Helena Teixeira da Silva, no Jornal de Notícias (27 de Agosto)

 

«Uma editora publicou um bloco de actividades em duas versões, um para meninos e outro para meninas. Foi também fortemente criticada nas redes sociais - que é um tabefe de que ninguém está livre - e a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género com um piquinho de azul no lápis, que é coisa própria de meninos, recomendou a retirada dos livros do mercado por terem estereótipos de género. A patrulha da igualdade do governo devia saber que censurar é pior do que colocar à venda versões distintas da mesma coisa.»

Fernanda Cachão, no Correio da Manhã (29 de Agosto)

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Jornalixo científico e reflexos sociais

por João André, em 05.09.17

Há uns tempos surgiu um artigo no Independent que andou a dar a volta por Facebook e alguns blogs. O artigo do Independent, que tinha por título "Atheists are less open-minded than religious people, study claims" citava o estudo de um investigador da Université Catholique de Louvain onde este apresentava os resultados da análise das posições de pessoas religiosas e não religiosas a afirmações que analisavam a sua abertura de espírito.

 

O primeiro aspecto que na altura me incomodou foi a forma como os comentários ao partilhar a notícia do Independent (ou subsequentes) pareceram incidir apenas sobre o título da notícia, dando como adquirido que os ateus são simplesmente menos tolerantes que pessoas religiosas, assim, sem quaisquer outras considerações. As pessoas religiosas apresentaram a notícia como prova que são mais tolerantes e as não religiosas atacaram o estudo sem notar mais do que o facto de sair de uma universidade católica, como se a origem fosse automaticamente desqualificadora de rigor.

 

Em qualquer dos casos é pena. Primeiro porque o título da notícia equipara pessoas "não crentes" a "ateus" (algo que o título do artigo também faz). Depois porque qualquer conclusão retirada do artigo do independent é abusiva, dado que o artigo em si é curto, pouco informativo sobre o estudo e não apresenta as devidas ressalvas que qualquer estudo científico de qualidade deve apresentar.

 

A mais importante destas é o facto de o artigo salientar que é um estudo preliminar e que a amostra é pequena (por exemplo: os prticipantes que se declararam como ateus ou agnósticos constituíam 60% da amostra - dificilmente corresponde à realidade de qualquer sociedade moderna, por muito secular que seja. Por outro lado, os resultados indicaram que em certos indicadores, os não crentes demonstravam menos abertura de espírito a outros conceitos e noutros demonstravam mais. Ou seja, comportavam-se tal e qual os crentes: nalguns aspectos são mais dogmáticos e noutros menos. Aquilo que o artigo terá trazido de forma mais clara é precisamente o facto que os não crentes não são sempre mais tolerantes. Isto deveria ser óbvio, mas é também para isso (para provar ou contrariar a sabedoria "popular") que a ciência existe. [outras leituras sobre o artigo/notícia].

 

O que o artigo do Independent demonstra novamente em relação aos jornais é como estes estão mal equipados para tratar os assuntos científicos. Não os compreendem, lêem o essencial, fazem meia dúzia de perguntas de algibeira aos autores (quando fazem) e escrevem as conclusões mais sensacionalistas de que forem capazes. Aquilo que a disseminação do artigo vem provar, por outro lado, é que os consumidores destas "notícias" por via das redes sociais aceitam a primeira linha do cabeçalho do post, não lêem o que têm em frente, não compreendem o que lêem se o fizerem e que quando criticam o fazem através do preconceito mais à mão (neste caso: "os ateus são obviamente intolerantes" ou "tinha que ser de uma universidade católica").

 

No fundo, isto não passa do mesmo ciclo que refere o Pedro. Jornalixo, apenas aplicado à Ciência.

 

[Pequena nota: refiro o nome francês da universidade porque há duas universidades belgas que seriam traduzidas da mesma forma, a referida acima e a Katholieke Universiteit Leuven. No passado eram uma e a mesma universidade e apenas se separaram por idiomas em 1968. Penso que ainda existem sinergias entre elas, especialmente no que diz respeito a bibliotecas, administração e algumas iniciativas, mas para todos os efeitos são universidades diferentes]

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Do jornalismo ao jornalixo

por Pedro Correia, em 31.08.17

As chamadas "redes sociais" são hoje a maior rede de amplificação de mentiras no quotidiano português. Qualquer aldrabice ali posta a circular ganha eco imediato, com opiniões definitivas cavadas em trincheiras, sem ninguém cuidar da verdade dos factos.

Nos últimos dias isto ficou bem evidente na absurda polémica dos caderninhos de apontamentos pré-escolares com capas a azul e cor-de-rosa, com centenas de pessoas a pronunciar-se sobre algo que nunca tinham visto nem faziam a menor ideia do que era. Bastaram uns bitaites no Twitter para logo a bola de neve engrossar. Da "rede social" a estória saltou para todos os media e destes para um obscuro organismo oficial pomposamente designado Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, e daqui para o gabinete do ministro adjunto do primeiro-ministro, que fez um inédito apelo público à retirada desses cadernos do mercado - onde se encontravam, sem qualquer polémica, desde Julho de 2016!

 

Tudo isto em apenas 24 horas e sem que se estabelecesse uma versão contraditória: estava em curso um linchamento colectivo e ululante, passatempo favorito das "redes". Ninguém fez caso do que disse  Susana Baptista, responsável pelas publicações infanto-juvenis da Porto Editora, ninguém ouviu a autora, Catarina Águas - licenciada em Educação de Infância na Escola Superior de Educação de Lisboa -, ou as ilustradoras dos tais cadernos, Ana Valente e Rita Duque. Todas do "genero" feminino, todas profissionais respeitáveis, todas ignoradas. Como se estivesse em causa uma empresa de vão de escada e não a maior editora portuguesa, com uma reputação alicerçada em sete décadas nos domínios da pedagogia e da didáctica.

Foi preciso um humorista - neste caso Ricardo Araújo Pereira - repor a verdade dos factos para a polémica se esvaziar quase tão depressa como tinha começado. Sem carteira profissional de jornalista, ele fez o que qualquer bom jornalista deveria ter feito: apurar o que realmente se passava, sem emprenhar de ouvido.

Este episódio envergonha os jornalistas portugueses. E ajuda a explicar por que motivo todos os títulos da imprensa continuam a cair a pique, como demonstram os calamitosos números referentes ao primeiro semestre de 2017 agora divulgados pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação.

 

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Anteontem, embora com menos destaque, aconteceu uma história semelhante, também iniciada nas redes sociais. Sobre os supostos maus-tratos dados a um galo numa remota aldeia do concelho de Seia: o bicho, garantiam os arautos da pós-verdade refastelados nos seus sofás lisboetas sem nunca terem posto os pés na referida povoação, seria morto à paulada, com requintes de sadismo. Com a ave "agonizando lentamente fruto da malvadez".

Foi quanto bastou para que o PAN salivasse de indignação. A coisa meteu comunicado oficial do partido animalista, denúncias ao Ministério Público e à Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária. De imediato os órgãos de informação reproduziram tudo isto - uma vez mais, sem apurarem os factos, como mandaria a deontologia profissional.

Parecia um filme de terror. Com o ligeiro problema de ser mentira. Como a Câmara Municipal de Seia, presidida pelo socialista Carlos Filipe Camelo, se encarregou de esclarecer, desfazendo o boato. Entretanto, lamentavelmente, apenas o Jornal de Notícias tinha cumprido o dever jornalístico, estabelecendo o contraditório ao ouvir as pessoas daquela aldeia que desmentiram a atoarda sem rodeios numa peça escrita pela jornalista Madalena Ferreira (infelizmente não disponível em versão digital no momento em que escrevo estas linhas).

 

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Acontece que as redes estão-se nas tintas para a verdade. Essa "turba inorgânica", como bem lhe chama Francisco Mendes da Silva, quer indignar-se o tempo todo contra não importa o quê. Tal como os viciados em drogas duras, os junkies das caixas de comentários dos jornais - os mesmos que espalham qualquer atoarda no Twitter e no Facebook - fazem prova de vida berrando por escrito sobre assuntos acerca dos quais nada percebem, nada querem perceber e têm raiva a quem perceba.

Isto explica que as putativas agressões ao tal galo só existente na delirante imaginação do PAN tenham dado azo à habitual javardice histérica, com dezenas de pessoas disparando contra um alvo afinal inexistente.

 

Uma vez sem exemplo, aqui transcrevo algumas dessas opiniões, colhidas ao longo de 24 horas na caixa de comentários da edição electrónica do JN, para se avaliar bem o nível intelectual desta gente:

«Haja vergonha! Haja respeito por seres que sentem como nós!»

«Quais são as origens dessa barbaridade? Religião ou vudu?»

«Voltamos à idade da pedra mas da pior forma. É que nessa época matava-se para comer, agora mata-se por diversão.»

«É uma tradição de merda e já devia ter acabado.»

«Outra tradição para atrasados mentais... já não basta os doentes de Barrancos...»

«Que façam tradição com os seus familiares. Não têm que o fazer a seres inofensivos que estão ali por obrigação.»

«E que tal serem eles e a sua "tradição de caca" a levarem paulada?»

«Estes divertimentos de merda à custa do sofrimento dos animais pôem-me doente. Que tal substituir o galo pela besta (humana) lá da aldeia?»

«Sugiro para as pessoas que são a favor deste tipo de tradições seguirem a minha nova tradição: amarrar um de vocês e bater-lhes com um barrote até morrerem.»

«Podem substituir o galo pelo António Costa?»

 

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No meio deste vendaval de imbecilidades, uma  leitora ainda tentou repor a verdade: «Se há uma coisa que abomino é a falta de profissionalismo jornalístico e a política suja que se pratica no nosso pais. Para aqueles que gostam de opinar sem o devido conhecimento, informo que morte do galo é na verdade a morte do ovo: não andam à palauda ao galo mas ao ovo .»

Como era de calcular, ninguém fez caso: os "factos alternativos" são muito mais sedutores do que a verdade nua e crua.

Assim vamos andando: dispara-se primeiro e reflecte-se depois. Com o genuíno jornalismo praticamente em vias de extinção, entretanto absorvido pelas "redes". Cada vez mais travestido de jornalixo: vociferante, acéfalo, populista, irresponsável e mentiroso.

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A semente totalitária

por Pedro Correia, em 30.03.17

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Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria - e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.

Muitos apregoam os direitos humanos, havendo-os para todos os gostos e feitios, reais ou imaginários - e não falta até quem queira estendê-los aos animais e aos vegetais. Mas quanto mais se fala, menos se faz: alguns direitos fundamentais vão sendo comprimidos sem surpresa ou escândalo de ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, hoje ameaçados de modo quase irreversível numa sociedade que elege o narcisismo exibicionista acima de tudo o resto.

O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas "redes sociais" funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público.

 

Um misto de apatia, hedonismo e alheamento cívico caracteriza muito do comportamento dominante no mundo ocidental. E ajuda a explicar esta permanente sensação de crise larvar, que ultrapassa em larga escala o plano económico. É uma crise de valores, que o fundamentalismo islâmico procura colmatar à sua maneira apelando ao instinto gregário e aos códigos tribais em decomposição nas chamadas sociedades "evoluídas".

Isto tem uma capacidade de sedução que ultrapassa largamente o círculo de convertidos, seduzindo novas hordas de fanáticos em potência desprovidos de valores alternativos.

 

Quem não perceber isto nada percebe de essencial.

Como há-de o Estado - mesmo o Estado democrático - respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Como se a semente totalitária não estivesse já no meio de nós.

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Nem-Nem

por Diogo Noivo, em 28.02.17

As redes sociais aproximam as pessoas de uma forma inovadora e surpreendente. Além de encurtarem distâncias e de superarem barreiras culturais, as redes sociais ligam indivíduos que, de outra forma, jamais coexistiriam sob um mesmo tecto. Por vezes, a ligação oferecida pela experiência em plataformas como o Twitter ou o Facebook é de tal forma intensa que, mais do que ligar pessoas, opera ligações dentro delas. Nomeadamente ligando-lhes o cérebro ao duodeno.
Estou consciente que a afirmação anterior é tudo menos consensual pois, argumentarão alguns, a ligação directa da massa encefálica ao tracto gastrointestinal é muitas vezes uma condição pré-existente que as redes sociais apenas potenciam. Seja como for, as consequências são palpáveis – e lamentáveis. Nas redes sociais, a reacção antecede com frequência a compreensão. Legiões imolam-se em retórica inconsequente sem perceberem bem porquê. Como escreveu Miguel Tamen, nunca o intervalo entre espasmos e prosa foi tão curto.
Alguns jornais aproveitam-se do estado de catatonia funcional dos nativos digitais, não para trazer alguma elevação à arena, mas sim para tirar partido da idiotia. O método mais habitual designa-se clickbait, em tradução livre «engodo para clicks», e visa captar clicks e visualizações, dois elementos essenciais para definir o preço da publicidade – e, assim, as receitas do jornal. Em regra, o clickbait assume duas formas. Primeiro, e sabendo que os conteúdos partilhados nas redes sociais raras vezes são abertos, os jornais recorrem a parangonas que agitam curiosidades. Por exemplo, uma notícia titulada “O novo amor de António Costa” uma vez aberta dá conta ao leitor que o Primeiro-Ministro descobriu a sua paixão por sushi ou pela chanfana.
A segunda expressão de clickbait, especialmente desonesta, recorre a títulos que instigam indignações fáceis. Mais do que teorizar sobre esta segunda abordagem, proponho que olhemos para uma ‘notícia’ publicada há dias pelo jornal i. Lê-se no título que “Jovens que não estudam nem trabalham vão receber 700€ mensais de subsídios estatais”. Logo, todos os jovens que não trabalham nem estudam vão receber 700€ do Estado. Avançamos para o lead e confirmamos o título. Por outro lado, a fotografia que ilustra a ‘notícia’, e que é todo um tratado sobre mensagens subliminares, mostra jovens ociosos que aparentam ter uma vida folgada, ficando portanto implícito que vivem à conta de terceiros. Isto é, à primeira, à segunda e à terceira vistas tudo indica que o Estado vai sustentar todos os jovens portugueses que não trabalham nem estudam. Como seria de esperar, a notícia provocou revolta ardente e generalizada nas redes sociais.
Contudo, lendo o texto na íntegra, ou socorrendo-nos de notícias a sério sobre o mesmo tema, como esta do Observador, percebemos que se trata de um programa de apoio ao empreendedorismo de jovens que não trabalham nem estudam – habitualmente designados em Portugal como jovens “nem-nem”. Para aceder ao programa, estes jovens têm de cumprir um conjunto de requisitos, como ter concluído o ensino obrigatório, têm de se candidatar, têm de apresentar os seus projectos, têm de ser seleccionados, e só então poderão aceder aos apoios disponíveis. Importa referir ainda que o programa tem 315 vagas, um número inferior aos cerca de 300 mil jovens portugueses que estão sem trabalho e que não estudam. Em suma, a realidade dos factos é substancialmente diferente daquilo que nos é sugerido pelo jornal i.
Tudo contado e somado, percebemos que o texto publicado pelo i espelha, porventura por simpatia, o tandem sobre o qual versa: nem é um trabalho respeitável nem mostra estudo deontológico.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 03.02.17

«As redes sociais transmitem a imagem de um povo constantemente furioso, absurdamente furioso. A massa é de tal forma caótica, disforme e precipitada nos julgamentos que se neste momento o poder passasse para as redes sociais não havia poder. É um pouco como o nosso mundo: um mundo que demonizou o poder. Tudo isso não é saudável para a esfera pública. As redes sociais são uma espécie de "Queda da Bastilha" do nosso tempo. Aquele "povo" é um povo propagandeado e indignado. Tudo em pé de igualdade, a dizer qualquer coisa. Mas é óbvio que as coisas que se dizem não têm todas o mesmo valor.»

Pedro Lomba, no Jornal Económico

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