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A tia da linha

por José Navarro de Andrade, em 21.05.13

Catherine of Austria (1507–1578), Queen of Portugal

Alfonso Sánchez Coello, "Catarina de Áustria, Rainha de Portugal", circa 1550

 

As “tias da linha” são uma estirpe urbana, de classe média-alta (tipo A/B) com habitat preferencial na região de Lisboa. Na sua grande maioria são do género feminino, mas foram detectados fenótipos desta índole noutros sexos.

A estirpe manifesta-se ao correr de três sintomas, a saber: uma segurança absoluta nas suas opiniões, concorrente com uma grande superficialidade fenomenológica dessas mesmas opiniões e uma arrogância social tanto mais acentuada quanto mais distante da vida comum. Dado o carácter um pouco evanescente da sua caracterização, as “tias da linha” são muito copiadas e falsificadas, pelo que a autenticidade só pode ser apurada mediante um processo científica denominado “interrogatório”. É no acumular de dislates, petulâncias, trejeitos classistas, mas sobretudo por um tom de voz despachadíssimo, altissonante e peremptório, que os peritos confirmam a legitimidade de um indivíduo como integrante na estirpe.

As “tias da linha” podem irromper de súbito e assumindo formas inesperadas, às vezes em aparente contradição com o que delas é expectável. Um caso muito discutido recentemente tem sido o da Doutora (por extenso) Raquel Varela (DRV). Alguns estudiosos ficaram surpreendidos por DRV perfilhar um dos alelos da célula trotskista, o que deveria situá-la mais ou menos do lado esquerdo do espectro político. Para esses especialistas, semelhante ideologia, ao manifestar-se no seio de uma grelha comportamental, mental e emocional, tipicamente de “tia da linha” faria de DRV uma impostora. Outros estudiosos, porém, não cessam de apelar à abertura de espírito, declarando que DRV em tudo se conforma ao estereótipo da “tia da linha” e não será por um pormenor de somenos que o deixa de ser. Senão veja-se:

1. A pose altiva de grande senhora gentrificada, equidistante em partes iguais da modéstia plebeia, da contenção dos nobres de espírito e da sincera curiosidade científica (baseada na dúvida). Pose essa ornamentada por todos os tiques de indumentária e estilo de vida distintivos da classe média-alta (automóvel de boa marca, casa com quintal, echarpes evanescentes ou o little black dress de Chanel; dados que DRV exibe e refere nalguns dos seus panfletos).

2. Uma irresistível tendência opinativa, estribada em rasos lugares comuns expelidos como verdades insofismáveis. Opiniões, acresce, reveladoras de uma relação com a realidade equívoca e disfuncional, própria dos alienados sociais.

3. Um falar em público taxativo, impiedoso, e de supina soberba, tanto mais acentuado quanto mais lunática é a opinião expressa.

Até este momento ainda não é cabal o esclarecimento se a Doutora (por extenso) Raquel Varela é uma fraude ou simplesmente néscia, mas a investigação prossegue.

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