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Delito de Opinião

Pensamento da Semana

jpt, 17.10.21

O léxico é importante. Importantíssimo. Desde que na semana passada foi atribuído o Nobel da Literatura a Abdulrazak Gurnah que vai por aqui e acolá uma acesa discussão. Escritores e proto-escritores, literatos e candidatos a tal estrado, e até jornalistas, botam sobre a "condição" "identitária" do premiado, questão que consideram sumamente importante. Nessa já polémica duas características partilham os opinadores: nada leram do autor; confundem "representante" com "representativo". Insisto, o léxico é importante. Importantíssimo. E mais o deveria ser para estes núcleos de "identidade" laboral.

ADENDA: (meu pensamento do ano) Sobre este assunto a Lusa (agência noticiosa estatal) noticiou que Gurnah é o primeiro escritor africano a receber o Nobel nos últimos 30 anos, saudando que ele "quebrou o "jejum", depois do nigeriano Wole Soyinka ter sido laureado em 1986". O facto de que em 2003 o prémio tenha sido atribuído a Coetzee - um daqueles raros casos em que é curial afirmar ter o Nobel sido galardoado com o Prémio Coetzee - é apagado. Não se trata de um erro, até porque o escritor é muito conhecido e bastante traduzido em português. E porque também apagam os anteriores Mafhouz (1988) e Gordimer (1991). É mesmo uma proclamação, a invectiva ao "branco" - a usual e lamurienta auto-invectiva, neste caso da agência estatal portuguesa. E é essa a sede desta pobre polémica de aparência literária: do que toda esta gente anda a falar é de "raça". Cada um com os seus dislates. A quererem-se assertivos. A assertividade da vacuidade.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pedir desculpas pelo passado nacional

jpt, 12.10.21

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Há pouco mais de uma década o Presidente Cavaco Silva realizou uma visita de Estado a Moçambique. Como é prática nessas ocasiões fez-se acompanhar por uma alargada comitiva: políticos, empresários, quadros da administração pública, agentes de produção cultural. No vasto programa constava um colóquio na universidade na qual eu trabalhava, dedicado à importância da língua portuguesa, o qual contou com a participação de destacados intelectuais moçambicanos (alguns dos quais foram então condecorados) e portugueses. 

A actividade decorreu na ampla sala do centro cultural universitário, um antigo cine-teatro com largas centenas de lugares. Os professores haviam sido convidados, os alunos mobilizados, a sala estava apinhada. Eu sentei-me bem lá no fundo, para fruir descansadamente o meu uniforme de "jeans" puídos e polo desbotado. Um dos painéis constava de alocuções de escritores consagrados, locais e portugueses - estes ali pois inseridos na comitiva oficial da visita de Estado. E assim, porque isso aceitando e liberdades criativas à parte, surgiam assumindo um difuso papel de representantes da sua área laboral, por episódico que fosse esse seu encargo.

 

 

O fascismo ao virar da esquina

jpt, 30.09.21

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No ressalto das eleições autárquicas li muitos (comentários em blog, comentários no meu mural de FB, postais de FB e twitter, textos de imprensa) horripilados com a quantidade de votos no CHEGA do prof. Ventura. Ouço gemidos pungentes, "tiveram 600 votos na minha freguesia", "1050 no meu concelho", "têm um vereador", etc. Foi assim criada uma alteridade escatológica, a Besta (Imunda). E proclamado que face a esses 4% momentâneos nos deveremos unir pois, como disse Niemöller (que alguns chamam Brecht), "quando o CHEGA veio buscar os ciganos, eu fiquei em silêncio (...), quando eles prenderam os subsídiodependentes, eu fiquei em silêncio" e por aí afora.
 
A razão desse imparável movimento, que em breve assumirá o poder com maioria absoluta, deveria ser-nos clara, até porque nos vem sendo anunciada na "imprensa de referência": é a malvadez ontológica da população portuguesa, emergida de um fundo sociocultural desde sempre ancorado num racismo extremo e numa total intolerância. Pérfidas características nas quais somos líderes mundiais, quando muito ex aequo, como o comprova o culto quotidiano que prestamos a Afonso de Albuquerque, Pacheco Pereira (o Duarte, não o José...), a Sá da Bandeira ou a Humberto Delgado (digo, Norton de Matos). E que agora sobreelevará o infausto Ventura e o seu partido.
 
E nisso, nesse remanso intelectual, seguem tantos de nós muito descansados. Sem lhes passar pela cabeça que a irritação do "Basta desta merda" que leva ao "Chega!" vive de banqueiros fraudulentos que se baldam à prisão após processos de décadas, de políticos com eles conluiados, de jornalistas clamando Super-Martas ou de académicos louvando o PEC4.
 
Arejemos isto. E abandonemos estes trastes opinadores. E a tal putativa Besta Escatológica finar-se-á.

A representação olímpica portuguesa

jpt, 07.08.21

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Vai uma resmunguice com a nossa representação olímpica nacional, ainda que os resultados até sejam algo melhores do que o habitual. Pois a alguns custa-lhes a origem dos atletas. A vitória do luso-cubano Pichardo é desprezada pelos comunistas do PCP: o seu ex-eurodeputado Miguel Viegas, e agora candidato a Aveiro, insulta-o de "paraquedista" e na RTP (o serviço público), já pós-medalha de ouro, um qualquer castrista ali funcionário insultou-o de "desertor". Entre os apoiantes de "Fidel" (PCs e tantos outros geringoncicos) ninguém se ergue no agora tão habitual "denuncionismo" - se alguém disser em público que Patrícia Mamona é lindíssima logo será apupado como "sexista", dada esta mentalidade da "esquerda" actual. Mas que um comunista da RTP chame "desertor" a um atleta passa incólume.
 
Mas o patrioteirismo racista não está só nessa gente "roja", pois entre o "povo comum" (a velha "maioria silenciosa", aquela do "a minha política é o trabalho") também muito se vai resmungando contra a composição da equipa olímpica. Entre esses Bessone Bastos, lenda do desporto português, antigo olímpico, e Prémio Stromp do Sporting - e isso é agora insustentável para o clube, que terá de se pronunciar -, afirma que a nossa única medalha é a do branco (Fernando Pimenta). E este lixo anda por aí.
 
Entre os (espero que muitos) que se abespinham com estes dislates também não vinga grande clareza. Vejo gente que afixa, com boas intenções (demoníacas, como bem se sabe), as caras dos medalhados negros intitulando-os "portugueses de bem", querendo pontapear a tal "maioria silenciosa", os fascistas do prof. Ventura. Ora, de facto, isso é o contrário do que deve ser dito: "portugueses" somos todos, os por ascendência, por sítio de nascimento ou por "naturalização" (de facto, por nacionalização). Não é preciso ser campeão, excelente. Alguém que vem de fora e que se "nacionaliza", dentro da lei, tem todo o direito a ser medíocre, incompetente, até mariola, mediano e, excepcionalmente, excepcional, como todos nós, os outros que já cá estávamos. Porque esses racistas ao ouvirem isso dos "campeões serem de bem" dirão que "esses sim, agora os outros" (a tralha tal qual todos somos) "é que não os queremos".
 

Quando há cinco anos o luso-guineense Eder marcou este golo toda a gente se atirou ao ar, mas não por causa das suas origens ou fenotipo. E termos sido campeões europeus tendo como melhor jogador (de todo o torneio, já agora) o luso-brasileiro Pepe - que para cá imigrou no final da adolescência -, também não chocou ninguém. Bem pelo contrário. E é isso relevante porque, dada a futebolização do país, a selecção convoca mais paixão identitária do que os judocas, nadadores ou afins olímpicos. Mas também antes ninguém se erguera contra os triunfos do luso-nigeriano Obikwelu ou do luso-cabo-verdiano Nelson Évora.
 
Isto bem demonstra que as estratégias confrontacionais dos demagogos de extrema-esquerda (a inefável Moreira com meia primeira página de hoje do boletim "Público" bem o sublinha) e dos de extrema-direita está a surtir efeitos, crispando a sociedade, reinventando velhas imbecilidades.
 
Ainda assim é agora o momento de criticar as federações desportivas pelas formas como se querem representar. Uma coisa é incluir ex-imigrantes, formados ou maturados no país, nas representações desportivas nacionais. Outra coisa, completamente diferente, é incluir atletas olímpicos dos seus países de origem, transferidos para as nossas selecções. Os casos de Lorène Bazolo (luso-congolesa) e Auriol Dongmo (luso-camaronense) são óbvios. Tudo isto é fluido, e as senhoras que se naturalizaram portuguesas têm todos os direitos de cidadania. Mas também os têm nos seus países de origem, e podem continuar a representar aquelas selecções. Mas o que o nosso Comité Olímpico e as nossas Federações fazem é aproveitar as contratações dos nossos clubes (Benfica, Sporting, etc.) para "enriquecer" a nossa representação olímpica. E isso é outra coisa, pois para esse tipo de competição internacional existem os clubes.
 
Sabe destes processos de contratação para as selecções nacionais, tornadas veros clubes, quem acompanha o futebol (desde que os países do Golfo começaram a nacionalizar em barda jogadores estrangeiros), o raguebi (com o abastardamento do estilo de jogo da França, por exemplo), ou no atletismo (com os africanos convocados pelos tais países do Golfo). E esta é uma preocupação que nada tem a ver com "raça" (esse vil mito que continuam para aí a guinchar, uns e outros) nem com patrioteirismos bacocos. Nem com o castrismo.
 
Quais são os limites da integração de ex-estrangeiros nas nossas equipas nacionais? Não sei bem, decerto que serão fluidos. Mas contratar atletas das outras selecções não é a via. Nem nacionalizar uns tipos porque nos dão jeito para aquela posição/especialidade. Para quem perceba de futebol: não é convocar o Liedson e o Dyogo Sousa. Independentemente de onde vêm e de que cor têm.

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 04.07.21

Tenho pena que quando se fala de racismo se feche o ângulo sobre a história que envergonha os brancos e não se diga tudo: que o racismo também grassa entre as outras raças e que hoje ainda há escravatura, exercida de negros sobre negros, em África. Seria uma abordagem mais honesta e transparente. Teria a vantagem de não cavar trincheiras, com vítimas sempre da mesma cor de um lado e verdugos sempre da mesma cor do outro, algo que potencia o ódio de parte a parte. Melhor ainda, interpelaria cada um de nós, independentemente da raça, sobre o papel que queremos desempenhar neste combate, que deve ser da humanidade contra um dos seus atavismos, o preconceito racial.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

"Impedidos de beber café ao balcão"

Pedro Correia, 05.04.21

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Vivemos no tempo das lamúrias e das queixinhas. Que, mesmo quando não existem, são inventadas para efeitos jornalísticos.

Leio no Expresso (destaque de páginas centrais, na última edição) que alguns chineses residentes em Portugal se sentem melindrados ao ouvirem designar por "vírus chinês" esta pandemia que já provocou mais de 16 mil vítimas mortais no nosso país - o presidente da Câmara de Viseu, ontem falecido aos 59 anos, foi uma das mais recentes. 

Não entendo esta queixa. Se o vírus que tem feito paralisar o mundo - com um rasto de quase três milhões de mortos e mais de 130 milhões de infectados à escala global - começou na China, denominá-lo pela origem geográfica não é matéria de opinião: é questão de facto. Estigmatizados devem sentir-se os espanhóis, ao verem ainda baptizada de "gripe espanhola", mais de um século depois, a pneumónica que causou dezenas de milhões de vítimas entre 1918 e 1920, sem que a sua origem nada se relacionasse com Espanha.

 

Chegamos ao ridículo de ouvir contínuas alusões à "estirpe inglesa" do coronavírus, ou à "variante sul-africana", ou à "variante do Brasil", sem que isto suscite acusações de "discriminação" ou "xenofobia", enquanto se silencia o ponto geográfico inicial da Covid-19 para cumprir a etiqueta politicamente correcta. 

E ainda assim alguns chineses se queixam.

Mas queixam-se afinal de quê? E queixar-se-ão mesmo?

 

Recorro ao Expresso. "Há casos de imigrantes chineses impedidos de beber o café ao balcão, por receio de contágio dos empregados", destaca o jornal em maiúsculas. Deixando-me mais perplexo.

Então não temos estado todos impedidos de "beber café ao balcão", durante estes 14 estados de emergência?

Então os imigrantes chineses, oriundos do país que mais produz e consome chá no mundo, desatam a beber bicas ou cimbalinos mal chegam a Portugal?

E são eles que receiam ser contagiados pelos empregados, como esta "escrita automática" dá a entender, ou o contrário?

 

O semanário cita, como fonte identificada, o director de "um jornal chinês em Portugal, o Europe Weekly" (curioso nome "amaricano" para um jornal publicado por chineses no nosso país), que só admite haver "um ou dois episódios esporádicos" de alegada xenofobia. O empresário Y Ping Chow, líder da comunidade chinesa aqui radicada, assegura nunca ter havido agressões. Ao vigilante SOS Racismo "não chegou nenhuma denúncia por parte de membros desta comunidade".

Mesmo assim, o Expresso reserva duas páginas ao tema, sob o título bombástico "Pandemia desperta racismo contra chineses". E transforma um caso isolado, de um suposto estudante chinês que terá sido atingido "com excrementos na cabeça" (!), sabe-se lá por que motivo, num plural em antetítulo sob a cabeça "discriminação", também em caixa alta.

 

Viesse isto noutro periódico e estariam alguns a gritar contra o jornalismo tablóide. Mas como surge estampado nas centrais do Expresso, deve ser um louvável exemplo de "jornalismo de referência". Seja lá o que isso for.

Malvada história de maldita gente

jpt, 14.03.21

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Amiga envia-me ligação para programa radiofónico: o vice-presidente da Associação de Professores de Português e um antigo secretário de Estado da Cultura, antigo director de jornal e reconhecido romancista dialogam sobre o "racismo no "Os Maias" de Eça de Queirós", contestando as recentes acusações de uma doutoranda estrangeira pertencente à universidade norte-americana classificada em 217º lugar no rol universitário daquele país. Esta gente tem a cabeça onde? 

Amigo-FB envia-me ligação para um artigo de investigadora anglo-portuguesa, denunciando o silêncio português sobre a história nacional e a manutenção daquilo que considera ser a visão imperialista emanada do fascismo - implicitando a inexistência de historiografia posterior e da sua difusão pública e pedagógica durante os últimos 30-40 anos, e denunciando mesmo que há um centro comercial "Vasco da Gama" - e clamando sobre a necessidade de dar visibilidade ao comércio de escravos. O texto é publicado num canal público do Catar. Esta gente não tem pingo de vergonha. 

(Em cima, retrato de D. Afonso Henriques - figura a ser "desconstruída" e "intervencionada" - em quadro de Eduardo Malta - pintor a ser vituperado -, feito para a Exposição de 1940 - acontecimento a ser denunciado)

Remover Padrão e afins...

jpt, 24.02.21

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Vem aí a Primavera. E a bazooka financeira europeia, cujas virtudes indutoras não nos vão sendo aventadas, enquanto a sua fiscalização alhures foi já algo acautelada. A prevenção invernosa da epidemia foi uma catástrofe. O início da vacinação foi algo atrapalhado, com uns mariolas do poder a palmarem umas doses para uso próprio. Sob uma ministra da saúde que tende a considerar criminosos os que se lhe opõem, as críticas a tal desatino são consideradas antipatrióticas. Com tudo isso concorda um punhado de intelectuais, ditos antifascistas, que, ao consagrado estilo de José Sócrates, se erguem contra "as perguntas do Correio da Manhã", apelando ao controlo dos meios de informação e ao descarado expurgar de críticas ao governo - entre outros surgem escritores (atrás de minha casa a escola chama-se Alice Vieira, estamos a formar crianças no respeito a uma censora e isto vem pacífico à sociedade); académicos (notória a presença do abissal CES nesse painel de patrióticos censores), ou o antigo e a actual directores do Museu do Aljube (estes dois militantes do PCP nem têm o pudor de tentar fazer esquecer o execrável vínculo  nepotista que manusearam na conquista daquele lugar na administração pública). Entretanto outras coisas menores vão acontecendo: a TAP intervencionada soçobra, com o autoproclamado "corajoso" Pedro Nuno Santos aos comandos da aeronave; ninguém atenta enquanto o engenheiro Sócrates jagoza sem acusações que se vejam; e o banqueiro do regime constata, decerto que aliviado, que nunca será Fouquet. O ministro da Educação incumpre sonantes e repetidas promessas. Os profissionais do sector cultural, na maioria de mundivisões "à esquerda", constatam - talvez antipatrioticamente - o tipo de ministra que lhes coube em tutela. E, lá bem no fundo, até pouco relevante, a economia nacional é uma "devastada armada" e mesmo que o infame Passos Coelho nos mande emigrar não há, agora, quem e onde nos acolham...

No meio de todo este deserto de problemáticas, a actualíssima "questão colonial" veio congregar atenções, catapultadas pela investida do codicioso dr. Ba, que o demonstra poderoso ariete do "team" governamental, qual Ibrahimović (eu preferiria dizer Lukaku, até pelo seu extraordinário desempenho no último derby milanês, corolário do recente conflito pessoal entre os dois magníficos avançados. Mas decerto que, face às sensibilidades actuais, alguns diriam "racista" essa minha analogia), capaz de driblar atenções e preocupações da "moldura humana", em épocas transactas dita, e temida, "eleitorado volátil".

É no âmbito desta "operação racial" que a remoção do Padrão dos Descobrimentos lisboeta acaba de ser colocada a debate público pelo Partido Socialista, por intermédio de um dos seus deputados à Assembleia da República. Passada uma semana dessa proposta o carácter partidário - e não meramente pessoal - desta iniciativa torna-se notório, mesmo evidente, face ao silêncio (sempre ele anuência) que colheu da direcção do PS e, também, do presidente da Câmara de Lisboa, até porque este figura grada do partido e sempre dito putativo seu futuro líder. Para confirmar a dimensão partidária deste novo conflito político - e não meramente "questão cultural", como alguns resumem - logo de seguida o PAN, um dos partidos que sustentam o actual governo, propôs a remoção de pinturas da Assembleia da República, devido aos motivos históricos que nelas constam. Pois dirá o dr. Costa, e seus fiéis correligionários, antes discutam a "Pátria" de antanho do que façam críticas antipatrióticas actuais. Ou seja, que digam mal do governo, como é timbre desta plebe viciosa e desrespeitosa.

Enfim, desabafo feito, digo ao que venho. Será curial mas não muito elegante aproveitar este blog para chamar a atenção para textos no meu blog pessoal, o discreto Nenhures. Mas faço-o hoje. Pois a propósito deste "bota-abaixo o Padrão" o meu amigo Tiago Matos Fernandes - que conheci há décadas em Moçambique, onde trabalhou como voluntário e depois investigou para a sua excelente tese de mestrado -, botou um belíssimo texto no facebook, "o mundo num postal de facebook" como lhe disse. O Tiago pouco ou nada concordará com o ditirambo que eu aqui acima coloquei. Mas ainda assim deixou-me colocá-lo lá no Nenhures. Não o coloco aqui pois é algo longo para um blog colectivo e generalista. Mas muito o recomendo e por isso convido os leitores do DO a lerem-no: Enquanto Vasco da Gama dormia.

 

A semana do Império

jpt, 23.02.21

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(Metangula)

 
A morte de Marcelino da Mata reanimou a discussão sobre a memória imperial e seus efeitos actuais, e tornou a semana passada numa verdadeira semana do Império. Muita coisa oca foi escrita. O assunto serve para o jogo político. Nesta matéria desde 2019 que eram notórias as tácticas do PS, utilizando-a para minar a influência do BE na esquerda urbana. Algo que agora se tornou explícito, nas patacoadas de deputados socialistas (derrube do Padrão dos Descobrimentos, lamento pela relativa placidez do 25 de Abril, apagamento ou elisão de pinturas alusivas às navegações portuguesas) cavalgando a agenda dos activistas identitaristas. Ou seja, à promoção socialista do Livre e à posterior cooptação da sua ex-deputada, sucede-se o rapto do radicalismo discursivo desta "causa". Em futebolês dir-se-ia que o PS adoptou agora a "pressão alta". Não tanto sobre os resquícios materiais e intelectuais do colonialismo mas sim sobre os codiciosos arietes identaristas ainda sitos no plantel do BE.
 
Para muitos académicos e afins é agora necessário, meio século depois do fim do Portugal colonial, afrontar os resquícios do Estado Novo, materiais e intelectuais. E nisso refutar o "lusotropicalismo", essa síntese enviesada feita após 1950 por Gilberto Freyre e intelectuais portugueses, justificativa do colonialismo, e a memória das navegações de XV-XVI, dos "Descobrimentos".
 
Ora nós podemos perfeitamente viver com parcelas do legado cultural (e propagandístico) do Estado Novo. Como muito bem acaba de lembrar Helena Ferro de Gouveia o Castelo de São Jorge (e tantos outros castelos) que conhecemos são reconstruções - propagandísticas, construtoras de "identidade nacional" - do Estado Novo. Vamos (re)arruiná-los, para nos purgarmos da mundivisão salazarista? E podemos perfeitamente louvar os extraordinários feitos quatrocentistas e quinhentistas, e considerá-los parte fundamental da construção do país - todos os países têm um discurso mais ou menos dominante sobre si mesmos. Não uso qualquer sarcasmo, mas que diríamos se a Ordem dos Dentistas viesse questionar a celebração das navegações devido ao escorbuto que grassava entre as equipagens? Afirmando que tal é um atentado à higiene bucal, de efeitos perniciosos à actual saúde pública? Não se pode respeitar os espantosos feitos científicos e técnicos e a fibra dos participantes enquanto se lavam os dentes e se tem alimentação apropriada?
 
A grande questão é outra, não é afrontar os discursos de até há meio século, o tal "lusotropicalismo" do Estado Novo. Mas sim reflectir nos discursos que esta II República promoveu sobre o país, sua realidade e seu futuro. Ou seja, que discurso sobre si-mesmo produz o país, para além do corolário europeu e do gemido lusófono? Estruturante foi a produção da visão da "Lusofonia" como enquadradora do país. A qual reflecte e refracta o tal "lusotropicalismo" mas a isso não se restringe. É um produção dos intelectuais actuais, em particular dos ligados ao Partido Socialista finissecular, herdeiros do republicanismo. Na ânsia de se proclamarem "antifascistas" os intelectuais de hoje elidem isso, e fogem à crítica radical da produção actual. E os políticos ainda mais: tem algum sentido um mariola deputado propôr o derrube do Padrão dos Descobrimentos e esquecer-se de propor a renomeação da Ponte Vasco da Gama? Não, é apenas uma boçal demagogia. Mas também simboliza a ausência de questionamento do ambiente intelectual actual.
 
Acabo de reler um pequeno livro, "Este País Não Existe", colectânea de textos de jornal, com autores insuspeitos de lusotropicalices, com Bethencourt, Ramada Curto, Castro Henriques, entre outros. E no qual está um artigo de 2007 de Alfredo Margarido (do qual ainda tenho o recorte do original), devastador do discurso da lusofonia. E é significativo dos limites da análise crítica (re)ver que um dos organizadores, Nuno Domingos (que trabalhou sobre Moçambique), reduz as críticas ao Acordo Ortográfico a um irredentismo saudosista da "gesta" pátria. E que nessa colectânea, que abrange textos sobre variadíssimos temas ligados às representações sobre o país e sobre a memória colonial, ninguém tenha abordado esse AO 90. O que denota a incapacidade (ou a falta de vontade) de olhar para como a II República, em particular os intelectuais de extracção republicana e sediados no PS, pegaram no projecto explícito de Salazar de compor um comunidade de língua e sentimentos - a reforçar e perpetuar por uma homografia. E continuaram-no.
 
Ou seja, a questão não é discutir o tal Estado Novo, findo em 1974. Mas sim a II República, vigente. Não é discutir o "lusotropicalismo". Mas sim a "Lusofonia". E nisso não só debater os seus conteúdos programáticos. Mas também as suas práticas. E os arranjos estatais em seu torno: e nisso perceber que muita gente se afixa avessa ao "lusotropicalismo" mas produz, reproduz e recebe (d)a lusofonia.
 
Enfim, vou buscar a minha memória. Contactei com ("levei com", no jargão) o arrivismo ignaro e a pesporrência da administração cultural socialista lusófona. Antes ainda dos textos de fins de XX de Margarido ou Lourenço, devastadores da ideologia lusófona. Quando Castelo publicou o seu estudo tornado canónico sobre o lusotropicalismo. Bloguei no ma-schamba durante 12 anos: tenho aí 167 postais com a etiqueta "lusofonia", quase uma monomonia. Sobre a ignorância, a patetice, o atrevimento da administração estatal, da imprensa, da academia. Lusófonas.
 
Não me venham assim criticar o defunto Estado Novo. Mas sim ser verdadeiramente analíticos: do presente. Da chamada intelectualidade de esquerda - há três décadas a viver de lusofonices. (E não me chamem "ressentido": fui eu que saí desse gravy train. Apeando-me de uma carruagem de primeira classe).
 
Para ilustrar tudo isso, deixo ligação a dois textos antigos do ma-schamba, neste postal e num seguinte. Sobre as lusofonices. De 2002. Forma palavrosa de mandar à merda estes deputadozecos socialistas. Mais as professorazinhas que vão à TVI dar-me e dar-nos lições de literacia, para cobrir de elogios "o Mamadu". O primeiro escrevi-o em Mandimba, na primeira vez que fui ao Niassa.
 
 

"On disputa um peu sur la multiplicité des langues, et on convint que, sans l'aventure de la tour de Babel, toute la terre aurait parlé le français (...) car [on] supposait qu'un homme qui n'était pas né en France n'avait pas le sens commun

                                                                                                                                              (VoltaireL´Ingénu, 1767)

Noite! Finda a semana de chuvadas junto a exaustão do burguês envelhecido, que já se desconforta no mato, ao vazio que me esperaria nas ruas lamacentas da vila. Rôo a galinha do jantar e logo me afundo diante da RTP-África, ali deixada como respeitosa simpatia para comigo. A ela não me nego, pois aos outros sempre parece estranho aquele que recusa um pouco da sua longínqua terra, como se a ela devesse algo e não quisesse que lho recordassem.

Assim acomodado deparo com o inesperado símbolo do Instituto Camões, patrocinando um qualquer programa que aí vem. Apenas alguns segundos, mas anormalmente longos em TV. E quão estranha é a nossa mente, aqui junto ao Malawi e à vista dum antigo patrão de imediato se me associam ideias, mais rápidas do que o dizê-las. Sinto como o mundo muda, como se me mudou, eis-me agora, ainda que por alguma preguiça arredia ao “banho macua”, sujo, enlameado e, para mais, pouco abonado. Também um bocado liberto, é certo, mas não entrei em valorações. Apenas sensações.

Ao mesmo tempo a surpresa do inédito leva-me a um abrupto e mudo resmungo, um “que raio é isto? Só podem ser coisas da lusofonia …!”, logo confirmado nas imagens. Já estou a sorrir quando surge, como não podia deixar de ser, algo chamado “Contos Tradicionais da Lusofonia”, e hoje nem de propósito é um “Conto Tradicional Tsonga”. Iberos de Gaza, presumo eu!

E bem acondicionado se apresenta o dito, ali adaptado por um “poeta laureado”, antigo nome daqueles que depois, e até há pouco, se tornaram em desejados “intelectuais orgânicos”. Títulos aos quais, no entanto, continuo a preferir o de “escravo grego”, o cujo sempre me aparece com a cara do James Mason, sem que eu perceba bem porquê! Ainda para mais porque é imagem nada condizente com a figura incomodada e algo desalinhada que conheci em tempos a este ilustre autor e adaptador. Mas como criticá-lo, eu que já andei a organizar festivais da Francofonia? Puta fina ele, de esquina serei eu próprio.

Adianto-me e venho cá para fora fumar, a noite não será estrelada mas pelo menos não chove, e fico-me a matutar neste lusófono absurdo. Que é um absurdo desejado, procurado, planificado. Não será ele tão evidente que baste narrá-lo para afirmá-lo? Ou será assim tão subtil que outros não o vejam como tal? Enquanto se me acaba o cigarro ocorrem-me fragmentos passados de lusofonia, que deixo correr sem requebros de formas, para não contrapôr a essa hipotética subtileza uma qualquer outra.

Há uns anos foram publicados em Portugal os resultados do censo moçambicano. Logo me telefonou para Maputo uma angustiada jornalista inquirindo a minha opinião sobre o facto de apenas, e sublinhava o apenas, 6% das pessoas afirmarem o português como língua primeira. Fui-lhe dizendo que tal me custava a acreditar, palavras que a sossegaram lá no outro bocal, breve calmaria antecâmara do espanto quando fui continuando, que talvez fossem exagerados os números, porventura alguns teriam reclamado o português como natal sem o terem, como um bem de prestígio social. Timbre alterado, tendendo então para o agudo, murmurou, aflita, a radiofónica voz “Então em que língua falam as pessoas? Em inglês?”. Ah, uma menina que nem nos antigos gregos, ouvindo de soslaio o brabrabra dos bárbaros vizinhos. Adiante.

Passado um ano, o já referido Camões editou uma revista dedicada à cultura moçambicana, a qual aqui foi lançada com grande pompa, no seio de grande iniciativa e de inúmeras personalidades autorais, uma imperial embaixada de lusófonos inteligentes. Para nela ser incluída encomendou uma entrevista alusiva ao então Ministro da Cultura local, o qual logo aproveitou para reafirmar, com veemência de ministro, a bantofonia do seu país e da(s) cultura(s) que o gera(m) e vive(m). A afirmação, em si mesmo óbvia – analisemos depois em que consiste a bantofonia, s.f.f. – assumiu, no entanto, estatuto de indizível em lusas terras. Decerto que devido a esse atrevimento, e apesar da sacrossanta democracia, volatizou-se a citada entrevista. Censura? No nosso Estado?Adiante.

Passou-se mais um ano. Como manda a tradição, uma Universidade moçambicana organizou na abertura do seu ano lectivo uma Oração de Sapiência, da qual se encarregou um eminente catedrático brasileiro. Este, aproveitando a sala repleta, lançou-se numa violenta catilinária contra o capitalismo globalo-americano e seu economicista fascismo social, e, satisfeito, terminou sublinhando o seu enorme reconforto pela esperança na resistência moçambicana. Dela estava já seguro pois nessas 24 horas de estadia tinha encontrado em Maputo uma “vigorosa latinidade”. Ninguém se riu. Adiante.

Mais um ano a correr e eis que me estreei no noroeste do país, este Niassa sempre visto como longínquo, desértico e quase inacessível, coisas da mitologia nacional. Recebido com uma hospitalidade notável, não demorei a cruzar o enorme planalto, um mato verdejante polvilhado de montanhas encimadas por cofiós brumosos, quilómetros de arvoredo e machambas, o verde castanho destas a entranhar-se no azul ameaçador de um céu carregado, um deslumbre único, um mundo a reclamar poetas que o digam. Súbito entra-se na terra batida, em contínua descida, cada vez mais curvilínea e deserta. Breves horas passadas, num cotovelo apertado, íngreme e pedregoso, todo eu estanco à primeira visão do Lago, e ali camuflado por estas montanhas um todo de água a perder de vista, abandonado numa calmaria como se fosse eterna. Ficamos parados, não sou o primeiro que o anfitrião, orgulhoso do belo no seu país, desvirginda de Lago, ele sabe bem o efeito! Depois, bem depois, reparo que lá em baixo há praia, e uma enseada, surpreendida ao fim de todo este caminho, desenhada por uma ligeira península que é vila: Metangula…

Arrancamos com vagares, e para sair do espanto pergunto o que já sei, “ali havia uma base da marinha portuguesa, não é?”, a guerra no paraíso. À óbvia confirmação adianta o meu companheiro que “diz-se por aí que vão instalar lá o centro de treinos dos fuzileiros dos PALOP!”. E eu, mau-feitio, logo a contestar “Nada!, aqui?, não acredito, neste ermo?”, mas ele resiste-me “Não sei, mas olha que se tem falado bastante, deve haver ideias para isso”. Entreolhando-o, ele de cara plácida mas agora algo distante, procuro rematar “Hum, devem ser alguns saudosistas portugueses…”. Com isto estamos já na contracurva e aí, sem qualquer pré-aviso, abandonamo-nos numa enorme gargalhada. A minha, entrecortada, demorou até à vila, e eis que regressa hoje, solitária, debaixo deste céu. Adiantar mais? Ou consigo fazer-me entender?

Mandimba, 2002

Sobre o funeral de Marcelino da Mata

jpt, 20.02.21

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É certo que um antigo disse que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Mas outro escreveu que nada há de novo sob este Sol. E assim o problema de se blogar há já 18 anos é que, quase certamente, já se botou algo sobre a maioria das coisas que vão acontecendo.

A morte do tenente-coronel Marcelino da Mata provocou polémica - decerto que incrementada pela generalizada inactividade neste Covidoceno. E que foi muito potenciada pela presença do Presidente da República no seu funeral. Várias vezes já aqui invectivei o histriónico exercício presidencial de Sousa, forma de preencher a vacuidade do seu projecto político, apenas pessoalista - anacronicamente  mimetizando o modus faciendi tardo-imperial do seu digníssimo pai, aquando Governador-Geral de Moçambique. Cabota desprovido de gravitas, minando a auctoritas da função, a esta esvaziando, reduzindo-a a influência dependente das fragilidades conjunturais dos outros órgãos de soberania. O eleitorado (também conhecido por "povo") gosta e vota. E Sousa recompensa-se nisso. E o país deficita. Para não dizer definha.

Nesta ocasião isso é evidente. Alimentando uma situação em que - apesar deste contexto de crise gravíssima e de urgentes decisões estratégicas- , o país mediático está de novo - como o vem estando desde há quase dois anos - encerrado no confronto das minorias demagógicas, os ultramontanos saudosistas face aos revanchistas identitaristas, estes acalentados pelo Partido Socialista no âmbito da sua estratégia de dominação dos diversos feixes da esquerda urbana. Serve isto para articiosamente acirrar campos, nada mais.

Sobre este assunto é certo que há algumas vozes ponderadas, mas são escassas: o texto "Memórias de Sangue" do socialista Sérgio Sousa Pinto é um exemplo de sageza. Mas que ficará dele retido quando no mesmo dia um seu correligionário, o deputado Ascenso Simões, estuporadamente lamenta não ter havido mais mortos no 25 de Abril (bem mais agressivo e incompreensível do que o activista Mamadou Ba quando na academia, citando Fanon, convocou a "morte do homem branco" - da mundivisão dominante)? Propondo ainda Ascenso Simões, a coberto do revisionismo patrimonial, que se derrube o Padrão dos Descobrimentos?

Mas enfim, o que me convoca aqui é esta continuada incontinência do Presidente Sousa, a sua imponderação. Durante esta semana, diante deste despautério - repito, potenciado pela sua presença no funeral do tenente-coronel Mata, símbolo da africanização das tropas portuguesas - recordei-me de um texto que botei em 12 de Julho de 2004. Sobre a ausência do então Presidente Jorge Sampaio do funeral de Maria de Lurdes Pintassilgo - de quem ele era, pelo menos ideologicamente, bem próximo. A demonstrar que há outras formas de exercer o poder. E que são melhores, mais sagazes. Mais competentes. Mesmo que discordemos politicamente dos agentes políticos. E mesmo que menos beijoqueiras. Aqui reproduzo o texto:

O Poder e a Morte

"A ausência de Jorge Sampaio foi muito notada mas um dos seus assessores lembrou que o Presidente "nunca vai a funerais." (no "Público", em notícia a propósito da morte de Maria de Lurdes Pintassilgo, falecida a 10 de Julho desse ano). Notam, reparam, no sagrado do poder? O do rei sagrado, chefe tradicional, ungido pelos deuses, actual antepassado, centro da sociedade, ponto meridiano do cosmos, descendente e representante do passado, garante da continuidade, aquele que faz chuva, que ordena as estações, que faz frutificar, aquele que nos leva até ao futuro, o que dá vida. Esse nunca, mas nunca, vai a funerais, não se conspurca com a morte. Não periga a fertilidade de que é representante, garantia, "banco", "carteiro". Não a periga com a poluição do fim. Da morte infértil, caótica.

Nada critico, pelo contrário. Fico surpreendido, e deliciado, ao saber que a instituição política mais importante de Portugal, dotada de mais simbolismo [mais alto (magistrado), comandante em chefe, garante, árbitro, etc], concebido como figura central do sistema político português, pelo que da própria sociedade, cumpre um tabu (e sai termo vulgar), o tabu da morte, que é recorrente numa pluralidade de outras sociedades. Algo do simbólico do poder que eu nunca tinha percebido no meu país. Excelente. A mostrar continuidades no nosso Portugal moderno, racionalista. Até laico. Pois esta arquitectura da função presidencial não deriva de dificuldades com o "sobrecarregar de agendas" ou de "critérios optativos". Mas sim de avisadas continuidades do não-dito. Tantas vezes do não-pensado. O ritual do poder, assim sua essência.

O próximo texto sobre a matéria será quando vir um PR presente num funeral. Pois isso significará algo. E não será para o criticar, mas sim para tentar perceber as causas de tamanha inflexão.

ADENDA:  Comentadores referem-me que o PR frequenta funerais dos seus pares estrangeiros: mas essas são mortes estrangeiras, forasteiras, no exterior, não poluem a nossa ordem fértil, não perigam a nossa saúde. 

Os arranjos florais da Praça do Império

jpt, 18.02.21

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Estas saídas maximalistas valem o que valem, mas ainda assim não é escandaloso aventar que Francisco Bethencourt será a figura portuguesa mais relevante das gerações activas nas áreas de ciências sociais/humanidades. Acaba de deixar um interessante texto sobre a polémica dos arranjos florais com brasões municipais coloniais na zona ribeirinha lisboeta.
 
Nele mostra o historial desse ajardinamento (que a maioria desconhece - tal como desconhece os próprios arranjos, já agora). E urge-se contra as petições que o defendem: uma das quais assinei. Tal como botei em tempos um texto em sua defesa.
 
Do texto de Bethencourt retiro: 1) uma ideia central; 2) uma atenção (encetada); 3) uma proposta.
 
1) Aquele arranjo, patrimonial, é datado e foi obra propagandística de um regime colonial injusto e exploratório - e então mobilizador de esforço de guerra. Concordo, sem qualquer dúvida.
 
Poder-se-á dizer que todo o património é datado, que (quase) todo o monumental foi produzido, preservado, reabilitado e, acima de tudo, assim classificado por processos de propaganda dos meios possidentes. Isso é saber básico (dessacralizador), pois necessário, sobre estas questões.
 
Mas sobre isto há dois pontos: nas imediações há um Museu de Arte Popular, construído um pouco antes pelo mesmo poder (injusto e exploratório) e ideologia. Cuja destruição foi há anos impedida, exactamente por ser ele-próprio, o Museu enquanto tal, considerado um património demonstrativo de determinada época. Tal como este jardim é um dado e assim poderá ser apresentado. Não por estagiários de comissários políticos, graduados em doutrina, mas como objecto de época, em si mesmo. Ora a questão aqui tem contornos diferentes pois estes arranjos são apresentados (pela própria Câmara) como "ofensivos". Ofendem quem? Alguns tonitruantes actuais? Francamente...
 
2) Bethencourt enceta a atenção sobre um ponto central neste episódio, o toponímico. Como também o referi, ele lembra que os arranjos florais estão sitos na "Praça do Império". Ora o arreganho (da edilidade, dos activistas, dos académicos) contra tais brasões associado ao silêncio sobre esta toponímia mostra mesmo a superficialidade destas críticas, a sua propensão para o mero "show-off". Felizmente que alguém com o peso de Bethencourt o refere. Pois como contestar a minudência e esquecer o pormaior simbólico?
 
Mas recordo que na exacta era em que o Estado Novo tardio, já beligerante, instalou estes brasões municipais coloniais também edificou em Lisboa um bairro multiclassista, os Olivais, que é um explícito "bairro colonial", e no mesmo eixo de conteúdos - nomeou os arruamentos com todos os municípios e localidades coloniais e com os soldados portugueses mortos em África. Ora a "ofensa" com estes brasões fronteiros aos Jerónimos coexiste com o silêncio diante da toponímia afro-colonial de um (ex-)subúrbio lisboeta, propaganda que reconstruía (divulgava, impregnava) o Império e consagrava os seus defensores - e isso, repito, numa urbanização que se pretendia, e foi, habitada por várias classes/estratos. Também nisto se mostra a superficialidade argumentativa protestatória destas críticas, o tal "show-off".
 
A qual também denota outro vector superficializador: uma visão urbanística restrita ao "turístico" vigente, a preocupação com o simbólico patente numa zona "nobre", "histórica" e assim "patrimonial" e a desatenção pela cidade habitada. Vivida, se se quiser ser radical. No fundo, trata-se de uma mescla do "épater le bourgeois" com o "para inglês [de facto "americano" de campus] ver".
 
(Não que eu defenda a reforma toponímica dos bairros lisboetas. Sim a sua vivificação, se para isso houver agentes culturais. E não a defendo pois não acredito que os transeuntes que cruzem o popular "Bairro das Colónias" - como ainda patente nas placas camarárias - e partam da Praça das "Novas Nações", sempre dita das "Colónias", e cruzem da rua do Zaire até à de Moçambique, antes de ascenderem até à rua Newton ou à Poeta Milton, antes de chegarem às ruas de Liverpool e de Manchester, se sintam empolgados na defesa do Mapa Cor-de-Rosa e gritem, patriotas imperialistas, "contra os bretões marchar, marchar").
 
3. Atento à questão toponómica, como englobante do tema floral, Bethencourt propõe a mudança de nome daquela praça face aos Jerónimos. O que tem pertinência total para quem refute aqueles brasões. Mas é tão interessante a sua proposta. Pois a esta vetusta "Praça do Império", símbolo do mau antes, propõe que se suceda uma "Praça da Amizade", decerto para simbolizar o bem hoje e amanhã.
 
Ora esta "amizade" é o eco, até inconsciente, do ideário da "Lusofonia", essa proclamação acrítica da amizade/"comunhão de sentimentos" que une povos do ex-império injusto. De facto, trata-se do mero aggiornamento pós-Abril do lusotropicalismo, o reviver da comunidade de língua e sentimentos já proposta pelo tardo-salazarismo. Isto apesar de ser Bethencourt insuspeito de haver propagandeado qualquer lusofonice ao longo dos anos. Ou seja, isso é o que veicula apesar dele-próprio. Sinal do peso, subreptício, das ideologias. Mesmo num intelectual deste quilate.
 
4. É necessário purgar o património para enfrentarmos a história e melhorarmos o actual? Ok. Arranquem-se os tais floreados colonialistas. E mude-se o nome da praça tão simbólica, cartão de visita lisboeta. Substitua-se por "Praça da Diplomacia", simbolizando uma nova era de negociações constantes entre iguais, confrontando interesses múltiplos, divergentes, contrastantes, conflituantes, convergentes, belicosos e, por vezes até, amistosos. Ou seja, depuremo-nos. Dos trinados estatais, veiculados pelos seus contratados. E, acima de tudo, reconheçamos a realidade e coloquemo-la inscrita na toponímia, se esta necessariamente "iluminista".
 
5. E mais, bem para além desse grande intelectual que é Francisco Bethencourt: deixemo-nos de mimetizar os EUA. Nos quais as "relações raciais" (velho epíteto, a la Boxer) entre "negros" e "brancos" (e até "latinos") advieram historicamente do comércio de escravaturas e da forma como estas foram sendo codificadas e perpetuadas em XVII e XVIII. E percebamos que as nossas "relações raciais" ("negros"/"brancos") foram fundamentalmente matrizadas não no comércio escravista mas desde o finalíssimo XIX, num extremar de desvalorização racial de negros e mestiços. Concepções e práticas que foram então alteradas, sistematizadas e divulgadas via progressiva generalização do ensino e, depois, popularizadas pela efectiva colonização demográfica. Ou seja, em XX. Entenda-se, I República e Estado Novo.
 
Assim sendo, quer-se afrontar a memória histórica do que constituiu o racismo colonial e suas actuais refracções através de "intervenções" progagandísticas sobre o "património"? Tão extirpada foi após 1974 a toponímia e a monumentália dedicada ao Estado Novo que o caminho fácil é "intervencionar" os parcos resquícios das Comemorações Henriquinas de 1960 e afins.
 
Eu diria o contrário. Mais vale deixar em paz os bustos dos Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e semelhantes. Pois são apenas anacronicamente atacáveis e, de facto, não foram constitutivos das práticas e concepções vigentes no colonialismo. Para isso dediquem-se a derrubar as evocações desses grandes agentes racializadores e colonizadores, os Afonso Costa e seus congéneres e seguidores, já que de Salazar e seus pouco resta.
 
Mas isso, "intervencionar" os grandes vultos da colonialista e racista I República, invectivar os "pais fundadores" deste regime actual e, em especial, os ascendentes do nosso Partido Socialista? Nem pensar. Pois isso não colheria simpatia estatal, não dá postos de trabalho. Nem dinheiro. E sempre são, para já, 15 milhões. O que não é pouco.

A propósito de Marcelino da Mata

jpt, 16.02.21

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"Não escreves sobre isto do Marcelino da Mata?", perguntam-me provocam-me. E nisso um tipo percebe que os amigos lhe dão estatuto de perorante. Nada, defendo-me. Pois nada sei de especial sobre a Guiné-Bissau actual ou passada, pouquíssimo sobre a sua guerra de independência. E nada sobre o agora falecido. Sei um pouco sobre as 3 guerras coloniais portuguesas - em particular a moçambicana. E sobre o recrutamento massivo de tropas locais. Questão silenciada nas histórias dos novos Estados-Nação - pois avessa às mitografias oficiais, às "imaginações das nações". Questão algo esquecida na história portuguesa - até porque tem componentes nada lustrosas. (Como, por exemplo, a infecta forma como o Estado português passou duas décadas e meias a fugir às responsabilidades com os deficientes das forças armadas em Moçambique. Sim, naturais de Moçambique, negros para quem não perceba bem, que optaram pela nacionalidade portuguesa após a independência e que o Estado fez por esquecer até mais não poder ...).
 
Mas também questão agora agora a ser escondida, como o mostra o bramir atrevido do dr. Ba sobre este falecimento e o coro de elogios que recolhe dos intelectuais do regime, pois difícil de integrar no mito racialista muito em voga. Ou, dito de outra forma, questão difícil, pois complexa, de integrar na discussão "do colonialismo" do modo básico como os intelectuais das "causas" surgem agora, anacrónicos ainda por cima... Pois invectivar o falecido é também forma de vetar referências às múltiplas formas de participação nas guerras por parte de soldados africanos. E ao facto disso denotar - e até explicitar - distinções internas nessas sociedades coloniais. Bem como elidir as formas como isso se refractou nessas sociedades. E como os diferentes poderes nacionais vieram a tratar disso - os execráveis guineenses, criminosos de guerra (coisas que os excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc. que abraçam o dr. Ba nunca dirão); os pragmáticos angolanos; os peculiares moçambicanos.
 
Enfim, haveria coisas muito interessantes para falar sobre isto. Alguém que o faça, se tiver paciência, bem para além de invectivar Marcelino da Mata ou afirmá-lo qual "Infante Santo". Interessante, pois denotativo do ambiente boçal actual, é o facto de que - ao que consta - a imprensa (pelo menos a audiovisual) não ter comparecido no funeral do mítico militar. Apesar do Presidente Sousa (ele que até a banhos de mar leva as equipas de reportagem) lá ter estado. Ou seja, a lumpen-intelectualidade portuguesa (imprensa e academia precarizada) não sabe que fazer com a história recente do país. E prefere - em busca dos milhões de euros que o PS dará para quem minar o Bloco de Esquerda - menear-se com Katar&Ba. O resto pouco importa...
 
Sobre o demagogo Ba (que até faz umas resenhas escolares no jornal "Público") um amigo acaba de me lembrar um texto que lhe dediquei, há já dois anos. Já nem me lembrava disto. Aqui deixo a ligação: nem sobre o dr. Ba nem sobre o lumpen intelectual que tanto o saúda mudei de opinião.

15 milhões de euros contra o racismo

jpt, 04.02.21

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A Assembleia da República insta o governo a dotar com 15 milhões de euros uma campanha propagandística - à qual chama, neste português "depurado" tão actual, de "publicidade institucional" - contra o racismo. Será pertinente a campanha e será adequada a quantia? O montante poderá ser avaliado em termos da realidade que servirá para enfrentar. Ou seja, é Portugal um "país racista" - como a campanha político-académica vem clamando - ou um país com racismo, como quase ninguém profere? É o racismo uma categoria essencial da sociedade portuguesa ou surge apenas em feixes de práticas e concepções?

Seja como for, a ponderação da quantia depende de como olharmos para a realidade circundante: 15 milhões de euros é menos do que o Sporting Clube de Portugal acabou de gastar para adquirir o avançado Paulinho. Ou seja, não é muito dinheiro, e isso apontará para que o problema não é visto na Assembleia da República como muito gravoso. Mas, ao invés, 15 milhões de euros é o montante que foi atribuído pelo governo para apoiar toda a comunicação social nacional face à gigantesca crise devida ao Covid-19. Então, se visto através desse prisma, torna-se muito dinheiro, e sinaliza uma extrema importância do racismo português nas considerações da Assembleia da República. 

Mas muito interessante é a formulação da instrução parlamentar ao executivo. Que planeie (e financie) uma campanha no valor de 15 milhões de euros em "estreita colaboração com associações antirracistas e representantes das comunidades racializadas", visando "integração e empoderamento" de algumas entidades consideradas como "comunidades imigrantes" indiscriminadas e outras (autóctones, presume-se) entidades ditas "minorias étnicas", a saber a "afrodescendente", a "romani" ("cigana" parece ser termo vetado) e, mais surpreendente do que tudo, "outras". Quais "outras" comunidades étnicas não imigradas, pergunta-se diante de um texto de valor jurídico?  A mirandesa, assumindo a velha crença de que a língua funda a nação? Ou seja, a etnia e assim dita "minoria"? E já nem refiro este espantoso criacionismo estatal, o de encontrar uma "etnia" - minoritária, claro - "afrodescendente".

Mas isso, o atrapalhado e ignaro formulado da Assembleia da República, até será minudência. Ao longo do último ano e meio tem havido grande agitação política em torno deste tema - e teria sido maior se não houvesse pandemia. Utilizando uma feroz demagogia, patente de modo desbragado na utilização de dois assassinatos, um em Bragança e outro em Moscavide,  logo crismados como "crimes raciais" denotativos de violência racial contínua no país. Isto enquanto se elidiam putativas (de facto, meramente hipotéticas) dimensões raciais em outros dois assassinatos acontecidos em formato muito similar - isto num país que, felizmente, tem baixos índices de criminalidade, apesar das tropelias aldrabonas de Ventura e seus sequazes. Recordo, um asssassinato de um branco por três negros e o de um branco por alguns ciganos. Entenda-se, a desconsideração da hipótese de um móbil racial nestes outros crimes mortais não adveio dos seus motivos explícitos (roubo, questiúncula passional) mas sim ao dogma desta corrente de agit-prop: as "comunidades racializadas" são desprovidas de racismo.

Várias vezes o referi ao longo desse tempo, esta campanha tem um mote ideológico e um fundamento económico, um fervor marxizante e um afã patrimonial, sendo este o verdadeiro motriz dos intelectuais euro/afrodescendentes em busca de acesso a recursos estatais, por via de subsídios ou empregabilidade. O mote destas estratégias demagógicas é de constituir comunidades políticamente congregadas, transformar as "raças-em-si" em "raças-para-si" para usar o velho lema marxista. E o ideário político dessa "luta" também surge explícito: a deputada Moreira clama pela presença de comissários políticos na orgânica estatal que tutela a Cultura, o dr. Ba apela à constituição de milícias de auto-defesa e exige o policiamento comunitário. Restam dúvidas do que está subjacente, do modelo político que esta gente quer? A colaboração de académicos, em particular de antropólogos e de cultores de uma história antropológica (para assim a nomear) também não engana: se cerca dos 1960s campeou a ideia de que Filosofia e Sociologia eram os saberes adequados para promover a luta de classes, ergueu-se agora a ideia de que a Antropologia é o saber que alimenta a luta dos povos. E os campi rejubilam, tal como o fizeram há 50 anos... É, e com evidência, o velho "radicalismo pequeno-burguês de fachada ... identitarista", para glosar o célebre título de Cunhal.

De facto, a afirmação actual - "imaginação" - dessas "comunidades" ditas étnicas é potenciada por alguns académicos-activistas. E por "representantes das" (tais) "comunidades racializadas", dotados de capital cultural (muitas vezes com galões académicos) traduzível em potencial mediático. O processo é análogo ao da tribalização africana acontecida durante os regimes coloniais novecentistas, do ordenamento administrativo das populações através de inventadas entidades "tribos" (também ditas "etnias"). Uma categorização que foi construída por antropólogos, historiadores, administradores e similares, fundamentalmente por aqueles muito ligados ao poder político - como agora, onde nesta "causa" abundam os intelectuais dependentes do Estado, tantos deles em situação precária. E, mais do que tudo, por elementos dessas populações, os "evolués" ("assimilados" em português) - análogos agora a estes intelectuais "...descendentes" armados do seu Fanon ou similares -, tantos então brotados do ensino missionário. E ainda pelas "autoridades tribais", ditas "tradicionais", potenciadas e quantas vezes criadas pelo ordenamento colonial - análogos agora aos ditos "representantes das comunidades racializadas". Ou seja, o processo actual de afirmação de "etnias" (também ditas "minorias") e de "raças" é bem similar, nos seus locutores, àquele criacionismo colonial, subordinado a agenda política.

Enfim, esta histrionização demagógica do racismo como vector fundamental da sociedade portuguesa tem muito de mimetização da sociedade americana - patente na disparatada assunção de um recente assassinato nos EUA como retrato da situação portuguesa. E também por isso se trata no seu cerne de fazer opor "negros" e "brancos", umas agora "etnorraças" com até boçal obscurecimento das distinções dos velhos conceitos "raça" e "etnia", e com fastio pelas distinções que escapam a esse binómio central às questões sociológicas nos EUA.

Mas trata-se, acima de tudo, da reclamação - quantas vezes apenas ignorante de irreflectida, como é escandalosamente afixado pela recém-candidata presidencial Gomes - da adopção de um modelo comunitarista de sociedade, oriundo do secularismo do modelo anglo-germânico e avesso à laicidade republicana que adoptámos. Mas, bem no fundo, vem muito mais de factores económicos, o célebre "It's the economy, stupid!". Pois pequenos nichos procuram acesso a recursos estatais. São os "intelectuais orgânicos", sôfregos na busca de financiamentos estatais, são estes "representantes", alçados pelo seu capital educacional e pela sua associação com esses "intelectuais orgânicos" (como seus antepassados o foram dos missionários).

Ganharam agora alento: o tacticismo do PS de Costa, que tanto apoiou política e mediaticamente o advento da cisão no BE, dita LIVRE, recompensa-os com 15 milhões de euros. Para serem gastos nos seus discursos comunitaristas - inventores de putativas etnicidades, constitutivos de oposições raciais, "performativos" de divisões racializadas e, assim, produtores de vero racismo -, em "estreita colaboração com associações antirracistas e representantes das comunidades racializadas". Completamente avessos a considerações universalistas, não-racialistas. Que não lhes dariam acesso a bens, económicos e estatutários.

Enfim, na sua modorra intelectual, a Assembleia de República atribui 15 milhões de euros, para os académicos/jornalistas a la Jugular, para as redes de alguns institutos públicos de investigação, para os epígonos de Ba & Moreira. Menos do que o que Sporting gastou com o Paulinho! O mesmo que o Estado atribui para recuperar a imprensa nacional!

Há quem concorde. Pois é o governo que temos, o PS que temos. E neste ambiente a demagogia ganha.

Qual a cor da alma?

Paulo Sousa, 03.01.21

Invadido pelo espírito da quadra festiva, que entretanto terminamos, e enquanto apreciador do género musical em causa, vi logo após o seu lançamento, o filme Soul, da Disney/Pixar.

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A história não é muito surpreendente mas é agradável. Alguns dos momentos musicais ajudam a digerir o resto. Foram duas horas bem passadas.

Quando já não pensava mais nele, tropecei algures num espasmo muscular do Nuno Markl sobre a dobragem da personagem principal. Andou para ali às voltas com elogios e salamaleques misturados com um reparo sobre o que designa como “racismo sistémico”. Parece que para ele as vozes também têm cor e, com o intuito de que somos todos iguais, acabou por defender que as vozes africanas são diferentes das demais. É bom ser-se diferente. É bom que todos sejamos diferentes nos detalhes, porque acabamos por ser iguais nas questões de fundo. Mas isso não importa, ele acha é que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Por mim tudo bem, embora prefira cultivar as minhas dúvidas, pois nunca pensei aprender tanto como desde que escolhi fazê-lo.

Talvez não importe referir, mas eu gosto do trabalho do Nuno Markl. Dizer isto não me obriga a apreciar tudo o que faz, ou diz. Gosto da sua abordagem e do boneco que criou sobre si próprio e da forma como explora o que poderiam ser fraquezas e as transforma em produto de media. É legitimo e tem graça.

Desta vez achei que ele estava a meter a foice em seara alheia, mas com certeza que o tema iria causar as inconsequentes e habituais ondas de choque. A espuma dos dias tem de ser preenchida com coisas.

A toque de caixa parece que já há quem tenha reagido ao estímulo lançado. Se há quem defenda que o fim do mundo irá começar com uma corrente de ar, como é que isto não teria de acontecer?

Mamadou Ba e Sara Tavares assinam petição em que pedem uma nova versão do filme Soul. Defendem que somos todos iguais e por isso as vozes da dobragem deveriam ser negras.

Eu, que gosto de Soul, de Blues, de Jazz, de Samba, de Bossa Nova e de Rock, não consigo deixar de me impressionar com a capacidade da raça humana em ultrapassar profundas e inaceitáveis tragédias e, mesmo no inferno, conseguir produzir arte. Sem a influência africana na cultura norte e sul-americana não teríamos todas estas maravilhosas manifestações artísticas, que me emocionam e sem as quais teríamos uma vida ainda mais incompleta.

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Hoje de manhã, num passeio de bicicleta com uns amigos na Serra de Aire e Candeeiros, a “polémica” da dobragem deste filme foi abordada durante uns escassos 75 metros. A meio de uma curta e enlameada subida, alguém em esforço de respiração arrumou o assunto. “Sabias que quem dobrou o Rei Leão nem sequer era sportinguista? Disso ninguém fala!”

O Crime no Aeroporto da Portela

jpt, 13.12.20

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Durante estes longos meses nem o presidente Sousa - no seu histrionismo "camp", sempre ávido de roçagar cidadãos e assuntos - abordou o assassinato estatal de Ihor Homeniuk, apesar do seu hábito em comentar investigações judiciais em curso. Ou fez mera menção solidária junto da família vitimada, ele que tão lesto é em abraços e beijos, e mesmo não se coíbe em telefonemas saudando estreias de programas televisivos, nisso abrindo (publicitárias) excepções.

O MNE Silva diz que contactou a embaixada ucraniana, do modo "habitual nestes casos", como se haja "habitual" para uma situação destas. O ministro Cabrita - cujo presença no governo, e na Administração Interna ainda por cima, é, e muito para além deste caso, o sinal da total amoralidade do actual poder - diz de si próprio que é exemplar (e o ministro Silva sublinha-o). A Assembleia da República leva nove meses a convocá-lo para que fale sobre um horror destes. Nove!, decerto que com desculpas formalistas - pois diante de um escândalo destes o inenarrável Rodrigues não se importa de andar mascarado de formalista. Entretanto, a directora do SEF, Gatões, esteve oito meses calada e a primeira vez que falou - sobre um assassínio cometido em grupo pelos seus funcionários no aeroporto da Portela - usou máscara diante das cameras dos jornalistas, demonstrando total insensibilidade, até simbólica (E parece que segue para quadro diplomático bem pago, isto é um ultraje ...). E é agora demitida, nem sequer teve a dignidade de se demitir, nove meses após este horror ...

Foi então noticiado que um médico acompanhou as sevícias cometidas, na própria sala de médicos: a Ordem dos Médicos pronunciou-se? Nada, que eu saiba .... A família pagou o retorno à Ucrânia do assassinado - nem uma igreja, católica ou outra, nem uma ong, nem uma organização assistencialista, nem um filantropo, nem uma dessas "fundações" das grandes empresas ou dos grandes escritórios de advogados-comentadores televisivos, se disponibilizou para colmatar a imoralidade estatal. Mas agora, de repente, pois "investigação terminada", "botão de pânico" proposto, muitos uivam e bramem. E leio mesmo que, também, os esquerdalhos do costume invectivam o silêncio, o do "governo" (desfeita que vai a geringonça) e o da "direita". Este desgraçado caso mostra o descalabro generalizado em que seguimos.

Em início de Junho 2020 muito me irritei com a pantomina histérica, desonesta e demagógica, que correu em Portugal devido à morte de um americano em Minnesota. Abjecto desatino geral, esse de andarem por aí aos guinchos, abanando os rabos e as mamas, por causa da morte americana enquanto nada se dizia sobre o que se passara na Portela de Sacavém. Que gentalha, servos dos sôfregos demagogos socratistas, de vestes "sociais-democratas", no gargarejo da "causa" racialista. É certo que Moreira levantara o assunto em Abril. Mas sem a ênfase nem a indignação que lhe é constante aquando cheira a "raça".

Muito me irritou tudo isso e por isso escrevi sobre Ihor Homeniuk - ou seja, também o fiz apenas de modo reactivo, e como tal não sigo cidadão eticamente incólume com tudo isto. Então googlei em busca da grafia correcta do nome do assassinado. E tirando textos noticiosos daquele Março/Abril quase nada mais se encontrava. De tal forma isso me surpreendeu que fui até à página 3 da "busca google", para sedimentar a apreensão do silêncio social. Depois de eu blogar (no meu Nenhures e no colectivo Delito de Opinião) surgiram outros textos, um pouco na mesma linha (reactiva) de reflexão - um dos quais de Zita Seabra (publicado no mesmo dia), de outros autores não me recordo.  Não me venho armar em "influencer" ou em precursor ou "consciência". Sou só um bloguista desconhecido - um bocadinho lido porque publico no Delito de Opinião que ainda tem audiências. Não estou a dizer que tive qualquer primazia. O que quero assinalar é que tendo escrito no 1 de Junho um texto sobre esta situação encontrei, reflectido na internet (imprensa/redes sociais), um generalizado silêncio, quase universal, sobre este inenarrável assassinato.

Ou seja, é o ministro Cabrita execrável? É! O ministro Silva é melífluo? É! O presidente Sousa é o presidente Sousa, agora em crassa mentira? Ui, se o é! O SEF será irrecuperável? Sim. O silencioso médico que tudo testemunhou deveria ser empalado? Sim. A dra. Gatões deve ir para a prateleira e não para Londres? Óbvio. 

Mas, e sem qualquer dúvida, precisamos do agora célebre "botão de pânico". Não por causa dos tipos do SEF. Mas para nos defendermos de nós-próprios. Que gente somos!

Uma questão de perspectiva

Cristina Torrão, 23.11.20

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«as pessoas passavam por mim e diziam palavrões, quase ninguém era simpático

entrava num estabelecimento e era sempre a última que eles atendiam, podia ter chegado primeiro e dava igual

ia pela rua a empurrar o carrinho de bebé onde levava a Shirley, depois levava os dois meninos pendurados em mim, um de cada lado, e os carros passavam de propósito nas poças para molhar a gente

e uma vez deixaram-nos uma ratazana morta à porta de casa, claro que fui eu a ver

e fui eu que tive de passar dias a fio a ver aquele VOLTEM PARA A VOSSA TERRA pintado a letras brancas na nossa porta, até o Clovis lhe passar tinta por cima

e era eu que passava os serões sozinha e aflita com medo de eles atirarem um trapo com gasolina a arder para dentro de nossa casa»

(pp. 278/279)

 

Essa coisa de ser atendida em último lugar, num estabelecimento, apesar de ter chegado primeiro, aconteceu-me nos primeiros tempos de Alemanha (1992/1993). Ficava furiosa, mas dizia a mim própria que tal era devido à estupidez do dono do estabelecimento (apesar de os outros clientes aceitarem, sem hesitar, a "amabilidade" do homem). Acabei por contar o sucedido a uma vizinha alemã que, numa ocasião, entrou no dito estabelecimento, quando eu lá estava, e não gostou da maneira antipática como o tal comerciante me tratou. Aconselhou-me a apresentar queixa contra ele. Mas nunca o fiz. E, até este momento, as únicas pessoas que sabiam do sucedido eram o meu marido e a tal vizinha.

Já não sei, porém, como agiria se um colega de trabalho me mandasse para a minha terra, sem a menor vergonha, perante milhões de testemunhas. É preciso ter um estômago bem forte para aguentar tal humilhação.

Matar o Homem Branco

jpt, 23.11.20

"Temos de matar o homem branco, assassino, colonial e racista" — Mamadou Ba (SOS Racismo)

Simpatizo com o dr. Ba. Na sua linha de acção política não gosto da demagoga e egocêntrica deputada Moreira e ainda menos dos "white (old) boys" histriónico-demagogos que folclorizam (e racializam) tudo isto, em particular os de coração socratista (delenda est carthago, nunca esquecer isso), obviamente com olhos sôfregos nos desejados subsídios para os "desfavorecidos" que eles partilharão, na condição de "compagnons de route", aka "intelectuais orgânicos". Mas simpatizo com o dr. Ba. Chamai-lhe "macholice" minha mas aprecio um tipo que vem de fora, negro ainda para mais, e assume posições públicas difíceis. Dele discordo, imenso - o que o homem acaba de dizer do Mithá Ribeiro é uma verdadeira vergonha -, mas tiro-lhe o chapéu ao vê-lo sozinho a andar na rua, sem tergiversar, ainda que rodeado de alguns holigões fascistóides aos gritos provocatórios. Entenda-se bem, esses gajos costumam ser perigosos ... 

Dito isto, vejo partilhada na imprensa e nas redes sociais (e também aqui), em regime de invectivas, esta sessão académica do dr. Ba, um convívio via zoom. Na qual ele repega Fanon e considera que "é preciso matar o homem branco". Erguem-se as vozes contra este "evidente" discurso de ódio. Acontece que o homem não está a apelar à constituição de milícias "negras" dedicadas a matar-me, ou a outros tipos com a minha indigna cor de pele. Está a citar, glosar, está a aludir à sua vontade de destruir um narrativa histórica. Eu discordo dele, mesmo, e até sorrio diante do monumento ao anacronismo. Mas este homem não me quer dar um tiro, quer sim devastar a minha compreensão do mundo, e minar-me(nos) o proselitismo. O que é uma coisa completamente diferente.

Mas o problema fundamental é encontrar alguém que o conheça e que ele ouça, acate. E que lhe explique que, com zoom ou sem zoom, ele não está num campus pois optou pela praça pública. E qu'isto não é uma faculdade (por mais que os burguesotes "radicais de campus" comunitaristas o sonhem). Ou seja, que ele pode usar o Fanon, ou outros quaisquer, pode citá-lo(s), pode glosá-lo(s). Mas depois tem que explicar tintin por tintin o que quer dizer - ele fá-lo um pouco mas não o suficiente. Para aqueles que não estão no campus ...

Porque assim, com esta candura, isto ainda descamba. A não ser que seja esse o objectivo, uma martirofilia. Mas não creio, é mesmo só ...

Discurso de ódio

Paulo Sousa, 22.11.20

Já por várias vezes me referi aqui ao Dr. Ventura como tendo um discurso javardo.

Já entendemos que o método dele passa por se armar em corajoso descarregando uma atoarda para no dia seguinte dizer algo muito mais contido, piscando assim o olho aos descontentes não javardos. Desta forma procura angariar simpatias a estes dois segmentos do eleitorado simultaneamente .

Não quero fazer análise política para desatar a fazer as contas a quem dá jeito ter um "javardo de serviço" no espaço público, mas basta ver a atenção que o poder lhe dá para ser fácil concluir que cada minuto que se fala das javardices do líder one men show do Chega é um minuto a menos que se fala do destrambelhamento com que se tem lidado com a chegada deste vírus diabólico.

Mas é o discurso de ódio que hoje me faz aqui escrever. Até que ponto podemos ficar indiferentes a uma figura pública que em discurso dirigido a quem o queira ouvir, venha apelar à morte de outros cidadãos, especificando que o critério de escolha se baseia na cor da pele?

Se dizer “Nós temos é de matar o homem branco” não é discurso de ódio, então não existirá discurso de ódio. É fácil de concluir que esta linguagem ultrapassa claramente o discurso javardo do Chega e fico a aguardar que alguém no espaço público tome uma posição sobre estas declarações do Sr. Mamadou.