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Remover Padrão e afins...

por jpt, em 24.02.21

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Vem aí a Primavera. E a bazooka financeira europeia, cujas virtudes indutoras não nos vão sendo aventadas, enquanto a sua fiscalização alhures foi já algo acautelada. A prevenção invernosa da epidemia foi uma catástrofe. O início da vacinação foi algo atrapalhado, com uns mariolas do poder a palmarem umas doses para uso próprio. Sob uma ministra da saúde que tende a considerar criminosos os que se lhe opõem, as críticas a tal desatino são consideradas antipatrióticas. Com tudo isso concorda um punhado de intelectuais, ditos antifascistas, que, ao consagrado estilo de José Sócrates, se erguem contra "as perguntas do Correio da Manhã", apelando ao controlo dos meios de informação e ao descarado expurgar de críticas ao governo - entre outros surgem escritores (atrás de minha casa a escola chama-se Alice Vieira, estamos a formar crianças no respeito a uma censora e isto vem pacífico à sociedade); académicos (notória a presença do abissal CES nesse painel de patrióticos censores), ou o antigo e a actual directores do Museu do Aljube (estes dois militantes do PCP nem têm o pudor de tentar fazer esquecer o execrável vínculo  nepotista que manusearam na conquista daquele lugar na administração pública). Entretanto outras coisas menores vão acontecendo: a TAP intervencionada soçobra, com o autoproclamado "corajoso" Pedro Nuno Santos aos comandos da aeronave; ninguém atenta enquanto o engenheiro Sócrates jagoza sem acusações que se vejam; e o banqueiro do regime constata, decerto que aliviado, que nunca será Fouquet. O ministro da Educação incumpre sonantes e repetidas promessas. Os profissionais do sector cultural, na maioria de mundivisões "à esquerda", constatam - talvez antipatrioticamente - o tipo de ministra que lhes coube em tutela. E, lá bem no fundo, até pouco relevante, a economia nacional é uma "devastada armada" e mesmo que o infame Passos Coelho nos mande emigrar não há, agora, quem e onde nos acolham...

No meio de todo este deserto de problemáticas, a actualíssima "questão colonial" veio congregar atenções, catapultadas pela investida do codicioso dr. Ba, que o demonstra poderoso ariete do "team" governamental, qual Ibrahimović (eu preferiria dizer Lukaku, até pelo seu extraordinário desempenho no último derby milanês, corolário do recente conflito pessoal entre os dois magníficos avançados. Mas decerto que, face às sensibilidades actuais, alguns diriam "racista" essa minha analogia), capaz de driblar atenções e preocupações da "moldura humana", em épocas transactas dita, e temida, "eleitorado volátil".

É no âmbito desta "operação racial" que a remoção do Padrão dos Descobrimentos lisboeta acaba de ser colocada a debate público pelo Partido Socialista, por intermédio de um dos seus deputados à Assembleia da República. Passada uma semana dessa proposta o carácter partidário - e não meramente pessoal - desta iniciativa torna-se notório, mesmo evidente, face ao silêncio (sempre ele anuência) que colheu da direcção do PS e, também, do presidente da Câmara de Lisboa, até porque este figura grada do partido e sempre dito putativo seu futuro líder. Para confirmar a dimensão partidária deste novo conflito político - e não meramente "questão cultural", como alguns resumem - logo de seguida o PAN, um dos partidos que sustentam o actual governo, propôs a remoção de pinturas da Assembleia da República, devido aos motivos históricos que nelas constam. Pois dirá o dr. Costa, e seus fiéis correligionários, antes discutam a "Pátria" de antanho do que façam críticas antipatrióticas actuais. Ou seja, que digam mal do governo, como é timbre desta plebe viciosa e desrespeitosa.

Enfim, desabafo feito, digo ao que venho. Será curial mas não muito elegante aproveitar este blog para chamar a atenção para textos no meu blog pessoal, o discreto Nenhures. Mas faço-o hoje. Pois a propósito deste "bota-abaixo o Padrão" o meu amigo Tiago Matos Fernandes - que conheci há décadas em Moçambique, onde trabalhou como voluntário e depois investigou para a sua excelente tese de mestrado -, botou um belíssimo texto no facebook, "o mundo num postal de facebook" como lhe disse. O Tiago pouco ou nada concordará com o ditirambo que eu aqui acima coloquei. Mas ainda assim deixou-me colocá-lo lá no Nenhures. Não o coloco aqui pois é algo longo para um blog colectivo e generalista. Mas muito o recomendo e por isso convido os leitores do DO a lerem-no: Enquanto Vasco da Gama dormia.

 

A semana do Império

por jpt, em 23.02.21

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(Metangula)

 
A morte de Marcelino da Mata reanimou a discussão sobre a memória imperial e seus efeitos actuais, e tornou a semana passada numa verdadeira semana do Império. Muita coisa oca foi escrita. O assunto serve para o jogo político. Nesta matéria desde 2019 que eram notórias as tácticas do PS, utilizando-a para minar a influência do BE na esquerda urbana. Algo que agora se tornou explícito, nas patacoadas de deputados socialistas (derrube do Padrão dos Descobrimentos, lamento pela relativa placidez do 25 de Abril, apagamento ou elisão de pinturas alusivas às navegações portuguesas) cavalgando a agenda dos activistas identitaristas. Ou seja, à promoção socialista do Livre e à posterior cooptação da sua ex-deputada, sucede-se o rapto do radicalismo discursivo desta "causa". Em futebolês dir-se-ia que o PS adoptou agora a "pressão alta". Não tanto sobre os resquícios materiais e intelectuais do colonialismo mas sim sobre os codiciosos arietes identaristas ainda sitos no plantel do BE.
 
Para muitos académicos e afins é agora necessário, meio século depois do fim do Portugal colonial, afrontar os resquícios do Estado Novo, materiais e intelectuais. E nisso refutar o "lusotropicalismo", essa síntese enviesada feita após 1950 por Gilberto Freyre e intelectuais portugueses, justificativa do colonialismo, e a memória das navegações de XV-XVI, dos "Descobrimentos".
 
Ora nós podemos perfeitamente viver com parcelas do legado cultural (e propagandístico) do Estado Novo. Como muito bem acaba de lembrar Helena Ferro de Gouveia o Castelo de São Jorge (e tantos outros castelos) que conhecemos são reconstruções - propagandísticas, construtoras de "identidade nacional" - do Estado Novo. Vamos (re)arruiná-los, para nos purgarmos da mundivisão salazarista? E podemos perfeitamente louvar os extraordinários feitos quatrocentistas e quinhentistas, e considerá-los parte fundamental da construção do país - todos os países têm um discurso mais ou menos dominante sobre si mesmos. Não uso qualquer sarcasmo, mas que diríamos se a Ordem dos Dentistas viesse questionar a celebração das navegações devido ao escorbuto que grassava entre as equipagens? Afirmando que tal é um atentado à higiene bucal, de efeitos perniciosos à actual saúde pública? Não se pode respeitar os espantosos feitos científicos e técnicos e a fibra dos participantes enquanto se lavam os dentes e se tem alimentação apropriada?
 
A grande questão é outra, não é afrontar os discursos de até há meio século, o tal "lusotropicalismo" do Estado Novo. Mas sim reflectir nos discursos que esta II República promoveu sobre o país, sua realidade e seu futuro. Ou seja, que discurso sobre si-mesmo produz o país, para além do corolário europeu e do gemido lusófono? Estruturante foi a produção da visão da "Lusofonia" como enquadradora do país. A qual reflecte e refracta o tal "lusotropicalismo" mas a isso não se restringe. É um produção dos intelectuais actuais, em particular dos ligados ao Partido Socialista finissecular, herdeiros do republicanismo. Na ânsia de se proclamarem "antifascistas" os intelectuais de hoje elidem isso, e fogem à crítica radical da produção actual. E os políticos ainda mais: tem algum sentido um mariola deputado propôr o derrube do Padrão dos Descobrimentos e esquecer-se de propor a renomeação da Ponte Vasco da Gama? Não, é apenas uma boçal demagogia. Mas também simboliza a ausência de questionamento do ambiente intelectual actual.
 
Acabo de reler um pequeno livro, "Este País Não Existe", colectânea de textos de jornal, com autores insuspeitos de lusotropicalices, com Bethencourt, Ramada Curto, Castro Henriques, entre outros. E no qual está um artigo de 2007 de Alfredo Margarido (do qual ainda tenho o recorte do original), devastador do discurso da lusofonia. E é significativo dos limites da análise crítica (re)ver que um dos organizadores, Nuno Domingos (que trabalhou sobre Moçambique), reduz as críticas ao Acordo Ortográfico a um irredentismo saudosista da "gesta" pátria. E que nessa colectânea, que abrange textos sobre variadíssimos temas ligados às representações sobre o país e sobre a memória colonial, ninguém tenha abordado esse AO 90. O que denota a incapacidade (ou a falta de vontade) de olhar para como a II República, em particular os intelectuais de extracção republicana e sediados no PS, pegaram no projecto explícito de Salazar de compor um comunidade de língua e sentimentos - a reforçar e perpetuar por uma homografia. E continuaram-no.
 
Ou seja, a questão não é discutir o tal Estado Novo, findo em 1974. Mas sim a II República, vigente. Não é discutir o "lusotropicalismo". Mas sim a "Lusofonia". E nisso não só debater os seus conteúdos programáticos. Mas também as suas práticas. E os arranjos estatais em seu torno: e nisso perceber que muita gente se afixa avessa ao "lusotropicalismo" mas produz, reproduz e recebe (d)a lusofonia.
 
Enfim, vou buscar a minha memória. Contactei com ("levei com", no jargão) o arrivismo ignaro e a pesporrência da administração cultural socialista lusófona. Antes ainda dos textos de fins de XX de Margarido ou Lourenço, devastadores da ideologia lusófona. Quando Castelo publicou o seu estudo tornado canónico sobre o lusotropicalismo. Bloguei no ma-schamba durante 12 anos: tenho aí 167 postais com a etiqueta "lusofonia", quase uma monomonia. Sobre a ignorância, a patetice, o atrevimento da administração estatal, da imprensa, da academia. Lusófonas.
 
Não me venham assim criticar o defunto Estado Novo. Mas sim ser verdadeiramente analíticos: do presente. Da chamada intelectualidade de esquerda - há três décadas a viver de lusofonices. (E não me chamem "ressentido": fui eu que saí desse gravy train. Apeando-me de uma carruagem de primeira classe).
 
Para ilustrar tudo isso, deixo ligação a dois textos antigos do ma-schamba, neste postal e num seguinte. Sobre as lusofonices. De 2002. Forma palavrosa de mandar à merda estes deputadozecos socialistas. Mais as professorazinhas que vão à TVI dar-me e dar-nos lições de literacia, para cobrir de elogios "o Mamadu". O primeiro escrevi-o em Mandimba, na primeira vez que fui ao Niassa.
 
 

"On disputa um peu sur la multiplicité des langues, et on convint que, sans l'aventure de la tour de Babel, toute la terre aurait parlé le français (...) car [on] supposait qu'un homme qui n'était pas né en France n'avait pas le sens commun

                                                                                                                                              (VoltaireL´Ingénu, 1767)

Noite! Finda a semana de chuvadas junto a exaustão do burguês envelhecido, que já se desconforta no mato, ao vazio que me esperaria nas ruas lamacentas da vila. Rôo a galinha do jantar e logo me afundo diante da RTP-África, ali deixada como respeitosa simpatia para comigo. A ela não me nego, pois aos outros sempre parece estranho aquele que recusa um pouco da sua longínqua terra, como se a ela devesse algo e não quisesse que lho recordassem.

Assim acomodado deparo com o inesperado símbolo do Instituto Camões, patrocinando um qualquer programa que aí vem. Apenas alguns segundos, mas anormalmente longos em TV. E quão estranha é a nossa mente, aqui junto ao Malawi e à vista dum antigo patrão de imediato se me associam ideias, mais rápidas do que o dizê-las. Sinto como o mundo muda, como se me mudou, eis-me agora, ainda que por alguma preguiça arredia ao “banho macua”, sujo, enlameado e, para mais, pouco abonado. Também um bocado liberto, é certo, mas não entrei em valorações. Apenas sensações.

Ao mesmo tempo a surpresa do inédito leva-me a um abrupto e mudo resmungo, um “que raio é isto? Só podem ser coisas da lusofonia …!”, logo confirmado nas imagens. Já estou a sorrir quando surge, como não podia deixar de ser, algo chamado “Contos Tradicionais da Lusofonia”, e hoje nem de propósito é um “Conto Tradicional Tsonga”. Iberos de Gaza, presumo eu!

E bem acondicionado se apresenta o dito, ali adaptado por um “poeta laureado”, antigo nome daqueles que depois, e até há pouco, se tornaram em desejados “intelectuais orgânicos”. Títulos aos quais, no entanto, continuo a preferir o de “escravo grego”, o cujo sempre me aparece com a cara do James Mason, sem que eu perceba bem porquê! Ainda para mais porque é imagem nada condizente com a figura incomodada e algo desalinhada que conheci em tempos a este ilustre autor e adaptador. Mas como criticá-lo, eu que já andei a organizar festivais da Francofonia? Puta fina ele, de esquina serei eu próprio.

Adianto-me e venho cá para fora fumar, a noite não será estrelada mas pelo menos não chove, e fico-me a matutar neste lusófono absurdo. Que é um absurdo desejado, procurado, planificado. Não será ele tão evidente que baste narrá-lo para afirmá-lo? Ou será assim tão subtil que outros não o vejam como tal? Enquanto se me acaba o cigarro ocorrem-me fragmentos passados de lusofonia, que deixo correr sem requebros de formas, para não contrapôr a essa hipotética subtileza uma qualquer outra.

Há uns anos foram publicados em Portugal os resultados do censo moçambicano. Logo me telefonou para Maputo uma angustiada jornalista inquirindo a minha opinião sobre o facto de apenas, e sublinhava o apenas, 6% das pessoas afirmarem o português como língua primeira. Fui-lhe dizendo que tal me custava a acreditar, palavras que a sossegaram lá no outro bocal, breve calmaria antecâmara do espanto quando fui continuando, que talvez fossem exagerados os números, porventura alguns teriam reclamado o português como natal sem o terem, como um bem de prestígio social. Timbre alterado, tendendo então para o agudo, murmurou, aflita, a radiofónica voz “Então em que língua falam as pessoas? Em inglês?”. Ah, uma menina que nem nos antigos gregos, ouvindo de soslaio o brabrabra dos bárbaros vizinhos. Adiante.

Passado um ano, o já referido Camões editou uma revista dedicada à cultura moçambicana, a qual aqui foi lançada com grande pompa, no seio de grande iniciativa e de inúmeras personalidades autorais, uma imperial embaixada de lusófonos inteligentes. Para nela ser incluída encomendou uma entrevista alusiva ao então Ministro da Cultura local, o qual logo aproveitou para reafirmar, com veemência de ministro, a bantofonia do seu país e da(s) cultura(s) que o gera(m) e vive(m). A afirmação, em si mesmo óbvia – analisemos depois em que consiste a bantofonia, s.f.f. – assumiu, no entanto, estatuto de indizível em lusas terras. Decerto que devido a esse atrevimento, e apesar da sacrossanta democracia, volatizou-se a citada entrevista. Censura? No nosso Estado?Adiante.

Passou-se mais um ano. Como manda a tradição, uma Universidade moçambicana organizou na abertura do seu ano lectivo uma Oração de Sapiência, da qual se encarregou um eminente catedrático brasileiro. Este, aproveitando a sala repleta, lançou-se numa violenta catilinária contra o capitalismo globalo-americano e seu economicista fascismo social, e, satisfeito, terminou sublinhando o seu enorme reconforto pela esperança na resistência moçambicana. Dela estava já seguro pois nessas 24 horas de estadia tinha encontrado em Maputo uma “vigorosa latinidade”. Ninguém se riu. Adiante.

Mais um ano a correr e eis que me estreei no noroeste do país, este Niassa sempre visto como longínquo, desértico e quase inacessível, coisas da mitologia nacional. Recebido com uma hospitalidade notável, não demorei a cruzar o enorme planalto, um mato verdejante polvilhado de montanhas encimadas por cofiós brumosos, quilómetros de arvoredo e machambas, o verde castanho destas a entranhar-se no azul ameaçador de um céu carregado, um deslumbre único, um mundo a reclamar poetas que o digam. Súbito entra-se na terra batida, em contínua descida, cada vez mais curvilínea e deserta. Breves horas passadas, num cotovelo apertado, íngreme e pedregoso, todo eu estanco à primeira visão do Lago, e ali camuflado por estas montanhas um todo de água a perder de vista, abandonado numa calmaria como se fosse eterna. Ficamos parados, não sou o primeiro que o anfitrião, orgulhoso do belo no seu país, desvirginda de Lago, ele sabe bem o efeito! Depois, bem depois, reparo que lá em baixo há praia, e uma enseada, surpreendida ao fim de todo este caminho, desenhada por uma ligeira península que é vila: Metangula…

Arrancamos com vagares, e para sair do espanto pergunto o que já sei, “ali havia uma base da marinha portuguesa, não é?”, a guerra no paraíso. À óbvia confirmação adianta o meu companheiro que “diz-se por aí que vão instalar lá o centro de treinos dos fuzileiros dos PALOP!”. E eu, mau-feitio, logo a contestar “Nada!, aqui?, não acredito, neste ermo?”, mas ele resiste-me “Não sei, mas olha que se tem falado bastante, deve haver ideias para isso”. Entreolhando-o, ele de cara plácida mas agora algo distante, procuro rematar “Hum, devem ser alguns saudosistas portugueses…”. Com isto estamos já na contracurva e aí, sem qualquer pré-aviso, abandonamo-nos numa enorme gargalhada. A minha, entrecortada, demorou até à vila, e eis que regressa hoje, solitária, debaixo deste céu. Adiantar mais? Ou consigo fazer-me entender?

Mandimba, 2002

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É certo que um antigo disse que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Mas outro escreveu que nada há de novo sob este Sol. E assim o problema de se blogar há já 18 anos é que, quase certamente, já se botou algo sobre a maioria das coisas que vão acontecendo.

A morte do tenente-coronel Marcelino da Mata provocou polémica - decerto que incrementada pela generalizada inactividade neste Covidoceno. E que foi muito potenciada pela presença do Presidente da República no seu funeral. Várias vezes já aqui invectivei o histriónico exercício presidencial de Sousa, forma de preencher a vacuidade do seu projecto político, apenas pessoalista - anacronicamente  mimetizando o modus faciendi tardo-imperial do seu digníssimo pai, aquando Governador-Geral de Moçambique. Cabota desprovido de gravitas, minando a auctoritas da função, a esta esvaziando, reduzindo-a a influência dependente das fragilidades conjunturais dos outros órgãos de soberania. O eleitorado (também conhecido por "povo") gosta e vota. E Sousa recompensa-se nisso. E o país deficita. Para não dizer definha.

Nesta ocasião isso é evidente. Alimentando uma situação em que - apesar deste contexto de crise gravíssima e de urgentes decisões estratégicas- , o país mediático está de novo - como o vem estando desde há quase dois anos - encerrado no confronto das minorias demagógicas, os ultramontanos saudosistas face aos revanchistas identitaristas, estes acalentados pelo Partido Socialista no âmbito da sua estratégia de dominação dos diversos feixes da esquerda urbana. Serve isto para articiosamente acirrar campos, nada mais.

Sobre este assunto é certo que há algumas vozes ponderadas, mas são escassas: o texto "Memórias de Sangue" do socialista Sérgio Sousa Pinto é um exemplo de sageza. Mas que ficará dele retido quando no mesmo dia um seu correligionário, o deputado Ascenso Simões, estuporadamente lamenta não ter havido mais mortos no 25 de Abril (bem mais agressivo e incompreensível do que o activista Mamadou Ba quando na academia, citando Fanon, convocou a "morte do homem branco" - da mundivisão dominante)? Propondo ainda Ascenso Simões, a coberto do revisionismo patrimonial, que se derrube o Padrão dos Descobrimentos?

Mas enfim, o que me convoca aqui é esta continuada incontinência do Presidente Sousa, a sua imponderação. Durante esta semana, diante deste despautério - repito, potenciado pela sua presença no funeral do tenente-coronel Mata, símbolo da africanização das tropas portuguesas - recordei-me de um texto que botei em 12 de Julho de 2004. Sobre a ausência do então Presidente Jorge Sampaio do funeral de Maria de Lurdes Pintassilgo - de quem ele era, pelo menos ideologicamente, bem próximo. A demonstrar que há outras formas de exercer o poder. E que são melhores, mais sagazes. Mais competentes. Mesmo que discordemos politicamente dos agentes políticos. E mesmo que menos beijoqueiras. Aqui reproduzo o texto:

O Poder e a Morte

"A ausência de Jorge Sampaio foi muito notada mas um dos seus assessores lembrou que o Presidente "nunca vai a funerais." (no "Público", em notícia a propósito da morte de Maria de Lurdes Pintassilgo, falecida a 10 de Julho desse ano). Notam, reparam, no sagrado do poder? O do rei sagrado, chefe tradicional, ungido pelos deuses, actual antepassado, centro da sociedade, ponto meridiano do cosmos, descendente e representante do passado, garante da continuidade, aquele que faz chuva, que ordena as estações, que faz frutificar, aquele que nos leva até ao futuro, o que dá vida. Esse nunca, mas nunca, vai a funerais, não se conspurca com a morte. Não periga a fertilidade de que é representante, garantia, "banco", "carteiro". Não a periga com a poluição do fim. Da morte infértil, caótica.

Nada critico, pelo contrário. Fico surpreendido, e deliciado, ao saber que a instituição política mais importante de Portugal, dotada de mais simbolismo [mais alto (magistrado), comandante em chefe, garante, árbitro, etc], concebido como figura central do sistema político português, pelo que da própria sociedade, cumpre um tabu (e sai termo vulgar), o tabu da morte, que é recorrente numa pluralidade de outras sociedades. Algo do simbólico do poder que eu nunca tinha percebido no meu país. Excelente. A mostrar continuidades no nosso Portugal moderno, racionalista. Até laico. Pois esta arquitectura da função presidencial não deriva de dificuldades com o "sobrecarregar de agendas" ou de "critérios optativos". Mas sim de avisadas continuidades do não-dito. Tantas vezes do não-pensado. O ritual do poder, assim sua essência.

O próximo texto sobre a matéria será quando vir um PR presente num funeral. Pois isso significará algo. E não será para o criticar, mas sim para tentar perceber as causas de tamanha inflexão.

ADENDA:  Comentadores referem-me que o PR frequenta funerais dos seus pares estrangeiros: mas essas são mortes estrangeiras, forasteiras, no exterior, não poluem a nossa ordem fértil, não perigam a nossa saúde. 

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Estas saídas maximalistas valem o que valem, mas ainda assim não é escandaloso aventar que Francisco Bethencourt será a figura portuguesa mais relevante das gerações activas nas áreas de ciências sociais/humanidades. Acaba de deixar um interessante texto sobre a polémica dos arranjos florais com brasões municipais coloniais na zona ribeirinha lisboeta.
 
Nele mostra o historial desse ajardinamento (que a maioria desconhece - tal como desconhece os próprios arranjos, já agora). E urge-se contra as petições que o defendem: uma das quais assinei. Tal como botei em tempos um texto em sua defesa.
 
Do texto de Bethencourt retiro: 1) uma ideia central; 2) uma atenção (encetada); 3) uma proposta.
 
1) Aquele arranjo, patrimonial, é datado e foi obra propagandística de um regime colonial injusto e exploratório - e então mobilizador de esforço de guerra. Concordo, sem qualquer dúvida.
 
Poder-se-á dizer que todo o património é datado, que (quase) todo o monumental foi produzido, preservado, reabilitado e, acima de tudo, assim classificado por processos de propaganda dos meios possidentes. Isso é saber básico (dessacralizador), pois necessário, sobre estas questões.
 
Mas sobre isto há dois pontos: nas imediações há um Museu de Arte Popular, construído um pouco antes pelo mesmo poder (injusto e exploratório) e ideologia. Cuja destruição foi há anos impedida, exactamente por ser ele-próprio, o Museu enquanto tal, considerado um património demonstrativo de determinada época. Tal como este jardim é um dado e assim poderá ser apresentado. Não por estagiários de comissários políticos, graduados em doutrina, mas como objecto de época, em si mesmo. Ora a questão aqui tem contornos diferentes pois estes arranjos são apresentados (pela própria Câmara) como "ofensivos". Ofendem quem? Alguns tonitruantes actuais? Francamente...
 
2) Bethencourt enceta a atenção sobre um ponto central neste episódio, o toponímico. Como também o referi, ele lembra que os arranjos florais estão sitos na "Praça do Império". Ora o arreganho (da edilidade, dos activistas, dos académicos) contra tais brasões associado ao silêncio sobre esta toponímia mostra mesmo a superficialidade destas críticas, a sua propensão para o mero "show-off". Felizmente que alguém com o peso de Bethencourt o refere. Pois como contestar a minudência e esquecer o pormaior simbólico?
 
Mas recordo que na exacta era em que o Estado Novo tardio, já beligerante, instalou estes brasões municipais coloniais também edificou em Lisboa um bairro multiclassista, os Olivais, que é um explícito "bairro colonial", e no mesmo eixo de conteúdos - nomeou os arruamentos com todos os municípios e localidades coloniais e com os soldados portugueses mortos em África. Ora a "ofensa" com estes brasões fronteiros aos Jerónimos coexiste com o silêncio diante da toponímia afro-colonial de um (ex-)subúrbio lisboeta, propaganda que reconstruía (divulgava, impregnava) o Império e consagrava os seus defensores - e isso, repito, numa urbanização que se pretendia, e foi, habitada por várias classes/estratos. Também nisto se mostra a superficialidade argumentativa protestatória destas críticas, o tal "show-off".
 
A qual também denota outro vector superficializador: uma visão urbanística restrita ao "turístico" vigente, a preocupação com o simbólico patente numa zona "nobre", "histórica" e assim "patrimonial" e a desatenção pela cidade habitada. Vivida, se se quiser ser radical. No fundo, trata-se de uma mescla do "épater le bourgeois" com o "para inglês [de facto "americano" de campus] ver".
 
(Não que eu defenda a reforma toponímica dos bairros lisboetas. Sim a sua vivificação, se para isso houver agentes culturais. E não a defendo pois não acredito que os transeuntes que cruzem o popular "Bairro das Colónias" - como ainda patente nas placas camarárias - e partam da Praça das "Novas Nações", sempre dita das "Colónias", e cruzem da rua do Zaire até à de Moçambique, antes de ascenderem até à rua Newton ou à Poeta Milton, antes de chegarem às ruas de Liverpool e de Manchester, se sintam empolgados na defesa do Mapa Cor-de-Rosa e gritem, patriotas imperialistas, "contra os bretões marchar, marchar").
 
3. Atento à questão toponómica, como englobante do tema floral, Bethencourt propõe a mudança de nome daquela praça face aos Jerónimos. O que tem pertinência total para quem refute aqueles brasões. Mas é tão interessante a sua proposta. Pois a esta vetusta "Praça do Império", símbolo do mau antes, propõe que se suceda uma "Praça da Amizade", decerto para simbolizar o bem hoje e amanhã.
 
Ora esta "amizade" é o eco, até inconsciente, do ideário da "Lusofonia", essa proclamação acrítica da amizade/"comunhão de sentimentos" que une povos do ex-império injusto. De facto, trata-se do mero aggiornamento pós-Abril do lusotropicalismo, o reviver da comunidade de língua e sentimentos já proposta pelo tardo-salazarismo. Isto apesar de ser Bethencourt insuspeito de haver propagandeado qualquer lusofonice ao longo dos anos. Ou seja, isso é o que veicula apesar dele-próprio. Sinal do peso, subreptício, das ideologias. Mesmo num intelectual deste quilate.
 
4. É necessário purgar o património para enfrentarmos a história e melhorarmos o actual? Ok. Arranquem-se os tais floreados colonialistas. E mude-se o nome da praça tão simbólica, cartão de visita lisboeta. Substitua-se por "Praça da Diplomacia", simbolizando uma nova era de negociações constantes entre iguais, confrontando interesses múltiplos, divergentes, contrastantes, conflituantes, convergentes, belicosos e, por vezes até, amistosos. Ou seja, depuremo-nos. Dos trinados estatais, veiculados pelos seus contratados. E, acima de tudo, reconheçamos a realidade e coloquemo-la inscrita na toponímia, se esta necessariamente "iluminista".
 
5. E mais, bem para além desse grande intelectual que é Francisco Bethencourt: deixemo-nos de mimetizar os EUA. Nos quais as "relações raciais" (velho epíteto, a la Boxer) entre "negros" e "brancos" (e até "latinos") advieram historicamente do comércio de escravaturas e da forma como estas foram sendo codificadas e perpetuadas em XVII e XVIII. E percebamos que as nossas "relações raciais" ("negros"/"brancos") foram fundamentalmente matrizadas não no comércio escravista mas desde o finalíssimo XIX, num extremar de desvalorização racial de negros e mestiços. Concepções e práticas que foram então alteradas, sistematizadas e divulgadas via progressiva generalização do ensino e, depois, popularizadas pela efectiva colonização demográfica. Ou seja, em XX. Entenda-se, I República e Estado Novo.
 
Assim sendo, quer-se afrontar a memória histórica do que constituiu o racismo colonial e suas actuais refracções através de "intervenções" progagandísticas sobre o "património"? Tão extirpada foi após 1974 a toponímia e a monumentália dedicada ao Estado Novo que o caminho fácil é "intervencionar" os parcos resquícios das Comemorações Henriquinas de 1960 e afins.
 
Eu diria o contrário. Mais vale deixar em paz os bustos dos Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e semelhantes. Pois são apenas anacronicamente atacáveis e, de facto, não foram constitutivos das práticas e concepções vigentes no colonialismo. Para isso dediquem-se a derrubar as evocações desses grandes agentes racializadores e colonizadores, os Afonso Costa e seus congéneres e seguidores, já que de Salazar e seus pouco resta.
 
Mas isso, "intervencionar" os grandes vultos da colonialista e racista I República, invectivar os "pais fundadores" deste regime actual e, em especial, os ascendentes do nosso Partido Socialista? Nem pensar. Pois isso não colheria simpatia estatal, não dá postos de trabalho. Nem dinheiro. E sempre são, para já, 15 milhões. O que não é pouco.

A propósito de Marcelino da Mata

por jpt, em 16.02.21

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"Não escreves sobre isto do Marcelino da Mata?", perguntam-me provocam-me. E nisso um tipo percebe que os amigos lhe dão estatuto de perorante. Nada, defendo-me. Pois nada sei de especial sobre a Guiné-Bissau actual ou passada, pouquíssimo sobre a sua guerra de independência. E nada sobre o agora falecido. Sei um pouco sobre as 3 guerras coloniais portuguesas - em particular a moçambicana. E sobre o recrutamento massivo de tropas locais. Questão silenciada nas histórias dos novos Estados-Nação - pois avessa às mitografias oficiais, às "imaginações das nações". Questão algo esquecida na história portuguesa - até porque tem componentes nada lustrosas. (Como, por exemplo, a infecta forma como o Estado português passou duas décadas e meias a fugir às responsabilidades com os deficientes das forças armadas em Moçambique. Sim, naturais de Moçambique, negros para quem não perceba bem, que optaram pela nacionalidade portuguesa após a independência e que o Estado fez por esquecer até mais não poder ...).
 
Mas também questão agora agora a ser escondida, como o mostra o bramir atrevido do dr. Ba sobre este falecimento e o coro de elogios que recolhe dos intelectuais do regime, pois difícil de integrar no mito racialista muito em voga. Ou, dito de outra forma, questão difícil, pois complexa, de integrar na discussão "do colonialismo" do modo básico como os intelectuais das "causas" surgem agora, anacrónicos ainda por cima... Pois invectivar o falecido é também forma de vetar referências às múltiplas formas de participação nas guerras por parte de soldados africanos. E ao facto disso denotar - e até explicitar - distinções internas nessas sociedades coloniais. Bem como elidir as formas como isso se refractou nessas sociedades. E como os diferentes poderes nacionais vieram a tratar disso - os execráveis guineenses, criminosos de guerra (coisas que os excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc. que abraçam o dr. Ba nunca dirão); os pragmáticos angolanos; os peculiares moçambicanos.
 
Enfim, haveria coisas muito interessantes para falar sobre isto. Alguém que o faça, se tiver paciência, bem para além de invectivar Marcelino da Mata ou afirmá-lo qual "Infante Santo". Interessante, pois denotativo do ambiente boçal actual, é o facto de que - ao que consta - a imprensa (pelo menos a audiovisual) não ter comparecido no funeral do mítico militar. Apesar do Presidente Sousa (ele que até a banhos de mar leva as equipas de reportagem) lá ter estado. Ou seja, a lumpen-intelectualidade portuguesa (imprensa e academia precarizada) não sabe que fazer com a história recente do país. E prefere - em busca dos milhões de euros que o PS dará para quem minar o Bloco de Esquerda - menear-se com Katar&Ba. O resto pouco importa...
 
Sobre o demagogo Ba (que até faz umas resenhas escolares no jornal "Público") um amigo acaba de me lembrar um texto que lhe dediquei, há já dois anos. Já nem me lembrava disto. Aqui deixo a ligação: nem sobre o dr. Ba nem sobre o lumpen intelectual que tanto o saúda mudei de opinião.

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A Assembleia da República insta o governo a dotar com 15 milhões de euros uma campanha propagandística - à qual chama, neste português "depurado" tão actual, de "publicidade institucional" - contra o racismo. Será pertinente a campanha e será adequada a quantia? O montante poderá ser avaliado em termos da realidade que servirá para enfrentar. Ou seja, é Portugal um "país racista" - como a campanha político-académica vem clamando - ou um país com racismo, como quase ninguém profere? É o racismo uma categoria essencial da sociedade portuguesa ou surge apenas em feixes de práticas e concepções?

Seja como for, a ponderação da quantia depende de como olharmos para a realidade circundante: 15 milhões de euros é menos do que o Sporting Clube de Portugal acabou de gastar para adquirir o avançado Paulinho. Ou seja, não é muito dinheiro, e isso apontará para que o problema não é visto na Assembleia da República como muito gravoso. Mas, ao invés, 15 milhões de euros é o montante que foi atribuído pelo governo para apoiar toda a comunicação social nacional face à gigantesca crise devida ao Covid-19. Então, se visto através desse prisma, torna-se muito dinheiro, e sinaliza uma extrema importância do racismo português nas considerações da Assembleia da República. 

Mas muito interessante é a formulação da instrução parlamentar ao executivo. Que planeie (e financie) uma campanha no valor de 15 milhões de euros em "estreita colaboração com associações antirracistas e representantes das comunidades racializadas", visando "integração e empoderamento" de algumas entidades consideradas como "comunidades imigrantes" indiscriminadas e outras (autóctones, presume-se) entidades ditas "minorias étnicas", a saber a "afrodescendente", a "romani" ("cigana" parece ser termo vetado) e, mais surpreendente do que tudo, "outras". Quais "outras" comunidades étnicas não imigradas, pergunta-se diante de um texto de valor jurídico?  A mirandesa, assumindo a velha crença de que a língua funda a nação? Ou seja, a etnia e assim dita "minoria"? E já nem refiro este espantoso criacionismo estatal, o de encontrar uma "etnia" - minoritária, claro - "afrodescendente".

Mas isso, o atrapalhado e ignaro formulado da Assembleia da República, até será minudência. Ao longo do último ano e meio tem havido grande agitação política em torno deste tema - e teria sido maior se não houvesse pandemia. Utilizando uma feroz demagogia, patente de modo desbragado na utilização de dois assassinatos, um em Bragança e outro em Moscavide,  logo crismados como "crimes raciais" denotativos de violência racial contínua no país. Isto enquanto se elidiam putativas (de facto, meramente hipotéticas) dimensões raciais em outros dois assassinatos acontecidos em formato muito similar - isto num país que, felizmente, tem baixos índices de criminalidade, apesar das tropelias aldrabonas de Ventura e seus sequazes. Recordo, um asssassinato de um branco por três negros e o de um branco por alguns ciganos. Entenda-se, a desconsideração da hipótese de um móbil racial nestes outros crimes mortais não adveio dos seus motivos explícitos (roubo, questiúncula passional) mas sim ao dogma desta corrente de agit-prop: as "comunidades racializadas" são desprovidas de racismo.

Várias vezes o referi ao longo desse tempo, esta campanha tem um mote ideológico e um fundamento económico, um fervor marxizante e um afã patrimonial, sendo este o verdadeiro motriz dos intelectuais euro/afrodescendentes em busca de acesso a recursos estatais, por via de subsídios ou empregabilidade. O mote destas estratégias demagógicas é de constituir comunidades políticamente congregadas, transformar as "raças-em-si" em "raças-para-si" para usar o velho lema marxista. E o ideário político dessa "luta" também surge explícito: a deputada Moreira clama pela presença de comissários políticos na orgânica estatal que tutela a Cultura, o dr. Ba apela à constituição de milícias de auto-defesa e exige o policiamento comunitário. Restam dúvidas do que está subjacente, do modelo político que esta gente quer? A colaboração de académicos, em particular de antropólogos e de cultores de uma história antropológica (para assim a nomear) também não engana: se cerca dos 1960s campeou a ideia de que Filosofia e Sociologia eram os saberes adequados para promover a luta de classes, ergueu-se agora a ideia de que a Antropologia é o saber que alimenta a luta dos povos. E os campi rejubilam, tal como o fizeram há 50 anos... É, e com evidência, o velho "radicalismo pequeno-burguês de fachada ... identitarista", para glosar o célebre título de Cunhal.

De facto, a afirmação actual - "imaginação" - dessas "comunidades" ditas étnicas é potenciada por alguns académicos-activistas. E por "representantes das" (tais) "comunidades racializadas", dotados de capital cultural (muitas vezes com galões académicos) traduzível em potencial mediático. O processo é análogo ao da tribalização africana acontecida durante os regimes coloniais novecentistas, do ordenamento administrativo das populações através de inventadas entidades "tribos" (também ditas "etnias"). Uma categorização que foi construída por antropólogos, historiadores, administradores e similares, fundamentalmente por aqueles muito ligados ao poder político - como agora, onde nesta "causa" abundam os intelectuais dependentes do Estado, tantos deles em situação precária. E, mais do que tudo, por elementos dessas populações, os "evolués" ("assimilados" em português) - análogos agora a estes intelectuais "...descendentes" armados do seu Fanon ou similares -, tantos então brotados do ensino missionário. E ainda pelas "autoridades tribais", ditas "tradicionais", potenciadas e quantas vezes criadas pelo ordenamento colonial - análogos agora aos ditos "representantes das comunidades racializadas". Ou seja, o processo actual de afirmação de "etnias" (também ditas "minorias") e de "raças" é bem similar, nos seus locutores, àquele criacionismo colonial, subordinado a agenda política.

Enfim, esta histrionização demagógica do racismo como vector fundamental da sociedade portuguesa tem muito de mimetização da sociedade americana - patente na disparatada assunção de um recente assassinato nos EUA como retrato da situação portuguesa. E também por isso se trata no seu cerne de fazer opor "negros" e "brancos", umas agora "etnorraças" com até boçal obscurecimento das distinções dos velhos conceitos "raça" e "etnia", e com fastio pelas distinções que escapam a esse binómio central às questões sociológicas nos EUA.

Mas trata-se, acima de tudo, da reclamação - quantas vezes apenas ignorante de irreflectida, como é escandalosamente afixado pela recém-candidata presidencial Gomes - da adopção de um modelo comunitarista de sociedade, oriundo do secularismo do modelo anglo-germânico e avesso à laicidade republicana que adoptámos. Mas, bem no fundo, vem muito mais de factores económicos, o célebre "It's the economy, stupid!". Pois pequenos nichos procuram acesso a recursos estatais. São os "intelectuais orgânicos", sôfregos na busca de financiamentos estatais, são estes "representantes", alçados pelo seu capital educacional e pela sua associação com esses "intelectuais orgânicos" (como seus antepassados o foram dos missionários).

Ganharam agora alento: o tacticismo do PS de Costa, que tanto apoiou política e mediaticamente o advento da cisão no BE, dita LIVRE, recompensa-os com 15 milhões de euros. Para serem gastos nos seus discursos comunitaristas - inventores de putativas etnicidades, constitutivos de oposições raciais, "performativos" de divisões racializadas e, assim, produtores de vero racismo -, em "estreita colaboração com associações antirracistas e representantes das comunidades racializadas". Completamente avessos a considerações universalistas, não-racialistas. Que não lhes dariam acesso a bens, económicos e estatutários.

Enfim, na sua modorra intelectual, a Assembleia de República atribui 15 milhões de euros, para os académicos/jornalistas a la Jugular, para as redes de alguns institutos públicos de investigação, para os epígonos de Ba & Moreira. Menos do que o que Sporting gastou com o Paulinho! O mesmo que o Estado atribui para recuperar a imprensa nacional!

Há quem concorde. Pois é o governo que temos, o PS que temos. E neste ambiente a demagogia ganha.

Qual a cor da alma?

por Paulo Sousa, em 03.01.21

Invadido pelo espírito da quadra festiva, que entretanto terminamos, e enquanto apreciador do género musical em causa, vi logo após o seu lançamento, o filme Soul, da Disney/Pixar.

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A história não é muito surpreendente mas é agradável. Alguns dos momentos musicais ajudam a digerir o resto. Foram duas horas bem passadas.

Quando já não pensava mais nele, tropecei algures num espasmo muscular do Nuno Markl sobre a dobragem da personagem principal. Andou para ali às voltas com elogios e salamaleques misturados com um reparo sobre o que designa como “racismo sistémico”. Parece que para ele as vozes também têm cor e, com o intuito de que somos todos iguais, acabou por defender que as vozes africanas são diferentes das demais. É bom ser-se diferente. É bom que todos sejamos diferentes nos detalhes, porque acabamos por ser iguais nas questões de fundo. Mas isso não importa, ele acha é que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Por mim tudo bem, embora prefira cultivar as minhas dúvidas, pois nunca pensei aprender tanto como desde que escolhi fazê-lo.

Talvez não importe referir, mas eu gosto do trabalho do Nuno Markl. Dizer isto não me obriga a apreciar tudo o que faz, ou diz. Gosto da sua abordagem e do boneco que criou sobre si próprio e da forma como explora o que poderiam ser fraquezas e as transforma em produto de media. É legitimo e tem graça.

Desta vez achei que ele estava a meter a foice em seara alheia, mas com certeza que o tema iria causar as inconsequentes e habituais ondas de choque. A espuma dos dias tem de ser preenchida com coisas.

A toque de caixa parece que já há quem tenha reagido ao estímulo lançado. Se há quem defenda que o fim do mundo irá começar com uma corrente de ar, como é que isto não teria de acontecer?

Mamadou Ba e Sara Tavares assinam petição em que pedem uma nova versão do filme Soul. Defendem que somos todos iguais e por isso as vozes da dobragem deveriam ser negras.

Eu, que gosto de Soul, de Blues, de Jazz, de Samba, de Bossa Nova e de Rock, não consigo deixar de me impressionar com a capacidade da raça humana em ultrapassar profundas e inaceitáveis tragédias e, mesmo no inferno, conseguir produzir arte. Sem a influência africana na cultura norte e sul-americana não teríamos todas estas maravilhosas manifestações artísticas, que me emocionam e sem as quais teríamos uma vida ainda mais incompleta.

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Hoje de manhã, num passeio de bicicleta com uns amigos na Serra de Aire e Candeeiros, a “polémica” da dobragem deste filme foi abordada durante uns escassos 75 metros. A meio de uma curta e enlameada subida, alguém em esforço de respiração arrumou o assunto. “Sabias que quem dobrou o Rei Leão nem sequer era sportinguista? Disso ninguém fala!”

Frases de 2020 (36)

por Pedro Correia, em 22.12.20

 

«Hoje está muito na moda isso do racismo.»

Jorge Jesus, em conferência de imprensa (9 de Dezembro)

O Crime no Aeroporto da Portela

por jpt, em 13.12.20

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Durante estes longos meses nem o presidente Sousa - no seu histrionismo "camp", sempre ávido de roçagar cidadãos e assuntos - abordou o assassinato estatal de Ihor Homeniuk, apesar do seu hábito em comentar investigações judiciais em curso. Ou fez mera menção solidária junto da família vitimada, ele que tão lesto é em abraços e beijos, e mesmo não se coíbe em telefonemas saudando estreias de programas televisivos, nisso abrindo (publicitárias) excepções.

O MNE Silva diz que contactou a embaixada ucraniana, do modo "habitual nestes casos", como se haja "habitual" para uma situação destas. O ministro Cabrita - cujo presença no governo, e na Administração Interna ainda por cima, é, e muito para além deste caso, o sinal da total amoralidade do actual poder - diz de si próprio que é exemplar (e o ministro Silva sublinha-o). A Assembleia da República leva nove meses a convocá-lo para que fale sobre um horror destes. Nove!, decerto que com desculpas formalistas - pois diante de um escândalo destes o inenarrável Rodrigues não se importa de andar mascarado de formalista. Entretanto, a directora do SEF, Gatões, esteve oito meses calada e a primeira vez que falou - sobre um assassínio cometido em grupo pelos seus funcionários no aeroporto da Portela - usou máscara diante das cameras dos jornalistas, demonstrando total insensibilidade, até simbólica (E parece que segue para quadro diplomático bem pago, isto é um ultraje ...). E é agora demitida, nem sequer teve a dignidade de se demitir, nove meses após este horror ...

Foi então noticiado que um médico acompanhou as sevícias cometidas, na própria sala de médicos: a Ordem dos Médicos pronunciou-se? Nada, que eu saiba .... A família pagou o retorno à Ucrânia do assassinado - nem uma igreja, católica ou outra, nem uma ong, nem uma organização assistencialista, nem um filantropo, nem uma dessas "fundações" das grandes empresas ou dos grandes escritórios de advogados-comentadores televisivos, se disponibilizou para colmatar a imoralidade estatal. Mas agora, de repente, pois "investigação terminada", "botão de pânico" proposto, muitos uivam e bramem. E leio mesmo que, também, os esquerdalhos do costume invectivam o silêncio, o do "governo" (desfeita que vai a geringonça) e o da "direita". Este desgraçado caso mostra o descalabro generalizado em que seguimos.

Em início de Junho 2020 muito me irritei com a pantomina histérica, desonesta e demagógica, que correu em Portugal devido à morte de um americano em Minnesota. Abjecto desatino geral, esse de andarem por aí aos guinchos, abanando os rabos e as mamas, por causa da morte americana enquanto nada se dizia sobre o que se passara na Portela de Sacavém. Que gentalha, servos dos sôfregos demagogos socratistas, de vestes "sociais-democratas", no gargarejo da "causa" racialista. É certo que Moreira levantara o assunto em Abril. Mas sem a ênfase nem a indignação que lhe é constante aquando cheira a "raça".

Muito me irritou tudo isso e por isso escrevi sobre Ihor Homeniuk - ou seja, também o fiz apenas de modo reactivo, e como tal não sigo cidadão eticamente incólume com tudo isto. Então googlei em busca da grafia correcta do nome do assassinado. E tirando textos noticiosos daquele Março/Abril quase nada mais se encontrava. De tal forma isso me surpreendeu que fui até à página 3 da "busca google", para sedimentar a apreensão do silêncio social. Depois de eu blogar (no meu Nenhures e no colectivo Delito de Opinião) surgiram outros textos, um pouco na mesma linha (reactiva) de reflexão - um dos quais de Zita Seabra (publicado no mesmo dia), de outros autores não me recordo.  Não me venho armar em "influencer" ou em precursor ou "consciência". Sou só um bloguista desconhecido - um bocadinho lido porque publico no Delito de Opinião que ainda tem audiências. Não estou a dizer que tive qualquer primazia. O que quero assinalar é que tendo escrito no 1 de Junho um texto sobre esta situação encontrei, reflectido na internet (imprensa/redes sociais), um generalizado silêncio, quase universal, sobre este inenarrável assassinato.

Ou seja, é o ministro Cabrita execrável? É! O ministro Silva é melífluo? É! O presidente Sousa é o presidente Sousa, agora em crassa mentira? Ui, se o é! O SEF será irrecuperável? Sim. O silencioso médico que tudo testemunhou deveria ser empalado? Sim. A dra. Gatões deve ir para a prateleira e não para Londres? Óbvio. 

Mas, e sem qualquer dúvida, precisamos do agora célebre "botão de pânico". Não por causa dos tipos do SEF. Mas para nos defendermos de nós-próprios. Que gente somos!

Uma questão de perspectiva

por Cristina Torrão, em 23.11.20

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«as pessoas passavam por mim e diziam palavrões, quase ninguém era simpático

entrava num estabelecimento e era sempre a última que eles atendiam, podia ter chegado primeiro e dava igual

ia pela rua a empurrar o carrinho de bebé onde levava a Shirley, depois levava os dois meninos pendurados em mim, um de cada lado, e os carros passavam de propósito nas poças para molhar a gente

e uma vez deixaram-nos uma ratazana morta à porta de casa, claro que fui eu a ver

e fui eu que tive de passar dias a fio a ver aquele VOLTEM PARA A VOSSA TERRA pintado a letras brancas na nossa porta, até o Clovis lhe passar tinta por cima

e era eu que passava os serões sozinha e aflita com medo de eles atirarem um trapo com gasolina a arder para dentro de nossa casa»

(pp. 278/279)

 

Essa coisa de ser atendida em último lugar, num estabelecimento, apesar de ter chegado primeiro, aconteceu-me nos primeiros tempos de Alemanha (1992/1993). Ficava furiosa, mas dizia a mim própria que tal era devido à estupidez do dono do estabelecimento (apesar de os outros clientes aceitarem, sem hesitar, a "amabilidade" do homem). Acabei por contar o sucedido a uma vizinha alemã que, numa ocasião, entrou no dito estabelecimento, quando eu lá estava, e não gostou da maneira antipática como o tal comerciante me tratou. Aconselhou-me a apresentar queixa contra ele. Mas nunca o fiz. E, até este momento, as únicas pessoas que sabiam do sucedido eram o meu marido e a tal vizinha.

Já não sei, porém, como agiria se um colega de trabalho me mandasse para a minha terra, sem a menor vergonha, perante milhões de testemunhas. É preciso ter um estômago bem forte para aguentar tal humilhação.

Matar o Homem Branco

por jpt, em 23.11.20

"Temos de matar o homem branco, assassino, colonial e racista" — Mamadou Ba (SOS Racismo)

Simpatizo com o dr. Ba. Na sua linha de acção política não gosto da demagoga e egocêntrica deputada Moreira e ainda menos dos "white (old) boys" histriónico-demagogos que folclorizam (e racializam) tudo isto, em particular os de coração socratista (delenda est carthago, nunca esquecer isso), obviamente com olhos sôfregos nos desejados subsídios para os "desfavorecidos" que eles partilharão, na condição de "compagnons de route", aka "intelectuais orgânicos". Mas simpatizo com o dr. Ba. Chamai-lhe "macholice" minha mas aprecio um tipo que vem de fora, negro ainda para mais, e assume posições públicas difíceis. Dele discordo, imenso - o que o homem acaba de dizer do Mithá Ribeiro é uma verdadeira vergonha -, mas tiro-lhe o chapéu ao vê-lo sozinho a andar na rua, sem tergiversar, ainda que rodeado de alguns holigões fascistóides aos gritos provocatórios. Entenda-se bem, esses gajos costumam ser perigosos ... 

Dito isto, vejo partilhada na imprensa e nas redes sociais (e também aqui), em regime de invectivas, esta sessão académica do dr. Ba, um convívio via zoom. Na qual ele repega Fanon e considera que "é preciso matar o homem branco". Erguem-se as vozes contra este "evidente" discurso de ódio. Acontece que o homem não está a apelar à constituição de milícias "negras" dedicadas a matar-me, ou a outros tipos com a minha indigna cor de pele. Está a citar, glosar, está a aludir à sua vontade de destruir um narrativa histórica. Eu discordo dele, mesmo, e até sorrio diante do monumento ao anacronismo. Mas este homem não me quer dar um tiro, quer sim devastar a minha compreensão do mundo, e minar-me(nos) o proselitismo. O que é uma coisa completamente diferente.

Mas o problema fundamental é encontrar alguém que o conheça e que ele ouça, acate. E que lhe explique que, com zoom ou sem zoom, ele não está num campus pois optou pela praça pública. E qu'isto não é uma faculdade (por mais que os burguesotes "radicais de campus" comunitaristas o sonhem). Ou seja, que ele pode usar o Fanon, ou outros quaisquer, pode citá-lo(s), pode glosá-lo(s). Mas depois tem que explicar tintin por tintin o que quer dizer - ele fá-lo um pouco mas não o suficiente. Para aqueles que não estão no campus ...

Porque assim, com esta candura, isto ainda descamba. A não ser que seja esse o objectivo, uma martirofilia. Mas não creio, é mesmo só ...

Discurso de ódio

por Paulo Sousa, em 22.11.20

Já por várias vezes me referi aqui ao Dr. Ventura como tendo um discurso javardo.

Já entendemos que o método dele passa por se armar em corajoso descarregando uma atoarda para no dia seguinte dizer algo muito mais contido, piscando assim o olho aos descontentes não javardos. Desta forma procura angariar simpatias a estes dois segmentos do eleitorado simultaneamente .

Não quero fazer análise política para desatar a fazer as contas a quem dá jeito ter um "javardo de serviço" no espaço público, mas basta ver a atenção que o poder lhe dá para ser fácil concluir que cada minuto que se fala das javardices do líder one men show do Chega é um minuto a menos que se fala do destrambelhamento com que se tem lidado com a chegada deste vírus diabólico.

Mas é o discurso de ódio que hoje me faz aqui escrever. Até que ponto podemos ficar indiferentes a uma figura pública que em discurso dirigido a quem o queira ouvir, venha apelar à morte de outros cidadãos, especificando que o critério de escolha se baseia na cor da pele?

Se dizer “Nós temos é de matar o homem branco” não é discurso de ódio, então não existirá discurso de ódio. É fácil de concluir que esta linguagem ultrapassa claramente o discurso javardo do Chega e fico a aguardar que alguém no espaço público tome uma posição sobre estas declarações do Sr. Mamadou.

A carta dos escritores

por jpt, em 20.08.20

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186 escritores e uma instituição privada assinaram uma carta aberta contra "racismo, populismo, xenofobia, homofobia, emoções induzidas", o "ataque à democracia, ao multiculturalismo, à justiça social, à tolerância, à inclusão, à igualdade entre géneros, à liberdade de expressão e ao debate aberto". Entre eles vieram em nosso socorro 4 moçambicanos, mais alguns angolanos (3?) e vários brasileiros. Uns quantos também são bloguistas. Há autores que já li, de outros nunca ouvira falar, de uns pouco ou nada gosto e a outros muito aprecio. A alguns conheço, e até há quem me seja muito próximo. O grupo é grande, muito heterogéneo, e assim é espúrio vasculhar nomes para contestar o documento (mas apetece ...) ou louvá-lo. Mas há alguns pontos do documento, dois pormenores e o fenómeno da sua recepção pública, que quero abordar. Como conversa com quem me é próximo e aquilo assinou.

1. Nesta campanha sobre "racismo" muito foi propagandeada a vigência do racismo sistémico português e do racismo de Estado (institucionalizado). Um dos documentos que mais é brandido para o afirmar é um estudo (cíclico) sobre as "representações raciais" no país - que nunca é esmiuçado pelos demagogos da "causa". E um dos factores dessas "representações racistas" (da "racialização" alheia, como agora sói dizer-se) é o "racismo cultural", curiosa expressão que firma como racista (e presumivelmente "populista, xenófobo, homofóbico, emotivo induzido" e quejandas falhas e malevolências) aqueles que julgam haver culturas melhores do que outras. Como tal vivemos num apartheid, segundo Miguel Vale de Almeida, o intelectual orgânico mais conhecido deste movimento. Só não reconhecido pelos "intelectualmente preguiçosos", como consagrou.

Com efeito, ao ler esta "carta aberta" reconheço-o, a esse "racismo cultural", vigente entre tão ilustre e empenhada comunidade. Pois quando se profere "Tais são as nossas grandes riquezas: a diversidade e a tolerância. Como o expressa a língua portuguesa, feita de aglutinação, inclusão e aceitação da diferença", é óbvio o implícito: ainda que não usando a estafada noção "lusofonia" o texto proclama uma qualquer superioridade da nossa língua, e assim da "cultura", dado que mais dada "à inclusão e aceitação da diferença" do que outras. Pois, se assim não fosse, se não houvesse essa graduação, para quê incluir este argumento? Ou seja, pode-se tirar o escritor do lusotropicalismo, mas não se tira o lusotropicalismo do escritor ... Por mais meneios retóricos a que o grupo recorra. E vão ufanos com o textito, e com a "atitude" de o terem assinado.

2. O segundo pormenor textual - e pormaior ideológico - é este melífluo naco "apelamos ... aos órgãos de justiça, que investiguem, processem e condenem os interesses económico-financeiros que se servem dos novos populismos para, a coberto da raiva e da intolerância, acentuarem as desigualdades de que sempre se sustentaram". Não fosse a desfaçatez de quem botou isto, e a "insensibilidade" (o atrevimento?) de quem o assinou, nem deveria ser necessário grande elaboração, bastaria citar para apupar. Ou seja, num país em que o Estado foi atravessado - colonizado - pelos interesses privados, em que as sucessivas crises demonstram a patrimonialização do Estado, a influência das redes nepotistas (também muito vigentes no pequeno funcionalismo, do qual tantos destes escritores são [semi-]dependentes), e em que os obstáculos ao escrutínio judicial destes processos são conduzidos pelas elites políticas, o que afirmam os escritores portugueses e os seus colegas estrangeiros? Que "os interesses económico-financeiros" se servem dos "novos populismos", assim deixando de fora a efectiva perversão do regime democrático levada a cabo por partidos e políticos do quais tantos deles (escritores) são apoiantes. É preciso lata ... [já te estou a imaginar, "não é isso que queremos dizer!". E eu respondo-te: mas é isso que dizes!]. 

3. Nas últimas eleições o partido Livre elegeu uma deputada em Lisboa, com votos nas freguesias da burguesia. O partido Chega elegeu um outro deputado, muito assente no facto do candidato ser painelista da bola, e do Benfica. Teve menos votos do que a lotação do estádio da Luz. E o Livre menos do que a de Alvalade, já agora. No último ano tem sido um festival de demagogia. E os dois núcleos demagogos, num vil frenesim, ocuparam a cena política. Alimentam-se mutuamente. 

Há cerca de dois anos o Brasil teve o advento de Bolsonaro. Muitas causas existiram para tamanha mudança no cenário político - partidário e eleitoral - naquele país. Mas vários foram avisando, e depois constatando, que a diabolização do "capitão" e a pantominização "identitarista", no folclorismo demagógico que campeia, foram o estrume que alimentou aquela eleição. 

É certo que um escritor não é, obrigatoriamente, alguém dotado de dotes para análises políticas. Muitos terão apreço por "posições", "atitudes". Mas são demiurgos (quando o conseguem ser) apenas nos seus textos, na refracção do mundo (quando a tal conseguem ascender, pois a maioria apenas o reflecte). Do resto pouco mais perceberão. E assim não entendem que nesta "carta aberta", tão a jeito do "estado da arte", só animam aquilo que julgam enfrentar, lambuzando-se no frisson da "atitude colectiva". O "Público", a "SIC" e tantos outros recebem esta novidade e difundem-na com punhos negros cerrados (o símbolo do "poder negro", da potenciação [do empoderamento, como dizem os ignorantes, servis ao jargão sem o compreender] dos negros). Punho esse que neste país é lido como articulado com o comunismo. E que nas suas diferentes aparições agora agitará o "perigo negro". E assim reduzindo os debates políticos, sobre o sistema político, sobre a organização social e políticas, a este "branco" vs "preto" que tanto jeito dá aos mariolas, de agenda bem óbvia. 

Os escritores, na sua insuficiência intelectual, seguem contentes (tu também, claro, e vales muito mais do que isto, porra). E os demagogos da "causa" rejubilam. Não pela carta, mas pelas reacções a estes "punhos negros".

Ou seja, vai à merda.

O futuro

por jpt, em 15.08.20

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(Sob o mote "culpa e castigo" foi agora publicado o nº 5 da revista "Mordaz", o fanzine digital iniciado durante o período do confinamento. Traz textos de Francisco Segurado Silva, Pedro Baptista-Bastos,Ricardo Silveirinha, Afonso de Melo, José Pimentel Teixeira, Artur Guilherme, Carvalho, Jorge Arriaga, Luis Soares de Oliveira, Sara Sampaio Simões, Olga Delgado Ortega, Philmore Stevens, Elsa Bettencourt. Quem tiver interesse em ler a revista bastar-lhe-á "clicar" na ligação ao documento (em pdf) e "folheá-lo" ou gravá-lo.

Eu escrevi sobre racismo. Ecoando uma pequena memória minha. Em si mesmo pouco relevante. Apenas forma de me demarcar do obscurantismo demagógico dos "bem-pensantes" deste Portugal.)

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Sexta-feira, são para aí 2 de manhã, subo a Guerra Popular vindo do Kampfumo, viro à direita, e sigo já na 25 de Setembro, e toca-me o telefone, surpreende-me a esta hora, até em quase susto, mas vejo que é um camarada, encosto para atender mas já (sub)entendi pois acabei de cruzar o África-Bar de esplanada apinhada e decerto que alguém ali me terá visto passar neste meu vetusto e rejubilante Ssangyong, o rino Musso. E assim é, ele, até parente, num "mais-velho, estamos aqui, e à tua espera ...". E logo salto do arção, avanço para esse tal ali, tanta gente que o gang da antropologia se refugiara no átrio do Cine-África, tudo de 2M na mão, eu vindo dos uísques lá dos CFM e assim um pouco desarmado mas algum mais-novo logo me traz companhia, durante as risadas do "onde andavas tu, mais-velho?" enquanto eu junto a boca ao gargalo recém-chegado, e a vida é assim, corre, afinal sou o único quarentão no círculo, onde abundam ex-alunos agora, e até desde há já muito, colegas.

Festiva a noite continua entre conversas flanantes, festa ombreada. E alguém chega, de todos eles conhecido, jovem trintão, um palmo maior do que eu, para cima e de ombros, que não de barriga, e ali colhe grande e geral agrado, rodada de abraços, daqueles das palmadas nas costas. Diante de mim aperta-me a mão olhando para o quem do lado, e eu, o tal mais-velho, na noctívaga variante bem-disposta, digo-lhe em sorriso jocoso "pá, olha para mim quando me apertas a mão!". O que fui eu dizer!, o tipo investe "que é que tu queres branco de merda!" e por aí em diante, sempre para pior ... Estanco, de tão surpreso, deste modo nunca vira isto nesta terra! Racismo aqui? Sentira-o, muitíssimo, nos tempos em que aportara, mas cuspido por moçambicanos brancos, invectivando-nos "tugas" como se peçonhentos, algo execrável mas contextualizável, daquela tribo sentida como desamada, mas assim nunca ... E tranco, enquanto ele é logo afastado, rodeado num "então, calma, é o Teixeira, o nosso mais-velho!". 

Tiram-no do átrio, esse que em tempos anteriores foi vivido como foyer, e planta-se ele no passeio ainda desabrido. A mim não só me amornou como azedou a 2M, e pergunto(-me) "que é isto? quem é este gajo?", e um dos meus mais-novos esclarece, "é nosso colega, de Economia, fez o mestrado em Portugal e diz que lá sofreu muita merda", e eu disparo, "e o que é eu tenho a ver com isso, caralho?!", filhodaputa, professor universitário ainda por cima …

Mas o tipo não se cala, sonoro nas invectivas, e forçam-no a recuar até ao separador das vias, apinhado de carros pois tantos os clientes que enchem a rua. Ali encontra pedras e paus, que brande em gritaria, ameaçando-me, que já estou na breve escadaria da entrada. E nisso, sem que eu o esperasse, algo se me quebra, perco a cabeça como nunca me acontecera, pois uma merda destas eu não aceito, não posso aceitar ... E avanço para ele, a passo cruzo o passeio e a rua, só depois imaginarei o que toda aquela multidão terá pensado do maluco daquele "branco" ou "tuga", nestas condições assim ali quase-único, ou mesmo "velho", que já estou encanecido, a avançar para um louco aos gritos com pedras na mão num "atira lá, meu cabrão!". A meu lado, logo, C., que é, sempre eu o disse, como se um príncipe, e o mais influente da sua geração, num "calma, Teixeira, calma, mais-velho", e o sacaninha, cobarde, nos gritos a atirar as pedras e paus, às minhas nove horas e às três horas, e depois às sete e às cinco, e eu avanço-me, no passo a passo descerebral, e é ele rodeado, enfiam-no num carro e lá segue à vida.

Semanas passam, surge o jantar final do ano lectivo, em casa de colega, um tipo porreiro. Connosco alguns dos finalistas, agora novos doutores também. E de súbito entra o tipo, com a mulher, afinal é ali família. Fico estupefacto, numa amálgama de sentimentos, é certo não poder desatinar pois sou convidado e a anfitriã está presente, e dever-me-ei retirar, ofendido?, mas não deixo de pensar, "oops, agora, sem aquela adrenalina toda, o sacaninha parte-me todo", e até penso que ele virá dizer-me, mentindo claro, "professor ou teixeira, desculpe lá, havia bebido demais". Mas nada disso, ele apenas me fita, com sarcasmo, em injúria altaneira, supremacista ... 

Janto, converso, rio, pois é festa e também minha. Entretanto o casalinho sairá. Nisto fui fumando na varanda, olhando a Drenagem. Sem deixar de pensar, entre outras coisas, que aqueles meus queridos amigos não sentem nem percebem o quão inadmissível é juntarem-me com aquilo. E, pior, o conviverem eles com aquilo. Porque isto não é apenas o passado. É o futuro, compõe-no.

Não tenho culpa. Nem aceito castigo. E, aqui, agora, para o negar podem chamar os demagogos, letrados, atrevidos. Esta pobreza da gente da "petty-corruption".  Que eu avançarei, na mesma. Passo a passo. Desde que, claro, perca a cabeça.

Nem uma lágrima pelo Cabo Delgado

por jpt, em 06.07.20

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Nem um suspiro pelo Cabo Delgado, quanto mais uma lágrima ...

No sábado um amigo em Maputo, lusomoçambicano que durante anos foi jornalista em importantes jornais em Portugal e, depois, em Moçambique, partilhou no seu mural de facebook a notícia de mais uma emboscada nas estradas de Cabo Delgado, a qual causou dez mortos, com três sobreviventes que conseguiram fugir para o mato. Um dos mortos era irmão de um seu conhecido. Ao seu postal, que publicou "para ver se o mundo acorda um bocadinho para esta inexplicável guerra que está a decorrer na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, desde Outubro de 2017", juntou várias fotografias dos túmulos dos assassinados pelos guerrilheiros. No meu mural de FB partilhei o seu postal e fotos, tal como várias outras pessoas o fizeram, exactamente com o mesmo objectivo, dar visibilidade a esta desgraça crescente. Nessa mesma semana as notícias mostraram efeitos de mais um ataque guerrilheiro a Mocimboa da Praia, com relatos de inúmeros militares mortos - até de um oficial superior - e da população em fuga. Desta ouvem-se, em registos áudio,  relatos de sevícias praticadas por guerrilheiros e de desmandos por parte da tropa regular. Uma refugiada de Mocimboa descreve com detalhe a situação, explicitando que os guerrilheiros "vêm para matar, nem avisam" e que os soldados pilham, dizendo-os, em frase extraordinária, "os novos insurgentes".

Quase todos os dias vejo no FB, em páginas individuais ou colectivas de moçambicanos, notícias e filmes sobre as atrocidades que vão decorrendo no Cabo Delgado. E muitas outras me chegam via Whatsapp. Na última semana chegaram-me, por esta via, filmes de inúmeros cadáveres dos chamados "insurgentes". A lógica, explícita nas palavras de um soldado audível num desses filmes, é mostrar aos revoltosos, e à população, que eles são abatíveis, que nem as notícias das suas baixas são mera propaganda estatal nem eles são invulneráveis - e mesmo que não tenha ainda ouvido falar da crença entre estes insurgentes da sua invulnerabilidade convém lembrar que essa é uma hipótese, dado que a crença na imortalidade mágica dos combatentes grassou no norte de Moçambique nos últimos anos da guerra civil, há trinta anos. 

Mais uma vez partilhei - via Whatsapp - com alguns amigos que têm ligações a Moçambique (ou nacionais ou portugueses que lá viveram) as notícias que recebera explicitando que não reenviava os filmes por serem excessivos, macabros. Dois desses amigos, mais vividos, pediram-mos e assim lhos reenviei. A resposta de ambos foi imediata e coincidente: "não os partilharei", tamanha a comoção que haviam tido. Mas, de facto, logo encontrei essas imagens no facebook na página Pinnacle News, animada por um conjunto de jornalistas e amadores moçambicanos, vários dos quais estão nas províncias do norte do país.

Em 29 de Janeiro de 2018 eu, já cansado de notícias sobre a eclosão deste movimento, aqui publiquei este postal Guerrilha Islâmica em Moçambique - reproduzindo um filme entretanto desaparecido que continha declarações pró-sharia de guerrilheiros encapuçados. Eu conheço o país, nele vivi, conheço aquele norte. E muito fui resmungando desde a década passada, em privado pois isto é matéria sobre a qual não se especula em espaço público, sobre as possibilidades da eclosão deste tipo de conflito. Mas não tinha, nem tenho, quaisquer fontes privilegiadas. Ou seja, não era preciso ser nem druida nem agente de informações para prever coisas destas, nem o é para acompanhar, desde há dois anos e meio, este processo.

Ontem, numa magnífica noite de verão, jantei com amigos aqui ao ar livre, no retiro bucólico em que venho envelhecendo. No final debatia-se, com veemência, as questões da arte e da (im)pertinência filosófica da chamada "arte contemporânea". Nesse entretanto recebi mais uma mensagem via Whatsapp, enviada por outro amigo de Maputo: uma ligação para um filme colocado naquela página de FB. Para não incomodar os convivas vi-o silencioso. Durante 2 minutos e 53 segundos um (presumível) guerrilheiro é linchado por um grupo de soldados. Aparentemente morre. Eu levantei-me fui ao interior da casa, servi-me de um uísque, liguei o som do telemóvel, comprovei que se tratava de  Moçambique, pelo português falado e seu sotaque. Bebi um seco. Servi-me de um outro, com gelo. E regressei à douta conversa. Ainda que pouco loquaz. Mesmo muito pouco.

Serei eu assim tão igual à "jornalista" que há um mês chorava pela morte de um cidadão norte-americano, esganado por um polícia? Tão igual aos seus colegas que não enchem primeiras páginas e aberturas televisivas com este assunto? Tão igual às turbas de manifestantes que então saíram às ruas clamando que as "vidas dos negros contam"? Tão igual aos pobres opinadores que "contextualizam" este silêncio - que é mediático, político e, acima de tudo, cultural - porque não há imagens das violências enquanto o cidadão Floyd foi assassinado diante de um telemóvel?

Pois se a profusão de notícias, o relevo que lhes é dado, e as "indignações" que causam, dependem das imagens dos morticínios então entenda-se bem: sobre o Cabo Delgado há imensas imagens, imensos filmes, e há mortes em directo. Tudo disponível, em canal aberto. A jornalista "afrodescendente" não se comove com estas imagens? Nem os seus colegas? Nem os indignistas burguesotes? Nenhum cidadão português pergunta "o que fazer"? Para que serve a "relação privilegiada", a extraordinária diplomacia portuguesa - afadigada na preparação da "presidência"? Onde está a tão propalada "costela" moçambicana do PR? O legado anticolonialista oriundo de Moçambique patentado pelo nosso PM? E, já agora, para que serve a CPLP? Pois o silêncio, tonitruante, não é apenas dos "indignistas" profissionais ou dos jornalistas, preguiçando nas redacções. É também das elites políticas. Essas que andam há décadas a papaguearem "lusofonices".

As causas do conflito no Cabo Delgado serão várias e foram sendo caladas. Há três meses ainda se podia ler intelectuais moçambicanos dizerem que se tudo se resumia a actos de "mercenários ocidentais desempregados" ou dos "interesses americanos". O mesmo tipo de intelectuais que insultavam o meu colega moçambicano que, primeiro do que todos, ainda em 2017, aludiu a tensões étnicas na região. Diziam-mo a mim, não o esqueço, para minha contida repulsa. 

Causas várias haverá, internas, externas, no âmbito da consabida "maldição dos recursos naturais". E essa pluralidade das causas impede aquilo que a pobre jornalista chorona e os seus similares gostam: apontar o dedo aos americanos ("yankees", dizia-se), ou, vá lá, aos "ocidentais", e resolver-se o assunto, construir-se a narrativa. Que sirva de catapulta para o protesto "as usual". Não veste bem, esta narrativa? Então nem se enfatizam as notícias nem se protesta. Pois para quê? São só pretos, e coisas entre eles ...

E aqui sim, vejo o tal "racismo estrutural".

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(Sé de Lisboa)

1. A Sé de Lisboa é um bom exemplo, o templo matriz, neste caso cristão, assente sobre o anterior templo, aqui islâmico. Sobreposições recorrentes por esse mundo afora. Mostrando como estamos assentes em memórias politicamente (re)construídas, mesclas históricas cuja depurações são (in)visíveis nos edifícios públicos, monumentos, na arte pública (no sentido de induzida por elites políticas), em marcos comemorativos, e na toponímia. Audíveis nas práticas advindas da ciclicidade imposta pelos calendários, nas expressões literárias e musicais privilegiadas, nas histórias de encantar (imaginar) que se contam aos mais-novos, ditas "educação". Mesmo a noção de "património" (cultural, histórico) preservável, até algo sacralizável, publicitável pois comemorativo e/ou armazenável, no âmbito da museologia, é ideia nova, oitocentista e muito discutida em XX e agora. Não apenas os itens mas mesmo os conjuntos. Parte da nossa Lisboa velha foi arrasada no terramoto. Mas a Paris que tanto se louva (e visita) foi arrasada em XIX para ser "alindada" e modernizada no molde que Bruxelas logo seguiu. Sob modalidades que arrepiariam as actuais sensibilidades "patrimoniais". Tal como a reforma da Alta coimbrã promovida pelo Estado Novo, já então assunto debatido. A "História", como matéria-prima de identidades próprias e por isso também das alteridades constitutivas, é sempre uma "amnésia organizada" e nisso um elencar do que deve ser preservado, celebrado, escondido ou arrasado. E o papel de uma historiografia autónoma e democrática, construída por historiadores e oriundos de outras humanidades, é o de complexificar essa "História", vasculhar e iluminar reminiscências, revivendo a miríade dos seus condimentos, assim temperando-a como forma de temperança nos seus usos, menos abrasivos, mais inclusivos. Ou seja, menos amnésias para mais justiças actuais e futuras.

Ou seja, se sabemos que a "História" é forjada isso não implica a miséria semântica de a pensar falsificada. Mesmo não reduzindo a historiografia a um instrumento político a "História" é-o, ainda que (desejavelmente) dotada daquela, em tempos célebre, "autonomia relativa". Dado que, como se diz, quem controla o passado controla o presente - que o futuro a todos escapa. Por isso quando surgem vozes convocando a revisão desses discursos sobre o passado convém não nos reduzirmos ao encanto com a redescoberta de hipotéticas novidades factuais, como se Schliemanns ou Champollions brotassem em cada mural de facebook. Pois trata-se de recalibrar ênfases, apurar cozinhados, assim religar grupos. Não estamos diante de um para sempre intangível passado mas sim do mais-que-tangível futuro. E assim o fundamental não são as boas causas propaladas, sempre infernais. Mas as lógicas discursivas, a sua coerência. E os objectivos dos locutores, única raiz no sentido de única razão de concordância. Enfim, o simples "quem fala?" e "para quê?".

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 2. Neste actual debate sobre o património histórico e simbólico, sobre a "História", logo se levantou a questão da devolução dos bens culturais (tangíveis). Em termos que demonstram a mera simplificação dos processos históricos. E, acima de tudo, o afã na diabolização de alguns agentes históricos e da demonização da sociedade portuguesa. A função é simples, a hiperbolização dos problemas sociais, a sobrevalorização da agit-prop. Que os políticos radicais que subsistem exactamente por esse vozear tonitruante, o populismo, a isso recorram é da "espuma dos dias". Mas que académicos, e renomados, se associem a isto? Em nome de uma qualquer causa? Isto não é uma minudência, é uma evidente exemplo da superficialidade, que não é histérica pois é, isso sim, interesseira.

Blogo há tanto tempo que até me surpreendo. Pois já tem 16 anos (!) este meu postal sobre a devolução à Etiópia do obelisco de Axum. Trata-se de algo normal, necessário, a ponderar de modo sistémico e com avaliação pontual. Mas o que a esta gente interessa não é temperar a História, com as ambivalências, contradições e complexidades de cada processo. É mesmo o estupor histérico de uma "nova História". E nesta, "higienizada", ser deles a "visão dos vencedores", pobre, complexada. Revanchista no caso de alguns locutores. Sãosebastianista no caso dos núcleos académicos, numa paupérrima, pois deveras masoquista, erotização do pensamento.

3. A polémica levantada pela estátua lisboeta de António Vieira, de 2017, colocada pela câmara e pela igreja católica, é bem denotativa da superficialidade das abordagens (sobre isso já botei este texto e este outro). Da simplificação da História, das suas personagens e contributos, e do que dela se pode fazer. Mas acima de tudo mostra a pobreza de reflexão, uma mimetização do estrangeiro, um frenesim de "estar na moda", de seguir o queiroziano "o que se passa em Paris" (agora nos EUA).

Mas mostra também uma monumental distracção sobre o processos de reconstrução da História através da manipulação estatal do espaço público. Académicos, jornalistas, escritores, activistas políticos eriçam-se com a pobre e esconsa estátua que glorifica o vulto das letras nacionais, porque, dizem, ela elide o Mal de que Vieira foi paladino ou, pelo menos, não-opositor. Há 400 anos Vieira não foi activista anti-escravização dos africanos e, em assim sendo, essa estátua é um objecto obscurantista e reprodutor da actual exploração dos "afrodescendentes".

Ora em 2016 nesta mesma cidade o mesmo poder político mudou o nome do aeroporto, edificação pública com muitíssimo maior visibilidade do que a tal estatueta, numa das tais utilizações da toponímia para construir a "História". Resmunguei-a "homenagem folclórica", dada a tendência lisboeta de não abandonar os nomes antigos (a "Praça do Comércio" é um símbolo disso). E irritei-me contra essa abjecta celebração.  Pois trata-se de uma descarada reconstrução da história deste regime, do seu partido socialista, e da sua progressiva autonomização enquanto espectro republicano face ao partido comunista durante o Estado Novo até mesmo à sua formação. E com isso se glorifica um homem que em pleno 1941 escrevia sobre Hitler: “O ex-cabo, ex-pintor, o homem que não nasceu em leito de renda amolecedor, passará à História como uma revelação genial das possibilidades humanas no campo político, diplomático, social, civil e militar, quando à vontade de um ideal se junta a audácia, a valentia, a virilidade numa palavra.” (Revista AR, 44, p.2, Junho de 1941). E isto não se trata apenas de um homem nas suas circunstâncias. Mas sim de um já oficial superior no quadro de umas forças armadas cujos oficiais, mesmo os apoiantes do Estado Novo (a esmagadora maioria então), se dividiam fluida ou explicitamente - algo que veio a marcar as posteriores linhas de promoção, mais uma coisa indita - entre "germanófilos" e "anglófilos". E mesmo depois Delgado nunca foi um "democrata" mas sim um aspirante a caudillo. 

Mas para estes "intelectuais" e estes "activistas", que agora dissecam a ambivalência e insuficiência actual do pensamento do seiscentista Vieira esta invocação e evocação de Delgado é insignificante, ainda que se afadiguem a gritar "fascista" ao prof. Ventura, a mais as suas tropelias com os ciganos. Aqui há atrasado, no tempo dos meus pais, Hitler promoveu o holocausto cigano - tão defendidos por parte destes locutores, que até elidem as acusações de "racismo" se um cigano mata um negro, ao invés do que fazem se o assassino é ... até desconhecido -, massacrou homossexuais - causa querida de tantos destes militantes, que até chegam a fundamentar as suas opções político-filosóficas nas suas apetências sexuais -, exterminou os militantes marxistas, de que estes são herdeiros, invadiu mundo afora até o conseguirem parar, e Delgado aplaudia e glorificava? Não é importante. A estátua de Vieira, e mais o tipo dos escuteiros, e o infante D. Henrique, e quejandas? Essas sim, escondem a verdadeira história do sofrimento e da opressão, reproduzem mentalidades exploratórias, discriminações negativas ...

Isto seria pungente. Se não fosse nojento. E mostra, acima de tudo, duas coisas: a questão de que se fala não é a sociedade portuguesa, é apenas uma mimetização da discussão americana e, como tal, precisa de encontrar materiais análogos para debate, devido à ininteligência e superficialidade dos seus locutores  - sobre essa superficialidade histriónica, tão atrevida que até se permite convocar um "apartheid" no Portugal actual já botei aqui.

E a segunda coisa, mais profunda, é óbvia: que por mais que anunciem afrontar a "identidade nacional" fermentada numa História obscurantista, há algo que não enfrentam. É a mitografia do partido socialista, sufragada na apropriação do espaço público. E porquê? Porque, como tanto o vêm demonstrando há anos, são dependentes ... Entenda-se bem, são clientes. "It's the economy, stupid" como dizem os gringos.

(No meu blog individual Nenhures estou a colocar uma série de postais sobre o assunto - alguns que estavam em "rascunho" há já algum tempo. Já publiquei o 2. Não os replicarei aqui, para não sobrecarregar o DO com as minhas derivas. Mas, e sem querer angariar clics, quem tiver algum interesse nestes ditirambos lá os poderá vir a encontrar).

A História e o pedestal

por João André, em 30.06.20

Faz-me pena a questão das estátuas vandalizadas ou derrubadas, não porque isso não faça necessariamente sentido, mas porque acima de tudo distrai do essencial: várias (quase todas, diria) sociedades são de facto estruturalmente racistas, mesmo que apenas como herança do passado.

É hoje indiscutível que as condições em que cada pessoa nasce e cresce condiciona fortemente o seu futuro. Há quem destrua todas as condições de privilégio em que nasce e outros que ultrapassam as limitações do seu ambiente. Em geral, contudo, quem nasce pobre tem de subir um plano inclinado e quem nasce mais confortável terá uma inclinação mais suave pela frente.

O racismo passado criou condições para múltiplas pessoas serem condicionadas fortemente a terem montanhas bem íngremes pela frente só devido à cor da pele dos seus antepassados. O similarity bias continua a garantir que tais montanhas se mantenham inclementes mesmo quando se consegue começar a subir. Isto é também indiscutível. Há casos em que certos grupos conseguem ultrapassar essas dificuldades mas habitualmente obtêm um patamar intermédio entre o grupo dominante e o grupo mais fortemente discriminado. Um exemplo extremo eram os indianos na África do Sul, discriminados mas acima dos negros (situação que continuará).

No fundo tudo se resume a um aspecto simples: acreditamos que há grupos que são mais ou menos capazes devido à cor da sua pele ou à sua origem geográfica? Se sim, então a visão é racista (os estudos honestos modernos continuam a negar tal conceito) mas a situação actual é compreensível e uma consequência destas diferenças. Se se entender (como eu) que não há qualquer diferença significativa nas capacidades das pessoas de grupos diferentes, então é a sociedade que é racista se não virmos uma representação em cargos públicos, nos quadros das empresas, nas universidades, etc, razoavelmente equivalente à distribuição dos diferentes grupos na sociedade.

Esta é a realidade actual e não é por o presidente anterior dos EUA ser negro (ou mestiço) ou o primeiro-ministro português ser de descendência goesa que o resto da sociedade é não-racista. E se é racista, é normal que haja grupos cujas frustrações colectivas mantidas ao longo de séculos a certa altura extravasam. Ainda mais normal é que estas se manifestem em símbolos desse passado, sejam estes símbolos do racismo (nos EUA, Jefferson Davis) ou apenas representantes do seu tempo (George Washington ou Thomas Jefferson, que possuíram escravos).

Relembremos: as estátuas não são a priori história, antes representam figuras históricas. Nalguns casos as estátuas pertencem à história, pelo que representam, pelo que demonstram, pela arte que as construiu. Não devem por isso ser destruídas, mas não significa que tenham que ser mantidas. Não devemos simplesmente juntar uma turba furiosa para as derrubar, mas a presença de tal exigência deveria levar a uma reflexão sobre o valor da mesma estátua e a validade de a manter. Isso sim, ajudaria a pensar a história. O resto é apenas esconder o passado debaixo do pedestal.

Botar Abaixo o Hemingway?

por jpt, em 28.06.20

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Há em várias cidades um punhado de estátuas de Hemingway. Deixo um excerto do autobiográfico "As Verdes Colinas de África", escrito em 1935. Talvez seja um exemplo apropriado para uma era em que as sensibilidades pretéritas andam a ser avaliadas. A preto e branco ...

"M'Cola foi, aos saltos, pela montanha abaixo e, através do riacho, mesmo no lado oposto ao nosso, surgiu um rinoceronte a correr, num trote ligeiro, pela parte de cima da margem. Quando o observávamos, apressou o passou e correu, em trote rápido, perpendicularmente à beira da estrada. Era de um vermelho sujo, o chifre muito visível, e não havia nada de pesado nos seus movimentos, rápidos e deliberados. Ao vê-lo, senti-me excitado. 

- Vai atravessar o regato - observou Pop - Está ao alcance do tiro.

M'Cola pôs-me a Springfield na mão. Abri-a para me certificar de que estava carregada. O rinoceronte estava fora da minha vista, mas distinguia-se o agitar do capim alto. 

- A que distância julga que pode estar?

- A uns quatrocentos metros.

- Hei-de apanhar esse malandro.

Conservei-me alerta, procurando deliberadamente acalmar-me, fazendo cessar a excitação como quem fecha uma válvula, entrando naquele estado impessoal que se atinge ao fazer pontaria. 

O animal surgiu no regato baixo e pedregoso. Naquele momento apenas pensava em que era perfeitamente possível alvejá-lo, mas que para isso era necessário alcançá-lo e ultrapassá-lo. Alcancei-o, ultrapassei-o e disparei. Ouvi o ruído da bala e, como animal seguia a trote, esta pareceu-me ter explodido mais à frente. Com um resfolegar sibilante, caiu prostrado, esparrinhando água e roncando. Disparei de novo, levantando uma coluna de água atrás dele. Como tentasse escapar-se para a relva, voltei a disparar. (...)

Droopy correu. Carreguei a espingarda e corri atrás dele. Metade dos homens do acampamento estavam espalhados pelas colinas (...). O rinoceronte tinha-se dirigido precisamente para debaixo do lugar onde eles se encontravam e subia o vale em direcção ao sítio onde se perdia na floresta. (...)

O rinoceronte estava no capim alto, atrás de uma qualquer moita. Enquanto avançávamos, ouvimos um roncar surdo, quase um gemido. O ruído voltou a ouvir-se, terminando desta vez com um suspiro sufocado pelo sangue. Droopy ria.  (...) Sabíamos onde estava o animal e, ao aproximarmo-nos, lentamente, abrindo passagem pelo mato alto, descobrimo-lo. Estava morto, caído sobre um dos flancos. (...)

Quando chegou o grupo todo, voltámos o rinoceronte de forma a ficar como que numa posição de ajoelhado e cortámos o capim em volta para tirarmos fotografias. (....) ali estava com a sua comprida carcaça, pesados flancos, de aspecto pré-histórico, a pele como borracha vulcanizada e vagamente transparente, com a cicatriz de uma ferida causada por uma cornada e depois picada pelos pássaros, a cauda grossa, redonda e aguçada, carraças de mil patas formigando-lhe no corpo, as orelhas franjadas de pêlos, olhinhos de porco, com musgo na base do chifre, que lhe saía da parte de frente do focinho. (...) Era um animal dos diabos! (...)

- Estou louco de satisfação - confessei."

(Ernest Hemingway, As Verdes Colinas de África, Livros do Brasil, 77-81. Tradução de Guilherme de Castilho. Edição original em inglês de 1935)

 

Mil Desculpas (sobre o racismo)

por jpt, em 27.06.20

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(De Gaulle Esclavagista, "intervenção" em Hautmont, meados de Junho de 2020)

 

(versão um pouco mais longa no Nenhures

Em Setembro de 2001 a ONU organizou em Durban a 3ª Conferência Mundial contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e a Intolerância Correlata. As duas conferências anteriores tinham sido em Genève, em 1978 e 1983, inseridas na Década Internacional contra o Racismo e a Discriminação Racial (1973-1982), avessa à noção de "raça" como instrumento classificatório e enquadrador de políticas públicas e indutor de práticas individuais e colectivas, no intuito de "isolar e expurgar as crenças erradas e míticas" em que ela assenta e, por sua vez, dinamiza.

A época continha grandes mudanças e também esperanças, com as democratizações políticas e o questionar do economicismo com o molde do "desenvolvimento sustentável". Enormes crescimentos económicos aconteciam no "(novos) tigres asiáticos" (Coreia do Sul, Taiwan; Filipinas, Indonésia, Malásia, Vietname, Tailândia). Processos que também potenciavam conflitos (intra-estatais e internacionais) agregáveis na temática daquela conferência. Alguns eram consabidos: inúmeras populações florestais, sempre desprovidas de meios militares suficientes, viam os seus territórios devastados por entidades cleptocráticas; na Índia refulgia o fundamentalismo hindu; a expansão do capitalismo chinês incrementara a colonização han do Tibete; no nosso "próximo e médio oriente" minorias religiosas e linguístico-culturais eram perseguidas e ocupadas. Na Europa vivia-se o rescaldo da guerra "étnica" dos Balcãs. Em África era recente o genocídio ruandês,  no qual se desencadeara a guerra congolesa, e seguia a guerra sudanesa, que veio a provocar a cisão do país. E um gigantesco etc. mundial, de conflitos agitando as antinomias raciais, étnicas, nacionais ou como se lhe quiser chamar. Identitárias.

É agora interessante notar que em Durban ong's americanas já denunciavam a discriminação racializada na justiça dos EUA. Mas, de facto, duas problemáticas dominaram a conferência. Uma foi a questão palestiana, uma pressão de países árabes que levou ao abandono de Israel e dos EUA - e, assim, ao enfraquecimento dos resultados possíveis da reunião. A outra questão mais sonante foi a reclamação de várias delegações africanas que exigiam o pagamento de indemnizações aos países "ocidentais" por causa da escravatura - num época em que o Clube de Paris promovera o perdão de dívida em África. 

Naquele ambiente discursivo, sufragando o afunilamento das questões, a higienização de inúmeros processos mundiais, a mistificação da história (num efectivo processo de "imaginação do continente" africano), a reunião teve os seus efeitos por muitos desejados. Ou seja, poucos ou mesmo nenhuns. Para mais, 4 dias depois, aconteceu o 9/11 e as atenções desviaram-se. 

Ainda assim fui sensível àquela pantomina, no sentido de oportunidade descaradamente desaproveitada. E escrevi este texto "Mil Desculpas". E vim a colocá-lo numa colecção de 50 crónicas da minha vivência de 18 anos em Moçambique, à qual chamei "Ao Balcão da Cantina"  - quem se interesse bastar-lhe-á "clicar" e gravar, qual "livro" em pdf.

Agora, nesta época de retorno da superficialidade demagógica, lembrei-me desse meu sarcasmo.

*****

Mil Desculpas

Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.

Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui há, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, enfim, que pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que até foi pior nem que seja por mais recente.

Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso que já se quer ir embora, também eu insisti muito e ela só veio para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, apenas ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.

É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, tenho que marcar reuniões para depois, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para nos ouvirem, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.

Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.

A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer documentos mas vim sem a carteira, só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Às pessoas com quem vou falando é que não poderei vir a dar, bem que lhes peço as moradas para ir depois lhes entregar pessoalmente o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam de mim. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os marcos que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim...

Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.

Eu agora vou até ali à Praça da Independência, aliás lá na Fortaleza tenho que pedir redobradas desculpas, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.

A rapaziada amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito...Ir até ao núcleo ver as novas obras?...é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas desculpem hoje prefiro ficar por aqui, na baixa, olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo fez, mandou fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande... Ó Ana, que é isso?, não aconteceu nada aqui ao Texeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, diz-me um poema.

Vejam, como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me...? ...chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver ...? nada, quem sou eu ... não resolvo nada... a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves... não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me...

********************

Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.

Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro... O qué? ... o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, eu cá sigo o meu Governo, o meu Estado, muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas por isso, é pá, essas ficam para daqui a umas décadas.

Qué?...afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não...também vocês, têm cada ideia!

Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.

 

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Voltaire & Lowry

por jpt, em 26.06.20

voltaire.jpg

Leio que neste cerimonial contestatário também a estátua de Voltaire foi atacada, devido a que o filósofo investiu, in illo tempore, na Companhia das Índias francesa e até aceitou que baptizassem um navio com o seu nome. Encolhi os ombros mas, de facto, fiquei a remoer o assunto.  E noto-o pois no dia seguinte a ter sabido do acontecido de súbito lembrei-me que Lowry escreveu sobre um navio chamado Diderot. "Onde?", resmunguei ... Não me pareceu que fosse no Vulcão, e ainda por cima não o tenho comigo, pois levei-o para o confinamento para releitura - houve um tempo, não tão benfazejo assim, em que ele me foi Bíblia, felizmente amadureci e nisso tornou-se-me um Livro de São Cipriano - e por lá ficou neste meu interregno lisboeta.

Vasculhei as estantes e encontro-a, a tal navegação no Diderot "foi" naquele naco Através do Canal do Panamá (tradução da excelsa Ana Hatherly). E é extraordinário o início, logo na terceira página um monumento de profecia, tudo resumindo de tudo isto, tudo demonstrando sobre toda esta gente: 

" ... as fúrias em mercês. A sensação inenarrável inconcebivelmente desolada de não ter o direito de estar onde se está; as vagas da inesgotável angústia perseguidas pelo insaciável albatroz do eu. Há um albatroz, de facto."

Moles perseguidas pelo insaciável albatroz do ... nós. Do seu "nós", apenas isso, que julgam injustificado. Acima de tudo cada um incapaz de encarar o seu próprio albatroz, assim querendo exorcizá-lo nesta pantomina. Histriónica, que todos julgam poder sossegar-lhes esta desolação. Pobre crendice.


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