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O Corredor

por jpt, em 14.10.19

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Passou já um quarto de século! Em 1994 trabalhei uns meses na preparação das eleições na África do Sul, aquelas nas quais Mandela e o ANC ascenderam ao poder. Foi o histórico e esfuziante fim do apartheid. E para nós, estrangeiros, também sublinhava a época, essa da crença num futuro ainda assim melhor, o da imperfeição democrática, derrubados que haviam sido os fascismos sul-americanos e os comunismos europeus, chegados os BRICS asiáticos mais desempoeirados e abanadas as ditaduras africanas, naquilo do "ajustamento estrutural", não tão santo assim, mas isso só o viríamos a perceber depois ...

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Integrei um pequeno grupo de observadores colocado no Cabo Oriental, num corredor a que então chamavam "Border", encastrado entre os bantustões Ciskei e Transkei, nominalmente independentes, um naco de terra fértil, coroado com a maravilhosa Hogsback, da qual se diz ter Tolkien retirado inspiração para criar o seu universo ficcional, e culminado com East London, rica cidade pois melhor porto índico do país. Entre o pequeno grupo de colegas logo a maioria se acomodou naquela plácida cidade, congregando-se numa até modorrenta sucessão de visitas às actividades pré-eleitorais decorridas nas suas imediatas ... imediações. E, sendo franco, pois tanto tempo já passado, na fruição das aprazíveis instalações de veraneio que East London tinha.

Nestas missões trabalha-se em pares. Tive a sorte de me ter calhado como parceiro um enérgico francês, vindo de uma missão de dois anos na guerra na Jugoslávia, na qual trabalhara para a Cruz Vermelha. D. e eu logo fizemos para nos baldarmos a esse remanso, tão desejado pelos tais colegas. Assim, e para contentamento de toda a equipa, ficámos encarregues de acompanhar o que se passava nas "townships" circundantes, e também no Ciskei e no sul do Transkei. As distâncias eram grandes, as jornadas decorriam em ritmo frenético. A experiência foi fabulosa.

Éramos jovens, bebíamos muito, dormíamos quase nada.  Deitávamo-nos tardíssimo, madrugávamos de noite, mata-bichávamos bifes tártaros, com o ovo cru, e partíamos no nosso pequeno VW Citi 1800, voando até, pois isentos de limites de velocidade por sermos observadores eleitorais. Lembro-me de dizer a D. ser ele o homem em quem mais confiava no mundo, pois adormecia no "lugar do morto" a mais de 180 kms/h naquele carrito. Pois se eu guiava depressa, ele fazia-o ainda mais. Assim, e sem exagero, "íamos a todas".

Assistíamos a reuniões políticas, era essa a nossa função, o de "mostrar a bandeira", a da U.E., nisso a todos confirmando estar a "comunidade internacional" presente, para assegurar uma eleição "livre e justa", sem incidentes nem violências. Foram centenas naqueles trepidantes três meses: vi Mandela no Ciskei, um dia maravilhoso, Mbeki e Ramaphosa, os dois anunciados vices, FW, Winnie - que mulher!, que carisma ... Holomisa, o homem do Transkei, e a queda de Gkozo, o homem do Ciskei (bloguei pequenas memórias disso aqui). E imensas outras, pequenas, de cariz local. A logística era sempre igual: na véspera sabíamos as reuniões (comícios ou afins - ninguém dizia "arruada" naquele tempo) previstas e seguíamos desde a madrugada. À chegada éramos aguardados por "comités locais de paz", gente de organizações não-governamentais que nos enquadravam, tanto para questões da nossa segurança como para nos servirem de intérpretes. Claro, nem sempre existiam esses "comités", mas sempre alguém nos acolhia.

Nessas manifestações as únicas verdadeiramente difíceis eram as do Pan-African Congress. Histórico movimento de resistência anti-colonos e anti-apartheid, o partido estava então submerso à enorme vaga Mandela/ANC, como os resultados eleitorais vieram a mostrar. Tratava-se de um partido m-l radicalizadíssimo, profundamente racista e, ainda que na época isso não fosse assunto de agenda, visceralmente homofóbico  - sob a tese muito espalhada de que a homossexualidade é excêntrica aos africanos, entenda-se pretos, e uma maleita dos brancos, a extirpar. Os seus comícios, nos quais nunca havia qualquer "comité" de acompanhamento, decorriam nas paupérrimas "townships" e nos tétricos "informal settlements", tinham sempre escassos participantes, estes nada amistosos, para não dizer mais, com os brancos estrangeiros que ali apareciam. O partido tinha dois motes muito peculiares: mantinha o cântico/slogan "one settler, one bullet", a convocatória ao assassinato de todos os brancos no território, o que nos fazia algo desconfortáveis, e defendia a mudança do nome do país para Azânia. Enfim, se visitar sozinhos essas paupérrimas áreas residenciais era já bastante enervante, tanto nos avisavam dos perigos que corríamos e nos desaconselhavam a fazê-lo, entrar naqueles comícios e enfrentar a rudeza dos aglomerados era algo custoso. Íamos, dávamos uma volta, mostrávamos que ali estávamos, calculávamos os participantes e outros itens requeridos para os relatórios, e logo partíamos, sempre bastante desconfortados. Para não dizer outra coisa.

Os meses passaram, as eleições correram, o PAC teve um resultado ínfimo. Mandela chegou ao poder. Após a contagem dos votos parti dali, fiz a Garden Route pela minha primeira vez e cheguei ao Cabo ainda a tempo de acompanhar o seu empossamento como Presidente da África do Sul. Glorioso momento.

Logo voltei a Portugal. Dois dias depois de chegar fui à universidade, pois estava então a fazer um mestrado e a preparar a minha partida para Moçambique para trabalho de campo, o qual adiara exactamente por causa desta missão. Logo no corredor de entrada encontrei um professor, homem conhecido e cidadão activista. De modo simpático, até enfático, dirigiu-se-me e disse "Flávio (que era o meu nome de escola), soube que estiveste na Azânia!". E lembro-me exactamente do que pensei: "Fogo, branco e homossexual eras o primeiro" (a ser abatido, entenda-se). Mas é óbvio que não lhe disse isso, para quê? Apenas lhe respondi "Não, estive na África do Sul ...". E segui à minha vida.

***

Partilho esta mera historieta, e já tão antiga, que me veio agora à memória. Decerto que pelos dias que correm e algumas pessoas que discorrem. Esta história não me serve de trampolim para tentar compreender a tão complexa África do Sul, nem fenómenos como Malema, as lutas de poder no país, o historial da propriedade fundiária ali ou nos países vizinhos, ou tantos outros assuntos, e muito menos para a decalcar para o resto do mundo. É mesmo só uma memória pessoal, talvez pouco significante. Mas partilho-a, agora, um quarto de século passado, porque me ocorre algo bem diverso: é óbvio que se podem tirar as pessoas do corredor. Mas a algumas pessoas não se lhes tira o corredor. Pois este é muito confortável.

Demagogia

por jpt, em 14.10.19

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Leio num jornal que provavelmente a actual ministra da justiça sairá do governo e irá para o Tribunal Constitucional, sendo previsível que passará a presidi-lo daqui a algum tempo.

Entretanto, nestes últimos dias, continuo a ler um enorme chorrilho de patacoadas sobre o extraordinário significado da ascensão ao parlamento de gentes oriundas do bloguismo mais demagógico do início dos 2000s. Uma verdadeira orgia de jargão, um frenesim orgástico. E, espertalhões que são, as pessoas dão-lhes atenção. 

Após as eleições legislativas do passado dia 6, fomos confrontados com algumas novidades, das quais destaco os novos partidos que pela primeira vez elegeram deputados. Falo do Chega, do Livre e o do IL.

A representação de cada um deles no hemiciclo de São Bento é limitada mas cada um representa novas e diferentes abordagens da realidade, com que naturalmente iremos ser confrontados.

Estes três partidos têm características em comum e outras que os distingue. Cada qual à sua maneira representam duas visões do mundo.

Num dos lados desse mundo estão aqueles que acreditam que uma pessoa vale pelo que é, pela forma com que enfrenta o mundo, pela forma como se relaciona com os demais, pela capacidade de dar e pelo que aceita em troca disso. Acham também que cada ser humano tem um potencial de acrescentar coisas boas ao mundo e por isso deve ser tido em consideração pela pessoa que é. Lidar com um desconhecido de acordo com esta abordagem é exigente e trabalhoso. Mais fácil seria classifica-lo pelo grupo em que o poderíamos encaixar. E essa é a abordagem alternativa. Essa é a abordagem que classifica o indivíduo de acordo com uma caracterização pré-definida e que dessa forma lhe rouba a individualidade. No fundo é uma abordagem preconceituosa, e o preconceito é um atalho de raciocínio que simplifica e poupa o esforço necessário à avaliação e ao conhecimento do outro. Tem um elevado potencial de criar erros de avaliação e por isso de impedir a realização pessoal das vítimas destas avaliações errôneas. No momento seguinte é a sociedade que fica a perder pela ausência do benefício que as vítimas destes preconceitos poderiam acrescentar aos seus pares.

Esta segunda forma de estar na vida, e também na política, é preguiçosa, é injusta e racista.

Para o Chega e para o Livre o indivíduo é menor que o grupo a que pertence e por isso não deve ser avaliado pelo que é. Um e outro dizem representar grupos em contraponto com outros grupos de uma forma em que é difícil encontrar pontes de entendimento.

Pelo contrário o IL, e o liberalismo que representa, defende que acima de tudo está o indivíduo. Avaliar o indivíduo pelo grupo a que pertence é redutor do seu potencial e isso não deve ser o motivo para que as portas do elevador social lhe sejam fechadas.

Não é o estado que deve reconhecer direitos ao indivíduo, mas sim o indivíduo que deve definir os limites do estado. O estado não é a concretização da liberdade pois o inverso é o que deve acontecer.

Após anos e anos em que a política esteve refém da economia, parece que finalmente o debate ideológico regressou à Assembleia da República. Os debates de quinta-feira vão ser mais interessantes e são bem vindos.

Anda tudo doido

por Pedro Correia, em 22.09.19

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O senhor Trudeau, que era até agora o ai-jesus das moçoilas casadoiras e almas sensíveis de todos os géneros, transformou-se num monstro racista. O que pode até custar-lhe o posto máximo da política no Canadá.

Por ter sido caçado num esquema de corrupção? Por ter fugido ao fisco? Por ter atropelado alguém quando conduzia embriagado? Por ter insultado uma namorada em mil novecentos-e-troca-o-passo? Por ter fumado (inalando) crack num Conselho de Ministros? Não: por ter surgido disfarçado de Aladino numa festa académica do ano lectivo 2000/2001 no estabelecimento universitário privado onde então leccionava, em Vancouver. Era uma festa temática, alusiva às Mil e Uma Noites, e o imberbe Trudeau, então com 29 anos, enfarruscou a cara para parecer mais credível na fatiota de Aladino.

 

Eis o que anda a turvar as águas da política canadiana, em plena campanha eleitoral, provocando palpitações de indignação no agora minguado clube de fãs do fotogénico governante. Não faltam turbas a uivar: Justin Trudeau é acusado de racismo retroactivo por ter enfarruscado o rosto - a prova terá ficado à vista com a divulgação, nas redes ditas sociais, de uma foto comprovativa da sua aparição como Aladino na referida festa. Bem acompanhado, por sinal.

O clamor foi de tal ordem que o chefe do Executivo canadiano já se viu forçado a implorar perdão: «Peço desculpa aos canadianos pelo que fiz. Não devia ter agido assim e assumo a responsabilidade.» Penitente, só lhe falta andar com um cordão de cilícios amarrado à cintura.

Apesar deste humilhante acto de contrição, os seus rivais na campanha eleitoral não lhe perdoam. «Isto [a foto] comprova que ele não tem capacidade para governar o país», disparou o líder do Partido Conservador, Andrew Scheer. Enquanto a candidata do Partido Verde, Elizabeth May, se confessava «profundamente perturbada» por aquela imagem inequivocamente «racista». Ele e ela de olhos postos nas legislativas de 21 de Outubro.

 

Leio as notícias e concluo: anda tudo doido.

A disseminação do rótulo "racista", colando-o a tudo quanto mexe, serve apenas para branquear o verdadeiro racismo. Como, noutros tempos, não faltava quem chamasse "fascista" a quem exprimisse uma opinião contrária, acabando por deixar incólumes os genuínos fascistas. Tal como a equiparação do piropo a uma "agressão sexual", como urravam as papisas mais façanhudas do "Me Too", contribuiu em larga medida para desacreditar este movimento ao confundir estupidamente cortejadores com predadores.

Só estes acabam por beneficiar com tão tonta confusão. 

 

Este vendaval de loucura nada mansa que perpassa aí, em nome dos bons costumes, a multiplicar atestados de excomunhão aos políticos contemporâneos, putativos culpados de supostos pecados alegadamente cometidos noutras décadas ou noutro século, arrisca-se a produzir perigosos tiros de ricochete.

Um gesto, uma palavra, uma fotografia com dez, vinte ou trinta anos basta hoje para ameaçar ou abortar uma carreira governativa, por mais promissora que pareça. Este policiamento obsessivo, em regra, é comandado por patrulheiros órfãos de ideologias totalitárias que mudaram de cartilha mas não de sectarismo e concebem a política como um convento reservado a almas imaculadas. Isto só pode produzir péssimos resultados no dia em que as pessoas comuns se fartarem destas zelotas armadas em virgens pudibundas: aí elegerão o mais politicamente incorrecto que aparecer, seja em tarde de sol seja em manhã de nevoeiro.

Como o futuro próximo demonstrará.

O "etno-racialismo"

por jpt, em 08.07.19

Na lusa pátria vai um burburinho por causa deste texto de Maria Fátima Bonifácio sobre quotas "étnico-raciais". Tamanho que até o director do jornal Público veio gemer um editorial, desculpando-se, uma coisa patética:

1. O texto de Bonifácio é uma borregada, monumental. Porque é um bramido de disparates, próximos da demência senil. Ou mesmo já lá. E, fundamentalmente, porque na sua vetusta patetice dá força "àquilo" que quer combater, a turba dos "étnico-racialistas". (Já aí está um texto de uma senhora do PSD, Marta Mucznikmuito actualizada no "quotismo", a mostrar como tudo se vai seguir).

2. Gritam que é um discurso de "ódio", e o tipo do Público até com isso concorda. Se é certo que o texto é uma pantomina do que é a reflexão convirá ter algum cuidado nessa invectiva, que é proto-censura. Se eu, ou outrem, disser que as testemunhas de jeová (que agora alugaram um estádio em Carnide, Lisboa, para o seu congresso) ou os seus primos da IURD são uma mole de supersticiosos ignorantes, que não se integram no racionalismo desejável, estou a fazer um "discurso de ódio"? Não. E com toda a certeza que não serei apedrejado em Lisboa. Mas será exactamente o mesmo tipo de discurso, de menosprezo mas não de "ódio".

3. Bonifácio critica o PS (por via da entrevista de Pena Pires) por causa das quotas "étnico-raciais". Este dirigente daquele partido anuncia que o PS poderá vir a assumir a tal posição "étnico-racialista" na composição das suas listas de deputados. Isso é apenas assunto desse partido, no afã de ganhar votos até à maioria absoluta. Lembro que o PCP tinha (ou tem) quotas nos seus órgãos (a maioria tinha que ser operária) e isso não chocava ninguém. Face a essa possibilidade no PS só tenho uma questão, perfeitamente legítima e empiricamente justificada: será que as lojas maçónicas já têm as tais quotas ou as vão instalar, andam os maçónicos por aí com afã a recrutar ciganos e pretos (perdão, afrodescendentes)? E é essa a questão relevante, não a tralha dos deputados Benetton que vão agitar.

4. Pelo que leio no artigo do Público em que Pena Pires é entrevistado sobre a matéria (que está ligado no texto de Bonifácio, e por essa via a ele chego) o prestigiado sociólogo deixa entender que a visibilidade pública - na tv e na política - reduz a discriminação e impulsiona a mobilidade social. E que a frequência universitária também reduz o racismo. E daí que defenda o "quotizar", tanto nas listas políticas como no acesso à universidade e também na tv - tudo isso me lembra um artigo do Público (jornal muito militante desta tralha) em que uma artista "afrodescendente" dizia ter emigrado por causa da discriminação em Portugal, pois não encontrava negros nos anúncios de shampoo, nem nas telenovelas, o que lhe causava enorme incómodo. O registo intelectual é o mesmo. Ainda que o prestígio intelectual de Pena Pires seja bem superior, e justificadamente, ao dos militantes jornalistas do Público.

5. Para qualquer tipo que queira evitar/confrontar o comunitarismo e respectiva "quotização" da população portuguesa e imigrada, para qualquer democrata republicano, a primeira coisa a fazer é mesmo pontapear a tralha bonifácia. Insalubre. E depois perceber uma coisa: o mundo não é o eixo Largo do Rato - (agora também) Buenos Aires, rua - Bairro Alto. Ou seja, o racismo será a ideologia dominante de XXI. Não se combate com a legitimação das suas falsas categorias. Nem anuíndo ao lumpen-intelectual local.

A fé

por jpt, em 13.04.19

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Eis o homem, ocorre-me dizer, no meu ateísmo, e nisso vou indiferente a que possa parecer uma (quase)blasfémia aos crentes - será apenas problema deles. Encontro isto no FB enquanto leio alhures (via Corta-fitas) dois profundos textos do Papa Bento XVI sobre abusos sexuais internos à sua igreja. Nesta conjugação mostra-se um momento difícil mas grande para os vizinhos católicos (e, espero, para uma democracia-cristã europeia, que vai indo invisível e talvez moribunda).

Isto resolve, no imediato? Pouco valerá. Os "senhores da guerra" adiarão por umas semanas as suas induções de execuções. E os prelados malévolos masturbar-se-ão um pouco mais nos próximos meses, dando alguma folga às suas vítimas. Depois tudo continuará.

E entre a gente comum continuará o fel, o seu império. Encontro esta foto num mural-FB: sobre o acto de Francisco o primeiro comentário é de um moçambicano, vituperando o acto, "ele que vá fazer isso ao Trump e outros ..." (outros brancos, claro), e segue num discurso completamente racista. E sobre um dos textos de Bento XVI (esse que todos os cultores do transgenderismo e outras transumâncias identitárias que surjam algo exóticas chamam Ratzinger, neste caso recusando a mudança identitária, e assim negando tudo quanto peroram, e até profissionalmente, tão ufanos seguem na sua mediocridade) logo leio textos de blogs comunistas deturpando-lhe, por reducionismo aleivoso, o conteúdo para o poderem aviltar.

Ou seja, vale a pena beijar os pés a esta escumalha, o intelectual burguesote português tão cioso de si, o racista moçambicano, os títeres sudaneses, diferentes no local mas iguais na miséria que são? Não. Nada os vai mudar.

Mas é isso a fé. Crer no inexistente. De vez em quando fica bonito. Este é um caso desses.

Ruanda

por jpt, em 08.04.19

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25 anos sobre o cume da eficácia genocida, no Ruanda. Para se compreender o acontecido - e muito mais relevante do que as súmulas de jornais - deixo aqui um texto (20 páginas) do meu amigo (e colega), e ex-co-bloguista, Fernando Florêncio, professor em Coimbra. O qual, logo após a hecatombe, esteve dois anos no país (1994-1996) a chefiar uma missão internacional. Homem discreto, pois muito mais teve para contar, mas reteve-o, decerto que por demais doloroso para ser passado à escrita. Mas narrava-o nos nossos almoços e jantares, quando nos cruzávamos em Lisboa. E bem lembro o que avançava sobre a emergente guerra no então Zaire, muito efeito da crise ruandesa, coisas que o poder político-diplomático luso, sempre tão lânguido, não tinha interesse em ouvir (e chega este tipo de diplomata a embaixador e ministro ..., gente impávida na sua extrema mediocridade). Tão discreto que googlo agora sobre se algum órgão de comunicação social o contactou mas nada, preferirão os habituais tudólogos, profissionais de painéis.

Do acontecido lembro o "frisson" com que se recebiam as notícias, estava então na missão eleitoral na África do Sul. Era imensa a festiva expectativa com a chegada ao poder de Mandela (nesse mesmo Abril de 94). Mas também o receio que a situação descambasse num conflito, na confluência de revanchismos. O Ruanda era um horror mas também um pesadelo, a aterrorizar o futuro.

Para a actualidade retiro duas coisas: a peçonha de haver investigadores portugueses pagos pelo Estado, e estabelecidos em instituições públicas, que publicam textos (no "referencial" Público) afimando que "só há racismo dos brancos, os negros quanto muito poderão ter preconceitos". A sujeição prostituta de alguns "cientistas" sociais à agenda do BE serve para tudo.

E recordo também tempos de meados de 2000s, quando tive alguns alunos ruandeses, normalmente cursando a licenciatura de ensino de francês. Refugiados, vindos do campo de Bobole (ainda não tinha havido a concentração em Nampula). Homens já crescidos, no dealbar dos 30s. E recordo da minha disciplina, de nunca lhes perguntar - em particular a um, mais habitual visita do meu gabinete, interessado em temáticas mais socioantropológicas - qual a respectiva origem. Não querendo assim entreabrir a porta do Horror. Não querendo saber o passado desses seus agentes ... E é importante lembrar isso neste tempo de burguesotes sacralizando "refugiados". Pois a realidade não cabe toda na rua da Rosa, 1985.

Ba e os outros

por jpt, em 25.03.19

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Ao invés de muita gente cada vez mais gosto do Dr. Ba (líder da secção do BE chamada SOS Racismo). Digo-o sem ironia (ou sarcasmo): é um tipo atrevido, e isso é de louvar (ainda para mais no país do respeitinho). Imigrante, oriundo de África (não sei se já é português, mas isso para o caso é irrelevante) atreve-se a botar o que pensa, não se coíbe. Muito saúdo isso. Discordo do que o homem pensa? Pelo que vou lendo vou discordando, mas isso nem é importante. O que é relevante são dois corolários que retiro do que dele vou lendo:

1) O dr. Ba,  tornado "figura pública", deslumbrou-se, pois está há tempo demais perto do poder (trabalha na AR; é sufragado pelo poder mediático lisboeta - o eixo socratista, perene, exemplificado pelo bloco ex-blog Jugular/painel Eixo do Mal). Como qualquer indivíduo ("sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação"), ao deslumbrar-se borrega.

Este breve texto, algo alarmista mas talvez não totalmente infundado, é mais do que exemplo de despiste pessoal. Mas também do ambiente geral entre os "beaux esprits" lisboetas. Em Portugal já se é olhado com rancor ao dizer-se "preto" e mesmo "negro"; os mais patetas dos patetas já se ufanam ao escrever Car@s ou Prezad@s, e pessoas medianamente inteligentes até lhes respondem; termos como "mariquice" ou "prostituta" são vetados; é-se apupado se se trata uma conviva por "querida" (de facto quer dizer "quero-te", é um bocadinho exagerado assim dito em público, temos que convir ...); e agora importou-se o termo "mansplaining" para invectivar a simpática complacência com a parvoíce, quando esta emanada por uma mulher: ou seja, pode-se ser condescendente com um estúpido mas não com uma estúpida, o que não deixa de ser uma discriminação. E neste ambiente geral, cioso da correcção, o dr. Ba avança, atrevido como já disse, e chama-nos "tugas". Termo que, como sabe qualquer tipo que já tenha saído das ruas da Atalaia e da Rosa, anos 1980s, é amplamente pejorativo. Mas, como é o Ba, fica bem.

Mais notório ainda é a bojarda sobre os ucranianos. O dr. Ba celebrizou-se por defender imigrantes ou descendentes de imigrantes de origem africana. Meto as mãos no fogo que os adeptos da selecção ucraniana que foram ao jogo terão sido, na sua maioria, os imigrantes daquele país que ficaram em Portugal. Para o dr. Ba, paladino de determinadas "comunidades" imigradas, os imigrados com diferentes origens são generalizáveis, discriminalizáveis, invectiváveis (nazis, pronto). Este afrontar entre imigrantes de diferentes origens é típico, tradicional (olhem eu aqui na Bélgica a poder comprovar isso). Ou seja, Ba não só reproduz o eixo Bloco/PS Bairro Alto na sua recente invectiva aos imigrantes brasileiros, como reproduz a velha rivalidade sociológica entre os imigrantes de diferentes origens. Ba é um eco da história, e é um eco das suas limitações pessoais? Como todos nós o somos. Mas é também um eco da mediocridade hipócrita "lisboeta" - e isso já é uma opção pessoal. Será o tal deslumbramento, talvez. Mas é mais do que isso, é uma reaccionária mundividência, ignorante e ... atrevida.

2) O outro corolário é mais curto: tem alguma "piada" (de facto é tétrico) ver como um meio que vive do seu capital cultural, profissionais intelectuais com formação em ciências sociais (sociologia, antropologia, estudos culturais, coisas mais humanísticas), não só é permeável a este tipo de elaborações medíocres como as defende e ecoa. Refutar Ba e seus apoiantes e/ou paladinos convoca invectivas oriundas desse meio socioprofissional: somos logo ditos "lusotropicalistas" (entenda-se, salazaristas, fascistas) ou, num ou outro de intelecto mais refinado, "universalistas neo-liberais" (ou seja, o mesmo).

Há algum tempo li umas citações de textos de Ba: defende para os "nossos bairros" ("deles", presumo. Ou então "todos", se pensar como um "universalista neo-liberal") algo definível como "sovietes de bairro", policiamento comunitário, vistorias, etc. Aquilo que em Moçambique ficou conhecido por "grupos dinamizadores", sem tirar nem por. O que me é notório é ver como (principalmente) antropólogos - alguns dos quais minhas ligações-FB, ainda que o Algoritmo nos aparte - que viveram e/ou trabalharam em Moçambique muito são críticos da I República (onde aqueles vigoraram, no seu início). Muito mais críticos do que eu (que sou um dos tais torpes fascistas, neo-liberais, lusotropicalistas). Mas depois deliciam-se com esta conversa, ombreiam, defendem. Querem-no para o país. E até o escrevem. Isto seria risível. Se não fosse abjecto. "Mil vezes antes o dr. Ba do que estes doutores", afianço. A minha sorte é que não os encontro em Schaerbeek.

Adenda: O muito útil Polígrafo alerta para o facto do texto de Ba ter sido manipulado, tendo-lhe sido malevolamente amputada a referência a "skinheads" ("ucranianos e tugas"), potenciando o tom generalizador. Seja, lamentável que aconteça isto. Que efeitos sobre o postal? Nenhuns. O dr. Ba, a propósito de um jogo de futebol com uma equipa ucraniana convoca a ideia de "cabeças rapadas nazis" ucranianos e tugas. Fá-lo em todos os jogos de futebol? Não, apenas aqui diante da presença desse tipo de estrangeiros, promove uma generalização (abusiva, discriminatória) originada em campanhas russas anti-ucranianas (como Milhazes nos lembra) - mostrando que o vínculo moral dos simpatizantes do PCP com a autocracia russa actual também se alarga do BE. Quanto aos nacionais tudo na mesma, já éramos e continuamos "tugas".

Ba e a polícia

por jpt, em 28.01.19

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Ba disse que a polícia é uma "bosta" (nota: "bosta" é um termo canónico). Muita gente indigna-se, pois Ba é do BE e não deveria dizer isso. Torço o nariz. Não sei se ele tem razão na interpretação do caso que causou as declarações - pelo que se vê nas curtas imagens, feitas pela vizinhança, é um típico caso de "porrada no beco", com os cidadãos a investirem contra os polícias ali convocados para sanarem a situação. E estes a responderem. E daquele pouco que tenho lido de Ba e seus correligionários - alguns deles demagogos com palco usual no jornal "Público" e galões universitários - acho aquele discurso histriónico e sob uma ideologia execrável: são racialistas, e no caso dos académicos a adesão a essa ideologia é uma estratégia de obtenção de recursos, económicos e estatutários. Mas isso são contas de outros rosários.

Ba é um assessor do grupo parlamentar do BE. É um emprego. Presume-se que o exerça devido a que o BE nele tenha confiança política. Mas não representa a coligação estalinista-maoísta. É empregado. Não é autarca, não é deputado, não é membro do governo. Se o fosse a crítica às suas declarações teria em conta essas funções de representação (e/ou executivas). Neste caso é "apenas" um cidadão a ter declarações. É conotável com a tal coligação? Sim. Mas qualquer cidadão pode ser conotável com um movimento político. Melhor dizendo, tem o direito de ser conotável com um movimento político. Assim sendo, se o que Ba diz é conotável com o BE e se isso é positivo e negativo é apenas problema do tal BE - raciocínio que não se aplica quando deputados da coligação ecoam essas posições, pois a função de representação tem outras implicações. Mas isso, outra vez, são contas de outros rosários. Há quem resmungue que Ba é dirigente da SOS Racismo e como tal não poderia dizer coisas destas. Mas essa é uma organização da sociedade civil, representa-se a si própria, aos seus membros. As declarações de Ba podem ou não ser prejudiciais para a organização, podem ou não vinculá-la, é problema deles.

Ou seja, pode-se criticar o conteúdo das declarações de Ba, a sua pertinência. Mas nunca pôr em causa a pertinência de as proferir. Esta é algo que deverá ser questionado (não é a pertinência do seu conteúdo, é o acto de as realizar) por aqueles que pertencem à sua organização e pelos seus empregadores. E isto é límpido como água cristalina, como se diz na língua dos imperialistas racistas e dos afro-americanos. O coro de ofendidos, que refutam não o conteúdo mas tê-las ele proferido, é um coro ignaro, desafinado. E hipócrita.

Entretanto o deputado do PSD João Moura manda Ba à "bardamerda" (nota: "bardamerda" é um termo não canónico). Moura é deputado. Não deveria dizer coisas destas, é representante do eleitorado. Ou por outras palavras, não é empregado do PSD (ele se calhar sente-se bem empregado, mas isso é outra coisa), é seu representante. Mas, pior do que citar o antigo Primeiro-Ministro Pinheiro de Azevedo (que utilizou o célebre termo em invectiva impessoal, um desabafo, "vão bardamerda com o fascista", que era o termo de moda que os sindicalistas do PCP contra ele utilizavam), é a patetice de Moura, que vem dizer a posteriori que não utilizou o termo com vontade insultuosa. Patetice pura. E conviria que um deputado não fosse tão pateta. Ou que, pelo menos, não o mostrasse.

Mas as declarações deste João Moura são algo bem pior do que patetice. Pois mostram bem o fascistazeco que habita no pobre deputado - e nos seus apoiantes, que os deve ter, caso contrário não seria parlamentar. Ba afirma que tem sido ameaçado. Há imagens dele a ser confrontado por indivíduos do PNR. Estes não foram violentos, foram incisivos, e quem se expõe em público arrisca este tipo de confronto, pois "quem anda à chuva molha-se". Mas as coisas não são tão simples. Por um lado porque Ba afirma que tem sido ameaçado e, infelizmente, isso é de crer. Em segundo lugar porque este PNR é comandado por um homem (a quem a RTP de serviço público dá espaço de antena por se candidar a chefiar uma claque da bola; a quem um Goucha entrevista longamente para tentar ganhar audiências contra a Cristina) - errata: nos comentários um leitor avisa que o PNR não é comandado, mas apenas integrado por esse indivíduo - que foi preso por cumplicidade num assassinato cometido pelos militantes desse partido, cujo móbil foi exactamente o facto do assassinado ser ... negro. Ou seja, é normal que Ba se preocupe. E é totalmente curial que solicite protecção policial.  A polícia existe para isto, é esse o seu dever numa sociedade liberal, democrática, o de proteger a vida dos cidadãos (já agora, precavendo ressalvas de comentadores "inteligentes", sendo eles naturais ou estrangeiros, residentes ou turistas, "originários" ou selenitas, neo-nazis do PNR ou estalino-maoístas com frescuras new age). Ao apoucar esse direito, ao insultar Ba por solicitar protecção, o deputado Moura mostra assim o quão está longe de compreender o que é o chamado Estado de direito, democrático. É um morcão? É. Mas, acima de tudo, e talvez nem o saiba, talvez seja apenas uma besta, mas é uma besta fascistóide.

Há muitos anos, 30 já, Rushdie publicou "Os Versículos Satânicos" e foi condenado à morte pelo poder iraniano. Isto foi antes da I guerra do Golfo e da expansão do terrorismo do fascismo islâmico. A abjecção por essa via era bem menor na Europa. A esquerda europeia balbuciou um pouco com essa "fatwa", entre a ignorância do que aquilo era e o estupor. Os comunistas gostavam do Irão, porque anti-americano. E aqueles que então eram ainda o embrião desta "nova" esquerda identitarista (os neo-comunistas) também. Estes, tal como hoje, à menor aragem já espirravam referências a Foucault. O qual, no seu desprezo pela democracia, pela razão, pelo ocidente e pelos EUA (apesar de adorar os prazeres de Frisco, onde terá adoecido mortalmente) fora um grande defensor da teocracia homofóbica e falocrata iraniana, sob o lema que perseguiu, o "tudo contra o Ocidente" (excepto, claro, os ares "liberais" de Frisco. E a universidade francesa). Um apreço que se mantém, basta ver como estes identitaristas actuais se indignam mais com um barman dizer que "não tem copos com paneleirices" do que com as penas de morte aos nossos, ateus, ou aos homossexuais, lá pelo Irão foucauldiano ou sítios religioso-politicamente aparentados. Nesse ambiente, de "pacto germano-soviético", de colaboracionismo com o fascismo islâmico, por aversão aos EUA e por ademanes a la Foucault, a tal esquerda europeia algo balbuciou. Entre o tal estupor e o desagrado com a "blasfémia", num "não havia necessidade", a la Diácono Remédios, que Rushdie tivesse sido tão desbragado na sua utilização do corão. 

À direita foi diferente. O escritor fora um crítico do poder tatcheriano. E por isso vieram invectivá-lo por pedir protecção estatal (policial), como se isso fosse paradoxal. O desagrado com o escritor advinha também do repúdio pela "blasfémia", esse refúgio anti-liberdade de expressão que o modelo de "secularização" anglófono (génese do multiculturalismo que depois grassou) carrega, isso de que temos de respeitar as religiões (o que é completamente diferente de respeitar a liberdade de culto). Enfim, devido ao seu repúdio pelo direito à blasfémia e com a oposição a Tatcher, a direita anti-Estado de Direito britânica invectivou escritor e sua necessidade de protecção. Depois, com o tempo e a expansão do terrorismo islâmico, esse repúdio baixou. Rushdie passou a ser pensado (quando ainda o é) como uma das vítimas, e não apenas como um alvo (algo) merecido, devido ao seu "desrespeito".

Ba não é Rushdie, claro. E o PNR e outros feixes de holigões não são o estado iraniano nem as organizações fundamentalistas islâmicas. Mas em termos abstractos as situações são algo similares. Até porque temos em Portugal antecedentes de violência rácica por causas políticas, até mortal. E mesmo que não os tivéssemos. Como tal Ba tem não só o direito inquestionável de pedir protecção policial, independentemente do que pensa sobre a acção policial. Tem também o dever, cívico, de se proteger. Incompreender isto é incompreender a democracia. 

Que um deputado não o perceba, que mande Ba à merda por isto, é inaceitável, e mostra o miserável intelecto que tem, e a sua visceral aversão à democracia. E o PSD deveria perceber o que o Pedro Correia aqui deixou, com ironia, isso de que é hora de serrar fileiras. E expurgar-se deste Moura e de holigões similares que por lá andem. Aboletados, em busca de empregos estatais ou comissões.

Preconceitos e Judite de Sousa

por jpt, em 07.01.19

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Nos dias actuais vigora a ideia de que não se pode ter preconceitos - algo que parece ser sinónimo do iluminismo, qualquer coisa como o cume da evolução da inteligência humana, da razão. E, assim sendo, urge que deles nos depuremos. E isso deve ser exercido também nas formas de tratamento, como nos dirigimos aos outros, como os nomeamos. Mesmo em relação aos que nos são mais próximos. Pois essas formas estão impregnadas de desvalorizações, relações de poder implícitas ou explícitas, categorizações que nos hierarquizam e a tantos amesquinham, mesmo  violentam. E nisso, por vezes, somos surpreendidos com as oposições que, cândidos, geramos. Muito me lembro do meu espanto quando, há cerca de 15 anos, uma colega antropóloga, feminista radical, me invectivou violentamente por eu ter referido, com evidente desvelo amoroso, "a minha mulher". "É tua propriedade? és dono dela?", clamou, La Pasionaria do género ... Eu ainda tentei contribuir, anunciar a minha certeza (empírica até) de que me seria dedicado aquilo do "o meu marido" (ou até o mais coloquial "o meu homem"). Mas de nada serviu essa tentativa de defesa, e a inexistência da minha auto-crítica pública por esse "desvio de direita (machista)" esfriou o nosso relacionamento.

Parece bonita, sob boas causas, esta depuração da linguagem, o extirpar dos preconceitos que habitam, insidiosos, na placidez das formas de tratamento, reprodutores da ignomínia passada e presente . Mas, em absoluto, não é. Sê-lo-á se com "conta, peso e medida", aquilo do bom senso. Eu faço o culto dos preconceitos e vejo, com agrado ou sarcasmo, consoante quem observo, como os outros o fazem. Quantas vezes inconscientemente. Melhor dizendo, quase sempre inconscientemente.

Exemplifico: detesto o tratamento "tio" se fora da família. Quando os filhos dos meus amigos medraram até à idade púbere lá chegava eu de férias a Lisboa para aturar a pantomina burguesota do "olá tio". Bufava de raiva: fui tio aos 4 anos, tio-avô aos 30, tenho sobrinhos que cheguem, e até sobram (literalmente falando, pois espalhados pelo mundo), não preciso de acrescentos. Cresci, entre esses tais velhos amigos, ensinado a tratar-lhes os pais pelo primeiro nome (na terceira pessoa mas pelo nome). E agora eles educam os filhos na tiozice? Foi difícil ajudar a minha filha a calibrar o entendimento face a esses meus velhos amigos: "tio" é tabu; há aqueles a quem se dá o "tu" e aqueles a quem se dá a terceira pessoa, distinção que é feita caso a caso, de modo fluído, inconceptualizável. Pois esta tiozice, disseminada nos anos 80s na pequena-burguesia (na altura não se dizia classe média), terá razões. Mas não temos que as seguir. Ou seja, podemos seguir outras formas de tratamento. Entenda-se, outros preconceitos ...

Por essa década apareceram outros "marcadores de classe", estratégias ascensionais. Em muito jovem uma muito apetecível beldade da vizinhança informou-me que os homens não podem usar meias brancas (nem dizer peúgas, mas essa era ideia mais antiga). Grassou a piroseira de que só se cumprimenta com um beijo ("dá cá o segundo, que eu sou dos Olivais", disse centenas de vezes) e outras patetices parecidas. E, nestas coisas da fala, algum tempo depois brotou talvez a pior de todas, que me convoca iras sanguinárias, vertigens fuziladoras: a elisão do possessivo relativo aos pais. Da mercearia ao consultório médico perguntavam-me "a mãe precisará de ...?" e eu sempre a resmungar "a mãe de quem?, que por aqui há filhos de muitas mães" (como, e muito bem, aprendi na tropa), ou por todo o lado "então como tem passado o pai?" e eu a embrulhar o peludo palavrão num azedo "o meu pai? (será dele que está a falar?)". Enfim, sempre falei do "meu pai" e falo da "minha mãe" e de certeza que não é palrar sobre "o pai" e "a mãe" que lhes azuleará o sangue ou doirará antepassados e descendência. E, mais, muito gosto de os referir como o "meu pai António" e "minha mãe Marília". Mas esse é o meu gosto. Dirão os que se julgam mais puristas que só se tem um pai e uma mãe, tornando redundante o possessivo. Pobre ignorância, reduzindo parentesco a consanguinidade, incapaz de olhar a sociologia: até pela disseminação do divórcio, e pela sua legitimação moral que é motriz de afectividades, generalizou-se a pluralidade paternal e maternal.

O que acho piada é que todos estes modos são também gozadas por muitos. As "bocas" aos "tios", aos arrivismos, à construção de sotaques - ainda que todos nós construamos sotaques e os moldemos aos interlocutores, procurando fundi-los para episódicas osmoses ou preservando-os para demarcação das distinções. Ora estas reacções negativas, tantas vezes achincalhadoras, são meros preconceitos. Conservadores, e do piorio. Pois estas tais estratégias ascensionais, mesmo que sob formas um bocadinho patetas, até kitsch, mostram a legitimidade da mobilidade social. E essa é boa, é a democracia, a república de cidadãos. Mas, paradoxalmente, convocam a verrina de muito boa gente - que depois também segue outros ademanes identitários -, principalmente, mas não só, num mundo "esquerdinha". Que gozam estas práticas sem perceberem que apenas seguem outros preconceitos. Acima de tudo o que subscreve a sociedade de "antigo regime", isso do "nasceste sapateiro nunca tocarás rabecão" - a não ser que tenhas um extremo talento, aquilo do "génio", que te permita ascender, romper, mas só tu, a natural ordenação de classes. E como tal "nada de falares ou de te comportares acima da tua condição". O que restou da "esquerda que ri" é só isto, preconceituosa, reaccionária. Policiesca.

Vem tudo isto a propósito da sanha generalizada contra Judite de Sousa. A senhora publicou um livro. Fez uma sessão de apresentação. Publicou fotos dessa sessão. Numa delas colocou uma legenda, tipo "em família, eu, mãe, irmã, a senhora cá de casa". Esta última é a empregada doméstica. É negra. Cai o Carmo e a Trindade. Acusações de desrespeito. De racismo. Chego a isto porque o jogador de futebol William Carvalho intervém na querela invectivando a jornalista por não dar nome à senhora em causa. Judite de Sousa não nomeou a mãe e a irmã. Isso está bem - repare-se, por mero preconceito nosso, habituados a que não se digam os nomes dos familiares. E utiliza uma velha expressão, que não tem origem nem conteúdo racial, para descrever empregados domésticos com os quais se têm grande intimidade. O trabalho doméstico é muito complicado, e integra situações muito injustas. Mas essa é uma situação geral, de sociologia (e de direito) do trabalho. Não se pode dizer que seja este caso, que a jornalista tenha um comportamento ilegal (ou imoral) para com a sua funcionária. O trabalho doméstico também muitas vezes cai em relações complexas, de patrocinato (de "paternalismo", como se costuma dizer), que podem violar os direitos dos trabalhadores. Mas também nada disso se pode adiantar neste caso. 

Judite de Sousa apenas usa uma velha expressão, não discriminatória (de facto, já que as pessoas vasculham a língua para imputar sentidos implícitos, saberão o que quer dizer "senhora"?), para integrar a sua "empregada doméstica" no âmbito familiar, as 4 mulheres. As 4 senhoras. Visto de longe é um pequeno acto de ternura, ou companheirismo, que cruza relações contratuais. Mas a outra senhora é negra. E como tal tudo isso se torna condenável, insuportável. Porque é preciso denunciar, seja lá o que for. Principalmente se houver "raça" à mistura.

A reacção generalizada a este pequeno gesto torna o "fait-divers" num óbvio sintoma do estado da arte aí. O policiamento do linguajar, o afã purificador, de facto racista, virou pandémico. Pois grassam os imbecis. Imbecis racistas. E, como é típico da imbecilidade, vão convictos de que não o são. Aturem-nos. Aos negros e aos brancos. E aos das outras cores também (os patetas aos tipos de "outras cores" chamam "étnicos"). E se não tiverem paciência para os aturar? Combatam-nos.

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Destituição?

por jpt, em 29.10.18

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Isto começou com alguns conhecidos jornalistas da esquerda socialista que botam nos "jornais de referência", foi secundado por "opinadores". Para meu espanto até por antropólogos (ironizo um pouco quanto a este espanto, no seio da corporação surpreende-me a desfaçatez mas não o pensamento). Defende-se o escrutínio dos votos dos imigrantes brasileiros em Portugal para opinar sobre a pertinência da sua permanência no país. A indução de um ambiente de pressão, moral que seja, sobre essa "comunidade" - que será muito mais um colectivo inorgânico de indivíduos, contendo alguns núcleos de sociabilidade e de entrejuda mas não exclusivos. De facto, a exigência que estes cidadãos legalmente residentes ("documentados", na gíria politicamente correcta desta falsa "esquerda") assumam - relativamente ao seu país e, em sentido lato, face ao mundo - os valores político-culturais putativamente dominantes na sociedade que os acolheu. Nos termos dos intelectuais (e dos antropólogos em particular) trata-se da exigência de uma "assimilação", perspectiva sempre contestada quando relativa a imigrantes oriundos da Ásia ou da África. Uma vontade assimiladora que é sempre dita efeito de racismo, de lusotropicalismo, de imperialismo, de (neo)colonialismo (o prefixo está a ficar em desuso muito por influência do pensamento boaventuriano, que tornou "colonialismo" um all aboard para definir a história moderna e contemporânea). 

 

Esta ênfase persecutória sobre os brasileiros é ainda por cima discriminatória, de modo paternalista, essa suprema face do racismo: ninguém nesta "esquerda", se preocupa em andar a escrutinar os votos (se os houver) dos imigrantes nepaleses, dos paquistaneses ou bangladexes, integrados em processos eleitorais complexos, entre ascensões de comunistas, "trumps" asiáticos e fundamentalismos islâmicos; ninguém se lembra de tentar encontrar as simpatias políticas dos imigrantes magrebinos ou do ocidente subsahariano, onde abundam os radicalismos islamófilos. E se alguém aventar a necessidade de fazer essa pesquisa, logo a corporação antropológica (olha logo estes) e os jornalistas do ex-DN e do Expresso, virão contestar, desabridos, a deriva persecutória, racista, securitária. Mas sobre os brasileiros, o voto no energúmeno bolsonar? Tudo é permitido. Isto mostra bem o paroquialismo desta classe-média locutora portuguesa mas também a incongruência e mediocridade intelectual e moral deste meio. Pois trata-se de um meio ambiente, não apenas de alguns miseráveis: eles botam estas coisas e não há, nos seus contextos de referência, partidários, profissionais, uma única voz crítica. Se algum jornalista do CM ou do Observador, se algum professor da Católica ou do ISCSP, escrevesse sobre a necessidade de escrutinar os votos dos imigrantes angolanos ou mauritanos para aferir da pertinência da continuidade dessa comunidade? O que diriam jornalistas, antropólogos e outros intelectuais, as presidentes da junta socialistas, os "comunicadores" e bloguistas-facebuqueiros? O que escreveriam os anticolonialistas directores dos jornais de referência, ex-diários que acolhem estes verdadeiros xenófobos nas suas páginas e nem tugem nem mugem? Mas este lixo? Passa. Porque os seus locutores "fazem parte ...", "são dos nossos" ...

 

 

Margarida Martins, a conhecida guida gorda do frágil, é diferente. Pois é presidente de uma junta de freguesia lisboeta, eleita no PS. Tem responsabilidades oficiais. Representa a besta exactamente como os outros locutores, do Expresso de Balsemão, do DN de Ferreira Fernandes ou das universidades, sejam estas quais forem. Mas representa-a assente, sentada, num cargo público para o qual foi eleita nas listas do partido do governo. Para mais é presidente de Arroios, freguesia onde coabitam imigrantes de dezenas de nacionalidades. E tem este tipo de mentalidade persecutória (e assimilacionista) face a "comunidades" imigradas. Isto é um óbvio caso que requer a destituição. Pelo menos a retirada de apoio de um partido que está no governo e anda com a prosápia que anda - ali logo ao lado a mandar construir um templo com fundos públicos, destinado aos estrangeiros, por exemplo.

 

Claro que os jornais de referência não a atacarão. Afinal a "guida" é "lisboa". E, mais do que tudo, é "pêésse", das "nossas".

 

Um gajo olha para esta gente, estes guidas gordas, estes jornalistas rastejantes, estes antropólogos "de esquerda", e lembra-se, constata, que, como todos, tem um bolsonaro cá dentro. Há que o reprimir. Ser cívico, civilizado. E, nesse civismo, clamar o óbvio: Margarida Martins tem que ser destituída. Isto é inaceitável. Os restantes têm que ser desprezados. E ditos.

I Am Not Your Negro

por Alexandre Guerra, em 12.02.18

 

Uma obra inacabada do poeta, escritor e activista James Baldwin deu origem a este documentário que há dias tive ocasião de ver. Aclamado pela crítica, I Am Not Your Negro (2016) é um exercício intelectual brutal sobre a América. Não é sobre os "negros", é sobre homens que continuam "agrilhoados" aos preconceitos da História e que tiveram em figuras como Medgar Evars, Malcolm X ou Martin Luther King Jr., líderes na luta pela sua "libertação". Nos dias de hoje, onde os temas inquietantes da Humanidade se debatem de forma frívola e histérica nas ditas "redes", é estimulante ver um documentário destes, que apela ao que de mais inteligente as pessoas têm para se reflectir sobre assuntos que, infelizmente, ainda continuam a assombrar as sociedades. 

A "carta racial"

por jpt, em 12.01.18

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Diz-se que a beleza está nos olhos de quem vê, cada cabeça sua sentença, etc. Mas é óbvio que nem seria preciso ir buscar um ícone como Richard Gere para assegurar a unanimidade desta afirmação: este sexagenário é muito mais agradável à vista do que a carantonha do perfil deste bloguista ou do que a do presidente da Assembleia da República portuguesa. Ou seja, em termos estéticos pode haver proclamações universais. Ou, pelo menos, avaliações mais ou menos abrangentes, pouco refutáveis.

Dito isto, leio que Rita Ferro Rodrigues, conhecida apresentadora de tv, protesta com o facto das 4 apresentadoras escolhidas para o festival da eurovisão serem brancas, por ser isso uma falta de representatividade. Mais uma vez vai a jogo a "carta racial", nisto de se exigir que se repartam os trabalhos "representativos" por aqueles que têm diferentes legados genéticos. Algo que o eixo PS-BE entende agora muito importante. O que é relevante é o que isto esconde, nas suas vestes de aparência analítica. Pois vejo a foto das 4 seleccionadas. Só conheço uma, com a qual confesso continuo a abanar à sua visão, Catarina Furtado. As outras 3 desconheço, nem serão beldades olímpicas mas têm um (relativo) palmo de cara, apreensível por esta minha vista desarmada. O que Rita Ferro Rodrigues não pergunta (não consegue?, não quer?) é quais são os critérios de "representatividade" que existem quando as caras da TV são tendencialmente bonitas? Que lugares há para as mulheres com as quais me cruzo no quotidiano, agradáveis ou desagradáveis à vista? Nas caixas, nos guichets, nos restaurantes, nas lojas, em empregos mais ou menos destinados a mulheres relativamente novas e com poucos (ou pouco especializados) estudos? Esse legado genético (e as possibilidades económicas destinadas às plásticas ou rearranjos externos) pouco lhe(s) importa(m). A única coisa que é relevante, porque está na moda, na crista da onda do surf, é a "carta racial". Meta-se uma mulata, uma macaísta, que tudo vai bem. Desde que "as nossas meninas" (como dizia o insuspeito Rosas) sejam bonitas. Porque isso é "natural" ...

E depois os reaccionários, os racistas, os lusotropicalistas são os outros. Brancos, claro.

 

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A redução ao absurdo

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.17

Poderá fazer sentido que se dê a uma crónica um título – "Se Mandela fosse do PSD, o BE arranjaria maneira de lhe chamar racista" – de cuja leitura não restem dúvidas sobre quem são os destinatários do texto, assim se restringindo a audiência. Neste caso ao BE, seus militantes e simpatizantes, e aos próprios e indefectíveis leitores do autor do texto. Isso pode servir também de aviso para quem, eventualmente, pudesse estar interessado em alargar horizontes, analisar argumentos e reflectir com o autor sobre o tema.

Se o cronista considera que as posições críticas do BE em relação a Passos Coelho são um disparate, penso que faz muito bem em dizê-lo. Isso é saudável em qualquer democracia. Mas devia, penso eu, fazê-lo de maneira a não restringir tanto o campo dos seus potenciais leitores.

Afinal, Feliciano Barreiras Duarte, que foi secretário de Estado nos três últimos governos do PSD, e também discorreu de viva voz para o semanário Expresso sobre o que foi dito no Pontal, tendo visto "com muita preocupação" as declarações de Passos Coelho sobre as alterações à lei da emigração e chegando ao ponto de dizer que "têm sido muitas as pessoas e as instituições, sendo ou não do PSD, que depois dessas declarações me têm contactado, demonstrando nuns casos revolta e indignação e noutros casos preocupação, porque não se revêem neste tipo de proclamações e temem o efeito rastilho que podem ter negativamente para Portugal e os portugueses", ainda acrescentando que "para muitos a grande dúvida é se este tipo de proclamações é apenas típico da época pré-eleitoral autárquica ou se é o início de um caminho diferente do PSD relativamente a estas matérias", poderia ter interesse em também ler sobre esse assunto. Tal como José Eduardo Martins e muitos outros que no PSD não partilham de todas as opiniões de Passos Coelho.

O racismo é com todos nós e não me parece que alguém, mesmo no BE, no seu perfeito juízo considerasse que as infelizes declarações de Arménio Carlos, a raiarem pelo menos o preconceito e que Rui Ramos achou por bem repescar neste momento, devessem ser aplaudidas. Como também não me parece, pela mesma ordem de razões, que alguém, à esquerda ou à direita e no seu perfeito juízo, fosse retirar das igualmente infelizes declarações de Passos Coelho no Pontal, que o fulano é racista ou xenófobo.   

Pensava eu que de um professor universitário e historiador seria de esperar outro tipo de argumentação. Mas não, voltei a enganar-me. Para além da mais do que evidente confusão de conceitos, enfiando tudo no mesmo saco, como aliás é típico do discurso populista mais ranhoso, ultimamente muito em voga na Casa Branca, a argumentação usada por Rui Ramos, de tão básica e redutora, assemelha-se à que, segundo ele, é utilizada pelos que no BE criticam Passos Coelho.

Pessoalmente, desconheço que esquerda democrática é essa, e à qual Rui Ramos se refere, que adopta o método "comunista e neo-comunista" (sic) de "desqualificar os adversários". Ramos devia esclarecê-lo, dizendo a quem se refere, porque só uma esquerda estúpida e ignorante o faria. Desqualificar os adversários é próprio de gente estúpida. De outro modo, se não o fizer, estaremos perante uma outra forma de reduzir a argumentação ao primarismo daquela que foi por ele usada no seu texto.

Em todo o caso, tenho a convicção de que Mandela, por muito que virasse à direita, nunca seria deste PSD a que Ramos se refere, o que desde logo e para seu evidente desgosto retiraria ao BE a oportunidade de lhe chamar racista, e a ele a oportunidade de escrever outra crónica como a que escreveu.

Parafraseando o autor, "com o devido respeito", "resistir sem medo" à argumentação delirante e maniqueísta de um cronista, professor universitário e historiador,  "não é apenas um meio de manter a liberdade de espírito necessária para enfrentar problemas como os que derivam das migrações do Médio Oriente: é também um meio de defender a democracia". E, acrescento eu, uma forma de manter a sanidade e combater os que dividem o mundo entre os que estão com Passos Coelho e os outros.

Não citarás Beauvoir em vão

por Rui Rocha, em 27.07.13

Cécile Kyenge, ministra italiana da Imigração, tem sido alvo dos actos mais abjectos. Há dias, Roberto Calderoli, vice-presidente do Senado, chamou-lhe orangotango. Na passada sexta-feira, atiraram-lhe bananas. Estes actos definem, naturalmente, apenas e só quem os pratica. A barbárie vem à superfície, desta vez, por Cécile Kyenge ser negra. A ministra da Integração poderia ter respondido, por exemplo, citando Simone de Beauvoir: não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus hábitos. Poderia e teria razão para isso. Todavia, Cécile Kyenge preferiu outro caminho. A citação seria um mero recurso retórico. Cécile meteu o discurso na realidade: com tantas pessoas a morrer de fome por causa da crise é triste desperdiçar comida assim. O sentido democrático e a maturidade cívica também são isto. O desapego de si, da sua posição formal como ministra e a sensibilidade que permite pensar em terceiros mesmo sob fogo cerrado. Acossada, não se defendeu a si própria, mas remeteu para o sofrimento de outros, ridicularizando assim, ainda mais, o gesto obsceno dos que a pretendiam ofender. Na resposta, Cécile foi simplesmente Cécile. Trata-se, obviamente, de uma chapada de luva negra que estalou na face dos energúmenos. Mas é, também, um exemplo para quem, a uns milhares de quilómetros de distância, ainda há umas poucas semanas, com altivez, desvio corporativo e insuflado sentido da própria honra, citou Beauvoir para chamar carrascos, de forma absolutamente desproporcionada, aos cidadãos que se manifestaram nas galerias da casa que se diz ser a da nossa democracia.


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