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Delito de Opinião

Reflexão do dia

Pedro Correia, 25.10.23

«A retórica é claramente de ódio a Israel e anti-semita. Os cartazes são de linguagem desumanizadora e de apoio à violência do Hamas. Vêem-se bandeiras do ISIS e da Al-Qaeda. Ninguém podia pedir maior apologia do terrorismo. Grita-se "morte aos judeus", usam-se cartazes com a bandeira de Israel no lixo junto ao slogan "manter o mundo limpo". Só quem considera os judeus não possuidores de dignidade humana por inteiro permanece numa manifestação onde se exibem tais opiniões.

Mas nem só de slogans em manifestações vive o anti-semitismo. Em Londres, os crimes motivados por anti-semitismo, desde o ataque do Hamas, cresceram 1350% (em termos homólogos). Uma sinagoga em Berlim foi atacada por dois cocktails Molotov. Na mesma Berlim, estrelas de David - o sinal, lembro para os mais novos, que os judeus eram obrigados a usar em braçadeiras no regime nazi - foram pintadas à porta de casas onde habitam judeus. A sinagoga do Porto foi vandalizada. Em Paris, foi queimada a porta do apartamento de um casal de judeus octogenários. (...) Em Barcelona um hotel foi atacado por manifestantes. A razão? É propriedade de um judeu. Em Toronto o alvo foi um restaurante. A razão? A mesma.

Este anti-semitismo é declarado e evidente. Atacam-se as pessoas, as casas, os negócios. Temos relatos de tudo isto vindos da Europa pelos anos 1930.»

Maria João Marques, no Público

«Se há um judeu atrás da árvore, mata-o»

Pedro Correia, 19.10.23

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Dizei aos que não crêem: "Sereis, sem dúvida, derrotados e reunidos no Inferno. O vosso lugar de descanso será o mais terrível".»

Alcorão, 37: 171-173

 

Este 7 de Outubro será sempre conhecido como dia da infâmia em Israel. O dia da incursão de cerca de dois mil terroristas do Hamas em território israelita que provocou 1500 mortos e mais de três mil feridos, além de 300 pessoas de mais de 30 nacionalidades tomadas como "reféns". Ignora-se se ainda estarão vivas.

Ainda nem uma das vítimas tinha sido enterrada, já havia por cá quem relativizasse o massacre, invertendo o ónus da culpa, que terá sido das vítimas. Seguindo a lógica daquele juiz desembargador que absolveu o violador alegando que a jovem violada usava uma saia demasiado curta e, portanto, estava mesmo a pedi-las...

Para tal gente toda a barbárie, singular ou colectiva, assenta neste axioma que desafia a lógica mais elementar. Inocentar os criminosos, culpar as vítimas. Daí, no próprio dia 7, não ter faltado logo quem estabelecesse equivalência moral entre a Alemanha nazi e o Estado judaico. Qual o efeito prático de tudo isto? Branquear a página mais negra da história humana, que se traduziu no assassínio sistemático e meticuloso de seis milhões de pessoas às ordens de um estado totalitário, onde qualquer dissidência equivalia a morte.

 

Não faltou até, nesta linha de raciocínio cada vez mais alucinada, quem metesse Gaza e Auschwitz no mesmo saco. Omitindo, desde logo, toda a cartilha xenófoba e racista do Hamas - declaração de ódio visceral não apenas ao Estado de Israel mas ao conjunto do povo judeu. 

Esta cartilha está disponível na rede, para quem queira ficar elucidado.

Proclama coisas como estas:

«Não há solução para o problema palestino a não ser pela guerra santa. Iniciativas de paz, propostas e conferências internacionais são perda de tempo e uma farsa.»

«Os hipócritas não podem ser superiores aos crentes, e devem morrer em desgraça e aflição.»

«Os sionistas estiveram por detrás da I Guerra Mundial, por meio da qual obtiveram a destruição do Califado Islâmico, tiveram altos ganhos materiais, passaram a controlar numerosos recursos naturais, obtiveram a Declaração Balfour e criaram a Liga das Nações Unidas (assim no original), para poderem governar o mundo por meio dessa Organização. Estiveram, também, por detrás da II Guerra Mundial, através da qual juntaram um tremendo lucro com o comércio de materiais de guerra e abriram caminho para o estabelecimento do seu Estado.»

Destaco sobretudo esta: 

«A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por matá-los e mesmo que os judeus se abriguem por detrás de árvores e pedras, cada árvore e cada pedra gritará: "Oh! Muçulmanos, Oh! Servos de Alá, há um judeu por detrás de mim, venham e matem-no!"»

 

Ao menos não enganam ninguém: dizem exactamente o que pensam - se é que podemos chamar pensamento a isto.

Tal como fez Hitler há cem anos, quando publicou esse execrável panfleto antijudaico chamado Mein Kampf. Sabemos muito bem o que aconteceu depois.

Jamais se repetirá. Os judeus não voltarão a deixar que o inimigo os conduza ao matadouro. Tenha esse inimigo o rótulo que tiver, chame-se ele como se chamar.

Fala-lhes do sonho, Martin!

Pedro Correia, 26.08.23

Faz amanhã 60 anos, um reverendo baptista de baixa estatura e vontade inquebrantável, militante anti-racista, pronunciou um dos melhores discursos do século XX. Martin Luther King culminou a gigantesca marcha de Washington, que congregou cerca de 250 mil pessoas, com a última de dez intervenções proferidas nas escadarias do Memorial Lincoln - local emblemático por evocar o presidente norte-americano que libertou os EUA da escravatura e pagou com a vida por isso.

Falando perante aquele que era então o mais vasto auditório de sempre no seu país, com as três estações de televisão nacionais transmitindo em directo, King começou o discurso lendo um texto que levava escrito, mas - segundo reza a lenda - quando já havia muitas pessoas a dispersar naquela tarde de 28 de Agosto de 1963, a cantora Mahalia Jackson incentivou-o em voz bem audível: «Fala-lhes do sonho, Martin!»

Ele largou os papéis, passando a falar de improviso. Destes dois momentos conjugados nasceu um discurso extraordinário, pontuado de referências bíblicas (com citações do Salmo XXX, 5 e do livro de Isaías, XL, 4-5) em defesa da igualdade racial e em sonoro protesto contra todos os actos de discriminação de que os cidadãos americanos de pele negra continuavam a ser alvo um século após a guerra civil, sobretudo nos estados do sul governados por caciques do Partido Democrático.

«Sonho que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos esclavagistas serão capazes de se sentar à mesa da fraternidade. Sonho que um dia até o Mississipi, um estado que sufoca sob o calor desértico da injustiça e da opressão, se transformará num oásis de justiça e liberdade. Sonho que um dia os meus quatro filhos viverão numa nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo seu carácter», declarou King nesta obra-prima da oratória política, peça essencial para a promulgação da legislação que reconheceria direitos civis a todos os norte-americanos, promulgada dez meses mais tarde pelo presidente Lyndon Johnson.

 

James Reston, um dos mais categorizados jornalistas do New York Times, fez a cobertura do acontecimento, no qual John Kennedy, então inquilino da Casa Branca, chegou a pensar participar antes de ter sido fortemente dissuadido pelos seus conselheiros, receosos de que a marcha pelos direitos raciais degenerasse em tumultos na capital dos Estados Unidos. Mas Reston, apesar do seu inegável instinto jornalístico, não foi capaz de descortinar a força mobilizadora do discurso do futuro Prémio Nobel da Paz, tendo-lhe reservado um modesto 19.º parágrafo na peça de reportagem que o mais influente diário norte-americano dedicou no dia seguinte à memorável manifestação de Washington - prova evidente de que nem sempre o jornalismo está em condições de ser o primeiro rascunho correcto dos livros de História.

Em 2023, com tantas segregações ainda em vigor - de modo explícito ou implícito - nos mais diversos locais do globo, faz falta uma nova Mahalia Jackson a incentivar: «Fala-lhes do sonho, Martin!» E faz falta, acima de tudo, um novo Luther King, transformando a resistência passiva e a não-violência em poderosos instrumentos de combate cívico em defesa dos direitos humanos, com a sua retórica de profeta iluminado, capaz de mobilizar incontáveis multidões através dos continentes só com o poder da palavra.

O anúncio da PSP

jpt, 29.06.23

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Um homem não deve ligar às imbecilidades que vai lendo na imprensa, em particular aquelas imbecilmente partilhadas nas redes sociais. Mas há tardes…

Há anos o “Público” publicou uma série de entrevistas pindéricas sobre o racismo - julgo que vieram passar a livro. Um afamado antropólogo socratista, entusiasmado, veio a escrever no mesmo jornal que elas “provavam” a existência local do fenómeno - uma deriva “positivista” que às vezes dá jeito, possibilitando que este tipo de gente publique no mesmo boletim que “vivemos num apartheid”. Li algumas dessas peças - e lembro a conversa com uma das entrevistadas, cientista social estrangeira que bem acima está desta tralha, que me contava dos rumos entrevistadores. Explícitos para aqueles, como ela (e até eu) sabem da gigantesca diferença (intelectual, moral, deontológica) entre pôr o informante/entrevistado a falar do que queremos ou a dizer o que queremos. Enfim, almoçávamos nós em esplanada lisboeta e perguntou-me ela se eu lera as entrevistas. Respondi eu que vira algumas, com menosprezo, lembrando que uma delas clamava o racismo português, tamanho que não havia negros nas telenovelas e nos frascos de shampoo… E que a vítima entrevistada não suportava tal coisa, a “invisibilidade” racista, tão letal que partira ela, artista, para a ecuménica Berlim. Rimo-nos, apesar de não estarmos em dias e eras de grandes boas disposições.

Mas este gemebundismo vingou. Há pouco tempo o esquerdalhismo orgasmou-se com as tranças rastafari de um apresentador de telejornais, dando-lhes estatuto fundacional. Depois outra apresentadora de notícias, dotada de cuidado e vasto cabelo “afro”, chorava a morte do norte-americano Floyd enquanto esquecia as mortes contemporâneas, às mãos de similares polícias, de indo-descendente na Beira e de eslavo no aeroporto de Lisboa. A tal “invisibilidade” “racista” reduzia-se… e não só assim.

Há algum tempo entrei na loja da Vodafone do Vasco da Gama. Notei que estava decorada com vários cartazes de risonhos clientes da empresa, na sua maioria negros - o trabalho que as grandes empresas dão a modelos, profissionais ou amadores, é uma forma de luta contra a “invisibilidade” “racista”. Presumo que nas telenovelas aconteça o mesmo. Sorri e comentei o facto com a minha companhia, a melhor que poderia querer. Para seu incómodo, que notar estas coisas pode parecer mal, “racismo” até…

Regresso ao início. Vejo no FB partilhas de um texto jornalístico de um consabido demagogo comunista, que ali chega por via de alguém que há décadas embrulha o seu vil otelismo assassino com berloques da “capela do Rato”. Somos agora racistas, diz esta gente, porque a PSP fez um anúncio para candidaturas usando a fotografia de um agente negro...

Há pessoas que aplaudem, “partilham”, “gostam” deste lixo. De gente. Eu nada digo. As minhas amadas filha e irmã proíbem-me de explicitar o que penso desta gentalha.

O racializado Costa

jpt, 14.06.23

É uma questão a que não me consigo responder, apesar de ter já vasculhado alguma literatura póscolonial, decolonial e afinal... Pode um tipo de elite chamar "macacos" a deputados e dirigentes de outro partido e depois vitimizar-se como "racializado" agredido quando uns sindicalistas o pintam como "suíno"?
 
Também já visitei as páginas de alguns especialistas desta matéria, antropólogos e não só. Mas em nenhum encontrei a pergunta. Quanto mais a resposta.
 

(Lamento mas não encontro uma versão incorporável no blog que contenha apenas as declarações de António Costa. Mas indo à página do canal CNN elas estão disponíveis aqui.)

A Caricatura de António Costa

jpt, 14.06.23

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(Santiagu)
 
(Ontem o Pedro Correia aqui abordou de modo suficiente o tema. Mas como deixei no meu Nenhures um outro postal sobre o assunto aqui o replico)
 
Há polémica sobre um cartaz usado pelos professores, caricaturando António Costa. Não discuto a justeza das reclamações da mole docente nem a tipologia das suas acções reivindicativas nem a política do governo na área correspondente - nem sequer isso de Costa ter mentido quando se deparou com manifestantes nas comemorações do 10 de Junho. O assunto é a caricatura de Costa que foi usada. Não gosto dela. Mais pelo detalhe dos lápis espetados nos olhos - que poderá ter um qualquer significado que se me escapa mas ainda que assim seja é vudu em demasia para este ateu.
 
 

 

A desfaçatez da moamba

jpt, 13.06.23

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Razão tem a ex-deputada Katar Moreira, os portugueses são o cúmulo da desfaçatez. Urge cancelá-los! Ainda bem que ela não verá esta minha publicação, que decerto lhe despertaria (ainda mais) ira. Pois aqui se retrata o jantar de um português, “branco” ainda por cima - e por isso um dos tais da desfaçatez -, lisboeta em véspera de Santo António: uma (magnífica) moamba com funge (caracata, se se quiser, xima de mandioca para facilitar), que lhe foi ofertada pelo autor. Sendo este um outro “branco”, português, que nem nunca viveu em África. E ainda pior, tudo isto acontece em festa de Santo Padroeiro. Malvados colonos colonialistas, gulosos na sua tal desfaçatez. Enfim, brancos!

(no Nenhures)

A esquerdalhada

jpt, 29.05.23

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Num postal recente usei o termo "esquerdalhada" (que me é habitual). E logo três amigos me enviaram mensagens, pois com ele incomodados. Nos comentários recebidos (no meu mural de Facebook) também surgiu algum desconforto - e mesmo imprecações. Naquela plataforma a ligação ao texto foi partilhada por outros - o que lhes agradeço - em cujos murais também notei algumas reacções desagradadas, até furiosas. Isto mostra a vigência de um sentimento pelo qual sobre os locutores de “esquerda” não se deve verbalizar menosprezo ou desrespeito pelas suas atrapalhadas ou aldrabadas opiniões.

Reacções ao invés das esperadas face à rapaziada da direita. Sobre esta há dois termos que vão surgindo: o mais raro “direitinhas” - em tempos consagrado em banda desenhada publicada no “Diário”, o jornal do PCP dirigido por Miguel Urbano Rodrigues -, mas que não vinga muito dado o tom pouco ferino que aquele sufixo sempre dá. E o mais habitual - e quase automático - “fascistas” (ou “faxos”), uma evidente desvalorização ética e intelectual.

 

 

Emendar os textos antigos e racismo

jpt, 29.03.23

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(Jô Soares e casamento português)

A propósito disto das "sensibilidades" ofendidas e da "urgência" em higienizar os legados textuais (e outros) para, dizem, evitar desmandos e desvalorizações sociais, lembrei-me desta "piada de português" (muito brejeira, aviso os ouvidos frágeis) do João Soares. Só há pouco a conheci e ri-me imenso, apesar do/devido ao tom corrosivo que nos é dedicado. Ri-me apesar de saber do abrasivo do humor brasileiro contra todos nós, da sua origem xenófoba (e elitista) - recordo um belo artigo sobre a emergência na imprensa de meados de XIX destas invectivas contra os portugueses, publicado numa "Oceanos" de 2000, coordenada por Robert Rowland... Ri-me porque tem piada e porque o contexto o permite (e não é ilegitimado por qualquer patente ou presumida intenção), e ele é omnipotente nestas coisas. Tal como os "ouvintes" devem ser minimamente esclarecidos para se contextualizarem.
 
Nestas coisas de me ofenderem a "sensibilidade" (de me "racializarem") lembro dois episódios: há mais de uma década um casal moçambicano convidou-nos para jantarmos com um outro casal brasileiro, quadros de empresas recém-chegados a Maputo. Assim foi, eles simpáticos, cultos, conversadores. Mas de repente o marido contou uma "anedota de português". Não foi mal acolhida, pelo que seguiu um vasto repertório no tema. Como é evidente nunca mais convivemos com eles, desagradados num "que é isto?", e foi pena pois até poderia ter sido "o início de uma bela amizade". Mas a minha sensibilidade fora demasiado "racializada".
 
Décadas antes acontecera-me outra, ainda pior. Aos meus 14/15 anos, no Verão de São Martinho do Porto, uma família francesa (naquela época os turistas eram quase todos franceses) alugou uma barraca balnear perto da nossa. A filha era linda, loura, e aos meus anseios já se parecia com a Marion des Neiges dos "Pequenos Vagabundos", e o seu irmão e o amigo logo acamaradaram nos jogos de bola, mergulhos e outros que tais. Uns dias passados foram almoçar lá a casa, encantados com a simpatia da minha mãe - até porque ela era verdadeiramente bilingue - e com a sisuda placidez do meu pai (que devia estar a fruir o estado basbaque deste seu filho, assim notando-o a crescer "como um homenzinho"). Depois fui eu almoçar lá a casa, recebido como se adulto fosse pelo messire ali veraneante e sua extremosa mulher. À mesa a conversa fluiu, eu no meu francês pausado mas melhor do que o de agora, eles elegantemente acompanhando o meu ritmo. Entre conversas, e entre eles, o pai pediu à bela filha, sentada do outro lado da mesa, uma qualquer coisa e eu, de imediato, lha passei. Para sua sorridente surpresa, pois entendera eu não só o léxico mas, acima de tudo, a velocidade parisiense da fala... Ao que respondeu ela, talvez ufana do jovem pretendente, talvez precisando de justificar aquele convívio "inter-cultural", "ele é português mas é inteligente!"... Eu passei-me, mantendo a compostura diante dos pais, mas passei-me mesmo. Pior ainda com os outros rapazes a tentarem justificar a "gaffe" mas nisso, atrapalhados, metendo les pieds par les mains... Enfim, o pai lá soube fechar a questão, elaborando sobre a grandeza e a excelência lusa (e após a minha saída deve-se ter rido, vero gaulês, do sanguíneo petiz que lhe entrara porta dentro).
 
Ora esta minha sensibilidade foi reactiva apesar de não ter eu interiorizado (ou sofrido) qualquer pressuposto sobre a minha inferioridade intelectual, social, cultural - ou mesmo "racial" ("étnica" mascara-se agora). É pois normal que outros, provenientes de contextos recorrentemente desvalorizados (por exemplo os "parolos" que Augusto Santos Silva despreza), sejam mais epidérmicos com algumas expressões que vão enfrentando.
 
Por isso as nossas expressões e as nossas sensibilidades são educáveis, aprimoradas - só um imbecil se ri hoje daquele vil filme "Os Deuses Devem Estar Loucos" que há 40 anos foi um sucesso mundial, ancorado no humor racista do apartheid. Mas isso não implica andar a apagar o passado, a emendá-lo. Hoje a Agatha Christie e a Enid Blyton, amanhã o Engels e o Hegel (que vendem menos).
 
Enfim, mas de tudo isto o fundamental que retiro é que foi o Joaquim, um tipo do Porto, que depois conseguiu trocar uns beijos mais intensos com a Falbala de São Martinho do Porto. Não foi a última vez que isso me aconteceu, nem nada que pareça. Mas ainda me dói...

Polémicas literatas

jpt, 15.03.23

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Não sou muito dado a livros, quase nada às novidades e ainda menos às coisas e causas da literatura portuguesa. E vivi 20 anos fora. Por tudo isto nada percebo destas polémicas literárias, trâmites que associava a um "Chiado" bem recuado, lido no liceu da vida - e nessa candura bem me surpreendera há poucos meses ao saber que o bom do António Cabrita, vindo de Maputo "a banhos", acabara rojado à calçada portuguesa em plena Av. de Roma ao procurar ele (no seu intrínseco civismo) apartar uma contenda entre poetas e críticos algo excêntricos aos escaparates. Bisonho episódio que me alertara para que nesta era de podcasts e tik toks ainda há, a sul do Trancão, quem se exalte em torno de livros... Mas tudo isso se me escapa, pois a última polémica livresca de que me lembro foi sobre este "A Tragédia da Rua das Flores", então confrontando-se os veementes avessos à publicação do calhamaço rascunho e os acalorados defensores da sua imprescindibilidade, tudo isso quando o meu pai teria mais ou menos a minha idade de agora... (e quem o lerá hoje em dia?).
 
Vem-me isto ao teclado diante do actual debate entre os autores, e respectivos amigos e adeptos, das duas recentes biografias de Pessoa, uma dita de pendor "académico", outras vocacionada para ser "popular". A surpresa para mim é tetra (que não tétrica...): 1) que os autores se zanguem em público, e de modo tão desabrido, tanto que até dá para demissões nos "jornais de referência"; 2) algumas das matérias que provocam dissenso - entre as quais avulta a relevante temática sobre se Pessoa frequentaria prostíbulos femininos, era dado aos "prazeres helénicos" ou teria morrido virgem. Isto para além de ser tópico de debate o tamanho do seu membro viril; 3) que tanta gente compre (e até mesmo leia) biografias, já 12 mil da "académica" e a "popular" para lá caminhará!... - mas isso é coisa do meu gosto, avesso que vou a tal molde, para o qual não tenho paciência; 4) o tamanho das tais muito compradas biografias, ao que consta cartapácios de 1200 páginas (a "académica") e quase 1000 (a "popular")! Tanto há para dizer... Enfim, nada tenho contra quem escreve, quem lê, nem mesmo contra quem discute o que escreveu ou leu. Apenas me surpreendo.
 
Já agora, e para que não me digam obscurantista, quero dizer que também leio, e até livros grandes. Andei agora a ler alguns sobre escravatura em África (e não só). "Porquê?", filial pergunta, "Apetece-me", paternal resposta... E também são grandes, afianço. Um deles é sobre a escravatura na África oriental - com apenas laivos sobre Moçambique, dado o pendor francófono dos autores: Henri Médard et al, "Traites et Esclavages en Afrique Orientale et dans l’Océan Indien", 2016. E também tem as tais dimensões pelos vistos apropriadas - 900 e tal páginas.
 
Num capítulo do organizador-mor, Henri Médard, escreve ele a propósito do tão na moda "racismo" (é minha a atabalhoada tradução do francês): "A racialização revela-se como um instrumento de dominação eficaz e popular, muito para além do Ocidente. Se o seu absurdo é universal, cada racismo tem as suas especificidades (mágicas, bíblicas, "científicas"...), as suas originalidades, as suas trajectórias próprias (em particular à luz das migrações e das lutas políticas contemporâneas). Essas evoluções africanas são abundantes... As distinções físicas [actuantes na escravização e no tráfico] são demasiado cómodas para que as lógicas sociais das dominações não as utilizem sempre que surge a oportunidade para tal".
 
Ou seja, bastaria este breve parágrafo para atirar para o lixo muito da tralha demagógica ("identitarista") que anda aí à solta, em vestes mais ou menos "decoloniais". E agora imagine-se se se ler as tais outras 900 e tal páginas. Mais alguns outros livros, vários deles também de vigorosa lombada. Em suma, e é a minha mera opinião, mais vale isto do que andar a ler (ou a comprar) sobre a pila do Pessoa.

Os "príncipes dos povos"

jpt, 16.01.23

Um príncipe decidiu ("deu-lhe para...") reencarnar um seu pouco fiável antepassado e nisso casou com uma actriz estrangeira de terceira ordem, uma "corista de Paris" teria dito no seu tempo o velho Eduardo VII, o do nosso Parque, que sabia bem desse assunto... O "contexto" é quase tudo, os tempos mudam, as (muitas) décadas passam, e nisso as consciências e as barreiras sociais - mas ainda assim não é só isso que aparta este caso de um já nada recente casamento entre um obscuro príncipe de um minúsculo grão-ducado, mero paraíso fiscal feito recanto de veraneio e casinos, com a estrela de aspecto mais angélico de Hollywood, oriunda de família abonada e conservadora... E os locais, o tal "contexto", não são todos iguais, e como tal isto não tem o mesmo impacto simbólico de uma matrona viúva de uma silenciosa monarquia burguesa escandinava se casar agora com um gabiru norte-americano, de profissão xamã e o qual se diz reencarnação de príncipes africanos seus antepassados, um típico vetusto delírio new age...

Pois tudo isto se passou na monarquia europeia mais hierática - apesar do seu "compromisso histórico" com a pujante imprensa mundana, gerido com sábio, ainda que por vezes falho, músculo -, onde reinava a monarca mais prestigiada e porventura, até independentemente dos seus méritos pessoais, a chefe de Estado mais reverenciada do mundo. Tudo isto onde se amontoam os restos, até algo putrefactos, do maior império do mundo. Ou seja, não haveria melhor contexto para a sofreguidão mediática, ansiosa da (re)emergência de uns "príncipes dos povos", ainda por cima condimentados pelo picante "multicultural"...

A rota que seguiriam era óbvia - até para um desatento republicano meridional. O gemebundo casal encetou o destrunfar alheio com a ansiada "Carta Racial", valiosíssima nos tempos que correm, e nisso teve imediato sucesso - tanto que até lá da Casa Branca Biden fez constar o seu apoio por "tamanha coragem"... Os britânicos, e sua realeza, metidos na armada Brexit e na esperança de serem o mais dilecto aliado (ou mesmo qual o 51º membro), aguentaram o despautério do pós-Trump, assim em afronta alheada das relações internacionais.

Entretanto o jogo suspendeu-se um pouco, dada a morte da célebre avó das vítimas. Agora, para gáudio mundial, reiniciou-se o cartear. Em momento a solo o candidato a "príncipe do povo mundial" enceta a jogatana anunciando-se "caçador de afegãos", movimento algo paradoxal que até aos activistas apoiantes confundiu. Ao qual se segue uma panóplia de apostas cujos cabeçalhos fazem os referidos apoiantes duvidar da sua pertinência estratégica. Nem mesmo Biden lhe acorre. E em torno da mesa de jogo sussurra-se "mais valia ter insistido na carta racial", um "valor seguro"...

Enfim, qual será o próximo, e terceiro, passo? Na sala já correm as apostas...

O Podcast Mudo (3): adenda a Malangatana

jpt, 08.01.23

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Reincido sobre o mais-velho Malangatana pois tendo eu botado uma memória que dele retenho logo ontem uma minha amiga-FB teve a gentileza de me narrar o seu episódio com o Mestre. Breve história mas tão dele denotativa. E também sintomática de outros tempos (felizmente) passados:

Naquele 1971 (sim, 1971...) a minha correspondente embarcara na Portela de Sacavém no avião da TAP que faria a ligação Lisboa-Lourenço Marques. Ainda imobilizados na placa foi sondada em surdina pela hospedeira: uma qualquer passageira - "senhora" dir-se-ia naquele tempo mas não agora - reclamara-se incomodada por seguir ao lado daqueloutro viajante, cujas características somáticas lhe desagradavam. E por isso lhe perguntava se se importaria ela de uma discreta troca de lugares, assim ombreando ao longo do voo com o tal indivíduo, algo a que ela se aprestou sem delongas - e nisto não posso deixar de presumir que a hospedeira tenha exercido o seu experimentado olhar clínico sobre a mole de passageiros, em busca de alguém menos rústico. "Sorte a minha" diz-me ela agora, pois durante o longo trajecto aéreo - presumo que naquela época ainda com escalas - o homem se apresentou, disse do que vinha e nisso se gerou convívio. Era o Malangatana, claro, regressando a casa após a estada em Lisboa financiada pela Gulbenkian - apesar de já ter passado anos na temível prisão da Machava (padecimento que veio a ilustrar) e de nesse mesmo ano ter sido outra vez preso. Ao fim daquela continuada conversa, já em Mavalane, a jovem recebeu este presente - um gesto que nós podemos adivinhar inscrito no continuado "charme" que Malangatana exalava mas também, é evidente, como um carinho à jovem pelo seu acto de ali ombrear, mostrando-se avessa à pestífera arrogância que ainda grassava entre tantos dos seus compatriotas. Deixou-lhe assim este agrado, o "sim meu irmão porque a voz difusa [da] criança é uma flor na boca do nosso dia a dia, 24.9. 71", que seria emoldurado logo que chegado a casa.

Décadas passaram e o então já consagrado Malangatana veio expôr ao Casino Estoril. "Morava perto e fui vê-la. Discretamente meti na sacola o quadrinho. Diante dele, discretamente mostrei-lho. Que alegria!, dizendo-me "Mas tu guardaste isto quando eu ainda não era conhecido?"..., sua tão típica reacção que se pode imaginar, até ver e escutar. 

Sorrio com o pequeno episódio e peço autorização para o divulgar, ao que Nené Barbosa logo tem a amabilidade de aceder. Escrevo o postal e deito-me, ainda cedo. Acordo, insone num qual breu mas estremunhado para ler as coisas demasiado densas que me rodeiam. Assim agarro na tabuleta e revejo o episódio sobre Wiriyamu (e não só) da excelente série "A Guerra" que Joaquim Furtado realizou há uma década, algo que vinha adiando há alguns meses. E venho a ter o prazer de rever o bom do padre Zé Luzia - que há anos raspei em Lisboa mas com o qual não privo desde a sua estada em Angoche... - ali entrevistado. E também Malangatana, num breve aparição neste episódio, centrado nas sevícias prisionais sofridas.  E acalenta-me esta "dose dupla" dele...

Depois, na alvorada, café e cigarro(s) havidos regresso à "primeira forma", volto a resmungar. Com este centramento actual em Wiriyamu, o massacre, a alusão a alguns outros massacres, as "desculpas" apresentadas ou a apresentar. Sem rodeios, este tipo de discursos sobre os "massacres" (que trazem implícita mas indita a definição quantitativa e qualitativa do que é um "massacre"), é apenas eco das nossas sensibilidades actuais, prontas a horropilarem-se com desmandos havidos. 

Não sou pacifista, julgo que há guerras justas e/ou necessárias, sendo defensivas ou  mesmo preventivas (e esta última é uma tese complicada de defender). E muitas das guerras são justificáveis no seu a posteriori - vamos encerrar-nos na avaliação da pertinência moral das Guerras Púnicas, da conquista da Gália?  E nisso temos a tendência para contextualizar o passado longínquo, isentando-o do crivo moralista, mas de julgarmos o passado recente. Ora as guerras têm um contexto histórico e a sua justificação passa muito pela sua adequação às ideias vigentes, por serem contemporâneas de si mesmas. E, de facto, as guerras coloniais portuguesas - as três guerras de independência africanas - não têm essa justificação. Eram, foram, anacrónicas. Injustas por isso. E ao dedicarmo-nos às desculpas por "excessos" militares ou policiais, aos "desmandos", às específicas violações dos "direitos humanos" ou da "convenção de Genebra", poderemos aliviar as consciências, as tais sensibilidades horripiladas. Mas ao centrarmo-nos nesses episódios estamos, de facto, a caucionar o geral da guerra, aquilo que seguia segundo os compêndios. Ora o que é de "lamentar" (o que não é "pedir desculpa") são as três guerras. E não os massacres.

Mas isso é muito mais difícil. Pois muito mais radical. E também não dá para grandes slogans... Até porque, honestamente, já passou meio século. É tempo de ombrearmos, nos aviões e alhures.

Le Pen en Afrique

jpt, 14.12.22

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Há já mais de duas décadas, o fascista e racista (e até negacionista do Holocausto) Jean-Marie Le Pen clamava que não se revia numa selecção francesa então campeã do mundo de futebol, devido à abundante presença de jogadores de origem "ultramarina" - da África, sobre e subsaariana... "Africanos", não franceses, entenda-se.
 
O argumento foi absorvido pela "esquerda" americanófila, fiel à ideologia "comunitarista", essa do "identitarismo" por lá dito "Woke". E nesse eixo raci(ali)sta há alguns anos tornou-se "viral" (como se dizia antes do Covid-19) o vitupério do comediante sul-africano Trevor Noah - encarregue do Daily Show, espectáculo televisivo de militância do Partido Democrata americano -, também ele afirmando a primazia da excentricidade dos jogadores franceses de ascendência estrangeira que em 2018 se haviam sagrado campeões mundiais. Então contestado pela embaixada francesa em Washington, Noah viria a fazer um retórico ligeiro passo atrás quanto aos jogadores, mas embrulhando-o numa veemente crítica ao modelo social laico francês e elogio ao molde racialista americano (baseado no secularismo), seguindo exactamente as pisadas do miserável discurso do então presidente Obama após o atentado à Charlie Hebdo. As suas audiências, internas e estrangeiras, rejubilaram com essa sarcática negação da efectiva nacionalidade francesa dos praticantes de ascendência ultramarina (nem a Noah nem a Le Pen chocavam os Djorkaeffs ou Griezmanns, esses que de ascendências euroasiáticas).
 
E é interessante ver como agora em África, neste actual cume do entretenimento global que é o Mundial de futebol, se vai interpretando a equipa francesa. Principalmente hoje, quando ela se apresta a culminar a revalidação do título. Pois está amplamente disseminada esta visão raci(ali)sta: jogadores "negros"? São "africanos". Selecção com jogadores "negros"? Selecção "africana".
 
Enfim, o velho Le Pen (e decerto que também a sua filha, congénere e até conviva do nosso prof. Ventura) deve rir-se ao ver que se tornou global - e até com ajuda yankee -, num verdadeiro álbum "Le Pen en Afrique".

Os influenciadores negros

jpt, 06.12.22

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Dia enevoado, algo frio, "não gosto de segundas-feiras" trauteávamos em jovens... Na manhã, já longa, via Zoom ouço gente que aprecio falando, distantes milhares de kms deste aquém-Tejo, de António Quadros (dito Grabato Dias)

Nesse entretanto custa-me ler, pouco capaz de verdadeiras atenções simultâneas. Faço a lida caseira. Após a qual deixo-me, distraidamente, percorrer em diagonal o meu feedly e, depois, o meu FB. A este rolo abaixo, lesto, e encontro partilhas, algumas até ufanas, de notícias sobre uma eleição: uma organização que leva de nome "Homensbantos" (em inglês) escolheu os 100 Negros Mais Influenciadores na Lusofonia... 

Ocorre-me comentar o tema. Mas estou com fome (e frio). Vou acender a salamandra. Saio a apanhar uma couve e colho também três bagas de pimenta. Decido-me a avançar para uma sopa, descuidada de apressada esfomeada, nisso uma "sopa de tudo" por assim dizer. Faço um estrugido, redundante será explicitar que de cebola, o qual será orlado por alho em excesso - três cabeças ainda não chochas - duas das bagas sem as suas sementes, e visitado por uma curgete, uma pequena batata e uma cenoura. Finalmente uma lata de feijão preto, aquela que estava mais à mão. Junto-lhe a água e, apressado, duas grandes folhas de couve picadas e um punhado de sal grosso, este acompanhado pelo obrigatório esconjuro "um dia destes ainda rebento", e deixo cozer durante um lento Amber Leaf. Moo tudo aquilo, junto-lhe mais duas folhas de couve picadas e deixo o lume fazer das suas enquanto reflicto sobre as diferentes necessidades do meio-campo da selecção se frente à França ou à Inglaterra... Encontrada a solução para o acesso à final, sirvo-me com abundância e convoco a companhia de uma Argus, a cerveja do prestigiado Lidl, algo adocicada em demasia mas que escorre quando bem fresca. Almoço, num murmúrio "isto está desenxabido"...

Logo sigo aziado, "a sopa a escaldar, a cerveja muito fria" concluo, científico. E lembro-me, ao lavar a loiça, que ia comentar algo, uma cena até pungente de "orgulho", "visibilidade", qualquer coisa assim. Enrolo outro Amber Leaf... e concluo "raisparta, não tenho Rennie em casa".

Racismo?

jpt, 10.09.22

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A insistência que alguns sectores políticos vêm tendo na questão do "racismo" e da "xenofobia" marcam a mentalidade dominante, numa visão cada vez mais polarizada entre aqueles que negam a existência de quaisquer sintomas desses fenómenos e aqueles que peneiram quaisquer assuntos neles sempre encontrando a vilania racista e/ou xenófoba. Nisso torna-se o assunto da discriminação negativa um tópico omnipresente, o que poderá ter efeitos positivos na sua condenação e evitamento. Mas também negativos, numa confusão abrasiva que tornará muitos insensíveis a essas malevolências e, acima de tudo, incapazes de reconherem os reais processos.

Ontem deixei aqui uma breve piada - que encontrara no mural de Facebook de um dos grandes (ex-)bloguistas portugueses. Este blog não é dedicado a futebol mas não é vedado que se aborde o tema. E assim aludi à polémica futebolística que vem correndo no país, sobre a tendência teatral do ponta-de-lança portista, Taremi. A encenação de faltas sofridas nas grandes-áreas, promovendo os célebres e ambicionados "penalties", é um assunto constante na história e na mitografia do futebol. Eu, sportinguista, cresci sob o constante debate, até irado, entre os justos que condenavam o pérfido Nené por simular "penalties" e os falsários pagãos que invectivavam o codicioso Manuel Fernandes por lhe, erradamente, atribuírem essas práticas. Pouco depois celebrizou-se em Carnide o extremo-esquerdo Chalana (sobre quem aqui recentemente escrevi), um mestre no mergulho na área (aqui memória do penalty mais saboroso da história do futebol português, que ele literalmente "arrancou"), e logo a seguir o extraordinário Futre, que tinha um enorme talento em "cavar"  "penalties" (até o reconhecia à imprensa, naquele seu simpático jeito dessassombrado). Isto não acontece só em Portugal e lembro-me do grande avançado alemão Klinsman, que quando foi jogar para Inglaterra foi acusado de simular quedas nas grandes-áreas, recebendo o cognome de "mergulhador" - ao que ele respondeu, deliciosamente, passando a celebrar os seus (muitos) golos com mergulhos deslizantes para os relvados, gesto que se disseminou até hoje.

Os tempos mudaram e o jogo também. Os árbitros de futebol receberam instruções para punir os simuladores (advertências ou expulsões). E depois instalou-se o controlo audiovisual dos lances (o VAR), o que torna mais difícil a aldrabice. Mas não impossível, claro. E é evidente que Taremi é um desses mergulhadores, facto que vai passando algo impune devido à importância do seu clube no futebol nacional (por isso o jogador sofre mais em jogos internacionais). Será menos simulador do que reclamam os sportinguistas e benfiquistas, mas será mais do que dizem os portistas. Pois é assim o futebol, é assim o adeptismo.

Ora no breve postal que coloquei, a tal deliciosa piada, recebo um comentário denotativo deste ambiente geral a que aludi no início do postal. Um anónimo (claro) que se traveste com o nome "camaradas" acusa-me de xenofobia e racismo, numa patacoada assim "Tanta xenofobia, bem piores outros mas esses são mais brancos". E é exactamente isto, esta histriónica e pateta mania de em tudo encontrar o racismo, a xenofobia, fruto dsta até abjecta senda "identitarista" promovida por "activistas" e jornalistas.

Enfim, a minha cara aparece no meu perfil da SAPO e no "avatar" que acompanha os meus comentários. E já aqui fiz algumas ligações ao meu mural no Facebook (quando replico textos que lá coloquei em função de algum debate que por lá se tenha passado), no qual também aparecem as minhas feições (trombas, se preferirem). Olho para o jogador Taremi - o homem tem menos 30 anos do que eu. E é mais bem apessoado, justiça lhe seja feita. Mas será que um tipo com o meu fenotipo pode olhar para o Taremi e criticá-lo  em função de "ser menos branco"? Será que é o racismo que me faz saltar na bancada ou entornar a cerveja no sofá quando grito impropérios vendo-o atirar-se para o relvado?

E é isto que este histriónico discurso "identitarista", o "activismo" das "boas causas" promove: as invectivas estúpidas, o desconhecimento dos processos. Vindas dos anónimos, apatetados na internet, ou dos locutores, alcandorados a figuras públicas. Nada mais do que isso.

Apropriação cultural e Kipling

jpt, 24.08.22

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Há um mês uma actriz de telenovelas entrançou o cabelo e logo se desencadeou a polémica - a qual não se deveu à sempre aludida "estação parva" mas sim à evidente "era tonta" à qual alguns nos querem vincular. Entre académicos e activistas lá se fizeram ouvir os argumentos do costume, e mesmo "autocríticas públicas" até pungentes - e as declarações do músico Agir disso foram um caso paradigmático. E nessa mostra o músico, e os tantos que com ele concordam, a involução intelectual sofrida no país. Desde que alguém perguntou "Pode alguém ser quem não é" e à questão lhe juntou "A corda d'um outro serve-me no pé / Nos dois punhos, nas mãos, no pescoço," até este actual patético exemplo de contrição por "apropriação cultural" feito por um músico de ascendência portuguesa que se tatua e faz jazz. E que pode ir actuar à Festa do "Avante" sem ali aventar a impertinência das "opções de classe" do doutor Álvaro Cunhal ou do engenheiro Carlos Carvalhas, entre tantos outros - tema, de facto, similar e que há algumas décadas era brandido por estupores similares aos de hoje.

Enfim, a nossa historieta do final de Julho fez-me lembrar Kipling. Sei que brandir o "campeão literário" do colonialismo britânico é, hoje em dia, algo desconfortável - e ao ver-me com o livro que abaixo citarei a minha filha deu-me, com bonomia, a conhecer este delicioso episódio de Boris Johnson em visita à Birmânia em 2017, citando o clássico colonial Mandalay , algo "not appropriate" diz-lhe, com a fleuma possível neste pós-império, o embaixador britânico.

Mas ainda assim recupero Kipling, a entrada do pequeno conto "Para lá da cerca", um passeio sobre os males da interracialidade, a bárbara crueldade oriental e a imoralidade ocidental desencadeadas pelo "pular da cerca", pela "incorrecção" dir-se-ia hoje, do inglês Cristopher (claro) Trejago: 

"Haja o que houver um homem deve manter-se fiel à sua casta, raça e credo. Que o branco continue a ser branco e o preto, preto. Assim, o que quer que ocorra de mal faz parte do curso natural das coisas - não é repentino, nem estranho, nem inesperado." ("Para lá da cerca", Três Contos da Índia, 2008, p. 11. Tradução de José Luís Luna). 

Ou seja, e para estes muitos d'agora, Kipling afinal é "much appropriate"...

Os filmes chineses no Malawi

jpt, 19.06.22

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L'enquête sur le business chinois des vidéos d’enfants africains choque le Malawi (1'16'')

Racism for Sale - BBC Africa Eye documentary (49'05'')

O racismo presente nestas produções "amadoras" chinesas feitas no Malawi - um negócio tornado bastante popular na China que agora é descrito por uma reportagem da BBC - é até patético de básico que é. Mas é bem denotativo da mentalidade vigente no relacionamento colonial que vem animando o ressurgimento chinês no continente durante este último quarto de século. Seja nesta versão "popular", abjecta de pacóvia. Seja na "superestrutural", estatal, nesta vigente "descondicionalidade política", uma efectiva rapina que tão apetecível é às elites "compradoras" no continente.

(E depois, algo bem secundário, há esta pobreza lusa, os "militantismos" que proclamam o monopólio racista dos "brancos", papagueado pelas e pelos "militantes" da "causa", como se diz no "Público" - uma patacoada "professoral" botada amiúde, como aqui. Mas, de facto, que importam esses diante do mundo que assim vai?...)

Sugestões televisivas

Cristina Torrão, 05.04.22

O canal franco-alemão ARTE vai apresentar, hoje, dois documentários sobre temas actuais e polémicos, que não posso deixar de sugerir a quem tenha conhecimentos de francês.

O primeiro, com o título Sauvages, au coeur des zoos humains, vai para o ar às 20:15 horas (19:15, em Portugal) e fala-nos como crianças, mulheres e homens de terras longínquas eram exibidos na Europa, entre 1810 e 1940, ao estilo de zoos humanos, a fim de justificarem a colonização. Esta prática tornou o racismo quotidiano.

O segundo intitula-se Restituer? L’Afrique en quête de ses chefs-d’oeuvre, será exibido às 21:50 horas (20:50, em Portugal) e debruça-se sobre as obras de arte que a Europa, durante mais de um século, roubou às colónias.

Todos e todas nós temos opiniões mais ou menos formadas sobre os temas tratados. Mas é sempre aconselhável alargarmos os nossos horizontes. E, quanto mais polémico for o assunto, mais se aconselha. A modificação da opinião, ou não, é naturalmente decisão de cada pessoa.

Nota: os documentários já estão disponíveis para visualização nos links indicados.

Um assassinato

jpt, 23.03.22

Um assassinato é ainda mais doloroso quando incide sobre um jovem. E manda a decência que haja algum recato, não se instrumentalizando o drama familiar para proveitos ou derivas retóricas. Ainda assim noto que o recente assassinato do jovem agente policial em Lisboa, em plena via pública, não colheu qualquer comentário do Bloco de Esquerda nem do partido LIVRE, habitualmente muito loquazes sobre matérias similares, e ágeis em extrapolações generalizadoras.