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Delito de Opinião

Dia Internacional da Guerra

Pedro Correia, 22.09.22

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Assinalando a seu modo o Dia Internacional da Paz, Vladimir Putin apareceu ontem na televisão russa (em intervenção gravada na véspera) com o ar marcial de sempre. Falando no bunker do Kremlin, a milhares de quilómetros da frente de guerra terrorista que desencadeou. Assim é fácil ser "herói".

Encurralado, anunciou a mobilização imediata de 300 mil reservistas prontos a arremeter contra a nação vizinha como carne para canhão.

Imitando Hitler, convocou plebiscitos com desfecho pré-anunciado em quatro regiões ucranianas numa tentativa desesperada de absorvê-las em poucos dias à margem do direito internacional.

Agindo como se a Rússia não fosse um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, declara-se até disposto a iniciar uma guerra nuclear - em chocante violação da Carta das Nações Unidas - com a obsessão de eliminar a Ucrânia como Estado soberano. 

Asfixiados pela ditadura, os russos votam com os pés - fugindo em número cada vez maior para a Finlândia: ao fim da tarde de ontem já havia filas com mais de 35 quilómetros de carros rumo às fronteiras do país vizinho. Outros esgotaram os voos da Air Serbia com bilhete só de ida para Belgrado, escapando à mobilização. Enquanto as manifestações de rua contra a guerra estão a ser duramente reprimidas pela polícia de choque, registando-se largas centenas de detenções.

Com Putin, todos os dias do calendário são Dias Internacionais da Guerra.

 

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As quatro regiões da Ucrânia onde Putin quer organizar plebiscitos ilegais

Desputinizar a Rússia

Pedro Correia, 14.09.22

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Há que desputinizar a Rússia.

E desputizinar os putinescos sovietófilos que lhe lambem as botas em Portugal.

Devem ter línguas enormes, para conseguirem esticá-las daqui até Moscovo.

Até por isso, saúdo o regresso do José Milhazes aos telediários da SIC. Desde o início da agressão russa à Ucrânia, acertou mais nas previsões feitas do que o triste trio de majores-generais que ontem mencionei aqui.

A reconquista

Pedro Correia, 13.09.22

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Nas últimas 72 horas, a Ucrânia tem reconquistado largas parcelas de território, sobretudo na região de Carcóvia, segunda maior cidade do país, beneficiando da humilhante debandada dos soldados russos, que fogem a toda a pressa, deixando para trás centenas de veículos militares e carros de combate, abandonados ou destruídos. Recuperou mais de três mil quilómetros quadrados quando se assinalam 200 dias da agressão russa. Desmentindo em toda a linha o alegado «poderio» do aparato bélico de Moscovo, que - prova-se agora - não passava de um tigre de papel. 

Esta reconquista, que repõe forças ucranianas no domínio de cidades como Izium e Kupiansk, cobre de ridículo aqueles patéticos majores-generais que no início da traiçoeira ofensiva do Kremlin em território ucraniano, quando Putin imaginou deter direito de pernada sobre o país vizinho, entoaram hossanas ao ditador russo nas pantalhas portuguesas.

Refiro-me ao senhor Agostinho Costa, que a 28 de Fevereiro declarava, com um brilhozinho nos olhos: «Putin vai conseguir.»

E ao senhor Carlos Branco, que a 3 de Abril balbuciava, com um ligeiro tremor na voz: «Eu não tenho elementos suficientes para corroborar [as acusações de crimes de guerra praticados por militares russos contra civis ucranianos].»

E ao senhor Raul Cunha, que a 30 de Abril enaltecia a «libertação de Mariúpol», cidade arrasada pelas ogivas russas.

Derrotados, também eles, nesta intrépida contra-ofensiva da nação ucraniana face ao invasor neonazi.

Slava Ukraini!

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Soldados ucranianos exibem bandeira do seu país em Kupiansk (10 de Setembro)

São Petersburgo e Moscovo, metades diferentes da mesma laranja

Ana CB, 30.08.22

 

Foi apenas há três anos que estive de férias na Rússia, mas parece que foi há muito mais – sucedeu tanta coisa entretanto que ao invés de encolher, como é costume, o tempo esticou para o dobro. Não houve nenhum apocalipse, mas dou por mim com a sensação de viver num (mau) filme de ficção científica, entre avanços tecnológicos brutais e alterações climáticas com consequências impiedosas, entre regressões sociais e agressões políticas, e com a sensação cada vez maior de que em vez de evoluir, o ser humano está em franco retrocesso.

 

São Petersburgo era um daqueles destinos que estava há muito tempo na minha lista de desejos, e quando uma amiga me desafiou a ir com ela numa viagem de uma semana às duas maiores cidades russas, nem hesitei. Não sou grande adepta de viagens organizadas por agência (esta era), sobretudo porque o habitual é cingirem-se a levar-nos aos sítios aonde toda a gente vai e ocuparem-nos os dias inteiros com visitas pré-programadas. Mas neste caso o roteiro até nos deixava alguns períodos livres e o programa era interessante q.b.

São Petersburgo - Catedral de Nossa Senhora de Cazã.jpegCatedral de Nossa Senhora de Cazã, São Petersburgo

 

A ordem da visita às cidades era à nossa escolha, por isso optámos por começar por São Petersburgo. A desvantagem foi termos de fazer escala em Moscovo antes de seguirmos para a cidade imperial, por azar em dia de greve do pessoal de handling do aeroporto de Sheremetievo. Como consequência, as nossas malas não foram despachadas no voo para São Petersburgo em que seguimos, e depois demorámos mais de duas horas no aeroporto de Pulkovo para fazermos a reclamação – porque havia umas boas dezenas de pessoas com o mesmo problema que nós. Com tanta demora, o senhor do transfer para o hotel praticamente deitava fumo pelas orelhas quando finalmente saímos ao seu encontro; mas o ambiente no carro desanuviou quando, logo após deixarmos as imediações do aeroporto, teve de parar para deixar passar… uma pata que atravessava, em passada decidida e seguida pelos seus vários filhotes em obediente fila indiana, a estrada tipo via rápida que percorríamos. Depois de doze horas de viagem e da preocupação com as malas, esta visão tão inesperada quanto incomum e ternurenta foi um anticlímax bem vindo. Viajar são surpresas atrás de surpresas.

 

Três ou quatro dias em metrópoles tão grandes e cheias de história como São Petersburgo e Moscovo são claramente insuficientes, mas ainda assim serviram para que eu aprendesse mais alguma coisa sobre a Rússia, e principalmente que há grandes, enormes diferenças entre as duas maiores cidades do país. E que, por extrapolação, grandes diferenças existirão também em relação a outras cidades e regiões. Para mim, tentar entender a complexidade de um país tão vasto e variado (onde coabitam perto 200 grupos étnicos diferentes) é tarefa inglória e destinada ao fracasso, e não é por aqui que quero ir. Sou uma mera observadora.

 

A arquitectura destas cidades é o primeiro e mais visível indício da dicotomia que as marca. São Petersburgo é imperial, Moscovo é soviética. Onde São Petersburgo é água, Moscovo é betão (o rio é um mero acessório sem importância). São Petersburgo espraia-se ao longo dos recortes do rio Neva e do golfo da Finlândia, com edifícios de poucos pisos e recorte clássico, ou mais altos e simples nos bairros periféricos recentes; Moscovo é um círculo que mimetiza o sol, com o Kremlin como núcleo e as vias principais os seus raios, propagando-se em todas as direcções (a comparação com um polvo e os seus tentáculos também me parece adequada), e com edifícios que se projectam em altura, ambicionando conquistar os céus.

São Petersburgo - Neva.jpegO Rio Neva em São Petersburgo

Moscovo vista da Colina dos Pardais.jpegMoscovo vista da Colina dos Pardais

 

São Petersburgo nasceu no século XVIII da vontade de Pedro I, o Grande, primeiro imperador da Rússia. Conquistado em 1703 o forte sueco de Nyenskans, nas margens do Neva, durante a Guerra do Norte, decidiu ali fundar uma grande cidade, que servisse sobretudo de porto marítimo utilizável durante todo o ano. Construída sobre terrenos pantanosos à custa da vida de camponeses arrebanhados de toda a Rússia e de prisioneiros de guerra, Pedro projectou São Petersburgo à imagem das grandes capitais europeias da época, e essa é uma das razões pelas quais a arquitectura da cidade é tão homogénea.

São Petersburgo - Praça do Palácio.jpegPraça do Palácio, São Petersburgo

 

Esta aproximação à imagem da Europa faz parte da dualidade histórica constante da Rússia, que pisca um olho ao ocidente e outro à Ásia, enquanto baralha e dá as cartas ao seu jeito. Não admira por isso que Putin tenha invocado este imperador para justificar a invasão da Ucrânia, argumentando que Pedro I entrou em guerra com a Suécia não para conquistar, mas sim para recuperar território que pertencia à Rússia por direito – e que a guerra na Ucrânia tem os mesmos fins.

 

Em 1712, Pedro I elevou São Petersburgo a capital do império, estatuto que manteve até 1918 (com apenas dois breves intervalos, em que o posto foi ocupado por Moscovo). Duzentos anos de protagonismo enriqueceram a cidade, e esta riqueza ostentada – e ainda presente depois de tantos anos de modelo soviético – foi um dos aspectos que mais me surpreendeu durante toda a minha visita. Para onde quer que me virasse, via cúpulas e torres douradas. O Hermitage, de que só vi uma parte e em passo meio corrido, é um deslumbramento, tanto na decoração das suas salas como no valor das obras de arte que exibe. A fantástica agulha da torre sineira da Catedral de Pedro e Paulo, que faz dela o segundo edifício mais alto da cidade, brilha como um farol, sob o sol de Verão. No interior, onde estão expostos os túmulos de quase todos os governantes da casa Romanov, o ouro é tanto que ofusca. E a iconóstase desta catedral é deslumbrante: em vez de uma parede plana com ícones e pinturas, como é habitual na maioria das igrejas ortodoxas, aqui ela eleva-se ao centro para formar uma torre, estando primorosamente trabalhada e completamente recoberta a ouro.

Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo.jpegCatedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Loggias de Raffaello, Hermitage, São Petersburgo.JPGLoggias de Raffaello, Hermitage, São Petersburgo

Hall do Pavilhão do Pequeno Hermitage, São Petersburgo.JPGHall do Pavilhão do Pequeno Hermitage, São Petersburgo

Torre da Catedral de Pedro e Paulo, São Petersburgo.JPGTorre da Catedral de Pedro e Paulo, São Petersburgo

Iconóstase da Catedral de Pedro e Paulo, São Petersburgo.JPGIconóstase da Catedral de Pedro e Paulo, São Petersburgo

 

O romantismo melancólico da cidade é sublinhado pela água: do Neva, tão largo que parece mais mar do que rio, e dos seus vários canais e tributários, que totalizam 300 km de vias fluviais. Onde há rios há pontes, e são mais de 300, todas diferentes. Em São Petersburgo nunca estamos muito tempo longe da água, o que dá à cidade um ambiente leve e arejado.

Ponte Bank, São Petersburgo.jpegPonte Bank, São Petersburgo

Castelo Mikhailovsky, São Petersburgo.jpegCastelo Mikhailovsky, São Petersburgo

 

A viagem para Moscovo foi em comboio nocturno. No nosso compartimento ia também um casal espanhol, mas a hora avançada da partida, quando já estávamos todos cheios de sono, não nos deu vontade de grandes conversas. Apesar de algum conforto (até tivemos direito a chinelos e artigos de higiene), a falta de escuridão total, o ressonar do nosso companheiro valenciano e uma azia provocada pela digestão difícil de um jantar tardio fizeram com que eu não conseguisse dormir bem. O Verão é o período das noites brancas, com apenas duas ou três horas de escuridão. A má disposição empurrou-me para o corredor, onde fui brindada por uma paisagem quase contínua de floresta e pelo nascer-do-sol mais fascinante a que já assisti, com uma cortina de névoa a desprender-se do solo, pairando entre as árvores que passavam em corrida desenfreada do outro lado da janela. Foi um dos episódios mais marcantes de toda a viagem, pelo deslumbramento que senti. Estive mais de uma hora naquele corredor e só voltei ao compartimento, com alguma relutância, porque outros viajantes começavam a despertar e a movimentar-se pelo comboio, quebrando a minha paz.

 

Ao contrário de São Petersburgo, Moscovo tem uma história bem mais antiga, documentada desde o século XII, crescendo progressivamente em torno do seu Kremlin a partir do século XIV. Talvez porque o grande incêndio de 1812 – que se suspeita ter sido ateado pelos próprios russos, depois de terem evacuado a cidade na altura da invasão pelas tropas de Bonaparte – destruiu três quartos dos seus edifícios, ou talvez porque foi escolhida para capital da União Soviética logo após a revolução bolchevique, Moscovo não mostra nada que a ligue ao seu passado remoto. É prática, pragmática e megalómana a todos os níveis, cheia de monumentos e empreendimentos gigantescos (ao bom estilo soviético), e os edifícios só não parecem tão grandes porque geralmente estão separados uns dos outros por avenidas larguíssimas, ou porque dentro do nosso ângulo de visão há sempre outros ainda maiores.

Moscovo - Praça Vermelha no séc. XVIII.jpegA Praça Vermelha de Moscovo no séc. XVIII

Kremlin, Moscovo.jpegO Kremlin de Moscovo

 

São Petersburgo foi concebida para mostrar a grandeza de Pedro I e, mais tarde, de Catarina II. Moscovo foi recriada para ostentar a grandeza do poder soviético e, agora, de Putin. Estaline mandou construir os altíssimos edifícios conhecidos como as Sete Irmãs (ou também, mais popularmente, como “os caprichos de Estaline”), os mais emblemáticos e fotografados arranha-céus da cidade. Vistos de longe – e conseguem ser avistados de bem longe… – parecem todos iguais, mas na realidade existem diferenças entre eles tanto em altura como na própria configuração. Embora nitidamente inspirados nos arranha-céus norte-americanos, são eles os melhores exemplares do estilo a que se convencionou chamar classicismo soviético ou monumental.

Edifício Kotelnicheskaya, Moscovo.jpegEdifício Kotelnicheskaya, Moscovo

Universidade Estatal de Moscovo.jpegUniversidade Estatal de Moscovo

 

Estaline teve os seus caprichos, mas Putin não parece querer ficar atrás. Na linha do horizonte de Moscovo destaca-se hoje nitidamente o bairro que tem o nome oficial de Centro Internacional de Negócios de Moscovo ou, na sua forma mais curta, a City de Moscovo. Para este projecto, que começou a ser concebido nos anos 90, foi destinada a área de uma antiga pedreira junto a uma das curvas do rio Moscovo. É aqui que se encontram actualmente alguns dos maiores arranha-céus da Rússia, todos de cariz futurista e onde se incluem, com alturas superiores a 300 metros, sete dos dez maiores da Europa – isto por enquanto, uma vez que as possibilidades de construção futura ainda não estão esgotadas.

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City de Moscovo (1).JPGA City de Moscovo vista do Parque Pobedy

 

Outro edifício moscovita que ilustra a tendência da Rússia actual (e a volubilidade da sua História) é a Catedral de Cristo Salvador. É tecnicamente a catedral mais importante de Moscovo, e também um exemplo de fénix renascida das cinzas. Mandada erguer por Alexandre I depois da retirada das tropas napoleónicas, foi igualmente uma obra megalómana (103 metros de altura e capacidade para 10 mil pessoas) e só ficou concluída em 1883. Associada ao czarismo e em consonância com o desprezo pela religião advogado pelo regime soviético, foi destruída em 1931 para dar lugar a um futuro palácio monumental, que nunca chegou a ser construído, por falta de fundos. O espaço acabou por ser ocupado por uma piscina pública. Depois da desagregação da União Soviética, o governo autorizou o Patriarcado de Moscovo a reconstruir a catedral, que foi reinaugurada no ano 2000 e é praticamente igual à primeira. Com a liberdade religiosa decretada entretanto, a percentagem da população que se assume como cristã ortodoxa subiu de 31% para 72%, e a propagandeada (aparente) convergência de ideias político-espirituais entre o Patriarca Kirill e Vladimir Putin não parece ser mera coincidência.

Catedral de Cristo Salvador, Moscovo.jpegCatedral de Cristo Salvador, Moscovo

 

Viagem organizada por agência significa guias, e guias significam, além de muita informação sobre os locais que visitamos e (com um bocadinho de sorte e diplomacia) alguma informação também sobre outros assuntos mais sensíveis – sendo que, num país como a Rússia, sensível é tudo o que disser respeito à política e à sociedade. E até neste aspecto notei a diferença entre as duas cidades. A guia de São Petersburgo falou-nos de artes e letras, de História e arquitectura, de questões sociais. Mostrou-nos a figurinha do cão parecido com Putin que está numa vitrina do Hermitage, explicou que a maior parte das pessoas (mesmo os jovens) não têm grande interesse em falar outra língua que não o russo, e revelou que na generalidade os papéis sociais dos homens e mulheres ainda são vistos de forma tradicionalista, as mulheres sendo consideradas como responsáveis pelo bem-estar da família e pelo trabalho doméstico – apesar de quase todas terem os seus empregos. Quanto às guias de Moscovo, realçaram a importância da cidade, a resistência e bravura dos seus residentes, a magnificência do metropolitano ou a monumentalidade dos edifícios, e o facto de grande parte das mulheres russas admirarem Putin por este ter implementado medidas que apoiam a natalidade e – supostamente – o género feminino.

 

Correndo o risco de ser simplista neste paralelismo, São Petersburgo e Moscovo parecem-me simbolizar duas das correntes de pensamento político que grassam actualmente na Rússia: uma de aproximação aos valores europeus, pelos quais são definidas as regras de harmonização social e actuação política; outra de que a Rússia é superior na sua essência, e portanto tem o direito de ser ela a ditar as regras pelas quais a Europa deveria reger-se. A rejeição europeia é, em termos práticos, a adoptada pela actual linha política russa, e não parece provável que Putin se desvie dela enquanto continuar no poder. No entanto, com a capacidade de torcer a verdade que tem mostrado, quem sabe se um dia…? Num país de tantos contrastes, tudo é possível.

Seis meses depois

Ucranianos resistem - por eles e por nós

Pedro Correia, 24.08.22

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Mariúpol, Abril de 2022

 

Faz hoje seis meses. Largas dezenas de milhares de soldados russos, apoiados na força aérea e divisões blindadas, invadiram território da Ucrânia - Estado independente e soberano, assim reconhecido pela comunidade internacional.

A mando de um tirano que decidiu trazer para o século XXI a política de canhoneira do século XIX, restaurando a lei do mais forte - a do que saca mais rápido do coldre, à traição, como fez com a Ucrânia nesta invasão não provocada, consumada no escuro de uma madrugada gélida. Sem pré-aviso, sem declaração de guerra.

Seguindo um guião inspirado no de Hitler na sua concepção de "espaço vital". Não a pretexto de reunir os povos germanófonos, mas russófonos. Não já de uma raça suprema, mas de um povo iluminado pela luz divina. Daí a Constituição em vigor na Rússia entoar hossanas à pátria «unida por uma história de mil anos, preservando a memória dos antepassados que [lhes] transmitiram os ideais e a fé em Deus». Hiper-nacionalismo de cariz imperial.

Dizia essa besta traiçoeira, escassos dias antes, que a tropa de Moscovo se limitava a «fazer exercícios militares puramente defensivos» no seu lado da fronteira.

 

Balanço destes seis meses trágicos que levaram a guerra ao coração da Europa?

Dezenas de milhares de mortos - não apenas ucranianos, mas também soldados invasores, quase todos oriundos das regiões mais remotas e pobres da Federação Russa. Mal organizados, mal equipados, mal alimentados. Comportando-se como abutres em rapina na terra conquistada - pilhando e violando tudo quanto viam pela frente, fazendo tábua rasa das convenções de Genebra e das próprias leis da guerra. Visando inúmeros alvos civis. Escolas, infantários, creches, hospitais, enfermarias, maternidades, igrejas, conventos, teatros, museus, salas de concerto, oficinas, lojas, habitações - tudo lhes serviu de pasto para as bombas homicidas. 

Pelo menos dez milhões de desalojados.

Muitos no próprio território ucraniano, fugindo das ogivas criminosas, abençoadas pelo patriarca russo, um canalha de barbas brancas chamado Cirilo, perante quem o déspota do Kremlin ajoelha em devoção beata. «Matarás», incentiva esse clérigo, em inversão total do Sexto Mandamento.

Muitos mais no estrangeiro, onde têm conseguido refúgio nas nações vizinhas. Enquanto tantos outros, sobretudo no Donbass, são deportados à força pelos esbirros de Moscovo, que os conduzem aos confins da Sibéria, recriando os anos de chumbo do czarismo e do estalinismo. 

Neste quadro, o tirano não hesita em colocar todo o continente à beira dum desastre nuclear, utilizando a central de Zaporíjia, em território ucraniano, como palco de guerra.

 

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Putin abençoado pela hierarquia ortodoxa: aliança entre o estado e a igreja

 

Seis meses depois, a Ucrânia resiste.

No meio das atrocidades, continua de ânimo inquebrantável. Entre ruínas provocadas pela maior potência atómica do planeta, faz frente ao inimigo. Confirmando uma das mais poderosas leis da História: só é derrotado quem desiste de lutar.

E eles não desistem. Por eles e por nós.

Sabendo que mais vale morrer de pé do que viver de joelhos. 

Putin não passará. Hoje isto é ainda mais certo do que em 24 de Fevereiro de 2022, esse dia da infâmia que manchará para sempre o povo russo. Como aconteceu a 23 de Agosto de 1939, data em que Estaline e Hitler selaram o pacto que apunhalou a Polónia, a Finlândia e os Estados bálticos - acto de vergonhosa traição que jamais se apagará.

 

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Estaline com Ribbentrop, o chefe da diplomacia nazi (23 de Agosto de 1939)

Reflexão do dia

Pedro Correia, 20.08.22

«A Rússia de Putin destruiu a configuração mundial existente. O ditador quer substituí-la por outra, na qual a sua Rússia tenha papel determinante. É o que está a fazer, sem escrúpulos e com toda a violência de que é capaz. O que sobrar, depois do que ele fizer, não voltará a ser o que era, nem sabemos o que será. Mas vai demorar anos, muitos, a encontrar um novo equilíbrio mundial de cooperação. Não sabemos, hoje, a que preço e com que custos de vidas humanas, de países, de instituições, de liberdade e de paz. O especial talento de Putin é o que se vê no exercício ou na utilização da mais bárbara violência sem remorsos, nem moderação. E no desrespeito da lei internacional.»

António Barreto, no Público

Como Vasco via Putin em 2007

Pedro Correia, 26.07.22

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«Com o colapso da URSS ("a maior catástrofe política" do século, segundo Putin) e o súbito sumiço do "socialismo real", a Rússia acabou por puro acaso (ou muito azar) na "democracia": um regime que notoriamente a prejudica. Sempre oscilante entre a inveja do Ocidente e a glorificação do particularismo eslavo, a Rússia voltou agora ao particularismo eslavo. Putin quer criar uma ideologia "patriótica e nacional". Em Agosto, um artigo do Herald Tribune (de Nina Khrushcheva) descrevia essa campanha para reviver a "grandeza" da Rússia. Uma campanha que mete a televisão, a rádio e a imprensa, evidentemente. Mas também banda desenhada, cartazes pelas ruas, poemas no metropolitano e até, como de costume, a literatura oficial. Os militares readquiriram o seu antigo prestígio, os "Pioneiros" foram substituídos pelos "Nashis" e o KGB pela FSB. A tradição resistiu à crise e a Rússia (à custa do petróleo e do gás) renasceu na sua autêntica qualidade de império.

Era inevitável que a Rússia não se resignasse à derrota de 1989-1991; e era inevitável que, uma vez refeita, não ficasse muito diferente do que tinha sido. Ninguém de senso esperava que um Império, com dezenas de religiões, de línguas, de etnias, se tornasse num perfeito exemplo de uma democracia liberal e de um Estado de direito. A questão não é a de saber se a Rússia se vai ou não "ocidentalizar", é a de saber como e quando passará à "reconquista" das "províncias perdidas".»

 

A diferença entre um observador político digno de atenção e um bitaiteiro como tantos que enxameiam as televisões avalia-se neste longo excerto de um texto analítico de Vasco Pulido Valente intitulado "Uma nova Rússia?", impresso no jornal Público a 2 de Setembro de 2007.

Quinze anos antes da actual agressão de Putin à Ucrânia estava já tudo previsto nesta linhas por quem sabia analisar os factos com lucidez, cultura, sagacidade e uma acutilância que nos deixam saudades.

Infelizmente, desde logo, porque restam poucos com o nível dele.

Canalhas

Pedro Correia, 24.07.22

Menos de 24 horas após assinarem um acordo com a Ucrânia para desbloquear as exportações de cereais e óleos alimentares para o Norte de África e o Médio Oriente, com supervisão turca e da ONU, os esbirros de Putin bombardearam Odessa, principal porto do país vizinho, com mísseis de alta precisão. Confirmando o que vale a palavra e a assinatura do ditador russo: zero.

São uns canalhas. Eles e todos quantos os apoiam em Portugal, incluindo alguns majores-generais reformados que continuam a exibir fervorosa militância putinesca em dois canais televisivos.

A Guerra de Putin

Pedro Correia, 30.06.22

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Vladimir Putin e Serguei Lavrov, criminosos de guerra

 

Não lhe chamemos "guerra da Ucrânia".

Chamemos-lhe Guerra de Putin. Porque é isso mesmo que ela é. Como ainda agora se viu, no dantesco bombardeamento de um centro comercial na cidade de Kremenchuk, onde ocorreu o homicídio deliberado de pelo menos 20 civis já confirmados, havendo muitos outros ainda por identificar.

É uma guerra de extermínio, genocida, desencadeada a 24 de Fevereiro para riscar do mapa um Estado soberano com 44 milhões de habitantes. Uma guerra de pilhagem, de rapina, de usurpação, de deportações forçadas, de violações sistemáticas dos mais elementares direitos humanos.

Desencadeada por Vladimir Putin e o seu lugar-tenente Serguei Lavrov, criminosos de guerra que prestarão contas à justiça internacional.

Apoiam o violador, injuriam nação violada

Pedro Correia, 16.06.22

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Irpin, Ucrânia, Abril de 2022

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Kramatorsk, Ucrânia, Abril de 2022

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Severodonetsk, Ucrânia, Junho de 2022

 

O PCP, mesmo já sem surpreender ninguém, vai conseguindo descer cada vez mais baixo, enredando-se na pior lama quando o tema é a Ucrânia. A lama putinesca.

Ontem, na Assembleia da República, o deputado da Iniciativa Liberal Carlos Guimarães Pinto dirigiu à bancada comunista a pergunta que se impunha: «Se o agredido nesta história não fosse a Ucrânia mas fosse Portugal, continuariam a ter o mesmo discurso?»

Eis a vergonhosa resposta do deputado João Dias: «Nunca estaremos ao lado de regimes nazi-fascistas, como os senhores fazem.»

Caiu-lhes de vez a máscara: o PCP considera o legítimo governo da Ucrânia, nação agredida pela maior potência nuclear do planeta, um «regime nazi-fascista». Decalcando o glossário de Putin.

 

Ser nazi e fascista, para o que resta hoje do partido em tempos liderado por Álvaro Cunhal, é ser violentado, assassinado, esquartejado. É ver mais de 125 mil edifícios civis destruídos desde 24 de Fevereiro. É ver o PIB cair 40% devido à agressão bélica de Moscovo - um abismo aterrador.

Ser comunista, portanto, é defender o agressor, o violador, o homicida. É estar com Putin neste inqualificável acto de selvajaria que em três meses provocou o maior número de desalojados no continente europeu desde a II Guerra Mundial.

 

O deputado Dias injuria a Ucrânia no preciso momento em que Severodonetsk se transforma na nova Mariúpol, cidade-túmulo, com civis alvejados pelos obuses russos nesse Donbass que Moscovo dizia querer «libertar». E no próprio dia em que o ex-presidente russo Dmitri Medvedev, sem disfarce algum, admitiu que daqui a dois anos a Ucrânia já esteja riscada do mapa.

Um nazi não diria nada diferente. Convém lembrar que Medvedev é vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, fiel adjunto de Putin.

 

Entretanto, a Europa Oriental é percorrida por um sobressalto idêntico ao que foi provocado pelas hordas de Hitler. «Todo o flanco leste da NATO está em posição vulnerável», alerta o primeiro-ministro da Letónia, Krisjanis Karins. Enquanto a Polónia, vizinha ocidental da Ucrânia, vai preparando a mobilização geral. Repetindo-se em 2022 o que sucedeu em 1939.

No seu bunker cada vez mais impermeável aos factos, acometido de incurável cegueira ideológica e exibindo uma fidelidade sem mácula ao Kremlin, o partido da foice e do martelo enterra-se dia após dia. E de novo volto a fazer a pergunta que aqui formulei no dia 23 de Março: Já terá havido demissões no PCP?

 

ADENDA. Um míssil russo destruiu uma carruagem de mantimentos recolhidos por uma organização não-governamental. Aconteceu em Pokrovsk, na Ucrânia. Outro «acto heróico» para Putin juntar ao seu cadastro.

Timor ontem, Ucrânia hoje

Pedro Correia, 13.06.22

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Xanana Gusmão, na resistência ao invasor indonésio

 

Algumas almas angelicais abraçadas a velhas aves de rapina hoje travestidas de pombas, como Henry Kissinger, andam obcecadas com isto: há que «evitar humilhar os russos».

Como se não fossem eles os agressores da Ucrânia.

Como se a tropa de Moscovo não devorasse território ucraniano com fúria expansionista - o Kremlin ocupa agora, ilegalmente, cerca de 125 mil km² de superfície territorial do país vizinho, quase o triplo dos cerca de 43 mil km² que ocupava desde 2014.

Como se vissem a realidade invertida: soldados da Ucrânia envolvidos em operações de conquista e anexação da Rússia.

Como se a agressão moscovita devesse ser recompensada, encorajando futuras campanhas bélicas decalcadas do guião nazi naqueles alucinantes meses que levaram Hitler a engolir a Áustria, os Sudetas, a Checoslováquia e enfim a Polónia. Até tudo desembocar num conflito global já imparável.

 

Esta amálgama de gente - neofascistas, comunistas, falsos pacifistas e alguns idiotas úteis - procura iludir uma evidência: a Ucrânia equivale hoje, numa escala muito superior, à resistência timorense que enfrentou com êxito o imperialismo neocolonialista indonésio entre 1975 e 1999, suportando as maiores atrocidades cometidas pelos esbirros de Jacarta naquele solo onde durante séculos flutuou a bandeira portuguesa.

Também nessa altura pululavam por aí os "realistas" recomendando o reconhecimento da situação de facto, imposta pelos canhangulos indonésios, e desencorajando o apoio ocidental à abnegada guerrilha timorense. Diziam esses tais que eram impossível vergar um dos exércitos mais numerosos e bem equipados do planeta.

Pela lógica actual, o PCP deveria ter gritado então contra o levantamento das sanções ao regime de Jacarta e exigido a «paz» imposta pelos fuzis. Com Timor-Leste debaixo da pata indonésia.

É curioso vermos hoje Jerónimo de Sousa fazer coro com Henry Kissinger. Este, enquanto responsável máximo da diplomacia norte-americana, deu luz verde à brutal invasão de Timor-Leste pela tropa do ditador Suharto, em Dezembro de 1975, sob o argumento de que o Ocidente não deveria «humilhar a Indonésia». Nada melhor, portanto, do que outorgar-lhe direito de pernada e garantir-lhe aquilo a que chamam «concessões territoriais» - eufemismo para designar a anexação de uma nação soberana por um Estado vizinho em grosseira violação do direito internacional.

 

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Henry Kissinger (à esquerda) em Jacarta, Dezembro de 1975

 

Kissinger estava redondamente enganado, como sabemos: a força da razão derrotou a razão da força. Foi preciso esperar 24 anos, mas aconteceu.

Aprendamos com as lições da História. Ontem em Timor, hoje na Ucrânia.

Ao lado de quem é agredido, não de quem agride.

Solidários com as vítimas, não com os verdugos.

Ninguém humilha tanto a Rússia como Vladimir Putin, que já provocou danos reputacionais incalculáveis ao seu país. Com fatais reflexos nas gerações futuras.

Ter «Estaline na alma»

Pedro Correia, 08.06.22

 

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Ursula Le Guin, escritora com legião de admiradores entre nós apesar de ter sido quase sempre ignorada ou tratada com desprezo pelos nossos meios intelectuais, cunhou uma expressão de que me tenho lembrado por estes dias: «Estaline na alma».

Magnífica e terrífica expressão, de óbvia inspiração orwelliana, que tão bem define aqueles que neste recanto ocidental da Europa entoam loas a Putin, nascido na Rússia estalinista. Ou que só abrem a boca para culpar os ucranianos de estarem a ser agredidos, vilipendiados, violentados e mortos na sua própria terra. 

A culpa da violação, para esta gente, não é do Estado violador: é da própria nação violada. Gente como Jerónimo de Sousa, que funciona como serventuário de Moscovo exigindo ao Governo o fim das sanções à Rússia. Ou o ex-deputado comunista Miguel Tiago, que nega a existência do genocídio promovido pela URSS na Ucrânia há 90 anos. Ou o major-general Carlos Branco, que insiste em culpar Kiev pela agressão russa. Ou o major-general Raul Cunha, que celebra a «libertação» de Mariúpol reduzida a ruínas. Ou José Goulão, antigo comentador de assuntos internacionais da TSF, que vomita ódio contra Zelenski, símbolo máximo da resistência ucraniana ao invasor.

Transportam Estaline na alma. E parecem orgulhar-se disso.

 

ADENDA. Mais do mesmo: TV estatal russa ameaça NATO com «grande ataque nuclear». A culpa é da Ucrânia, claro.

Um dia todos seremos julgados

Pedro Correia, 07.06.22

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Mariúpol, Ucrânia, Abril de 2022

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Butcha, Ucrânia, Abril de 2022

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Irpin, Ucrânia, Abril de 2022

 

Um dia seremos todos avaliados pelas opiniões que emitimos nestes dias terríveis de 2022. Em que a maior potência atómica do planeta, imaginando-se acima de qualquer travão, a coberto de qualquer crítica, à margem do direito internacional, invadiu um país vizinho com a intenção declarada de o riscar do mapa. Imitando, passo a passo e argumento a argumento, o que a Alemanha nazi fez nos anos finais da década de 30, dando origem à II Guerra Mundial. Causando um número ainda incontável de vítimas inocentes - incluindo crianças, deficientes e velhos. Destruindo inúmeros alvos civis - incluindo escolas, creches, hospitais, maternidades, enfermarias, igrejas, teatros, museus, lojas e habitações. Provocando a maior deslocação de refugiados na Europa em oito décadas: cerca de 15 milhões de pessoas até agora. 

Tudo isto não numa região remota, algures no globo, mas no continente onde vivemos e que consideramos nosso também.

 

Nesse dia outros lembrarão onde estivemos.

Onde nos situámos.

Quem disse o quê.

Serão mencionados aqueles que se pronunciaram a favor da Ucrânia invadida ou da Rússia invasora.

Saber-se-á com minúcia quem escreveu em solidariedade ao agredido ou em aplauso ao agressor.

Ficará claro, nesse dia em que a poeira assentar, quem se atreveu a chamar "libertação" ao impiedoso bombardeamento de Mariúpol, transformada num mar de ruínas. Como se Guernica em 1937, Coventry em 1940 ou Dresden em 1945 tivessem sido "libertadas".

 

Nesse dia, todos seremos julgados. Não apenas pelas opiniões que emitimos neste ano com tintas de apocalipse, mas pelo silêncio cúmplice que alguns mantiveram. Muitos. Demasiados.

Os Pilatos contemporâneos, que lavam as mãos e olham para o lado, fingindo nada ver. Os "equidistantes", incapazes de tomar partido entre verdugo e vítima. Os "realistas", mais preocupados em "não humilhar" o violador do que em socorrer a nação violada. Os arautos da rendição a que chamam "pacifismo", incapazes de perceber que não existe paz sem liberdade.

Nesse dia, alguém perguntará: «O que disseste e o que fizeste em 2022?»

A todos. Aos que falaram - uns em louvor do crime, celebrando a razão da força, outros erguendo-se contra ele, convictos da força da razão. E aos que calaram, exibindo uma indiferença neste caso também tingida de sangue. Porque assistir a um crime em silêncio é cometer um crime também.

Ele bem sabia

Pedro Correia, 27.05.22

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«Putin pretende (e a Alemanha aceitou) construir um gasoduto directo entre a Rússia e a Alemanha, sem passar pela Polónia. O que evidentemente permite à Rússia fazer chantagem com a Polónia (como já fez, por exemplo, com a Ucrânia). O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, protestou. Angela Merkel tenta tratar o caso - um caso eminentemente político - como se fosse uma questão económica. Por outras palavras, solidariedade europeia ou não, a Alemanha prefere negociar com a Rússia à custa da Polónia. Pior ainda: planeia um monumento aos "deslocados" do Leste, garantindo que ele não "relativiza" a guerra do III Reich. Faz, de facto, muito mais do que isso: põe em causa a legitimidade da Polónia tal como ela hoje existe. Por enquanto, estas querelas não são graves. Mas servem para lembrar de onde vem o grande perigo para a "Europa". E não vem da América.»

Vasco Pulido Valente (Público, 16 de Dezembro de 2007)

A carta que não se pode deixar de ler

Sérgio de Almeida Correia, 24.05.22

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Refiro-me à carta aberta que foi escrita por um grupo de académicos ucranianos e que foi ontem divulgada no blogue da Univerdade de Berkeley em resposta aos dislates que têm vindo a ser propagados por Noam Chomsky, cada vez mais uma espécie de académico ao serviço da desinformação e da propaganda russa, aliás numa linha muito parecida com a de alguns generais lusos investidos em "comentadores" das televisões nacionais e de um professor de Coimbra que enveredou há alguns anos pelo mesmo registo. 

Sem prejuízo de quem queira poder aceder à integralidade da carta, ficam aqui os pontos pertinentes ali referidos que destroem por completo a argumentação putinesca e russófila:

1) First, Russia’s annexation of Crimea in 2014 has violated the Budapest memorandum (in which it promised to respect and protect Ukrainian borders, including Crimea), the Treaty on Friendship, Partnership and Cooperation (which it signed with Ukraine in 1997 with the same promises), and, according to the order of the UN International Court of Justice, it violated the international law.

2) Second, “Crimeans” is not an ethnicity or a cohesive group of people – but Crimean Tatars are. These are the indigenous people of Crimea, who were deported by Stalin in 1944 (and were able to come back home only after the USSR fell apart), and were forced to flee again in 2014 when Russia occupied Crimea. Of those who stayed, dozens have been persecuted, jailed on false charges and missing, probably dead.

3) Third, if by ‘liking’ you refer to the outcome of the Crimean “referendum” on March 16, 2014, please note that this “referendum” was held at gunpoint and declared invalid by the General Assembly of the United Nations. At the same time, the majority of voters in Crimea supported Ukraine’s independence in 1991.

4) Have you considered the possibility that Ukrainians would like to detach from the Russian sphere of influence due to a history of genocide, cultural oppression, and constant denial of the right to self-determination?

5) Eastern European states joined, and Ukraine and Georgia aspired to join NATO, in order to defend themselves from Russian imperialism. They were right in their aspirations, given that Russia did attack Georgia in 2008 and Ukraine in 2014. Moreover, current requests by Finland and Sweden to join NATO came in direct response to Russia’s invasion of Ukraine, consistent with NATO expansion being a consequence of Russian imperialism, and not vice versa.

6) Not bringing Putin up on war crime charges at the International Criminal Court in the Hague just because some past leader did not receive similar treatment would be the wrong conclusion to draw from any historical analogy. In contrast, we argue that prosecuting Putin for the war crimes that are being deliberately committed in Ukraine would set an international precedent for the world leaders attempting to do the same in the future.

7) Please note that, in his [Putin] TV address from February 24, 2022, marking the beginning of the war, the verbatim goal declared by Putin for this “military operation” is to “denazify” Ukraine. This concept builds on his long pseudo-historical article from July 2021, denying Ukraine’s existence and claiming that Ukrainians were not a nation. As elaborated in the ‘denazification manual’ published by the Russian official press agency RIA Novosti, a “Nazi” is simply a human being who self-identifies as Ukrainian, the establishment of a Ukrainian state thirty years ago was the “Nazification of Ukraine,” and any attempt to build such a state has to be a “Nazi” act. According to this genocide handbook, denazification implies a military defeat, purging, and population-level “re-education”. ‘Demilitarization’ and ‘neutralization’ imply the same goal – without weapons Ukraine will not be able to defend itself, and Russia will reach its long-term goal of destroying Ukraine.

8) We find it preposterous how you repeatedly assign the blame for not reaching this settlement to Ukraine (for not offering Putin some “escape hatch”) or the U.S. (for supposedly insisting on the military rather than diplomatic solution) instead of the actual aggressor, who has repeatedly and intentionally bombed civilians, maternity wards, hospitals, and humanitarian corridors during those very “negotiations”. Given the escalatory rhetoric (cited above) of the Russian state media, Russia’s goal is erasure and subjugation of Ukraine, not a “diplomatic solution.”

9) Russian war crimes in Bucha and many other Ukrainian cities and villages have shown that living under Russian occupation is a tangible “hell on earth” happening right now, requiring immediate action. Arguably, any concessions to Russia will not reduce the probability of a nuclear war but lead to escalation. If Ukraine falls, Russia may attack other countries (Moldova, Georgia, Kazakhstan, Finland or Sweden) and can also use its nuclear blackmail to push the rest of Europe into submission. And Russia is not the only nuclear power in the world. Other countries, such as China, India, Pakistan, and North Korea are watching. Just imagine what will happen if they learn that nuclear powers can get whatever they want using nuclear blackmail.

Salem revisitada?

Maria Dulce Fernandes, 16.05.22

Ficou provado que em Salem a histeria colectiva proveio do pão, cuja farinha usada na sua confecção ganhou um tipo particular de fungo ou bolor com características alucinogénias. 

Estudado o fenómeno ad nauseam e aproveitado pela comunidade hippie dos anos 60 e 70 e mais tarde pelas grandes farmacêuticas para tratar doenças como a depressão,  regressa agora em grande estilo, provocando delírios de insanidade onde menos se esperaria. Será do pão? Será do vinho? Será alucinação colectiva, loucura ou medo?

Religião seguramente não é.

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"A igreja russa abençoa as armas que o exército russo utiliza para matar ucranianos. Até abençoaram um míssil apelidado de Satanás."

Rasputine deve estar a rodopiar no enxofre e a rir que nem um perdido.

(Foto Google)