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"Tu tens cara de ser rico"

por Pedro Correia, em 04.12.18

Estou na paragem do autocarro, chega o pedinte e atira sem rodeios:

- Tu és rico, dá-me dinheiro.

- Não tenho dinheiro nem sou rico - respondo-lhe de imediato.

Mira-me de alto a baixo, com ar intrigado, antes de repetir a frase - desta vez em tom menos imperativo.

Chamo-lhe a atenção:

- Se fosse rico, andava de Mercedes. Não estava aqui à espera do autocarro.

Ele afasta-se. Mas, depois de dar uns passos, vira-se para trás e faz questão de encerrar assim o breve diálogo:

- Olha que tu tens cara de ser rico.

Trota passeio adiante sem aguardar mais réplica, cravando outra pessoa logo a seguir.

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Códigos

por Pedro Correia, em 30.11.18

Vou ao balcão da pastelaria, peço para me embrulharem um croissant misto (sem manteiga) e um sumo. 

O empregado pergunta:

- Quer palhinha?

Detesto palhinhas. Respondo:

- Não. Palhinha está no Braga.

Ele ri, percebendo de imediato o trocadilho. Saio do estabelecimento a pensar como seria mais cinzento e baço o nosso quotidiano sem estes pequenos códigos de comunicação que tanto nos ajudam a colorir os dias.

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O acessório e o essencial

por Pedro Correia, em 20.10.18

Esquecemo-nos com demasiada frequência de que os políticos são gente comum, com qualidades e defeitos como qualquer de nós. E por vezes com dramas íntimos que merecem o nosso respeito e o nosso apoio. Reflicto nisto a propósito de Bernardino Soares, ex-líder parlamenter do PCP e actual presidente da Câmara de Loures: ele e a mulher, Marta, têm um filho que nasceu há três anos com grave insuficiência respiratória devido ao parto prematuro. Acederam agora a partilhar a história do pequeno Francisco com os espectadores da SIC, numa reportagem que merece aplauso. E que nos faz reflectir sobre a urgência da aprovação do Estatuto de Cuidador Informal neste país que tanto se ocupa com o acessório enquanto vai esquecendo o essencial.

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Complicar o que é simples

por Pedro Correia, em 28.09.18

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Compro uma embalagem de lombos de atum em conserva. Bom atum, açoriano, da ilha de São Jorge.

Reparo no rótulo da embalagem: é um modelo de correcção política. Além dos elementos básicos, relativos aos ingredientes e ao prazo de validade, sou municiado com um estendal de "informação nutricional".

Energia.

Lípidos.

Lípidos saturados.

Açúcares.

Hidratos de carbono.

Fibras alimentares.

Proteínas.

Sem esquecer o sal. 

Mas não fica por aqui. Garante-me a pequena embalagem de atum Santa Catarina que o atum foi capturado com recurso a "pesca salto e vara": não percebo o português, mas devem querer dizer que o bicho não sofreu no momento da captura. Asseguram-me que o atum é "laborado manualmente": continuo sem entender o português, mas parece algo destinado a apaziguar por antecipação a minha suposta ira contra a morte de seres vivos destinados à alimentação humana, como se eu fosse um feroz militante animalista. 

O espaço é curto, mas os dados informativos estão longe de esgotar-se. "Pescamos artesanalmente à cana" e "protegemos os golfinhos", proclama ainda a simpática indústria conserveira de São Jorge.

 

Tudo numa simples lata.

Enquanto cozinho sem peso na consciência o meu prosaico esparguete de atum com molho de tomate e cogumelos, vou pensando que, de ansiedade em ansiedade, passamos hoje o tempo a complicar o que é simples. Depois não nos sobram horas, por vezes sequer minutos, para as coisas verdadeiramente importantes. 

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Agosto em Lisboa

por Pedro Correia, em 22.08.18

Agosto em Lisboa, num bairro afastado das enchentes turísticas. Almoço periódico com dois amigos, no restaurante do costume. Afinal está fechado, "para férias" - como reza o letreiro. Tentamos o restaurante alternativo, também nosso conhecido, quase porta ao lado: igualmente encerrado pelo mesmo motivo. Faz-me alguma confusão: porque não combinarão férias alternadas os responsáveis destes estabelecimentos concorrentes?

Atravessamos a rua: em frente há outro. Este, aberto. Mal abancamos, a empregada ucraniana avisa: "Já não temos frango, nem carne de vaca." Mau indício, um restaurante deixar esgotar carne de frango. Bifana, também esgotou. Pedimos alheiras, descendo ao grau zero culinário, quase não resta alternativa. Azar para o terceiro elemento da tribo, que chega mais tarde: já não restou uma alheira para lhe matar a fome.

Sugiro-lhe, a brincar: «Pede um Cornetto. Deve haver.» Havia, sim. Foi o almoço dele.

Na fabulosa Lisboa "turística" desta segunda década do século XXI. Na Rua da Estefânia, passava um pouco das duas da tarde.

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Amor e Vistos Gold

por Diogo Noivo, em 26.07.18

Instalou-se a ideia de que Lisboa cria condições de excepção para estrangeiros europeus ou endinheirados que desejem residir na capital. Comprovei ontem que a percepção é completamente falsa. Embora, lamentavelmente, nada possa dizer sobre os endinheirados, vi que o calvário ao qual os cidadãos europeus são submetidos pela Câmara Municipal de Lisboa é pior do que aquele sofrido pelos portugueses residentes.

Apesar de qualquer cidadão europeu ter um Cartão do Cidadão ou um passaporte que atestam a sua condição europeia, Portugal exige-lhes um certificado de cidadania europeia, emitido pelo município competente. Reitero, para que não sobrem dúvidas: não se trata de um certificado de residência, mas sim de certificar que alguém com documentos oficiais emitidos por um Estado-Membro da União Europeia é, de facto, europeu. A tautologia custa 15€ por cabeça. Fui informado que “é assim em todo o lado”, embora não me recorde de ter sido obrigado a uma certificação semelhante quando residi noutros países do espaço comunitário. Adiante.

Chegados ao serviço de atendimento do município de Lisboa por volta das 10 da manhã, o número da senha, o 003, augurava um tempo de espera curto. Apenas duas pessoas à nossa frente, e uma já estava a ser atendida. Mas às 13h20 continuávamos à espera. Enquanto as senhas para tratar de outros assuntos – EMEL, execuções fiscais, urbanismo – se sucediam a uma média de onze por hora (havia tempo livre e tinha de me entreter), para tratar do certificado europeu a média era inferior a um. As pessoas entravam e saíam, enquanto nós e um simpático casal alemão olhávamos para o monitor, ansiosos pela nossa vez.

Às 14h15, quando finalmente fomos atendidos, a funcionária informou-nos que Lisboa não é o município competente (aliás, a falta de competência era evidente há mais de duas horas), mas sim um outro. Portanto, de nada serviu ter ligado na véspera para aquele mesmo serviço, ter facultado toda a informação, e me ter sido confirmado que sim, que era ali que me deveria dirigir para tratar do malfadado certificado. Valeu-nos a simpatia da pacata funcionária – que contrastava com a hiperactividade de um negreiro que por lá andava disfarçado de polícia municipal.

Moral da história: os estrangeiros só se mudam para Lisboa com Vistos Gold ou por amor à cidade – e porventura a um lisboeta. Pela competência dos serviços não é certamente.

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'Melting pot' à portuguesa

por Pedro Correia, em 15.06.18

Diz-me o merceeiro do Bangladeche, estabelecido cá no bairro há pouco mais de um ano: «Hoje vamos ganhar. Cristiano Ronaldo é o maior!»

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 19.02.18

Adolescente Prieto, ó mãe, tenho uma coisa para pedir. Então diz lá. É que lá na escola, como estamos na quaresma, não fazem pão com chouriço à sexta. Ai sim? Pois, em vez de pão com chouriço, fazem pão com Nutella. E é tão bom, mas tão bom, mãe. É um granda pão, assim cheio de Nutella. Queria pedir-lhe se na próxima sexta feira posso levar dinheiro para comprar seis pães, mãe. Assim, todos os dias levava um para comer na escola.
E eu ah e tal, que Cristão e tal.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 22.01.18

Recebo por SMS:
"A Medicare acompanha os Seniores de Portugal
O Goucha ja aderiu e voce esta a espera de que?"
Não sei o que responda. Se começo pelo Senior, se pelo Goucha.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 16.01.18

blá, blá, blá, blá, ó mãe, a minha amiga tal de tal, quando se zanga fica rude. Rude mesmo, mãe. E eu, ai sim, então e tu, Rita, quando te zangas, como é que ficas? E ela, eu fico raivosa e agressiva, mãe. Raivosa e agressiva, mas não fico rude. E eu, enfim, muito mais descansada. Pelo menos não fica rude.

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Da Lua Cheia

por Bandeira, em 06.10.17

O meu bairro, democrata leitor, madrugou com tanques bloqueando-lhe as ruas. O pretexto oficial, esfarrapadíssimo, consiste num desarrazoado sobre a necessidade de lhe deitar fumegante alcatrão nas vias. “Vai demorar uns diazinhos”, informa o guarda com um sorriso que me parece oscilar entre o solidário e o escarninho, consoante se sente mais povo ou mais Autoridade. Adivinho vingança do presidente da Câmara: caiu nas eleições. Que vou eu fazer agora? Preso a cem metros da praia em pleno Outubro, com um tempo que lembra Agosto e as esplanadas fervilhando? Uma Coreia do Norte, é o que isto é, uma Coreia do Norte.

Adenda:

Reconsiderei os motivos que levaram a Câmara que preside aos destinos do meu bairro a fechá-lo para repavimentação e beneficiamentos vários. Fez-se (literalmente) luz quando ontem, noite caída, contemplei da janela a lua cheia que passava já acima do tabuleiro da ponte, áurea e colossal primeiro, branca e mais recatada depois, banhando com argentina luz o Mar da Palha: ela subia para mim. Assim a Câmara, os funcionários, a paróquia em peso. Como Madonna em Lisboa, resido aqui não há ainda meia dúzia de meses; alguém, do IRN, da Junta, do Clube da Sueca, que sei eu, espalhou palavra: e em conluio determinou-se que se alindaria o arredor para melhor me receber. Como pude não o ter percebido antes? Saio à rua passando, com um sorrisinho cúmplice, pelos calceteiros que neste preciso momento alegram com os seus martelinhos (os deles) a notável sinfonia das retroescavadoras, dos cilindros e dos sinais sonoros prevenindo velhotas surdas contra uma qualquer marcha atrás. Sem jeito, eles fingem má cara. Como tudo isto é divertido! Faço má cara eu também, pisco-lhes o olho e vou tomar uma bica, fingindo, fingindo sempre que não sei que me amam e que estão felizes por me saberem aqui. É bem verdade quando dizem que, neste século XXI, eu é a pessoa mais importante do mundo.

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Outros quatro a ler no metro

por Pedro Correia, em 05.09.17

Entro na carruagem do metro, são quase 19 horas. A habitual multidão do fim da tarde: quase toda a gente - excepto turistas - de cabeça para baixo, mergulhada nos ecrãs dos telefones a que chamamos inteligentes apesar de fazerem de nós estúpidos. Questiono-me quantas destas pessoas alheadas de quem as cerca perdem tempo a ver vídeos de gatinhos ou a ler piadolas alarves ou a aprofundar "todos os pormenores" que jamais quiseram saber sobre celebridades da treta.

Aproveito para abrir o livro que por estes dias me acompanha. São seis estações até ao meu destino: à média habitual, dá para avançar umas dez páginas. Aproveitando todos os momentos disponíveis ao longo de fragmentos do dia, consegui ler 44 livros completos desde o início do ano até ao fim de Agosto. Era uma aposta muito pessoal para 2017: igualar ou superar agora enquanto leitor o ritmo veloz dos meus tempos de adolescente e jovem adulto, quando cheguei a ler 72 no ano em que passei dos 17 aos 18.

 

Guardo na mochila o Equador, de Miguel Sousa Tavares (sim, é deste romance que se trata), quando se anuncia a estação onde vou sair. E reparo então que nos lugares circundantes vão quatro pessoas também a ler. Duas mulheres, dois homens: paridade absoluta.

O que lêem elas? A Rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami (edição Casa das Letras), e Filhos da Fortuna, de Jeffrey Archer (Europa-América).

O que lêem eles? A Game of Thrones, de George RR Martin (um paperback na versão original), e O Islão Político Ontem e Hoje, de John Owen (Bertrand).

 

Não deixo de sorrir: eis quatro parceiros de carruagem totalmente desconhecidos e que talvez nunca volte a ver mas a que me sinto de imediato ligado por um inesperado elo de cumplicidade.

Somos poucos mas não deixamos de remar contra a maré dominante, transformando o transporte de um livro num singelo acto de resistência. Demonstrando aos outros e a nós próprios esta evidência: é possível escapar ao vício dos telemóveis que cada vez mais nos uniformiza no espaço público.

Por mim, continuarei. Até ao fim deste ano e no outro que vier. Sem unicidade, sem uniformes, sem vídeos de gatinhos. Como escreveu o poeta, "só vou por onde / me levam meus próprios passos".

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A mercearia reabriu

por Teresa Ribeiro, em 30.05.17

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Depois de uns dias fechada, com uma cruz na porta, a pequena mercearia reabriu, com os mesmos caixotes de fruta no passeio. Tudo igual, excepto a roupa da velhota, antes indistinta, agora uma mancha negra a assombrar pêssegos e limões. Ela e o marido, em guerrilha permanente, eram tema de piadas no bairro. As quezílias diárias deixavam-lhe o olhar velado, carregado de azedume e a ele uma expressão de enfado impossível de disfarçar. Para o cenário trivial de uma mercearia de bairro era drama em excesso, daí ter tanta graça aquele desconcerto a dois. 

O azedume dos olhos dela, por estes dias, desfez-se em tristeza. Todos comentam que de repente ficou uma sombra da mulher que foi. Amar um traste pode ter-lhe envenenado a vida, mas amar um desertor está a matá-la de vez.

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Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

por Helena Sacadura Cabral, em 10.05.17

A rotina era sempre a mesma. Saía de casa mal amanhado e ia para o jardim do Principe Real. Agora nem isso, aquilo estava transformado num pandemónio, nem o seu banco lhe deixaram, tão atafulhado aquilo estava. Nem sei porque é que para aqui venho pensava enquanto apertava a banda do casaco, que a manhã estava fria. Era a Lisete que o levava ali. A Lisete quando era viva, pois fora naquele banco de jardim que a conhecera. Ela tinha-lhe sorrido e foi esse sorriso que os havia de juntar. Tanto amor. E o José era a prova, não se lembrava de quando é que o vira, mas sabia que ele estava bem, porque senão alguém havia de lhe dizer que ele estava mal. 

A tosse, esta maldita tosse, que viera com o fim do tabaco, mas ao preço a que ele estava, como não deixar de fumar? Fora isso que o médico do Centro de Saude lhe tinha dito, que não havia dinheiro para vícios. 

Lá estava o banco cheio de embrulhos, paciência, ia-se sentar no da frente. A Lisete havia de gostar de saber que ele continuava a ir ao jardim dela. Mas este banco apanhava sol e ele queria mesmo era sombra. Sombra? Sombra que bastasse tinha ele lá no quartito onde vivia. Apesar disso, não se mexeu. 

Para quê mexer se daqui a bocado o sol vira sombra, era o que lhe diria a Lisete que já explicara isso ao filho. Será que o Zé também terá explicado o mesmo ao filho dele? Como é que o miúdo se chamava? Parece que era Bernardo, mas que nome mais esquisito. Mas ele não conhecia o garoto, por isso não tinha que o chamar. Se a Lisete fosse viva havia de saber chamá-lo, mas talvez esteja enganado. Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

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A semente totalitária

por Pedro Correia, em 30.03.17

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Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria - e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.

Muitos apregoam os direitos humanos, havendo-os para todos os gostos e feitios, reais ou imaginários - e não falta até quem queira estendê-los aos animais e aos vegetais. Mas quanto mais se fala, menos se faz: alguns direitos fundamentais vão sendo comprimidos sem surpresa ou escândalo de ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, hoje ameaçados de modo quase irreversível numa sociedade que elege o narcisismo exibicionista acima de tudo o resto.

O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas "redes sociais" funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público.

 

Um misto de apatia, hedonismo e alheamento cívico caracteriza muito do comportamento dominante no mundo ocidental. E ajuda a explicar esta permanente sensação de crise larvar, que ultrapassa em larga escala o plano económico. É uma crise de valores, que o fundamentalismo islâmico procura colmatar à sua maneira apelando ao instinto gregário e aos códigos tribais em decomposição nas chamadas sociedades "evoluídas".

Isto tem uma capacidade de sedução que ultrapassa largamente o círculo de convertidos, seduzindo novas hordas de fanáticos em potência desprovidos de valores alternativos.

 

Quem não perceber isto nada percebe de essencial.

Como há-de o Estado - mesmo o Estado democrático - respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Como se a semente totalitária não estivesse já no meio de nós.

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Sede interminável

por Pedro Correia, em 20.03.17

- E para beber, o que deseja?

- Uma cola.

- Não temos. Só Pepsi. Pode ser?

- Pode. Pepsi também é cola.

- Como disse?

- Nada...

- E deseja a Pepsi fresca?

- Claro.

- Gelo e limão?

- Limão, não. Só gelo.

- Não deseja limão?

- Não. Só gelo.

- E quantas pedras?

- Duas ou três.

- Uma palhinha?

- Não é preciso. Detesto palhinhas.

- Como disse?

- Nada...

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Não perguntes

por Bandeira, em 31.01.17

Passo algum tempo no Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social. Algumas caras de assunto perfunctório, outras que podiam ser cavadas num vaso grego. Um homem põe a senha dele a dez centímetros da minha cara. Se faço o favor de lhe dizer em que número vai a senha “C”. O monitor está a dois metros de nós; infiro que não veja os números por estar sem óculos. “Vai no 64”. É o número dele. Observo-o enquanto se atira contra a pesada porta de vidro. Vai aflito. Espero que não perca a casa, o carro, os filhos. Senta-se, a funcionária corresponde aos bons dias. Consigo imaginar o diálogo que se segue. “Enviámos-lhe vários avisos por carta”. “Não duvido, minha senhora, mas vocês ficaram com os meus óculos e eu, sem eles, não sou capaz de ler”.

Não perguntes por quem dobram os sinos.

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Da Gravidade

por Bandeira, em 23.01.17

Um amigo de infância – crescemos ambos em Lisboa, na parte desfavorecida da Avenida de Roma – faz-me notar que a alopecia nos está a invadir o outrora hirsuto couro cabeludo (Alopecia era a deusa liechtensteinense do cheque careca, sincretizada pelos romanos aquando da conquista do principado por três legionários etilizados que o confundiram com um Burguer King; sabemos por Salústio que terá revelado a Júlio César, num sonho, um truque para disfarçar as entradas, a saber, pentear as melenas na direcção da testa.)

Não apenas carecas, old chap, como diziam na parte favorecida da avenida, não apenas carecas, mas irreparavelmente deselegantes. “Fala por ti”, dirás. Não preciso, outros o fazem bem melhor do que eu e sem precisar de palavras. Ontem, em passeio dominical pelas faldas do Tejo, topei com uma roulotte de venda de comes e bebes. Era fim de tarde, havia alguns bolos mas de salgados sobrava apenas uma empada, que solicitei me fosse entregue para que a devorasse. A menina da roulotte nem se mexeu. Manteve os cotovelos apoiados no balcão, as mãos nas axilas que adivinhei quentinhas, e disse melancólica, “Desculpe, mas já só tenho uma de legumes”.

Permaneci alguns segundos em completa imobilidade, usando uma técnica Zazen que me permite intuir a natureza da Existência ou, em alternativa, não cair redondo no chão. Então disse, a voz embargada pelo choque: «Espere. Deixe-me ver se percebi. A menina olhou para mim e pensou, “Eis aqui um carnívoro de quase cem quilos; um homem com uma percentagem de DNA neandertal superior aos comuns 3 ou 4% e que, em podendo, se alimentaria exclusivamente de carne crua nas suas cinco ou seis refeições diárias; alguém para quem a ideia de gourmet consiste numa salada de coiratos, pé de porco e caracoletas, tudo regado com muita cerveja. O aparelho gástrico deste cavernícola é incapaz de digerir uma empada de vegetais.” Foi isso? Diga lá. Foi?».

Ela riu-se muito, decerto do nervoso, deitou um olhar carente de solidariedade para a Judas que me acompanhava (e que também se ria a bandeiras despregadas), negou que eu fosse um cavernícola, pelo menos não um dos mais hirsutos (lá está, alopecia), e com um gesto receoso, como quem dá um amendoim ao babuíno que lhe estende a mão traiçoeira, entregou-me a empada de legumes. Antes, porém, ainda hesitou – também isso eu percebi – e perguntou-se a si mesma se eu iria requerer um guardanapo.

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A Peste

por Bandeira, em 15.01.17

Os centros de saúde mudaram muito desde os tempos da peste bubónica, maleitoso leitor. Agora estão todos informatizados, há ecrãs, dinguedongues, apitos tipo Espaço 1999, numa palavra, eficiência. Logo à entrada das instalações, dou com um monitor táctil (note que o facto de estar à entrada já transmite uma ideia de planeamento e funcionalidade que seria impensável vinte anos atrás, quando o teriam instalado no bar em frente com abertura às dez da noite, peça a chave no intervalo do show à menina que dança no varão e não se esqueça de lhe pagar uma bebida pelo trabalho). Por motivos claramente arbitrários, o monitor exibe meia dúzia de opções. A primeira permite “Obter receituário”. A segunda, “Obter credenciais e receituário”. A terceira não pode ser reproduzida na presença de menores. Escolho a primeira opção. Vou clicando aqui e ali, admito que de forma aleatória, até ao ponto em que me é solicitado o cartão de cidadão. Este deverá ser introduzido na ranhura (disponibilizada) para que uma espécie de cópula informática tenha lugar. Durante este processo, “o sistema” ficará a saber tudo sobre mim, até porque estarei com todos os meus dados pessoais à vista. Mas não há química entre o meu cartão e a ranhura (disponibilizada) e sou informado de que serei obrigado, afinal, a “introduzir manualmente”. Semicerro os olhos, aponto as cataratas na direcção das formiguinhas no cartão e digito no teclado numérico, piscina de bactérias patogénicas (nada contra, não sangram elas também quando as picam etc.), o meu número de utente. Sucesso! Surge uma mensagem informando-me de que a minha senha está a ser impressa e que é minha obrigação aguardar um bocadinho. Várias horas depois (note: tenho fraca noção da passagem do tempo, uso a bateria do iphone para contar os minutos), torna-se óbvio que a senha *não está* a ser impressa.

 

Então a senhora que se segue a mim na fila entende explicar-me, passo a passo, como proceder para obter receituário. Faz exactamente o mesmo que eu havia feito, incluindo tentar que a ranhura (disponibilizada) e o meu cartão mantenham uma relação estável. Durante todo o tempo explico timidamente que já havia feito tudo aquilo. Mas eis que, sucesso! – surge uma mensagem dizendo que a minha senha está a ser impressa e que é minha obrigação aguardar um bocadinho. Algumas horas depois (ler nota acima) torna-se evidente que a minha senha *não está* a ser impressa. É este o momento em que o segurança de serviço decide oferecer os seus préstimos. “Qual é o seu problema?”, pergunta com a doçura possível num homem de 120 quilos que só deve ter conseguido o emprego após ameaçar o futuro patrão de que se o não contratasse lhe furaria os pneus do Toyota Celica, incluindo o sobressalente. Explico-lhe tudinho. “Isso acontece”, diz fazendo uma boquinha de selfie, “porque não escolheu a opção ‘Obter credenciais e receituário’”. Humildemente protesto: não quero obter credenciais, apenas receituário. Ele faz uma pausa para respirar fundo, revira os olhos e pergunta-me: “Sabe por que razão deve escolher “Obter credenciais e receituário?”. Admito que não, não sei, peço desculpa mas não sei. “Porque”, explica-me com paciência de Job, “a opção ‘Obter receituário’ não está a funcionar”. E como que para tornar ainda mais óbvio o quanto teria sido simples resolver a questão se eu não estivesse determinado a complicar a vida dos utentes que fazem fila atrás de mim, pressiona a tecla correspondente a “Obter credenciais e receituário”. Sem mais nada, sem um ruído, sem um queixume, o monitor expele uma senha com os dizeres “D071”. Sinto na nuca o olhar odiento dos restantes utentes. Julgo que um deles chega a dar-me um calduço por cima do cachecol. Orgulhoso do seu desempenho (jornalistas, por favor, parem de dizer “performance”!), o segurança vira costas e vai fazer algo verdadeiramente útil, no caso ler o Record. Sento-me e olho (como uma vaca olhando o prado, é como me sinto, que quer) para o ecrã de chamadas. Ignoro os AA, os BB e os CC. A senha D corrente é a 019. Após vinte minutos sem qualquer alteração, começo a suspeitar de que o dia não vai ser fácil – mas nada, nada me fará voltar a passar pelo segurança sem o receituário na mão.

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A (des)organização do trabalho

por Pedro Correia, em 16.12.16

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 Fotograma do filme Playtime, de Jacques Tati (1967)

 

Esta notícia de que o Governo espanhol equaciona a redução dos horários de trabalho, fixando as 18 horas como padrão do fim do dia laboral, demonstra até que ponto continuamos atrasados nestas matérias. Por cá, toda a discussão se centra nos aumentos periódicos da massa salarial, à revelia dos ganhos de produtividade, quando devíamos debater outras questões, não menos importantes. O incentivo ao teletrabalho, por exemplo. Ou a generalização dos horários flexíveis nas empresas, o que contribuiria para descongestionar o tráfego, encurtar as distâncias entre domicílios e empregos, e diminuir os níveis de poluição associados aos engarrafamentos rodoviários.

É o que já sucede em países como a Suécia, que tem vindo a adoptar com sucesso a jornada laboral de seis horas diárias, que permite uma conciliação exemplar entre o trabalho e a vida familiar, sem prejuízo da produtividade global. Pelo contrário, os especialistas acentuam que a motivação de um trabalhador é directamente proporcional à racionalização dos horários. Que o digam os executivos da Toyota, que em 2002 fixaram as seis horas diárias de trabalho na sua fábrica sueca em Gotemburgo: os lucros da empresa aumentaram 25% e ninguém equaciona um regresso ao horário anterior.

Entre nós, lamentavelmente, a revolução tecnológica continua dissociada da organização do trabalho. Trabalhamos em rede, com instrumentos sofisticados e uma rapidez de obtenção de dados inimaginável há duas décadas, mas este mundo digital do século XXI insere-se em absurdas rotinas laborais que remontam ao século XIX. Ter toda a gente concentrada nos mesmos espaços físicos em simultâneo, sujeita aos mesmos custos de contexto, é tão absurdo como o regresso às antiquadas máquinas de escrever e aos obsoletos telefones de disco.

Os pioneiros da era digital sonhavam com novas sociedades em que a redução do tempo de permanência nos postos de trabalho decorria naturalmente da rapidez das telecomunicações, ampliando a qualidade de vida. Hoje o mundo inteiro está para qualquer de nós à distância de um clique num dispositivo portátil. Com ganhos de eficiência garantidos – desde logo em tempo e dinheiro. Acontece que estas conquistas geraram por sua vez novas necessidades, numa voragem que parece não conhecer limites. Em vez da natural redução da vida laboral, que aliás em grande parte pode hoje ser desempenhada na casa de cada um, os horários reais alargam-se a níveis absurdos. Toda a gente continua a seguir os mesmos percursos casa-trabalho às mesmas horas, tornando cada vez mais caótico o fluxo do trânsito e cada vez mais generalizado o desperdício de tempo – que é, ninguém duvide, o bem mais precioso.

Gostaria de ver a nossa concertação social pelo menos tão ocupada a debater tudo isto como a discutir o aumento do salário mínimo. Se outro pretexto não existir, que sirva ao menos este: já se encontra na agenda política e empresarial espanhola. Quantos anos demorará a atravessar a fronteira?

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