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Nunca me tinha acontecido. É meio-dia e meia, como de costume ando na rua em manhã de domingo, e preparo-me para rumar a casa quando só então me lembro que estamos em dia eleitoral. Isto diz muito sobre a falta de motivação para participar nesta consulta destinada a escolher os nossos próximos 21 representantes no Parlamento Europeu.

Lá me encaminho para o bairro de São Miguel, um dos mais acolhedores de Lisboa, que visito sempre com gosto em dias de chamada às urnas, temperado por uma saudável dose de inveja: bem gostaria de viver aqui.

Na escola básica, secção n.º 3, exerço o direito de voto. Tudo quase vazio, em ambiente de modorra dominical: ninguém diria que hoje é jornada de mobilização cívica. Encontro duas ou três pessoas conhecidas, muito menos do que é costume: fala-se da conquista da Taça pelo Sporting, dos petiscos que apetece ir provando, do calor que já aperta.

Exerci um direito, cumprindo um dever: revejo-me nesta dicotomia e sinto-me incapaz de justificar o discurso pró-abstenção que por aí campeia. Como se fosse indiferente à cidadania sermos ou não representados por dirigentes que resultam do sufrágio universal.

Neste dia, pensemos nas regiões do planeta povoadas por centenas de milhões de pessoas a quem é negado o direito ao voto. Pensemos nas ditaduras que ainda dominam vastas extensões do mundo. Em países como China, Síria, Irão, Bielorrússia, Guiné Equatorial, Coreia do Norte, Azerbaijão, República "democrática" do Congo, Arábia Saudita, Vietname, Argélia, Cuba ou Usbequistão.

É quanto basta, creio eu, para nos motivar a exercer o voto. Seja qual for a nossa escolha.

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Em saldo

por Maria Dulce Fernandes, em 08.05.19

A loja estava praticamente vazia. “- Bolas! “ Pensei “ já deve estar tudo muito escolhido… saí mais cedo,  nem almocei e garantidamente não vou encontrar nada de jeito.”
Dirigi-me à funcionária com um look gótico, literalmente pintada de negro desde o cabelo até às botas de tacão, passando por dezenas de piercings em crescente, que num cômputo geral lhe conferiam um aspecto natalício. “- Perdão, pode dizer-me onde posso encontrar peles?” Sem levantar os olhos do smartphone, respondeu em tom monocórdico “-Ao fundo, à esquerda.” Dirigi-me rapidamente para onde me indicou, passando por um penteadinho, magro e nervoso, com cheiro a vencido da vida, que se dirigia aos provadores com uma pele de galã de telenovela. Não pude deixar de sorrir.
Ali estavam, bem na minha frente, dispostas em prateleiras por tamanhos e referências. Como eu receava, estava tudo muito escolhido e nada daquilo que eu tinha em mente estava disponível no meu tamanho. Depois de remexer um pouco por todo o lado, como toda a mulher que se preza, peguei numa pele de primeiro ministro. Era peça única. Resolvi experimentar. Só no provador reparei no sarro. Por fora não estava mal de todo mas por dentro tinha borra, tantos nós a tentar atar pontas soltas e tanto engodo, que a deixavam muito enxovalhada. Nem parecia nova, caramba, tinha aspecto de coisa de adelo de 5ª categoria. Desisti dela.
Dentro do meu número, peguei noutra pele, desta feita de líder da oposição. Era confeccionada com aquelas lantejoulas reversíveis que mudam de cor conforme se passa a mão. Ou tinham um brilho apagado, ou eram estridentes como uma feira popular. Pensei experimentar, mas verifiquei que por dentro era forrada de renda de bilros. Buracos a mais para o meu gosto. Coisa apagada apesar das promessas implícitas naquela mutação de tons. Desisti dela.
Sem me querer dar por vencida, lá voltei a remexer tudo e saí para o provador com uma pele de dirigente de partido de coligação. Para além do valor do saldo, tinha ainda uma promoção de 0,648% e ofereciam um kit BDSM, com coleira, algemas, tapa olhos e uma cassete de fita. Ainda vesti, mas fazia cócegas. O forro foi-se, mas nem tinha grande espiga se o pano não fosse de uma seca incomodativa. Além disso, ficava esgarçado no pescoço naquela zona por onde os sapos costumam descer. Era uma daquelas peles mal curtidas que não resistiram bem à passagem do tempo. Mais uma que ficou para trás.
Ir aos saldos é um aborrecimento principalmente quando se tem uma ideia definida daquilo que se quer comprar. Decidi que teria seguramente que esperar mais um ano. E teria que ser madrugadora e expedita, como na história do pássaro e da minhoca gorda, se queria conseguir a pele que tanto ambicionava. Garanto que no próximo ano vai ser minha uma fantástica pele XL, com bolsinhos, e muitas contas, como compete a qualquer humilde e bom presidente de um grande clube de futebol. Superstar me.

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Cá por casa

por Pedro Correia, em 19.03.19

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31 de Janeiro

 

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3 de Fevereiro

 

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13 de Fevereiro

 

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17 de Fevereiro

 

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9 de Março

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«Tu tens tudo e estás a pedir?»

por Pedro Correia, em 27.02.19

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Um jovem - provavelmente estrangeiro, talvez estudante - toca clarinete. Na Rua 5 de Outubro, que sobe da Praça do Giraldo para a Sé. Já cheia de turistas, que demandam Évora em cada vez maior número. Estamos ainda no Inverno, mas só para efeitos de calendário: com 23 graus, inundada de sol, a capital do Alentejo respira uma Primavera antecipada. O vendedor ambulante de castanhas coexiste sem surpresa com o precoce comércio de gelados.

O jovem, aparentemente indiferente a quem passa, toca Eu Sei Que Vou Te Amar. Um vagabundo eborense, bem conhecido na cidade, passa por ele, mira com aparente desdém as quatro moedas depositadas num boné posto no chão em frente do imberbe instrumentista, e lança-lhe a pergunta retórica: «Tu tens tudo e estás a pedir?»

Dito isto, à laia de bofetada verbal, afasta-se em passo lento e de queixo levantado. Não obtém resposta. Do clarinete soam agora os acordes do majestoso final do Lago dos Cisnes, como num apelo aos transeuntes distraídos. No boné permanecem só quatro moedas, embora haja espaço para muitas mais.

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Um Carnaval cheio de Páscoas

por Pedro Correia, em 19.02.19

Não sei se já repararam: vivemos infestados de lugares-comuns.

A todo o momento somos inundados de mensagens e memes com frases feitas, insuportáveis clichês e monumentais lapaliçadas - quase sempre em "amaricano", que se tornou o idioma oficial da comunicação tecnológica.

Por isso, cada vez valorizo mais a expressão original e criativa.

Por isso, ao escutar há pouco um diálogo entre dois velhos amigos que se reencontravam na loja onde acorri em busca de víveres para o almoço, ouvi um deles rematar a conversa desta forma:

- Haja saúde e um Carnaval cheio de Páscoas.

Saí de lá com um sorriso. Que ainda não esmoreceu.

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O que mais falta

por Pedro Correia, em 05.02.19

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Pedir desculpa, pedir licença, agradecer. Três pequenas frases. Se as usássemos mais, em cada dia, daríamos um excelente contributo para melhorar a nossa vida e a relação com os outros.

Mais do que os défices financeiros que nos têm afectado, sofremos de um grave défice de ternura e simpatia. Perante familiares, amigos, colegas, vizinhos.

O mundo não precisa de movimentos insurreccionais ou revoluções: precisa apenas de pequenos gestos. Uma palavra, um olhar, um sorriso, um aceno. Parece o mais simples mas é o que mais falta.

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"Tu tens cara de ser rico"

por Pedro Correia, em 04.12.18

Estou na paragem do autocarro, chega o pedinte e atira sem rodeios:

- Tu és rico, dá-me dinheiro.

- Não tenho dinheiro nem sou rico - respondo-lhe de imediato.

Mira-me de alto a baixo, com ar intrigado, antes de repetir a frase - desta vez em tom menos imperativo.

Chamo-lhe a atenção:

- Se fosse rico, andava de Mercedes. Não estava aqui à espera do autocarro.

Ele afasta-se. Mas, depois de dar uns passos, vira-se para trás e faz questão de encerrar assim o breve diálogo:

- Olha que tu tens cara de ser rico.

Trota passeio adiante sem aguardar mais réplica, cravando outra pessoa logo a seguir.

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Códigos

por Pedro Correia, em 30.11.18

Vou ao balcão da pastelaria, peço para me embrulharem um croissant misto (sem manteiga) e um sumo. 

O empregado pergunta:

- Quer palhinha?

Detesto palhinhas. Respondo:

- Não. Palhinha está no Braga.

Ele ri, percebendo de imediato o trocadilho. Saio do estabelecimento a pensar como seria mais cinzento e baço o nosso quotidiano sem estes pequenos códigos de comunicação que tanto nos ajudam a colorir os dias.

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O acessório e o essencial

por Pedro Correia, em 20.10.18

Esquecemo-nos com demasiada frequência de que os políticos são gente comum, com qualidades e defeitos como qualquer de nós. E por vezes com dramas íntimos que merecem o nosso respeito e o nosso apoio. Reflicto nisto a propósito de Bernardino Soares, ex-líder parlamenter do PCP e actual presidente da Câmara de Loures: ele e a mulher, Marta, têm um filho que nasceu há três anos com grave insuficiência respiratória devido ao parto prematuro. Acederam agora a partilhar a história do pequeno Francisco com os espectadores da SIC, numa reportagem que merece aplauso. E que nos faz reflectir sobre a urgência da aprovação do Estatuto de Cuidador Informal neste país que tanto se ocupa com o acessório enquanto vai esquecendo o essencial.

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Complicar o que é simples

por Pedro Correia, em 28.09.18

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Compro uma embalagem de lombos de atum em conserva. Bom atum, açoriano, da ilha de São Jorge.

Reparo no rótulo da embalagem: é um modelo de correcção política. Além dos elementos básicos, relativos aos ingredientes e ao prazo de validade, sou municiado com um estendal de "informação nutricional".

Energia.

Lípidos.

Lípidos saturados.

Açúcares.

Hidratos de carbono.

Fibras alimentares.

Proteínas.

Sem esquecer o sal. 

Mas não fica por aqui. Garante-me a pequena embalagem de atum Santa Catarina que o atum foi capturado com recurso a "pesca salto e vara": não percebo o português, mas devem querer dizer que o bicho não sofreu no momento da captura. Asseguram-me que o atum é "laborado manualmente": continuo sem entender o português, mas parece algo destinado a apaziguar por antecipação a minha suposta ira contra a morte de seres vivos destinados à alimentação humana, como se eu fosse um feroz militante animalista. 

O espaço é curto, mas os dados informativos estão longe de esgotar-se. "Pescamos artesanalmente à cana" e "protegemos os golfinhos", proclama ainda a simpática indústria conserveira de São Jorge.

 

Tudo numa simples lata.

Enquanto cozinho sem peso na consciência o meu prosaico esparguete de atum com molho de tomate e cogumelos, vou pensando que, de ansiedade em ansiedade, passamos hoje o tempo a complicar o que é simples. Depois não nos sobram horas, por vezes sequer minutos, para as coisas verdadeiramente importantes. 

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Agosto em Lisboa

por Pedro Correia, em 22.08.18

Agosto em Lisboa, num bairro afastado das enchentes turísticas. Almoço periódico com dois amigos, no restaurante do costume. Afinal está fechado, "para férias" - como reza o letreiro. Tentamos o restaurante alternativo, também nosso conhecido, quase porta ao lado: igualmente encerrado pelo mesmo motivo. Faz-me alguma confusão: porque não combinarão férias alternadas os responsáveis destes estabelecimentos concorrentes?

Atravessamos a rua: em frente há outro. Este, aberto. Mal abancamos, a empregada ucraniana avisa: "Já não temos frango, nem carne de vaca." Mau indício, um restaurante deixar esgotar carne de frango. Bifana, também esgotou. Pedimos alheiras, descendo ao grau zero culinário, quase não resta alternativa. Azar para o terceiro elemento da tribo, que chega mais tarde: já não restou uma alheira para lhe matar a fome.

Sugiro-lhe, a brincar: «Pede um Cornetto. Deve haver.» Havia, sim. Foi o almoço dele.

Na fabulosa Lisboa "turística" desta segunda década do século XXI. Na Rua da Estefânia, passava um pouco das duas da tarde.

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Amor e Vistos Gold

por Diogo Noivo, em 26.07.18

Instalou-se a ideia de que Lisboa cria condições de excepção para estrangeiros europeus ou endinheirados que desejem residir na capital. Comprovei ontem que a percepção é completamente falsa. Embora, lamentavelmente, nada possa dizer sobre os endinheirados, vi que o calvário ao qual os cidadãos europeus são submetidos pela Câmara Municipal de Lisboa é pior do que aquele sofrido pelos portugueses residentes.

Apesar de qualquer cidadão europeu ter um Cartão do Cidadão ou um passaporte que atestam a sua condição europeia, Portugal exige-lhes um certificado de cidadania europeia, emitido pelo município competente. Reitero, para que não sobrem dúvidas: não se trata de um certificado de residência, mas sim de certificar que alguém com documentos oficiais emitidos por um Estado-Membro da União Europeia é, de facto, europeu. A tautologia custa 15€ por cabeça. Fui informado que “é assim em todo o lado”, embora não me recorde de ter sido obrigado a uma certificação semelhante quando residi noutros países do espaço comunitário. Adiante.

Chegados ao serviço de atendimento do município de Lisboa por volta das 10 da manhã, o número da senha, o 003, augurava um tempo de espera curto. Apenas duas pessoas à nossa frente, e uma já estava a ser atendida. Mas às 13h20 continuávamos à espera. Enquanto as senhas para tratar de outros assuntos – EMEL, execuções fiscais, urbanismo – se sucediam a uma média de onze por hora (havia tempo livre e tinha de me entreter), para tratar do certificado europeu a média era inferior a um. As pessoas entravam e saíam, enquanto nós e um simpático casal alemão olhávamos para o monitor, ansiosos pela nossa vez.

Às 14h15, quando finalmente fomos atendidos, a funcionária informou-nos que Lisboa não é o município competente (aliás, a falta de competência era evidente há mais de duas horas), mas sim um outro. Portanto, de nada serviu ter ligado na véspera para aquele mesmo serviço, ter facultado toda a informação, e me ter sido confirmado que sim, que era ali que me deveria dirigir para tratar do malfadado certificado. Valeu-nos a simpatia da pacata funcionária – que contrastava com a hiperactividade de um negreiro que por lá andava disfarçado de polícia municipal.

Moral da história: os estrangeiros só se mudam para Lisboa com Vistos Gold ou por amor à cidade – e porventura a um lisboeta. Pela competência dos serviços não é certamente.

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'Melting pot' à portuguesa

por Pedro Correia, em 15.06.18

Diz-me o merceeiro do Bangladeche, estabelecido cá no bairro há pouco mais de um ano: «Hoje vamos ganhar. Cristiano Ronaldo é o maior!»

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 19.02.18

Adolescente Prieto, ó mãe, tenho uma coisa para pedir. Então diz lá. É que lá na escola, como estamos na quaresma, não fazem pão com chouriço à sexta. Ai sim? Pois, em vez de pão com chouriço, fazem pão com Nutella. E é tão bom, mas tão bom, mãe. É um granda pão, assim cheio de Nutella. Queria pedir-lhe se na próxima sexta feira posso levar dinheiro para comprar seis pães, mãe. Assim, todos os dias levava um para comer na escola.
E eu ah e tal, que Cristão e tal.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 22.01.18

Recebo por SMS:
"A Medicare acompanha os Seniores de Portugal
O Goucha ja aderiu e voce esta a espera de que?"
Não sei o que responda. Se começo pelo Senior, se pelo Goucha.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 16.01.18

blá, blá, blá, blá, ó mãe, a minha amiga tal de tal, quando se zanga fica rude. Rude mesmo, mãe. E eu, ai sim, então e tu, Rita, quando te zangas, como é que ficas? E ela, eu fico raivosa e agressiva, mãe. Raivosa e agressiva, mas não fico rude. E eu, enfim, muito mais descansada. Pelo menos não fica rude.

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Da Lua Cheia

por Bandeira, em 06.10.17

O meu bairro, democrata leitor, madrugou com tanques bloqueando-lhe as ruas. O pretexto oficial, esfarrapadíssimo, consiste num desarrazoado sobre a necessidade de lhe deitar fumegante alcatrão nas vias. “Vai demorar uns diazinhos”, informa o guarda com um sorriso que me parece oscilar entre o solidário e o escarninho, consoante se sente mais povo ou mais Autoridade. Adivinho vingança do presidente da Câmara: caiu nas eleições. Que vou eu fazer agora? Preso a cem metros da praia em pleno Outubro, com um tempo que lembra Agosto e as esplanadas fervilhando? Uma Coreia do Norte, é o que isto é, uma Coreia do Norte.

Adenda:

Reconsiderei os motivos que levaram a Câmara que preside aos destinos do meu bairro a fechá-lo para repavimentação e beneficiamentos vários. Fez-se (literalmente) luz quando ontem, noite caída, contemplei da janela a lua cheia que passava já acima do tabuleiro da ponte, áurea e colossal primeiro, branca e mais recatada depois, banhando com argentina luz o Mar da Palha: ela subia para mim. Assim a Câmara, os funcionários, a paróquia em peso. Como Madonna em Lisboa, resido aqui não há ainda meia dúzia de meses; alguém, do IRN, da Junta, do Clube da Sueca, que sei eu, espalhou palavra: e em conluio determinou-se que se alindaria o arredor para melhor me receber. Como pude não o ter percebido antes? Saio à rua passando, com um sorrisinho cúmplice, pelos calceteiros que neste preciso momento alegram com os seus martelinhos (os deles) a notável sinfonia das retroescavadoras, dos cilindros e dos sinais sonoros prevenindo velhotas surdas contra uma qualquer marcha atrás. Sem jeito, eles fingem má cara. Como tudo isto é divertido! Faço má cara eu também, pisco-lhes o olho e vou tomar uma bica, fingindo, fingindo sempre que não sei que me amam e que estão felizes por me saberem aqui. É bem verdade quando dizem que, neste século XXI, eu é a pessoa mais importante do mundo.

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Outros quatro a ler no metro

por Pedro Correia, em 05.09.17

Entro na carruagem do metro, são quase 19 horas. A habitual multidão do fim da tarde: quase toda a gente - excepto turistas - de cabeça para baixo, mergulhada nos ecrãs dos telefones a que chamamos inteligentes apesar de fazerem de nós estúpidos. Questiono-me quantas destas pessoas alheadas de quem as cerca perdem tempo a ver vídeos de gatinhos ou a ler piadolas alarves ou a aprofundar "todos os pormenores" que jamais quiseram saber sobre celebridades da treta.

Aproveito para abrir o livro que por estes dias me acompanha. São seis estações até ao meu destino: à média habitual, dá para avançar umas dez páginas. Aproveitando todos os momentos disponíveis ao longo de fragmentos do dia, consegui ler 44 livros completos desde o início do ano até ao fim de Agosto. Era uma aposta muito pessoal para 2017: igualar ou superar agora enquanto leitor o ritmo veloz dos meus tempos de adolescente e jovem adulto, quando cheguei a ler 72 no ano em que passei dos 17 aos 18.

 

Guardo na mochila o Equador, de Miguel Sousa Tavares (sim, é deste romance que se trata), quando se anuncia a estação onde vou sair. E reparo então que nos lugares circundantes vão quatro pessoas também a ler. Duas mulheres, dois homens: paridade absoluta.

O que lêem elas? A Rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami (edição Casa das Letras), e Filhos da Fortuna, de Jeffrey Archer (Europa-América).

O que lêem eles? A Game of Thrones, de George RR Martin (um paperback na versão original), e O Islão Político Ontem e Hoje, de John Owen (Bertrand).

 

Não deixo de sorrir: eis quatro parceiros de carruagem totalmente desconhecidos e que talvez nunca volte a ver mas a que me sinto de imediato ligado por um inesperado elo de cumplicidade.

Somos poucos mas não deixamos de remar contra a maré dominante, transformando o transporte de um livro num singelo acto de resistência. Demonstrando aos outros e a nós próprios esta evidência: é possível escapar ao vício dos telemóveis que cada vez mais nos uniformiza no espaço público.

Por mim, continuarei. Até ao fim deste ano e no outro que vier. Sem unicidade, sem uniformes, sem vídeos de gatinhos. Como escreveu o poeta, "só vou por onde / me levam meus próprios passos".

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A mercearia reabriu

por Teresa Ribeiro, em 30.05.17

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Depois de uns dias fechada, com uma cruz na porta, a pequena mercearia reabriu, com os mesmos caixotes de fruta no passeio. Tudo igual, excepto a roupa da velhota, antes indistinta, agora uma mancha negra a assombrar pêssegos e limões. Ela e o marido, em guerrilha permanente, eram tema de piadas no bairro. As quezílias diárias deixavam-lhe o olhar velado, carregado de azedume e a ele uma expressão de enfado impossível de disfarçar. Para o cenário trivial de uma mercearia de bairro era drama em excesso, daí ter tanta graça aquele desconcerto a dois. 

O azedume dos olhos dela, por estes dias, desfez-se em tristeza. Todos comentam que de repente ficou uma sombra da mulher que foi. Amar um traste pode ter-lhe envenenado a vida, mas amar um desertor está a matá-la de vez.

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Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

por Helena Sacadura Cabral, em 10.05.17

A rotina era sempre a mesma. Saía de casa mal amanhado e ia para o jardim do Principe Real. Agora nem isso, aquilo estava transformado num pandemónio, nem o seu banco lhe deixaram, tão atafulhado aquilo estava. Nem sei porque é que para aqui venho pensava enquanto apertava a banda do casaco, que a manhã estava fria. Era a Lisete que o levava ali. A Lisete quando era viva, pois fora naquele banco de jardim que a conhecera. Ela tinha-lhe sorrido e foi esse sorriso que os havia de juntar. Tanto amor. E o José era a prova, não se lembrava de quando é que o vira, mas sabia que ele estava bem, porque senão alguém havia de lhe dizer que ele estava mal. 

A tosse, esta maldita tosse, que viera com o fim do tabaco, mas ao preço a que ele estava, como não deixar de fumar? Fora isso que o médico do Centro de Saude lhe tinha dito, que não havia dinheiro para vícios. 

Lá estava o banco cheio de embrulhos, paciência, ia-se sentar no da frente. A Lisete havia de gostar de saber que ele continuava a ir ao jardim dela. Mas este banco apanhava sol e ele queria mesmo era sombra. Sombra? Sombra que bastasse tinha ele lá no quartito onde vivia. Apesar disso, não se mexeu. 

Para quê mexer se daqui a bocado o sol vira sombra, era o que lhe diria a Lisete que já explicara isso ao filho. Será que o Zé também terá explicado o mesmo ao filho dele? Como é que o miúdo se chamava? Parece que era Bernardo, mas que nome mais esquisito. Mas ele não conhecia o garoto, por isso não tinha que o chamar. Se a Lisete fosse viva havia de saber chamá-lo, mas talvez esteja enganado. Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

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