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Delito de Opinião

O método Costa

Pedro Correia, 03.03.21

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País legal e país real: uma vez mais, percebi como pode ser abissal a diferença entre uma coisa e outra. No sábado, que amanheceu soalheiro, as ruas, praças e jardins do meu bairro - Alvalade, em Lisboa - encheram-se de gente. A conviver, a "apanhar ar", a deter-se nos passeios, a espreitar as montras. A passear cães sem trela e trelas sem cães.

Acumulavam-se pessoas à porta dos mais diversos estabelecimentos: hipermercados, frutarias, papelarias, charcutarias, restaurantes a vender para fora, lojas de produtos para animais. Em ambas as entradas que dão acesso ao mercado, o melhor da capital, as filas agigantavam-se. 

O trânsito automóvel era contínuo. E frenético. Como numa vulgar manhã de fim de semana antes da pandemia. 

Uma amostra bem ilustrativa do que se passou no conjunto do País: nesse dia, cerca de quatro milhões de portugueses saíram à rua. Na véspera, tinham sido seis milhões.

Mandando às malvas o "dever cívico de recolhimento".

 

Enfim, um perfeito contraste entre o Portugal da propaganda e o Portugal que teima em antecipar-se ao Governo. Há um ano, enquanto António Costa hesitava sobre o rumo a seguir, as pessoas fechavam-se em casa, os pais retiravam os filhos das escolas, muitas empresas incentivavam os trabalhadores a optar pelo teletrabalho. Agora, fartos do "confinamento" pseudo-obrigatório, os portugueses saem de casa e deambulam por aí sem que ninguém os trave.

Ninguém diria que estávamos - e ainda estamos - em estado de emergência. Isso é pura ficção para entreter incautos e emitir mensagens "tranquilizadoras" nos telejornais. 

Dentro de dias, o Executivo fará o que fez em Março de 2020: ir a reboque da população. Desta vez em sentido inverso. Limitando-se a pôr chancela oficial no facto consumado.

É um método de governar. O método Costa.

 

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Pânico no supermercado

Pedro Correia, 15.02.21

Início da tarde, num dos supermercados do bairro de Lisboa onde moro. Estou na fila para pagar. Uma fila composta só por duas pessoas. Lá adiante, na caixa, um terceiro cliente. Paro a quase três metros da mulher que se encontra antes de mim. Tem quarenta e muitos. 

Ela vira-se de imediato e dispara, em tom agressivo:

- Não se importa de chegar mais para trás?

Respondo perguntando, como sempre faço:

- Recuar para quê?

- Ainda pergunta? Não está a cumprir a distância de segurança. 

- Estou, estou. Mas já que se sente tão incomodada, avance. Tem imenso espaço aí à sua frente.

Ela começa a falar quase aos gritos, atraindo atenções.

- Outro atrasado mental! É por isto que quase não saio de casa, para não aturar estes atrasados mentais!

De máscara na cara, como a etiqueta sanitária impõe, mantenho-me impávido. E só lhe digo, em tom normalíssimo:

- Não baixe o nível. E fale pouco, para não espalhar o vírus.

Ela solta uma espécie de grito e abandona o carrinho que empurrava. A caixa fica desimpedida. Avanço para lá sem mais demora.

Desistiu das compras, vejo-a falar com um segurança à entrada do supermercado, gesticulando imenso e apontando na minha direcção antes de desaparecer no horizonte. Ele ouve-a sem esboçar a menor reacção.

Pago e arrumo as escassas compras. Passo pelo segurança e pergunto-lhe:

- Algum problema?

Diz ele, com um esgar em jeito de sorriso:

- Todos os dias aparece aqui gente muito nervosa. Cada vez mais. Pessoas que passam muitos dias fechadas em casa e ficam em pânico quando vêm à rua.

 

 

Portugal, mês XII da pandemia: retrato do nosso triste quotidiano. Nada de bom sairá daqui.

Sem cinema nem futebol

Pedro Correia, 07.10.20

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Jeanne Moreau em La Baie des Anges, de Jacques Demy

 

O nosso João Campos deu-me uma boa notícia: o cinema sem pipocas vai resistindo como pode no circuito de exibição em Lisboa, mesmo em tempo de pandemia.

Eu há sete meses que não o frequento.

Desde o ciclo Carta Branca 2020 a Jorge Silva Melo, na Cinemateca, no início de Março.

 

Ainda o aproveitei como pude.

No dia 2, revi a fabulosa Carmen Jones (1954), de Otto Preminger.

No dia 5, vi pela primeira vez um interessantíssimo filme de Carol Reed passado em Belfast, com o conflito anglo-irlandês em fundo: Odd Man Out (de 1947, com James Mason), já com muitos elementos estéticos que prenunciavam o magnífico O Terceiro Homem, rodado em Viena dois anos depois.

Vi ainda La Baie des Anges (1963), de Jacques Demy, com a magnética presença de Jeanne Moreau. Extraordinária actriz que sempre me fascinou.

 

Foi a 9 de Março, uma segunda-feira. Na véspera, tinha ido ao futebol, no estádio do meu clube, ver o Sporting-Aves - estreia do treinador Rúben Amorim em Alvalade.

 

As escolhas de Silva Melo pareciam excelentes, o ciclo prometia muito: infelizmente, ficou amputado pela pandemia.

Deixei de frequentar salas de cinema, até agora. E continuo impedido de frequentar estádios de futebol.

 

Tanta coisa tem mudado nas nossas vidas desde então. Também isto. Parecem detalhes, mas não são.

«Dê a pata, não seja mau»

Pedro Correia, 28.09.20

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Até há poucos anos, era padrão corrente o excesso de formalismo no modo como as pessoas se dirigiam umas às outras na televisão. Recordo uma entrevista conduzida por Judite Sousa na RTP em que a jornalista tratou cerca de trinta vezes o seu convidado por sôtor. Sem ninguém a ter advertido, antes ou depois, que duas vezes já é de mais.

De repente, passámos para o extremo oposto. Hoje quase toda a gente se trata por tu. Ontem à noite, uma dessas jovens certamente mal pagas mas com "bom visual" postas à frente da pantalha para apresentar alegados espaços informativos tratava por tu um convidado com idade para ser seu avô enquanto este resistia à tendência, tratando-a respeitosamente por você

São sinais dos tempos. Por óbvia importação da televisão americana, onde as formas de tratamento "igualitário" se tornaram de uso corrente, facilitadas pela inexistência de diferença entre tuvocê (you, em ambos os casos) no idioma inglês.

 

Acho muito bem que se desengravate a linguagem. Andámos demasiado tempo amarrados a pompas retóricas, em parte relacionadas com supostos graus académicos de que se usava e abusava nas formas de tratamento verbal. Hoje nem no Parlamento se emprega a antiga excelência, salvo para uso sarcástico. 

Mas há o risco de cair no exagero contrário. Reparem, uma vez mais, no que sucede nas televisões: quase todos os intervenientes num debate ou numa entrevista se tratam hoje pelo nome próprio. Como se fossem velhos conhecidos e estivessem a dialogar em ameno convívio nos sofás lá de casa. Também aqui por óbvio mimetismo dos EUA.

Já temos o "Presidente Marcelo", as bloquistas Catarina e Marisa, o comunista Jerónimo e até o cê-dê-esse Chicão. Nisto o partido fundado por Freitas do Amaral e Amaro da Costa tornou-se precursor: não tarda muito, teremos a proliferação dos diminutivos (embora Chicão pretenda ser aumentativo). Uma vez mais, seguindo o exemplo dos States, onde já houve um presidente chamado Jimmy e outro chamado Bill - que assinavam assim até em documentos oficiais. Não custa vaticinar que também por cá surgirão um Jaiminho ou um Gui na caça ao voto.

 

Enquanto isto sucede, inversamente, a forma de tratamento dos animais torna-se mais solene, grave e reverente. Verifico isso agora com frequência, quando caminho nas ruas do meu bairro. Não faltam damas e cavalheiros a tratar por você os cães que levam a passear, o que para mim constitui novidade absoluta. Nunca tinha ouvido nada semelhante, nem na Lisboa mais snobe.

«Sente-se aí, dê a pata, não seja mau, mostre como é bonito.» São exemplos de frases que vou escutando, reveladoras da fulgurante ascensão canídea na hierarquia urbana deste nosso século XXI. Por vezes atrevo-me pensar que anda tudo um bocado às avessas. Mas é capaz de ser defeito meu, por absoluta incapacidade de acompanhar a marcha imparável do progresso. 

Como qualquer de nós, vou-me adaptando. Há dias, pedi ao canário: «Canta para mim, Caruso.» Mas logo emendei: «Cante para mim.» E ele cantou.

Três em um

Pedro Correia, 15.09.20

1

Foi impressão minha ou nesta Feira do Livro que anteontem terminou em Lisboa as jovens que atendiam nos pavilhões das editoras foram escolhidas pela beleza ocular? Nunca vi tantos olhos azuis e verdes, ainda mais em evidência devido à máscara obrigatória que todos ali usávamos, vendedores e clientes. Pode ser coincidência, claro. Mas há muito que deixei de acreditar em coincidências.

 

2

Reparo num número crescente de mulheres, ainda jovens, exibindo cabelos brancos sem constrangimentos nem complexos. Efeitos do confinamento, do teletrabalho, das longas semanas com salões de cabeleireiro encerrados. Fazem muito bem. É tempo de todos descobrirmos (a começar por elas) que os cabelos brancos nada afectam a sensualidade feminina. E podem até acentuá-la. 

 

3

Comprei já não sei o quê, numa loja em Lagos, e reparei na jovem que me passava o troco: sorria com os olhos. Felicitei-a por isso: cada vez menos gente partilha sorrisos - e, nesta circunstância, ter a capacidade de sorrir com os olhos é um dom precioso. Um dom que devíamos desenvolver nestes dias de rostos ocultos pela uniforme expansão das máscaras. Custa menos do que parece.

Até sempre, Barata

Pedro Correia, 29.05.20

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Sou há muitos anos cliente assíduo da Livraria Barata, na Avenida de Roma. Tenho até cartão de cliente, que permite um desconto residual em livros, de que ali me abasteço regularmente. Também nesta livraria lisboeta habituei-me a comprar com regularidade imprensa estrangeira há quase década e meia.

Desde que foi declarada a pandemia, a Barata fechou - como aconteceu com todos os estabelecimentos do ramo, que já atravessavam uma severa crise antes de o Presidente da República e o Governo - sabe-se lá porquê - terem considerado que as livrarias não mereciam ficar abertas durante o "estado de emergência". Ao contrário dos quiosques, das mercearias e das tabacarias. 

Na altura, não ouvi um sussurro de protesto dos chamados "agentes culturais". Todos acenaram, em sinal de concordância.

 

Entretanto, a Barata reabriu.

Acontece que desde então já tentei duas ou três vezes, mas ainda não consegui lá entrar. Motivo? Embora tenha uma área muito grande, só permitem um máximo de dez pessoas dentro do estabelecimento.

Em pelo menos duas ocasiões vi uma fila à porta, estendendo-se para o passeio: gente forçada a usar máscara, aguardando à torreira do sol, suando em bica, com notório desconforto.

Disse logo com os meus botões: nem pensar em aturar isto. E rumei a outras paragens.

 

Hoje, ao fim da manhã, tentei uma vez mais - talvez a última - entrar na Livraria Barata.

Não vi nenhuma fila à porta, fui avançando. Deparo-me então com o Presidente da República, mais a respectiva comitiva, acrescida de um batalhão de jornalistas. Todos juntos, perfaziam mais do dobro do limite máximo de pessoas estipulado. As regras "rigorosíssimas" haviam sido mandadas às malvas.

Disseram-me que Marcelo Rebelo de Sousa estava ali para "declarar o apoio" à livraria, que enfrenta sérias dificuldades de tesouraria, sem saber se conseguirá pagar os salários neste fim de mês. Aplaudo a generosidade do Chefe do Estado. E espero que Marcelo faça o mesmo com milhares de outras empresas deste país onde muita gente trabalha sem ver a remuneração a que tem direito. Pelo mesmíssimo motivo.

 

Tudo isto é muito bonito. Acontece, no entanto, que voltei a ver-me impedido de ali entrar. Escorraçado pelo sol, pelas filas, pelas absurdas regras de "confinamento" e hoje até pelo Presidente da República mais a sua comitiva.

Sem acesso à livraria, rumei ao talho mais próximo, onde me abasteci de imediato com 600 gramas de entrecosto, e vim para casa preparar o almoço. Despedindo-me da Barata, por prazo indefinido. Com um até para o mês que vem ou um até nunca mais, não faço ideia.

Há sempre um fim para tudo.

O único ponto de vista

Maria Dulce Fernandes, 22.05.20

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Por volta dos meus 35 anos, tinha o cabelo mais branco do que a minha mãe e era senhora para “uns quarenta e tal", de acordo com a opinião geral das pessoas que comigo privavam, mesmo que fosse por alguns minutos. Tenho ideia de uma reportagem da BBC que produziu os respectivos agradecimentos, e em que elogiavam a Dulce como “a smashing old girl". Tinha 40 anos. Nesse mesmo ano, a minha filha entrou para a Faculdade de Letras e pediu-me um presente para comemorar o acontecimento. Pediu-me que pintasse o cabelo. Gostei de pintar com madeixas. Ficou bem. Deixou-me mais leve, talvez com menos 5 anos em cada perna, mas também apreensiva por ter sido influenciada por opiniões alheias, porque nunca fez muito o meu género. De um momento passei de parecer dez anos mais velha a parecer 10 anos mais nova. Isto requeria muita atenção, não me fosse tornar na segunda D. Maria Alpalhão, que parou nos 50 anos, de tal modo que o próprio filho chegou ao ponto de lhe ganhar por quase seis anos em idade.
Durante 16 anos fui escrava da tinta. É que não tinha volta a dar à maldita raiz! Ou pintava, ou ficava com uma bandolete branca que ao longe dava a ideia de uma cabeça partida e enfaixada. Era feio, dava a ideia de desmazelo, de relaxo, de enxovalho. Um dia o cabeleireiro ia tendo um chilique quando lhe disse que cortasse até a tinta sair toda. Tinha três dedos de cabelo branco. Esteve meia hora a convencer-me que para ficar com corte ficava à pente 4, o que seguramente iria odiar depois. Talvez tivesse razão, mas ficou a promessa de que o faria quando nascesse a minha neta. Foi doloroso de ver, mas pronto. Acabou-se a tinta. Cabelo curto, bob, sei lá, mas sem outra cor que não a própria.
Sempre fui uma pessoa aberta a ideias, ideais, opiniões, debato mas aceito os pontos de vista dos outros, porque Deus nos livre da mentalidade de carneirada. Mas no que toca a colorações capilares, era finca-pé aquela conversa troca-tintas e manter o único ponto de vista válido, assertivo e exacto, o meu.
Ao fim ao cabo, com tinta ou sem tinta, a idade acaba sempre por nos apanhar.

Diário do coronavírus (10)

Pedro Correia, 15.05.20

 

Os restaurantes reabrirão na próxima segunda-feira. Não todos: cerca de um terço permanecerão fechados. Os proprietários decretaram falência, não aguentaram dois meses sem receitas, recusam acumular mais prejuízos. Porque, mesmo com a reabertura agora anunciada, os tempos serão muito difíceis. As pessoas desabituaram-se de comer fora e mantêm sérios receios sobre o rumo da pandemia. Quem não arrisca, não petisca - diz o ditado. Aqui é ao contrário: muitos dispensam o petisco, continuarão sem arriscar.

Tenho-me questionado, por estes dias, como será angustiante o quotidiano daqueles (ou daquelas, usemos o léxico em voga) que não cozinham. Conheço gente que não sabe estrelar um ovo, que é incapaz de fritar um bife, que ignora como se coze arroz. Nas filas das caixas de supermercado (soa já a antigo escrever assim), habituei-me a identificar as pessoas que cozinham por aquilo que compram. Se levam carne, peixe, ovos, legumes frescos - isso constitui um sério indício de que não se atrapalham entre panelas e frigideiras. Quem só leva latas e comida pré-confeccionada, evidencia elementar falta de perícia na cozinha. É o caso de muita gente jovem. Incluindo um número crescente de mulheres, algo impensável em gerações anteriores. 

 

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Se algo me trouxe de bom este já longo período de reclusão imposta pela força das circunstâncias, foi a redescoberta do prazer de cozinhar. Que inclui a planificação de ementas e a aquisição de víveres em função delas, além da preparação dos pratos em contínuas experiências culinárias para sacudir a modorra da rotina. Experiências bem-sucedidas, devo confessar com um grão de orgulho. E devidamente recompensadas, desde a fase em que irresistíveis odores vão invadindo a cozinha até ao momento em que a travessa chega à mesa. 

 

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Como já me puxa ao apetite enquanto escrevo estas linhas, apetece-me recordar aqui algumas das iguarias que tenho confeccionado com mais frequência nestas nove semanas sem frequentar restaurantes. 

 

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            Arroz de chouriço                                           Caldeirada de raia

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               Espargos, presunto e ovos                                 Frango com mostarda e vinho do Porto

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           Massa com requeijão e cogumelos                    Ovas com pimentos e  milho doce

 

Acompanhei-as, por vezes, com leituras. De escritores gastrónomos, como Rex Stout ou Vásquez Montalbán. Ou Mario Vargas Llosa, que faz reiteradas e sempre entusiásticas referências à boa mesa. Já para não falar em vultos da nossa literatura, como o incomparável Aquilino Ribeiro, que se regalava com um petisco bem confeccionado, empurrado por pinga a preceito.

Aqui ficam três citações, com a devida vénia, ao mestre que nos legou monumentos à língua portuguesa e expressivas homenagens à arte culinária:

De Quando os Lobos Uivam: «Filomena tinha-lhes um bom caldo de grão-de-bico adubado com pespé de cerdo e uma arrozada de coelho bravo. Comeram-lhe bem, beberam-lhe melhor.» (p. 95).

De Volfrâmio: «Na trempe, como muito bem calculara, frigia uma boa febra de porco com fígado do mesmo, o fígado do suíno beirão que é melhor que de vitela e se dissolve formando um molho sobre o grosso que é o regalo dos regalos.» (p. 221)

D' A Casa Grande de Romarigães: «Desde esse momentinho entregaram-se gostosamente à tasquinhação. O Lopes Calheiros trazia um lombo de vinha d'alhos, que era a primeira maravilha do Minho gastronómico. E estavam discorrendo sobre receitas culinárias - não há como o arroz de lampreia, se lhe adicionarem uma colher de manteiga de pato; uma posta de salmão com salada de alface e rodelas de cebola tenra vale um ano de Paraíso, hem, Padre Tirteu? Deixem lá, perdiz com couve murciana fermentada bate todos os petiscos inventados e por inventar.» (pp. 260-261)

 

Grande Aquilino: depois dele, e de Agustina, quase só encontro escritores enfastiados cá na terra. Matutam imenso, mas manducar não é com eles.

Ora vão por mim, caríssimos: fastio, nem vê-lo: haja apetite, haja saúde. E que o vírus se mantenha à distância. 

Diário do coronavírus (8)

Pedro Correia, 13.04.20

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Churchill com Isabel II em 1955

 

Fez na Sexta-Feira Santa um mês que, como tantos de nós, entrei em reclusão doméstica voluntária. Como tantos de nós, cidadãos comuns, que nos antecipámos à tardia decisão do Governo de encerrar creches e escolas, restringir ao mínimo os contactos sociais e suspender as deslocações diárias entre casa e trabalho, sem necessitarmos de ver os movimentos tolhidos pela declaração do estado de emergência.

Ainda o Presidente da República e o primeiro-ministro distribuíam beijinhos e abracinhos numa sessão pública no Porto que nunca deveria ter ocorrido, para assinalar o centenário do Teatro de São João, e já milhares de portugueses agiam com a noção exacta dos riscos do novo coronavírus, classificado a 11 de Março como pandemia mundial pela OMS.

 

Relembro já com nostalgia aquela aparente normalidade que precedeu a clausura. No dia 6, congreguei o meu clã leonino num jantar de blogue. Dois dias depois, um domingo, visitei o estádio José Alvalade pela última vez, testemunhando ao vivo a primeira (e única) vitória do novo treinador, Rúben Amorim. Ao fim da tarde de 9 de Março, fui ao cinema: sala despida, como tantas vezes acontece. A partir daí, isolamento. 

Saio só para meia hora diária de passeio higiénico e para renovar ocasionalmente a despensa, sempre em doses moderadas. Perplexo ao ver tanta gente empurrando carrinhos de supermercado a transbordar de compras ou a atulhar bagageiras com garrafões de água mineral. Questiono-me aliás qual será a necessidade de adquirir tanta água engarrafada quando temos felizmente acesso a água canalizada de inegável qualidade, ao contrário do que sucede em mais de metade das nações do globo.

 

Mudei hábitos quotidianos, à semelhança do que aconteceu com tantos de nós. Usar sempre a escada em vez do elevador, por exemplo. Ou limpar o telemóvel com um pano húmido ao chegar a casa e utilizá-lo só em casos de absoluta necessidade quando estou na rua. Outros, que mantenho há muito, começam agora a ser adoptados pelos vizinhos, como confirmo ao passar nos vários patamares do prédio: sapatos à porta de casa, nunca entrar com o calçado da rua. Sorrio ao lembrar-me que os meus vizinhos chineses, em Macau, já procediam assim no início da década de 90.

Sorrio menos ao lembrar-me de declarações insensatas de responsáveis políticos. Do Presidente da República, por exemplo, que naquele seu estilo muito próprio opinava a 25 de Fevereiro: «Fechar fronteiras é impossível. Se alguns países acham que é possível fechar fronteiras, o que estão a fazer é controlar algumas pessoas nas fronteiras.» Ou do primeiro-ministro, que a 11 de Março, já com muitas escolas privadas e diversas universidades encerradas de moto próprio, ainda hesitava: «Sabemos bem que encerrar uma escola tem um efeito muito perturbador na vida das famílias. Só podemos e só devemos fazer na margem que for o estritamente necessário.» Transmitindo um sinal errado a uma sociedade que já andava no passo certo.

 

Infelizmente passámos desta lassidão oficial para o campo oposto - a do excesso de zelo. Vejo agora membros das corporações policiais a interpelar cidadãos solitários que caminham em alamedas, jardins ou praias, respeitando a distância sanitária sem perturbar seja quem for. Dizem-me que por esse país fora há agentes da autoridade e até funcionários autárquicos de megafone em riste a mandar para casa pessoas que cumprem o indispensável período quotidiano de exercício físico diário, que é também um tónus psicológico. Como alertou o professor Daniel Sampaio, o isolamento social, associado ao receio de contrair Covid-19, terá efeitos graves na saúde mental dos portugueses.

A exibição desta musculatura autoritária é inaceitável. Tal como as medidas de drástico confinamento colectivo decretadas à la carte por sucessivos autarcas à revelia do poder central ou as imagens de um drone berrando «Fiquem em casa» sobre um passeio marítimo sem ninguém a circular. E nem vale a pena mencionar os patéticos palpites dos tudólogos que se apressam hoje a dizer que as medidas restritivas em vigor só deverão ser levantadas no dia em que os contágios se reduzirem a zero. Alguns, não há muito, achavam tudo isto um manifesto exagero: tornaram-se mais papistas do que o Papa.

 

Esta gente que a falar ou a decretar passa do oito para o oitenta com uma leviandade de bradar aos céus não tem noção do país em que vive nem do comprovado civismo de um povo que, em situações de calamidade, já demonstrou maior maturidade e sentido do dever cívico do que muitos decisores políticos ou incontáveis "líderes de opinião". De um povo que tem respeitado com serenidade as drásticas reduções ou suspensões de direitos (direito de reunião, direito de manifestação, direito à greve, direito à resistência) e liberdades (liberdade de circulação, liberdade de emigração, liberdade religiosa). Mesmo angustiado com o dia de amanhã e com o mês seguinte. Mesmo ignorando se haverá trabalho quando a pandemia amainar. 

Nestas ocasiões, para relativizarmos os problemas, convém revisitar quem passou por muito pior e as lições de vida que soube incutir-nos. Alguém como Churchill, que chegou a ser o político mais solitário do planeta em defesa da liberdade perante o avanço da artilharia totalitária. «Um optimista vê uma oportunidade em toda a calamidade, um pessimista vê uma calamidade em toda a oportunidade», dizia este admirável resistente.

Tentemos aprender com ele.

Diário do coronavírus (6)

Pedro Correia, 03.04.20

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Estado de emergência? Que estado de emergência? Há um mês que não via tanta gente na rua. E até o famigerado "estacionamento em segunda fila" - nome elegante para parqueamento selvagem, à margem das regras - regressou à Avenida da Igreja, como se estivéssemos num filme a andar para trás.

Operários executam obras na via pública, em atmosfera de estrita normalidade e sem o menor respeito pela regras de distância sanitária em vigor. Os cordões higiénicos que a Câmara Municipal de Lisboa decidiu colocar há dias, da noite para a manhã, foram arrancados em todos os bancos de jardim e de rua por onde circulo, não faltando pessoas ali sentadas, algumas até em amena cavaqueira.

Vejo muito mais transeuntes de máscara. Mas abunda quem não saiba ou não queira usar as ditas como deve ser. Uma senhora comerciante está de máscara 3M, mas mantém o nariz de fora. Chamo-lhe a atenção para o facto. Resposta pronta: «Tenho de estar assim, senão falta-me o ar e nem consigo respirar.»

 

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Emergência à portuguesa, pois. Uma para consumo oficial, plasmada nas palavras solenes e graves do Presidente da República e do primeiro-ministro. Outra, a do País real - que salta à vista nesta sexta-feira que antecede a mais insólita Semana Santa das nossas vidas. 

Encontro aberta uma loja de reparação de electrodomésticos. Anoto os contactos. Dá imenso jeito numa fase destas, de reclusão sine die. Se nos avaria um fogão, um frigorífico, uma máquina de lavar ou até um esquentador ficamos com o quotidiano doméstico virado do avesso e a quarentena forçada torna-se ainda mais penosa. 

 

Dizem-me que a partir de agora haverá "controlo rigoroso" da aplicação das normas decretadas pelo Chefe do Estado e especificadas pelo Governo - com coimas e até detenções por crime de desobediência neste tempo de supressão de direitos em atmosfera de quase unanimidade nacional. Incluindo o exercício dos direitos constitucionais à greve e à resistência, tornados letra morta pelo menos até 17 de Abril. Sendo previsível que a anómala situação em curso, superiormente justificada pelo combate à pandemia, seja prorrogada pelo menos mais uma vez. E outra. E talvez outra ainda.

Só me interrogo sobre a falta de coerência evidenciada pelo Governo, que por um lado endurece o discurso, ameaçando com detenções, e por outro abre as portas dos estabelecimentos prisionais, alegadamente para evitar a propagação do coronavírus lá dentro: os cidadãos que a partir de agora forem detidos beneficiarão também de perdão de penas, de um regime especial de indulto e da antecipação da liberdade condicional, à semelhança do que sucederá com cerca de 10% da actual população prisional?

Interrogo-me ainda se estas medidas, que a ministra da Justiça justifica por serem «fundamentais para proteger a saúde dos reclusos e de todos os que exercem funções no sistema prisional», não deveriam aplicar-se, por maioria de razão, aos impropriamente chamados "lares de idosos", onde já se registam centenas de casos de Covid-19. Que lógica nos leva a soltar delinquentes enquanto mantemos os velhos em reclusão ao abrigo da mesma emergência sanitária?

Diário do coronavírus (5)

Pedro Correia, 29.03.20

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Saio de casa para uma longa volta a pé. Cerca de uma hora a desentorpecer as pernas. Curioso: noto mais gente na rua agora, que vivemos em estado de emergência, do que naqueles dias de reclusão voluntária, antes de ser emitido o decreto presidencial. Se não é, parece. Também o tráfego automóvel aumentou a olhos vistos. Para alguns portugueses, o "exercício físico" esgota-se nos passos que dão para chegar ao carro. 

Há várias mudanças visíveis aqui no bairro - desde logo o encerramento de grande parte dos estabelecimentos comerciais. Outros, como a emblemática geladaria Conchanata, só vendem para fora. Noto, pela primeira vez desde o início da crise sanitária, um par de farmácias sem clientes à porta. Vejo enfim gente nas varandas - algo impensável até há poucas semanas nestes bairros burgueses de Lisboa que mantêm uma relação esquiva com a rua.

Vão surgindo letreiros nas fachadas dos apartamentos, anunciando que estão para arrendar. Há pouco mais de um mês havia enorme pressão da procura, fazendo subir os preços no mercado de arrendamento. Agora a pressão ocorre em sentido inverso. Como as coisas mudam...

 

As pessoas vão reformulando hábitos enraizados. Liga-me um amigo distante, cuja voz é sempre bem-vinda mas há muito não escutava. Lembrou-se de fazer um telefonema por dia a antigos companheiros de várias lides - hoje tocou-me a vez. Palramos mais de meia hora ao telemóvel. Felicito-o pela iniciativa. Vale a pena ser replicada. 

Oportunidade também para pôr leituras em dia. No meu caso, continuando a revisitar autores portugueses do século XX - quase sempre com grande proveito, no capítulo estético e no domínio das ideias. Um destes livros é o magnífico O Malhadinhas, de mestre Aquilino, com a sua saborosíssima e original linguagem vinda dos confins de um Portugal que já morreu: «O bicho homem, quem quer que seja e o quer que faça, tem sempre consigo a mesma peçonha. E esta peçonha sabes o que é? É nunca estar contente com a sua sorte. Quanto mais tem mais apetece, deseja e torna a desejar para logo ou amanhã aborrecer. Como não há-de cansar-se da vida nesta alcatruzada de aborrecer e desejar?»

 

Na minha caminhada matutina, vejo algo inusual: alguém a transportar um gato pela trela. Conheci em tempos um cavalheiro, ali para as bandas do Liceu Camões, que todos os dias dava uma volta assim com o seu tareco. E em Tavira há outro, que até já fotografei. É curioso ver os bichanos domésticos imitarem com tanta fleuma felina os seus rivais canídeos nestes passeios higiénicos. 

Observo cada vez mais gente com máscara. Mas alguns insistem em trazê-la no alto da testa ou descem-nas até ao queixo, como se fosse uma atitude cool ou fashion. Neste põe-e-tira, como se aquilo fosse brinquedo, vão afinal baixando a guarda no combate ao vírus assassino.

Noto ainda que as pessoas tendem a desviar o olhar das outras ao passar por elas. Como se o Covid-19 se transmitisse por contágio visual. É fatal que muitos dos nossos pequenos comportamentos quotidianos perdurem muito para além da presente crise. Arrisco prever que não será para melhor.

 

Mas subsistem sinais de esperança. Num piso térreo, estende-se um lençol com pinturas feitas por crianças que nos garantem: «Vai ficar tudo bem.» Logo depois, no frondoso parque do Inatel, cruzo-me com um jovem casal de sorrisos estampados nos rostos, alheados das dores do mundo.

Vão de mãos dadas, o que me leva a concluir: serão estes os novos gestos subversivos a partir de agora.

Contágio

Maria Dulce Fernandes, 17.03.20

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Ontem a minha guerra antecipou-se ao estado de sítio e fechou.
Decretou recolher obrigatório, informou e encerrou. A consciência social, a responsabilidade de quase 200 almas é grande demais para se resumir a cifras. Felizmente para os funcionários, a gerência nunca considerou as suas pessoas apenas números.


É esmagadora a sensação de fechar as portas sem previsão de regresso.
Todos sabemos da necessidade de medidas extremas como esta, por todos e para todos, mas em 43 anos no mesmo posto de trabalho, não tenho memória de semelhante ocorrência e a consciência da insignificância humana perante o gigante nanoscópico que nos assalta e destrói é assaz doída e triste.


Fechei. Saí. A noite estava fria e a rua deserta. O motorista TVDE era conversador e eu sem grande paciência para lhe dar troco. Ia intercalando ideias enoveladas com secos monossílabos, sem dar muita atenção à conversa, até me chegar a palavra “exagero". Ali estava eu com alguém que, como tantos outros milhões, não entende a magnitude da destruição que este ignoto homicida pode causar à vida, à sociedade, ao mundo. Nada! Não é nada. Apenas mais uma fabricação do capitalismo norte-americano para destruir psicologicamente as pessoas e afundar a China e a Europa.


Dez minutos, longos e penosos. Respiro devagar. Afundo o nariz e a boca na echarpe. Sinto-lhe o hálito a tabaco ressequido e álcool cozinhado. Pode ser que o tenha desinfectado…


Todos vendidos ao “Grande Capital", é o que é. O que querem é fazer implodir os países e as economias com uma pretensa epidemia. Estão feitos uns com os outros, é o que é. Anda tudo ao mesmo, é o que é. Mas ele não, que sabe bem o que é ser-se explorado física e psicologicamente. Fechar tudo! Onde é que já se viu? Quando reabrirem, já é tarde! Não há nada. O país colapsou. A ele é que não o enganam com falsas epidemias.


Finalmente cheguei, desejei-lhe boa sorte e ideias desanuviadas para quando for a doer. Porque agora já não é “se", é mesmo “quando". Fugi, corri dali para fora e respirei fundo, tentando exalar o contágio sufocante, mais infeccioso do que o vírus traiçoeiro.


Entrei em casa e refugiei-me na casa de banho. Nem boa noite. Água quente, uma escova de cerdas rijas e dettol a rodos, a auspiciarem um triste início de quarentena obrigatória.

 

Diário do coronavírus (2)

Pedro Correia, 15.03.20

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Não me recordo de ter visto a cidade tão vazia - nem nos feriados de Agosto, há cerca de dez anos, quando Lisboa estava fora dos circuitos turísticos. Hoje, a meio da manhã, eram assim as vistas na Praça de Alvalade e na Avenida de Roma: podíamos circular a meio do asfalto sem nos preocuparmos com os carros, ausentes em parte incerta. Há vírus por aí - o ameaçador coronavírus. Mas, seguramente, respiramos menos dióxido de carbono.

Junto às farmácias, que abundam nesta zona da capital, concentram-se pessoas em estrito respeito das distâncias de segurança. Muitas delas, no entanto, vão em busca do que já não há. Os letreiros nas fachadas esclarecem os incautos: «Não temos álcool, álcool-gel, luvas, máscaras.» Ou seja, tudo quanto é mais procurado de momento.

Apesar de ser um bem escasso, cruzo-me na rua com várias pessoas de máscara na cara. Numa paragem de autocarro, duas mulheres discutem em voz alta, gesticulando muito - ambas mascaradas, o que torna a situação ridícula. Dois fulanos circulam de máscara na testa - outra imagem caricata, tal como a desta jovem que suspende a máscara para fumar, sem suspeitar sequer que a zona do filtro do cigarro pode estar contaminada pois acabou de lhe tocar com os dedos.

 

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Não é de mais sublinhar que as máscaras devem ser usadas apenas por quem já está contaminado, como modo de precaução acrescido para esses doentes, ou para quem trabalha na área da saúde. O único meio seguro para travar a propagação do vírus é o gel desinfectante. Além, claro, do mais antigo, simples e acessível: água e sabão.

Boris Johnson recomendou aos britânicos que cantassem duas vezes os "parabéns a você" enquanto lavavam as mãos, cada vez que chegassem a casa. Boa recomendação: é precisamente isso o que faço. Enquanto vou sabendo que em Espanha o número de mortos já ultrapassa as duas centenas e a própria mulher do presidente do Governo, Pedro Sánchez, está contaminada. Há uma semana, irresponsavelmente, Begoña Gómez e as ministras da Igualdade, Irene Montero, e da Política Territorial, Carolina Darias, participaram num grande desfile em Madrid para assinalar o Dia Internacional da Mulher. Ignorando todos os avisos e as mais elementares medidas de precaução, distribuíram beijinhos e abraços durante horas: na quinta-feira, as ministras ficaram a saber que também são portadoras do vírus. Consequência de terem menosprezado as mais elementares normas de saúde pública.

 

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Com os péssimos exemplos a virem de onde vêm, não admira que Espanha seja já o segundo país na Europa e o quinto à escala mundial com mais vítimas mortais e mais infectados. Agora Sánchez e Pablo Iglesias - companheiro de Irene Montero e vice-presidente do Governo, que apesar de estar de quarentena compareceu ontem no Conselho de Ministros, noutra evidente demonstração de irresponsabilidade - correm atrás do prejuízo, declarando o estado de emergência e mandando aplicar as primeiras multas aos transgressores. 

Entretanto os espanhóis, sobretudo os residentes em Madrid, fogem para o nosso país. E vários deles, contaminados, estão a ser tratados nos nossos hospitais, tão carecidos de meios técnicos e recursos humanos. O que justifica este comentário de Miguel Sousa Tavares: «É inacreditável que o Governo nos recomende que fiquemos em casa enquanto a porta está aberta para os espanhóis virem para cá tratarem-se.»

Um desabafo compreensível, sem tropeçar nas palavras. E sem necessitar de máscara.

Havana? Caracas? Não: Lisboa

Pedro Correia, 13.03.20

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Parecia que passara por ali uma manada de bisontes. Ou que me via teletransportado para um "armazém do povo" em Cuba ou na Venezuela. Mas não: são imagens de um hipermercado num bairro residencial em Lisboa, captadas ontem, por volta das 11.30. A desenfreada corrida às grandes superfícies, como se estivéssemos na iminência de um bombardeamento aéreo, deixou neste estado as caixas e prateleiras do Continente em Alvalade. 

A população que adere com generosidade a iniciativas altruístas, como o Banco Alimentar Contra a Fome, é a mesma que vem revelando o mais desprezível comportamento, mal surgiram os primeiros temores e rumores relacionados com o coronavírus. Açambarcando o mais possível, comprando aquilo de que não necessita, acumulando víveres e produtos de higiene que ficarão esquecidos em armários e prateleiras lá de casa, usando a pandemia como pretexto para o consumismo mais obsceno e execrável.

Passei por lá e vi: os maiores estragos foram feitos nas zonas dos enlatados, cereais, bebidas, detergentes, iogurtes, rações para animais. Mas também nos frescos, sobretudo ao nível das frutas e legumes - bens perecíveis, não fazendo o menor sentido que sejam açambarcados.

Esta gente está mesmo a pedir a imposição de limites máximos de aquisição de bens por via administrativa. Ou, no limite, implora por senhas de racionamento - como aconteceu em Portugal, quando a Europa quase inteira estava mergulhada no pesadelo da II Guerra Mundial e os circuitos de abastecimento haviam sido torpedeados.

Mereciam viver em Havana. Ou em Caracas.

Diário do coronavírus

Pedro Correia, 12.03.20

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Bairro pachorrento, estranhamente despovoado: há muito menos gente a circular na rua, o trânsito parece de domingo apesar de estarmos a meio da semana, os transportes públicos deixaram de andar apinhados. Tudo em casa? Tudo não: espreito o Continente, habitualmente vazio a esta hora: está repleto de gente a acotovelar-se junto às caixas, exibindo carrinhos a transbordar de compras como se receassem um bombardeamento aéreo. Sem perceberem que o local menos indicado para fugirem ao vírus é ali mesmo, naquelas filas.

Pelo menos cinco estabelecimentos comerciais encerrados «por motivos de saúde», segundo letreiro colocado à porta. Passo pelo Celeiro, sou atendido pela empregada mais bonita das redondezas. Uma brasileira que não esconde a preocupação: «Minha mãe me disse para eu não atender pessoas sem estar de máscara. Tenho medo de estar aqui.» Não permitem que ela use máscara. Aliás nem existem máscaras, como verifiquei há duas semanas, só a título de curiosidade, junto das sete farmácias da Avenida da Igreja. Material esgotado, novas encomendas, não fazem a menor ideia quando voltarão a renovar o stock, já têm muitos clientes em lista de espera. 

 

Eis-nos reconduzidos às questões essenciais - da vida e da morte, da saúde e da doença - no momento presente, sem preenchermos a agenda mediática com engenharias sociais ou hipotéticas calamidades futuras. Aliás não sobra tempo nem espaço nos meios de comunicação para outro assunto: os telediários tornaram-se monotemáticos. E, ao contrário do que sucede em Espanha, por exemplo, a oposição eclipsou-se: deve estar também de quarentena preventiva, como o Presidente da República. Sem possibilidade nem vontade, portanto, de questionar o Governo sobre a decisão tardia de suspender as ligações aéreas com Itália, principal foco de infecção na Europa, e de continuar a permitir a entrada de dezenas de milhares de pessoas em cruzeiros de luxo que aportam a Lisboa e de forasteiros que aterram nos aeroportos sem rastreio de qualquer espécie à chegada.

Um amigo recém-desembarcado da Europa de Leste diz-me, com espanto: «Fiz esta viagem com máscaras e gel para as mãos a toda a hora. Vi precauções em todos os países - nos aeroportos e em todo o lado. Em Portugal, nada.»

 

Entre um Governo que "desdramatiza" para não baixar nas sondagens e uma oposição hibernada, a maralha corre para as praias como se não houvesse amanhã, confundindo quarentena sanitária face à pandemia com férias ao sol. Enquanto o incessante vozear televisivo sobre futebol dá lugar ao incessante vozear televisivo sobre coronavírus, com mil putativos especialistas em epidemologia a surgirem debaixo de todas as pedras da rua.

Salva-se, ao serão na TVI 24, a voz sensata mas firme de António Lobo Xavier: «Há qualquer coisa que não está a ser captada pela opinião pública, com uma certa doçura das mensagens. Olhando para o modo como progride esta epidemia - uma pessoa infectada pode infectar três por dia, em seis semanas sem controlo pode dar origem a três mil infectados - [critico] um certo laxismo mediterrânico, baseado num certo aventureirismo pessoal, numa certa autonomia privada, com cada um a correr os riscos que entende. Este ponto de vista é profundamente negativo e tem de ser criticado. Não é um problema de autonomia nem de liberdade pessoal. É preciso explicar que quem não acata as medidas básicas tem comportamento criminoso em vários planos: origina o agravamento de risco de outros cidadãos, causa mortes das pessoas mais frágeis, provoca danos incomensuráveis. A negligência face às regras custa vidas de pessoas e problemas de saúde, afecta hospitais que deviam estar a tratar dos cuidados normais e causa um dano brutal ao País. É inaceitável o desprezo individual e colectivo de massas de portugueses que se comportam como se não houvesse problema algum.»

Tudo quanto há de essencial ficou dito nestas palavras.

Para passar ainda melhor o dia

Pedro Correia, 25.10.19

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Não sei se convosco sucede o mesmo. Acontece-me, quando gosto muito de um livro que ando a ler ou de uma série que ando a acompanhar, retardar de propósito a leitura ou dividir em metade cada episódio da trama televisiva, sobrando o resto para a noite seguinte. Só para não me separar tão cedo dessas obras que me apaixonam, me comovem, me divertem ou me empolgam.

Por estes dias, vem-me acontecendo uma vez mais. Com uma série islandesa, intitulada em português Encurralados, exibida na RTP 2 e já na segunda temporada: excelente argumento, competentíssimas interpretações, magníficas paisagens naturais, atmosfera de filme negro em cenário de neve. E com o romance Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, da polaca Olga Tokarczuk, recém-galardoada com o Nobel da Literatura. Uma surpreendente amálgama de thriller, comédia e ensaio político, como  justamente observou o jornal britânico The Guardian. Também com neve como cenário.

Gosto de chegar ao fim da tarde sabendo de antemão que lerei mais umas páginas deste livro e verei mais umas cenas desta série. É quanto basta para passar ainda melhor o dia.

Fora da caixa (4)

Pedro Correia, 08.09.19
 

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«Precisamos de outras bússolas.»

André Silva, em entrevista à TVI, 4 de Setembro

 

«Estou quase a chegar ao Bairro Alto!», gritava a mulher ao telemóvel, na carruagem do metropolitano.

Em redor dela, ficámos todos a saber que aquela matrona opulenta, de unhas de gel e tatuagem no lombo, mentia com desenfado na plena pujança dos seus decibéis: seguíamos algures entre as estações de Sete Rios e Praça de Espanha. Ali perto, só o Bairro Azul.

Vejam lá em quem aquilo me fez pensar: em André Silva. O porta-voz do PAN está cheio de razão: anda por aí muita gente carente de novas bússolas.