Cada vez mais me acontece. Saio à rua e observo senhoras com falsos bebés ao colo, agarradas ao "rebento" com o maior desvelo.
Falsos por não serem bebés: são cães.
Lá vão elas passeio fora, com aparente receio de que o bicho lhes tombe para o chão.
Algumas, em vez de levarem o béu-béu nos braços, preferem transportá-lo em carrinhos de bebé. Vi há dias algo do género em estreia absoluta para mim: em vez de um rosto humano, arredondado e bochechudo, espreitava-me um focinho comprido e peludo debaixo da manta.
Permanecem por estudar com exactidão os efeitos devastadores do coronavírus em matéria comportamental. Mas há um ponto inquestionável: a relação das pessoas com o espaço urbano alterou-se muito desde a pandemia. Foi então que começaram a proliferar os estafetas - novo lúmpen citadino, oriundo do subcontinente indiano - devido ao pânico de muita gente perante o risco de contaminação em locais públicos: em vez de saírem, pagam para lhes levarem quase tudo à porta de casa.
Foi também então que cães e gatos reforçaram o seu estatuto como elementos fundamentais de companhia: ao contrário dos seres humanos, eles não eram transmissores de covid-19.
No contacto entre pessoas e animais, já vi de tudo um pouco e surpreendo-me com quase nada. Um colega de profissão - também meu bom amigo - levou certo dia uma atónita raposa para a redacção do jornal onde ambos trabalhávamos. Outro apresentou-nos um camaleão, seu animal doméstico preferido, orgulhosamente poisado no ombro do dono. No bairro onde vivo, passou por mim esbelta donzela levando um furão pela trela - rima e é verdade. Em Macau era frequente os velhotes passearem os passarinhos nas gaiolas, indiferentes ao olhar de espanto dos forasteiros recém-chegados da Europa. Eu próprio tive um periquito azul celeste que andava solto pela casa e se tornou atracção junto de quem nos visitava: era o Pavarotti, que ainda recordo com um rasto de nostalgia.
Mas confesso: faz-me confusão este recente hábito de transportar cães ao colo. Terão os animais perdido capacidade de locomoção também por efeito da pandemia?
Apesar de mim-mesmo, pessoa a qual me escuso de adjectivar, os amigos continuam a cumular-me de dádivas. Espirituais, em regime de abundância. E materiais...
Ontem encontrei-me no Restelo com um casal de amigos, daqueles desde há quarenta anos. Nas despedidas levaram-me até ao carro e disparou ele "toma lá" um pacote precioso. No qual, entre outras pepitas, estava a tradução policopiada do "Defeating Communist Insurgency: Experiences from Malaya and Vietnam", de Sir Robert Grainger Ker Thompson, um célebre especialista em contra-insurgência na Ásia, distribuída na Escola de Estudos Superiores da Força Aérea em 1969! E - com as páginas ainda por abrir!!! - os dois volumes de "África e o Comunismo", de Alejandro Botzàris, publicados em 1959/1961 pela Junta de Investigações do Ultramar...
Ajoujado pelo júbilo recuei aos Olivais, na senda de companhia mimosa. Ao invés deparei-me com máscula camaradagem, a qual me presenteou com sacos bibliófilos. Nos quais constavam meia dúzia de obras de Jorge Amado que não estavam nas minhas estantes - cá em casa a "dissidência" do autor havia minorado o fervor leitor do Senhor meu pai, naquilo do consabido (e não tão errado...) "o Jorge Amado não é um grande escritor", e a Senhora minha mãe era demasiado francófona para tais tropicalices; 25 volumes das Obras Escolhidas "do Camilo" - é assim que os propagandeados leitores de Camilo Castelo Branco se lhe referem -, para mim preciosos, pois aqui a prateleira do autor é composta por livros legados pelos bisavô e avô paternos, edições de Lello e Irmão, Lopes e Companhia, Civilização e assim, tudo lá do Porto, de finais de XIX e inícios de XX, alguns encadernados mas a maioria puídos, quase se desfazendo ao toque, efeitos dos ancestrais fervores leitores e da incúria do tempo... E uma outra preciosidade - se cá tenho a "Anna Karénina" traduzido do russo para a Relógio d'Água por António Pescada ( e nisto dá sempre para lembrar a atoarda de Mega Ferreira, que preferia as traduções de Tolstoi via francês) juntou-se-lhe agora o "Ana Karenine", luxuosa edição da Estúdios Cor (75 escudos em 1959!!!!) traduzida por... José Saramago!
E várias outras curiosidades, entre as quais este quase célebre "Férias com Salazar", pelo qual começarei a excursão - não que queira eu ter "Férias com Ventura", afianço.
Em suma, e repito-me, apesar de mim-mesmo, pessoa a qual me escuso de adjectivar, os amigos continuam a cumular-me de dádivas...
Lisboa, num supermercado. Fila grande em direcção à caixa. À minha frente, uma mulher fala em voz alta ao telemóvel. Demasiado alta. Com uma filha - deduzo pela "banda sonora", muito mais monólogo do que conversa.
Entrou na fase da despedida. Mas, como tantas vezes acontece entre os portugueses, este adeus parece interminável.
- Tens comido? Ainda bem. Olha, espero ver-te no domingo. Sim. Tchau, tchau, tchau. Beijinhos, tchau.
A fila permanece imóvel. A mulher faz-se ouvir com crescente intensidade:
- Ah, espero que melhores da tua insónia. Bebe chá de tília! Sim, faz-te bem. Melhor do que um comprimido. Muito chazinho... Sim, de tília. TÍLIA. Não esqueças, ouve o que recomenda a tua mãe... Amargo? Nada amargo. Mas se achas amargo deita açúcar. Duas colheres, três colheres, vais vez que gostas. E faz-te bem. Relaxa, chama o sono.
Graças a Deus, a fila começa enfim a mover-se. Mas a mulher prossegue em tom mais alto, indiferente aos resmungos que já se escutam. Parece ter tomado Red Bull antes de rumar ao supermercado.
- É como eu te digo: precisas é de um bom chá de tília. Faz um bule de chá, bebe à vontade. Deita-lhe açúcar. Podes juntar mel. Eu gosto muito, sempre gostei... Sím, tília. TÍ-LI-A! Não percebeste?
Está quase a chegar a vez dela. Mas nada que a faça desligar o telemóvel. E o volume da voz aumenta ainda mais:
- Tchau, filha. Tchau, tchau... Ah... olha! em vez de tília, bebe antes camomila... Sim, camomila. Melhor ainda. Não é Camila, é camomila. CA-MO-MI-LA! Dá para dormir também. Acredita em mim. Muitos beijinhos, beijinhos, beijinhos.
Fechou a matraca. Parecia milagre ver aquelas compras enfim despejadas na passadeira junto à caixa. Por aquela altura, de chá de tília precisava eu. Tília ou camomila, tanto faz.
O outro dia regressei de camioneta a Lisboa. Na bus station encontrei o amigo Salcede, o sempre Dâmaso - está na mesma, afianço-o. Foi-nos um júbilo o reencontro. E conseguimos que nos emparelhassem os lugares, um “match perfeito” logo ele proclamou…
Na highway parámos numa filling station. O bom do Dâmaso teve de acorrer à toilet - justificou-se queixando-se da próstata, “que já não é o que era” “coisas da idade”. Eu acompanhei-o, mais por solidariedade - que a minha vai andando, longe vá o agoiro… -, para uma breve mijinha, apesar da beer que tinha bebido no pub onde fizera horas, aguardando a partida.
O amigo Salcede, que não tem viajado por aqui, achou “chic a valer” aquelas instalações, limpas e bem-cheirosas. E logo que voltámos à road mostrou-se hábil com o cell, dando o seu feedback à empresa concessionária. Eu dormitei, que também para mim isto já não é o que era…
Na aproximação a Lisboa o Dâmaso, gentil e verdadeiramente feliz, insistiu comigo para que fossemos petiscar a um sítio que me garantiu ser behind the ear. Como chegámos no horário previsto eu ainda tinha algum tempo livre antes do meu compromisso - “inadiável”, jurei. E lá anuí, em nome dos good old times, aos quais ele tanto aludira durante a viagem.
No caminho parámos num food cart pois reclamou-se “esfaimado” - e é óbvio que segue comilão, não estará obeso mas vem anafado - e comemos uma toast. Depois, levou-me até ao tal Corner, numa esquina das Avenidas, onde nos demorámos a bebericar uma long drink.
Ele estava curioso sobre o que penso eu “disto tudo”, ao que lhe fui respondendo o “nada” que deveras sinto. Empolgou-se e garantiu-me - agarrando-me até pelo cotovelo - que algo tem de mudar. Travar esta enxurrada de estrangeiros. Que isto dos nossos africanos ainda vá que não vá, que é preciso mão-de-obra. Mas estes indostânicos, a desfearem as cidades! E a a turistada, a descaracterizar a old town! E os brasileiros?, este Montenegro - “uma desilusão, uma desilusão”, e confidenciou-me ser também o que sentem alguns dos seus amigos, apostos em muito boas posições - até quer trazer professores do Brasil. Para descaracterizarem a língua, irou-se…
Despedimo-nos com um handshake. O dele continua mole, tal como o recordava.
Fim de tarde. Acabo de sair da mercearia do meu vizinho Sami com duas maçãs e meia dúzia de ovos quando sou abordado por um fulano de mão estendida. Aparenta 35 anos.
- Dá-me qualquer coisa.
- Queres dinheiro para tabaco, copos ou droga?
- Hum... droga.
- Ao menos és sincero. Mas estás com azar: não dou dinheiro para droga.
- Mas também tenho fome...
- Se tens fome, leva estas duas maçãs. Podes levar também dois ovos.
- Ovos? Não sei cozinhar. E fruta, não quero.
- Se tens fome a sério não devias ser assim tão esquisito. Ao menos és do Sporting?
- Não. Sou do Benfica.
- Estás mesmo com pouca sorte. Deixa a droga, vai-te tratar. Saudações leoninas!
Um casal de novos amigos, olivalenses, enunciara com veemência a sua curiosidade sobre a gastronomia moçambicana. Nesse âmbito convidou-me, junto a um outro velho amigo de origens beirenses, para um almoço excursionista. Eu tinha boas referências do restaurante Chiveve e decidi aproveitar a ocasião para uma investigação. Foi uma opção acertada. O espaço (sito na Andrade Corvo lisboeta) é muito agradável, o serviço é competente e gentilíssimo - o dono Edi, ainda que ali em azáfama, foi mesmo acolhedor. As doses individuais são suficientes para saciar o comensal - longe vão os tempos pantagruélicos das comezainas, até doentias. E os preços vêm nada especulativos.
Como é adequado nestes momentos iniciáticos optámos por uma partilha de pratos. Para tal elencámos os “Big Five” da comida moçambicana que vem sendo divulgada alhures. Encetámos pelas obrigatórias chamuças - de vegetais pois, apesar de apresentadas no cardápio, infelizmente naquele dia não havia as de peixe, as quais são uma raridade por cá e sempre desejáveis. Afianço, “juro, palavra de honra, sinceramente…”, que as chamuças do Chiveve são recomendáveis: surgem com um estaladiço paradigmático e desprovidas do excesso de picância que afronta os neófitos e os sensíveis - por isso debruei-as com o piripiri da casa, que é condigno. É certo que às chamuças prefiro-as sem milho, mas isso é mero gosto meu. E sei que teóricos defendem esta via (quiçá moderna) que a casa segue, considerando o milho um contributo para aprazível textura do recheio e dando-lhe ainda um ligeiríssimo teor adocidado.
Quanto aos condutos austrais, o frango à zambeziana foi muito apreciado pelos neófitos e aceite pelos veteranos. Já o camarão frito “à moçambicana” foi saudado com júbilo geral. Diante do caril de caranguejo - desfiado, como deve ser, e isto é muito relevante pois nota de elevação gastronómica -, o tal júbilo foi até tão notório que, tendo-me eu distraído perorando, apenas o pude provar pois quando a ele aportei já os comparsas o haviam rapado, sem dó nem piedade e muito menos qualquer cerimónia. A matapa com camarão estava também muito bem, mesmo! Aliás, o “esparregado” - como eu sempre a anuncio aos patrícios desconhecedores - foi o prato preferido dos nossos curiosos amigos. E é necessário alongar-me sobre ela pois, por cá, por vezes acontece o encontro com uma boa matapa mas acompanhada de camarões desenxabidos: não é o caso da matapa do Chiveve, os camarões associados aportam excelentes. Tudo isto culminámos com uma ronda de sobremesas: arroz-doce com leite de coco, mousse de manga e mousse de malambe, que foram aplaudidos pelos gulosos. Finalmente, impõe-se deixar registo de que a xima (de milho) estava como mandam as regras - algo que para mim é o fundamental da refeição. E tão difícil é comer uma boa xima em Portugal…
Do Chiveve saímos todos saciados. E felizes. Eu com a certeza de que lá voltarei… em breve se possível.
Aqui nos Olivais. Fui à igreja nova despedir-me de velho amigo, Pêpê, meu primeiro afilhado. E sigo só ao Vale do Silêncio, bela festa dos 50 anos de independência de São Tomé e Príncipe, hoje mesmo. Petisco - moelas com "nosso molho" acompanhadas com banana frita, licor da terra. Entretanto música enleante. Viva a independência!
Na morte de Eduardo Gageiro convido quem me leia a visitar o mural de Facebook do Miguel Valle de Figueiredo. Pois agora ele recolocou um magnífico retrato (verdadeira homenagem) que de Gageiro fez, em plenas comemorações do 25 de Abril, em 2024.
Gageiro foi muito (muitíssimo) mais do que o “fotógrafo de Abril” - e, entre tanto trabalho, fez um espantoso manancial de fotografias que não sendo “etnográficas” deliciam qualquer antropólogo. Mas noto que dele só tenho este livro-catálogo de uma sua exposição comemorativa, “25 Textos de Autores Portugueses Sobre Fotos de Abril” (Festa do Avante, 1999) - herdei-o do meu pai, que enquanto pôde não falhou uma Festa.
(Nem gosto muito do livro. Pois se aprecio um ensaio sobre uma fotografia, já torço o nariz a esta tendência, recorrente, de fazer ombrear imagem com um texto alusivo. Ou seja, as boas fotografias desnecessitam de serem atravancadas com palavreado, aceitam - no máximo - uma legenda significativa. Mas entendo o propósito, então o da celebração dos 25 anos da revolução, congregando algumas das mais conhecidas fotografias da época e dizeres e sentimentos de autores “camaradas e amigos” do fotógrafo.)
E uso a morte de Gageiro e as suas fotografias para falar do (meu) quotidiano. Há poucos dias, em roda alargada de esplanada, uma amiga recente, mais-nova, de súbito perguntou-me em quem voto eu. Resmunguei mudo “raisparta, ando eu a blogar sobre o assunto e nem os amigos me lêem…”. E respondi-lhe. Aduzindo um assim legítimo porque recíproco “e tu, votas em quem?”. Para ser surpreendido - pelo parco saber que do seu contexto tenho e, ainda mais, por ser ela uma mais-nova - pelo seu “voto PCP”. Devo ter esbugalhado os olhos pois ela quis justificar a opção. Cortei-a cerce, “hei, o meu pai era o Camarada Pimentel, foi-o até à morte…”. Ou seja, avancei, “votas PC? Ok, discordamos. Eu salto na cadeira é com os do BE - e não por razões ideológicas, morais ou racionais, é mesmo fisiológico…”.
Nisso o seu namorado, também meu mais-novo, simpático que eu mal conheço, avançou “eu votei no CHEGA”. E eu aí devo ter arqueado a sobrancelha, até pela surpresa da disparidade entre eles. E como tal também ele se quis justificar num “votei como protesto contra isto, contra estes tipos”. Tudo bem, cada um como cada qual, inflecti, para que não nos puséssemos ali a discutir política. Pediram-se mais umas cervejas e fomos para outros temas.
Mas fiquei com o episódio, a matutar. Por um lado, porque demonstra a superficialidade destas “identidades políticas” que as minorias sobre-politizadas continuam a brandir. Pois duas pessoas seguem imunes ao histrionismo dos comentadeiros, às arengas militantes, e nisso vão-se amando - ou, pelo menos, gostando - tendo planos conjuntos, de curto, médio ou longo prazo, isso é lá com eles, divertem-se, carnal e socialmente, partilham-se. E, entretanto, cada um vota no oposto do outro. Sem qualquer problema. Magnífico.
Por outro lado, foi-me o episódio comprovativo. O voto no CHEGA é muito isto, não ideológico ou “preconceituoso” ou “intolerante”. É o protesto contra “o estado a que isto chegou”, para glosar o capitão de Abril.
Mas o problema - e foi isso o que eu me eximi de resmungar com o mais-novo, e escrevo-o agora, talvez ele me venha a ler o postal - é que esse voto de protesto alimenta um partido cujos dirigentes e muitos militantes abominam estas fotografias. E tudo o que significam.
São os que se dizem “deputados da Nação”, chorosos do Estado Novo. Irados contra o apear da imagem de Salazar (magnífico momento de Gageiro, se encenado ou não pouco importa), pois ao ditador apondo virtudes. Revanchistas contra as liberdades individuais - de facto crentes na necessidade de amordaçar, alguns que sejam, até algemar se possível. Saudosistas do colonialismo, vendo traição na justeza histórica. E que votando nesta gente, por protesto contra estes trastes que entretanto vão mandando, mais eco lhes é dado. Mais capacidade de influenciarem outros, de lhes inculcarem as suas abjectas ideias.
Que assim se vão disseminando. É agora notório que no país democrático do grande Rui Manuel Trindade Jordão, de Shéu Han, de Gil, de Oceano, de Éder, de tantos outros, vitoriosos ou não, célebres talentosos, esquecidos medianos, desconhecidos medíocres, surgem agora - como nunca antes - nas catacumbas da internet bramidos contra “negros” nas selecções desportivas nacionais. Pois, para essa escumalha, antes menor e menos ruidosa, o “preto” não é digno de nos representar. Há que os esconder, pelo menos, a esses tais. Ou até escorraçar. E o voto “de protesto” anima, alimenta, esta cáfila asquerosa.
E - mesmo sendo hoje - não nos chega a arte do Nuno Mendes para opor a tal gente. Ou a garra dos putos Sub-17. Pelo contrário, ira-os ver “pretos” com sucesso.
Será para isso adequado voltar às fotografias de Gageiro. Que nos mostrou como “povo” daquelas maneiras. E também como “povo” querendo paz (contra os malvados do “Império”) e liberdade (contra os melifluos da “Nação”). E nisso virar costas a esta gentinha. Que é verdadeiro “Lixo Branco”, como dizem lá nos EUA.
Passara o fim-de-semana além-Trancão, em pinturas - “não sejas um Zé-Ninguém, pinta com Robbialac”, anunciava, há décadas, o Manniche original - a retocar refúgio, que a vida não é só Olivais. E assim nesta segunda-feira desde a alvorada fora apupado por músculos esquecidos ou até mesmo desconhecidos e reencontrara velhas articulações, estas pejadas de azedume para comigo…
(jpt pintor)
Acabrunhado com esse desamor endógeno, protelei as obrigações de burocracia digital que tinha em mente - “não faças já o que podes fazer daqui a bocado”, item sempre a encimar o decálogo -, e manhã afora deixei-me a remexer nos textos do meu “Sentido Obrigatório”, livro que quero fazer suceder ao “Torna-Viagem”. O que farei logo que este alcance o até mítico estatuto comercial de half-demon, 333 exemplares vendidos - e para tal só me falta impingir mais vinte e poucos livros a incautos interessados.
Aproximando-se o meio-dia, mal notei uma ligeira flutuação eléctrica no ecrã do computador, à qual até quis desatentar. Mas ficou-me a moinha, inquisidora. E, interruptor à mão, constatei o corte de energia. Logo acorri a esse recanto mágico, dito “quadro eléctrico” - durante décadas monopólio do meu pai, o Camarada mas também Engenheiro Pimentel (electrotécnico, de barragens, já agora, pois é matéria que o dia veio a realçar). Estava este opaco, mais ainda do que a minha ignorância sempre o entende. Desesperei, percebendo ser o corte devido a ter-me eu esquecido de pagar a conta - essa que já me chega faseada, em “suaves prestações”, tamanho o saque mensal de que sou alvo. E assim, neste final de mês em penúria, mesmo, “terei de pagar a conta toda!!!”, pois por falta do meu cumprimento será suspenso o plano acordado.
Crónica lusa do «grande apagão» ibérico de 28 de Abril
Pedro Correia, 30.04.25
Vivemos na era das hipérboles: não custa perceber a popularidade de Donald Trump, o hiperbólico por excelência que estimula a proliferação de tantos epígonos. Até em Portugal já temos um Donaldinho.
Sendo este o panorama, não admira que uma súbita falha de energia se converta de imediato em apagão. Faz sentido. Mas há logo quem cavalgue o aumentativo e parta à desfilada rumo ao reino da hipérbole. Daí a nada converte-se em apagão geral e não demora até que lhe chamem grande apagão.
Dia inusitado, esse de anteontem. Em que uma quebra de fornecimento de energia eléctrica ocorrido em Espanha produziu consequências imediatas também em Portugal: o país só não ficou às escuras por ter ocorrido em pleno dia, por acaso um dos raros com sol neste 2025 tão chuvoso e nublado.
Eram 11.33 quando a coisa aconteceu. «Teve o efeito de um sismo», viria a declarar um idiota. Sem fazer ideia dos estragos que um abalo sísmico de forte intensidade pode produzir em Lisboa, onde ainda são visíveis cicatrizes do cataclismo de 1755.
Este será dos que desatam a aproveitar ocasiões como a de 28 de Abril para espalhar boatos, propagando as teses mais alarmistas: o pânico vende, como evidencia um populista canal de televisão, não por acaso o que serviu de berço ao Donaldinho tuga.
Apanhado de surpresa, como qualquer de nós, procurei a minha lanterna de pilhas, na gaveta do costume, e verifiquei que funcionava. Estava garantida iluminação mínima quando a noite caísse. Água, sem problema: tenho sempre quatro garrafões de cinco litros prontos para uma situação de emergência.
Saí à rua. Os semáforos apagados produziam sensação de caos rodoviário. Mas pude testemunhar o civismo da esmagadora maioria das pessoas, mesmo nos cruzamentos mais congestionados. À falta do velho polícia-sinaleiro, logo cidadãos responsáveis se ofereciam para orientar o trânsito.
Foi complicado, mas funcionou. Sem registo de acidentes.
Admito que tenha havido crises de ansiedade. Sobretudo em pessoas que ficaram presas em elevadores ou nas carruagens do metro. E não faltou quem se interrogasse sobre o destino dos bens alimentares guardados no frigorífico. Preocupações menores, no quadro geral. Nenhum registo de colapso em hospitais, escolas, serviços de emergência. Congestionamento, houve os do trânsito - agravados pela greve da CP ocorrida nesse dia. E no aeroporto de Lisboa, devido à suspensão dos voos.
Seis horas depois do apagão geral, nem o canal oficioso do alarmismo-mor conseguia legendas mais sugestivas do que estas: «Lojas e restaurantes encerraram»; «Centro comercial às escuras»; «Cafés sem multibanco»; «Autocarros lotados em Lisboa»; «Faro: um voo cancelado».
Tal como nos dias iniciais da pandemia, houve quem corresse a mercearias e supermercados em busca de garrafas de água, latas de atum e rolos de papel higiénico. Tudo coisas que qualquer de nós deve ter sempre em casa, haja o que houver. Não é exclusivo português: em Espanha aconteceu o mesmo. Ou pior.
Ansiedade extrema, só daqueles que se imaginam incapazes de viver num mundo analógico, escravizados pela tecnologia ao ponto de se tornarem analfabetos funcionais sem ferramenta digital. Personagens vivas dessa perturbante e premonitória novela chamada O Silêncio, de Don DeLillo.
Sensação acentuada quando os operadores desligaram o 5G para garantir serviços mínimos. Os difusores de boatos via WhatsApp tiveram de suspender a faina.
Afinal não precisei da minha lanterna a pilhas. Também as velhinhas velas de estearina que muitos compraram durante o dia ficaram por estrear. A partir das 18.30 a energia eléctrica foi regressando, os dados móveis reacenderam-se: às 20.30 caía a noite sem grande parte do País ficar às escuras.
O aumentativo daria lugar ao diminutivo. «Apagão com impacto pequeno na economia», assegurava ontem o Jornal de Negócios. Admitindo que possamos ter perdido apenas cerca de 0,1% do PIB trimestral.
Sinal inequívoco de normalidade: volta a falar-se imenso em futebol.
Tanto quanto se sabe, o grande apagão ter-se-á devido a uma sobrecarga do armazenamento de energias renováveis no país vizinho. Mas há inquéritos em curso, tanto em Espanha como em Portugal: só mesmo quem sabe poderá esclarecer. Não certamente os tudólogos que desataram a abrir a matraca em sessões contínuas sem fazerem a menor ideia do assunto.
«Como cidadã, ontem passei um dia difícil», desabafou já de noite uma comentadora residente na TV. Comovedora confissão.
Mas o mais pungente quadro de «drama, tragédia e horror», ao estilo do saudoso Artur Albarran, surgiu em crónica dada à luz (sem ironia) no sisudo Observador.
Apanhado no meio do trânsito sem poder escapar ao engarrafamento? Afectado pela suspensão do acesso à página digital da Autoridade Tributária? Vítima do cancelamento daquele solitário voo de Faro? Nada disso. O cavalheiro até reside «na tranquilidade dos montes, com electricidade própria, internet por satélite Starlink e TV por internet». As dores do mundo não o afligem.
Acontece que começou a receber maçadoras mensagens dando-lhe nota do grande apagão geral que o impediram de continuar a assistir, com plácida bonomia, ao Campeonato do Mundo de Snooker. Vai daí, encheu-se de brios solidários e descarregou a bílis apocalíptica em 12.995 caracteres. Até os montes tremeram.
No telejornal ouço breves declarações do secretário-geral do PCP, ripostando certeiramente às esparvoadas declarações de um ministro (esta gente não tem quem lhes escreva textos?) sobre o 25 de Abril. Dizia Raimundo "isto não é uma festa, é uma celebração!" ("e as celebrações não se adiam", concluia. Pois podem-se suspender, claro. Mas não adiar).
Eu gosto de festas (se recatadas, que me falta energia para festivais e festarolas). De manhã um simpático vizinho convidou-me para me juntar aos dele (que me são algo simpáticos) no desfile. Recusei, grato, explicando-lhe (até lhe enviando um texto que li há dois anos num 25 de Abril) que nunca vou a este desfile. Pois não celebro (a democracia, ainda por cima) com comunistas - versões brejnevistas, enverhoxistas, polpotistas, maoístas, guevaristas, etc.
Nada oponho a festejar conjunto uma qualquer efeméride ou vitória sportinguista. Mas "celebrar" a democracia com os seus adversários? É bom para o folclore, para a mimalhice. E será também para a afirmação partidária (louvável o estômago dos da IL em marchar ali depois do PCP - donos do desfile - os ter impedido de participar). Mas não sou de "folclores".
Depois um grande amigo, fotógrafo, telefonou-me: "vou fotografar, queres vir?", e isso seria diferente, vestiria o colete de observador não-participante, "se calhar escrevemos um texto juntos" (para blog, que ninguém nos paga...). Mas desisti, sem energias pois acabrunhadíssimo com episódio que sofri há dois dias.
Percebendo-me desasado uma querida amiga passou por minha casa e levou-me ao café local. Ela avançou na sua amêndoa amarga, eu amornando uma parca imperial, logo unidos por outra amiga, minha "mana", esta optando pela sua Sagres. Escorremos umas horas. Na televisão, frenética, incessante, a cobertura da arruaça na baixa lisboeta, cometida por umas dezenas de histéricos. Nesse entretanto viu-se (centenas de vezes, sem exagero) a detenção de um antigo juiz. Mais uns sopapos e meia dúzia de bastonadas. Repetidas, vezes sem conta.
Ali ao lado, a avenida da Liberdade estava cheia - sim, da gente folclórica que mitografa que os democratas são os socialistas e os comunistas e que nós outros somos "faxistas", ainda hoje, em pleno 2025 o dizem (mas eles ou os seus filhos emigram ou vão estudar para os países governados pelos "faxistas", coisas do arco da velha).
Mas não é isso que me interessa aqui. O relevante é terem as televisões passado horas a propagandear aquela minudência holiganesca. (Com menos porrada do que em qualquer derbi Braga-Guimarães, já agora). No 25 de Abril os mariolas colonizaram a televisão... E os "jornalistas"? Adoraram.
No passado sábado fui apresentar o meu "Torna-Viagem" - a tal centena de crónicas, dois terços das quais dedicadas a Moçambique - na belíssima Biblioteca de Évora, dirigida pela nossa co-bloguista Zélia Parreira. Fui nisso acompanhado pelo escritor moçambicano José Paulo Pinto Lobo - que teve a paciência de elogiar o livro - e por uma trintena de amigos, numa verdadeira excursão que muito bem nos soube. Pois foi um dia memorável.
Estando eu agora na posse do tão útil passe ferroviário - esse que alguns propagandistas avençados julgam ser "rodoviário" -, viajei de comboio, na companhia de uma parcela da escolta que me rodeava. Entre eles o também nosso co-bloguista Zé Navarro de Andrade. E assim, ali sobre carris, fui ofertado com o seu recentíssimo (apresentado na véspera) "Toque de Jazz", um "Dicionário Subjectivo" que garanto ser precioso , em particular para os que não somos os "amadores" de jazz, esse clã tão peculiar...
Oriundos de várias proveniências congregámo-nos na célebre Praça do Giraldo. E seguimos a um magnífico almoço, em boa hora reservado na "Associação Cultural É Neste País", naquelas cercanias. Foi o manjar aplaudido, em pé! E ficou o local como nossa referência eborense.
(Bem) Saciados seguimos à sessão, animada pelo belo texto do Pinto Lobo, pelo que eu balbuciei e ainda por um debate final, mais entusiástico do que eu esperaria. E depois o prato-forte: a directora da Biblioteca conduziu-nos numa visita pelas instalações, discorrendo sabiamente sobre as actividades que a sua equipa conduz. E terminou com uma demonstração de alguns dos livros antigos que abrilhantam a espantosa biblioteca. Algumas imagens apostas nos livros ficaram-nos impressionantes. Umas mais ligadas ao historial de Moçambique. Mas aqui partilho esta deliciosa Virgem Amamentando, claro que prévia ao concílio de Trento, no qual foram proibidas estas representações.
Todos viemos encantados. E imensamente gratos à Zélia Parreira. Pois foi um grande dia. Melhor dizendo, um g'anda dia!
Adenda: deixei mais detalhes do dia - gastronómicos e não só -, e mais imagens, para além do texto do Pinto Lobo, neste postal mais extenso na minha recente página. Fica a ligação para quem tenha curiosidade.
É raro calcorrear a Baixa, um pouco por falta de razões, muito por falta de paciência. Aconteceu ontem, saíra de casa de mochila - a entregar uma meia dúzia de livros que me haviam encomendado. Um dos poisos de entrega era junto ao Palácio Foz, lá aportei ao encontro de portador de exemplares do "Torna-Viagem" para amigos em Maputo. Esperei um pouco, coisa curial, eu adiantara-me... Assim a avivar as causas da minha impaciência ali: as obras serão justificadas, necessárias, mas aquela área está um estaleiro - e logo o Palácio Foz o demonstrava. E o raio das tralhas circundantes, que são verdadeira perda: das tapas "de Sevilha" aos kebabs "sei-lá-de-onde", do já velho bimbo "Hard Rock Café" aos incessantes trambolhos de "recuerdos", passando pela nova macro-Zara. Pergunto-me que andarão estes magotes de turistas a fazer aqui que não possam fazer noutro sítio qualquer...
Estar contra o turismo? Ser conservador, com laivos de xenófobo? Como?, se a "indústria" (como lhe chamam os aldrabões) dá emprego aos compatriotas, receitas, impostos... Nem contesto.
Nas faldas do elevador da Glória está esta barraca, vistosa, a vender lixo "turístico" made in alhures e anunciando-se como "ponto de encontro" oficial de "citysightseeing Portugal", evidente "empreendedorismo" indostânico. Oferece aos bem-vindos visitantes passeatas pelos locais emblemáticos da cidade - entre os quais o Mosteiro dos Jeróminos...
Nada digo. Faço a entrega, galgo para o metro, avanço até outro ponto de entrega do tal "Torna-Viagem", no qual narro como retornei a esta tralha. Mais tarde ainda chego às colinas dos Olivais Norte, já a radiculite apertando. E avanço até às escarpas dos Olivais Sul.
O longe que me é possível das "sete colinas" lá deles. E dos "Jeróminos".
(Texto para o meu novo "O Pimentel". Onde colocarei os textos mais "pessoais", desadequados aqui. Fica a informação para quem o quiser/puder subscrever, em modalidade paga ou gratuita)
Hoje vou ao São Jorge ver o espectáculo do Tim. Eu gosto dos (seus) Xutos. Continuo a pensar que o português mais relevante - e não só na música - da minha geração é o Pedro Ayres de Magalhães, por razões que agora não desenvolvo mas sumarizo: na grandeza de si próprio, Homem que é, descomplexou este traste país. Sim, então o mais-velho Soares fez-nos, para o bem e para o mal, “mediterrânicos”, desse mar do meio afinal charco do qual ainda não saímos. E sim, nessa época Lopes e Mota convenceram-nos que poderíamos ser campeões. E, mais ainda, sim, Saramago (e Lobo Antunes) explicaram que até éramos inteligentes. Mas o Magalhães fez mais, foi português! E convocou-nos a nisso segui-lo, refez-nos. E estou feliz pois, há poucos anos, tive a honra de o (re)conhecer - cruzara-o superficialmente “nos tempos” - e o privilégio de lhe dizer isto mesmo. Julgo que o Ayres - o marechal Ayres, se se quiser aceitar o que sinto - não terá desatinado com o meu emotivo arrazoado, até balbuciado.
Mas isso - esse “isso” que agora, velhote, me é o fundamental - é outra coisa. E nada obsta a que os “meus” hinos, as minhas memórias, sejam as do Xutos. Desde o inicial concerto com os Minas e Armadilhas nos meus 15 anos, já nem me lembro onde correu esse verdadeiro “punkismo”, terei bebido demais… Mas lembro bem o “1º de Agosto” do Rock Rendez-Vous em 1984, ali ido com amiga boazuda, mais velha e com o namorado ausente - a malta dos Olivais sabe do que, de quem, falo, mas quarenta (!!!) anos depois já nem é inconfidência -, eu puto num “a ver no que isto dá”, mas a esquecer-me disso - até porque ela também indiferente, diga-se -, pois logo exultante, pulando, diante do “Já estou farto de procurar / um sítio para me encaixar… / eu vou para longe, para muito longe / … falta-me o ar para cá ficar”, isso que vim a seguir na vida. E sim, naquele dia terei urrado “se me amas / se me queres…”, mas para o ar, desarrumado. Vinte anos!, tinha, e ali com uns tipos a rockarem o que tinha eu no âmago…
E nesse longo entretanto vi-os imensas vezes. Um dia num qualquer recanto do Ribatejo, a esgalharem imenso num meio vazio rinque de patinagem, ali tendo uma primeira parte dos Radar Kadafi - a banda da minha rua, a Bolama, quando o Tiago, o Guli, o Ambrósio, o Fernando e o Sampaio tinham decidido que seria eu o “road manager” da banda então em ascensão, eu puto atrapalhado (e ganzado, diga-se) em demasia para ser “manager” de mim-mesmo quanto mais de outros negócios “on the road”…
E lembro o 1986, quando o amigo António Miguel - ele próprio um mito no nosso meio estudantil, pois “manager” dos à época rutilantes Trovante, veterano de palco da festa do Avante, um gajo soberbo, cabeça muito madura (digo-o mesmo, então meu colega de grupo de faculdade, no meio daquilo tudo o que fazia) - me deu acesso ao então celebrado Xutos no Pavilhão do Restelo. Assim eu ascendendo ao “lá em cima”, onde estava ele, produtor, camarote ou lá o que era. E eu, carregado do tão estupidificante haxe, a ver e a urrar o “conta-me histórias daquilo que eu não vi” já e a clamar “amas a vida e eu amo-te a ti” para aquela quem nem ali estava. Mas também momento (crucial, sim) de transição pessoal, percebi-o, pois subindo o degrau para estatuto de observador analítico, ao olhar lá para baixo, o recinto do pavilhão apinhado de gente exultante, imensas bandeiras agitadas, todos “loucos” com os Xutos - “isto é um fenómeno”, disse-me, aprendiz de antropólogo, para logo voltar ao êxtase diante de quem me cantava avisava “contra tudo lutas / contra tudo falhas / todas as tuas explosões / redundam em silêncio”.
Muito tempo depois, e em tão diferentes tempos…, no final do milénio as paupérrimas mentes de então do Instituto Camões enviaram os Xutos a Maputo, num festival (dito “Pontes Lusófonas”) que eu logo percebera me viria a custar o belo e apetecido emprego. Mas isso, o tétrico embrulho, não era coisa deles, lá foram… Na Feira Popular acorreram algumas centenas de pessoas. Eu, mesmo se amargurado (forma educada de dizer fodido) com tudo aquilo, escondi-me na felicidade de … ver os Xutos em Maputo. Ali na primeira fila, já sem o fato-e-gravata, que então me era curial, e ao lado do patrício Hernâni (um rijo heavy barbudo e gordo, desses “como deve de ser”) alçando os nossos “X”… Subi ao camarim, o Kalu a perguntar-me “estes gajos não gostam de rock?”, diante do silêncio que os acolhera, eu a rir-me, dorido com a imbecilidade de quem os tinha ali levado, “sim” mas “não vos percebem”. E tinha sido uma bela rockada… Logo depois a Nice, a belíssima Nice - das mulheres mais bonitas que conheci na vida -, a verdadeira princesa de Pemba, ofereceu uma festa em sua casa, deu para todos nos conhecermos.
As décadas foram passando. Regressei à “terra”, num riff muito desafinado destruí a minha família! Ou talvez apenas a mim mesmo. Poucos anos depois a minha então juvenil filha pediu-me para a acompanhar a um festival rock. Trinta anos depois voltei a pedir uns bilhetes ao amigo António Miguel, o qual não via há anos, desde que fora a Maputo num concerto qualquer… E lá segui, já um pouco trôpego, à Costa da Caparica para um “estranho brilho na areia molhada”, mas já mais para que o sentisse a minha filha Carolina, qu’a vida é agora dela… Mas fiquei estupefacto, pois à chegada dos Xutos logo ela - e os seus, putos quatorzinhos - entraram em modo rock, entusiasmados, conhecedores… “pai, não tocaram a "Maria”", queixava-se depois, no fim, eufórica, a minha filha, mostrando-me que seguiam eles, afinal, fiéis aos mais-velhos. E “Mulher do Leme” ali a sonhei, em erupção de carinho amoroso…
Depois zanguei-me com os Xutos, coisas de se associarem aos políticos. Não era preciso, sempre tinham passado ao lado disso - sim, iam à Festa do Avante mas … sempre haviam seguido sem as merdas do “sistema”, num verdadeiro it’s only rock’n roll e nós gostamos.... Mas ao vê-los no falso Rock in Rio, entenda-se bem, ao vê-los no festival no velho “Cambodja” - esse onde os nossos iam buscar o “cavalo” -, a meter o Marcelo, o Ferro Rodrigues, o Medina e o Costa, essa gente a pantominar o nosso “X” em pleno palco? A ira foi-me terrível: apaguei os postais de blog em que os louvava, deitei fora os CDs que deles tinha, parti os vinis…
Claro, quando depois o Zé Pedro morreu fui até ao cemitério aqui nos Olivais - e nisso ombreando com a mais bela beldade aqui da rua, lendária mesmo, então já sexagenária avó, “nos tempos” inacessível tamanha a diferença de idade, aqueles 3 ou 4 anos… Fui lá para fazer o X à passagem do féretro. Fi-lo! Com lágrimas internas, despedindo-me do verdadeiro “Homem do Leme”.
Mas a zanga não podia demorar. Pois há anos tentei fazer um doutoramento, já ia nas 400 páginas ou mais. Desvaneceu-se entretanto - para quê fazê-lo?, para quê “remar, remar / forçar a corrente” se sabendo-me já sem cabimento? Mas nesse esforço, inglório, escrevera 30 páginas sobre o “Método” da minha disciplina, essa antropologia, as quais quis que fossem um “berras às bestas / que t(m)e sufocam / em braços viscosos / cheios de pavor”, os eunucos convictos que pululam nos “corredores”. E apresentei-me, nu, pobre pila à mostra, (quase) concluindo sobre como trabalhei 20 anos em Moçambique, como fui antropólogo ao som dos Xutos, deste modo:
E ontem, já quarenta anos depois, o António Miguel pergunta-me “queres ir ver o Tim?, dou-te um bilhete”, “está a esgotar, despacha-te”. Claro que sim!, entusiasmo-me, lesto, pronto a ouvir o Tim d’agora, num “conta-me histórias, daquilo que eu não vi”. Hoje anuncio na vizinhança que irei ao concerto. “Onde vais comprar as ganzas?”, riem-se, “aos Candeeiros? ao Gordo?”, já com sarcasmo… arqueológico (sabem, sacanas, que a última vez que comprei uma pedra tinha 21 anos). “Vais com quem?”, avançam, cruéis, sabendo que não tenho “miúda” para içar às cavalitas, e mesmo se a tivesse a radiculite o vetaria. Mas estrearei o cantil que herdei do meu pai, vou comprar a vodka barata e bebível do Lidl, e seguirei ao São Jorge, “à minha maneira”, “Sacola às costas, cantante na mão”. Pois, sei bem, ainda “tudo em mim, é um fogo posto”, até porque “a vida é sempre a perder”.
Há três anos fui beber um copo de fim-de-tarde com a minha querida amiga Ana Leão, que chegara de Moçambique. Disso deixei esta croniqueta - de que gostei, tanto que a meti no pacote "Torna-Viagem" que venho impingindo. Nostálgica, até saudosista, muito resmungona. Mas também esperançosa. Pois foi o dia em que descobri a Livraria Martins na Guerra Junqueiro - era muito recente, dela não ouvira falar, desconhecia a origem, até a julguei ser coisa de "carola" livreiro mas afinal é de grupo editorial (o que é bom, garantir-lhe-á alguma sustentabilidade).
Não fiquei cliente - não posso comprar livros. Mas fiquei simpático. E, passados anos, ao descobrir que organiza um "podcast" Quinteto Literário ouvi duas sessões. Agora a terceira deu imensa polémica. Pois o crítico e escritor João Pedro George espalhou-se, e muito (e muito mesmo...) ao falar da escritora Madalena Sá Fernandes, e com o beneplácito do moderador do programa (que também meteu os pés pelas mãos, já agora). George já fez a sua samokritica mas quero crer que não lhe chegará para acalmar más vontades e abrenúncios.
George é um tipo interessante de acompanhar (ler). É uma espécie de "etnógrafo" do "campo literário" português - e como é usual entre os etnógrafos quando se abalança às suas "monografias" escreve de modo insistente, repetitivo, até cansativo, tamanha a sanha expositiva. Nesse registo lembro quando dissecou o Cotrim e quando abocanhou o Mega Ferreira - então ainda vivos -, textos relevantes pois demonstrativos do "campo cultural-político" da "lisboa" em que vivemos.
Neste caso borregou. Porque falou em termos descabidos de uma escritora, e isso será uma conclusão unânime. Inventa-lhe uma auto-erotização publicitária que não é verdadeira. E critica-a por divulgar os seus livros ("so what?", perguntar-se-á em bom português). Mas a matéria mais relevante é o conteúdo da sua anunciada "abordagem sociológica" à escritora.
Eu não conhecia Sá Fernandes até há umas semanas. Tenho uma filha de 22 anos - já agora, a Carolina, que apenas vivera em Portugal durante os confinamentos e no ano do seu primeiro mestrado, emigrou ontem, "foi lá para fora ganhar a vida" - que é uma jovem Senhora bem lida. O que é normal, pois com uma mãe leitora, um pai que também o é, ainda que anárquico, e avós leitores. Nenhum de nós, seus ancestrais, somos da "literatura" mas fomos dando "dicas". E ela desde há anos que faz o seu rumo leitor. Há dias recomendou-me uma crónica de Sá Fernandes - sobre o Café Luanda e sua avó - na qual se reviu. Eu também, simpatizei. (E é ela quem agora me chama a atenção para este "caso").
E julguei aquela crónica bem melhor do que inúmeros textos na imprensa de escritores renomados - "consagrados", "canónicos", indiscutíveis membros da "literatura" - que anunciam como "crónicas" meros textos de opinião política. Opiniões essas (mais ou menos justas ao olhar de cada um, isso não interessa) que são formas de construir, sedimentar, reproduzir, publicitar, a "personalidade literária" de cada autor. Uma auto-construção do "eu", do "self" literário, que parece ofender os membros daquele podcast culto da Livraria Martins. Mas, de facto, alguém ficcionista/poeta que vai para os jornais escrever (sem sequer ser pago, como agora é norma) a favor/contra ucranianos, palestinianos, vítimas dos bancos, da violência doméstica, vacinas, trump e quejandos, está-se a "construir" / "divulgar" mais do que se for almoçar à bela Serpa e se deixar fotografar. Feliz.
(E, lamento, mas uma pessoa com 30 anos normalmente é mais bonita - fresca, que seja - do que com 50 ou 60. Estes últimos podem ter ganho prémios literários, terem sido louvados no Público e no JL, mas estarão encanecidos, engelhados, com papadas descendentes, barrigudos, carecas. Criticar-se os mais-novos por não estarem assim? E terem o desplante de sair à rua nesses mais ou menos belos modos?)
Enfim, a matéria da "abordagem sociológica" deste modo exercida desperta-me dois eczemas, ambos relacionados com a velha oposição "nós"/"outros", o que bem ultrapassa os conteúdos das obras (até porque não sou especialista da "literatura"). No fundo, trata-se da tal "lisboa" a autodefinir-se. E resmungo com esses meus pruridos assim:
1. Abordar o trabalho de alguém segundo o paradigma "Joana Marques". Ou seja, abandalhar. Acontece que Joana Marques tem humor, esse sacrossanto álibi. E de facto esmiuça, cruel, o lumpen do entretenimento nacional, o qual incessantemente produz mundividências muito criticáveis - o outro dia ouvi-a sobre um DJ que clamava que aqueles que não seguem boas "griffes" não saem da "sopa torta", por exemplo.
Mas é impertinente abandalhar uma escritora, pacífica, apenas porque se considera que escreve segundo os modelos da "escrita criativa", porque (!!!) não corresponde visualmente às angústias que (d)escreve. Francamente, esta é a tal "lisboa" - "eu sou escritor e crítico" diz George, como tal pertence à "literatura". Já Sá Fernandes é gozada por ter o desplante de dizer "entrei na literatura". Isto é mesmo a tal "lisboa" desbragada, a cagança...
2. O segundo ponto, meu eczema mais grave, pois é o que mais me irrita. Sá Fernandes é invectivada - "sabe como se mexer neste mundo de hoje" - por usar as "redes sociais" para se divulgar (a tik-tok, a instagram, se fosse há alguns anos seria no FB ou mesmo, antes, nos blogs, estes lugares de ilegitimidade...). Ao lado de George e do moderador (que aventa ser a escritora uma "destruidora de casamentos", uma "boca" tétrica), está uma outra escritora, Ana Bárbara Pedrosa, da qual não li livros. Algo arredada do tom cáustico sobre a escritora, mas aproveitando para dissertar sobre a tal "construção" de "personalidades literárias" através do manuseamento da imagem nas redes sociais. Ou seja, as "redes sociais" (a exposição pública, entenda-se) e a conjugação com outros escritores são vistas como fenómenos "ilegitimadores" ou, pelo menos, apoucam...
É esta "lisboa" de novo. Desconhecia Pedrosa até há pouco. Há meses, numa alvorada, alguns amigos de Maputo avisaram-me de um texto dela, publicado (claro) no "Público". Passado algum tempo insistiu e publicou outro na "Sábado". Enviaram-me esses amigos a ligação ao primeiro texto acompanhada de questões, a mais simpática das quais era "quem é esta gaja?".
Ambos os textos são "crónicas" de viagem, quase como se reportagens, dedicados à situação política moçambicana. Poupo nos adjectivos: são ignorantes. E absolutamente cagões. E uma verdadeira encenação, uma produção de "personalidade literária" - a escritora empenhada chegada ao país "em crise" (ou, se se preferir, "a África"), que logo percorre (enfim, a capital...) e que logo tudo percebe e sobre isso perora, ciosa opinativa. A clarividência "on the road"...
Ou seja, para George e para o moderador, uma jovem escritora que escreve como ensinam na "escrita criativa" e se divulga porque se sabe mexer nas "redes sociais" digitais não "faz parte" e é achincalhável. Mas uma jovem escritora que se mexe bem nas "redes sociais" da "lisboa", a "secção africanista" do "Público" (sobre a qual é melhor nem discorrer) ou quejandos jornais, a "rede social" "activista", e decerto que em "sites" decoloniais, etc.? Essa já "faz parte". Pois "é das nossas".
Não fosse eu ateu e diria que os espíritos do Cotrim e do Mega Ferreira - que bem mereceram ser escalpados, já agora - se estariam a rir. Pois, de facto, "les beaux esprits se rencontrent".
Não está a chover e por isso - acolchoados nas vestes de inverno - alguns amigos agregam-se na esplanada do bairro, bebericando até à "abaladiça" do antes do jantar, como é hábito quase diário. Rodam os temas, os constantes, estruturais às (nossas) formas de estar locais - as imprecações contra o cadáver de Pinto da Costa, os achaques que acometem a vizinhança (e os seus estimados animais), a inaceitável junta de freguesia dos Olivais, notícias de bons restaurantes (re)visitados, séries das "netflixes" e quem deverá ganhar os óscares, até um ou outro novo livro folheado, a eterna questão, essa se Lage ou Borges. Mas também os da mera "espuma dos dias", simples e irrelevantes motes de convívio - laivos de resmungos com as rivieras de Gaza e da Comporta, insurgências com o trumpinismo, "como está aquilo em Moçambique, Zezé?", a fealdade da Bemformoso. E, hoje, esta novidade, isto "do Montenegro", cai ou não, deve ou não ficar?
A roda das rodadas é variada, como é bom nisto do ombrear. Ninguém é "político" - se alguém o fosse tal seria até, presumo-o, motivo para o seu ostracismo, num quase certo "vai lá para o Parque das Nações", explícito ou subentendido... Mas (quase) todos tendem para o resmunguismo, dito opinativo. Nisso há, minoritários é certo, os mais dados ao Largo do Rato - por ora mais acabrunhados, menos loquazes nestas coisas -, ombreando com os laranjas agora tonitruantes, e um ou outro liberalóide, a mais a vertente Chega mas mansa, o desiludido bloquismo - decerto que matutando nas virtudes do prof. Tavares, mas sem o confessar -, ocasionais visitantes new age, atreitos ao vegetarianismo mas militantes das "minis". Enfim, no belo mosaico só me falta alguém dos "ortodoxos", essa espécie em vias de extinção, e disso dou conta - quando regresso a casa, pizza do Lidl na mão - ao Camarada Pimentel. "Pai, por aqui já não há ninguém do Partido!", repito-lhe e ele, todos os dias, me explica as causas disso: "a alienação promovida pela imprensa capitalista!". E eu, "afenal!" (como tanto se exclama em Moçambique), não deixo de lhe dar (alguma, alguma...) razão, pois sigo sempre resmungando com estes comentadeiros tão superficiais.
Mas adiante! Ou avante!, melhor dizendo... Pois hoje veio à tona esta das "moções", a tal do "Montenegro, deve ou não ficar?". Tópico que colheu o mutismo de alguns, desses já saudosos das geringonças - acabrunhados, já o disse, também porque descrentes com o plantel que têm para esta época, feitos uma esquerda "Villas-Boas" por assim dizer. E o geral desagrado de tantos outros, contestando a relevância da minudência de que o nosso Primeiro-Ministro é acusado, uma mera campanha politiqueira. E Portugal - afiança-se certeiramente - ainda para mais no meio desta situação internacional não precisa mesmo de instabilidade, de crises. E todos concordam, concordamos.
Levanto-me, para ir lá dentro ao balcão buscar uma imperial. Faço a curial pergunta, "alguém precisa de alguma coisa?...", matizada forma de pedir mais uma rodada. E acrescento, sacaninha, "se este Montenegro fosse do PS que estaríamos aqui a dizer? Uns diriam "mata!!!". Eu diria "esfola!!!". Qual a diferença agora?". Promovendo assim o silêncio (concordante, concordante...) alheio. O qual logo aproveitei para me escapulir, rumo à minha nova imperial. Assim me safando, por episódico acabrunhamento alheio, de ter de pagar mais uma rodada.
Já aqui o disse, julgo ser injusto crucificar um partido devido a um radical desvio de um dos seus militantes, até deputados, e ainda mais se isso não se prende minimamente com os princípios e propostas políticas desse movimento. Mas a situação do deputado Miguel Arruda é tão excêntrica, patética mesmo, que o humor grassou. Da torrente de piadas recebidas aquela com a qual mais me ri foi esta, coincidente com a vaidade de Ventura por ter sido convidado para a posse de Trump...
Mas para além da evidente inocência dos seus (ex-)pares partidários diante do abstruso comportamento do deputado açoriano, o caso levanta uma interrogação. Sobre o substrato dos critérios de recrutamento e selecção dos dirigentes (e até militantes) do partido em questão - e, secundariamente, também dos outros -, em especial neste CHEGA que tanto se projecta através de discurso moralista e invectivador. Pois tendo agora o deputado Arrruda aparecido em várias entrevistas torna-se evidente que não se trata de um ardiloso camuflado, em busca de esconsos objectivos. É evidente que o homem não mostra ser o que afinal é, tão ridículo. Mas evidencia ser descabido - isto mesmo descontando que o ouvimos já a posteriori, conhecedores do seu desvario real. Mas ainda assim... Quem confraterniza politicamente com alguém assim, quem aceita e escolhe para postos elevados um perfil daqueles?
É impossível conhecer as pessoas, e os políticos, a priori? Até certo ponto é, mas não totalmente. Eu ilustro isto com um episódio, nestas croniquetas do quotidiano. Há dias eu e um amigo fomos a uma pequena actividade de cariz partidário ocorrida no nosso bairro. Ambos sexagenários, aqui crescidos, para cá regressados já maduros (até um pouco "tocados"). Ambos - tal como tantos outros fregueses - sempre refilando contra a inaceitável junta de freguesia, de socialistas pejada (desde 1980), gente tão abstrusa que o próprio PS encetou a sua pré-campanha eleitoral para a câmara de Lisboa retirando-lhes a confiança política, mas - atenção - sem nessa desconfiança abarcar a actual presidente Rute Lima, apesar das broncas tão noticiadas.
Enfim, tendo sabido daquele encontro anunciado como dedicado a questões de freguesias, incluindo a nossa, lá fomos. Para ver e ouvir, e talvez dizer algo - veteranos que daqui somos, repito. Era afinal um muito mais pequeno encontro do que antevíramos. Mas fomos acolhidos pelo contingente presente, alguns bons fregueses saudavelmente disponíveis para uma intervenção de cidadania, e dois dirigentes (locais?, nacionais?) do partido em questão. Dito isto, eu e o meu amigo, que íamos só assistir, excitámo-nos e estivemos horas a desbobinar uma sabatina sobre os Olivais, passado e presente. E em estereo... A determinado momento os dirigentes tiveram de se ir embora, o que não nos cortou a verve. Enfim, já a desoras para dia de semana lá concedemos descanso aos nossos vizinhos e todos nos despedimos, com simpatia mútua (espero...). Entrámos no carro, o Manel ao volante, e ao mútuo "eh pá!, o que é que achaste?!" coincidimos, em imediata exclamação, no vernáculo profundo sobre um dos dirigentes e no adjectivo suspeitoso sobre o outro. E desatámo-nos a rir, dada a nossa coincidência, tão imediata, epidérmica mesmo, diante dos verdadeiros políticos. Dois "maduros", nós, até já "tocados", repito... "Mas gente boa, estes nossos vizinhos...", "sim, muito!". E o Manel meteu a primeira e fomos comer uma sopinha...
Ora, e dito isto, o CHEGA não tem quem escolha as pessoas, quem as perceba? Ou tem, e é daquilo que procura?
Como avisara fui ontem à Rádio Observador, onde tive uma muito simpática conversa com o João Paulo Sacadura no seu programa "Convidado Extra", 3/4 de hora subordinados ao tema "o que é que andas(te) a fazer na vida?", e isto desde a mais tenra ... puberdade, que o homem me vasculhara. Ficou disponível aqui: https://observador.pt/programas/convidado-extra/como-explicar-a-frelimo-que-o-seu-tempo-acabou/
Logo que terminou a emissão recebi duas mensagens: uma queridíssima amiga, originária do Atlântico austral, louvando a conversa mas criticando "o sotaque lisboeta, a comer algumas palavras tornando-as imperceptíveis!", e eu a ficar-me atrapalhado, até rubro mesmo que sozinho... E logo a seguir um velho amigo (nunca me esqueço que me esmurrou no dia da festa dos meus ... 10 anos) a invectivar-me "quase não falaste do teu Torna-Viagem!!! assim não consegues vender, tens de aprender a falar...!". Pois, não tenho jeito, mesmo.
Mas, insisto, a conversa foi-me muito simpática. Quem tiver paciência bastará clicar.
Subo as escadas do metropolitano, aproximo-me da cancela, ninguém em meu redor - a esta hora todos já partiram deste poiso da "linha vermelha", voltarão já quase noite feita. Sinto alguém estugando-se para trás de mim, eu já de bilhete na mão olho-o de viés, um jovem (hoje em dia quem é que não me parece jovem?), homem feito, sem pingo de miúdo irreverente - mesmo que sem causa -, barbicha aparada, vestes informais mas nele nada há de vagabundo. Estanco, olho-o num aceno de "o que foi?", percebendo-lhe a causa do apreço pela minha senda. Ele dá-me largo sorriso, até solidário, e informa-me - num português veicular de sotaque inconfundível - que passará logo atrás de mim. Semicerro-me, irritado, "não!, paga o bilhete!". O sorriso atrapalha-se-lhe, insiste, querendo explicar-me o óbvio, eu repito "paga o bilhete!", ele oscila, ágil (é novo, o sacaninha), muda de eixo e salta a outra cancela. Eu penso "vai para a tua terra, cabrão!" mas censuro-me e só lhe atiro o "cabrão" enquanto ele corre, assustado, corredor afora.
Avanço, comigo protestando "um dia ainda levas um par de estalos!". Mas no último lanço de escadas ainda murmuro impropérios contra o mariola estrangeiro: "Brranco!!", desprezo-o em ímpeto xarroco!! "Francês!!" ("ou, vá lá, da Valónia", aponho-me em rodapé).
À boca da estação entro no primeiro café. Peço uma Coca-Cola. E ofereço-a ao Professor Ventura que em mim vive. Depois sigo à loja do cidadão, recolher o renovado passaporte deste meu país.