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Delito de Opinião

Bayete Catamo

jpt, 07.04.24

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Em finais de 2021 eu - como se comprova, sendo um muito competente "olheiro" (os patetas ignorantes agora falam de "scouting") - saudava a chegada do jovem moçambicano Catamo ao plantel do Sporting, augurando-lhe grande futuro. E ao assunto voltei no início desta época, exigindo também no Delito de Opinião a sua manutenção no plantel.
 
Assim sendo, creio que vos será possível imaginar o sorriso gigantesco com que ontem me deitei. Um cúmulo: estivera desde o fim da tarde no recomendável Roda Viva, restaurante moçambicano em Alfama. Ali organizara o "lançamento" do meu livro "Torna-Viagem" - que é louvado mas não tanto comprado... Apareceu um largo punhado de amigos - alguns vindos de bem longe, outros vindos de eras muito recuadas... E até família - a minha irmã, comparecida para evitar que eu dissesse palavrões, e cunhados, a apoiá-la na nobre e pedagógica missão.
 
Encheram-se as duas salas e a viela, enquanto se comiam as prometidas (e devidas) badjias e chamuças. Depois do cerimonial livresco - no qual falou o Fernando Florêncio e perorei eu - e do animado convívio avulso, umas quatro dezenas de presentes decidiram jantar ali mesmo, tendo tecido loas ao repasto. Enquanto eu cirandava de mesa em mesa foram-me informando da evolução do resultado. Houve júbilo no final do jogo, ali em Alfama.
 
Pela 1 da madrugada recolhi a casa, tão contente que quase feliz. E vi a gravação do jogo. Só então percebi que fora a noite de glória do Catamo! Neste meu dia não podia ter sido melhor!!! Bayete Catamo!!!,* disse ali no seu segundo golo, mesmo no final - na sequência de um inenarrável roubo do árbitro, a querer levar o Benfica ao título, uma escandaleira.
 
Ao acordar leio uma mensagem, amigo moçambicano desde Maputo, dizendo-me que ao ver o jogo do Geny se tinha lembrado daquele meu já antigo postal sobre o rapaz. Profético, profético... Enfim, apenas posso dizer, modesto: "sublinhem as minhas palavras!".
 
* Bayete - saudação destinada a um Chefe relevante no universo linguístico tsonga.

O meu livro Torna-Viagem

jpt, 01.04.24

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Torna-Viagem, de José Pimentel Teixeira (ligação com acesso ao livro no "sítio" de aquisição)
 

Escrevo em blogs há 20 anos - antes no ma-schamba e no Olivesaria, este um colectivo dedicado ao historial do meu bairro Olivais, depois também no sportinguista És a Nossa Fé. E agora no meu Nenhures e no colectivo Delito de Opinião. A um passo dos 60 anos, decidi publicar umas "memórias". "Presunção e água benta, cada um toma a que quer", e eu tomei a da ideia de talvez interessar a outros o que escrevi sobre o que vivi.

Retoquei uma centena de crónicas (de viagens e paragens), dois terços delas escritas em Moçambique, algumas sobre outros países onde trabalhei, o restante em Portugal no meu retorno após duas décadas de ausência. É uma espécie de "prova de vida"... Ao volume chamei-lhe "Torna-Viagem" e (auto)publico-o agora através da plataforma editorial Bookmundo. 

A impressão do livro é feita apenas por encomenda, tal como a sua venda. A quem tenha interesse bastar-lhe-á "clicar" nesta ligação directa ao livro, colocada no nome, e encomendar o Torna-Viagem

Os que quiserem "folhear" o livro poderão fazê-lo na minha conta na rede Academia.edu:  aqui, onde deixei capa, índice e os três primeiros textos.

Depois, como será óbvio, seguir-se-á o envio postal do(s) exemplar(es) comprado(s), processo que demorará alguns, poucos, dias. Ou seja, o livro não estará disponível nas livrarias físicas. Nem haverá futuros monos, sobras destinadas à célebre guilhotina de livros.

Finalmente, aqui replico a sinopse que apus no livro: Chegando agora aos sessenta anos deixo neste "Torna-Viagem" algo como se uma autobiografia. Faço-o através de uma centena de crónicas escritas durante as duas últimas décadas. Sessenta dessas agreguei-as na primeira parte do livro, à qual chamei "A Oeste do Canal", pois escritas sobre Moçambique, nelas ecoando viagens por aquele país afora, alguns pequenos episódios — trechos do real — que senti denotativos das transformações ali acontecidas, e memórias de personalidades que conheci durante os meus dezoito anos de permanência. Em algumas outras recordo momentos vividos em países onde trabalhei. E as restantes três dezenas formam a segunda parte do livro, na qual deixo excertos deste "Ocaso Boreal", a minha actual aventura de retornado pós-colonial defronte à "pátria amada".

O Pensamento "Woke"

jpt, 28.01.24

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Vejo o "E tudo o vento levou", que há muito não revia. Chega agora numa cópia restaurada há cerca de uma década, a avivar-lhe, mesmo que em mera televisão, algum do brilho fílmico que incendiou os cinemas aquando do seu aparecimento, fenómeno que foi. Lembro-me, vagamente, da primeira vez que o vi, petiz junto à minha mãe em cinema de grande tela - talvez o "Monumental", bem antes deste ser uma vulgata envidraçada de vendilhões do templo, talvez o "Império", também antes deste ser um templo de vendilhões.

Ela adorava o filme, percebi depois e lembro agora, saudoso, que por venerar Scarlett, feita arquétipo de pessoa, suplantando-se entre a candura e a estratégia, numa franqueza ardilosa, símbolo da mulher adequado ao circundante, mais necessário de afirmar em tempos já tão distantes que a boa língua portuguesa sobrevivia sem patacoadas como "resilência"... Ao longo dos anos regressei ao filme algumas vezes, percebendo que - afinal - articula o dramalhão comercial com o desfazer dos aparentes estereótipos, pois não só desfraldando as fraquezas masculinas como escorrendo algum sarcasmo com o estertor daquela nada bela "Belle Époque" escravista. Num filme de guerra sem guerra, assim sem heroísmos encenados, nisso subreptícias justificativas...

Mas ontem nem pensei nisso. Sexta-feira à noite fiquei a ver o filme ao lado dela, Marília, enquanto o meu pai António ia lendo na sua poltrona, alheado como (quase) sempre da televisão. Tinham vindo passar o serão, agradados com a visita que lhes fizera de manhã no cendrário dos Olivais - onde acorrera por razões outras, - tendo-me demorado, ali, junto ao que deles me resta. Até me sentir qual o Anthony Hopkins no final do "O Pai" que vi há dias, que foi o sinal para partir, que nada é bom em demasia.

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Depois do tão esperado e obrigatório "After all, tomorrow is another day", a mãe foi-se deitar e fiquei, como é habitual, de conversa com o pai. Ele disse-me que estou a fumar demais e, como é óbvio, resmungou com a pepineira do "Gone With the Wind". Foi o (por mim ansiado) sinal para politizarmos. Precipitei-me para o controlo e puxei o filme atrás - coisa que ele nunca faz, estranhando estas novas tecnologias - até ao princípio. E logo concordámos no ditirambo contra este pensamento "woke", paupérrimo arremedo de reflexão. Tanto barulho fazem os seus "activistas" para expurgar a história, para tutelar mentes, para "analisar" o "abissal" mundo. E para apenas saracotearem coisas como esta: enfrentar um filme destes, com o impacto que teve, quase quatro horas de filme, num argumento com as camadas que tem, e julgam relevante e necessário anunciá-lo como "produto da sua época e retrata preconceitos raciais e étnicos", como se houvesse algo que não o seja. E é com esta pobre mentalidade que se agitam, ufanos na crença de que "para criar um futuro melhor é necessário primeiro conhecer e compreender a história"... Assim?

O pai abanou a cabeça, em desprezo, e nisso tanto concordamos na aversão a esta pobre gente adormecida, enlevada consigo própria, tanto que se dizem "Acordados", essa sempre dita "esquerdalhada". Avancei um pouco o filme e digo-lhe "vê esta cena, pai", o baile no qual a jovem viúva Scarlett dança pela primeira vez, assim quebrando as regras do nojo, com o galhardo Rhett. E ela, enquando rodopia, diz-lhe "Mais uma dança e perderei a minha reputação para sempre", ao que ele responde "Se tiver coragem, pode viver sem a sua reputação". E o  meu pai, o Camarada Pimentel, sorri, anui, nem preciso de lhe explicar o que quero dizer - até porque já cheguei à idade em que não só o compreendo como também ele me percebe. "Querem a história sem "grão", como o dos filmes antigos, a história como "cópia digital restaurada", atiro. "É isso", diz, aceita. E repete que estou a fumar demais. Depois vai dormir. Estando, claro, acordado mas nunca "woke"...

Os meus votos de Boas Festas!

jpt, 18.12.23

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Entre amigos encetei ontem as celebrações natalícias, esta época de congregação em comunhão benevolente. A nossa laica celebração do Advento consistiu num vasto repasto composto por uma maravilhosa moamba, acompanhada por funge de milho e de mandioca (ou xima, para falar como em Moçambique).
 
Tudo isto, e também o picante acompanhante - mas, de facto, nem necessário tal o ponderado equilíbrio dos condimentos -, foi cozinhado com extrema excelência por um tipo branco, português ("tuga", como dirão os mais agrestes), que nunca pisou África... Como dirá aquela Joacine Katar Moreira (e seus apaniguados identitaristas): este apropriar festivo da culinária africana é um caso típico da "desfaçatez" "racista" e do "extractivismo cultural" dos portugueses. E nem no Natal afrouxamos.
 
Enfim, e digestão feita, aproveito para a todos (até aos tais "identaristas") desejar Boas Festas, um Feliz Natal - pouco perdulário - e um Saudável 2024! Bem Hajam!

Futebol

jpt, 09.12.23

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O ano passado adormeci três ou quatro vezes enquanto via jogos do Sporting. Afligi-me com isso, atribuindo o acontecido à crescente vetustez, já ascendida aos então 58 anos, isto da sonolência insone, do desmemoriar, da tensão alta, mais o pingo no nariz, a mão trémula, a corcunda descendente, as cáries viçosas, o lacrimejar involuntário, as unhacas recurvadas, a plural variz túrgida, a azia constante - a gástrica e a existencial -, o pesadelo com a "Mitra", o "ai se fosse no meu tempo" quando passam as beldades cinquentonas, as notícias dos (sobrinhos-)netos já adultos, o timorato ao volante, o "Sô Doutor" médico de família num "vá lá à Champalimaud inspeccionar os pulmões", e mais a vasculha da próstata e de restantes vísceras, o já entrever ao longe, desbotado o olho de águia (salvo seja...) que sempre foi o meu e, talvez mais do que tudo, o omnipresente "já não vale a pena"..., seja lá diante do que for.
 
Hoje percebi o quanto estava errado. Desperto estava, e bem, a ver um jogo do Sporting, deslocado à sempre Cidade-Berço, reduto dos vimaranenses. Saiu na rifa um penalti fajuto contra "nós", apesar de toda a parafernália videográfica... Passei logo ao Aston Villa-Arsenal, num "que se lixe tudo isto". O Villa veio a ganhar, para meu gáudio, (quase)sempre a defender o "abaixo de cão". Depois jantei com amigos uns bons bifes à moda açoriana, feitos por quem sabe. Bebeu-se um belo tinto "Grous". Entretanto o telefone disse-me que o Sporting perdeu, coitados. Os velhos que se preocupem com isso.
 
Pois nós, os novos, somos audiência de espectáculos a sério.

No Metropolitano de Lisboa

jpt, 17.10.23

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Nos Restauradores entro no Metro, desço ao cais e fico estuporado pois - ainda que soando algo baixo - reconheço acordes dos Doors, a L.A. Women logo julgo. Sai-me palavrão, peludo - e ainda pior, logo de seguida, ao ouvir a canção interrompida com anúncio a um qualquer cartão ("Viajante"?). São-me palavrões mudos, para mim mesmo, isto de ver os velhos Doors resumidos a "música de metropolitano", que nem de hotel.... E lembro-me, eu puto, do programa musical de António Victorino de Almeida, dizendo que a população de Viena (Viena!!!!, sim, Viena...) votara contra a música ambiente no metro...

Fogo!, que menosprezo, os velhos Doors metidos a música ambiente do Metro lisboeta... Que desplante, o da empresa... Não os ouço há quanto tempo?!, nem nas minhas fileiras do spotify, dizendo-os desengraçados, ao Morrison um histriónico até piroso e - até mais do que tudo - nestes meus já 59 anos não tocando naqueles seus produtos há para aí 40 anos, vade retro, satanás, disse mesmo que ateu, avesso àqueles químicos, depois descrente do vegetal psicotrópico.

Agora, é já noite, e deparo-me comigo, nas mãos tenho este "Uma Oração Americana e Outros Escritos", editado pela Assírio e Alvim (ainda assim escrita), que comprei em Dezembro de 1981... Já tocou, bem alto, e eu cantei, o "Everybody loves my baby, everybody loves my baby, she get high, she get high, she get high, she get high, yeah"!

Agora toca, e eu leio, "As pessoas são estranhas quando nós o somos, / feias são as caras quando nos vemos só. / Toda a mulher que nos rejeita nos parece perversa, / as ruas são tortuosas quando estamos em baixo. / Quando nos sentimos estranhos, surgem-nos caras através da chuva, / quando nos sentimos estranhos, ninguém se lembra do nosso nome, / quando nos sentimos estranhos, quando nos sentimos estranhos, / quando nos sentimos estranhos." (Tradução de Manuel João Gomes). Pois é assim mesmo...

Enfim, afinal... obrigado Metropolitano de Lisboa. E, já agora, alguém por aqui tem aí alguma coisa...?

No Ginjinha Popular

jpt, 16.10.23

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Venho à Baixa, o que me é tão raro. Subo um pouco a avenida, numa entrega que me cumpre. Estanco diante deste magnífico Hotel Vitória - há quantos anos não olhava para ele. E noto-lhe mesmo uma bela característica, por nesta ala é agora o único sítio que não vai como loja gentrificada. E roubo esta pobre imagem enquanto entoo - por essa razão, suficiente - "Avante, Camaradas!".

Depois desço, à das Portas de Santo Antão, já apenas em breve passeio. Mas iro-me, cruzando estes pacóvios wine bar, pindéricos coffee and toistery,, miseráveis kebabes, explode-me a imprecação agourenta diante de uma "tapas de Sevilha" no centro da minha capital (!) - como se atrevem eles?, ainda se fosse uma tasca galega, de tonel à porta -, e já nem o "Inhaca" fronteiro ao Gambrinus encontro.

Mas, de súbito, deparei-me com uma ainda tasca lisboeta. Acorro à esplanada, a colher alento. Passa uma pequena tuna, de quase caloiros decerto, a trautearem - muito mal, coitadinhos - uma qualquer dos velhos Delfins. Sorrio, revitalizado.

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E, ao simpático empregado, cancelo a bica pedida, lembro-me do passado como era e chamo por uma imperial com um panado, isso que se comia e há que anos não lhe chego. Vem ele como deve de ser, carcaça já algo serôdia, carne encarquilhada, o travo a augurar uma leve e tão desejada azia. 

E assim estou aqui, feliz no Ginjinha Popular, este sem ademanes nem requebros. Pois, como se canta em Moçambique, "juro, sinceramente, palavra de honra, vou morrer assim". Português...

Slava Vida!

jpt, 14.10.23

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A primeira regra de um bloguista é evitar o resvalar para o intimismo. Não por mera auto-preservação. Mas sim por educação, bom gosto, decência até. Para quê mostrar as varizes e pústulas, o corrimento das desengraças e até desgraças próprias, reais ou imaginadas? Que interessa isso aos outros, decerto que embrenhados nos seus próprios correres (e corrimentos)? Sempre sigo isso, ainda que alguns amigos próximos percebam as minhas flutuações - e disso reclamem -, presentes no discorrer sobre as coisas várias.

Vinte anos de bloguismo! Como me esconder diante de tanto perorar? Confesso, com pesar, a presença de alguma amargura, a qual decerto transparece, coisa de homem frágil, não vitorioso. Essa que o grande Graham Greene - esse que escreveu o meu livro preferido, pois me desvendou o rumo ainda eu adolescente, o de futuro Fowler, o do "Americano Tranquilo", explicou, ao dizer num alhures do seu parco "Terceiro Homem": "Nunca nos habituamos a ser menos importantes para as outras pessoas do que elas são para nós". 

Acordo hoje, um sábado depois daquele ontem no qual finalmente acabou o longo, e assim tão maldito de preocupante, Verão lisboeta, e quando até, aleluia!, choveu... Ponho os óculos e vejo que no telefone tenho mensagens, educadas mas cálidas, dessas que resssucitam pois provenientes daquele que dizíamos "belo sexo". Assim me reforço no aventurar diante do malvado novo dia. Mas logo me deparo com um amistoso convite - de tipo que quase nem conheço, apenas leitor do meu bloguismo - para um almoço no afamado "Dom Feijão", para que possa eu conhecer um bibliófilo extremado. E não é qualquer ideia da (sempre tétrica) comezaina que me anima, mas sim a convocatória até excêntrica que assim tanto me acalenta...

Sigo à lida doméstica - não vá a chuva atrapalhar-me o estendal... E toca o telefone. Uma tão bela amiga, que tantas vezes utopizei como cunhada, convida-me para o seu jantar (familiar) de aniversário. Um pouco depois, eu às voltas com outros afazeres caseiros, telefona um outro amigo, recente pois feito neste bloguismo, a ordenar-me que desça à rua para dele colher algo, apressadíssimo está. Acorro, ainda sem duche, e entrega-me ele um pacote de meia-dúzia de chamuças - pois chamucista me sabe, via os tais postais de blog - e duas cervejas, ucranianas. Comovo-me, insisto em que suba, ao que ele se nega dada a azáfama que hoje o recobre...

Sento-me à mesa, sozinho mas assim nada solitário, pois tão acompanhado. São já 12.15 horas, legítimo horário para que um cavalheiro, mesmo se desvalido, possa beber. Um copázio de Queen Margot enquanto desembrulho as chamuças... Depois abro esta Robert Doms, percebendo-a saborosíssima, para aquelas acompanhar. Na TV uma velha gravação dos clássicos Art Blakey e Horace Silver, enquanto leio o Simenon que o meu pai António tanto me recomendou - avisou, assim mostrando diante da minha distracção o quanto me conhecia. Estou na sua sala, quase nada mudei, tirando os quadros afixados. Olho, de cerveja na mão, para o meu Shikhani que vou vender e resmungo "Foda-se, vou vender os meus Shikhani, caralho, estou bem fodido!", pois "como desci a este ponto?", e sei que ele se preocuparia comigo, rodando o seu copo de genebra. Ou rum...

Mas logo me assoma a ideia, óbvia, de que um amigo recente veio das Avenidas Novas para me ofertar chamuças e cervejas ucranianas. E um outro, ainda mais recente, me chama para almoço interessante nas tais Avenidas Novas... E ainda tenho o jantar de gente querida. Sorrio, diante do Shikhani, percebendo-o afinal não a minha vida. E clamo, copo de (boa) cerveja ao alto, "Slava Ukraini"!!!

Ou seja, Glória à Vida!

Favas em Almada

jpt, 02.10.23

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Vou usar o barco para atravessar o Delta do Trancão. Chego ao cais em cima da hora, leio que está quase de partida, estugo o passo e acorro à bilheteira. Nela se arrasta um casal de decanos, em atrapalhadas delongas, informações descabidas, carteiras confusas, esmiuçar de trocos. Segue-se-lhes uma meã trintona, dotada de aquele tão típico ar de simpática geniquenta, sempre insuportável. A qual embrulha a aquisição do bilhete com o vasculho da carteira, perguntas sobre quaisquer outros assuntos e até sorrisos circundantes. Lá compro o bilhete, um minuto depois do cais ter encerrado. Não é grave, não estou apressado, a favada almadense por ora meu destino não fugirá e nem sequer estou atrasado, além de que no bolso trago um livro e tabaco, antevendo delongas.

Mas irrito-me com estes pequenos egoísmos, os dos "direitos adquiridos", naquilo do "estou à vossa frente, aguentem-se, atrasem-se ao meu ritmo...", a inexistência de qualquer cuidado com os vizinhos, esta forma de cidadania dos filhos de malteses e ratinhos, catarse dos destratos sofridos pelos antepassados. Por isso, e já só diante dos torniquetes, resmungo, em monólogo pouco audível, "raisparta estas conversas na bilheteira". Mas o porteiro - que agora é dito e fardado de "segurança" - ouve-me, sorri, e completa-me "é esta estrangeirada!...". Sigo-lhe que "não, estes chatos até eram portugueses". Ele riu e insiste "mas a estrangeirada fala muito...". Agora sou eu que sorrio e vou lá fora fumar. Mais sorrio por o compatriota suavemente irónico com a tal chata "estrangeirada" ser negro. E como este pequeno desabafo afinal me mostra que isto está muito melhor do que alguns o pintam.

Meninos?

jpt, 08.09.23

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Anteontem jantei no promontório que olha o Sado e avista o Tejo, num pequeno sítio que desconhecia, pois segunda-feira em vilória, mau dia para demandar casas de pasto. Ali uma espécie de absurdo a Sul do Tejo, pois alguém aprontou uma casa de "pastas", uma italianice. Coisa que nunca tem sentido, quanto mais naquele universo rico em saberes de açordas. Refeição partilhada com alguém que mal conheço, estávamos na terceira pessoa e assim ficámos. Fomos frugais: uma entrada de moelas fornecidas de molho com sabor enfarinhado, uma salada de tomate sensaborão com queijo branco, dito fresco. E depois um esparguete partilhado, que o cardápio apresenta em nome estrangeiro. Beberam-se umas imperiais, tudo isso o suficiente para se matar a fome do fim da jorna.
 
Mas o pior de tudo foi o empregado, um rapazola nas cercanias dos trinta anos, com os ademanes concentrados no vozear. Diante de mim e do parceiro de mesa, um quarentão, calva a despontar, passou aquelas duas ou três horas a tratar-nos por "meninos". À segunda imperial estava eu com vontade de lhe dar um par de tabefes, e não estava sozinho nisso. Sou liberal, que cada um faça com os genitais e os anais o que lhe apetece. Mas que vá ele trinar de "meninos" quem o sodomiza, "a falta que a tropa faz a estas gerações" escuto-me, nisso do desagrado com gente pateta que já não aprende a escala etária, aquilo da antiguidade. A mais-velha atrás do balcão estava simpática, como deve ser, presumi que ali algemada ao verme loquaz. Decerto que percebera o desadequado, pela forma como se veio despedir, apaziguadora.
 
Dois dias passaram. Hoje de novo tive a sorte de ser convidado a jantar. Com um amigo, não íntimo mas que se vem tornando próximo, ele recente sexagenário por direito próprio. Agora na capital, no velho CCA, diante do Santo António, uma esplanada de triste nome "Mula" mas com bom serviço e aprazíveis petiscos. Um jovem empregado muitíssimo eficiente e simpático - angolano, por cá há um ano... Perto do final, e depois do meu parceiro ter feito elegante alusão àquilo do meu cinzeiro já estar repleto, eu lançado no "pode-me trazer mais gelo, por favor", surge-nos a chefe de sala, uma simpática e muito bem apessoada brasileira, perguntando-nos "o que desejam os meninos?". Expludo! Para vera surpresa dela... "Não chame "meninos" aos homens", convoco-lhe... E enquanto o mariola do meu parceiro lhe vai dizendo "eu não me importo", defende-se ela argumentando "que aqui todos usam assim". Resmungo-lhe, ainda que procurando ser simpático (ela é, de facto, e repito-me, bem apessoada e estava gentil), que esta é uma moda recente, estúpida, até de desrespeito, isto de chamar "meninos" aos homens. Ri-se, riposta que ao chamar-lhe eu "senhora" a estou a fazer mais velha do que é. Rendo-me, concedo-lhe que "quando cá voltar a Senhora pode chamar-me menino" (ela é, não sei se já o disse, bastante bem apessoada), "mas diga lá aos seus colegas para evitarem isso".
 
Mas de onde virá esta moda, absolutamente patética, de chamar "meninos" aos clientes? Esta gente anda a brincar com quem?

No metropolitano

jpt, 29.08.23

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Ontem, Estação de Metropolitano de Chelas, quase 23 horas. Comboio parado, luta de grupos - verdadeiramente multicultural. Tem ar de coisa avulsa, mera "zangadaria", não aparentando ser confronto de grupos "orgânicos" (os sempre ditos "gangs"). Nada de tiros, felizmente, nem se vêm brandir naifas, pedras ou coisas do género. Mas muito mais a tradicional gritaria histérica. A passageira brasileira que me ladeia - talvez por me ver seráfico, ainda que amarfanhando o pobre livro de bolso - pergunta-me "é preciso esperar que chegue a polícia?" antes que retomemos o nosso rumo, pois "assim vou perder o autocarro das 11...". Respondo-lhe, fleumático - já espreitei, notei a tal ausência de armas e a prevalência dos apenas símios gritadores, tendencialmente inofensivos - "não faço a mínima ideia, nunca vi uma coisa assim". Crianças choram, mulheres praguejam, transumância entre carruagens, velhos caducos caducam. Um destes, que é da zona - di-lo pelo sotaque e, mais do que tudo, através dos trejeitos -, logo avança a bom som as suas explicações para o caso pois "há pretos", olhado com algum espanto pelos circundantes ali retidos, entre os quais haverá um ou outro "branco" para além de mim e dele, e da brasileira (a qual talvez se reclamasse, lá no país dela, "parda" para ver se colheria alguns apoios estatais). Os dois sikhs estão calados, ainda que os turbantes lhes pendam um pouco.  Imensos brasileiros brasileiram, e como praguejam!, comprovando os seus "avôs transmontanos", apesar de serem - se necessário - também "afrodescendentes". Os chavalos de Chelas seguem a la Olivais, não se ficando atrás no esbracejar e no vernáculo, mas este sai-lhes sem o trinado arábico típico do nosso bairro. Não há dúvida, para além da Marechal Gomes da Costa o sotaque é diferente. A malta PALOP está calada e furiosa com estes atrasos a atrasar o descanso. E alguma olha-me, quero eu imaginar, com simpatia - haverá algo no meu semblante que dirá por onde andei? Ou será por ser o único dos dois velhos tugas brancos que ali não clama "há pretos"? Os funcionários estão excitados, cais acima, cais abaixo, armados de velhos Motorola, ou similares. Enfim, espera-se a polícia. Milhazes é citado com abundância. Uma das alas contendoras avança e dissemina-se na minha carruagem, continuando a gritar os impropérios que são rescaldo, catarse e ressaca. 

O comboio avança. Mais uma estação e chego ao destino. Estou, verdadeiramente, em casa. Na escada rolante um companheiro de viagem, talvez angolano, murmura-me, entreolhando-me, "filhos da puta!". Sorrio-lhe, encolhendo os ombros. E não lhe digo o que penso: somos, de facto, aqui e agora, nós os dois, lusófonos!

Crepe

jpt, 26.08.23

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Durante quase meio século sentei-me nesta esplanada olivalense, se, quando, por cá. Aqui bebi do Ucal de chocolate à (dulcíssima) amêndoa amarga, bicas, comi inúmeras tostas mistas, fumei charros, regressei para as melhores empadas de galinha da vida, e entretanto bebi alguns gins, magníficas imperiais, uísques bem servidos... Nisso sucederam-se incontáveis conversas, encantei-me com vizinhas e visitantes, ombreei com quem é ombreável - e até me zanguei com um ou outro. E em tudo isso, nestes todos anos, sempre fui o Zezé.
 
Após bastante tempo regresso hoje aqui para frugal jantar. Agora restaurante chinês, no qual sou um evidente Zé-ninguém. O decente crepe e a fresca Super Bock são-me trazidos por uma simpática (e bonita, se me permitem) empregada nepalesa, recém-chegada ao país. E neste meu recanto olivalense, onde cresci e agora degenero, com ela tenho de falar em inglês.
 
Peço uma segunda cerveja, e constato: a única coisa que mudou é que é uma sexta-feira nos Olivais e eu janto sozinho. De facto, todo o resto são pormenores...

O Preço do Azeite

jpt, 01.08.23

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Na passada semana, durante um aprazível almoço, um bom amigo, homem avisado das coisas do mundo avisou "é melhor comprarem azeite, que ainda vai aumentar mais, e muito", coisas da parca colheita. Atendendo ao estertor em que as minhas garrafas estavam - e ao Agosto mais culinário que me espera - fui agora à "grande superfície", sempre Lidl, abastecer-me do frugal rancho que me cabe mas também de me reforçar do dito azeite. Daquele básico, baratucho, claro. Já não devia comprar há uns tempos, talvez desde Março ou assim, dadas as andanças que tenho tido. Fiquei estupefacto. Boquiaberto. Melhor dizendo, transido! Se não dobrou de preço para lá caminha....
 
Regressei de mãos a abanar. Na expectativa de ir aos rivais, em busca de uma qualquer "promoção" azeiteira, para poupar uns euros para o tabaco. Ou então, logo pensei, passarei a fazer os estrugidos com Queen Margot, que esse ao menos quase não encarece.
 
(Deixei este postal, mais pessoal, no Nenhures. Mas a simpática equipa do nosso anfitrião SAPO deu-lhe um agradável Destaque, nisso acalentando-me a trazê-lo também para o Delito...)

Leituras Dominicais

jpt, 18.07.23

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Não sou um grande fan do estilo de João Pedro George. Exemplo desse meu desconforto é como recebi o seu recente, tão interessante e até etnográfico escalpar de António Mega Ferreira (que veio a morrer pouco depois), demonstrando as continuidades entre Estado Novo e esta (II/III ?) República, bem avessas à mitografia vigente, e tão demonstrativo das formas de apropriação dos recursos públicos pelas redes de agentes do aparelhismo. Mas o acinte palavroso do analista - que não é embrulho mas sim conteúdo - abespinha-me.

Enfim, no domingo vim do Minho até Lisboa de autocarro. Nisso terminei o pdf do sagaz e sábio Bayart “Os estudos póscoloniais: um carnaval académico“, uma resenha letal sobre a mediocridade dessa tralha “decolonial”, por cá alapada no "Público", ”activismo”, academia esquerdista e “africanistas” da moda. Depois terminei esta colectânea de Joaquim Paço d’Arcos, escritor muito lido em meados de XX, livro que comprei em data incerta em banca de monos. Contos competentes mas nos quais não encontrei o indizível que procuro na ficção. Entretanto, já após o cigarro fumado na breve escala na estação de Fátima, li o texto de George no “Sol” sobre o romance da jornalista Anabela Mota Ribeiro ("A Questão do Cocó: Um Estudo de Caso"), livro que tem vindo a ser muito elogiado e no qual a autora elabora sobre as suas fezes e as estratégias que assumiu para defecar desde a mais tenra infância. A análise de George elucidou-me. Fez-me rir. E reconciliou-me com o seu estilo.

Nisto lá cheguei ao terminal rodoviário de Sete Rios. A caminho do metro encontrei uma banca de livros usados. Uma avantajada secção francófona - do “Pére Goriot” a Montherlant ou Julien Green… Tudo a 3 euros, cada. Ou 5 se emparelhados. Ou seja, para quê andar a comprar estas “novidades” sobre fezes?

(Deixado no Nenhures)

O fim de uma era: a morte do "Arcadas"

jpt, 30.06.23

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Há tempos aqui falei do café do meu bairro, meu poiso durante décadas, desde petiz: o "Arcadas". Então saudava a sua reabertura sob a antiga e prestigiada gerência. Mas foi curto o regresso à actividade, passados alguns meses os proprietários regressaram à merecida reforma, ao remanso dos seus "anos doirados". Ficou encerrado o café, sito na loja do prédio, como tantos outros exemplos aconteceram nos Olivais, característica da urbanização daquela década de 1960s a induzir o pequeno comércio local. A clientela, envelhecida e cada vez mais esparsa, esperando um trespasse que mantivesse um mais ou menos "como sempre" na sua vida de vizinhança...

Os pequenos cafés e restaurantes (as tascas, casas de pasto, etc.) serão um modelo de negócio urbano algo condenado. Os hábitos de consumo mudaram, pelo envelhecimento da população - e em alguns nichos pelos devastadores efeitos na saúde física e mental que a pandemia de Covid-19 teve; pelas sucessivas crises económicas, a retrair hábitos tornados "despesistas". Na redução da procura de alguns produtos típicos, a "bica" substituída pelas máquinas domésticas, o bitoque ou a tosta mista trocados pela entrega de fast-food (e não só) ao domicílio, a desnecessidade de ir comprar (ou ler) o jornal, dada a profusão televisiva e digital. E o convívio migrado para as redes sociais e os telefonemas tendencialmente gratuitos. Tudo sublinhado pela concentração de clientela causada pela construção de enormes "grandes superfícies" - patadas urbanísticas advindas na incultura estuporada do período cavaquista. Por outro lado, o pequeno negócio - quantas vezes familiar, concentrado em torno de um casal, coadjuvado pela prole ou parentela - deixou de ser um factor de mobilidade, social e geográfica, com mais atractivas hipóteses laborais para uma população já urbanizada, e que assim se escapa à sobrecarga horária que esta actividade implica. E está sobrecarregado de taxas e regulamentos, numa sociedade e economia estatistas, escorada numa fiscalização digitalizada implacável face às pequenas empresas, e que veicula uma ignara visão do que é higiene, consignando-a à utilização de "detergentes certificados" ou quejandos detalhes.

Enfim, tudo isso é o pano de fundo mas o libreto depende de cada lugar... Tenho andado longe do meu velho bairro. Nisso do convívio com os vizinhos olivalenses, entre os quais me restam um punhado de velhos amigos. Na expectativa de que o "Arcadas" reabrisse, pretexto para lá ir, rever gente, retomar conversas. Há dias um amigo enviou-me esta fotografia, sublinhando o fim de uma era. No final do beco ermo surge agora um restaurante chinês... Nada tenho contra imigrantes e imigrações - ainda que sempre me interrogue sobre a particularidade do modelo migratório chinês, mas isso é outra conversa. Nem contra a pluralidade de oferta gastronómica, em especial os já tradicionais "restaurantes chineses", cuja disseminação por cá até terá sido pioneira - e sempre lembro as juvenis patuscadas num chinês barato na Duque de Loulé, desde as quais neles como sempre o mesmo (os eternos crepes, chop suey e porco doce, cardápio que presumo inexistente na própria China).

Mas, raisparta, ao ver (mais) um restaurante chinês alojado na loja do (meu) "Arcadas", lá no fim do ermo beco, lembro-me do final de recente leitura, pois é exactamente assim que me sinto. O então afamado escritor e cronista Júlio César Machado foi viajar uns meses por Itália na década de 1860, lá palmilhou o Norte, conviveu com Milão, calcorreou Veneza - sob o pérfido domínio austríaco -, isto, dizia, numa época em que "os portugueses não viajam". Dessas andanças deixou um livro interessante, "Do Chiado a Veneza". E a narrativa dessas até aventuras termina assim, explicitando o que realmente importante retirava da sua passeata pela bela Itália, berço da nossa cultura, onde não podia sair à rua sem se deparar com o monumental legado de História e Arte:

"Ao voltar porém daquela formosa Itália, que é a pátria das artes, da graça, da benevolência, do bem-estar e das doçuras da poesia, vim encontrar em Lisboa um grande acontecimento, que durante a minha ausência tivera lugar aqui:

Fechara o Marrare!...

Ora, devo dizer-lhes, Portugal é Lisboa, Lisboa é o Chiado, e o Chiado era o Marrare. O Marrare não era o primeiro nem o melhor botequim, era o único botequim. (...) Era a casa das noites e das manhãs: de tarde, ninguém; à hora em que nos outros botequins não havia mãos a medir para atender aos fregueses, que iam tomar café, a essa hora os fregueses do Marrare estavam a vestir-se para ir jantar. Mas pela noite adiante, que agitação, que vozearia, que teorias transcendentais acerca da arte, que discussões políticas, que dissertações com respeito à música (...)

Conquanto nos últimos anos houvesse perdido alguma coisa do esplendor antigo, e cada dia lhe fosse deixando um vácuo que o dia de amanhã não preenchia, o Marrare era ainda nos últimos tempos um dos lugares mais curiosos de Lisboa. Conservava-se ali a tradição; ali morava o Entrudo; vivia já de recordações, mas vivia; era um veterano a contar as campanhas!

Palavra de honra! Quando cheguei e vi no Marrare aquela loja de sapateiro que lá está agora, percebi que há uma cidade mais devastada ainda do que Veneza... é Lisboa!"

(Júlio César Machado, Do Chiado a Veneza, Tinta da China, 217-218)

A greve da função pública

jpt, 09.06.23

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Em pleno Cais do Sodré os meus intuitos ferroviários de aceder ao oeste são abalroados, surpreendido que sou pelos efeitos de uma greve da função pública a muito atrasar os comboios - numa sexta-feira "ponte"?, estes sindicalistas aburguesados não têm pingo de vergonha!

Pai assim pesaroso, recuo a Sul do Tejo. Mas antes tomo balanço, e já que aqui cruzo a praça até este British Bar. Ao qual não vinha há anos - julgo que ainda se fumava, mas de resto parece-me igual ao que sempre foi, aleluia - pois local que só frequentava com amigos de Maputo por cá passando, velha tradição de muitos que de lá vieram. Alguns deles já ausentes... Por isso peço uma imperial, que já passa do meio-dia. E ingurgito-a com o Kok Nam, com o Paulinho Gentil e também, já agora, com o Jorginho Ramos ainda que aqui nunca tenha estado com ele. E mais um ou dois, estes dos que ainda cá andam.

E por isto, por esta inesperada companhia, digo, e apesar de tudo, "joe, ainda bem que houve greve". Pago, mais do que em Palmela ou nos Olivais. E ala, que se faz tarde...

A Carris Metropolitana

jpt, 27.05.23

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A Carris Metropolitana é uma complexa iniciativa, agregando transportes rodoviários em torno da grande Lisboa. Ao que me constou foi atribuída por um concurso público, ficou nas mãos de empresa espanhola que terá adjudicado este negócio a uns israelitas - talvez seja verdade, talvez não. Consta que importaram dezenas de motoristas caboverdianos, por défice de profissionais habilitados que para esta nova empresa quisessem trabalhar. Enfim, depois de uma longa gestação, na articulação inter-municipal, a empresa (julgo que criada para o efeito) começou a operar. De imediato surgiram inúmeras queixas da população sobre o seu funcionamento e planificação de trajectos - ou seja, e em linguagem mais apropriada à Margem Sul do Tejo, a mão-de-obra contestou como os municípios os conduziam até à labuta diária ao serviço do patronato, público ou privado.

Dito isto: passado um ano de funcionamento abeiro-me de um autocarro que me leve a sul do Tejo. Na página da empresa os horários estão afixados. Tal como estão nas paragens da linha do autocarro 4710. Mas a empresa alterou os horários sem que tenha modificado a informação digital e física, descurando-nos. Assim em vez do anunciado transporte das 12.30 agora há um às... 14.30! Duas horas de espera. 

Eu perco assim uma, consabidamente excelente cachupa, à qual me dirigia. Outros perderão o que bem sabem. Todos perdemos algo. Tempo, pelo menos. 

Os autarcas, diante desta inaceitável arrogância da empresa a quem adjudicaram este serviço, protestarão que nós clientes (e não utentes, como nos querem desvalorizar) temos a mania de protestar por tudo e por nada. Os donos da empresa continuarão a lucrar, os administradores a serem tonificados com bons bónus. 

E nós, povo, que nos lixemos. Em 2023. Como sempre até agora.

Antes da fronteira

jpt, 20.04.23

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Enorme, a sinuosa fila do controlo de documentação. Estou bem, esta barba rapada, mochila nas costas, sinto-me com o vigor de um Haddock nos Andes, a pertinência de um Mortimer na Atlântida, a “resiliência” - como agora se deve dizer - de um Jonathan nos Himalaias, a rudeza de um Mike Blueberry nas Montanhas Rochosas, a destreza de Buddy em escarpas e planuras, o encanto frágil de Corto em Mu. E até mesmo dono da verve lesta e ferina de Achille Talon. Uma funcionária, uniformizada e com a estrita beleza da sua ainda juventude, avança para mim "Que idade tens?". "Para que queres saber a minha idade?", respondo-lhe na minha língua, ela insiste e eu repito-lhe a negação, num afrontado “mas porquê?”. Mas ela impõe-se, “diz-ma, vá!”. Rendo-me e digo-lha, ela nem sorri no seu ir-se embora, e naquele seu primeiro passo atiro-lhe “nunca mais virei ao teu país!”. O tipo da minha frente ri-se, percebe-me a língua e a angústia, “brasileiro?” pergunta-me em modo solidário e diz-se mexicano, ainda que pareça um baneane de I’bane. Forço-me à meia dúzia de palavras trocadas, aspirando aquele ânimo que ele me oferece. Pois desmascarado afinal Steiner que fui…

Trocar o real pelo digital

Não há democracia verdadeira sem comércio de bairro

Pedro Correia, 03.04.23

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A relação cada vez mais desumanizada das pessoas com o espaço onde moram, sobretudo nas grandes cidades, acentua-se à medida que nelas proliferam os estafetas para todo-o-serviço. Gente que vem de fora, muitas vezes oriunda das periferias mais precárias de Bombaim, Calcutá, Daca, Catmandu ou Carachi, assegura a relação entre o comércio e os domicílios burgueses que por cá vão restando. A pandemia afugentou muitos de nós das ruas - alguns, mais velhos ou mais propensos à solidão, encerram-se quase como reclusos nos domicílios. Enquanto o pequeno comércio de bairro, tantas vezes pedra angular das relações de proximidade, encerra a um ritmo galopante neste país em que todos os dias há 14 restaurantes a fechar de vez

Dominam as "grandes plataformas" impessoais, sem rosto nem nome, manobradas do estrangeiro. Instauram um mandamento dos novos tempos: tudo deve processar-se por via digital. O que era outrora cenário distópico torna-se realidade. E muitos de nós somos coniventes, talvez convictos de que embarcamos na última carruagem de um admirável mundo novo. O mundo em que um paquistanês sem identidade, igual a qualquer outro, acaba por ser um dos nossos raros pontos de contacto com a rua.

 

Não vejo "progresso" algum nisto: só vislumbro retrocesso. Proletarização da sociedade, precarização dos laços humanos, troca do real que agrega pelo digital que segrega.

Daí aplaudir quem rema contra a corrente. Pessoas como o Henrique Raposo, que escreve estas admiráveis linhas na mais recente edição do Expresso:

«O declínio do comércio local não é apenas um problema do Excel da economia e do Estado, é um problema social no sentido mais profundo da palavra "social": o que está em causa é a própria ideia de sociedade que é feita no dia-a-dia na rua. Se compram tudo online, as pessoas estão a matar-se enquanto "vizinhos" da rua, estão a definir-se apenas como "consumidores" do mercado e como "contribuintes" do Estado. Eu não vivo nem do mercado nem no Estado, dois meros instrumentos; eu vivo na minha rua. Quando valorizam apenas o comércio online ou as grandes superfícies comerciais, essas naves espaciais que sugam a energia das cidades, a cultura e a política do nosso tempo estão mesmo a matar o velho conceito de bairro. E sem o bairro tocquevilliano não há democracia nem na América nem na Europa. Ou seja, a desmaterialização do comércio também é a desmaterialização da democracia. Ruas sem lojas e cafés de pequenos proprietários são ruas inseguras, para começar, e tristes, para acabar. Ou não se pode falar com os vizinhos porque há medo ou porque há uma enorme aridez e solidão.»

Assino por baixo.