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Quem fala assim... (31)

N. Câmara Pereira (31): «Gosto do Popeye»

por Pedro Correia, em 06.03.21

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«O hino nacional é excelente: militarista, agressivo, dinâmico e nostálgico. Foi oferecido pelo Alfredo Keil a D. Carlos. E a república adoptou-o» 

 

Engenheiro, activista monárquico, antigo deputado do PPM e membro de um vasto clã de fadistas, com intérpretes de pelo menos três gerações, Nuno da Câmara Pereira foi afável ao telefone. E rápido nas respostas a este inquérito disparado à queima-roupa. Tinha um máximo de dez segundos para cada uma, disse-lhe. Era a brincar. Mas ele levou a sério, correspondendo ao pedido.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Ter-me sentado no banco dos réus porque denunciei actos de corrupção em Sintra. Senti-me injustiçado por esse facto. Espero que o tribunal não dê razão à injustiça.

Gostaria de viver num hotel?

Adoraria.

A sua bebida preferida?

Vinho tinto. Alentejano. Bem maduro, bem encorpado, com os taninos bem evidentes.

Que número calça?

42, biqueira larga.

Que livro anda a ler?

Um livro que volta a levantar a hipótese de Colombo ser português.

A sua personagem de ficção preferida?

Gosto muito do Tintim. E também do Popeye, com aqueles braços em forma de âncora. Gosto de comer espinafres desde miúdo: sempre me convenci que me faziam mais forte.

A Olívia Palito faz o seu género?

Há pelo menos uma coisa que aprecio nela: é fiel ao Popeye. A fidelidade é um bem cada vez mais raro entre as mulheres.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Adoro conduzir. Detesto ser conduzido.

É bom transgredir os limites?

Como artista, não consigo deixar de ultrapassar certos limites.

Como se sente o artista na pele de deputado?

Tem sido uma aprendizagem lenta, serena, cuidada. Hoje estou muito mais dentro da linha...

Já adormeceu no plenário?

Nunca. Mas já me fartei de lutar contra o sono na Assembleia da República, com um olho para baixo e outro para cima. Há discursos demasiado extensos e monocórdicos...

Qual é o seu prato favorito?

Feijoada à portuguesa. Com muito piripiri.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Só entrego o meu espírito a Deus.

A sua cor preferida?

Azul. Aliás, só visto azul e verde.

Costuma cantar no duche?

Foi no banho que aprendi a cantar. A minha mãe foi a primeira pessoa a descobrir.

E a música da sua vida?

Adoro o Pai Nosso, do Frei Hermano da Câmara. Tenho cantado este tema em várias missas, quando me convidam. E - sempre - a Avé Maria, de Gounod.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. O hino é excelente: militarista, agressivo, dinâmico e nostálgico. Foi oferecido pelo Alfredo Keil a D. Carlos. E a república adoptou-o. É um bom compromisso entre a monarquia e a república.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

A que mais prezo é uma boa cuequinha. Detesto boxers.

Qual o seu maior sonho?

Que Portugal consiga ser uma nação auto-suficiente.

O que o irrita profundamente?

Ver, como monárquico, que o pretenso pretendente ao trono de Portugal não tem qualidades absolutamente nenhumas para representar aquilo que pretende.

O que faria se fosse milionário?

Reservaria um terço da minha fortuna para criar uma boa rede de lares para a terceira idade.

Casamentos gay: de acordo?

Completamente em desacordo.

Uma mulher bonita na política?

A Ségolène Royal. A Hillary Clinton também é interessante.

Acredita no paraíso?

Acredito. Desde logo, porque sou católico praticante. E também porque gosto muito da utopia.

Tem um lema?

Os versos de Sá de Miranda: «Homem de um só parecer, / Dum só rosto, uma só fé, / Dantes quebrar que torcer, / Ele tudo pode ser, / Mas de corte homem não é.»

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (20 de Outubro de 2007)

Quem fala assim... (30)

João Soares: «Não gosto de meias-tintas»

por Pedro Correia, em 27.02.21

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«Mulher bonita? A Carla Bruni. Todos temos um bocadinho de ciúmes de Sarkozy nesse plano. Mas só nesse»

 

O deputado socialista, antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, não é daqueles políticos que hesitam nas respostas. Responde com rapidez e sem gaguejar. Não hesitando em contrariar algumas cartilhas da correcção política, mesmo da sua área ideológica. Foi o que sucedeu nesta nossa conversa telefónica, em que deixou bem claro: «Há quem seja rosa. Mas eu sou dos vermelhos.»

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Já sofri algumas, em política e não só. Quando fui derrotado pelo Sr. Lopes em Lisboa, por exemplo: nessa altura fiquei um bocadinho triste com os lisboetas. Mas o que é preciso é olhar para a frente.

Gostaria de viver num hotel?

Nem me passava isso pela cabeça.

A sua bebida preferida?

Sumo de laranja. Laranjas, para mim, só muito bem espremidas.

Que número calça?

42.

Que livro anda a ler?

Estou a ler As Benevolentes, de Jonathan Littell, numa belíssima tradução portuguesa.

Qual é a sua personagem de ficção favorita?

São tantas... Uma das minhas preferidas é a que Humphrey Bogart interpreta em Casablanca.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir. Mas há alturas em que dá jeito ser conduzido.

É bom transgredir os limites?

Depende dos limites. Faz sentido transgredir alguns limites.

Por exemplo?

A limitação em vigor ao tabaco em quase todos os países da União Europeia, incluindo Portugal, importada da América neoliberal de Bush. Faz sentido transgredi-la sempre que for possível e não incomode terceiros.

Tem feito isso?

Às vezes.

Qual é o seu prato favorito?

Sou profundamente patriota em matéria gastronómica. Gosto de pescada frita com açorda e uma saladinha de alface e cebola. Gosto de um bom cozido à portuguesa. Gosto de língua de vaca com puré de batata. Gosto de mãozinhas de vitela guisadas. Gosto de umas favinhas com entrecosto...

Qual é o pecado capital pratica com mais frequência?

Sou, no mínimo, agnóstico. As minhas referências bíblicas são limitadas. Sei que há pecados mortais, mas não os conheço todos.

A sua cor preferida?

Do ponto de vista político, é o vermelho. Não gosto de meias-tintas.

Está um pouco desactualizado. O PS agora prefere o rosa...

Há quem seja rosa. Mas eu sou dos vermelhos. Não me envergonho nada, antes pelo contrário.

Costuma cantar no duche?

Não. Mas às vezes assobio.

E a música da sua vida?

Sou da geração dos franceses e dos belgas. Adoro o Brel, o Yves Montand. Mas também gosto muito do Vitorino, da Teresa Salgueiro, do Carlos do Carmo. Há um fado do Carlos do Carmo de que gosto particularmente - Um Homem na Cidade.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. O hino é bem bonito. Sei-o de cor e já o ensinei aos meus filhos. É verdade que aquele trecho que fala em marchar contra os canhões está desactualizado, mas não me incomoda.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Talvez com o Barack Obama. Ainda não o conheço, mas espero conhecê-lo.

As aparências iludem?

Claro que iludem.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

É mais fácil dizer a que menos me agrada: a gravata.

E o seu maior sonho?

Dar um dia a volta ao mundo num barco à vela ou num cargueiro.

E o maior pesadelo?

Não tenho pesadelos.

O que o irrita profundamente?

A estupidez e a burocracia.

O que faria se fosse milionário?

Dava a tal volta ao mundo. De resto, continuaria a fazer o que faço. Nem sequer mudava de casa.

Casamentos gay: de acordo?

Claro que sim.

Uma mulher bonita?

A Carla Bruni. Todos temos um bocadinho de ciúmes de Sarkozy nesse plano. Mas só nesse.

Acredita no paraíso?

Não.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (16 de Fevereiro de 2008)

Quem fala assim... (29)

Manuel Monteiro: «Maquiavel tinha razão»

por Pedro Correia, em 20.02.21

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«Um amor frustrado é algo que marca qualquer pessoa para sempre»

 

Foi líder do CDS durante entre 1992 e 1998. Mais tarde viria a fundar - sem sucesso algum - o efémero Partido da Nova Democracia. Manuel Monteiro, hoje regressado ao seu partido de origem, foi comedido a responder nesta entrevista telefónica que lhe fiz. Mas revela qual é o pecado capital que pratica com mais frequência: o orgulho. Zorro é o seu herói favorito.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Foi a primeira paixão não correspondida. Penso que um amor frustrado é algo que marca qualquer pessoa para sempre.

Com quem gostaria de jantar esta noite?

Com Claudia Schiffer.

A sua bebida preferida?

Coca-Cola.

Que número calça?

41.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Com toda a franqueza, gosto muito de hotéis, mas só de passagem. Para viver não. Já estive cerca de três semanas seguidas num hotel e cheguei rapidamente à conclusão de que nada substitui a nossa casa.

Que livro anda a ler?

O Grão-Mestre dos Templários, de Inès Nollier, editado pela Nova Arrancada. Ela é autora de várias obras relacionadas com a Idade Média. O tema fascina-me: sou um apaixonado por tudo quanto diga respeito aos templários e ao Santo Graal.

Qual é a sua personagem de ficção favorita?

O Zorro.

A sua cor preferida?

Vermelho. Nem poderia ser outra, como benfiquista que sou. Além disso o vermelho é também uma das cores oficiais do Partido da Nova Democracia [dissolvido em 2015].

Que temas musicais gosta de ouvir?

Vario muito. Escuto, sempre que posso, qualquer ária de ópera interpretada pelo grande Luciano Pavarotti. Gosto também muito de ouvir cantores portugueses tão diferentes mas de inegável qualidade como a Dulce Pontes e o Pedro Abrunhosa.

Costuma cantar no duche?

Quando estou muito contente, costumo.

Amizade e política devem ser indissociáveis?

A prática demonstra que Maquiavel estava cheio de razão: nunca devemos confundir a política com a amizade. Nem sempre segui esta regra, confesso. Mas hoje reconheço que quanto maior for a separação entre amizade e política maior serão as probabilidades de sucesso.

Que pecado capital pratica com mais frequência?

A que pecados se refere concretamente?

A um dos sete pecados mortais.

O orgulho, sem dúvida.

Mas olhe que tem fama de ser avarento...

Admito que sou poupado, o que, convenhamos, é bastante diferente de ser avarento.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de ser conduzido - de automóvel, bem entendido. Mas, como conduzo imenso, acabam por ser raras as pessoas em quem confio para guiarem quando estou a bordo. Mas não faço questão de ser eu a conduzir. Se puder ir no banco reservado ao passageiro a apreciar a paisagem circundante, tanto melhor.

O que o faz irritar profundamente?

O sentimento de desânimo, muito frequente em diversas pessoas. Não gosto de vê-las desistir muito facilmente mal aparece o primeiro obstáculo na primeira curva do caminho. Isso irrita-me profundamente.

Casamentos gay: de acordo?

Não.

Um exemplo de mulher bonita na política?

Embora retirada, continua a ser Leonor Beleza.

Os portugueses primeiro e os estrangeiros depois?

Sempre.

Acredita no paraíso?

Sim.

Tem um lema de vida?

Tenho: ser perseverante. Considero fundamental a perseverança no ser humano. Ser perseverante é ser lutador. Implica não desistir. Implica também entender as derrotas essencialmente como etapas que não nos podem nem devem desviar do objectivo final, que é a vitória.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (12 de Maio de 2007)

Quem fala assim... (28)

Otelo de Carvalho: «Sou santo em potência»

por Pedro Correia, em 13.02.21

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«Gosto mais de conduzir do que ser conduzido. De forma geral, desde miúdo sempre tive vocação para líder»

 

Estratego do 25 de Abril, caudilho da esquerda mais radical durante o processo revolucionário de 1974-1975, Otelo Saraiva de Carvalho disponibilizou-se de imediato para responder a este questionário telefónico, dando algumas respostas surpreendentes. Prefere o azul ao vermelho, adora cantar New York, New York e a sua personagem de ficção favorita é James Bond.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Ver o comportamento da classe política portuguesa. Nós, capitães de Abril, depositávamos grandes esperanças nela para elevar o País a patamares de grande nível. Infelizmente, isso não aconteceu.

Gostaria de viver num hotel?

Só em viagem gosto de viver num hotel. De forma geral, o ambiente de hotel deixa de me agradar ao fim de uma ou duas semanas.

A sua bebida preferida?

Vinho tinto.

De onde?

Sempre alentejano. Tinto de Reguengos. E branco da Vidigueira.

Que número calça?

39, 40. Tenho o pé pequeno.

Que livro anda a ler?

Acabei de ler Um Militar na Política, do general Galvão de Melo.

Gostou?

O livro é interessante por fazer algumas revelações importantes sobre a experiência militar de Carlos Galvão de Melo, que ainda antes do início da Guerra Colonial escreveu a Salazar e ao ministro da Defesa, Santos Costa, alertando-os para a necessidade de se encontrarem soluções políticas para o problema africano. Mas Salazar nunca mostrou interesse nisso.

A sua personagem de ficção preferida?

James Bond.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir. De forma geral, desde miúdo sempre tive vocação para líder.

É bom transgredir os limites?

É bom, sim senhor!

Qual é o seu prato favorito?

Uma boa posta de peixe grelhado, com batatas cozidas. Cherne ou garoupa, de preferência.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Não me vejo a cometer nenhum pecado capital - nem inveja, nem luxúria, nem gula, nem preguiça. Não me reconheço em nenhum deles. Sou um santo em potência.

A sua cor preferida?

Azul.

Sempre pensei que preferisse o vermelho...

O vermelho é demasiado ostentatório. Pode ter um sublinhado ideológico, e aí agrada-me. Mas para vestir prefiro o azul.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Pólo.

Costuma cantar no duche?

No duche e sem ser no duche. Costumo cantar. Ando sempre com qualquer canção na boca - desde o Summertime ao New York, New York, do Frank Sinatra. Ou uma canção do José Cid, do Paulo de Carvalho ou do Zeca Afonso.

E a música da sua vida?

Há uma que trauteio muitas vezes: I never promised you a rose garden.

Sugere algum alteração ao hino nacional?

É claro que a letra está desactualizada e podia ser modificada. Mas este hino está muito arreigado na população e é muito conhecido pelos portugueses.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Nelson Mandela [falecido em Dezembro de 2013].

Qual o seu maior sonho?

Ver concretizados os ideais que nos nortearam ao fazer o 25 de Abril. Uma grande parte deles ainda não foi alcançada.

E o maior pesadelo?

A III Guerra Mundial.

O que o irrita profundamente?

A mediocridade e a estupidez.

O que faria se fosse milionário?

Procurava contribuir, de todas as maneiras possíveis, para o aumento do bem-estar, da dignidade e da felicidade do povo português.

Uma mulher bonita na política?

Talvez a Ségolène Royal.

Acredita no paraíso?

Acredito no paraíso terreno, um lugar onde uma pessoa se sinta bem, com uma paisagem magnífica. Há locais assim no nosso país.

Tem um lema?

Antecipar-me sempre à mediocridade.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (3 de Novembro de 2007)

Quem fala assim... (27)

A. Victorino d' Almeida: «Desafino a cantar»

por Pedro Correia, em 06.02.21

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«As regras existem para poderem ser transgredidas. Mas é bom que existam. Caso contrário, não se transgredia nada.»

 

Conversar com o maestro António Victorino d' Almeida é garantia de que, minutos volvidos, estaremos a soltar umas saudáveis gargalhadas. Ele é naturalmente bem disposto e sem ponta de presunção intelectual. Nesta ocasião - como noutras - a conversa fluiu entre divertidos à-partes e a promessa (que viria a concretizar-se) de um bife com ovo a cavalo. Só a Sharon Stone faltou à chamada.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Aconteceu quando um amigo meu (ex-amigo, melhor dizendo) fugiu com todo o dinheiro de um trabalho que estávamos a fazer em conjunto.

Com amigos desses não precisa de inimigos...

Pois não.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Mas gosto de passar umas temporadas num hotel. Já em relação ao turismo de habitação sinto uma verdadeira alergia.

A sua bebida preferida?

Água.

Que número calça?

Não sei.

Que livro anda a ler?

Infelizmente, não estou a ler nenhum. Ando a rever provas de um livro meu, a História da Música Ocidental.

A sua personagem de ficção preferida?

Talvez seja o Ulisses.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Em termos automobilísticos, não tenho alternativa. Não sei conduzir.

É bom transgredir os limites?

Os limites, não. Não devemos confundir os limites com regras.

É bom transgredir as regras?

As regras, sim. Só existem para poderem ser transgredidas. Mas é bom que existam. Caso contrário, não se transgredia nada.

Qual é o seu prato preferido?

Um clássico: bife com batatas fritas e um ovo a cavalo.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Desconheço quais são os pecados. Mas não devem ser mortais, porque ainda estou vivo. A palavra mortal está mal escolhida.

A sua cor preferida?

Sou daltónico. Mas é o azul.

Costuma cantar no duche?

Nunca. Nem no duche nem em parte alguma. Desafino a cantar. É uma coisa horrível! A desafinação, na maior parte das vezes, não tem a ver com o ouvido mas com a incapacidade de chegar aos sons em termos de técnica vocal.

E a música da sua vida?

Não tenho. Para mim esse conceito não existe.

Sugere algum alteração ao hino nacional?

O hino é muito dificilmente cantável, tem uma extensão enorme. Mas se fosse alterado deixava de ser o que é. É óbvio que a letra é muito feia. Mas a da Marselhesa é ainda pior. A gente habitua-se àquilo. O melhor é não mexer em nada.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Não iria optar por nenhum político se pudesse jantar com a Sharon Stone.

As aparências iludem?

Concordo com a frase do Oscar Wilde, que dizia: «Só as pessoas superficiais não julgam pelas aparências.»

Qual é a peça de vestuário que prefere?

As meias. Enquanto não calço meias sinto-me muito desprotegido. 

Qual o seu maior sonho?

O meu maior sonho (que temo nunca passe disso) é que as autoridades responsáveis portuguesas aprendessem um mínimo de cultura musical.

E o maior pesadelo?

Que as autoridades responsáveis portuguesas nunca aprendam um mínimo de cultura musical.

O que o irrita profundamente?

A arrogância.

O que faria se fosse milionário?

Não sei que alterações morfológicas isso iria desencadear em mim. Presumo que fizesse uma série de coisas boas. Mas talvez me transformasse num safado. Nunca se sabe.

Casamentos gay: de acordo?

Eu não levo nada a sério os casamentos.

Uma mulher bonita na política?

Era a Benazir Bhutto.

Acredita no paraíso?

Espero que exista.

Tem um lema?

Fazer o melhor possível.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (2 de Fevereiro de 2008)

Quem fala assim... (26)

José Luís Peixoto: «Tenho medo de mim»

por Pedro Correia, em 19.12.20

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«É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós»

 

José Luís Peixoto, um dos escritores portugueses mais celebrados nestas duas primeiras décadas do século XXI, fala um pouco como escreve. Com frases pausadas, que por vezes são verdadeiros aforismos, e um peculiar sentido de humor, talvez surpreendente para alguns. Tive ocasião de perceber isso quando o interroguei ao telefone. O resultado é este que podem (re)ler.

 

Tem medo de quê?

De mim.

Gostaria de viver num hotel?

Não, apesar de actualmente já costumar passar grande parte do meu tempo em hotéis. Caminhar à noite no corredor de um hotel pode ser uma experiência muito solitária. Ao fim de algum tempo, as miniaturas de sabonete acabam por perder o aroma. Pessoalmente, preferiria viver numa casa com jardim e netos.

A sua bebida preferida?

Prefiro sumo de laranja. Não entendo esse hábito muito divulgado entre nós de beber álcool socialmente.

Porquê?

Eu, nas raras vezes em que bebo álcool, é para me embebedar.

Tem alguma pedra no sapato?

Uso botas. As pedras têm muita dificuldade em entrar.

A propósito: que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, entre alguns outros.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

Tenho sempre livros a rodear-me completamente. Por dentro e por fora.

A sua personagem de ficção favorita?

Lena Grove, de A Luz de Agosto, de William Faulkner.

Rir é sempre o melhor remédio?

Depende da maleita. Em casos de pedra nos rins, duvido que resulte.

A despropósito: lembra-se da última vez em que chorou?

Foi no fim de semana passado. Chorei de felicidade.

Confesse lá: gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto de andar de mão dada, como namorados.

É bom transgredir os limites?

É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós.

Qual é o seu prato preferido?

Sushi.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

O pecado capital que pratico com mais frequência é a luxúria. Ainda assim, acho que não a pratico com a frequência desejável.

A sua cor preferida?

Fúcsia.

Porquê?

Por causa do nome.

Costuma cantar no duche?

Sim.

Onde mais?

Também no trânsito e, ao telefone, com as pessoas que costumam ligar com regularidade a oferecer promoções.

E a música da sua vida?

Here I go again, dos Whitesnake. E mais umas mil.

Há quem sugira que o hino nacional deve ser alterado. Qual é a sua opinião nesta matéria?

Preferia que o hino nacional me sugerisse uma alteração a mim.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Gostaria de jantar com Barack Obama, obviamente.

As aparências são capazes de nos iludir?

É o que me aparenta.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca responde a perguntas sobre o seu cavalheirismo, insinuando-se implicitamente como um verdadeiro cavalheiro.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Piercing no mamilo.

Qual é o seu maior sonho?

É grande. Dura à volta de umas três horas.

E o maior pesadelo?

O pesadelo é ainda maior do que o sonho. Às vezes, depois de acordar, ainda continua.

O que consegue irritá-lo profundamente?

Irritam-me as pessoas que ficam a olhar no momento em que se está a pôr o pin do multibanco. Afinal, porque é que o fazem? Vão-nos assaltar a seguir ou é mera curiosidade? É algo que me ultrapassa.

Qual a melhor forma de relaxar?

Um abraço.

O que faria se fosse milionário?

Se fosse milionário pensava em coisas que não penso agora e teria, com certeza, muito mais preocupações do que tenho hoje.

Casamentos gay: de acordo?

É um pedido?

Olhe que não... Mudando de assunto: uma mulher bonita?

A minha.

Acredita no paraíso?

Sim. O paraíso é como uma lâmpada que tem mau contacto. Acende e apaga. Às vezes pode ficar acesa durante muito tempo. Outras vezes apaga-se e parece que nunca mais se vai acender.

Tem um lema?

Não tenho um lema, tenho vários.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (6 de Fevereiro de 2010)

Quem fala assim... (25)

José Cid: «No duche não me apetece cantar»

por Pedro Correia, em 12.12.20

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«Pratico todos os pecados capitais com bastante frequência. E sou amigo de um padre a quem posso confessar-me quando me apetecer»

 

Foi uma entrevista atribulada. Ao telefone, como as restantes. Enquanto fazia perguntas, ia ouvindo um esquisito ruído de fundo. Não tardei a perceber: era água a correr, José Cid tomava duche. Liguei-lhe horas depois para retomar o diálogo, ele guiava na auto-estrada. Estava nevoeiro, segundo me contou. De repente, uma exclamação: «Eh pá! Distraí-me com a conversa, em vez de ir para Aveiro estou a ir para Viseu...» Não sei se ele chegou a horas, mas a entrevista lá chegou ao fim.

 

Tem medo de quê?

Todos nós temos medo da morte. A morte é extremamente injusta.

Gostaria de viver num hotel?

Odiava. Não há nada como a nossa casa.

A sua bebida preferida?

Tenho duas: alcoólica, a sidra; não alcoólica, sumo de maçã. Adoro fazer sumo de maçã em minha casa.

Tem alguma pedra no sapato?

Neste momento, não. Mas já tive. As pessoas que me puseram pedras no sapato já morreram.

Que número calça?

42, 43.

Que livro anda a ler?

Balada para Sérgio Varela Cid, o maior pianista do mundo da sua geração, um génio incompreendido, pai da minha amiga Paula Varela Cid. É um livro muito interessante.

A sua personagem de ficção favorita?

Há um autor-personagem em quem gostaria de encarnar: Federico García Lorca.

Rir é o melhor remédio?

Sempre. De nós próprios e dos outros.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Sim.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito mais de ser eu a conduzir.

É bom transgredir os limites?

Às vezes nem damos por isso. Ainda ontem, vinha de Faro na auto-estrada e quando reparei já ia nos 170km/hora...

Qual é o seu prato preferido?

Favas com chouriço, ovos escalfados e arroz branco.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Pratico todos esses pecados com bastante frequência. E sou amigo de um padre a quem posso confessar-me quando me apetecer.

A sua cor preferida?

É o verde. Mas sou benfiquista.

Costuma cantar no duche?

Canto tanto que no duche não me apetece cantar.

E a música da sua vida?

É sempre a próxima. Por exemplo, uma das canções do meu próximo álbum, O Menino Prodígio - «O menino prodígio morreu / E o seu epitáfio sou eu.»

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Sim. Devia ser substituído pelos Filhos da Nação, dos Quinta do Bill.

Gosta da bandeira nacional?

Gosto. Mas gosto mais da monárquica. É mais bonita. Tenho duas em casa.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com nenhuma em especial.

As aparências iludem?

Sim, completamente.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Sapatos. Adoro sapatos. E colecciono botas.

Qual é o seu maior sonho?

Ter saúde.

E o maior pesadelo?

Sei lá. Às vezes os sonhos transformam-se em pesadelos.

O que o irrita profundamente?

A mediocridade protegida.

Qual a melhor forma de relaxar?

Dormir a sesta.

O que faria se fosse milionário?

Já sou.

Casamentos gay: de acordo?

Não tenho nada contra: as pessoas devem viver os seus afectos como quiserem e como puderem. Mas não é uma questão fundamental. Muito mais heróico do que um casamento gay é o casamento de um homem e uma mulher com filhos que enfrentam todas as dificuldades perante um sistema que não os protege.

Uma mulher bonita?

Alexandra Lencastre. Gosto de mulheres maduras.

Acredita no paraíso?

Sim. Conheço várias pessoas que estão no paraíso, embora na última fila.

Tem um lema?

Tenho. Nada é de mais, tudo é de menos.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (27 de Setembro de 2008)

Quem fala assim... (24)

Gonçalo Ribeiro Telles: «O meu lema? Servir»

por Pedro Correia, em 05.12.20

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«Preferia que o hino nacional tivesse uma ligeira alteração: "Viva o Reino de Portugal!", uma vez que a república portuguesa está no fim

 

Foi opositor activo ao Estado Novo, enquanto militante da causa monárquica, um dos fundadores da Aliança Democrática em 1979 e o nosso primeiro ministro do Ambiente (com a denominação Qualidade de Vida), além de categorizado arquitecto paisagista. Quando lhe pedi a entrevista, não virou a cara - procedendo com a sua definição do que deve ser um cavalheiro. Gonçalo Ribeiro Telles morreu há menos de um mês, a 11 de Novembro, com 98 anos.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo da ignorância.

Gostaria de viver num hotel?

Não.

Porquê?

Porque tenho casa. A casa faz parte do meu ser. É o ter do meu ser.

A sua bebida preferida?

Água.

Em qualquer estação do ano?

Sim.

Tem alguma pedra no sapato?

Muitas. Tenho uma pedreira autêntica.

Uma pedreira?!

Sim. Isto deve-se, essencialmente, ao meu lamento por verificar o desconhecimento colectivo - de alto a baixo - da nossa maneira de ser enquanto portugueses e da nossa História.

Que livro anda a ler?

Ando a ler este mais recente livro do Papa.

Está a ser um sucesso de vendas...

Não faço ideia.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

À cabeceira, não. Costumo folhear vários livros ao longo do dia, à procura de assuntos.

Que género de assuntos?

Sobretudo de arquitectura, da paisagem, de problemas da sociedade e de problemas políticos.

A sua personagem de ficção favorita?

Talvez o D. Quixote.

Rir é o melhor remédio?

Que remédio... Se não nos rirmos, o que havemos de fazer?

Lembra-se da última vez em que chorou?

Não sei.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de ser conduzido.

É bom transgredir os limites?

Que limites?

Qual é o seu prato preferido?

Tenho vários. Uma açorda alentejana, por exemplo. E também um bom bife com molho e batatas fritas.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Talvez seja a preguiça.

A sua cor preferida?

Azul e branco.

Costuma cantar no duche?

Não.

Por algum motivo especial?

Não tenho uma voz brilhante, nem sequer para cantar só para mim.

E a música da sua vida?

A Quinta Sinfonia [de Beethoven].

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Eu preferia que tivesse uma ligeira alteração: «Viva o Reino de Portugal!», uma vez que a república portuguesa está no fim.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

As cores da bandeira estão lá, embora em ponto mais reduzido do que eu gostaria. Está lá a cruz, está lá o azul e branco.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Já há muitos anos que não janto.

As aparências iludem?

Por vezes as aparências iludem. Mas por vezes dão-nos apenas vontade de sorrir.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Voltar a cara.

O que é que uma verdadeira senhora nunca faz?

Meter-se onde não é chamada.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Da gravata às peúgas, não tenho preferências nessa matéria.

Qual é o seu maior sonho?

O meu maior sonho era ver Portugal libertado de pesadelos.

E o maior pesadelo?

O maior pesadelo seria ver o costume transformar-se num costume sem história.

O que o irrita profundamente?

A falta de autenticidade das coisas.

Qual a melhor forma de relaxar?

É tentar passar ao lado.

O que faria se fosse milionário?

Nunca tive esse hipótese. Se isso acontecesse tentaria fazer tudo para valorizar alguns dos lugares mais recônditos do País. Tentaria preservar as capelas que estão a ser alvo de roubos ou a ser destruídas pela nossa incúria colectiva. Procuraria valorizar o nosso património, que tem estado a ser alvo de tantas ameaças.

Casamentos gay: de acordo?

Não é comigo.

Uma mulher bonita?

A minha mulher.

Acredita no paraíso?

Que remédio... Quem está nesta situação infernal com certeza acredita no paraíso.

Tem um lema?

Servir.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (9 de Abril de 2011)

Quem fala assim... (23)

Costa Alves: «Não há pecados capitais»

por Pedro Correia, em 21.11.20

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«Irrita-me já não conseguir irritar-me com coisas que costumavam irritar-me. O tempo acaba por moderar estas coisas...»

 

Mais do que uma entrevista, aqui houve um reencontro: Manuel Costa Alves foi um dos melhores professores que tive. Ensinou-me Geografia no liceu, dele ouvi pela primeira vez falar em cúmulos, cerros e nimbos. Dons de pedagogo que pôde exercer também, para o país inteiro, durante os anos em que apresentou o boletim meteorológico na RTP e na TVI.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de coisas de que não sei se tenho medo. Tenho medo de ter vertigens, por exemplo. E tenho medo do medo.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Nem no mais luxuoso hotel que possa existir. Não há nada que pague a privacidade de uma casa e das suas memórias.

A sua bebida preferida?

Vinho tinto.

Tem alguma pedra no sapato?

Ui, tantas! Às vezes nem consigo meter o pé... São coisas que vamos acumulando ao longo da vida.

Que número calça?

40.

Que livro anda a ler?

Estou a ler um livro chamado La Guerra Civil que No Va Gustar a Nadie, de Juan Eslava Galán. Sobre a Guerra Civil de Espanha.

É um tema que o atrai muito?

Sem dúvida. Na minha cidade natal, Castelo Branco, a minha família teve ecos muito próximos da guerra civil [1936-1939], que se desenrolava também junto à fronteira.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

Pelo menos dois ou três.

De vários géneros?

Sim. Gosto muito de História. Mas também leio romances.

A sua personagem de ficção favorita?

Aquelas personagens do Memorial do Convento. A Blimunda e o Baltasar Mateus, o Sete-Sóis.

Rir é o melhor remédio?

Sim. E chorar também.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Sim. A partida de pessoas a quem estou ligado emociona-me sempre muito. E as memórias que essas pessoas deixam também.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de ser conduzido. Sou um bocado comodista.

Transgredir é bom?

Em situações que não ponham em risco os outros é bom atravessarmos os limites impostos pela rotina e pelas regras que devem ser contestadas.

Qual é o seu prato preferido?

Não sou grande garfo. Mas gosto de tudo que tenha bacalhau.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Não há pecados capitais.

A sua cor preferida?

É o azul, mas sem conotações clubísticas.

Costuma cantar no duche?

Não. Detesto ouvir-me. Não me encanta nada o som da minha voz.

E a música da sua vida?

Há muitas. Quase todo o Zeca Afonso, por exemplo.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Aquela letra está muito desactualizada. Devia levar uma volta.

Parece-lhe bem a bandeira nacional?

Sim. As cores dão força ao simbolismo republicano.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Entre os vivos, com Nelson Mandela, sem dúvida [Mandela faleceu em 2013]. Dos que já partiram, gostaria muito de ter conhecido Gandhi.

As aparências iludem?

Imenso. É o que mais se usa.

Na meteorologia também?

Também. Há muitos fenómenos que iludem o mais experimentado meteorologista.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca deve fazer?

Mas ainda há cavalheiros?

Qual é a peça de vestuário que prefere?

As calças.

Qual é o seu maior sonho?

O sonho de uma outra sociedade, muito mais justa, muito mais humana. Mas já aprendi que não será para o meu tempo.

Mas o sonho permanece?

Sim, claro.

E o maior pesadelo?

Os pesadelos relacionam-se sobretudo com a morte, nomeadamente de pessoas que nos são queridas. São receios atávicos.

O que o irrita profundamente?

Irrita-me já não conseguir irritar-me com coisas que costumavam irritar-me. O tempo acaba por moderar estas coisas...

Qual a melhor forma de relaxar?

Relaxo muito vendo o Benfica e a selecção nacional a jogar futebol. O mar de Inverno também relaxa muito.

O que faria se fosse milionário?

Não quero ser milionário.

Casamentos gay: de acordo?

Sim.

Uma mulher bonita?

A Nicole Kidman. Não sei se é bonita por dentro, mas é bonita por fora e é uma grandíssima actriz.

Acredita no paraíso?

Gostava que existisse. Mas penso que não existe.

Tem um lema?

Faz bem o que sabes fazer.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (29 de Maio de 2010)

Quem fala assim... (22)

Martins da Cruz: «Nunca li na cama»

por Pedro Correia, em 14.11.20

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«Não gostaria de jantar com nenhuma figura pública. Estou farto de aturar figuras públicas»

 

Antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, o embaixador António Martins da Cruz acedeu a responder a este questionário ao telefone. Sem esconder algum sarcasmo pouco diplomático nas respostas. O maior sonho? «Nunca mais ter de responder a entrevistas.» E o maior pesadelo? «Responder a entrevistas.»

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de muitas coisas, naturais e sobrenaturais. Como qualquer pessoa. Mas sobretudo tenho medo de falhar.

Gostaria de viver num hotel?

Infelizmente, passo mais tempo em hotéis do que em minha casa. Não gostaria de viver permanentemente num hotel.

A sua bebida preferida?

Depende das horas do dia. Mas há uma que se bebe a qualquer hora: champanhe.

Tem alguma pedra no sapato?

Quando entram, procuro sacudi-las. O mais depressa possível.

Que número calça?

Depende das estações do ano. Mas procuro sempre não calçar os sapatos dos outros.

Que livro anda a ler?

Ando a ler quatro ou cinco ao mesmo tempo. O que está a impressionar-me mais é Os Próximos 100 Anos, de George Friedman. Outro livro muito interessante que ando a ler relaciona-se com a presença da China em África.

Tem muitos livros à cabeceira?

Não tenho nenhum livro à cabeceira. Nunca li na cama. Não gosto de ter dores no pescoço.

A sua personagem de ficção favorita?

O Tintim. Aprendi a ler francês aos seis anos lendo as aventuras do Tintim. Também gosto muito da dupla Blake & Mortimer. Quem não leu A Marca Amarela?

Rir é o melhor remédio?

Rir é sempre um bom remédio. Às vezes não é o melhor.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Deve ter sido a ver um filme, embora já não me lembre qual foi. Quem não chora a ver um filme?

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Tudo depende das horas do dia. Depende das circunstâncias.

É bom transgredir os limites?

Tudo depende de quem meça os limites.

Confesse lá: qual é o seu prato preferido?

Prefiro sempre peixe. O meu prato favorito é peixe grelhado. Gosto muito de garoupa. Infelimente só consigo comê-la em Portugal.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Infelizmente, de vez em quando, a gula.

A sua cor preferida?

O vermelho.

Prefere o vermelho por convicção clubística?

Não. Mas gosto de gravatas com tons vermelhos. Talvez também por ser a cor do Direito, o curso que tirei.

Costuma cantar no duche?

Não. Sou incapaz de cantar. No duche, na rua, seja onde for. Era sempre expulso das aulas de canto coral. Como diria um escritor do século XIX, falece-me o talento para isso.

E a música da sua vida?

Qualquer música dos Beatles. Ainda não foram ultrapassados.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Porquê? Quem não gosta, engole. Não percebo porque há pessoas que querem alterar o hino.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

A bandeira é um símbolo. É como a Pátria: não se discute. Quem começa a discutir os símbolos acaba a discutir tudo.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Não gostaria de jantar com nenhuma figura pública. Estou farto de aturar figuras públicas.

As aparências iludem?

Completamente.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Não faz a maior parte das coisas que fazem os soi disant cavalheiros que andam por aí.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

A gravata. A escolha da gravata é a única liberdade de fantasia que um homem da minha idade se devia permitir no vestuário.

Qual é o seu maior sonho?

Nunca mais ter de responder a entrevistas.

E o maior pesadelo?

Responder a entrevistas.

O que o irrita profundamente?

A demora em entender os outros.

Qual a melhor forma de relaxar?

Férias. Com calor e à beira-mar.

O que faria se fosse milionário?

Exactamente a mesma coisa que faço hoje. Felizmente não sou.

Casamentos gay: de acordo?

Não.

Uma mulher bonita?

Quando eu era novo, a Catherine Deneuve.

Acredita no paraíso?

Em termos teológicos, sim.

Tem um lema?

Tenho um lema. Mas como é em latim não quero obrigar os leitores a recorrer ao dicionário.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (17 de Julho de 2010)

Quem fala assim... (21)

António Sala: «Emociono-me com facilidade»

por Pedro Correia, em 07.11.20

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«As minhas personagens de ficção favoritas são o Tintim, o Indiana Jones e o Inspector Clouseau»

 

De resposta rápida, riso fácil e atendimento afável, António Sala não se fez rogado ao ser confrontado com este questionário ao telefone. A sua experiência de muitos anos aos microfones do programa Despertar, na Rádio Renascença, frente às câmaras da RTP e em palcos musicais, onde actuou como cantor, dá sempre jeito.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de tremores de terra e de perder as pessoas que amo.

Gostaria de viver num hotel?

Não. A casa é muito pessoal e insubstituível. Os hotéis, salvo raríssimas excepções, são sempre impessoais. Goto muito de passar férias num bom hotel, mas só isso. Home sweet home.

A sua bebida preferida?

Água. Mas numa boa refeição não dispenso um tinto alentejano ou um tinto francês.

Tem alguma pedra no sapato?

Há alturas em que acho que não tenho pedras no sapato. E há outras em que acho que já nem tenho sapato: só tenho pedras.

O que faz nessas ocasiões?

Descalço-me.

A propósito: que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Ando a ler os Contos Completos de Truman Capote. É um livro fantástico.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

Costumo ter quatro livros à cabeceira. Um deles é a Bíblia, que leio de quando em vez. Tenho sempre um livro de ficção, seja romance ou conto. Por acaso agora, além dos contos do Truman Capote, tenho também o último romance do meu amigo Francisco Moita Flores, Mataram o Sidónio. Tenho habitualmente também um livro técnico e ainda um livro de meditações, com pensamentos adaptados ao quotidiano, que me serve de leitura diária. A minha mãe oferece-me sempre um livro destes, todos os anos, como prenda de Natal, para eu ler diariamente.

A sua personagem de ficção favorita?

Tenho três. Por um lado, o Tintim: é a minha banda desenhada favorita de todos os tempos, com o repórter que todos gostaríamos de ser. Depois, o Indiana Jones, que tem a ver com o meu lado aventureiro. E há ainda o Inspector Clouseau, personagem igualmente fascinante.

Rir é o melhor remédio?

Rir pode não ser o melhor remédio, mas ajuda muito em diversas circunstâncias.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Foi há dois dias, ao ler um conto do Truman Capote: vieram-me as lágrimas aos olhos. Emociono-me com facilidade.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Quer no carro quer seja no que for, gosto de conduzir e de ser conduzido. Gosto de intervalar.

É bom transgredir os limites?

Desde que não corramos o risco de cair num precipício, de vez em quando é agradável transgredir os limites.

Qual é o seu prato preferido?

Bacalhau. De todas as maneiras.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Gula.

A sua cor preferida?

A minha cor preferida é o azul. Excepto como camisola desportiva: neste caso é o vermelho. Mas em tudo o resto prefiro o azul. Camisas azuis, fatos azuis...

Costuma cantar no duche?

Não. É muito raro cantar no duche. Só costumo cantar sozinho quando estou no piano.

E a música da sua vida?

Strangers in the Night, do Sinatra. E também gosto muito do Pó de Arroz, do Carlos Paião.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Tenho muito respeito pelo hino nacional. Mas não me chocaria nada que fosse alterado - na letra e até na música. Na letra, sobretudo, não faz hoje sentido marchar contra os canhões...

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Nelson Mandela [falecido em 5 de Dezembro de 2013].

As aparências iludem?

Ui, tantas vezes...

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca deve deixar de o ser.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Camisa. Uso camisa todo o ano.

Qual é o seu maior sonho?

Viver cada dia com saúde e ser feliz.

O maior pesadelo?

Que alguma destas coisas não aconteça.

O que o irrita profundamente?

A incompetência. Há demasiada incompetência.

Qual a melhor forma de relaxar?

Ler.

O que faria se fosse milionário?

Se calhar não fazia nada.

Casamentos gay: de acordo?

Não chamo casamento àquilo a que habitualmente chamam casamento gay.

Uma mulher bonita?

Kim Basinger.

Acredita no paraíso?

Acredito.

Tem um lema?

Ser melhor amanhã do que sou hoje.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (10 de Julho de 2010)

Quem fala assim... (20)

Fernando Vendrell: «Irrita-me a burocracia»

por Pedro Correia, em 31.10.20

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«O meu maior pesadelo é trabalhar em cinema em Portugal»

 

Produziu Belle Epoque, a longa-metragem do espanhol Fernando Trueba que em 1994 ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro. E realizou ele próprio vários filmes, de Fintar o Destino (1998) a Aparição (2018). Fernando Vendrell começou a responder de forma lacónica mas foi-se soltando ao longo da entrevista.

 

Tem medo de quê?

Do cão.

Gostaria de viver num hotel?

Prefiro o hotel ao campismo.

Tem alguma coisa contra o campismo?

As formigas.

A sua bebida preferida?

Água.

Em qualquer estação do ano?

Há momentos em que prefiro o vinho.

Tem alguma pedra no sapato?

Tenho.

Não há maneira de sair?

Não depende de mim.

Que número calça?

40.

Que livro anda a ler?

Ando a ler vários. Destaco A Faca não Corta o Fogo.

Está a gostar?

É fabuloso. Só podia, sendo do Herberto Helder.

Tem sempre muitos livros à cabeceira?

Muitos. Entre cinco (mínimo) e dez.

E se a cabeceira fosse maior...

Teria 25 livros.

A sua personagem de ficção favorita?

Buster-Keaton: uma pessoa-personagem.

Rir é o melhor remédio?

Sim. É um dos melhores remédios. Mas há outros.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Não me recordo. Se calhar, de propósito.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Normalmente gosto mais de conduzir. Mas pode dar-me grande prazer ser conduzido. Depende muito das circunstâncias.

É bom transgredir os limites?

Acho que se deve tentar sempre transgredir os limites.

Qual é o seu prato preferido?

Depende dos dias. Hoje o meu prato preferido é bacalhau com broa.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A luxúria.

A sua cor preferida?

Azul.

Costuma cantar no duche?

Não. No duche costumo ficar mudo. É o lugar onde se pode chorar de forma mais discreta.

E a música da sua vida?

São as Sonatas para Violoncelo, de Bach.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Como todas as coisas, o hino também está sujeito a mudanças. Mas sou ainda mais radical: preferia uma boa alternativa de hino a modificar o que já existe. Devia ser considerada a hipótese de fazer um novo. O conteúdo bélico do hino não me satisfaz, embora respeite as condições históricas em que foi feito.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Barack Obama.

As aparências iludem?

E de que maneira...

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Um bom par de calças.

Qual o seu maior sonho?

Poder ser feliz.

O maior pesadelo?

É trabalhar em cinema em Portugal.

O que o irrita profundamente?

A burocracia, a hipocrisia e as pessoas que respeitam estas premissas.

Qual a melhor forma de relaxar?

Sentir-se livre.

O que faria se fosse milionário?

Faria o mesmo que faço agora, mas certamente conseguiria fazê-lo com mais meios.

Casamentos gay: de acordo?

Não tenho qualquer objecção.

Uma mulher bonita?

A minha mulher.

Acredita no paraíso?

Não. Mas acho que devia existir.

Tem um lema?

Não é um lema, mas é um axioma de Melville, que vem no Moby Dick: «Ó tempo, força de vontade, dinheiro e paciência.» É a expressão profunda da condição humana.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (18 de Outubro de 2008)

Quem fala assim... (19)

Júlio Isidro: «Canto ópera no duche»

por Pedro Correia, em 24.10.20

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«Aquela parte [do hino nacional] em que se fala de marchar contra os canhões não me agrada muito. Prefiro marchar contra a mediocridade»

 

É o mais antigo profissional de televisão em actividade entre nós: podemos vê-lo regularmente na RTP Memória, conduzindo entrevistas muito interessantes. Desta vez foi ele o entrevistado: respondeu sem hesitar a todas as perguntas que lhe fiz ao telefone. Sem nunca perder o sentido de humor.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Ter entrevistado a Jamie Lee Curtis, ter faltado a luz durante essa entrevista, ter estado 15 minutos às escuras sem ver a Jamie Lee Curtis e voltar para casa sonhando no que teria acontecido se estivesse às escuras com a Jamie Lee Curtis. Não aconteceu nada.

Gostaria de viver num hotel?

Tive essa experiência durante oito meses, no Porto. Fiquei com a certeza de que nunca quererei repetir a experiência da Beatriz Costa. Um hotel às vezes até parece a casa da gente. Mas não é.

A sua bebida preferida?

Ice tea.

Que número calça?

Depende: 42 em formato normal, 43 em ténis.

Que livro anda a ler?

Leio sempre vários ao mesmo tempo. Estou a terminar A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos: aquilo não é um livro, é uma arma de arremesso, que pesa cerca de meio quilo! Leio também as Confissões de uma Liberal, de Maria Filomena Mónica, um livro de crónicas de António Lobo Antunes, e Bocage - A vida apaixonada de um genial libertino, de Luís Rosa.

A sua personagem de ficção favorita?

Lili Caneças.

As aparências iludem?

No caso vertente, não.

A sua cor preferida?

É o azul, apesar de ser sportinguista dos pés à cabeça.

E a música da sua vida?

Sem dúvida Bridge Over Troubled Waters, de Simon e Garfunkel.

Costuma cantar no duche?

Canto trechos de ópera e canções napolitanas.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Gosto do hino. Mas aquela parte em que se fala de marchar contra os canhões não me agrada muito. Prefiro marchar contra a mediocridade.

Que pecado capital pratica com mais frequência?

Objectivamente, a preguiça. Sou um preguiçoso frustrado. Gostava de não fazer nenhum.

Gosta de gravatas?

Gosto muito. Tenho imensas.

Com quem gostaria de jantar?

Primeiro convidem-me. Depois direi se aceito.

Qual o seu maior sonho?

Jamais conseguirei concretizá-lo, porque estou casado e sou feliz: era estar casado e ser feliz com a Sigourney Weaver.

O maior pesadelo?

Imaginar que os presidentes dos Estados Unidos podiam candidatar-se a um terceiro mandato.

O que o irrita profundamente?

Irrita-me a atitude "intelectual fresca" daqueles que me olham como se eu nunca tivesse lido em toda a minha vida outra coisa além do Tio Patinhas.

Em equipa que ganha não se mexe?

Mexe-se. Convém estar atento: nada se mantém sempre a ganhar.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Tratando-se do automóvel, gosto de conduzir. Na vida, adoro que me conduzam.

Casamentos gay: de acordo?

Estou de acordo com as uniões de facto gay.

Um exemplo de mulher bonita na política?

Em termos internacionais, a Ségolène Royal. A nível nacional, Teresa Caeiro: é muito bonita e tem muita graça natural.

O que faria se fosse milionário?

Dava a volta ao mundo com a minha família num avião particular. E organizava o maior campeonato do mundo de aeromodelismo. Muito privado, só meu.

Acredita no paraíso?

Acho que sim, desde que não seja um voo charter para a República Dominicana. Definitivamente, a República Dominicana cheia de charters não é um paraíso.

Tem um lema?

Aguenta-te, Júlio.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (14 de Julho de 2007)

Quem fala assim... (18)

Francisco Ferreira: «Gosto de joaquinzinhos»

por Pedro Correia, em 17.10.20

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«A minha cor preferida devia ser verde, mas é azul»

 

Um dos mais conhecidos ambientalistas portugueses, este professor universitário que liderou a Quercus (de 1996 a 2001) e fundou a associação Zero em 2016, atendeu-me com extrema cordialidade. Confessando que canta no duche, mas por pouco tempo, para poupar água. O que mais o irrita? «Ver deitar lixo para o chão.»

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de que o futuro algo catastrofista que os ambientalistas por vezes prevêem ainda possa ser pior.

Gostaria de viver num hotel?

Dependeria do hotel. Mas acho que não. O sítio onde vivemos deve ter uma marca pessoal que nunca é possível num hotel. Além disso, o hotel obriga-nos a tomar o pequeno-almoço ao fim de semana até às 10 da manhã, o que por vezes não dá jeito nenhum.

A sua bebida preferida?

Moscatel de Setúbal.

Tem alguma pedra no sapato?

Há sempre umas pedras no sapato. Vão saindo umas e entrando outras.

Que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Estou a ler a Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes. Conheci-o há um ano, quando cobriu como jornalista a conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas, em Bali. Fiquei logo com vontade de ler este livro.

Tem muitos livros na mesa de cabeceira?

Tenho sempre. O ritmo a que são renovados, infelizmente, não é o mais desejável.

A sua personagem de ficção favorita?

Gosto muito de Hercule Poirot.

Rir é o melhor remédio?

Sem dúvida.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Foi há poucas semanas, quando um colega da Quercus faleceu. Era um grande amigo.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Tem dias. Gosto de conduzir, mas às vezes sabe-me muito bem não ter de me preocupar com a condução.

É bom transgredir os limites?

Não. Sou bastante cumpridor. E sinto também a necessidade de dar o exemplo. Mais velocidade significa mais poluição.

Qual é o seu prato favorito?

Talvez borrego assado. Gosto de joaquinzinhos e bacalhau, que evito comer por razões ambientais.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Hoje o meu maior pecado é andar de avião.

A sua cor preferida?

Devia ser verde, mas é azul.

Costuma cantar no duche?

Costumo. Mas são canções curtas porque também me preocupo com a poupança de água.

E a música da sua vida?

Ó rama, ó que linda rama.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Nunca tinha pensado nisso. Mas já estamos tão habituados ao hino que seria difícil aceitar uma mudança.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Barack Obama.

As aparências iludem?

Por vezes.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Gravatas não uso. A que dou mais atenção é à camisa.

Qual é o seu maior sonho?

Umas longas e prolongadas férias para conhecer sítios fantásticos em termos culturais e naturais.

E o maior pesadelo?

É cair da moto eléctrica em que me desloco diariamente entre casa e a estação de comboio, apesar de ela não andar a mais de 45 quilómetros.

O que o irrita profundamente?

Ver deitar lixo para o chão.

Qual a melhor forma de relaxar?

Visitar Lisboa aos fins-de-semana.

O que faria se fosse milionário?

Concretizava o desejo de ter umas férias muito prolongadas. E fazia uns donativos à Quercus.

Casamentos gay: de acordo?

Não tenho uma posição definitiva. Mas não me faz muita impressão.

Uma mulher bonita?

Fico indeciso entre a Meryl Streep e a Nicole Kidman.

Acredita no paraíso?

Ainda tenho alguma esperança.

Tem um lema?

Há que digerir antes de reagir.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (8 de Novembro de 2008)

Quem fala assim... (17)

David Ferreira: «O que parece não é»

por Pedro Correia, em 10.10.20

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«Um verdadeiro cavalheiro nunca deve gabar-se de proezas sexuais, reais ou imaginárias»

 

Produtor discográfico (dirigiu a EMI-Valentim de Carvalho, líder do sector durante anos), homem da rádio e da cultura. Amaliano assumido, responsável pela reedição de Com Que Voz, o melhor disco de Amália, e filho de David Mourão-Ferreira, que escreveu para ela. Atendeu o meu telefonema e respondeu sem hesitar.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo da violência irracional, dos ases do volante, de doenças mais fortes do que a medicina.

Gostaria de viver num hotel?

Gostaria, sem dúvida. Mas apenas uns quatro a sete dias por mês.

A sua bebida preferida?

Cerveja Hoegaarden, iogurte líquido, sumo de laranja, vinho tinto.

Tem alguma pedra no sapato?

Umas estão dentro do sapato, a outras dou-lhes pontapés.

A propósito: que número calça?

Entre 41 e 43. Depende dos sapatos.

Que livro anda a ler?

Ando a ler a biografia de Jacques Brel, da autoria de Olivier Todd.

Costuma ter muitos livros na mesa de cabeceira?

Costumo, sempre na esperança de um dia converter em leitura as horas de insónia.

A sua personagem de ficção favorita?

Já foi o D' Artagnan. Já foram o Robinson Crusoe, o Artur Corvelo, o Gatsby... Hoje leio pouca ficção mas o Ulisses deve ser quem me acompanha há mais tempo.

Rir é o melhor remédio?

Às vezes não resulta.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Lembro-me muito bem. Foi no cinema.

Confesse lá: gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Não sei guiar. Sou muito egoísta.

É bom transgredir os limites?

Depende muito dos limites e da transgressão.

Qual é o seu prato favorito?

Pratos favoritos? São vários. Aqui ficam alguns: polvo assado, pernil, esparguete à putanesca, feijoada, massa guisada com carne, couvada.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A gula.

A sua cor preferida?

Vermelho.

Tem a mania de cantar no duche?

Às vezes.

E a música da sua vida?

Sou muito infiel, não sei escolher a música da minha vida.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não costumo pensar nisso, mas há algo de sagrado em hinos e bandeiras que me irrita.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional ou preferia que tivesse cores diferentes?

Sou cada vez menos clubista, ralo-me muito pouco com bandeiras ou emblemas.

Com que figura pública, nacional ou internacional, gostaria de jantar esta noite?

Gostaria muito de jantar com o Barack Obama.

As aparências iludem?

Muitas vezes.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca deve fazer?

Um verdadeiro cavalheiro nunca deve gabar-se de proezas sexuais, reais ou imaginárias.

O que é que uma verdadeira senhora nunca deve fazer?

Não sei - uma verdadeira senhora é sempre o melhor juiz daquilo que entende dever fazer.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Prefiro cachecol e fato de banho. Mas um de cada vez...

Qual é o seu maior sonho?

Tenho vários. Aqui ficam alguns, de vária ordem: a derrota do cancro, mais pessoas a ser gente e - enfim - um dia com 48 horas de duração.

E qual é o seu maior pesadelo?

O meu maior pesadelo é a autodestruição da Humanidade.

O que o irrita profundamente?

O império da ganância e da estupidez.

Qual a melhor forma de relaxar?

Existem várias. Indico apenas algumas: fazer ginástica, jogar ténis, praticar ginástica e... simplesmente andar.

O que faria se fosse milionário?

Se fosse milionário, daria a volta ao mundo.

Casamentos gay: de acordo?

Sim, se isso contribuir para tornar os homossexuais mais felizes.

Uma mulher bonita?

Michelle Pfeiffer.

Acredita no paraíso?

Sim, nem que seja só no paraíso terreno, nem que seja só às vezes.

Tem um lema?

O que parece não é.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (22 de Janeiro de 2011)

Quem fala assim... (16)

Guida Maria: «Irrita-me a mediocridade»

por Pedro Correia, em 03.10.20

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«O meu maior pesadelo é ter de aturar estes gajos todos que falam nas televisões e só dizem mentiras em que o povo continua a acreditar»

 

Foi uma das mulheres mais atraentes que conheci. E era uma actriz muito talentosa, tanto no drama como na comédia. No dia em que a entrevistei, sublinhou várias respostas com gargalhadas contagiantes. Assim lembrarei sempre a bela Guida Maria, falecida cedo de mais, a 2 de Janeiro de 2018. Deixou saudades.

 

Tem medo de quê?

De tudo aquilo que não controlo.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Preferia antes viver numa casa minha mas tendo os funcionários que costumo encontrar num hotel.

A sua bebida preferida?

Água - da torneira, de preferência. Sou totalmente abstémia.

Que número calça?

Calçava 36. Mas já vou no 37,5.

Que livro anda a ler?

Ando a ler o último livro do Miguel Sousa Tavares, o Rio das Flores.

E que tal?

Estou a gostar bastante. É completamente diferente do Equador, de que também gostei. Admiro a escrita do Miguel Sousa Tavares: mal começamos a entrar num livro dele, não conseguimos parar.

A sua personagem de ficção preferida?

Talvez as personagens das Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Gosto muitos dos livros dela, sobretudo dos primeiros.

Rir é o melhor remédio?

Com certeza. Devemos passar tudo a desenho animado ou ao registo Monty Python. Seja com quem for, seja sobre o que for.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzida?

Não gosto nada de conduzir. E cada vez tenho mais medo de ir no carro com outros a conduzir.

É bom transgredir os limites?

É a melhor coisa que há.

Qual é o seu prato favorito?

Sou um óptimo garfo. Gosto de tudo quanto seja leve - feijoada, cozido à portuguesa... Só não como nouvelle cuisine. Detesto pagar para ter fome.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Acho que são todos.

A sua cor preferida?

Normalmente é o preto.

Costuma cantar no duche?

Não. Porque tenho dó dos vizinhos. Não canto em sítio nenhum.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Apesar de tudo, é um marco para os portugueses. E até o acho bonito.

Com que figura pública gostaria de jantar?

Com o [Francesco] Alberoni. Sou fã dos livros dele.

As aparências iludem?

Infelizmente, cada vez mais. Mas só iludem se uma pessoa não estiver atenta.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Leggings. Uso-as há 30 anos. Voltaram agora a estar na moda.

Qual é o seu maior sonho?

Já os tive, mas acordei antes de os realizar.

E o maior pesadelo?

Ter de aturar estes gajos todos que falam nas televisões e só dizem mentiras em que o povo continua a acreditar.

O que a irrita profundamente?

A estupidez e a mediocridade.

Qual a melhor forma de relaxar?

Emigrarmos todos.

O que faria se fosse milionária?

Comprava este país, dava uma indemnização a toda a gente que quisesse ir embora, fechava-o para obras e tentava fazer um país mais apetecível.

Casamentos gay: de acordo?

Não tenho o direito de me pronunciar. A vida é de cada um.

Um homem bonito?

Sou profundamente vulgar. O George Clooney enche-me as medidas.

Acredita no paraíso?

Não.

Tem um lema?

Entrar e sair de qualquer sítio sempre de cabeça levantada.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (3 de Maio de 2008)

Quem fala assim... (15)

Adelino Maltez: «O homem inventou Deus»

por Pedro Correia, em 26.09.20

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«As estúpidas Constituições políticas que vamos tendo esquecem o primeiro dos direitos: o direito à felicidade»

 

Fala sem papas na língua: sugere a Maria da Fonte como novo hino nacional e sonha «destruir o sistema informático de todos os ministérios das Finanças». Politólogo, professor catedrático, comentador nos órgãos de informação, José Adelino Maltez respondeu sem hesitar a todas as perguntas que lhe fiz, já lá vão uns anos.

 

Tem medo de quê?

De ter medo.

Gostaria de viver num hotel?

Só durante um mês.

A sua bebida preferida?

Coca-Cola light.

Tem alguma pedra no sapato?

Quando tenho, uso sandálias.

Que número calça?

42. E meio.

Que livro anda a ler?

Já não tenho idade para ler. Ando a reler.

Tem muitos livros à cabeceira?

Tenho sempre dois. O Homem Revoltado, de Camus - ando a relê-lo há 35 anos, todos os dias. E A Cidadela, de Saint-Exupéry.

A sua personagem de ficção favorita?

Fernão Mendes Minto, que escreveu um dos melhores livros de sempre em Portugal. Ninguém sabe se aquilo é verdade ou mentira, mas também não interessa. Como dizia Armindo Monteiro, que foi ministro de Salazar, a História é o género literário mais próximo da ficção.

Rir é o melhor remédio?

Não há melhor remédio: é o máximo de racionalidade, como sublinhou Henri Bergson na sua tese de doutoramento. Se conseguir rir-me de mim mesmo, sou um homem superior.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Só gosto de conduzir se a máquina for dependente do meu corpo. Por isso gosto tanto de bicicleta.

É bom transgredir os limites?

O homem é o único animal que sabe que vai morrer. Por isso inventou Deus: para tentar transgredir os limites do mistério.

Qual é o seu prato favorito?

Leitãozinho da Bairrada.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

O pecado clássico de Ícaro: querer voar com asas de cera. O orgulho de não reconhecer os limites.

A sua cor preferida?

Azul, como é evidente.

É evidente porquê?

É a síntese da cor do universo. O céu é azul.

Costuma cantar no duche?

Costumo assobiar.

E a música da sua vida?

Maria da Fonte.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Sugiro o hino da Maria da Fonte.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com o Papa.

As aparências iludem?

As dos mantos diáfanos da fantasia que ocultam a verdade.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

O meu chapeuzinho.

O seu maior sonho?

Amar e ser amado.

E o maior pesadelo?

O fanatismo e a ignorância.

O que o irrita profundamente?

A falta de sentido de humor dos gajos do estadão.

Qual a melhor forma de relaxar?

Cada um tem a sua. Para mim é estacionar à beira-mar. Ou à beira do Tejo.

O que faria se fosse milionário?

Contratava cem hackers e mandava-os destruir o sistema informático de todos os ministérios das Finanças.

Casamentos gay: de acordo?

Cada um deve fazer o que lhe apetecer. Mas não usurpem uma instituição que não foi feita para eles.

Uma mulher bonita?

Apetece-me parafrasear Fernando Pessoa: todas as mulheres bonitas são ridículas, mas mais ridículo ainda é não haver mulheres bonitas.

Acredita no paraíso?

O professor Sérgio Buarque de Holanda já dizia que os portugueses gostam de procurar o paraíso na Terra. A procura do paraíso, aqui e agora, é o que mais nos falta. As estúpidas Constituições políticas que vamos tendo esquecem o primeiro dos direitos: o direito à felicidade.

Tem um lema?

Viver como penso sem pensar como vivo.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (19 de Abril de 2008)

Quem fala assim... (14)

Carlos Mendes: «Canto em todo o lado»

por Pedro Correia, em 19.09.20

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«O meu maior sonho é sair-me o euromilhões. Mas não me sairá nunca porque não jogo»

 

Arquitecto e compositor, duas vezes vencedor do Festival da Canção RTP, Carlos Mendes respondeu sem rodeios mal atendeu o telefone. Sem enrolar palavras nem esconder que canta um pouco em toda a parte. E confidenciando que chorou quando lhe morreram duas cadelas de que gostava muito.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo da pobreza, da fome e da miséria que se vão espalhando pelo mundo.

Gostaria de viver num hotel?

Já pensei muitas vezes nisso. Se fosse solteiro, admitia essa hipótese.

E escolheria alguma cidade em particular?

Paris, sem dúvida. Sinto um grande fascínio por Paris.

A sua bebida preferida?

Gosto de vinho tinto. Do Douro, de preferência. Pelo contrário, não ligo nada às bebidas "espirituosas" - uísque, licores, etc.

Tem alguma pedra no sapato?

Não sou pessoa para ter pedras no sapato. Resolvo sempre as coisas rapidamente. Sou muito directo na forma como falo, o que pode provocar alguns dissabores até porque as pessoas, em geral, não estão habituadas à franqueza. Mas prefiro assim: as pedras ficam nos sapatos dos outros e não nos meus.

A propósito: que número calça?

Nunca sei muito bem se é o 41 ou o 42. Talvez seja o 41,5.

Que livro anda a ler?

Estou a ler um livro estimulante, intitulado Renovar a Ligação Social, do [sociólogo e professor universitário francês] Roger Sue. Tem a ver com um tema que me interessa muito e que merece reflexão séria nos dias que correm: será possível mantermos o espírito colectivo nesta época ou não conseguiremos deixar de olhar em exclusivo para o nosso próprio umbigo?

A sua personagem de ficção favorita?

O Mandrake.

Rir é o melhor remédio?

Exactamente. Houve até um crítico que certa vez sublinhou o facto de eu me rir muito, como se isso lhe causasse enorme estranheza. Mas devemos rir-nos muito: é mesmo um grande remédio.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Lembro-me muito bem de uma situação em que chorei copiosamente, o que acabou por me surpreender a mim próprio. Foi quando morreram duas cadelas minhas de que gostava muito - a Gata e a Lua.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

É conforme. Se for no carro, gosto mais de ser eu a conduzir.

Transgredir é bom?

Sim, às vezes.

Qual é o seu prato favorito?

Gosto muito de bacalhau com broa. No Âncora Mar, em Vila Praia de Âncora.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A preguiça, às vezes.

A sua cor preferida?

É o verde.

No futebol também?

Também.

Costuma cantar no duche?

Costumo. Sempre. Canto em todo o lado.

E a música da sua vida?

Como músico que sou, tenho grande dificuldade em referir uma música da minha vida.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Está bem assim. É um símbolo nacional, representa uma tradição já enraizada entre nós. Mesmo que a letra seja algo disparatada, mesmo que a música não faça muito sentido. As tradições são o que são.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Não posso jantar com ele, pois já morreu. Mas gostaria muito de ter conhecido o Franco Corelli, um cantor de ópera que sempre admirei.

As aparências iludem?

Sim. E particularmente no mundo do espectáculo, que vive de aparências e de ilusões.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca passa à frente de uma senhora numa porta.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Neste momento é o boné. Porque sinto frio na cabeça e já estou careca.

Qual é o seu maior sonho?

O meu maior sonho é sair-me o euromilhões. Mas não me sairá nunca porque não jogo.

E o maior pesadelo?

Seria perder o euromilhões por um número.

O que o irrita profundamente?

A estupidez e a ânsia de protagonismo de tantos chico-espertos.

Qual a melhor forma de relaxar?

Dormir.

O que faria se fosse milionário?

Tornava-me pobre outra vez. Gastava o dinheiro num instantinho.

Casamentos gay: de acordo?

De acordo, embora ache essas convenções uma parvoíce. Sou um pouco "agnóstico" nestas coisas.

Uma mulher bonita?

A Maria Filomena Mónica. É uma mulher lindíssima.

Acredita no paraíso?

Não.

Tem um lema?

Trabalhar, trabalhar. E aprender sempre.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (27 de Fevereiro de 2010)

Quem fala assim... (13)

Raquel Freire: «A fórmula 1 faz-me sono»

por Pedro Correia, em 12.09.20

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«A vida é sempre mil vezes mais surpreendente do que o cinema»

 

Esta entrevista decorreu num contexto especial. Destinou-se a um suplemento do jornal dedicado ao centenário de Manoel de Oliveira (1908-2015). Daí a entrevistada ser a cineasta Raquel Freire e as primeiras perguntas aludirem ao então decano do cinema português. Devo reconhecer que ela correspondeu às expectativas.

 

Qual foi o primeiro filme que viu de Manoel de Oliveira?

Foi o Acto da Primavera. Marcou-me muito. É impressionante.

Dizem que os filmes dele dão sono. É verdade?

A mim, nunca deram. O único filme português que me fez adormecer foi o Zona J [de Leonel Vieira]. O que me faz sono são as corridas de fórmula 1 e os concursos da TV.

O melhor filme de Oliveira é...

Tem dias. Hoje é a Francisca.

Concorda que se trata de teatro filmado, como alguns dizem?

Não. O teatro nem é vagamente parecido com os filmes dele.

Gostava de trabalhar com ele?

Como actriz, gostava.

«O cinema é a vida», já houve quem dissesse. De acordo?

Claro que não. A vida é sempre mil vezes mais surpreendente do que o cinema.

Gostava de chegar aos cem anos ainda a filmar?

Sim!!!

Tem medo de quê?

De assistir ao sofrimento dos outros sem poder fazer nada.

A sua bebida preferida?

Um vinho do Douro.

Tem alguma pedra no sapato?

Muitas. E ainda bem.

Que número calça?

37.

Que livro anda a ler?

Ando a ler Para o Ator, de Michael Chekhov, a bíblia da interpretação. E Lacrimae Rerum, do polaco Slavoj Zizek, numa tradução de Luís Leitão. E Avódezanove e o Segredo do Soviético, de Ondjaki.

Tem muitos livros à cabeceira?

Um monte deles: os que leio e os que devia ler e ainda não consegui.

A sua personagem de ficção preferida?

Neste momento é a personagem do livro que estou a escrever. Uma pessoa que nasceu biologicamente mulher, que vive como um homem e é um transgressor.

Rir é o melhor remédio?

Quando não adianta chorar.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Foi ontem. Sou de lágrima fácil.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzida?

No carro, prefiro ser conduzida. Mas só no carro.

É bom transgredir os limites?

Sempre.

Qual é o seu prato favorito?

Arroz de lingueirão n' O Costa, em Cacela.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A luxúria.

A sua cor preferida

Vermelho.

Costuma cantar no duche?

Sempre.

E a música da sua vida?

O Concerto N.º 21, de Mozart, tocado pela Maria João Pires.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Sugiro que façam um novo.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com o Obama.

As aparências iludem?

Muito. E ainda bem.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Vestido.

Qual é o seu maior sonho?

Viver em liberdade plena.

E o maior pesadelo?

Enlouquecer.

O que a irrita profundamente?

A falta de respeito pelas pessoas.

A melhor forma de relaxar?

Filmar.

O que faria se fosse milionária?

Investia tudo quanto tivesse em crianças.

Um homem bonito?

Era o John Cassavetes.

Acredita no paraíso?

Somos nós que o criamos.

Tem um lema?

Viver o aqui e agora.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (6 de Dezembro de 2008)

Quem fala assim... (12)

Júlio César: «Faz tão bem chorar como rir»

por Pedro Correia, em 05.09.20

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«Um verdadeiro cavalheiro nunca cospe no chão, nunca bate numa mulher, nunca é grosseiro»

 

Veterano intérprete de comédia e drama nos palcos e nas telas, Júlio César é afável no contacto com jornalistas. Mesmo quando a entrevista ocorre ao telefone, como aconteceu com esta. As respostas surgiram com fluência, tanto num registo mais sério como numa toada mais descontraída. Era isso mesmo que se pretendia.

 

Tem medo de quê?

Não tenho medo de nada - sou muito valente. Só das derrotas do Sporting...

Gostaria de viver num hotel?

Não desgostava. Pela comodidade. Pelo menos não me tocavam à campainha a todo o momento nem me enchiam a caixa do correio com publicidade.

A sua bebida preferida?

A mesma de há 40 anos: Ballantine's, com gelo e água lisa.

Tem alguma pedra no sapato?

Tenho várias. Mas, ao longo da vida, tenho mantido a capacidade de trocar sapatos por sandálias sempre que é preciso.Assim as pedras acabam por sair.

Que número calça?

39, 40. Sou mal equilibrado...

Que livro anda a ler?

Agora ando a preparar uma série de TV. Não tenho tempo para ler livros. Só mesmo para ler guiões e decorar textos.

Tem muitos livros à cabeceira?

Neste momento tenho A Viagem do Elefante, do Saramago, e o Equador, que ainda não acabei. E um do Woody Alen. E um livro de crónicas do António Lobo Antunes. E O Banqueiro Anarquista, do Fernando Pessoa, entre outros.

A sua personagem de ficção favorita?

Gostava muito de ser o Super-Homem. Para voar.

Rir é o melhor remédio?

Não será o melhor, mas é um remédio aconselhável. Mas às vezes faz tão bem chorar como rir.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Lembro. Foi a ver um filme em casa. Sou muito chorão no cinema.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir. Sou um péssimo pendura.

É bom transgredir os limites?

Claro. Transgredir sempre.

O seu prato favorito?

Cozido à portuguesa. É das coisas que mais me empolgam.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Todos. Eu, pecador, me confesso.

A sua cor preferida?

Talvez o azul. Gosto também do preto e do verde-garrafa.

Costuma cantar no duche?

Não. Tenho uma péssima voz para cantar.

E a música da sua vida?

Uma das que mais vezes me vem à cabeça é Frágil, do Jorge Palma. Gosto também muito do Bairro do Amor e outras canções dele, assim como de várias do Zeca Afonso.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não me importaria que houvesse uma alteração - não na música mas na letra. Aquela coisa de ser contra os canhões já não se usa.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Já combinei um jantar com o Pedro Górgia.

Um verdadeiro cavalheiro nunca faz o quê?

Nunca cospe no chão, nunca bate numa mulher, nunca é grosseiro.

As aparências iludem?

As iludências aparudem.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Prefiro jeans. Sempre.

Qual é o seu maior sonho?

Ter férias no Alentejo, em Agosto.

E o maior pesadelo?

Não poder ter essas férias.

O que o irrita profundamente?

Irrita-me profundamente a empregada mudar-me o posto de rádio, que tenho permanentemente sintonizado na TSF. Acontece sempre às quartas e às quintas.

A melhor forma de relaxar?

Dormir.

O que faria se fosse milionário?

Não faria nada que não faço já.

Uma mulher bonita?

Fernanda Serrano.

Acredita no paraíso?

Não acredito em paraísos. Nem na Terra.

Tem um lema?

O meu lema é ser feliz e deixar que os outros sejam felizes também.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (14 de Março de 2009)


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