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Delito de Opinião

João Semedo: «Não sou dado a medos»

Quem fala assim... (44)

Pedro Correia, 07.08.21

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«Acredito que a Terra pode ser um paraíso»

 

De poucos políticos que conheci posso dizer que tenho saudades. Um deles é João Semedo: conheci-o desde os tempos em que ele ainda militava no PCP, partido que abandonou em 2002, protestando contra a falta de democracia interna. Quando lhe fiz esta entrevista, era deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Respondeu como sempre: afável, cordato, gentil. E com as ideias muito bem arrumadas. Faleceu cedo de mais, a 17 de Julho de 2018.

 

Tem medo de quê?

Não gosto de alturas, nem de espaços fechados. Mas não sou dado a medos.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Gosto de chegar a casa e de encontrar rostos familiares.

A sua bebida preferida?

Sumo de maçã.

Tem alguma pedra no sapato?

Não.

Que livro anda a ler?

Ando a ler o livro do juiz Carlos Moreno, Como o Nosso Estado Gasta o Nosso Dinheiro.

E que tal?

É muito útil para quem anda a analisar o Orçamento do Estado. Ajuda a organizar ideias.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

Normalmente não consigo ler um só livro: vou lendo dois ou três ao mesmo tempo.

De géneros diferentes?

Sim. Vou alternando os géneros conforme a disposição de cada momento. Mas faço sempre questão de ler um livro até ao fim. Sou muito persistente.

Tem um género literário preferido?

Gosto mais de prosa do que de poesia. O meu poeta favorito é Mário de Sá Carneiro. Mas o meu género preferido é a ficção - romances históricos, por exemplo. Normalmente, como se compreende, também leio muitos livros de ciência política.

A sua personagem de ficção favorita?

Corto Maltese.

Por algum motivo especial?

Identifico-me de alguma forma com a personagem.

Rir é o melhor remédio?

Um médico nunca pode responder afirmativamente a esta pergunta. Mas a boa disposição ajuda a vencer todas as maleitas.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Julgo que terá sido quando o meu pai morreu.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Na estrada, gosto de ser eu a conduzir. Na cidade, pelo contrário, gosto de ser conduzido.

É bom transgredir os limites?

Não sei se é bom ou mau: sei que muitas vezes os transgrido

Porque tem de ser?

Sobretudo por desatenção.

Qual é o seu prato favorito?

Bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, com molho de manteiga e alho.

Qual é o pecado capital pratica com mais frequência?

A gula. Sou guloso.

A sua cor preferida?

Vermelho.

No futebol também?

Também. No futebol, na política e na vida.

Costuma cantar no duche?

Tenho uma péssima voz. Não só para cantar mas também para falar. Sou um desafinado nato.

Na Assembleia da República ajuda ter uma boa voz?

Ajuda. Mas por vezes as boas vozes servem apenas para embrulhar melhor as más ideias.

E a música da sua vida?

Saudade, dos Trovante. É uma canção de que gosto imenso.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

O hino nacional faz parte da nossa história. O País não beneficiaria nada com a alteração do hino.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

Temos uma história que carregamos aos ombros. A bandeira faz parte da nossa história. Deve ficar assim.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Dilma Rousseff.

As aparências iludem?

Totalmente.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Ser apenas um cavalheiro.

O que é que uma verdadeira senhora nunca faz?

Privilegiar a forma ao conteúdo.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Casacos.

O seu maior sonho?

Indiscutivelmente, ter um verdadeiro Governo de esquerda em Portugal.

E o maior pesadelo?

Os mercados financeiros.

O que o irrita profundamente?

A hipocrisia.

A melhor forma de relaxar?

Ler um livro.

O que faria se fosse milionário?

Não imagino sequer essa hipótese.

Casamentos gay. de acordo?

Sim. Propus a lei e votei-a.

Uma mulher bonita?

Catherine Deneuve.

Acredita no paraíso?

Acredito que a Terra pode ser um paraíso.

Tem um lema?

Não tenho um lema de vida. Mas gosto muito do lema do Benfica: todos por um e um por todos. É uma expressão de solidariedade.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (6 de Novembro de 2010)

Rogério Alves: «Chorei pela última vez no dia 24 de Abril de 1974»

Quem fala assim... (43)

Pedro Correia, 24.07.21

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«Gosto muito mais de conduzir, em sentido próprio e em sentido lato»

 

Foi o mais jovem bastonário da Ordem dos Advogados - função que desempenhou entre 2005 e 2007. Hoje os portugueses conhecem-no sobretudo por ser presidente da Assembleia Geral do Sporting, cargo que já ocupava, num primeiro mandato, quando o entrevistei. Confirmando nesta conversa telefónica o que já lhe conhecia anos antes, dos bancos da faculdade: o seu sentido de humor e a sua imensa facilidade em comunicar.

 

Tem medo de quê?

Do discurso dos demagogos, do poder dos medíocres e da sua relação causa-efeito.

Gostaria de viver num hotel?

Há hotéis magníficos. Mas prefiro viver em casa.

A sua bebida preferida?

Apesar da vastíssima gama de tentações, continuo fiel à cerveja.

Tem alguma pedra no sapato?

Não. Porque não conseguiria viver com ela durante muito tempo.

Que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Um livro de David Yallop intitulado Em Nome de Deus, sobre a morte do Papa João Paulo I. E releio o Dom Quixote, um prazer imenso.

Tem muitos à cabeceira?

Costumo ter bastantes, de temáticas diferentes, tanto quanto a vastidão dos meus interesses.

A sua personagem de ficção favorita?

O Astérix.

Rir é o melhor remédio?

Não tenho a mais pequena dúvida. Gosto muito de rir, de fazer rir e que me façam rir. Felizmente em Portugal não faltam episódios e personagens hilariantes.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Em 24 de Abril de 1974. Não por qualquer premonição, mas porque nesse dia o Sporting foi eliminado pelo Magdeburgo nas meias-finais da Taça das Taças. Ainda não havia sistema, mas parecia.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito mais de conduzir, em sentido estrito e em sentido lato.

É bom transgredir os limites?

É bom, mas custa caro. Dizia o Bertrand Russell que a nossa consciência é o medo que os outros descubram.

Qual é o seu prato favorito?

Um magnífico bife com batatas fritas e o competente ovo a cavalo.

Qual é o pecado capital pratica com mais frequência?

A gula. Pratico-o em pensamentos, actos e poucas omissões.

Costuma cantar no duche?

Gosto muito de cantar, embora não goste de dar música.

E a música da sua vida?

Escolho duas: Shine on your crazy diamond (dos Pink Floyd) e My Way (de Frank Sinatra).

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Para proteger a longevidade do hino, sugiro que se abra um amplo debate que espero que seja, como os demais, tendencialmente inconclusivo.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Nelson Mandela [falecido em Dezembro de 2013].

As aparências iludem?

E muito! Não se deve confundir uma obra-prima de mestre com a prima do mestre-de-obras.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Uns jeans.

O seu maior sonho?

Ter ainda tempo e força para deixar aos meus filhos e aos filhos dos outros um mundo muito melhor.

E o maior pesadelo?

Não conseguir inverter a onda de egoísmo que grassa entre as pessoas - directamente proporcional ao número de vezes em que falamos de solidariedade.

O que o irrita profundamente?

Em concreto, a falta de pontualidade. Mais genericamente, a frequente vitória da demagogia sobre a pedagogia.

A melhor forma de relaxar?

Ouvir música enquanto se tem um bom diálogo com bons amigos.

O que faria se fosse milionário?

Gastaria dinheiro com frequência regular em coisas úteis e boas para mim, os meus e os outros.

Casamentos gay. de acordo?

Confesso que é uma ideia à qual não me consigo adaptar. Não por preconceito mas por conceito.

Uma mulher bonita?

Raquel Welch. E Sharon Stone.

Acredita no paraíso?

Acredito na vida para além da morte - e espero bem que seja um paraíso.

Tem um lema?

Querer é poder.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (19 de Julho de 2008)

Moita Flores: «Não devemos marchar contra os canhões mas pela liberdade»

Quem fala assim... (42)

Pedro Correia, 03.07.21

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«O mau humor com humor se paga»

 

Francisco Moita Flores já foi inspector da Judiciária, argumentista de séries televisivas, presidente de câmara. Hoje é mais conhecido como escritor. Quando o contactei para esta entrevista telefónica, prontificou-se de imediato a responder. Sem fugir a nenhuma pergunta. «Irrita-me profundamente a ignorância voluntária», disse este antigo polícia que não aprecia policiais.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Um dia em que vim de propósito de Paris a Lisboa, metendo-me no primeiro avião só para ver jogar o Sporting. Se o meu clube ganhasse, tornava-se campeão nacional. Nesse domingo, que jamais esquecerei, caíu imensa chuva. E o Benfica ganhou 6-3.

Gostaria de viver num hotel?

Não.

Porquê?

Tenho um grande sentido tribal na minha relação com as coisas. Preciso sempre dos cheiros de uma casa.

A sua bebida preferida?

Água.

Que número calça?

42.

Que livro anda a ler?

Releio as Máscaras de Salazar, do Fernando Dacosta. Sou amigo dele, gosto da escrita dele.

A sua personagem de ficção favorita?

Charles Foster Kane, personagem central de Citizen Kane. Criação genial de Orson Welles num dos melhores filmes de sempre.

Gosta de livros policiais?

Não desgosto.

Mas...

Não é um dos grandes prazeres da minha vida. Estou sempre a comparar as minhas opções narrativas com as dos autores que vou lendo. Muitas vezes não conferem. 

O criminoso volta sempre ao local do crime?

Não. Isso faz parte de uma certa literatura romântica e foi exacerbado pelo Conan Doyle.

A sua cor preferida?

Verde, obviamente.

E a música da sua vida?

São tantas... Mozart acompanha-me com frequência. Gosto muito daquela alegria, da dimensão dramática daquela música. Costumo escrever com Mozart em fundo.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Aquela história de marchar contra os canhões chateia-me um bocado. Era capaz de mudar isso, até porque os canhões usam-se cada vez menos. Devemos marchar não contra os canhões mas pela paz e pela liberdade.

Que pecado capital pratica com mais frequência?

Sou pouco pecador...

Seja sincero...

Talvez a luxúria, por vezes, quando era mais novo. Sou um pouco epicurista.

Com quem gostaria de jantar esta noite?

Com António Lobo Antunes: sou um apaixonado pela escrita dele. E com Rui Rio: é um grande autarca, um homem público com uma dimensão invulgar.

Humor com humor se paga?

Sim. E sobretudo o mau humor com humor se paga.

O maior sonho?

Gostaria de descer a cortilheira dos Andes de comboio. Julgo tratar-se de uma paisagem lindíssima. É uma viagem que tenho eternamente adiada.

O maior pesadelo?

Pesadelos, não tenho. A minha maior preocupação é a saúde dos meus filhos e dos meus netos.

O que o irrita profundamente?

A ignorância voluntária. Deixa-me completamente fora de mim.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de ser conduzido. Sou muito preguiçoso a conduzir.

Casamentos gay. de acordo?

Desde que não me aborreçam, convivo bem com gays. Mas nunca percebi bem essa reivindicação, que me parece mais folclore do que uma necessidade.

Um exemplo de mulher bonita na política?

Gosto muito da Ségolène Royal.

Acredita no paraíso?

Acredito no Cinema Paraíso. Foi um dos mais belos filmes que vi em toda a minha vida.

Tem um lema de vida?

Disciplina e trabalho. São valores que em Portugal não estão na moda. Mas continuo a cultivá-los.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (2 de Junho de 2007)

Joaquim Letria: «Dar a camisa é mais importante do que suar a camisola»

Quem fala assim... (41)

Pedro Correia, 22.05.21

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«Não acredito no paraíso. Se existisse, já alguém o teria estragado por completo»

 

Já foi um dos mais populares jornalistas portugueses, tendo conduzido durante anos programas informativos na RTP após ter trabalhado na BBC e na Associated Press. Fundou os semanários O Jornal e Tal & Qual, além da revista Sábado. Ao telefone escutei a sua voz pausada e bem timbrada, inconfundível. Com sentido de humor britânico. O sonho dele? «Viver o mais possível e divertir-me tanto daqui para a frente como me tenho divertido até hoje.»

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Certas finais europeias que o Benfica perdeu. Fui a todas e algumas decepcionaram-me.

Gostaria de viver num hotel?

Já vivi. Para quem está só, é óptimo: a cama feita, o quarto arrumado...

A sua bebida preferida?

Vodka.

Com laranja?

Pura. Geladinha e mais nada.

Que número calça?

Depende. Em regra, 41. Mas algum 40 também me serve.

Que livro anda a ler?

Ser Benfiquista, de Luís Miguel Pereira. Ao mesmo tempo, leio Sábado, de Ian McEwan.

A sua personagem de ficção favorita?

Philip Marlowe, o detective criado por Raymond Chandler. O Humphrey Bogart fazia aquele papel na perfeição.

Gostaria de ter sido detective?

A fronteira entre o bem e o mal é muito ténue. Era capaz de ser detective às terças, quintas e sábados, e de ser investigado às segundas, quartas e sextas. Talvez até fosse mais interessante assim.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

De ser conduzido: não guio. Isto no que diz respeito aos automóveis. No resto, prefiro conduzir. Mas há momentos de preguiça em que é óptimo ser conduzido.

É bom transgredir os limites?

É bom andar nos limites e transgredi-los de vez em quando. Sem avariar a máquina...

Qual é o seu prato favorito?

Bacalhau cozido, cozido à portuguesa... Aprecio comida tradicional portuguesa. Pouca fusão, pouca nouvelle cuisine.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Talvez o cobiçar a mulher do próximo, o que começa a ser perfeitamente inocente.

A sua cor preferida?

Gosto do preto. E do vermelho.

Costuma cantar no duche?

Não. Tenho demasiado respeito por quem canta e gosto demasiado de música para não me ouvir a mim próprio..

E a música da sua vida?

O Bach todo.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

De maneira nenhuma. Por respeito. E porque não é preciso. Mas tenho curiosidade em saber qual era o hino antes da república. Não faço a mínima ideia.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

O Presidente Bush. Para perceber se ele consegue falar e comer ao mesmo tempo.

As aparências iludem?

Por vezes.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

A camisa: é algo que podemos dar a alguém. Dar a camisa é mais importante do que suar a camisola.

Qual é o seu maior sonho?

Viver o mais possível. E divertir-me tanto daqui para a frente como me tenho divertido até hoje.

E o maior pesadelo?

Ficar na dependência de alguém. É a única coisa de que tenho medo.

O que o irrita profundamente?

O mau gosto.

O que faria se fosse milionário?

Podia dar-me ao luxo de viver o mais simplesmente possível. Os milionários que conheço é assim que fazem.

Casamentos gay: de acordo?

Sim, por motivos de ordem administrativa para resolver questões práticas. Em termos morais, não faz sentido. Nem é necessário.

Uma mulher bonita na política?

Talvez Angela Merkel. Há um lado secreto naquele olhar que engana muito. Não deve ter sido por acaso que o chanceler Helmut Kohl a protegeu tanto.

Acredita no paraíso?

Não. Se existisse, já alguém o teria estragado por completo.

Tem um lema?

E pluribus unum.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (8 de Dezembro de 2007)

Helena Sacadura Cabral: «Não tenho nenhuma vocação para ser masoquista»

Quem fala assim... (40)

Pedro Correia, 15.05.21

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«O meu maior sonho é ver os meus netos crescidos e com uma vida profissional que nada tenha a ver com a política»

 

Economista de profissão, escritora por vocação, excelente contadora de histórias, Helena Sacadura Cabral não tem dúvidas: «A política estraga as pessoas.» É um dos raros temas que lhe ensombra o humor. Mas felizmente não faltam outros motivos de conversa. Esta entrevista, ao telefone, foi pontuada por várias gargalhadas - de parte a parte. Muito antes de nos tratarmos por tu e de ela figurar como autora do DELITO.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Os meus filhos [Miguel e Paulo Portas] terem ido para a política. Estava a ver um como um brilhante advogado e outro como um brilhante gestor...

Gostaria de viver num hotel?

Não desgostava. Mas depende do hotel: de cavalo para burro, não - até porque a minha casa é boa.

A sua bebida preferida?

Água.

Que número calça?

No Verão, 37,5. No Inverno, 37.

Que livro anda a ler?

Ando a ler o último livro do Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores.

E que tal?

Já li cerca de um terço. Por enquanto estou a gostar.

Se não gostasse, já teria desistido?

Já. Quando não tenho vontade de continuar ao fim de vinte folhas, não continuo mesmo. Não tenho nenhuma vocação para ser masoquista.

A sua personagem de ficção favorita?

O Super-Homem. E, noutro género, o Astérix. Uma criatura anormal, outra normalíssima.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzida?

Gosto muito mais de ser conduzida. Já cheguei a uma idade em que reservo o esforço físico e mental só para questões verdadeiramente importantes.

É bom transgredir os limites?

Desde que, ao transgredir os limites, eu não caia no poço. Prefiro chegar perto da transgressão: assim evito consequências fatais.

Qual é o seu prato favorito?

Cozido à portuguesa. De preferência em tascas. Também não tenho vocação nenhuma para o finório em que se paga de mais...

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Na minha idade, a gula.

A sua cor preferida?

O castanho: é uma cor contida, austera.

Associa-se ao Outono...

Gosto muito do Outono. E também gosto do vermelho.

Costuma cantar no duche?

Gostava de cantar. Mas o meu grau de desafinação é tão grande que se cantasse teria de acabar o duche mais cedo.

E a música da sua vida?

My Way, na voz do Sinatra.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Aí sou tradicionalíssima. Deixo esse trabalho para o António Alçada Baptista [escritor falecido em 7 de Dezembro de 2008].

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com nenhuma! A minha aversão às figuras públicas é total.

As aparências iludem?

Oh, se iludem! Hoje não se leva nada autêntico para casa...

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Tudo o que seja lingerie.

Qual é o seu maior sonho?

Gostaria de ver os meus netos crescidos e com uma vida profissional que nada tivesse a ver com a política.

E o maior pesadelo?

É ligar a televisão todos os dias e ouvir os telejornais. Não há nenhum filme cujo guião consiga ultrapassar esta nossa realidade.

O que faria se fosse milionária?

Já sou milionária. Não de dinheiro, mas de afectos, por exemplo. Se fosse milionária de dinheiro, contratava um motorista para me levar onde eu quisesse.

Casamentos gay: de acordo?

Tanto me faz. Os heterossexuais estão a descasar-se cada vez mais. Se os gays querem casar-se, então que casem.

Um homem bonito na política?

Gostava do Bernard Kouchner. Mas meteu-se na política e envelheceu mal. A política estraga as pessoas.

Acredita no paraíso?

Acredito. Quem vive no inferno não pode deixar de acreditar no paraíso.

Tem um lema?

Não tenho um lema. Mas há um princípio que me rege: «Vive e deixa viver.»

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (8 de Março de 2008)

António Nogueira Leite: «Adoro conduzir»

Quem fala assim... (39)

Pedro Correia, 08.05.21

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«Há um lema que me acompanha sempre: se queres que os outros não saibam o que fizeste, é melhor que não o tenhas feito»

 

Secretário de Estado do Tesouro no segundo Executivo de António Guterres, militante do PSD desde 2005, António Nogueira Leite foi afável nas respostas às perguntas que lhe fiz por telefone. Cor favorita? Azul. E a bebida preferida? "Sumo de laranja. Sem ironia", disse o economista, doutorado pela Universidade do Illinois (EUA) e catedrático da Universidade Nova de Lisboa.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo da "asfixia democrática".

Gostaria de viver num hotel?

Não. Não faz, de todo, o meu género. Gosto de um espaço que só eu e a minha família conheçamos. Um hotel não tem a minha marca.

A sua bebida preferida?

Sumo de laranja. Sem ironia.

Tem alguma pedra no sapato?

Tinha antes de começar a perder peso. Sentia-me inferior aos magros.

Que número calça?

45.

Que livro anda a ler?

Ando a ler vários. Ando a ler Angeja e a Região do Baixo Vouga, de Ricardo Nogueira Souto. É uma monografia já com 80 anos. Leio-a por razões familiares: o autor era da minha família. E também por gosto pessoal: leio muita historiografia. Ando também a ler o último romance do Philip Roth.

Tem muitos livros à cabeceira?

Tenho. Tenho mesmo o hábito, de toda a vida, de ler vários livros ao mesmo tempo - quase sempre três ou quatro, de géneros diferentes.

A sua personagem de ficção favorita?

O Sandokan. Os livros dele já não eram lidos em Portugal na minha geração mas costumava lê-los em casa dos meus avós - era uma espécie de herói secreto. Acontecia algo semelhante com a banda desenhada, em que o meu herói era o Alix porque sempre gostei muito da história de Roma. A maioria dos meus amigos, pelo contrário, não ligava nada às aventuras do Alix.

Rir é o melhor remédio?

É um bom remédio. Às vezes respirar fundo e afastarmo-nos também é uma alternativa simpática e eficaz.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Lembro-me. Foi numa circunstância particular.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir. Adoro conduzir.

É bom transgredir os limites?

Tento cumprir o meu código de ética rodoviária e observar a lei geral, embora já tenha sido multado por excesso de velocidade. Mas nos quatro anos em que vivi nos Estados Unidos recebi um atestado de bom comportamento na estrada, do secretário de Estado do Illinois.

Qual é o seu prato favorito?

Cabrito assado. Sou uma pessoa de gostos simples.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A gula. Mas agora entrei em dieta para acertar o passo com as exigências da modernidade.

A sua cor preferida?

Azul.

Costuma cantar no duche?

Deixei-me disso, mas já o fiz.

E a música da sua vida?

Ain't no Mountain Enough, de Marvin Gaye e Tammi Terrell.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Retirava aquela parte de marchar contra os canhões. Parece-me pouco eficaz.

E a actual bandeira nacional parece-lhe bem assim?

Preferia a bandeira monárquica, sem a coroa. Tinha um ar mais europeu. Esta é muito subsariana.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Não posso dizer porque a minha mulher é capaz de ler o jornal.

As aparências iludem?

A mim já iludiram.

Na política também?

Claro. Aquela figura do encantador de serpentes não é só na Índia.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca deixa de dar o lugar às senhoras.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Gosto muito de gravatas, o que é mais um sintoma da minha falta de modernidade.

Qual é o seu maior sonho?

O meu maior sonho é que eu esteja profundamente errado relativamente ao montante das reformas destinadas às pessoas da minha geração.

E o maior pesadelo?

É que eu esteja certo.

O que o irrita profundamente?

O farisaísmo. E as pessoas que são incapazes de discutir ideias e só gostam de discutir perfis.

Qual a melhor forma de relaxar?

Estar com a família.

O que faria se fosse milionário?

Passava a ser indiferente em relação ao meu pesadelo.

Casamentos homossexuais: de acordo?

Cada um faz o que quer. Como dizia o brasileiro, «debaixo dos panos é com cada um». À partida, não estou de acordo com o casamento homossexual: é uma instituição que foi concebida para pessoas de sexos diferentes. Mas é um tema que não me perturba.

Uma mulher bonita?

Há uma mulher de quem discordo frontalmente, que considero fraquíssima do ponto de vista político, mas que tem um encanto especial: Ségolène Royal. Dada a idade dela, certamente a minha mulher não se importa que eu diga isto.

Acredita no paraíso?

Acredito.

Tem um lema?

Há um lema que me acompanha sempre: se queres que os outros não saibam o que fizeste, é melhor que não o tenhas feito.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (24 de Outubro de 2009)

Manuel Serrão: «A bandeira nacional tem cores horríveis, prefiro a monárquica»

Quem fala assim... (38)

Pedro Correia, 24.04.21

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«Gostava de jantar com a Scarlett Johansson. Mas com uma condição: que ela não me levasse a comer sushi»

 

A entrevista telefónica ao empresário portuense que também se destaca como colunista e comentador foi sublinhada de vez em quando por sonoras gargalhadas. E constantes alusões a petiscos e bebidas. Desde a pergunta inicial até quando o questionei sobre a melhor forma de relaxar. Passando pelo pecado capital que pratica com mais frequência.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de morrer à fome.

Gostaria de viver num hotel?

Não me importava. Julgo que poderia ter uma boa vida em alguns hotéis que conheço. Depende das circunstâncias: talvez gostasse.

A sua bebida preferida?

Vinho.

Tem alguma pedra no sapato?

Já tive algumas, no tempo em que costumava jogar futebol. Nessas alturas descalçava sempre as chuteiras para as tirar. Nunca nenhuma dessas pedras me fez mossa.

Que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Ando a ler Anibaleitor, do Rui Zink.

E que tal?

Estou a gostar. Aliás já conhecia a obra, numa outra versão. Prefiro sempre os livros dele quando os refaz: já foi assim com A Espera. Quando ele refaz, ele refina. E eu gosto ainda mais.

A sua personagem de ficção favorita?

O Sandokan, desde sempre. Gostava de ser um tigre da Malásia.

Rir é o melhor remédio?

Rir é sempre o melhor. Mesmo que não seja remédio.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Não sou muito de chorar. Tenho de recuar bastante no tempo para me lembrar disso: acho que foi a ver o filme África Minha, de Sydney Pollack [1985, galardoado com o Óscar no ano seguinte]. Graças a Deus, a vida não me tem dado grandes motivos para chorar.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto de conduzir, em todos os sentidos da palavra. Tenho muito medo de ir ao lado. E de ir atrás então nem se fala...

Transgredir é bom?

Com algum calculismo, sim.

Qual é o seu prato favorito?

Depende muito. Costuma ser cozido à portuguesa. Também gosto sempre de um bom bacalhau assado.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

É o vinho verde do meu amigo José Armindo. Chama-se precisamente Pecado Capital.

A sua cor preferida?

São duas: o azul e o branco.

Costuma cantar no duche?

Não. As vizinhas certamente agradecem.

E a música da sua vida?

Talvez João e Maria, do Chico Buarque.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Confesso que não gosto muito do hino nacional. Mas é o nosso hino. E nestas coisas dos símbolos nacionais não devemos inventar.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

A bandeira tem cores horríveis: gosto mais da bandeira monárquica. Mas repito: não devemos mexer nos símbolos, que fazem parte da identidade nacional.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Gostava de jantar com a Scarlett Johansson. Mas com uma condição: que ela não me levasse a comer sushi.

As aparências iludem?

Depende. Quando a ideia é aparentar, a ilusão é sempre grande.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca deve cuspir na mão que lhe deu de comer.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Camisa. Mas com botões.

Qual é o seu maior sonho?

Continuar a viver feliz, como tenho vivido. Com saúde e boa disposição. Para mim, chega.

E o maior pesadelo?

O meu maior pesadelo é que o Benfica seja campeão outra vez para o ano.

O que o irrita profundamente?

A falta de pontualidade.

Então tem certamente muito de que se queixar.

Pois. Mas agora, com os telemóveis, já não há qualquer desculpa.

Qual a melhor forma de relaxar?

Conversar. Com uns amigos. E uns petiscos.

O que faria se fosse milionário?

Se pudesse escolher, faria exactamente o que faço hoje. Não mudava uma vírgula na minha vida.

Casamentos gay: de acordo?

Estou de acordo com o reconhecimento de direitos, a vários níveis, aos homossexuais. Mas achei infeliz a utilização do termo casamento para tentar tornar igual aquilo que é diferente. Podiam ter sido mais originais e inventar uma palavra.

Uma mulher bonita?

A Carla Chambel. Gosto da beleza exótica.

Acredita no paraíso?

Nos dias em que me sinto mais abatido, faço por acreditar.

Tem um lema?

Não.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (22 de Maio de 2010)

Medina Carreira :«Nunca fui corrompido»

Quem fala assim... (37)

Pedro Correia, 17.04.21

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«Este país vive sempre no curto prazo, em função do trimestre anterior e do trimestre que há-de vir»

 

Bem ao seu jeito, Henrique Medina Carreira respondeu assim, quando lhe perguntei qual era o seu maior sonho: «Era ver isto governado por gente honesta e competente. Se não mudarmos, Portugal caminha rapidamente para um desastre financeiro e social de proporções históricas.» Numa entrevista telefónica que lhe fiz 18 meses antes da chegada da troika. Quem o conheceu, reencontra o seu tom aqui, do princípio ao fim. Infelizmente, o ministro das Finanças do I Governo Constitucional já não está connosco: faleceu a 3 de Julho de 2017.

 

Tem medo de quê?

Quase toda a gente tem medo de morrer. Eu não. Mas tenho medo da forma como se morre, do sofrimento. Fora isso, não tenho medo nenhum. Sou uma pessoa de vida limpa: nunca enganei ninguém, nunca fui corrompido.

Gostaria de viver num hotel?

De jeito nenhum. Gosto de viver em sossego.

A sua bebida preferida?

Água.

Tem alguma pedra no sapato?

Não. Houve quem me fizesse umas patifarias, mas isso não chega para alterar o meu humor.

Que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Ando sempre a ler vários livros. Neste momento estou a ler com muito interesse um do Vasco Pulido Valente sobre a política nos séculos XIX e XX. Ando a ler também com muito interesse outro livro, da Fátima Bonifácio, sobre o liberalismo.

História é um tema que lhe interessa?

É. Não conseguimos perceber bem o presente nem encontrar soluções para o futuro sem conhecermos o passado. Este país vive sempre no curto prazo, em função do trimestre anterior e do trimestre que há-de vir.

Tem muitos livros à cabeceira?

Na cabeceira só tenho canetas e uma telefonia. Mas tenho livros a toda a volta. Vivo rodeado de livros, desordenadamente e em pilhas. Quando quero um lá consigo encontrá-lo.

A sua personagem de ficção favorita?

As do Eça, sobretudo d' Os Maias e d' A Relíquia.

Falta-nos hoje um Eça?

Não sei se um Eça hoje bastaria.

Rir é o melhor remédio?

Tenho um ar desagraçadamente sisudo, mas gosto imenso de dar umas gargalhadas. Quando estou com pessoas de que gosto costumo rir-me perdidamente.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Choro com frequência, até com notícias da televisão. É uma fragilidade minha.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito de conduzir, mas conduzo muito pouco porque há cada vez menos espaço para estacionar.

É bom transgredir os limites?

Depende. Quando são os outros que estão em jogo, não devemos transgredir.

Qual é o seu prato favorito?

Gosto muito de sardinhas assadas, de bacalhau. No fundo, gosto daquilo de que os portugueses gostam.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Acho que não pratico nenhum. Não tenho a consciência pesada.

A sua cor favorita?

Encarnado. Sou benfiquista.

Costuma cantar no duche?

Não. Ficaria assustado comigo mesmo.

E a música da sua vida?

Sei pouco de nomes de músicas. Mas há uma que me fascina: o Adagio, de Albinoni.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Gosto muito do hino. Refiro-me sobretudo à música, pois reconheço que a letra é um pouco caricata. Mas todas as letras dos hinos são caricatas: basta ouvir as do Benfica ou do Sporting.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Mário Soares [falecido em Janeiro de 2017]. Trabalhei com ele e hoje estou em desacordo com ele em quase tudo. Mas é uma pessoa fascinante.

As aparências iludem?

Sou uma pessoa de boa fé. Costumo até dizer que qualquer um é capaz de me vender um carro eléctrico mas ninguém me vende segunda vez um carro eléctrico. Quando me enganam, é definitivo. Na política portuguesa existem aldrabões a mais. Aqueles que me enganam vão para o arquivo...

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Desrespeitar os fracos, os idosos, as senhoras. Ainda sou do tempo de dar a direita a uma senhora.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Aquilo que trago agora: uma camisa ligeira e umas calças de ganga. Detesto casaco.

Qual é o seu maior sonho?

O meu maior sonho era ver isto governado por gente honesta e competente. Se não mudarmos, Portugal caminha rapidamente para um desastre financeiro e social de proporções históricas.

E o maior pesadelo?

Tenho um pesadelo frequente: acordo a meio da noite, num local estranho, que não sei qual é.

O que o irrita profundamente?

A aldrabice. Acho-a particularmente detestável.

Qual a melhor forma de relaxar?

Andar. Ler. Passear sem rumo e sem preocupações.

O que faria se fosse milionário?

É coisa a que não aspiro pois não saberia o que fazer.

Casamentos homossexuais: de acordo?

Não. Casamento é uma figura histórica que assenta na ideia de desigualdade sexual. Mas a regulação jurídica de uma relação entre iguais é algo que defendo há muito.

Uma mulher bonita?

Teresa Gouveia. Tem uma beleza serena, ponderada, reflectida, respeitadora.

Acredita no paraíso?

Não. A gente vive aqui e depois vamos todos para o mesmo sítio.

Tem um lema?

Fui educado sob o lema dos Pupilos do Exército: Querer é poder. Ao longo da minha vida tenho sido muito o produto da aplicação deste lema.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (22 de Agosto de 2009)

António Manuel Ribeiro: «A rotina mata»

Quem fala assim... (36)

Pedro Correia, 10.04.21

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«Gostei sempre do Robin dos Bosques. É o primeiro sinal de que podíamos distribuir melhor a riqueza»

 

Compôs o hino do Benfica, mas prefere o azul. É republicano, mas agrada-lhe a bandeira monárquica. Adora peixe grelhado e detesta cobras. Celebrizou-se no rock, como vocalista dos UHF, mas relaxa a ouvir jazz no sofá. António Manuel Ribeiro, atencioso ao telefone nesta conversa que travámos, confessa o que faria se fosse milionário: «Aplicava o dinheiro em empresas que produzissem e exportassem. Precisamos de incentivar os portugueses a não fugir de Portugal.»

 

Tem medo de quê?

De cobras.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Faltar-me-iam sempre os meus livros e os meus discos.

A sua bebida preferida?

Água.

Tem alguma pedra no sapato?

Não.

Que número calça?

41.

Que livro anda a ler?

O Código de Deus, de Gregg Baden. É um livro muito interessante.

Interessa-se por temas relacionados com religião?

Sim. A vida espiritual interessa-me bastante.

Tem muitos livros à cabeceira?

Tenho. Sou um comprador compulsivo de livros e discos. Costumo guardar os discos para os ouvir com atenção durante as viagens de carro que faço nas minhas digressões.

E os livros?

Os livros também ficam guardados à espera da primeira oportunidade. Leio sempre dois em simultâneo.

A sua personagem de ficção favorita?

Gostei sempre do Robin dos Bosques. É o primeiro sinal de que podíamos distribuir melhor a riqueza.

Rir é o melhor remédio?

Rir é um grande remédio. Aliás está cientificamente provado que ajuda a consolidar o sistema imunitário.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Foi a ver um filme, já há muito tempo. Emociono-me com as coisas boas. Quando alguém descobre alguém, quando os amantes se reencontram...

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito mais de conduzir. Sou um condutor com muita experiência. Nas raras vezes em que entreguei o carro acabei por ir sempre com um olho aberto. Não vale a pena.

Transgredir é bom?

Sim. Tenho uma canção intitulada Uma palavra tua que fala disso: «Violei as leis, passei entre a chuva, em tudo procurei uma palavra tua.» A vida sem alguma transgressão não é vida. A rotina mata.

O seu prato favorito?

Peixe grelhado. Vivo na Costa da Caparica, o que explica isso.

O pecado capital que pratica com mais frequência?

A preguiça. Mas não considero que seja um pecado. Por vezes temos de parar.

A sua cor preferida?

Azul: é a cor que prefiro no vestuário, no visual. Apesar de ser autor do hino do Benfica.

Costuma cantar no duche?

Se estou a escrever uma canção, levo a melodia para todo o lado, até quando às compras no supermercado. E também a levo comigo para o duche.

E a música da sua vida?

Light My Fire, dos Doors. Tem qualquer coisa que ficou para sempre.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

O hino é um símbolo com que nos temos identificado ao longo de várias gerações. Não o mudaria, embora não me reveja no conteúdo belicista da letra.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

A monárquica parece-me ter cores mais interessantes, embora eu seja republicano.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Barack Obama. Gostaria de lhe perguntar se tenciona cumprir todas as promessas eleitorais.

As aparências iludem?

Iludem bastante.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Nunca deve falar alto.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Blusões de pele. Gosto de os guardar mesmo quando ficam velhos.

Qual é o seu maior sonho?

É que este país se concretize. Passamos o tempo a ouvir políticos a pedir-nos sacrifícios. Não podemos continuar a viver assim.

E o maior pesadelo?

Não tenho pesadelos.

O que o irrita profundamente?

A hipocrisia. As duas caras.

Qual a melhor forma de relaxar?

Pôr um disco de jazz. Na minha sala, no meu sofá.

O que faria se fosse milionário?

Aplicava o dinheiro em empresas que produzissem e exportassem. Precisamos de incentivar os portugueses a não fugir de Portugal.

Casamentos gay: de acordo?

Costumo dizer que o meu divórcio é de longa duração. O casamento é uma convenção. Mas se as pessoas quiserem casar-se, tudo bem.

Uma mulher bonita?

Há várias belezas. A da Angelina Jolie, uma beleza excessiva. E a da Fernanda Serrano, que é uma beleza serena, misteriosa.

Acredita no paraíso?

Acredito no paraíso aqui na terra. Construído por nós.

Tem um lema?

Fazer bem todos os dias.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (10 de Abril de 2010)

Vítor Norte: «Escrevo desde miúdo»

Quem fala assim... (35)

Pedro Correia, 03.04.21

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«Se fosse milionário comprava a barragem de Pego do Altar»

 

Se todos os entrevistados fossem como ele, a vida de jornalista era mais fácil. Mesmo sem me conhecer pessoalmente, Vítor Norte atendeu o telefone e prontificou-se de imediato a responder às perguntas que eu ia fazendo do outro lado da linha. Não hesitou em nenhuma resposta. Com a desenvoltura de um actor experiente e calejado, que faz das palavras sua matéria-prima.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo das alturas. Mas, apesar disso, ainda ontem fui andar de balão.

E que tal?

Foi muito agradável.

Gostaria de viver num hotel?

Não me importava nada. Tinha sempre a cama feita.

Algum hotel de preferência?

O melhor.

A sua bebida preferida?

Sumo de laranja. Tem vitamina C e não me põe tonto.

Tem alguma pedra no sapato?

Se tiver o sapato roto, às vezes entra uma. Mas por agora não tenho nenhuma.

A propósito: que número calça?

40. Mas tem de ser de forma larga por causa dos joanetes.

Que livro anda a ler?

Agora não ando a ler nenhum. Mas ando a escrever um livro.

Que género de livro?

Um livro de ficção. Contos. Sempre escrevi, desde miúdo. Dá-me tanto prazer escrever como representar embora ache que represento melhor do que escrevo.

Também gosta de ler?

Também. Mas leio por fases.

A sua personagem de ficção favorita?

Tenho muitas saudades do Capitão Roby [série da SIC em que representou o principal papel]. Todos os dias me falam dessa série. Infelizmente só houve três episódios.

Rir é o melhor remédio?

Sim, muitas vezes é o melhor remédio.

Chorar também pode ser um remédio...

Sim. Mas é mais agradável rir do que chorar.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Tenho muita dificuldade em chorar. Quase têm de me bater para que isso aconteça. A última vez em que chorei? Se calhar foi ao lembrar-me do meu pai.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

De conduzir. Completamente.

Ir no lugar do pendura não combina consigo?

De maneira nenhuma. Quando isso por acaso acontece vou sempre com quatro olhos abertos em vez de dois.

Qual é o seu prato favorito?

Corn flakes. É sempre barato e é saborosíssimo.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A preguiça com um bocadinho de luxúria.

A sua cor preferida?

O verde.

No futebol também?

Também, embora não faça a mínima ideia sobre a constituição das equipas. Como o meu pai era do Sporting, eu também sou.

Costuma cantar no duche?

Não. Se cantasse, acabava por fugir. Todo nu e todo molhado.

E a música da sua vida?

Gosto muito de música country.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. O hino está bem assim.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

Parece. Não devemos brincar com os símbolos nacionais.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com qualquer figura pública que me pagasse o jantar.

Algum restaurante de preferência?

O melhor.

As aparências iludem?

Completamente.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Sair à frente de uma senhora.

O que é que uma verdadeira senhora nunca faz?

Sair atrás de um cavalheiro.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Botas.

Em qualquer época?

Em qualquer época. Dão-me muito jeito para andar de moto.

Qual é o seu maior sonho?

Ver crescer os meus filhos e saber que estão felizes.

E o maior pesadelo?

Continuar desempregado. Mas não é nada a que não esteja habituado.

O que o irrita profundamente?

A estupidez.

Qual a melhor forma de relaxar?

Sair de Lisboa e fazer campismo selvagem. Na barragem de Pego do Altar, perto de Alcácer do Sal, por exemplo. É lindíssima.

O que faria se fosse milionário?

Comprava a barragem de Pego do Altar.

Casamentos gay: de acordo?

Estou. Completamente. Desde que não se casem comigo...

Uma mulher bonita?

A mais recente namorada do Ronaldo.

Acredita no paraíso?

Acredito.

Tem um lema?

Vive e deixa viver.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (23 de Outubro de 2010)

Jorge Palma: «Gosto de cantar ópera»

Quem fala assim... (34)

Pedro Correia, 27.03.21

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«Gostava muito de beber um copo com o Keith Richards»

 

Foi uma entrevista algo acidentada. Começou por ser difícil entrar em contacto com ele. Enfim, o intérprete de Bairro do Amor disponibilizou-se para responder ao meu inquérito telefónico. Mas a meio da conversa deixou cair o telemóvel e receou tê-lo quebrado. Felizmente foi falso alarme e pudemos prosseguir. Com ele a responder exactamente o mesmo que eu diria perante a mesma pergunta: «Se fosse milionário, comprava um iate.»

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de perder a cabeça.

Gostaria de viver num hotel?

Eu passo a vida em hotéis. Gosto de hotéis. Mas casa é casa.

A sua bebida preferida?

Depende das circunstâncias. Tequila sunrise, por exemplo. Um bom whisky. E adoro cerveja...

Tem alguma pedra no sapato?

Estou atrasado na gravação do meu próximo disco. As canções não me estão a sair à velocidade que eu queria.

A propósito: que número calça?

Calço 40, 41.

Que livro anda a ler?

Vou começar agora a ler o último livro do José Luís Peixoto. Que se chama Livro, precisamente.

A sua personagem de ficção favorita?

O Corto Maltese, personagem fascinante. Pela sua faceta aventureira, misteriosa...

Rir é o melhor remédio?

Pode crer. «Deixa-me rir...»

Lembra-se da última vez em que chorou?

Deve ter sido a ver um filme, já não me lembro qual.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito de conduzir. Muito mesmo.

Não confia quando é outro a guiar?

Prefiro ser eu a conduzir mesmo quando confio na pessoa que vai ao volante. Gosto de estar eu ao comando da máquina.

É bom transgredir os limites?

É muito bom transgredir os limites da falsa moralidade, dos pudores aparentes. Mas nunca no sentido da auto-destruição.

Qual é o seu prato favorito?

Gosto de cozido à portuguesa, de feijoada. Também gosto de um bom bife. Ou de marisco. E, às vezes, também de comida mais sofisticada.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A preguiça.

Costuma cantar no duche?

Costumo. Para abrir a voz. Gosto de cantar ópera. Ou clássicos da canção, seja de que género for - do Frank Sinatra aos U2.

E a música da sua vida?

Casablanca, As Times Goes By.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não dou muita importância a isso, mas é verdade que existem hinos mais bonitos do que o nosso. A Internacional, por exemplo. O hino inglês também é muito bonito. Mas o melhor é deixarmos o hino português tal como está. Tem muito a ver com o espírito da I República.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

Parece-me bem. No fundo, já estou tão habituado a esta... Mas gosto mais da bandeira inglesa. É mais colorida.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Gostava muito de beber um copo com o Keith Richards. Também gostaria de jantar com Eduardo Lourenço [falecido em 1 de Dezembro de 2020, com 97 anos], com quem aliás já falei ocasionalmente. Alguns daqueles com quem gostaria de trocar ideias já cá não estão. Um deles era o Bertrand Russell.

As aparências iludem?

A mim não: tenho um olho clínico. Normalmente não me deixo iludir muito pelas aparências. Instintivamente, costumo ter logo a noção de quem é a pessoa por detrás de qualquer disfarce.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca deve perder a paciência, nunca deve perder o controlo, por muito irritado que esteja.

O que é que uma verdadeira senhora nunca faz?

Uma verdadeira senhora não calça sapatos feios. Ou está descalça ou usa sapatos bonitos.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Fato de banho.

Qual é o seu maior sonho?

Viver até aos cem anos, com uma boa cabeça e tudo a funcionar bem.

E o maior pesadelo?

É perder a cabeça.

O que o irrita profundamente?

A hipocrisia.

Qual a melhor forma de relaxar?

Velejar num iate.

O que faria se fosse milionário?

Comprava um iate.

Casamentos gay: de acordo?

Estou. Porque não? Quando as pessoas gostam uma da outra.

Uma mulher bonita?

A Soraia Chaves.

Acredita no paraíso?

Sou agnóstico. Acredito que somos nós que devemos tentar estabelecer pequenos paraísos à nossa volta, onde quer que estejamos. Claro que uma paisagem bonita ajuda muito.

Tem um lema?

«Nunca desistir.»

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (30 de Outubro de 2010)

José Manuel Pureza: «O que mais me irrita é a mediocridade disfarçada de esperteza»

Quem fala assim... (33)

Pedro Correia, 20.03.21

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«Gosto de ser discípulo da Alice [do País das Maravilhas].»

 

Quem não o conheça, nem imagina como tem sentido de humor. José Manuel Pureza professor universitário em Coimbra e dirigente do Bloco de Esquerda, partido de que é deputado desde 2009, deixa isso evidente nesta entrevista telefónica. Dizendo, por exemplo, que o seu prato favorito é «o da Fábrica Bordalo Pinheiro». Se fosse milionário, este vice-presidente do Parlamento «ficaria seriamente preocupado».

 

Tem medo de quê?

De não saber ver o essencial.

Gostaria de viver num hotel?

Jamé...

A sua bebida preferida?

Coca-cola.

Tem alguma pedra no sapato?

Em terrenos pedregosos, uso botas fortes.

Que número calça?

41.

Que livro anda a ler?

Deserto, de Le Clézio.

Costuma ler os Prémios Nobel da Literatura?

Não por serem galardoados pela Academia Sueca.

Tem muitos livros à cabeceira?

Na cabeceira só um, na cabeça muitos.

Algum título especial nessa biblioteca da memória?

Claro. As Cidades Invisíveis, do Italo Calvino, o Ensaio Sobre a Cegueira, do José Saramago, e Caos Calmo, do Sandro Veronesi.

A sua personagem de ficção favorita?

Corto Maltese e quase todos os criados por Morris West.

Rir é o melhor remédio?

Claro. Melhor que qualquer genérico.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Na morte do João Mesquita [1957-2009, antigo presidente do Sindicato dos Jornalistas], por sentir que não estivemos à altura da sua vida.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Depende do destino.

É bom transgredir os limites?

Para que servem os limites senão para dar paixão à transgressão?

Qual é o seu prato favorito?

O da Fábrica Bordalo Pinheiro.

Alguma coisa contra a Vista Alegre?

Tenho medo de partir a louça.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Eu não pratico pecados por tabela. O mais capital de todos os que pratico é o da quietude perante as injustiças mais profundas.

Tem um animal de estimação?

Não, estimo a criação inteira.

A sua cor favorita?

O vermelho, sempre.

No desporto ou na política?

No desporto por simpatia, porque o preto é a cor certa nesse domínio. Na política, por convicção.

Costuma cantar no duche?

Canto sempre que me apetece. Quem canta...

E qual é a canção da sua vida?

Still Crazy After All These Years, do Paul Simon, e Inquietação, do José Mário Branco. Ambas contêm o elogio da desinstalação como lição de vida.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

A música pode ficar como está.

E a letra?

Na letra levo a sério a reflexão do Alçada Baptista, que defendia que devia ser um belo poema de amor.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Ricardo Araújo Pereira. Para juntar a gastronomia à inteligência.

As aparências iludem?

Só a quem se deixa iludir por elas. O algodão não engana...

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Uma T-shirt  "com mensagem".

Como era a última mensagem que trouxe ao peito?

Entre tantas mensagens, gostei particularmente de um T-shirt que dizia: «Tens direitos humanos? Os palestinianos não...»

Qual é o seu maior sonho?

Continuar a sonhar com outros mundos. Sem parar.

E o maior pesadelo?

Acordar um dia com a noção de que se proibiram os sonhos.

O que o irrita profundamente?

A mediocridade disfarçada de esperteza.

Qual a melhor forma de relaxar?

Levar a sério o que escreveu Woody Allen: «A vida não é tão chata se se considerar a alternativa...»

Qual é a sua maior extravagância?

Teimar em ver o que está do outro lado do espelho.

Como a Alice, do Lewis Carroll?

Sim. A Alice nunca se resignou diante da realidade aparente. Gosto de ser seu discípulo.

O que faria se fosse milionário?

Ficaria seriamente preocupado.

Uma mulher bonita?

Vivo com uma. É um privilégio, não é?

E não sente ciúmes?

A posse destruiria o privilégio.

Acredita no paraíso?

Acredito que o construímos (ou destruímos) a cada momento.

Tem um lema?

«Contra factos só há argumentos.» (Mia Couto)

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (11 de Abril de 2009)

José Mário Branco: «Resistir é vencer»

Quem fala assim... (32)

Pedro Correia, 13.03.21

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«A esquerda nunca conseguiu resolver o problema do nacionalismo»

 

Liguei-lhe pensando que talvez não estivesse receptivo a responder a inquéritos como este, exigindo resposta ao telefone, em cima da hora. Enganei-me. O criador de canções inesquecíveis, como Inquietação ou Eu Vim de Longe, entrou no jogo - mas à sua maneira, dando a volta a várias perguntas. Marca autoral nos mínimos pormenores: assim era José Mário Branco, falecido a 19 de Novembro de 2019.

 

Tem medo de quê?

Dos meus defeitos.

Gostaria de viver num hotel?

Não.

Porquê?

Gosto de ficar em hotéis esporadicamente. Mas a gente não vive em hotéis: vive em casas.

A sua bebida preferida?

Água. Passe a publicidade, água de Monchique. Por motivos de saúde, devido ao meu PH elevado.

Tem alguma pedra no sapato?

Não. Quando se é criador não se pode ter pedras no sapato.

A propósito: que número calça?

42, 43.

Que livro anda a ler?

Os Contos Maravilhosos, de Hermann Hesse.

Tem muitos livros à cabeceira?

Costumo ter três ou quatro. Não para serem lidos todos ao mesmo tempo, mas para serem lidos em sequência. Gosto de ter sempre um livro pronto a ser aberto.

Às vezes deixa um livro a meio?

Às vezes deixo.

A sua personagem de ficção favorita?

Demian, de Hermann Hesse.

Rir é o melhor remédio?

Para o fígado, sim.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Não. Quando choro por qualquer coisa a minha preocupação é esquecer.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

De conduzir.

É bom transgredir os limites?

Não. Às vezes é necessário mas nunca é bom.

Qual é o seu prato preferido?

Você está a falar com alguém que anda em dieta rigorosa e não pode comer praticamente nada daquilo de que mais gosta...

Hum... Falemos então em abstracto...

Adoro cozinha regional portuguesa.

De alguma região em especial?

Sobretudo do Norte.

E aprecia algum prato de dieta?

Um bom peixe escalado.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A preguiça.

A sua cor preferida?

O azul.

Costuma cantar no duche?

Não. Como é evidente, pois a minha profissão é cantar. Não é no duche que aqueço as minhas cordas vocais.

E a música da sua vida?

Foi Por Ela, do Fausto.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

As instituições do Estado e tudo quanto representam, incluindo o hino e a bandeira, são símbolos de uma sociedade iníqua e injusta contra a qual tenho lutado toda a vida. Não tenho qualquer respeito nem pelas instituições nem pelo que elas representam.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

A esquerda nunca conseguiu resolver o problema do nacionalismo. Anda desde 1848 a proclamar «Proletários de todos os países, uni-vos!» Isto implicava resolver a questão do nacionalismo, que nunca foi resolvida e que tem provocado alguns dos maiores desastres da humanidade.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

O meu pai disse-me certa vez uma coisa muito sábia: quando admiramos muito um criador ou um político, devemos fazer os possíveis por não os conhecermos pessoalmente.

As aparências iludem?

Completamente. As aparências são a cara da ignorância.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Calções de banho.

Qual é o seu maior sonho?

Que haja bom senso suficiente para fazer a revolução.

E o maior pesadelo?

É deixar-me arrastar pela mediocridade.

O que o irrita profundamente?

O pós-modernismo.

Qual a melhor forma de relaxar?

Ver um jogo de futebol e adormecer a meio, com o verde em fundo.

O que faria se fosse milionário?

Comprava casas para os mais próximos e fazia uma fundação para promover as artes.

Casamentos gay: de acordo?

Completamente.

Uma mulher bonita?

Ingrid Bergman.

Acredita no paraíso?

É o que eu vivo todos os dias com os meus netos.

Tem um lema?

Pode ser o título do meu último disco: Resistir é vencer. Que foi o lema da resistência timorense.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (20 de Novembro de 2010)

N. Câmara Pereira: «Gosto do Popeye»

Quem fala assim... (31)

Pedro Correia, 06.03.21

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«O hino nacional é excelente: militarista, agressivo, dinâmico e nostálgico. Foi oferecido pelo Alfredo Keil a D. Carlos. E a república adoptou-o» 

 

Engenheiro, activista monárquico, antigo deputado do PPM e membro de um vasto clã de fadistas, com intérpretes de pelo menos três gerações, Nuno da Câmara Pereira foi afável ao telefone. E rápido nas respostas a este inquérito disparado à queima-roupa. Tinha um máximo de dez segundos para cada uma, disse-lhe. Era a brincar. Mas ele levou a sério, correspondendo ao pedido.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Ter-me sentado no banco dos réus porque denunciei actos de corrupção em Sintra. Senti-me injustiçado por esse facto. Espero que o tribunal não dê razão à injustiça.

Gostaria de viver num hotel?

Adoraria.

A sua bebida preferida?

Vinho tinto. Alentejano. Bem maduro, bem encorpado, com os taninos bem evidentes.

Que número calça?

42, biqueira larga.

Que livro anda a ler?

Um livro que volta a levantar a hipótese de Colombo ser português.

A sua personagem de ficção preferida?

Gosto muito do Tintim. E também do Popeye, com aqueles braços em forma de âncora. Gosto de comer espinafres desde miúdo: sempre me convenci que me faziam mais forte.

A Olívia Palito faz o seu género?

Há pelo menos uma coisa que aprecio nela: é fiel ao Popeye. A fidelidade é um bem cada vez mais raro entre as mulheres.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Adoro conduzir. Detesto ser conduzido.

É bom transgredir os limites?

Como artista, não consigo deixar de ultrapassar certos limites.

Como se sente o artista na pele de deputado?

Tem sido uma aprendizagem lenta, serena, cuidada. Hoje estou muito mais dentro da linha...

Já adormeceu no plenário?

Nunca. Mas já me fartei de lutar contra o sono na Assembleia da República, com um olho para baixo e outro para cima. Há discursos demasiado extensos e monocórdicos...

Qual é o seu prato favorito?

Feijoada à portuguesa. Com muito piripiri.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Só entrego o meu espírito a Deus.

A sua cor preferida?

Azul. Aliás, só visto azul e verde.

Costuma cantar no duche?

Foi no banho que aprendi a cantar. A minha mãe foi a primeira pessoa a descobrir.

E a música da sua vida?

Adoro o Pai Nosso, do Frei Hermano da Câmara. Tenho cantado este tema em várias missas, quando me convidam. E - sempre - a Avé Maria, de Gounod.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. O hino é excelente: militarista, agressivo, dinâmico e nostálgico. Foi oferecido pelo Alfredo Keil a D. Carlos. E a república adoptou-o. É um bom compromisso entre a monarquia e a república.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

A que mais prezo é uma boa cuequinha. Detesto boxers.

Qual o seu maior sonho?

Que Portugal consiga ser uma nação auto-suficiente.

O que o irrita profundamente?

Ver, como monárquico, que o pretenso pretendente ao trono de Portugal não tem qualidades absolutamente nenhumas para representar aquilo que pretende.

O que faria se fosse milionário?

Reservaria um terço da minha fortuna para criar uma boa rede de lares para a terceira idade.

Casamentos gay: de acordo?

Completamente em desacordo.

Uma mulher bonita na política?

A Ségolène Royal. A Hillary Clinton também é interessante.

Acredita no paraíso?

Acredito. Desde logo, porque sou católico praticante. E também porque gosto muito da utopia.

Tem um lema?

Os versos de Sá de Miranda: «Homem de um só parecer, / Dum só rosto, uma só fé, / Dantes quebrar que torcer, / Ele tudo pode ser, / Mas de corte homem não é.»

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (20 de Outubro de 2007)

João Soares: «Não gosto de meias-tintas»

Quem fala assim... (30)

Pedro Correia, 27.02.21

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«Mulher bonita? A Carla Bruni. Todos temos um bocadinho de ciúmes de Sarkozy nesse plano. Mas só nesse»

 

O deputado socialista, antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, não é daqueles políticos que hesitam nas respostas. Responde com rapidez e sem gaguejar. Não hesitando em contrariar algumas cartilhas da correcção política, mesmo da sua área ideológica. Foi o que sucedeu nesta nossa conversa telefónica, em que deixou bem claro: «Há quem seja rosa. Mas eu sou dos vermelhos.»

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Já sofri algumas, em política e não só. Quando fui derrotado pelo Sr. Lopes em Lisboa, por exemplo: nessa altura fiquei um bocadinho triste com os lisboetas. Mas o que é preciso é olhar para a frente.

Gostaria de viver num hotel?

Nem me passava isso pela cabeça.

A sua bebida preferida?

Sumo de laranja. Laranjas, para mim, só muito bem espremidas.

Que número calça?

42.

Que livro anda a ler?

Estou a ler As Benevolentes, de Jonathan Littell, numa belíssima tradução portuguesa.

Qual é a sua personagem de ficção favorita?

São tantas... Uma das minhas preferidas é a que Humphrey Bogart interpreta em Casablanca.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir. Mas há alturas em que dá jeito ser conduzido.

É bom transgredir os limites?

Depende dos limites. Faz sentido transgredir alguns limites.

Por exemplo?

A limitação em vigor ao tabaco em quase todos os países da União Europeia, incluindo Portugal, importada da América neoliberal de Bush. Faz sentido transgredi-la sempre que for possível e não incomode terceiros.

Tem feito isso?

Às vezes.

Qual é o seu prato favorito?

Sou profundamente patriota em matéria gastronómica. Gosto de pescada frita com açorda e uma saladinha de alface e cebola. Gosto de um bom cozido à portuguesa. Gosto de língua de vaca com puré de batata. Gosto de mãozinhas de vitela guisadas. Gosto de umas favinhas com entrecosto...

Qual é o pecado capital pratica com mais frequência?

Sou, no mínimo, agnóstico. As minhas referências bíblicas são limitadas. Sei que há pecados mortais, mas não os conheço todos.

A sua cor preferida?

Do ponto de vista político, é o vermelho. Não gosto de meias-tintas.

Está um pouco desactualizado. O PS agora prefere o rosa...

Há quem seja rosa. Mas eu sou dos vermelhos. Não me envergonho nada, antes pelo contrário.

Costuma cantar no duche?

Não. Mas às vezes assobio.

E a música da sua vida?

Sou da geração dos franceses e dos belgas. Adoro o Brel, o Yves Montand. Mas também gosto muito do Vitorino, da Teresa Salgueiro, do Carlos do Carmo. Há um fado do Carlos do Carmo de que gosto particularmente - Um Homem na Cidade.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. O hino é bem bonito. Sei-o de cor e já o ensinei aos meus filhos. É verdade que aquele trecho que fala em marchar contra os canhões está desactualizado, mas não me incomoda.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Talvez com o Barack Obama. Ainda não o conheço, mas espero conhecê-lo.

As aparências iludem?

Claro que iludem.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

É mais fácil dizer a que menos me agrada: a gravata.

E o seu maior sonho?

Dar um dia a volta ao mundo num barco à vela ou num cargueiro.

E o maior pesadelo?

Não tenho pesadelos.

O que o irrita profundamente?

A estupidez e a burocracia.

O que faria se fosse milionário?

Dava a tal volta ao mundo. De resto, continuaria a fazer o que faço. Nem sequer mudava de casa.

Casamentos gay: de acordo?

Claro que sim.

Uma mulher bonita?

A Carla Bruni. Todos temos um bocadinho de ciúmes de Sarkozy nesse plano. Mas só nesse.

Acredita no paraíso?

Não.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (16 de Fevereiro de 2008)

Manuel Monteiro: «Nunca devemos confundir a política com a amizade»

Quem fala assim... (29)

Pedro Correia, 20.02.21

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«Um amor frustrado é algo que marca qualquer pessoa para sempre»

 

Foi líder do CDS durante entre 1992 e 1998. Mais tarde viria a fundar - sem sucesso algum - o efémero Partido da Nova Democracia. Manuel Monteiro, hoje regressado ao seu partido de origem, foi comedido a responder nesta entrevista telefónica que lhe fiz. Mas revela qual é o pecado capital que pratica com mais frequência: o orgulho. Zorro é o seu herói favorito.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Foi a primeira paixão não correspondida. Penso que um amor frustrado é algo que marca qualquer pessoa para sempre.

Com quem gostaria de jantar esta noite?

Com Claudia Schiffer.

A sua bebida preferida?

Coca-Cola.

Que número calça?

41.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Com toda a franqueza, gosto muito de hotéis, mas só de passagem. Para viver não. Já estive cerca de três semanas seguidas num hotel e cheguei rapidamente à conclusão de que nada substitui a nossa casa.

Que livro anda a ler?

O Grão-Mestre dos Templários, de Inès Nollier, editado pela Nova Arrancada. Ela é autora de várias obras relacionadas com a Idade Média. O tema fascina-me: sou um apaixonado por tudo quanto diga respeito aos templários e ao Santo Graal.

Qual é a sua personagem de ficção favorita?

O Zorro.

A sua cor preferida?

Vermelho. Nem poderia ser outra, como benfiquista que sou. Além disso o vermelho é também uma das cores oficiais do Partido da Nova Democracia [dissolvido em 2015].

Que temas musicais gosta de ouvir?

Vario muito. Escuto, sempre que posso, qualquer ária de ópera interpretada pelo grande Luciano Pavarotti. Gosto também muito de ouvir cantores portugueses tão diferentes mas de inegável qualidade como a Dulce Pontes e o Pedro Abrunhosa.

Costuma cantar no duche?

Quando estou muito contente, costumo.

Amizade e política devem ser indissociáveis?

A prática demonstra que Maquiavel estava cheio de razão: nunca devemos confundir a política com a amizade. Nem sempre segui esta regra, confesso. Mas hoje reconheço que quanto maior for a separação entre amizade e política maior serão as probabilidades de sucesso.

Que pecado capital pratica com mais frequência?

A que pecados se refere concretamente?

A um dos sete pecados mortais.

O orgulho, sem dúvida.

Mas olhe que tem fama de ser avarento...

Admito que sou poupado, o que, convenhamos, é bastante diferente de ser avarento.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de ser conduzido - de automóvel, bem entendido. Mas, como conduzo imenso, acabam por ser raras as pessoas em quem confio para guiarem quando estou a bordo. Mas não faço questão de ser eu a conduzir. Se puder ir no banco reservado ao passageiro a apreciar a paisagem circundante, tanto melhor.

O que o faz irritar profundamente?

O sentimento de desânimo, muito frequente em diversas pessoas. Não gosto de vê-las desistir muito facilmente mal aparece o primeiro obstáculo na primeira curva do caminho. Isso irrita-me profundamente.

Casamentos gay: de acordo?

Não.

Um exemplo de mulher bonita na política?

Embora retirada, continua a ser Leonor Beleza.

Os portugueses primeiro e os estrangeiros depois?

Sempre.

Acredita no paraíso?

Sim.

Tem um lema de vida?

Tenho: ser perseverante. Considero fundamental a perseverança no ser humano. Ser perseverante é ser lutador. Implica não desistir. Implica também entender as derrotas essencialmente como etapas que não nos podem nem devem desviar do objectivo final, que é a vitória.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (12 de Maio de 2007)

Otelo Saraiva de Carvalho: «Não cometo pecados capitais, sou santo em potência»

Quem fala assim... (28)

Pedro Correia, 13.02.21

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«Gosto mais de conduzir do que ser conduzido. De forma geral, desde miúdo sempre tive vocação para líder»

 

Estratego do 25 de Abril, caudilho da esquerda mais radical durante o processo revolucionário de 1974-1975, Otelo Saraiva de Carvalho disponibilizou-se de imediato para responder a este questionário telefónico, dando algumas respostas surpreendentes. Prefere o azul ao vermelho, adora cantar New York, New York e a sua personagem de ficção favorita é James Bond.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Ver o comportamento da classe política portuguesa. Nós, capitães de Abril, depositávamos grandes esperanças nela para elevar o País a patamares de grande nível. Infelizmente, isso não aconteceu.

Gostaria de viver num hotel?

Só em viagem gosto de viver num hotel. De forma geral, o ambiente de hotel deixa de me agradar ao fim de uma ou duas semanas.

A sua bebida preferida?

Vinho tinto.

De onde?

Sempre alentejano. Tinto de Reguengos. E branco da Vidigueira.

Que número calça?

39, 40. Tenho o pé pequeno.

Que livro anda a ler?

Acabei de ler Um Militar na Política, do general Galvão de Melo.

Gostou?

O livro é interessante por fazer algumas revelações importantes sobre a experiência militar de Carlos Galvão de Melo, que ainda antes do início da Guerra Colonial escreveu a Salazar e ao ministro da Defesa, Santos Costa, alertando-os para a necessidade de se encontrarem soluções políticas para o problema africano. Mas Salazar nunca mostrou interesse nisso.

A sua personagem de ficção preferida?

James Bond.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir. De forma geral, desde miúdo sempre tive vocação para líder.

É bom transgredir os limites?

É bom, sim senhor!

Qual é o seu prato favorito?

Uma boa posta de peixe grelhado, com batatas cozidas. Cherne ou garoupa, de preferência.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Não me vejo a cometer nenhum pecado capital - nem inveja, nem luxúria, nem gula, nem preguiça. Não me reconheço em nenhum deles. Sou um santo em potência.

A sua cor preferida?

Azul.

Sempre pensei que preferisse o vermelho...

O vermelho é demasiado ostentatório. Pode ter um sublinhado ideológico, e aí agrada-me. Mas para vestir prefiro o azul.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Pólo.

Costuma cantar no duche?

No duche e sem ser no duche. Costumo cantar. Ando sempre com qualquer canção na boca - desde o Summertime ao New York, New York, do Frank Sinatra. Ou uma canção do José Cid, do Paulo de Carvalho ou do Zeca Afonso.

E a música da sua vida?

Há uma que trauteio muitas vezes: I never promised you a rose garden.

Sugere algum alteração ao hino nacional?

É claro que a letra está desactualizada e podia ser modificada. Mas este hino está muito arreigado na população e é muito conhecido pelos portugueses.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Nelson Mandela [falecido em Dezembro de 2013].

Qual o seu maior sonho?

Ver concretizados os ideais que nos nortearam ao fazer o 25 de Abril. Uma grande parte deles ainda não foi alcançada.

E o maior pesadelo?

A III Guerra Mundial.

O que o irrita profundamente?

A mediocridade e a estupidez.

O que faria se fosse milionário?

Procurava contribuir, de todas as maneiras possíveis, para o aumento do bem-estar, da dignidade e da felicidade do povo português.

Uma mulher bonita na política?

Talvez a Ségolène Royal.

Acredita no paraíso?

Acredito no paraíso terreno, um lugar onde uma pessoa se sinta bem, com uma paisagem magnífica. Há locais assim no nosso país.

Tem um lema?

Antecipar-me sempre à mediocridade.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (3 de Novembro de 2007)

António Victorino d' Almeida: «Não canto em parte alguma, desafino a cantar»

Quem fala assim... (27)

Pedro Correia, 06.02.21

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«As regras existem para poderem ser transgredidas. Mas é bom que existam. Caso contrário, não se transgredia nada.»

 

Conversar com o maestro António Victorino d' Almeida é garantia de que, minutos volvidos, estaremos a soltar umas saudáveis gargalhadas. Ele é naturalmente bem disposto e sem ponta de presunção intelectual. Nesta ocasião - como noutras - a conversa fluiu entre divertidos à-partes e a promessa (que viria a concretizar-se) de um bife com ovo a cavalo. Só a Sharon Stone faltou à chamada.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Aconteceu quando um amigo meu (ex-amigo, melhor dizendo) fugiu com todo o dinheiro de um trabalho que estávamos a fazer em conjunto.

Com amigos desses não precisa de inimigos...

Pois não.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Mas gosto de passar umas temporadas num hotel. Já em relação ao turismo de habitação sinto uma verdadeira alergia.

A sua bebida preferida?

Água.

Que número calça?

Não sei.

Que livro anda a ler?

Infelizmente, não estou a ler nenhum. Ando a rever provas de um livro meu, a História da Música Ocidental.

A sua personagem de ficção preferida?

Talvez seja o Ulisses.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Em termos automobilísticos, não tenho alternativa. Não sei conduzir.

É bom transgredir os limites?

Os limites, não. Não devemos confundir os limites com regras.

É bom transgredir as regras?

As regras, sim. Só existem para poderem ser transgredidas. Mas é bom que existam. Caso contrário, não se transgredia nada.

Qual é o seu prato preferido?

Um clássico: bife com batatas fritas e um ovo a cavalo.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Desconheço quais são os pecados. Mas não devem ser mortais, porque ainda estou vivo. A palavra mortal está mal escolhida.

A sua cor preferida?

Sou daltónico. Mas é o azul.

Costuma cantar no duche?

Nunca. Nem no duche nem em parte alguma. Desafino a cantar. É uma coisa horrível! A desafinação, na maior parte das vezes, não tem a ver com o ouvido mas com a incapacidade de chegar aos sons em termos de técnica vocal.

E a música da sua vida?

Não tenho. Para mim esse conceito não existe.

Sugere algum alteração ao hino nacional?

O hino é muito dificilmente cantável, tem uma extensão enorme. Mas se fosse alterado deixava de ser o que é. É óbvio que a letra é muito feia. Mas a da Marselhesa é ainda pior. A gente habitua-se àquilo. O melhor é não mexer em nada.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Não iria optar por nenhum político se pudesse jantar com a Sharon Stone.

As aparências iludem?

Concordo com a frase do Oscar Wilde, que dizia: «Só as pessoas superficiais não julgam pelas aparências.»

Qual é a peça de vestuário que prefere?

As meias. Enquanto não calço meias sinto-me muito desprotegido. 

Qual o seu maior sonho?

O meu maior sonho (que temo nunca passe disso) é que as autoridades responsáveis portuguesas aprendessem um mínimo de cultura musical.

E o maior pesadelo?

Que as autoridades responsáveis portuguesas nunca aprendam um mínimo de cultura musical.

O que o irrita profundamente?

A arrogância.

O que faria se fosse milionário?

Não sei que alterações morfológicas isso iria desencadear em mim. Presumo que fizesse uma série de coisas boas. Mas talvez me transformasse num safado. Nunca se sabe.

Casamentos gay: de acordo?

Eu não levo nada a sério os casamentos.

Uma mulher bonita na política?

Era a Benazir Bhutto.

Acredita no paraíso?

Espero que exista.

Tem um lema?

Fazer o melhor possível.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (2 de Fevereiro de 2008)

José Luís Peixoto: «Tenho medo de mim»

Quem fala assim... (26)

Pedro Correia, 19.12.20

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«É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós»

 

José Luís Peixoto, um dos escritores portugueses mais celebrados nestas duas primeiras décadas do século XXI, fala um pouco como escreve. Com frases pausadas, que por vezes são verdadeiros aforismos, e um peculiar sentido de humor, talvez surpreendente para alguns. Tive ocasião de perceber isso quando o interroguei ao telefone. O resultado é este que podem (re)ler.

 

Tem medo de quê?

De mim.

Gostaria de viver num hotel?

Não, apesar de actualmente já costumar passar grande parte do meu tempo em hotéis. Caminhar à noite no corredor de um hotel pode ser uma experiência muito solitária. Ao fim de algum tempo, as miniaturas de sabonete acabam por perder o aroma. Pessoalmente, preferiria viver numa casa com jardim e netos.

A sua bebida preferida?

Prefiro sumo de laranja. Não entendo esse hábito muito divulgado entre nós de beber álcool socialmente.

Porquê?

Eu, nas raras vezes em que bebo álcool, é para me embebedar.

Tem alguma pedra no sapato?

Uso botas. As pedras têm muita dificuldade em entrar.

A propósito: que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, entre alguns outros.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

Tenho sempre livros a rodear-me completamente. Por dentro e por fora.

A sua personagem de ficção favorita?

Lena Grove, de A Luz de Agosto, de William Faulkner.

Rir é sempre o melhor remédio?

Depende da maleita. Em casos de pedra nos rins, duvido que resulte.

A despropósito: lembra-se da última vez em que chorou?

Foi no fim de semana passado. Chorei de felicidade.

Confesse lá: gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto de andar de mão dada, como namorados.

É bom transgredir os limites?

É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós.

Qual é o seu prato preferido?

Sushi.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

O pecado capital que pratico com mais frequência é a luxúria. Ainda assim, acho que não a pratico com a frequência desejável.

A sua cor preferida?

Fúcsia.

Porquê?

Por causa do nome.

Costuma cantar no duche?

Sim.

Onde mais?

Também no trânsito e, ao telefone, com as pessoas que costumam ligar com regularidade a oferecer promoções.

E a música da sua vida?

Here I go again, dos Whitesnake. E mais umas mil.

Há quem sugira que o hino nacional deve ser alterado. Qual é a sua opinião nesta matéria?

Preferia que o hino nacional me sugerisse uma alteração a mim.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Gostaria de jantar com Barack Obama, obviamente.

As aparências são capazes de nos iludir?

É o que me aparenta.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca responde a perguntas sobre o seu cavalheirismo, insinuando-se implicitamente como um verdadeiro cavalheiro.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Piercing no mamilo.

Qual é o seu maior sonho?

É grande. Dura à volta de umas três horas.

E o maior pesadelo?

O pesadelo é ainda maior do que o sonho. Às vezes, depois de acordar, ainda continua.

O que consegue irritá-lo profundamente?

Irritam-me as pessoas que ficam a olhar no momento em que se está a pôr o pin do multibanco. Afinal, porque é que o fazem? Vão-nos assaltar a seguir ou é mera curiosidade? É algo que me ultrapassa.

Qual a melhor forma de relaxar?

Um abraço.

O que faria se fosse milionário?

Se fosse milionário pensava em coisas que não penso agora e teria, com certeza, muito mais preocupações do que tenho hoje.

Casamentos gay: de acordo?

É um pedido?

Olhe que não... Mudando de assunto: uma mulher bonita?

A minha.

Acredita no paraíso?

Sim. O paraíso é como uma lâmpada que tem mau contacto. Acende e apaga. Às vezes pode ficar acesa durante muito tempo. Outras vezes apaga-se e parece que nunca mais se vai acender.

Tem um lema?

Não tenho um lema, tenho vários.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (6 de Fevereiro de 2010)

José Cid: «O hino nacional devia ser substituído pelos 'Filhos da Nação'»

Quem fala assim... (25)

Pedro Correia, 12.12.20

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«Pratico todos os pecados capitais com bastante frequência. E sou amigo de um padre a quem posso confessar-me quando me apetecer»

 

Foi uma entrevista atribulada. Ao telefone, como as restantes. Enquanto fazia perguntas, ia ouvindo um esquisito ruído de fundo. Não tardei a perceber: era água a correr, José Cid tomava duche. Liguei-lhe horas depois para retomar o diálogo, ele guiava na auto-estrada. Estava nevoeiro, segundo me contou. De repente, uma exclamação: «Eh pá! Distraí-me com a conversa, em vez de ir para Aveiro estou a ir para Viseu...» Não sei se ele chegou a horas, mas a entrevista lá chegou ao fim.

 

Tem medo de quê?

Todos nós temos medo da morte. A morte é extremamente injusta.

Gostaria de viver num hotel?

Odiava. Não há nada como a nossa casa.

A sua bebida preferida?

Tenho duas: alcoólica, a sidra; não alcoólica, sumo de maçã. Adoro fazer sumo de maçã em minha casa.

Tem alguma pedra no sapato?

Neste momento, não. Mas já tive. As pessoas que me puseram pedras no sapato já morreram.

Que número calça?

42, 43.

Que livro anda a ler?

Balada para Sérgio Varela Cid, o maior pianista do mundo da sua geração, um génio incompreendido, pai da minha amiga Paula Varela Cid. É um livro muito interessante.

A sua personagem de ficção favorita?

Há um autor-personagem em quem gostaria de encarnar: Federico García Lorca.

Rir é o melhor remédio?

Sempre. De nós próprios e dos outros.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Sim.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito mais de ser eu a conduzir.

É bom transgredir os limites?

Às vezes nem damos por isso. Ainda ontem, vinha de Faro na auto-estrada e quando reparei já ia nos 170km/hora...

Qual é o seu prato preferido?

Favas com chouriço, ovos escalfados e arroz branco.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Pratico todos esses pecados com bastante frequência. E sou amigo de um padre a quem posso confessar-me quando me apetecer.

A sua cor preferida?

É o verde. Mas sou benfiquista.

Costuma cantar no duche?

Canto tanto que no duche não me apetece cantar.

E a música da sua vida?

É sempre a próxima. Por exemplo, uma das canções do meu próximo álbum, O Menino Prodígio - «O menino prodígio morreu / E o seu epitáfio sou eu.»

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Sim. Devia ser substituído pelos Filhos da Nação, dos Quinta do Bill.

Gosta da bandeira nacional?

Gosto. Mas gosto mais da monárquica. É mais bonita. Tenho duas em casa.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com nenhuma em especial.

As aparências iludem?

Sim, completamente.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Sapatos. Adoro sapatos. E colecciono botas.

Qual é o seu maior sonho?

Ter saúde.

E o maior pesadelo?

Sei lá. Às vezes os sonhos transformam-se em pesadelos.

O que o irrita profundamente?

A mediocridade protegida.

Qual a melhor forma de relaxar?

Dormir a sesta.

O que faria se fosse milionário?

Já sou.

Casamentos gay: de acordo?

Não tenho nada contra: as pessoas devem viver os seus afectos como quiserem e como puderem. Mas não é uma questão fundamental. Muito mais heróico do que um casamento gay é o casamento de um homem e uma mulher com filhos que enfrentam todas as dificuldades perante um sistema que não os protege.

Uma mulher bonita?

Alexandra Lencastre. Gosto de mulheres maduras.

Acredita no paraíso?

Sim. Conheço várias pessoas que estão no paraíso, embora na última fila.

Tem um lema?

Tenho. Nada é de mais, tudo é de menos.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (27 de Setembro de 2008)