Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Pensamento da semana

Pedro Correia, 01.03.26

 

Não há no mundo actual maior inimigo da Rússia do que Vladimir Putin: já conduziu mais de 300 mil russos à morte na Ucrânia. Vidas jovens ceifadas para sempre, despedaçadas na demencial agressão ao país vizinho.

Convém lembrar: a URSS caiu após terem morrido 15 mil soviéticos no Afeganistão.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Penso rápido (117)

Pedro Correia, 25.02.26


Em Abril de 2022 a Rússia ocupava 19,6% de território ucraniano.

Agora, mais de um milhão de baixas russas depois, ocupa 19,2%.

Bastam estes números para se perceber a imensa estupidez de Putin e da sua alucinada "operação militar especial". Um dia há-de ser estudada nas academias como exemplo supremo de incompetência militar.

Podem ameaçar incendiar este mundo e o outro se Kiev não ceder.

Inúteis ameaças. Está confirmado: os heróicos ucranianos não se renderão.

O maior crime do século

Pedro Correia, 21.02.26

putin.jpeg

 

Em quatro anos, Vladimir Putin enviou centenas de milhares de compatriotas para o matadouro na Ucrânia. Para quê? Conseguiu "conquistar" 0,75% da superfície desta nação soberana transformados em escombros e cinzas.

Carne para canhão, na maioria oriunda das regiões mais pobres e deprimidas da Rússia. Em nome da megalómana e alucinada tentativa do novo czar de reconstituir o defunto império soviético.

É, até hoje, o maior crime do século.

A Putinização de Trump

João André, 04.01.26

Quando escrevi a minha ladainha há apenas 4 dias - mas no ano passado, esqueci-me da Venezuela e demais países da América do Sul. Quando pensei nisso, ainda considerei rever o post, mas decidi não o fazer. Em apenas 4 dias Trump decidiu atacar o país e raptar o seu governante.

Tratemos já de um aspecto: Maduro era um ditador e o seu regime era ilegítimo e brutal e fez a vida dos seus cidadãos muitíssimo pior do que era antes. Há muito que idealmente deveria ter sido expulso do poder.

No entanto, não há justificação para o ataque americano à Venezuela nem para o rapto de Maduro - e sua mulher. Nem com base no Direito Internacional, nem sequer com base nas leis dos EUA. Os argumentos que Trump usaram não colhem nem sequer tentam ser consistentes. Maduro provavelmente nada tem a ver com o tráfego de drogas para os EUA, nem é promotor de terrorismo. Os seus argumentos de defender os venezuelanos são obviamente treta, já que se está nas tintas para eles. E ser um comunista também não colhe, caso contrário teria invadido outros países. Há um, e apenas um, argumento: os seus recursos naturais, petrolíferos minerais. O facto de dizer que as empresas americanas tratarão da produção de petróleo e que os EUA irão governar a Venezuela demonstra a mentira. Esta foi uma acção de roubo à mão armada, nada mais.

É a putinização de Trump. A seguir veremos Putin tentar o mesmo com Zelenski e Xi a actuar de forma semelhar em Taiwan. Roubo pelo mais forte. O mundo não só está mais perigoso, está a caminhar para o abismo.

Nota para as Nações Unidas: são hoje inúteis fora um ou outro programa. A sua presença em Nova Iorque é uma aberração. A única coisa que deveria ser feita seria retirarem-se da sua sede actual, reduzir o seu tamanho, expulsar EUA, Rússia (e talvez e China) e abolir o veto. Necessitaria de uma refundação da organização, muita coragem, e uma enorme redução dos seus programas, mas talvez seja o única caminho. Está visto que os EUA (não é de agora com Trump) vê os acordos na ONU como não servindo sequer para papel higiénico.

Leitura (ou audição) complementar com explicação sobre a geopolítica do petróleo.

Nota: por erro técnico o meu post a certo ponto surgiu como sendo do Pedro. Este novo post serve agora para corrigir.
Os comentários ao post foram entretanto adicionados, infelizmente sob o meu nome. As nossas desculpas pelo inconveniente.

O comentário da semana

«Com guerra na Ucrânia, Putin tornou a Rússia num estado-vassalo da China»

Pedro Correia, 02.01.26

putin.jpeg

 

«Com duas bombas atómicas em cima o Japão não capitulou, foi capitulado. E a Alemanha lá capitulou, é certo, mas só depois do seu próprio Führer ter assinado o infame "Decreto Nero" que a condenava à auto-aniquilação total - aliás completamente merecida, na óptica do tarado, por o povo alemão não ter estado à altura do grande destino que ele lhe traçara. Depois, o bombardeamento de Dresden foi a estocada final para a dita capitulação, nada como as bombas para concitarem a paz genuína.

Para terminar a guerra na Ucrânia não é precisa nenhuma capitulação: só é preciso que Putin se ponha a andar para o mesmo sítio de onde veio, que nem fica nada longe, uma vez que em quatro anos poucochito conseguiu avançar.

E, lá regressado, explique aos russos afinal o que foi fazer à Ucrânia: para que foram as centenas de milhares de mortos e estropiados; ou o que se ganhou em provocar o alargamento e fortalecimento da NATO com mais dois membros poderosos, até aí neutrais, para mais vizinhos próximos; ou com o rearmamento e prontidão acelerados de países como a Alemanha, ou a Polónia, ali ao lado; ou com o despertar do espírito de união europeu, congregado no apoio à defesa do país invadido que, de facto, luta por todos os outros, ameaçados de igual destino.

 

Putin que explique aos russos a sua grande estratégia, o que é que a Rússia ganhou por a ter transformado basicamente numa economia de guerra, colocada numa situação de dependência tal em relação ao apoio da China que se tornou num estado-vassalo desta, nada mais do que uma vítima grande, gorda e mole, do conhecido extrativismo chinês, logo ali à mão de semear. Um estado periférico na esfera de influência do verdadeiro incontestado gigante, a China, foi nisso que Putin transformou a Rússia.

E já não há resistência possível a essa "satelização", a menos que Putin queira começar uma nova guerra com a China; mas desta vez uma guerra a sério, daquelas com conscrição a doer, e não com as trapalhadas de soldados descaracterizados, mercenários e exércitos privados, "voluntários" dos confins siberianos e norte-coreanos e refugo humano recolhido nas prisões, toda uma "soldadesca" tão especial como a esquisita operação militar que deveria tomar Kiev em três dias e a Ucrânia em duas semanas.

Se há coisa que a História ensina é que a paz genuína não nasce das capitulações: nasce da cooperação e do entendimento voluntário entre as nações, fundamentados no acatamento do direito internacional e no respeito dos direitos humanos.

A paz genuína é o que a Europa começou a construir há 80 anos, e que Putin ameaça destruir em nome de um neo-imperialismo serôdio, brutal e imbecilizante.»

 

Da nossa leitora Zebra. A propósito deste meu texto.

Trump entrega os Sudetas a Putin

Pedro Correia, 17.08.25

tr.webp

 

O inquilino da Casa Branca estendeu-lhe passadeira vermelha, aplaudiu-o, deu-lhe boleia na sua bestial limusina. Partiu até para o Alasca dizendo que ia "à Rússia" - misto de confusão mental e capitulação psicológica. 

Mal pisou solo, na base militar de Anchorage inaugurada durante a Guerra Fria, Vladimir Putin conquistou o mais ambicionado triunfo político: o reconhecimento oficial dos EUA, dando-lhe face após três anos e meio de violações, pilhagens e homicídios sem fim na Ucrânia.

Toda a linguagem corporal do antecessor e sucessor de Joe Biden revelou submissão ao ditador russo, indiciado por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional. As "sanções" que anunciara ficaram prontamente esquecidas. O cessar-fogo que prometera exigir ao homólogo do Kremlin foi logo varrido para canto.

A "paz" de Putin prevaleceu: os Sudetas ser-lhe-ão entregues como troféu de caça. Donald Chamberlain Trump pode sonhar com o prémio. Não o Nobel, mas o Prémio Lenine.

Ele merece.

Pensamento da semana

Pedro Correia, 29.06.25

A situação do mundo está explosiva como nunca no último meio século. Há causas diversas, mas a principal tem uma data: 24 de Fevereiro de 2022. O dia que mudou a geopolítica, fazendo regressar a guerra à Europa. A força da razão foi pulverizada enquanto prevalecia a inaceitável razão da força. Putin abriu a caixa de Pandora. Estilhaçou o direito internacional, tentou refazer fronteiras à bomba, tudo fez para reduzir a pó o quadro global nascido em 1945. O resto veio em sequência, segundo a lógica do dominó. Impossível criticar de boa fé e com elementar sentido de justiça as fases subsequentes sem condenar aquela, a primeira de todas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Vai ser o último a entender. Talvez.

Paulo Sousa, 20.06.25

Em 1994 a Rússia assinou o Memorando de Budapeste. Em troca da entrega do terceiro maior arsenal nuclear do mundo, a Ucrânia recebeu garantias de segurança.

Nesse mesmo ano, a Geórgia estabeleceu com Moscovo o Tratado de Amizade, Boa Vizinhança e Cooperação. Com a Arménia foi 1997. O documento mereceu o nome de Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua. Com a Síria dos Assad os acordos eram vários, alguns já do tempo da URSS. Todos eles asseguravam cooperação militar e política.

Já depois de ter invadido a Geórgia em 2008, onde ainda controla as regiões da Abcásia e da Ossétia do Sul, Putin formalizou, em 2015 e 2017, a presença da Força Aérea e da Marinha Russa na Síria com carácter de longo prazo.

Depois disso invadiu a Ucrânia e deixou a Arménia à sua sorte quando o Azerbeijão atacou o enclave de Nagorno-Karabakh.

A lista destes acordos de "cooperação" alarga-se a África. República Centro-africana, Sudão, Líbia, Mali e Burkina Faso. O Kremlin apoia uma facção, explora recursos locais e se o jogo virar, põe-se ao fresco.

Quando o regime sírio caiu, o melhor que Putin teve para oferecer ao seu ditador foi uma autorização de aterragem. Depois disso o carrasco de Damasco nunca mais apareceu. Se Assad ainda não foi defenestrado, deve fazer tudo para nunca ir além do rés do chão.

Mais recentemente, e já este ano no dia 17 de Janeiro, foi a vez do Irão. A tinta do tratado de parceria estratégica assinado entre a Rússia e o Irão (com uma validade de vinte anos) ainda mal deve ter secado. Esperando receber apoio para o seu programa nuclear, o Irão partilhou a tecnologia dos seus drones Shaed e até ajudou na construção de uma fábrica na Rússia. Quando os generais iranianos começaram a ser eliminados, Putin fez o que costuma. Nada. O Irão já não tem nada lhe para dar, apenas a incerteza que faz subir os preços do petróleo.

O currículo do actual Czar tem muitas mais traições que as constam neste pequeno resumo. A sua “confiabilidade” é internacionalmente reconhecida. Quando se assina qualquer coisa com ele, é quase uma garantia do exacto contrário. A minha maior surpresa continua a ser a convicção da excepcionalidade de Donald Trump. Se algum dia lá ele chegar, será o último dos humanos a entender que Putin só respeita a força.

Memória da infame aliança comuno-nazi

Pedro Correia, 10.05.25

54508138565_304353e48c_o.webp

Lula com Putin em Moscovo: vénia do ex-opositor da ditadura brasileira ao tirano russo

 

Lula da Silva, vergonhosamente, foi um dos 29 dirigentes internacionais que ontem compareceram ao beija-mão a Putin na Praça Vermelha, assinalando o chamado Dia da Vitória. Ocasião aproveitada pelo ditador russo, com descarado despudor, para comparar a guerra defensiva que a URSS travou contra a Alemanha nazi à actual "operação militar especial" iniciada em Fevereiro de 2022 pelo Kremlin contra a vizinha Ucrânia, em flagrante violação do direito internacional.

Ver Lula e Putin no mesmo palco é chocante, embora não surpreendente. O antigo opositor à ditadura brasileira presta agora vénia a um dos maiores déspotas do planeta, que oprime e escraviza não apenas o povo russo: quer fazer o mesmo às nações vizinhas.

 

A Praça Vermelha costuma atrair péssima gente. A 1 de Maio de 1941, noutro desfile, apareceram ali outros convidados: oficiais de alta patente da Alemanha hitleriana, então aliada da União Soviética de Estaline no esmagamento de diversos Estados europeus. Da Polónia à França. Passando por Checoslováquia, Dinamarca, Noruega, Bélgica, Luxemburgo, Estónia, Letónia, Lituânia, Finlândia.

Berlim e Moscovo haviam-se aliado em 23 de Agosto de 1939, o que esteve na origem imediata da II Guerra Mundial. Estreita cumplicidade só quebrada a 22 de Junho de 1941, quando Hitler deu ordem à sua tropa para invadir a URSS.

Cinquenta e dois dias antes, nesse 1.º de Maio moscovita, ainda figuravam como sorridentes comparsas no estrangulamento de outros povos. Vale a pena ver o filme desse dia. Para que a infame aliança comuno-nazi não se dissipe no nevoeiro da memória colectiva.

 

Indignidade moral

Pedro Correia, 15.04.25

DT 1.jpg

DT 2.jpg

DT 3.jpg

Manhã de Domingo de Ramos: Vladimir Putin ordena aos seus esbirros para bombardearem Sumy, na Ucrânia. Com total desprezo pela vida humana. 

Dois mísseis foram lançados para o centro da cidade enquanto centenas de pessoas iam à missa. Morreram 34 civis e 119 ficaram feridos, alguns em estado muito grave. Sete dos mortos eram menores.

Ao contrário do que apregoavam os propagandistas da Casa Branca, nem a guerra na Ucrânia terminou em 24 horas nem há qualquer sinal de que tenha fim à vista. Continuam a ser ali cometidas as maiores atrocidades - pelo quarto ano consecutivo. 

Confrontado com este mais recente crime de guerra, Donald Trump voltou a poupar Putin: nem um esboço de crítica ao carrasco da Ucrânia. Começou por uma declaração tipo Miss Mundo, geral e abstracta, dizendo que «as guerras são horríveis». Depois limitou-se a chamar «erro» à nova acção criminosa do psicopata russo. E desviou logo a rota, lançando culpas sobre o seu antecessor na Casa Branca. Parece convencido de que a campanha presidencial norte-americana ainda não terminou, daí nunca abandonar a rasteira linguagem de comício. Dando a entender que o responsável dos massacres na Ucrânia é Joe Biden, não Putin.

Em contraste absoluto com a reacção imediata de Keith Kellogg, para quem o bárbaro ataque a Suny «ultrapassa qualquer linha de decência». Palavras dignas que o colocarão ainda mais à margem do processo negocial: Donald Trump, que detesta Zelenski e admira Putin, parece já não contar com o general para contactos com Kiev.

Em Washington, apesar de tudo, acende-se uma ténue luz de esperança. Congressistas republicanos começam a pressionar Trump para se mostrar sensível ao sofrimento ucraniano. É muito provável que este esforço esteja condenado ao insucesso. Mas se não falarem agora arriscam-se a ficar tão contaminados pela indignidade moral como ele.

Reflexão do dia

Pedro Correia, 15.03.25

«Aqueles que pedem a paz a todo o custo não têm imaginação para prever o mundo novo que aí vem, que de novo não tem nada e é, na verdade, o mundo antigo dos maus velhos tempos. Sem direito, sem instrumentos de coacção caucionados pela ONU, sem NATO, sem Estados Unidos, a ordem liberal internacional, como lhe chamam os anglo-saxónicos, para todos os efeitos, acabou.

O colapso da Ucrânia não será o último colapso europeu. Tudo dependerá exclusivamente do apetite e do bom senso de Putin. Boa sorte com isso.»

Sérgio Sousa Pinto, no Expresso

"É para um amigo..."

jpt, 09.03.25

cossaco.jpg

Como preâmbulo: no "Observador" Paulo Dentinho deixou um bom artigo, "O tempo dos autocratas", breve resenha do que se passa. Deixo excertos: "Aos poucos, estamos a assistir à ascensão de regimes iliberais, onde a fachada democrática se mantém, mas esvaziada dos seus princípios essenciais. (...) Orbán reivindica Budapeste como a capital do iliberalismo e a sua “democracia iliberal” é hoje um modelo exportável. Tem seguidores em vários outros países europeus. Mas não só.

Com o seu modelo, o Estado e as suas instituições são capturados a pouco a pouco. A separação de poderes desvanece-se, torna-se aceitável: o parlamento é quase irrelevante, a justiça dobra-se. A imprensa é vilipendiada até só sobrarem os jornalistas amestrados. (...)

Os imigrantes são, normalmente, bodes expiatórios, as organizações internacionais e o sistema global de alianças é desprezado. As elites empresariais alinham-se. E no centro de tudo, o culto do líder.

Com maior ou menor dose, Modi e Erdogan fazem também parte da lista. Já em Moscovo, Vladimir Putin tem um sistema ainda mais aperfeiçoado.

Na Rússia há eleições, mas só para validar resultados já decididos. Putin não governa, domina o exército, a justiça, os oligarcas, os serviços secretos, a imprensa, a justiça. Tudo. O modelo é claro: não se cala a oposição, alguma é mesmo tolerada por ser cúmplice. Mas eliminam-se os opositores não desejados. Simples.

E agora, os Estados Unidos. Nesta segunda presidência de Donald Trump há já alguns sinais reveladores. Internos e externos. Ambos exercidos com dose significativa de brutalidade.

Internamente, há uma obsessão em controlar a justiça e a comunicação social. Externamente, o alinhamento com Vladimir Putin é uma simples constatação. O presidente americano já não fala da Rússia como uma ameaça, mas como um parceiro. Desfez as alianças tradicionais. Não negoceia. Impõe. Distribui taxas alfandegárias como uma espécie de punição a uns, e ameaça com elas vários outros antigos aliados da América.

A ascensão dos autocratas não acontece por acaso. Deriva da crise do modelo liberal-democrático, da ausência de resposta ao crescimento das desigualdades, do ressentimento com o sistema político, da percepção real ou empolada da corrupção das elites.

Os autocratas detetam as falhas, oferecem respostas simplistas, frequentemente demagógicas e populistas: um inimigo, uma promessa de grandeza e uma narrativa em torno de um líder capaz de restaurar a ordem.(...)".

Neste contexto é interessante ver as reacções do pequeno bando de fascistas portugueses entusiasmados com o ressurgimento de Trump. Há neles duas dimensões: por um lado afirmam-se nacionalistas - e muito do  que  escrevem deriva, explicita ou implicitamente, da sua sanha contra a União Europeia que, dizem, põe em causa a "Europa das Nações", a estas dando primazia, essencial, ôntica, até sacra. E é relevante que nesse eixo de entendimento saúdam, até efusivos, as políticas económicas de Trump porque serão boas para os EUA. Glosando a velha frase - que é verídica e não crítica - assumem que "o que é bom para a General Motors é bom para os EUA". Mas, dado o seu reiterado "nacionalismo", é evidente que dela retiram um silogismo: "o que é bom para a General Motors é bom para os EUA e como tal é bom para Portugal". Ainda não vi escrito o raciocínio económico - que  não o político, social, cultural ou religioso - que sustenta esta conclusão. E este é exigível, exactamente por os locutores se reclamarem - se fundamentarem - no tal seu arreigado nacionalismo. Quero fazer-me entender: não reclamo uma justificação de teor político, tipo "nós (governos portugueses, "europa") temos más/custosas políticas". É mesmo económico - assente em visões de curto, médio ou longo prazo. É que se não houver essa abordagem, todo este apreço "nacionalista" pelo anunciado rumo económico americano e seus hipotéticos efeitos em Portugal assenta numa aversão aos interesses económicos portugueses. Uma traição, intelectual que seja. Ou, dado que o termo "traição" caiu em desuso, tornado até anacrónico, é uma convocatória para a resposta: "estes tipos que vão para a americana que os pariu".

Há uma outra via que sedimenta os apreciadores deste influxo autocrático. Está esparramada noutro texto do pluralista "Observador", do nosso José Meireles Graça. Onde opta pelo registo "É para um amigo..." - e sou particularmente sensível a esse rumo pois também tenho alguns amigos, um pequeno  ramalhete, que assim seguem. Nesse texto identifica-se o apreço por Trump e quejandos como suportado numa "guerra cultural", contra o politicamente correcto (dito agora wokismo). Esse sobre o qual o democrata Pedro Correia escreveu "Tudo é Tabu", interessantíssimo roteiro sobre as aleivosias do extremismo "identitarista". Pois para aquele "amigo" - e para a fileira destes "amigos" - é tamanha a angústia diante dos discursos das minorias dos que têm ansiedades sobre as respectivas genitálias, dos esparvoados académicos que querem "denunciar" a história, ou dos radicais racialistas, ditos "identitaristas", que preferem apoiar gente como Putin. Pouco importa que este seja um ditador assassino, cleptocrata e imperialista. Pois é defensável dado ser presumível adversário do conteúdo do programa da disciplina do ensino secundário "Educação para a Cidadania" - que estes seus mais ou menos tímidos apoiantes, já agora, nem sequer conhecerão, apenas lhes disseram que é um espaço onde ensinam os rapazolas a enrabarem-se uns aos outros.  

E nisto tudo, para além da abjecção de se andar a botar elogios a um ditador como Putin, invectivam-se os críticos de Trump - nós estúpidos (quiçá até um pouco wokistas) porque ficamos presos a análise do seu perfil moral e intelectual e não aos presumíveis ganhos das suas  políticas (os tais interesses americanos imaginados como se portugueses fossem...). Pois não é um questionamento político aquele que fazemos, será apenas ligeireza "pessoalista". Neste peculiar eixo de entendimento do que é "política" é saudável, pois anti-woke, que o presidente do mais relevante país grunha "ninguém ouviu falar do Lesotho" e à sua volta todos ululem gargalhadas. E que se louve por ter cortado apoios à pesquisa sobre "ratos transgénicos" , e mais gargalhem. Pois tudo isso, os lesothos e os ratinhos de laboratório e tantas outras coisas, é entendido como "wokismo" - o que é ainda sublinhável por provir de gente que não se coíbe de contestar a "investigação científica" "financiada". E que tem a ufana incultura de o ... escrever. 

De facto, isto é puro grunhismo. Não o do Trump. Não o do (refinadíssimo) Putin. Mas o dos "amigos...". E é um grunhismo fascista. Desavergonhado. 

Da distinção

Cristina Torrão, 08.03.25

Cartoon 01.jpg

Para essas questões filosóficas, tenho o Lavrov. Ó Lavrov!

Cartoon 02.jpg

Putin: Explica aí ao pessoal como se distingue entre homens e mulheres.

Lavrov: Então, os homens somos nós, certo?

Putin: Sim, já me tinha apercebido.

Lavrov: E as mulheres são aqueles outros seres, aos quais não damos tempo de antena. Que nós não somos como os estúpidos dos europeus. Deixam-se ir na cantiga delas. Hoje até festejam um tal Dia da Mulher. Hahahaha!

Cartoon 03.jpg

Jazus! Que me matas, filho.

Cartoon 04.jpg

Boa, boa! Eu também já aprendi convosco. Colocar mulheres em posições de alto nível é uma armadilha woke na qual não torno a cair.

Cartoon 05.jpg

Ainda não aprendeste a falar, ó Elon... Quê? Ai isto não era para dizer? Ups.

24 de Fevereiro

Pedro Correia, 24.02.25

bucha-part-2-thegem-blog-default-large.jpg

 

Estamos a 24 de Fevereiro: é dia de honrar a memória dos mártires ucranianos. Centenas de milhares de pessoas, incluindo numerosos civis, assassinadas às ordens de Vladimir Putin. Os sinos dobram por elas.

É também o dia de evocar os milhares de cidadãos russos que o tirano do Kremlin enviou para a fogueira homicida da guerra. Cerca de um milhão de vítimas - entre mortos, feridos e desaparecidos - na tentativa frustrada de "conquistar" e anexar a Ucrânia, iniciada faz hoje três anos.

Desde então, os sipaios de Moscovo conseguiram avançar apenas cerca de 40 km em terreno devastado e despovoado, sem valor estratégico. Sem capturarem uma só capital de província. Sem exibirem superioridade terrestre e marítima. Forçados a recuar após terem estado a escassa distância de Kiev na primeira fase do conflito. Humilhados quando o mundo soube que as forças ucranianas, num fulminante contra-ataque, penetraram em solo russo, apoderando-se de 560 km² na região de Kursk. Foi há seis meses, em Agosto passado, e continuam lá. 

Trágica ironia da História: ninguém até hoje, neste século, vitimou tantos russos como o próprio Putin.

O rolo compressor de Putin

Pedro Correia, 21.02.25

putinee.jpg

 

Oiço falar muito em "paz" por estes dias. Não há palavra tão pervertida como esta: já Orwell havia lançado o alerta nos anos 40.

Vladimir Putin não quer acabar com a guerra na Ucrânia. Quer a Ucrânia, ponto.

O seu vassalo Dmitri Medvedev, sem rodeios, já declarou que a Ucrânia, como Estado, deixou de existir em 1925 e não faz sentido manter-se como entidade soberana. Digam o que disserem a Carta da ONU, a Acta Final de Helsinquia aprovada em 1975 e os tratados subscritos pela própria Rússia.

 

Putin não agrediu a Ucrânia por uma questão de território. A Rússia ocupa um oitavo da área terrestre do planeta. Em 80% desse espaço não vive ninguém.

A questão é geopolítica. Putin ambiciona reconstruir o império russo, crente de que só isso permitirá restaurar a influência de Moscovo à escala global.

É conhecida a frase dele, proferida em 2005, sobre o fim da União Soviética, que a seu ver foi «a maior catástrofe do século XX».

Esta frase é todo um programa. Só não vê quem não quer.

 

O ditador moscovita não se deterá neste desígnio, que ameaça engolir a actual Europa Central e de Leste.

Já o fez na Bielorrússia, em parte da Geórgia e em parte da Ucrânia. Tentou o mesmo na Moldávia, tendo sido travado porque os ucranianos lhe fecharam o caminho.

A ideia quase angelical que desta vez Putin irá satisfazer-se se lhe derem "face" é a negação das lições da História.

Sabemos o que aconteceu depois de Chamberlain e Daladier terem dobrado a cerviz a Hitler em Setembro de 1938, dando-lhe também face: a propalada "paz" serviu apenas de via-rápida para acelerar a guerra.

 

Sem dissuasão militar, Putin intensificará o rolo compressor. Tarde ou cedo, tal como Hitler, inventará outro pretexto para novas acções de "conquista".

Com esta agravante: uma Ucrânia absorvida pela Rússia, com o seu território, os seus meios logísticos, as suas vias de comunicação, as suas riquezas naturais e parte da população transformada em carne para canhão do Kremlin tornaria ainda mais perigoso o ditador. E mais ameaçador cada pacote de novas exigências de Moscovo.

Convém não esquecer: o tirano do Kremlin protagoniza desde 2022 o maior acto de guerra registado no nosso continente desde a II Guerra Mundial. Impedi-lo de cometer novas carnificinas não é opção facultativa: é um imperativo de sobrevivência para a Europa livre.

De elefantes e rinocerontes

Cristina Torrão, 20.02.25

Muita gente diz Trump ser como um elefante numa loja de porcelanas. Ou ter a elegância de um rinoceronte.

Vão-me desculpar, mas não posso discordar mais. Um elefante, ou um rinoceronte, dão realmente cabo de uma loja de porcelanas. Mas inadvertidamente.

Trump e seus compinchas entram na loja munidos de tacos de beisebol e escaqueiram tudo.

Porque não escolhem a loja de Putin?