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Ser turcófilo passou de moda

por Pedro Correia, em 13.06.19

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Ao contrário do que por vezes se imagina, a passagem do tempo costuma ser clemente para os políticos. Se assim não fosse, estaríamos em 2019 a escrutinar todos aqueles que durante anos andaram por cá a defender com fervor a integração da Turquia na União Europeia. 

Não precisamos de recuar muito. Na campanha para as eleições europeias de 2009, este tema esteve em debate. Com os cabeças de lista do PS e do PSD, Vital Moreira e Paulo Rangel, convergindo no apoio à adesão turca.

«A União Europeia só teria a ganhar com a integração de um país muçulmano e laico», declarou Vital Moreira durante essa campanha. Enquanto Paulo Rangel deixou claro: «Devemos apoiar os esforços de negociação entre a Turquia e a UE.»

 

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Ainda mais longe neste entusiasmo andou o ex-Presidente da República Cavaco Silva. Que aproveitou precisamente uma visita de Estado realizada há dez anos à Turquia para garantir o «apoio integral de Portugal» no processo de adesão, possibilitando que a maior potência da Ásia Menor se tornasse «membro pleno» da UE.

Indiferente ao facto de se tratar de um país com mais de 70 milhões de habitantes, aliás na esmagadora maioria residentes fora do continente europeu (em termos geográficos, o centro-sul/sudeste da Trácia é a única parcela de território turco que faz parte da Europa).

Indiferente também à inevitável pressão demográfica desta adesão, que conduziria à quebra de salários e rendimentos dos trabalhadores assalariados no espaço comunitário.

 

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Havia já suficientes sinais de alerta para que tais entusiasmos fossem travados. Desde logo, a ocupação ilegal de parte da ilha de Chipre por forças turcas, à revelia do direito internacional. Depois, o contínuo desrespeito da minoria curda residente em solo turco. Sem esquecer a preocupante aproximação do partido do primeiro-ministro (agora Presidente da República) Recep Erdogan ao integrismo islâmico.

Sabemos o que aconteceu desde então: a Turquia tornou-se um Estado autoritário, onde se multiplicam as violações dos direitos fundamentais dos seus cidadãos - incluindo severas restrições às liberdades de expressão, de reunião, de manifestação e de imprensa, acentuadas desde a alegada tentativa de golpe ocorrida em 2016, que serviu de pretexto a Erdogan para uma gigantesca purga no aparelho de Estado, além do silenciamento de incontáveis vozes incómodas no jornalismo turco. Enquanto se vai diluindo o regime laico implantado em 1923 por Ataturk. 

 

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Tudo isto já é suficientemente grave com a Turquia fora da UE. Agora imaginemos se as teses turcófilas dos generosos políticos portugueses tivessem prevalecido dez anos atrás, escancarando as portas a Ancara: haveria hoje uma séria deriva ditatorial no segundo país mais populoso do espaço comunitário (logo após a Alemanha).

Felizmente os desígnios de Erdogan foram travados pela sábia Angela Merkel e pelo arguto Nicolas Sarkozy, que vetaram a adesão. Felizmente também para alguns políticos cá do burgo, a nossa memória colectiva é muito curta: cada vez somos menos com memória suficiente para pedir-lhes contas do que disseram e fizeram.

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O Discurso do 10 de Junho (2)

por jpt, em 11.06.19

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Acordo antes das 3 da manhã. Insone, mas estremunhado. Tanto que não consigo ler - nem o Integral 1 de Gil Jourdan com que me estou a deliciar. Coisas da idade, pois, como todas as manhãs, acordo de olhar embaciado, precisarei de trocar de óculos, está ... visto. E por isso, até porque a noite ainda será longa, trago o computador para a cama, coisa rara. E percorro o FB, passatempo que sonho soporífero. Nisso noto que lá longe, na Pátria Amada, imensa gente comenta o discurso de João Miguel Tavares nas cerimónias do 10 de Junho. Muitos encómios, dextros. E muitos apupos, canhotos. Tantos são estes que procuro o que também diz aquela gente que não está nas minhas ligações, os veros sinistros canhotos - os "conhecidos", administradores não executivos, bloguistas jugulares, deputados filósofos, esse malvado cerne nunca-ex-socratista. Estes pateiam, em uníssono e com vigor, o discurso do colega de Ricardo Araújo Pereira. Como tal vou ouvir o que o homem disse. E reconheço-lhe a argumentação, lembra-me outro discurso de 10 de Junho, um que fez época, e há bem pouco tempo. 

Na alvorada blogo sobre o assunto, o postal O Discurso do 10 de Junho. Aludo ao discurso de João Miguel Tavares e ao repúdio socialista que gerou. Um discurso que foi muito lido: o "Observador" anuncia que foi um texto imensamente partilhado (a esta hora que escrevo o sítio desse jornal anuncia 41 mil partilhas do texto). No discurso de Tavares reconheço o que há poucos anos outro convidado disse. Quase sem tirar nem por. E cito-o, deixando ligação para o seu texto, identificado na origem, mas deixando entender que se tratam das palavras de João Miguel Tavares - de facto são ... quase. Trata-se do discurso de 2012, de António Sampaio da Nóvoa. Que então foi apupado pelos apoiantes do governo em exercício - diga-se, com honestidade, que Nóvoa fez uma crítica ao "estado da arte" mas elidiu o processo que conduziu à penosa situação de então, um caso típico do "com a verdade me enganas". E deu-lhe também um tom corporativo, defendo a universidade, coisa legítima mas apoucando a abrangência da análise.

Mas o relevante é que então foi completamente sufragado, aplaudido, pela oposição, pelos socialistas em particular - tanto que o então reitor acabou por ser o efectivo candidato presidencial do Partido Socialista, aquele discurso foi-lhe trampolim para uma (efémera) participação política mais explícita. Repito, hoje de madrugada citei-o sem referir o autor, e deixando entender que eram as palavras de Tavares, mas com ligação para o texto original, que tem no cabeçalho a identificação do autor:

"Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa (...) Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização. (...) não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.
Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas. (...) A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos. (...)  os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”. (...)

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si: - Num sistema político cada vez mais bloqueado; - Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício; - Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial. (...) Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade. ( ...) não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego."

Estas palavras, a reflexão sobre os problemas estruturais portugueses, são, de outra forma, com outra ênfase porventura, aquilo que agora Tavares anunciou. A parecença é tão grande que durante o dia - tendo eu publicado no meu blog "O Flávio" e no colectivo Delito de Opinião, assim abarcando cerca de 2000 visitas - ninguém apontou ou protestou a disparidade autoral. Mesmo tendo o texto de Tavares sido tão partilhado. Mesmo tendo eu posto adenda ao postal (e também no facebook), apelando a que se lesse o texto original - assim percebendo a diferença autoral. Só agora, já noite longa, um comentador anónimo surge, irónico, num "vai-se ver foi o do outro. Boa partida". Mas não é uma partida ...

Na época, há sete anos, no olho do furacão da crise, o diagnóstico de Sampaio da Nóvoa sobre a situação estrutural portuguesa foi  aplaudida pelos socialistas, com enorme empenho. E agora, declarações tão similares, tão confundíveis - prova-o o meu postal -, são vituperadas, pelos videirinhos e seus apoiantes. Isto apenas mostra uma coisa. Há gente, imensa gente, que só está interessada nos seus cromos, na sua colecção. Apoiar o "nosso" Sampaio da Nóvoa, apupar o Tavares "deles" (e também o contrário). O país?, a tal "Pátria Amada"? Que  se lixe.

 

É óbvio que temos que dançar, nus. Para crescermos. Para transitar de etapa. E é ainda mais óbvio: os videirinhos não servem para essa dança.

 

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O Discurso do 10 de Junho

por jpt, em 11.06.19

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As comemorações oficiais do 10 de Junho não são um acontecimento popular - uma "festa popular". Mas são um ritual - e a palavra não é pejorativa, como muitos a utilizam - de reafirmação identitária. Vivido pela população na placidez do quotidiano. O fundamental da sua coreografia actual - uma cerimónia até simples, no país, acoplada a uma outra, a realizar onde haja uma comunidade de emigrantes portugueses - é o modo como explicitamente denota a democracia como constitutiva do país, da sua identidade, assim afirmando-a. Pois o seu conteúdo central são os discursos: os presidenciais, que são esperados como relativamente protocolares, "cinzentos". E os de um convidado, oriundo da sociedade civil e assim algo autónomo, ao qual é entregue a responsabilidade de dizer algo relevante sobre o devir do país. 

É isto o actual 10 de Junho, dia do Portugal democrático. Não é o dia em que o Chefe de Estado fala ao país - e muito menos ao "seu" "povo" - reafirmando a sua visão e o seu programa. É o dia em que o Estado dá o palanque a alguém, assim ao país, para que este critique e desvende o presente e até, porventura, aponte alguns rumos. Que  alumie o que lhe for possível. Na sua relativa autonomia de intelectual.  Ao longo dos anos alguns dos convidados têm sido mais interessantes, outros menos, mas isso é normal - e julgo que muitos não se vêm conseguindo libertar o suficiente do "peso do simbólico" do dia. Mas também isso é normal, humano. Mas o realmente fundamental é este molde cerimonial, assim significando e celebrando a democracia. (E seria bom que alguns "democratas" que menorizam o cerimonial, e a data, por não corresponder a ajuntamentos populares pudessem perceber algo do real antes de perorarem).

Ontem o convidado reclamou-se, explicitamente, filho da democracia. Do que disse algumas coisas não gosto - não se pede aos políticos "deem-nos alguma coisa em que acreditar". Esse é um assunto que nos compete a nós, cidadãos, disseminar entre os ... políticos. Mas, de facto, o convidado fez o que lhe incumbia: proferiu o que considera relevante sobre o país, criticamente. A reacção do poder foi imediata: membros do governo, actuais deputados, antigos membros do governo, jornalistas e opinadores, uniram-se em invectivas, considerando as palavras proferidas como de "extrema-direita", arauto do populismo anti-democrático e, até, próprias de quem não gosta do país (ainda não li invectivas de "anti-patriotismo" mas lá chegarão). E colhem imenso apoio nessas proclamações - as quais procuram não só elidir o efeito do discurso como também demarcar o "quem" pode falar na data, estipular um perfil futuro. Entretanto os que não estão no poder celebram as suas palavras, anunciam-nas pertinentes.

Que disse o convidado que tanto abespinha o poder actual (PS)? E que tanto encanta o não-poder actual (à direita do PS)? Disse

"Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa (...) Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização. (...) não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.
Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas. (...) A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos. (...)  os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”. (...)

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si: - Num sistema político cada vez mais bloqueado; - Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício; - Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial. (...) Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade. ( ...) não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego."

Grosso modo, é este o resumo do que João Miguel Tavares disse ontem. Na cerimónia que consagra a crítica democrática como constitutiva da identidade nacional. Ao ler as reacções dos agentes do poder (militantes, simpatizantes e os sempre avençados) não só percebo, mais uma vez, o quão distantes estão da mentalidade democrática que se quer celebrar. Mas, ainda mais, percebo o quão intelectualmente desonestos são, ao refutarem estas palavras. Que tão elogiáveis, e até candidatáveis, seriam. Se proferidas por outrem.

Adenda: Convido os pacientes leitores a "clicarem" no trecho que cito, que tem a ligação para o texto completo, para que não se diga que o trunquei, adulterando-lhe o sentido. Pois essa consulta, mesmo que muito breve, permitirá perceber - bem mais do que o meu pobre texto - o quão visceral é a desonestidade dos apparatchiki socialistas, e seus correligionários, que logo encheram as redes sociais - e talvez a imprensa - vituperando o locutor de ontem.

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Comemorar o 28 de Maio

por jpt, em 29.05.19

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A notícia é de 28 de Maio ("curiosa data", se glosando Mota Amaral): "Divulgar informação sobre grandes devedores ameaça a estabilidade, avisa o Banco de Portugal", uma veemente defesa dessa verdadeira "evolução na continuidade" feita pelo organismo dirigido por um indivíduo tendente à amnésia. Nesse mesmo dia se soube que o Banco de Portugal "calcula em 23,8 mil milhões de euros os fundos públicos injetados na banca nos últimos 12 anos. Falta recuperar cerca de 80%.". E ainda no vigoroso 28 de Maio, a GNR sai para a estrada para penhorar os carros aos micro-devedores fiscais.

Entretanto, durante a referida data, imensos portugueses se afadigam celebrando a "vitória da esquerda" e, acima de tudo, "a derrota da direita", esta um magma neoliberal ao serviço do capitalismo desumano. Outros, e bastantes, dissertam ainda sobre as causas da "abstenção eleitoral", especulando, implícita ou explicitamente, sobre o quanto esta influenciou a "derrota da (pérfida) direita" e/ou apoucou a "vitória da (bondosa) esquerda".

Que dizer de tudo isto, desta gente festiva? Só "Ah, Ah, Ah", para citar José Berardo, o apaniguado de José Sócrates.

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O socratismo e o Guronsan

por jpt, em 28.05.19

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Um administrador das prestigiadas empresas EDP, Jerónimo Martins e Mota e Engil goza os seus consumidores e potenciais contraentes. Mesmo na impunidade do prebendismo socratista é um bocado ... intoxicante. 

Venha de lá um Guronsan, que isto assim até dá ressaca.

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Europeias (23)

por Pedro Correia, em 27.05.19

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UM PS AINDA "POUCOCHINHO"

 

Há cinco anos, sob o comando de António José Seguro, o PS venceu as eleições europeias defrontando uma coligação formada por dois partidos, o PSD e o CDS. Obteve 31,46% nas urnas - mais 3,75% do que a soma dos partidos rivais. Logo António Costa se chegou à frente, declarando-se desgostado com este resultado, que lhe pareceu «poucochinho». E de imediato iniciou o processo de defenestração do companheiro de partido, que teve capítulos indecorosos.

Agora, sob o seu comando, o PS atinge os 33,4% - ampliando, é certo, a diferença entre os partidos situados à sua direita, cuja soma se queda nos 28,1%, por evidente demérito das respectivas campanhas. Vale hoje exactamente um terço dos sufrágios expressos a nível nacional. Cresceu 1,9% em termos percentuais. E quanto progrediu em votos? Pouco menos de 73 mil: em 2014 obtivera 1.033.158, agora consegue 1.105.915. Progressão apenas conseguida graças ao facto de o número de recenseados ter disparado devido ao registo automático de emigrantes como eleitores: há cinco anos foram 9.702.657, desta vez subiram para 10.761.156. Em termos relativos, o PS ficou aquém de 2014.

É bom? Sem dúvida, na perspectiva dos socialistas. É «poucochinho» para quem aspira à maioria absoluta em Outubro? Tudo indica que sim - segundo a doutrina Costa. Só aplicada a outros. A ele, nem pensar.

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Impressões eleitorais

por Diogo Noivo, em 27.05.19

António Costa ‘nacionalizou’ as eleições europeias, transformando-as num plebiscito à sua governação. E apesar de Pedro Marques, de Pedro Silva Pereira e da época de banditismo e prepotência que representa, do CV da Maria Begonha, de Carlos César e da sua grande família, das nomeações descaradas de amigos e familiares, da maior carga fiscal dos últimos 22 anos, de Tancos, do caos no Serviço Nacional de Saúde, e do número inaudito de mortos em incêndios florestais onde o Estado falhou por incúria, o Partido Socialista venceu as eleições de forma claríssima. É obra. A força e a legitimidade de António Costa saem reforçadas – embora os 70% de abstenção não permitam embandeirar em arco.

Os resultados porventura digam algo sobre aquilo que somos enquanto eleitores. Mas dizem certamente muito da oposição que temos, pois raras foram as vezes em que o partido incumbente venceu as europeias. O PSD, que é hoje um simulacro do partido que foi em tempos, não parece ter percebido a dimensão da coisa. Não lhe auguro nada de bom.

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Europeias (18)

por Pedro Correia, em 23.05.19

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PARTIDO SOCIALISTA: TRÊS PROPOSTAS

 

  • Criação do programa Garantia Criança para combater a pobreza infantil e assegurar o acesso universal ao pré-escolar e à saúde na primeira infância.
  • Criação de um Fundo Europeu de Transição Ambiental para apoiar empresas na descarbonização e garantir a qualidade do meio ambiente.
  • Combate sem tréguas à difusão de notícias falsas e outras formas de condicionamento da opinião pública que pervertem o debate democrático.

 

Do manifesto eleitoral, Um Novo Contrato Eleitoral para a Europa

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Europeias (15)

por Pedro Correia, em 22.05.19

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AUSENTE MAS PRESENTE

 

A presença de Pedro Passos Coelho numa acção de campanha do PSD bastou para perturbar a campanha socialista. Ao ponto de usarem essa esporádica aparição do anterior primeiro-ministro como fio condutor de um mini-comício promovido ontem pelo PS em Aveiro.

Valia mais que os dirigentes do partido do Governo evitassem abordar este tema. Para não serem confrontados sobre a ausência, nesta mesma campanha, do primeiro-ministro que antecedeu Passos Coelho. Eles sabem muito bem que nós sabemos que eles sabem que nós sabemos quem foi.

 

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O PS e as criancinhas

por jpt, em 14.05.19

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Ricardo Arroja e outros membros do novo partido Iniciativa Liberal fizeram um passeata eleitoral acompanhados dos filhos, ainda crianças. Sujeitados a tais acções posso presumir que alguns dos infantes venham a crescer marxistas-leninistas, mas isso será questão das famílias ...

O deputado Porfírio Silva, tornado mais conhecido pelo afã com que declarou que Passos Coelho utilizava a gravíssima doença da sua mulher para ganhar simpatias eleitorais,  e militante de um PS que contrata estrangeiros recém-chegados para engrossarem as "massas" nas suas arruadas (como agora irritantemente se chamam a estas acções de propaganda), reagiu, viçoso, contra essa presença infantil. 

Pedro Marques, o antigo secretário de estado de Sócrates - e também fonte obscura de bloguismo anónimo remunerado, assim promotor da rede então ainda manufacturada de "fake news" lusa, germinada em torno do blog Jugular -, ministro deste actual governo, e agora alcandorado a "cabeça-de-lista" eleitoral,  logo se associou ao incómodo do atento Porfírio Silva. Pois, e contrariamente ao que se poderia deduzir, estas crianças não são filhos dele.

Tudo isto é muito giro (assim mesmo, sem aspas). 

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Tudo em família

por Pedro Correia, em 10.05.19

 

Agora não restam dúvidas: o PS aderiu mesmo à política austeritária de contenção orçamental.

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Mais um tiro no pé.

por Luís Menezes Leitão, em 07.05.19

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Está explicada a proximidade de Rui Rio com António Costa e o alinhamento que tem tido com este governo. Já sabemos também que o actual PSD pretende passar a ser a muleta do PS. Não venham é dizer que isto é o pensamento de Sá Carneiro. Sá Carneiro, num período em que a direita era fortemente atacada, quis demonstrar que a mesma podia ser governo. Fez uma coligação com esse propósito e chegou a primeiro-ministro. Rui Rio com estas declarações cada vez mais se afasta desse objectivo. O problema é que parece que não lhe faltam balas para continuar a dar tiros nos pés.

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(Cemitério do Alto de São João, Lisboa. Foto do blog 100 Anos, 100 Árvores)

 

Sabe-se que o cientista e ministro Augusto Santos Silva considera um extremo "parolismo" aludir ao viçoso feixe de relações familiares dos dirigentes do PS aboletado na administração pública. Mas fica-se "parolo" quando se vai conhecendo o rosário de despautérios dessa elite partidária. O que se passa é nitidamente a consagração do ideário "O Estado somos nós", corrupta corruptela de bem antigas (e absolutistas) concepções do exercício político.

A descrição do Expresso da  última sessão pública da Câmara de Lisboa mostra o putrefacto a que isto chegou, até pelo lado risível da questão: Fernando Medina, que tão falado foi há anos como mais-que-provável sucessor de Costa na liderança do seu partido, a propor um protocolo (financiador) da CML com uma Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa, esta animada em desenvolver actividades culturais em torno dos cemitérios - no que será, de facto, uma sub-contratação para o desempenho de actividades culturais, contornando os serviços camarários especializados nessa área (nos quais existe, pelo menos, uma empresa municipal, a EGEAC). E a qual já recebeu financiamento (parcos 10 000 euros, que dará para pouca coisa, como é óbvio), ainda sem protocolo que se veja.

O Expresso conta: da atrapalhação de Medina, o tal putativo futuro primeiro-ministro, a querer encerrar a apresentação do protocolo, pois a aprovação, afinal, não estava para passar sem debate (quem vai discutir contra quem quer o "bem dos cemitérios" e dos mortos que lá habitam no seu repouso eterno?). E de como o vereador do PSD desfiou o rol de parentes (e confrades) da elite partidária do PS que se aprestam, com total impudicícia, para sacar do orçamento municipal, a propósito de arranjos fúnebres. Aqui cito esse rol, em cúmulo de parolismo, para desgosto de Augusto Santos Silva, ministro de Sócrates&Costa: os órgãos da tal lúgubre associação com "fins culturais" são compostos, decerto que entre outra gente da mesma igualha, por "Jorge Ferreira, fotógrafo de campanhas do PS e de eventos da Junta de Freguesia do Lumiar; Pedro Almeida, funcionário do PS no Parlamento; Inês César, sobrinha de Carlos César; a sua mãe, Patrocínia Vale César (deputada municipal do PS) e o seu pai, Horácio Vale César (irmão de Carlos César e ex-assessor de João Soares quando ele foi ministro da Cultura); João Soares; Diogo Leão, deputado do PS; Filipa Brigola, assessora do grupo parlamentar do PS.". Isto é mais do que óbvio, alguém se lembrou que havia aqui uma área para sacar taco à câmara, juntou a rapaziada, têm os contactos certos (o "eterno" Sá Fernandes lá estava para os elogiar) com Medina e sus muchachos. Assina-se o protocolo, fazem-se umas "cenas", ganham-se umas massas, e nisso até se dão uns trabalhos a uns "sobrinhos" que andem um bocado desvalidos, e se calhar uns textos (pagos) a escrever a um desses painelistas socratistas que vão à TV. Uma mão lava a outra, ambas coçam as remelas e ainda se escarafuncham as narinas.

E isto tudo se passa a um mês das eleições, e quando fervilha na opinião pública e na imprensa a questão dos parentes socialistas nos postos estatais. A um mês das eleições! Esta gente, a elite PS, está sem qualquer tino. Em verdadeira roda livre.

E nós, que em breve habitaremos os cemitérios deles, somos "parolos".

Adenda: encontro o filme da sessão. Veja-se a cara de Medina, notoriamente atrapalhado, depois de ter tentado adiar a questão, diante do eleito do PSD - que pergunta, letal, ao BE se se revê neste lóbi familiar - enquanto este desvenda o rol de socialistas metidos nesta marosca:

 

 

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Brioches e Galpgate

por jpt, em 22.04.19

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"Que eles comam brioches" (já que não têm pão) é a célebre frase menosprezadora dos miseráveis esfaimados, sempre atribuída a Maria Antonieta para ilustrar a inconsciência política dos possidentes face aos sentimentos populares - o dito é falso mas è ben trovato.

Vêm-me esses brioches à cabeça ao ler que PS, PCP e PSD se conluiaram para legitimar a oferta de viagens de privados aos políticos no activo, porventura abrindo caminho para arquivar as acusações a uma série de ex-governantes, o célebre Galpgate.

O tal "Galpgate" não será particularmente importante, isto dos políticos terem uma viagem para ir ver um jogo de futebol não será, por si só, suficiente para ulularmos "corruptos". Mas o impressionante é terem os maiores partidos portugueses legislado esta medida neste momento, quando as representações populares sobre os políticos não são particularmente benévolas - será preciso lembrar o Socratesgate? O alargado rol de políticos cavaquistas com máculas satânicas? As tropelias autárquicas? O longo processo de substituição da PGR, motivo de tantas especulações? O DDT, até íntimo do actual PR, a mostrar como o poder económico subjuga o poder político? Não digo que o poder político seja corrupto, digo que há uma enorme suspeição, a qual afecta a relação com o regime: 30 e tal por cento do pessoal nem sequer vota, e muitos dos votantes continuam no clubismo de que "os dos outros partidos é que são corruptos".

E neste ambiente - que é também internacional, com a crescente vaga de movimentos excêntricos aos partidos tradicionais, exauridos pela desconfiança crescente face às práticas dos seus dirigentes - os grandes partidos portugueses (quo vadis, PCP?), surgem a "limpar o arquivo", a legislar para que os seus dirigentes possam receber oferendas e inocentar, retroactivamente, alguns deles. E isso a um mês das eleições, encolhendo os ombros a hipotéticos efeitos eleitorais de uma medida destas. O que demonstra uma crença inabalável do atavismo do comportamento eleitoral dos portugueses, a qual se calhar até é fundamentada (assim o dizem as sondagens, mais deputado para um, menos deputado para outro ...). Mas mostra, acima de tudo, uma enorme inconsciência quanto às movimentações das sensibilidades populares, à possibilidade do inesperado num futuro breve, uma cegueira típica de espírito de casta (repito, quo vadis, PCP?).

"Eles que comam brioches", diz Costa, atrevido como sempre, e Rio, absurdo como parece. E Jerónimo, também? A ver o que o futuro trará.

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Parolismo

por jpt, em 20.04.19

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Apesar de ser Páscoa talvez alguém que viva em Portugal me possa explicar como é que, a ser verdade que a "Administração do Sistema de Saúde "limpou" doentes das listas de espera para consultas, numa altura em que era presidida pela atual ministra, e foram usados indevidamente mecanismos para alterar datas de inscrição de utentes para cirurgia", conforme o inscrito num relatório de avaliação de um grupo técnico independente nomeado pelo  governo, o qual esteve seis meses sem ser divulgado, a actual ministra ainda está em funções. 

Ou será que, segundo o paradigma de cientista Augusto Santos Silva, é parolo perguntar uma coisa destas?

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Ivanka Trump e o Banco Mundial

por jpt, em 18.04.19

Isto de Donald Trump ter oferecido à sua filha a presidência do Banco Mundial dirá muito sobre como estão os EUA e o mundo em geral. Mas diz também sobre o estado do jardim à beira plantado e dos seus habitantes. Dei uma volta pelas "redes sociais", secções portuguesas. Nas quais, desde há anos, Trump é visceralmente criticado. E não serei eu quem virá contestar a pertinência de muitas dessas críticas. Mas agora? Encontro, naquilo que vejo, na "rede" egocentrada que me é disponível, um silêncio total. As vozes e teclas mais anti-trumpianas, sempre tão activas na crítica ao presidente americano, distraíram-se e não estão frenéticos nas "partilhas" e "denúncias" desta escandalosa deriva nepotista. Decerto que não por estarem ocupados nas bichas das bombas de gasolina: poderiam ter usado os telemóveis durante as esperas para "denunciar", com redobrado ímpeto, este episódio.

Mas agora não. Convém nem referir o assunto, já basta de falar de redes familiares nos cargos de nomeação política. Mesmo que tão mais importante seja a possibilidade da nomeação da filha de Trump para o Banco Mundial do que mais um primo de Carlos César ser colocado num qualquer posto, ou a rábula do secretário de estado invertido ninfomaníaco que queria o capitão garanhão como motorista. Mas nem essa diferença de escala lhes diminui o silêncio. Não querem parecer "parolos" aos olhos de Augusto Santos Silva, como tal preferem calar-se, preocupar-se com outras coisas. Ou, por outra, antes parecer Trump do que parolo, dirão, fiéis ao perversor ministro.

Gente muito fraquinha. Se gente.

 

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O Parolismo

por jpt, em 10.04.19

Uma entrevista de Augusto Santos Silva, mNE (basta googlar que se encontrará uma versão resumida, com cerca de 10 minutos). Não particularmente interessante, não tanto pelo ministro mas devido ao tom afável e até algo subserviente da entrevistadora - há ali uma nuvem de comunhão de casta, tonitruante no final na partilha de "grande amigo", que abre auto-estrada para que Santos Silva saia incólume e até com louros da entrevista, de facto conversa.

Mas, e para além de algumas afirmações interessantes sobre política externa, ainda que não inovadoras, infelizmente não esmiuçadas, o cabeçalho terá que ser as declarações sobre política interna - já agora, nem uma palavra sobre as eleições europeias e sobre "que Europa?", para além de plácidas considerações sobre defesa comum, mostram o tom demasiado "charmoso" da entrevista. E sobre esta Augusto Santos Silva, reclamando alguma rusticidade lexical que faz ancorar no seu portismo, diz serem "parolos" os que se preocupam com as redes familiares no poder político.

Somos então parolos, prisioneiros do parolismo, quando resmungamos com a política de pleno emprego político na família do presidente do PS, o infausto César. Somos parolos - eu, com toda a certeza - quando nos iramos com o secretário de estado da defesa do consumidor que quer o amante capitão à mão de semear, desgraduado em motorista. Somos parolos quando notamos que no PS, confrontado com tanta festividade empregadeira, a sua secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, considera que o seu partido de ninguém recebe lições de ética (conviria lembrar, para o caso de alguém se ter esquecido, que o anterior governo do PS, no qual estavam inúmeros ministros actuais, foi chefiado pelo antigo 44 da penitenciária de Évora, durante anos sufragado por mais de 95 por cento dos congressistas socialistas, entre os quais Costa, Santos Silva e, claro, Ana Catarina Mendes). Assim apresentando diferente doutrina da defendida pelo actual mNE que já declarou que "não faz julgamentos éticos", isto a propósito da trafulhice infecta que foi o anterior governo PS. 

Somos parolos ainda quando nos interrogamos sobre isto do PS nem mesmo depois da trapalhada com Sócrates ter o mínimo de cuidado nestes arranjos familiares - uma ligação cronológica, produtora de "sensações", nada colocada na entrevista, ainda que a entrevistadora até tenha aludido a hipotéticas "sensações" do eleitorado. Somos completamente prisioneiros do parolismo, dirá o douto Silva.

E, mais ainda, somos parolos, do parolismo, quando lemos o letal texto de João Pedro George (1, 2) - que terá continuação na próxima edição da revista Sábado - sobre como funcionam as relações familiares no poder político e na administração pública, como promovem a redistribuição de recursos por uma pequena clique. Eles, os socialistas, os Santos Silvas e Megas Ferreiras (bombardeado sem dó nem piedade no texto de George) são os "cosmopolitas", para usar o termo que ASS usa na entrevista como auto-definitório, de si e do seu partido. Nós somos os "morcões", parolistas.

Ah, quem me dera poder escrever palavrões no blog (e no facebook). 

Adenda: um comentador residente no DO comentou o postal com ligação a um pequeno filme, declarações de Sousa Santos evidentemente a propósito do caso Sócrates - indivíduo do qual ele foi ministro, e com o qual anteriormente foi ministro. 

O interessante é que nesta longa e plácida entrevista concedida ao "Observador", apresenta-se como um cientista social, que é, e reclama essa condição para o seu exercício da política, fundamentando-se em "estudos, sondagens", sendo de tal forma veemente que a entrevistadora se aprestou a apresentar-se como algo diferente, como "intuitiva". Mas para defender Sócrates - em 2015, ainda antes do afastamento da Procuradora-Geral, e bem antes daquele fim-de-semana de 18, no qual o presidente César, a criatura então ainda não-secretário de estado Galamba e a jornalista Câncio, confluiram numa espécie de grito de Ipiranga, querendo apartar o PS do seu sempre aclamadíssimo ex-secretário-geral -, para defender Sócrates, dizia eu, já Santos Silva vituperava a justiça portuguesa, negando as más-práticas tão duradouras do seu antigo chefe, para isso fundando-se num tão intuitivo e nada científico "é o que eu sinto". Como se que a fugir-lhe o pé para a chinela, um deslize parolo, por assim dizer.

Um bocadinho menos de reverência da entrevistadora não lhe teria ficado nada mal ...

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Laços de Ternura

por jpt, em 06.04.19

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Em Portugal vejo que muitos discutem os vínculos de parentesco (consanguinidade, afinidade, afectividade sexual) do pessoal governativo. Sorrio. Pois as eleições europeias estão à porta e a lista PS repete este candidato, um tal de Silva Pereira, punho direito de Sócrates - haverá maior parentesco do que ser a dextra de alguém?

O problema será o da filha do ministro, a namorada do outro ou o capitão amante do rapazola dos direitos do consumidor? (Ou que "nos tempos" de Cavaco tudo fosse assim também?). É um problema, sim, mas não o problema. É muito mais estes silvaspereiras (e os marques e leitãomarques, outros governantes de Sócrates enfileirados para o parlamento europeu). É um partido de gente sem o mínimo ... apoiada por gente sem o mínimo.

Hoje mesmo inaugura a exposição "Para Além de Bruegel" (Pieter, o Velho), celebrando-o por ocasião dos 450 anos da sua morte. A uma "distância caminhante". Daqui onde estou a teclar. E do parlamento, secção Bruxelas, para onde serão enviados estes silvaspereiras. E os patrícios, lá no rincão? Discutem as namoradas alheias, as do tempo do Cavaco e as actuais. E votam no Silva Pereira.

Aqui Bruegel. Lá óbvio Bosch.

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Reformismo e revolução

por Pedro Correia, em 02.04.19

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O Bloco - bloqueado como nunca - acaba de sofrer uma dolorosa deserção em massa de 26 militantes,  claramente descontentes com a capitulação do partido fundado em 1999 por Francisco Louçã, Miguel Portas e Luís Fazenda face ao reformismo austeritário capitaneado por António Costa e pelo seu imediato Mário Centeno. Entre estes dissidentes inclui-se gente que fez parte do núcleo fundador, designadamente dois irmãos de Louçã, agora conselheiro de Estado e membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal, além de detentor de uma apreciada cátedra senatorial como comentador na privadíssima SIC Notícias.

Na óptica da chamada "verdadeira esquerda", os socialistas são meros gestores do sistema existente. Ora a energia revolucionária, erigida em "locomotiva da história", não se destina a gerir o sistema: ambiciona transformá-lo para cumprir as profecias contidas no evangelho de Marx. Acontece que Costa anestesiou os partidos revolucionários, aproximando-os do inevitável embate contra a parede: o Bloco, partido sem trabalhadores, transformou-se na sucursal social-chique do PS; o PCP, ao aprovar quatro orçamentos do Estado que validavam a moeda única, a disciplina orçamental e o pacto de estabilidade, descaracterizou-se como partido de raiz revolucionária. As consequências estão à vista, desde logo no plano sindical: algumas das áreas mais reivindicativas, dos estivadores aos enfermeiros, são hoje lideradas por sindicalistas autónomos da estratégia do partido da foice e do martelo e divorciados da sua sucursal obreirista, a CGTP.

Eis, prestes a concluir-se, a missão histórica do menchevista Costa, completando-se em 2015 o que Mário Soares - seu principal mentor ideológico - iniciara em 1975: os bolcheviques lusitanos estão quase a passar de vez à história. As eleições autárquicas de 2017, confirmando a total irrelevância do BE e o maior recuo de sempre do PCP ao nível do poder local, confirmaram esta tendência. Que isto ocorra no momento em que o País ainda é governado por uma "geringonça", fruto de um pacto celebrado entre os socialistas e os seus outrora ferozes opositores ancorados na margem esquerda, é uma daquelas ironias em que o destino dos sistemas políticos costuma ser fértil.

Compreendo que Costa, até devido aos seus antecedentes familiares, mergulhe episodicamente numa certa melancolia por lhe caber cumprir este desígnio histórico, que só peca por tardio - autêntico anacronismo ainda vigente em território europeu. Resta-lhe esta certeza: se não fosse ele, outro o levaria à prática. Não fazia o menor sentido as forças mais extremas da proclamada esquerda manterem cativo cerca de um quinto do eleitorado português, como aconteceu até Outubro de 2015, quando Bloco e PCP somaram 18,44% nas legislativas.

Nada ficará na mesma mal caia o pano sobre estas legislativas.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

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O PS e as Fake News

por Rui Rocha, em 01.04.19

A Amazon praticamente não tem lojas físicas. A Alibaba não tem stock. A Uber não tem viaturas, o Instagram não gera conteúdos e a Airbnb não tem propriedades. É um admirável mundo novo. No caso das Fake News é esse admirável novo mundo outra vez. As mentiras podem ser produzidas por plataformas sem necessidade de intermediação (ou controlo) de partidos ou meios de comunicação e agenciamento tradicionais. Não admira que políticos e jornalistas olhem para essas plataformas como um taxista olha para um motorista da Uber: uma ameça poderosa de concorrência num espaço que acreditavam ser só seu. E é natural que, de entre os partidos, seja o PS o que aparece como o mais preocupado com as Fake News. Tão preocupado que lançou por estes dias um pungente apelo ao governo e aos outros partidos com o objectivo de lhes dar um combate sem tréguas. É normal. Um latifundiário das Fake News não pode ver com bons olhos a chegada de pequenos proprietários que vão lançando as suas próprias inverdades que, o Diabo seja cego e surdo, poderão não estar sequer alinhadas com as faltas à verdade que são do interesse do PS. Na verdade, o PS é a Antral das Fake News. A melhoria do serviço, a qualidade da frota, a transparência da transacção comercial, a satisfação do cliente, tudo isso é o que menos importa. O que é fundamental é tentar impedir a entrada de concorrência. O táxi do PS é o país. O Serviço Nacional de saúde são os pneus carecas. O estado da Justiça é a direcção desalinhada, as cativações são as mudanças do óleo e as revisões adiadas, a Protecção Civil em ruínas são os estofos cheios de buracos. E Costa é o taxista das Fake News. Fala um português sofrível, não usa desodorizante e apoia o Benfica. Quando inicia uma corrida, Costa promete sempre aos passageiros que há outro caminho. Então para onde é que o shôr quer ir? Quero ir ali para a zona do saneamento das finanças públicas. E o shôr quer ir por onde? Não sei, se calhar atalhávamos ali pela austeridade? O shôr não pense nisso, há outro caminho. Ó senhor motorista, como é que se chama este caminho? Carga fiscal, shôr passageiro, embora também lhe chamem Esbulho. Com Costa a conduzir o país, há sempre outro caminho, mas o preço é invariavelmente omitido no princípio da viagem. E o PS, latifundiário das Fake News, quer continuar a passar de mansinho que esse caminho não tem custos, que não levou o país à bancarrota em 2011, que este PS não é o velho PS de Sócrates, que os acólitos de Sócrates que são os do PS de agora nem sequer sonharam, muito menos viram o que se passava, que as 35 horas dos funcionários públicos não tinham custos, que a tragédia dos incêndios se deveu exclusivamente a condições atmosféricas desfavoráveis, que as relações familiares dentro do governo e na esfera do poder são normalíssimas, que a geringonça não é uma manobra táctica que branqueia a natureza anti-democrática do PCP ou que as Instituições e as funções públicas mais relevantes não estão em estado de profunda erosão quando não de implosão. O PS quer controlar as Fake News porque não interessam ao PS mentiras novas. As ilusões e embustes que o PS produz são-lhe mais do que suficientes. Ao PS não interessam mentiras novas, mas não interessam sobretudo novas verdades. Como poderia interessar ao PS, paladino do combate às Fake News, cavaleiro imaculado de espada em riste pela transparência, que viesse por aí alguém sugerir que Pedro Marques, o cabeça de lista pelo PS às eleições europeias, fosse ele próprio um dos elementos que alimentava o blogue Câmara Corporativa, uma máquina de contra-informação ao serviço de Sócrates. Ou que alguém se lembrasse de sublinhar que o número 3 dessa mesma lista é Pedro Silva Pereira, o lugar-tenente de Sócrates que o PS oportun(ístic)amente renegou? São de facto tempos gloriosos estes em que ouvimos, na mesma semana, o PS defender medidas contra as Fake News em nome da cidadania e Ricardo Salgado afirmar que todos os dias se lembra dos lesados do BES. Por este caminho, ainda vamos ver Carlos César preocupado com o nepotismo e o Juiz Neto de Moura a doar as suas posses à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

 

* artigo publicado na edição de Março do Dia 15.

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