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Delito de Opinião

Nada há de novo debaixo do Sol

jpt, 11.05.24

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Antes de partir para Moçambique vivi quase dois anos em Campo de Ourique, na Tenente Ferreira Durão (a rua do célebre e tão saudoso "Stop do Bairro", então nossa cantina), foi um período muito bonito, o início da vida conjugal. Fiquei com uma costela local, mais atento ao que por lá se vai passando. Nas últimas eleições autárquicas reparei que a vitória foi... "resvés Campo de Ourique": a lista vencedora, do PS, ganhou por apenas 25 votos. Tendo havido alguma resmunguice local, dada a radical excentricidade dos resultados numa urna..., a decidirem o resultado final.

Sorri ao ler o acontecido. Não só por ter a minha experiência de observador eleitoral internacional - actividade onde se vêem (e aprendem) coisas "engraçadas" sobre a matéria - mas porque recordei a minha curtíssima experiência de estudante de Direito, lá na dita "Clássica". Recentíssimo caloiro, na segunda semana, no anfiteatro apinhado de ouvintes ansiosos das maçadoras perorações (um dos Doutos professores debitava, linha a linha, palavra a palavra, a gigantesca sebenta, em dois volumes, de sua autoria que nós éramos obrigados a comprar, e a preço caro...., isto contado nem se acredita, mas era assim mesmo, e ainda se davam e dão mesuras àquilo), no anfiteatro apinhado dizia eu, entraram dois tipos da associação de estudantes, um tal de José Apolinário orador e um coadjuvante de tez indiana, de olhar e pose nada lenta, lesto e ladino mesmo, notei-o. Pediram uma votação de apoio às suas actividades, alguém da nossa gente respondeu que não os conhecíamos, de caloiros que ainda éramos, eles insistiram, fez-se a votação. E perderam... "resvés Campo de Ourique", face à quase total abstenção da caloirada. No dia seguinte, ao entrar naquela átrio "Estado Novo" lá estava um enorme lençol afixando os votos de todas as turmas daquele sofrido (e sofrível) quinquénio. Os da nossa tinham sido invertidos, a favor dos jovens "activistas" (como então não se dizia).

Uns dias depois houve uma RGA - ocupação então muito em voga -, na qual os grupos lá instituídos se digladiavam por questões que, vim a perceber depois, se prendiam fundamentalmente com a impressão que poderiam causar nas colegas, então já numericamente maioritárias mas ainda minoria sociológica. Irritei-me com a prosápia dos sacaninhas empossados (e emproados). E fui falar - sem ser por motivos profissionais (ou similares) foi a única vez na vida que falei em público ... Corado, transpirado decerto, atrapalhado. Mas com a arrogância olivalense face a uns "tipos vindos sabe-se lá de onde" - na semana anterior, no primeiro dia de aulas, eu e o meu querido Tiago, vizinhos de rua onde crescêramos e amigos para o sempre até hoje, havíamos aportado à Alameda Universitária idos no 31, chegámos à porta da faculdade e deparámo-nos com uns atrevidos ali de porteiros, que nos queriam praxar como o fizeram às centenas de neófitos. Fitámo-los mudos nisso dizendo-lhes "vão-se foder" e entreolhámo-nos, também mudos, dizendo-nos "olha-me estes caralhinhos a quererem praxar dois gajos dos Olivais...!". Os patetas não disseram mais nada, e fizeram-nos entrar pela porta lateral, sem mais... Enfim, era esta a atitude diante daquela casa... Avante, também por isto tudo lá fui falar, resmungando que os mariolas haviam falsificado os resultados da nossa votação. Começaram a contestar-me e ripostei-lhes que perguntassem aos meus colegas ali presentes... E toda aquela enxúndia JS se calou. Logo desci do estrado, comigo vieram ter umas moçoilas da tuna, ou lá o que era, de preto vestidas e em cima de sapatos de salto alto, apetecíveis - como o são quase todas quando se tem 18 anos -, louvando-me. Mas logo regressaram para junto das auréolas dos quartanistas ou finalistas que acolitavam. Mas, no fundo, deixando-me o reconfortante sinal do "cresce e aparece...". Um mês depois fui crescer para outro lado, diga-se...

Enfim, quase 40 anos depois, ao ler sobre a urna complicada de Campo de Ourique, lembrei-me desta historieta. Ri-me, num "filho de peixe sabe nadar". Há poucas semanas, na televisão do café "Tosta" dos Olivais, notei que o peixe júnior ali aparecia como "comentador político", e deixei cair para o lado um "olha este a fazer-se cabecilha de cardume". Há dias li que se demitia de presidente da Junta de Campo de Ourique (a tal ganha "resvés", devido à tal urna...), queixando-se de maus tratos recebidos pelo presidente da Câmara - que exerce o cargo assente numa minoria, convém que os crentes nas suas aleivosias não o esqueçam -, tamanhos que impediam este peixe júnior de exercer o cargo com a competência que clama ter. Dias depois, afinal, o jovem peixe vai para director-geral de um grupo de comunicação. Muito mais do que mero "comentador"... Não terá sido Carlos Moedas a obrigá-lo a tal mudança...

Tenho quase, quase, 60 anos. O meu corpo é um templo. Mas desde há décadas que tenho sido um ateu iconoclasta. Ou, pior, um Átila de mim-mesmo. E estou alquebrado pela tétrica razia que ultimamente tem acontecido entre os meus amigos e conhecidos. Nisso sigo avisado, não terei muito tempo pela frente. Ou seja, já não sofrerei este ainda jovem "filho de peixe". Mas - sublinhem e guardem as minhas palavras - ele virá à tona. Pois "sabe nadar". E como nada há de novo debaixo do Sol, ensina a Bíblia, assombrará as vossas reformas, as vossas estadas nos "lares de repouso", os vossos ocasos profissionais. E os destinos dos vossos filhos. E consegui-lo-á, nem que seja... "resvés", por uma unha ou urna que seja.

Misericórdia

jpt, 09.05.24

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Vários amigos sabem que a minha alergia ao jornal "de referência" Público me impede de o ler diariamente (vejo apenas o que me enviam sob recomendação, às vezes com vero sadismo). Agora recebi este texto de João Miguel Tavares. O colunista - insuspeito de cumplicidade com o amplexo PS - zurze em bons termos o nóvel governo por causa da atrapalhada demissão da chefia da Santa Casa de Misericórdia, entregue à antiga ministra socratista Ana Jorge. Logo de seguida, em jantar com gente que me é imensamente (para não dizer mais...) querida, também o assunto foi abordado, criticando-se "a pés juntos" (e com pitons) o malvado governo.

Pouco sei do assunto, a instituição ter-se-á metido em jogatanas no Brasil e perdido uma fortuna. Por isso o anterior governo mudou a sua direcção. Agora este quer mudar de novo. E está uma trapalhada. "Deselegante", para não dizer pior, é o que atiram aos governantes, que destrataram a actual (e inocente) chefia. O próprio João Miguel Tavares - de quem os socialistas sempre dizem pior do que Maomé disse do toucinho - se indigna.

Ora eu leio o texto e interpreto-o ao contrário. Não sou eleitor do partido do governo (nem das ficções com que está "coligado"). E já há anos escrevi que o seu actual presidente é um Jorge Silas (os sportinguistas campeões compreender-me-ão...). E até julgo que o PSD é "farinha do mesmo saco" que o PS (ainda que talvez as últimas remessas tenham menos "bicho" - ainda que tal não seja difícil, tão putrefactos estão os tipos do "Rato").

Ainda assim, ocorre-me uma ideia acerca do fundamental disto tudo. O governo contactou a chefia das Misericórdias e pediu-lhe que se demitisse. A senhora recusou-se. Acontece que a sua nomeação fora política, é um cargo de "confiança política", não adveio de qualquer concurso. Ou seja, o que é curial (moral) - independentemente de contratos vigentes - é que o cargo esteja sempre "à disposição", e muito em especial se muda o governo. E quando se pede a alguém que se demita - muito em particular uma profissional sénior de estatuto elevado -, é para evitar que seja demitida, sempre um acto ríspido. Pode ser injusto, as pessoas em causa podem sentir-se injustiçadas, os postos podem ser muito apetecíveis, as funções até exaltantes... Mas é o curial: sair quando se lhes é pedido. Até porque ninguém as obrigou a aceitar os postos. E porque não se tratam - os elevados a estes postos de "confiança política" - de desvalidos em busca do "leite para as crianças", assim passíveis de caírem nas ruas da amargura, nas filas do Banco Alimentar.

Lembro-me de há anos ter encontrado um amigo - o tipo não conta a história em público portanto não o identifico - que, já noite longa, me confidenciou o que lhe acontecera. Anos antes fora convidado para um belíssimo cargo de óbvia "confiança política" (desses exaltantes - e bem pagos -, e que ainda para mais são trampolim para um futuro aconchegado). Recusou, pois não queria estar sujeito à tal "confiança política" de gente daquela cor partidária - e daquela estirpe, o que lhe era mais importante. Insistiram. E recusou de novo, "disse-lhes que os meus avós se levantariam da tumba para me perseguirem no caso de eu trabalhar para eles...". Ri-me com o desplante do homem e brotou-me, apesar de com ele fazer alguma cerimónia, "estúpido do c....!". Ele riu-se num "pois!". E pediu mais 2 duplos (Dimple, lembro bem). No fim da noite, alvorada já, paguei eu a conta, claro! Que era robusta...

Ou seja, deixemo-nos de coisas, a septuagenária socratista é que esteve muito mal. Tal como estarão todos os outros apparatchicos que não saírem pelo seu pé! O resto são amendoins...

Operação Cosmética Especial - mais dados

Paulo Sousa, 06.05.24

Depois de já aqui ter puxado o assunto, foram tornados públicos mais dados. Já sabíamos que a dívida pública foi maquilhada pelo governo PS. Após uma análise mais detalhada, o Jornal de Negócios divulgou agora a dimensão da manobra.

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Sobre este assunto o ex-ministro, e agora deputado, Fernando Medina irá ser ouvido no Parlamento. Aguardemos por mais revelações.

A vida regular continua

Paulo Sousa, 11.04.24

Após uns dias fora das coordenadas habituais, cuja distância foi reforçada por uma ausência de dados móveis, lá regressei a um país que, tendo um novo governo, continua exactamente na mesma.

Olhando para o que aí vem, recordamos que se para dançar o tango são precisos dois, o que agora parece ser necessário é uma ménage à trois, desequilibrada, prenhe de trocas, de arranjos discretos negociados aos berros, de joelhadas sem dó, imensos auto-elogios, acusações e declarações gritadas dirigidas ao terceiro pé da trempe e nada será feito sem que um dos três seja gozado por ter sido enganado pelos outros. Alguém que tente algo parecido na sua vida pessoal pode alcançar alguma animação, mas o sossego, e o bom governo, será impossível de alcançar.

Desde o final do ano de 2023 que a Operação Especial para deixar a dívida abaixo dos 100% do PIB orquestrada por Fernando Medina tresandava a não ser mais do que uma “Operação Cosmética Especial”. A UTAO vem agora confirmar isso mesmo. Os títulos de dívida pública mudaram de mãos, mas a responsabilidades dos contribuintes não foram reduzidas. O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social aumentou o já elevado peso de divida pública na sua carteira de activos e, enquanto organismo publico, permitiu que tivesse um tratamento diferenciado no cálculo do valor da dívida pública segundo as regras europeias. A UTAO afirma claramente que “Estas determinações no DLEO/2024 são uma prova da orientação política conducente a uma redução no valor da dívida pública de Maastricht sem ser por redução no stock da dívida viva”. A narrativa, sempre a narrativa. A fraca literacia financeira do eleitorado do PS, que também já não é nada jovem, fará o resto. A dívida abaixo dos 100%, e o mito dos cofres cheios, já igualmente desmentido, irá juntar-se aos demais mantras que fazem por ignorar a austeridade do PEC IV, que incluía a redução das reformas e outros cortes generalizados nas despesas.

Excluindo a fé dos crentes no PS, que abraçam cada pedaço da narrativa como náufragos agarrados a uma bóia em alto-mar, o legado do PS é longo e pesado. Desde o caos nos serviços públicos, aos recordes sucessivos da carga fiscal, passando pela ascensão do Chega, tudo resulta dos últimos oito anos de governação socialista. A série que o Pedro Correia aqui tem trazido não parece ter fim. Depois de, finalmente, o PS ter envergado a camisola da oposição, já veio exigir que tudo o que não foi feito em oito anos seja resolvido nos próximos sessenta dias. Os papalvos aplaudem e a vida regular continua.

Imbecil

Pedro Correia, 24.03.24

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Dificilmente poderia haver um cartaz mais imbecil do que este da Juventude Socialista, recém-impresso. Meninas e meninos que vivem em redomas, indiferentes aos anseios do país real, tentam emitir atestados de menoridade a quem teve outras opções nas urnas. Imaginando-se protagonistas de uma "frente popular" de resistência à tropa de Franco na Madrid sitiada em Julho de 1936.

Esta alucinação acontece após o PS ter perdido quase meio milhão de votantes em apenas dois anos. Quando só cerca de 10% dos seus eleitores têm entre os 18 e os 34 anos: o divórcio entre o partido do punho fechado e os jovens é evidente.

Aconteceu já há vários dias mas estes idiotas em «alerta antifascista» continuam sem perceber nada do que se passou.

O novo Vítor Constâncio

Pedro Correia, 22.03.24

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Fez bem Pedro Nuno Santos em reconhecer de imediato a derrota, na noite de 10 de Março, antes de os votos estarem contados na íntegra. Foi um arguto lance de antecipação. A contabilidade definitiva torna ainda mais catastrófica a prestação do PS nestas legislativas: tem o pior desempenho eleitoral em 37 anos - desde as eleições de 1987, quando o partido era liderado por Vítor Constâncio.

Péssimo auspício para o mandato ainda muito recente do secretário-geral, ter descido tão baixo.

O fracasso avoluma-se pelo contraste com o escrutínio anterior, em que o PS saíra das urnas com maioria absoluta e 120 dos 230 deputados. Concretamente, os socialistas recuam 13,4 pontos percentuais (de 41,4% para 28%) e perdem mais de um terço dos assentos parlamentares (42, tendo agora apenas 78).

Em números absolutos, o cenário é ainda mais desanimador para os socialistas: viram fugir quase meio milhão de votos - concretamente 489.423, quando há dois anos haviam contabilizado 2.301.887. E apenas 10% dos seus eleitores têm menos de 35 anos.

 

Não é só um desaire de Santos, longe disso. O maior derrotado chama-se António Costa: os portugueses ajuízaram de forma muito negativa o péssimo legado do governo "absoluto" do homem que em 2014 decidiu derrubar António José Seguro por considerar "poucochinho" o triunfo eleitoral do PS nas europeias desse ano - com 31,5%, enquanto a coligação PSD-CDS se quedou nos 27,7%.

Assim se completa um ciclo político no Largo do Rato e em São Bento. Se era "poucochinho" antes de Costa, mais pequenino ficou depois dele. À escala de um Constâncio, precisamente. 

Ninguém pode invejar a tarefa de Pedro Nuno Santos. Sem ironia, desejo-lhe boa sorte.

Reflexão do dia

Pedro Correia, 16.03.24

«A espantosa ideia do BE e do Livre de tentar unir a esquerda numa frente comum anti-AD e IL é uma espécie de associação de lesados da velha democracia. Para quê? Se não é para governar, a ideia é absurda, sobretudo para o PS, caso ainda esteja interessado em fazê-lo na próxima década.

Qualquer alma no PS deveria perceber isto. À sua esquerda ninguém quer que o PS alguma vez supere os 30%. Querem criar um bloco onde as ideias mais puras impeçam qualquer ponte com o PSD. Em rigor, os náufragos da esquerda querem juntar-se para tentar acelerar o abraço do PSD e do Chega. Boa sorte com a brilhante "estratégia" de ver quem vai primeiro ao fundo.»

 

Ricardo Costa, no Expresso de ontem

Bilhete para amigos socialistas

Pedro Correia, 13.03.24

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A campanha ficou para trás. Gostava de saber, portanto, que balanço fazem hoje da forma como António Costa conduziu o governo nos últimos dois anos.

Depois de ter desperdiçado, de forma absolutamente incompetente e leviana, uma confortável maioria absoluta no parlamento e exibido ao país um governo atascado em escândalos de onde todos os meses ia saindo alguém. Depois de ter instalado o caos no "estado social" (saúde, educação, habitação, justiça). Depois de ter contribuído para o aumento exponencial da direita mais radical e populista. Depois de ter engordado o Chega, dando-lhe palco e protagonismo em cada sessão parlamentar, com a óbvia intenção de neutralizar a direita moderada. O tiro saiu pela culatra.

 

Como se sentem hoje, sabendo que o PS perdeu um terço dos deputados e 12 pontos percentuais nas eleições mais participadas deste século?

Continuarão incapazes de abrir os olhos para a realidade mesmo após esta derrota inapelável?

 

Segundo partido mais envelhecido de Portugal, o PS começa a parecer o PCP de há 30 anos: em cada desaire eleitoral, os comunistas proclamavam sempre vitória. Hoje têm apenas quatro deputados (em 230), desapareceram do Alentejo e até na emblemática freguesia de Baleizão são agora derrotados.

Tudo começou assim. Pela recusa de encararem os factos de frente. Pela recusa em se adaptarem aos ventos da História.

 

Muita coisa mudou no dia 10. Começando pela rebelião em larga escala dos eleitores entre os 18 e os 34 anos - fartos de se sentirem marginalizados e empurrados para a emigração - contra um Executivo que governou só a pensar em reformados e pensionistas por estar convicto de que «os jovens não votam».

Enganou-se redondamente: desta vez votaram. E não deixaram lugar a dúvidas.

Reflictam bem, amigos socialistas. Antes de começarem já com manobras tácticas de bastidores para regressarem tão cedo quanto possível ao poder, onde estiveram em 21 dos últimos 28 anos. O que seria um novo erro. Demonstraria que nada aprenderam com a dura derrota de domingo.

Trinta razões para a dura derrota do PS

Pedro Correia, 12.03.24

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62% tem dificuldade em pagar a casa.

30% dos jovens nascidos em Portugal vivem fora do país.

20% dos médicos recém-formados já nem querem entrar no SNS.

251 mil portugueses obrigados a ter dois empregos.

513 mil em privação material e social severa, 241 mil sem alimentação adequada.

42 mil alunos sem professor a pelo menos uma disciplina.

Cabaz de bens alimentares essenciais aumenta 50 euros em dois anos.

Caos no ex-SEF deixa fronteiras em perigo.

Desemprego jovem: Portugal com 23,1%.

Desemprego jovem 3,5 vezes superior ao geral.

Despesas com habitação duplicaram em duas décadas.

Dívidas dos hospitais públicos aos fornecedores privados atingem 2,3 mil milhões de euros.

Doentes com cancro esperam quase um mês para entrar no hospital.

Endividamento das famílias quadruplica face a 2015.

Ensino: provas mostram resultados desastrosos.

Greves da CP em 2023: mais de 30 mil comboios suprimidos.

Investimento público: 6,6 mil milhões de euros por investir desde 2016.

Militares ameaçam sair à rua se polícias tiverem aumentos.

Pedidos de despejo aumentam 17%, a maioria por incumprimento.

Pobreza aumentou no ano passado em Portugal.

Poder de compra dos portugueses estagnou nos últimos cinco anos.

Professores contratados continuam sem salários actualizados.

Quase 70% dos trabalhadores ganham menos de mil euros.

Rendimento das famílias não permite comprar casa em 263 dos 308 concelhos.

Rendimento real das famílias em queda.

Salários de médicos especialistas: terceiros mais baixos da OCDE.

SNS: 20 mil profissionais rescindiram em cinco anos.

Taxas e multas dão 2 mil milhões ao Estado em seis meses.

Todos os dias faltam em média 11 mil professores nas escolas portuguesas.

Um em cada dez trabalhadores está em risco de pobreza.

Perdeu o controlo

Pedro Correia, 11.03.24

Parafraseando o Luís Paixão Martins noutro contexto e noutra circunstância, o PS «perdeu o controlo da narrativa».

É verdade. Mas não é só uma questão de narrativa. Eu diria mais, analisando a segunda derrota eleitoral dos socialistas no ano em curso: ao optar por governar como se só existissem reformados e pensionistas em Portugal, o PS perdeu o contacto com as novas gerações.

Perdendo o contacto, também perdeu o voto. As coisas são o que são.

Até parece que o PS vem da oposição

Legislativas 2024 (19)

Pedro Correia, 07.03.24

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Quem tivesse chegado agora dos antípodas e espreitasse a campanha para as legislativas de domingo sem fazer a menor ideia do que aconteceu na última década da política portuguesa, jamais imaginaria que o PS está no governo desde 2015. É raro o dia que passa sem um anúncio de Pedro Nuno Santos sobre novas medidas que se diz disposto a aplicar caso saia vencedor.

Versão actualizada do célebre "bacalhau a pataco" da I República.

Esta semana, por exemplo, já ouvimos o secretário-geral socialista declarar que tenciona «acabar com todas as propinas nas universidades» e «reduzir os horários de trabalho» para garantir às pessoas maior conciliação com a vida familiar. Semanas atrás, prometera acabar com as portagens em pelo menos cinco auto-estradas: A4, A22, A23, A24 e A25. Um pouco antes, saíra em defesa da recuperação integral do tempo de serviço dos professores - medida contra a qual votou enquanto deputado.

Temas idílicos, ao jeito de solo de violino bem apropriado aos púlpitos da campanha nesta época de caça ao voto. Mas com um senão: são anunciados por alguém que exerceu funções governativas em sete dos mais recentes oito anos. Pedro Nuno Santos e o seu partido - que governou desde 2022 com maioria absoluta - tiveram condições de sobra para pôr em prática tudo isto e muito mais.

Só apetece perguntar por que motivo o não fizeram.

Da defesa dos operários à protecção das focas: eis como Costa domou a esquerda

Legislativas 2024 (13)

Pedro Correia, 29.02.24

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Não sei se mais alguém pensa como eu. Mas achei louvável a intervenção do candidato do MRPP no debate organizado pela RTP com os representes dos pequenos partidos. Não pelas ideias, claro: são mais antigas do que o animatógrafo, a grafonola, o hidroavião e o zepelim. Mas pela sinceridade: vê-lo defender abertamente «uma sociedade comunista» revela-nos, por contraste, até que ponto o PCP se tornou reformista, longe de qualquer ideal revolucionário.

Há quanto tempo não ouvimos um secretário-geral deste partido advogar os dogmas do marxismo-leninismo? É possível um verdadeiro comunista votar seis orçamentos do Estado em estrita obediência às normas do pacto de estabilidade e aplaudir a maior contracção do investimento público registada na democracia portuguesa, como aconteceu durante a geringonça?

 

Há muito que o PCP deixou de amedrontar as "classes dominantes": tornou-se um partido fofo, respeitador da moral burguesa e dos bons costumes. Isto explica-se, em parte, por já não ser acossado pela defunta "esquerda radical" que se acoitava sob a bandeira do BE: Catarina Martins deu uma guinada ao Bloco, tornando-o num movimento "eco-socialista", quase pós-ideológico, new age. Chegou até a intitulá-lo «social-democrata». Por muito que isso incomode os professores Francisco Louçã e Fernando Rosas, a "renegociação da dívida" e a saída de Portugal do sistema monetário europeu deixaram de figurar entre as proclamações bloquistas, hoje mais embaladas por jazz de hotel do que pelos estridentes acordes d' A Internacional.

Música para os ouvidos do PS, que nestes oito anos reduziu os partidos à sua esquerda a caricaturas de si próprios. Enquanto seduzia a classe média com duas percepções dominantes: contas certas e ordem nas ruas.

 

Esquerda radical neutralizada: eis o grande contributo de António Costa para sedimentar o regime instaurado com a Constituição de 1976, alterando-lhe o eixo dominante ao leme de um partido socialista que há muito deixou de o ser.

Os antigos pregoeiros da revolução andam hoje mais preocupados com a extinção das focas do que com a extinção da classe operária. Quem ainda sonhar com a insurreição comunista pode sempre votar no MRPP.

Da União Nacional ao Partido Socialista

Legislativas 2024 (11)

Pedro Correia, 27.02.24

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A campanha eleitoral já está "na estrada", como se diz em jargão jornalístico - que abrange expressões papagueadas até à náusea, como "bala de prata" ou "elefante na sala". Logo transitam de liberdade poética para insuportável lugar-comum.

Fixo-me na caravana socialista. Teve como estrela principal, na primeira noite, o presidente da Câmara de Sintra. Como orador em Viseu. O que fará este autarca tão longe do seu habitual raio de acção? Terá ido explicar aos viseenses por que motivo o novo hospital de Sintra, por ele prometido nas eleições de 2016, ainda não foi inaugurado oito anos depois?

Nada disso. Basílio Horta subiu ao palco para arengar contra "a direita". Nem de outra forma poderia ser astro convidado na campanha do PS.

Fez «críticas a Montenegro» e garantiu que o «PSD está refém do Chega», como rezam os oráculos dos canais televisivos.

 

Vejo isto com ironia, não consigo evitar. Porque a minha memória de campanhas eleitorais é já longa. Este mesmo Basílio Horta, vindo dos "promissores quadros" do caetanismo, integrou a Comissão Central da União Nacional em 1969, iniciando-se na democracia como secretário-geral do CDS. E enfrentou nas presidenciais de 1991, com votos da ultra-direita, o fundador do PS. Esse mesmo, Mário Soares, que ele desancou num célebre debate televisivo a propósito de Macau.

As voltas que a vida dá para quem tem estômago de betão. Capaz de digerir seja o que for.

 

Não tem emenda

Legislativas 2024 (8)

Pedro Correia, 16.02.24

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Rui Rio estava sabiamente remetido ao silêncio há largos meses. Lembrou-se agora de falar: não para criticar o PS mas para propor um "pacto" entre o PSD e o PS. Em plena campanha eleitoral para as eleições legislativas de Março, quando o PSD estabeleceu como prioridade total desalojar o PS do poder que ocupa há mais de oito anos. Parece uma rábula do Ricardo Araújo Pereira.

Continua como antes: nada beneficiou com o retiro sabático. Não tem emenda.

Um país de egrégios avalistas

Paulo Sousa, 14.02.24

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Dizem-me agora que no programa do PS consta uma proposta segundo a qual o Estado, leia-se as algibeiras dos portugueses, irá garantir os empréstimos de crédito à habitação na compra da primeira casa até aos 40 anos.

Ora, para quem não souber, o crédito habitação é normalmente garantido por uma hipoteca, uma garantia real, sendo por vezes acrescido de um aval de terceiros, uma garantia pessoal, caso a capacidade de crédito do cliente não seja suficiente para os encargos assumidos. Em caso de incumprimento, o banco acciona estas garantias para reaver o valor emprestado. O pior cenário para o banco é quando tem de accionar a garantia real para assim se tornar proprietário do imóvel. Prefere claramente continuar a receber as prestações e por isso irá sempre primeiro ter com o avalista.

Qual salivação dos cães de Pavlov, a pura da iliteracia financeira de demasiados portugueses, associada ao medieval desprezo cristão para com os usurários, faz com que esta singela explicação possa causar uma tremenda sanha. Devia ter colocado uma bolinha vermelha no canto, mas agora já não vou a tempo.

De forma a evitar o já referido “pior cenário”, o banco salvaguarda-se limitando o valor emprestado à estrita capacidade do seu cliente. A sua taxa de esforço, que reflecte o peso da prestação no seu rendimento disponível, assim como a relação entre o valor do empréstimo e a avaliação do imóvel, são olhadas com especial atenção.

O bom do Pedro Nuno, quer agora que sempre que alguém deixa de conseguir pagar o seu empréstimo, todos portugueses se cheguem à frente. É um exemplo acabado de uma medida transbordante de pias intenções e, ainda mais, de ilusões.

Se os portugueses quiserem que o líder do PS seja o seu próximo Primeiro-Ministro, não duvido que os bancos passem a achar que o “pior cenário” deixará de ser assim tão mau. Se o cliente só tem capacidade para um imóvel de, imaginemos, 100.000 euros, os gordos banqueiros poderão passar a emprestar-lhe 200.000 euros duplicando assim os juros recebidos. Em caso de falha das prestações, terão sempre o seu dinheiro garantido, sem nunca ter de accionar a hipoteca. O rigor da análise de risco perderá importância, e os juros recebidos aumentarão com um risco muito menos que proporcional. "A alta finança agradece", pensará sorridente o prestamista obeso enquanto fuma o seu charuto e aburguesadamente materializa a icónica imagem do cruzar de perna.

As pernas dos banqueiros estarão irremediavelmente, e para sempre, associadas ao delfim de António Costa.

Ah emigram...?! Querem ver que ... pronto, emigrem lá.

Paulo Sousa, 13.02.24

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O programa do PS demorou a sair do forno. Confesso que não perdi um minuto para o ler, mas não pude deixar de, através da imprensa, notar numa medida que realmente poderia impedir a emigração de médicos.

Segundo os jornalistas que (ossos do ofício) se dedicaram a ler o referido documento, o PS propõe que os médicos que decidam emigrar passarão a ser obrigado a pagar a pela formação que receberam.

Sobre a constitucionalidade da proposta aguardamos que os entendidos se pronunciem, mas o grande alcance desta medida será a antecipação da emigração na fase da vida dos portugueses. Com Pedro Nuno Santos como primeiro-ministro, os jovens passarão a emigrar para poder estudar.

Quando se troca a táctica pela estratégia

Paulo Sousa, 09.02.24

Era uma vez uns inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) que ao cometerem um crime de homicídio no aeroporto deixaram um ministro embaraçado. Dizem que já havia vontade de reformular os serviços, mas, tacticamente, entendeu-se que a extinção do SEF seria uma boa válvula de escape. Sempre que o primeiro-ministro, ou ministro, fossem confrontados com a inexplicável demora na tomada de uma posição sobre o crime ocorrido, entenda-se que rolassem cabeças, o fim do referido organismo seria a forma de baralhar para dar de novo, evitando assim os pingos da chuva. O beneplácito da imprensa faria o resto.

Entenderam então distribuir as competências deste Serviço por diversos organismos públicos, sem outro critério que não fosse o “parece-me que”. Como alguns agentes do então já extinto SEF tinham uma remuneração superior aos da Polícia Judiciária, órgão policial onde alguns foram colocados, o governo decidiu aumentar toda a PJ. Nessa data, a demissão de António Costa já tinha ocorrido, havia eleições à vista e não há nada como um generoso aumento salarial antes de eleições.

O resto da história, a escusa do governo em alargar o referido aumento às restantes forças policias (com a desculpa da demissão de António Costa que não impediu o aumento da PJ) e os protestos que se seguiram, são mais recentes e, à primeira vista, nada têm a ver com o crime ocorrido no aeroporto.

Esporadicamente fala-se na fusão da GNR e PSP, mas isso é um tema muito delicado que obriga a mexer nas patentes dos oficiais, assim como a acertos salariais entre as duas forças. Se tivesse havido uma visão reformista no governo talvez esta história pudesse ter começado pelo fim, sendo que o crime nunca deveria ter acontecido.

O programa eleitoral pode esperar

Legislativas 2024 (3)

Pedro Correia, 07.02.24

 

Pelo menos três partidos ou coligações começaram a maratona de debates televisivos da pré-campanha para as legislativas de 10 de Março sem terem apresentado os respectivos programas eleitorais: PS, Aliança Democrática e Chega.

Não por impreparação, certamente. Julgo que também não por incompetência. Por desleixo, sim. Mas sobretudo por inequívoca falta de respeito pelos eleitores. Se a nossa cultura democrática fosse mais sólida e exigente do que é, isto bastaria para serem penalizados nas urnas.