Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Brioches e Galpgate

por jpt, em 22.04.19

brioches.jpg

"Que eles comam brioches" (já que não têm pão) é a célebre frase menosprezadora dos miseráveis esfaimados, sempre atribuída a Maria Antonieta para ilustrar a inconsciência política dos possidentes face aos sentimentos populares - o dito é falso mas è ben trovato.

Vêm-me esses brioches à cabeça ao ler que PS, PCP e PSD se conluiaram para legitimar a oferta de viagens de privados aos políticos no activo, porventura abrindo caminho para arquivar as acusações a uma série de ex-governantes, o célebre Galpgate.

O tal "Galpgate" não será particularmente importante, isto dos políticos terem uma viagem para ir ver um jogo de futebol não será, por si só, suficiente para ulularmos "corruptos". Mas o impressionante é terem os maiores partidos portugueses legislado esta medida neste momento, quando as representações populares sobre os políticos não são particularmente benévolas - será preciso lembrar o Socratesgate? O alargado rol de políticos cavaquistas com máculas satânicas? As tropelias autárquicas? O longo processo de substituição da PGR, motivo de tantas especulações? O DDT, até íntimo do actual PR, a mostrar como o poder económico subjuga o poder político? Não digo que o poder político seja corrupto, digo que há uma enorme suspeição, a qual afecta a relação com o regime: 30 e tal por cento do pessoal nem sequer vota, e muitos dos votantes continuam no clubismo de que "os dos outros partidos é que são corruptos".

E neste ambiente - que é também internacional, com a crescente vaga de movimentos excêntricos aos partidos tradicionais, exauridos pela desconfiança crescente face às práticas dos seus dirigentes - os grandes partidos portugueses (quo vadis, PCP?), surgem a "limpar o arquivo", a legislar para que os seus dirigentes possam receber oferendas e inocentar, retroactivamente, alguns deles. E isso a um mês das eleições, encolhendo os ombros a hipotéticos efeitos eleitorais de uma medida destas. O que demonstra uma crença inabalável do atavismo do comportamento eleitoral dos portugueses, a qual se calhar até é fundamentada (assim o dizem as sondagens, mais deputado para um, menos deputado para outro ...). Mas mostra, acima de tudo, uma enorme inconsciência quanto às movimentações das sensibilidades populares, à possibilidade do inesperado num futuro breve, uma cegueira típica de espírito de casta (repito, quo vadis, PCP?).

"Eles que comam brioches", diz Costa, atrevido como sempre, e Rio, absurdo como parece. E Jerónimo, também? A ver o que o futuro trará.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parolismo

por jpt, em 20.04.19

marta temido.jpg

Apesar de ser Páscoa talvez alguém que viva em Portugal me possa explicar como é que, a ser verdade que a "Administração do Sistema de Saúde "limpou" doentes das listas de espera para consultas, numa altura em que era presidida pela atual ministra, e foram usados indevidamente mecanismos para alterar datas de inscrição de utentes para cirurgia", conforme o inscrito num relatório de avaliação de um grupo técnico independente nomeado pelo  governo, o qual esteve seis meses sem ser divulgado, a actual ministra ainda está em funções. 

Ou será que, segundo o paradigma de cientista Augusto Santos Silva, é parolo perguntar uma coisa destas?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ivanka Trump e o Banco Mundial

por jpt, em 18.04.19

Isto de Donald Trump ter oferecido à sua filha a presidência do Banco Mundial dirá muito sobre como estão os EUA e o mundo em geral. Mas diz também sobre o estado do jardim à beira plantado e dos seus habitantes. Dei uma volta pelas "redes sociais", secções portuguesas. Nas quais, desde há anos, Trump é visceralmente criticado. E não serei eu quem virá contestar a pertinência de muitas dessas críticas. Mas agora? Encontro, naquilo que vejo, na "rede" egocentrada que me é disponível, um silêncio total. As vozes e teclas mais anti-trumpianas, sempre tão activas na crítica ao presidente americano, distraíram-se e não estão frenéticos nas "partilhas" e "denúncias" desta escandalosa deriva nepotista. Decerto que não por estarem ocupados nas bichas das bombas de gasolina: poderiam ter usado os telemóveis durante as esperas para "denunciar", com redobrado ímpeto, este episódio.

Mas agora não. Convém nem referir o assunto, já basta de falar de redes familiares nos cargos de nomeação política. Mesmo que tão mais importante seja a possibilidade da nomeação da filha de Trump para o Banco Mundial do que mais um primo de Carlos César ser colocado num qualquer posto, ou a rábula do secretário de estado invertido ninfomaníaco que queria o capitão garanhão como motorista. Mas nem essa diferença de escala lhes diminui o silêncio. Não querem parecer "parolos" aos olhos de Augusto Santos Silva, como tal preferem calar-se, preocupar-se com outras coisas. Ou, por outra, antes parecer Trump do que parolo, dirão, fiéis ao perversor ministro.

Gente muito fraquinha. Se gente.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Parolismo

por jpt, em 10.04.19

Uma entrevista de Augusto Santos Silva, mNE (basta googlar que se encontrará uma versão resumida, com cerca de 10 minutos). Não particularmente interessante, não tanto pelo ministro mas devido ao tom afável e até algo subserviente da entrevistadora - há ali uma nuvem de comunhão de casta, tonitruante no final na partilha de "grande amigo", que abre auto-estrada para que Santos Silva saia incólume e até com louros da entrevista, de facto conversa.

Mas, e para além de algumas afirmações interessantes sobre política externa, ainda que não inovadoras, infelizmente não esmiuçadas, o cabeçalho terá que ser as declarações sobre política interna - já agora, nem uma palavra sobre as eleições europeias e sobre "que Europa?", para além de plácidas considerações sobre defesa comum, mostram o tom demasiado "charmoso" da entrevista. E sobre esta Augusto Santos Silva, reclamando alguma rusticidade lexical que faz ancorar no seu portismo, diz serem "parolos" os que se preocupam com as redes familiares no poder político.

Somos então parolos, prisioneiros do parolismo, quando resmungamos com a política de pleno emprego político na família do presidente do PS, o infausto César. Somos parolos - eu, com toda a certeza - quando nos iramos com o secretário de estado da defesa do consumidor que quer o amante capitão à mão de semear, desgraduado em motorista. Somos parolos quando notamos que no PS, confrontado com tanta festividade empregadeira, a sua secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, considera que o seu partido de ninguém recebe lições de ética (conviria lembrar, para o caso de alguém se ter esquecido, que o anterior governo do PS, no qual estavam inúmeros ministros actuais, foi chefiado pelo antigo 44 da penitenciária de Évora, durante anos sufragado por mais de 95 por cento dos congressistas socialistas, entre os quais Costa, Santos Silva e, claro, Ana Catarina Mendes). Assim apresentando diferente doutrina da defendida pelo actual mNE que já declarou que "não faz julgamentos éticos", isto a propósito da trafulhice infecta que foi o anterior governo PS. 

Somos parolos ainda quando nos interrogamos sobre isto do PS nem mesmo depois da trapalhada com Sócrates ter o mínimo de cuidado nestes arranjos familiares - uma ligação cronológica, produtora de "sensações", nada colocada na entrevista, ainda que a entrevistadora até tenha aludido a hipotéticas "sensações" do eleitorado. Somos completamente prisioneiros do parolismo, dirá o douto Silva.

E, mais ainda, somos parolos, do parolismo, quando lemos o letal texto de João Pedro George (1, 2) - que terá continuação na próxima edição da revista Sábado - sobre como funcionam as relações familiares no poder político e na administração pública, como promovem a redistribuição de recursos por uma pequena clique. Eles, os socialistas, os Santos Silvas e Megas Ferreiras (bombardeado sem dó nem piedade no texto de George) são os "cosmopolitas", para usar o termo que ASS usa na entrevista como auto-definitório, de si e do seu partido. Nós somos os "morcões", parolistas.

Ah, quem me dera poder escrever palavrões no blog (e no facebook). 

Adenda: um comentador residente no DO comentou o postal com ligação a um pequeno filme, declarações de Sousa Santos evidentemente a propósito do caso Sócrates - indivíduo do qual ele foi ministro, e com o qual anteriormente foi ministro. 

O interessante é que nesta longa e plácida entrevista concedida ao "Observador", apresenta-se como um cientista social, que é, e reclama essa condição para o seu exercício da política, fundamentando-se em "estudos, sondagens", sendo de tal forma veemente que a entrevistadora se aprestou a apresentar-se como algo diferente, como "intuitiva". Mas para defender Sócrates - em 2015, ainda antes do afastamento da Procuradora-Geral, e bem antes daquele fim-de-semana de 18, no qual o presidente César, a criatura então ainda não-secretário de estado Galamba e a jornalista Câncio, confluiram numa espécie de grito de Ipiranga, querendo apartar o PS do seu sempre aclamadíssimo ex-secretário-geral -, para defender Sócrates, dizia eu, já Santos Silva vituperava a justiça portuguesa, negando as más-práticas tão duradouras do seu antigo chefe, para isso fundando-se num tão intuitivo e nada científico "é o que eu sinto". Como se que a fugir-lhe o pé para a chinela, um deslize parolo, por assim dizer.

Um bocadinho menos de reverência da entrevistadora não lhe teria ficado nada mal ...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Laços de Ternura

por jpt, em 06.04.19

original.jpg

Em Portugal vejo que muitos discutem os vínculos de parentesco (consanguinidade, afinidade, afectividade sexual) do pessoal governativo. Sorrio. Pois as eleições europeias estão à porta e a lista PS repete este candidato, um tal de Silva Pereira, punho direito de Sócrates - haverá maior parentesco do que ser a dextra de alguém?

O problema será o da filha do ministro, a namorada do outro ou o capitão amante do rapazola dos direitos do consumidor? (Ou que "nos tempos" de Cavaco tudo fosse assim também?). É um problema, sim, mas não o problema. É muito mais estes silvaspereiras (e os marques e leitãomarques, outros governantes de Sócrates enfileirados para o parlamento europeu). É um partido de gente sem o mínimo ... apoiada por gente sem o mínimo.

Hoje mesmo inaugura a exposição "Para Além de Bruegel" (Pieter, o Velho), celebrando-o por ocasião dos 450 anos da sua morte. A uma "distância caminhante". Daqui onde estou a teclar. E do parlamento, secção Bruxelas, para onde serão enviados estes silvaspereiras. E os patrícios, lá no rincão? Discutem as namoradas alheias, as do tempo do Cavaco e as actuais. E votam no Silva Pereira.

Aqui Bruegel. Lá óbvio Bosch.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reformismo e revolução

por Pedro Correia, em 02.04.19

20474955_1280x640_acf_cropped_770x433_acf_cropped.

 

O Bloco - bloqueado como nunca - acaba de sofrer uma dolorosa deserção em massa de 26 militantes,  claramente descontentes com a capitulação do partido fundado em 1999 por Francisco Louçã, Miguel Portas e Luís Fazenda face ao reformismo austeritário capitaneado por António Costa e pelo seu imediato Mário Centeno. Entre estes dissidentes inclui-se gente que fez parte do núcleo fundador, designadamente dois irmãos de Louçã, agora conselheiro de Estado e membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal, além de detentor de uma apreciada cátedra senatorial como comentador na privadíssima SIC Notícias.

Na óptica da chamada "verdadeira esquerda", os socialistas são meros gestores do sistema existente. Ora a energia revolucionária, erigida em "locomotiva da história", não se destina a gerir o sistema: ambiciona transformá-lo para cumprir as profecias contidas no evangelho de Marx. Acontece que Costa anestesiou os partidos revolucionários, aproximando-os do inevitável embate contra a parede: o Bloco, partido sem trabalhadores, transformou-se na sucursal social-chique do PS; o PCP, ao aprovar quatro orçamentos do Estado que validavam a moeda única, a disciplina orçamental e o pacto de estabilidade, descaracterizou-se como partido de raiz revolucionária. As consequências estão à vista, desde logo no plano sindical: algumas das áreas mais reivindicativas, dos estivadores aos enfermeiros, são hoje lideradas por sindicalistas autónomos da estratégia do partido da foice e do martelo e divorciados da sua sucursal obreirista, a CGTP.

Eis, prestes a concluir-se, a missão histórica do menchevista Costa, completando-se em 2015 o que Mário Soares - seu principal mentor ideológico - iniciara em 1975: os bolcheviques lusitanos estão quase a passar de vez à história. As eleições autárquicas de 2017, confirmando a total irrelevância do BE e o maior recuo de sempre do PCP ao nível do poder local, confirmaram esta tendência. Que isto ocorra no momento em que o País ainda é governado por uma "geringonça", fruto de um pacto celebrado entre os socialistas e os seus outrora ferozes opositores ancorados na margem esquerda, é uma daquelas ironias em que o destino dos sistemas políticos costuma ser fértil.

Compreendo que Costa, até devido aos seus antecedentes familiares, mergulhe episodicamente numa certa melancolia por lhe caber cumprir este desígnio histórico, que só peca por tardio - autêntico anacronismo ainda vigente em território europeu. Resta-lhe esta certeza: se não fosse ele, outro o levaria à prática. Não fazia o menor sentido as forças mais extremas da proclamada esquerda manterem cativo cerca de um quinto do eleitorado português, como aconteceu até Outubro de 2015, quando Bloco e PCP somaram 18,44% nas legislativas.

Nada ficará na mesma mal caia o pano sobre estas legislativas.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O PS e as Fake News

por Rui Rocha, em 01.04.19

A Amazon praticamente não tem lojas físicas. A Alibaba não tem stock. A Uber não tem viaturas, o Instagram não gera conteúdos e a Airbnb não tem propriedades. É um admirável mundo novo. No caso das Fake News é esse admirável novo mundo outra vez. As mentiras podem ser produzidas por plataformas sem necessidade de intermediação (ou controlo) de partidos ou meios de comunicação e agenciamento tradicionais. Não admira que políticos e jornalistas olhem para essas plataformas como um taxista olha para um motorista da Uber: uma ameça poderosa de concorrência num espaço que acreditavam ser só seu. E é natural que, de entre os partidos, seja o PS o que aparece como o mais preocupado com as Fake News. Tão preocupado que lançou por estes dias um pungente apelo ao governo e aos outros partidos com o objectivo de lhes dar um combate sem tréguas. É normal. Um latifundiário das Fake News não pode ver com bons olhos a chegada de pequenos proprietários que vão lançando as suas próprias inverdades que, o Diabo seja cego e surdo, poderão não estar sequer alinhadas com as faltas à verdade que são do interesse do PS. Na verdade, o PS é a Antral das Fake News. A melhoria do serviço, a qualidade da frota, a transparência da transacção comercial, a satisfação do cliente, tudo isso é o que menos importa. O que é fundamental é tentar impedir a entrada de concorrência. O táxi do PS é o país. O Serviço Nacional de saúde são os pneus carecas. O estado da Justiça é a direcção desalinhada, as cativações são as mudanças do óleo e as revisões adiadas, a Protecção Civil em ruínas são os estofos cheios de buracos. E Costa é o taxista das Fake News. Fala um português sofrível, não usa desodorizante e apoia o Benfica. Quando inicia uma corrida, Costa promete sempre aos passageiros que há outro caminho. Então para onde é que o shôr quer ir? Quero ir ali para a zona do saneamento das finanças públicas. E o shôr quer ir por onde? Não sei, se calhar atalhávamos ali pela austeridade? O shôr não pense nisso, há outro caminho. Ó senhor motorista, como é que se chama este caminho? Carga fiscal, shôr passageiro, embora também lhe chamem Esbulho. Com Costa a conduzir o país, há sempre outro caminho, mas o preço é invariavelmente omitido no princípio da viagem. E o PS, latifundiário das Fake News, quer continuar a passar de mansinho que esse caminho não tem custos, que não levou o país à bancarrota em 2011, que este PS não é o velho PS de Sócrates, que os acólitos de Sócrates que são os do PS de agora nem sequer sonharam, muito menos viram o que se passava, que as 35 horas dos funcionários públicos não tinham custos, que a tragédia dos incêndios se deveu exclusivamente a condições atmosféricas desfavoráveis, que as relações familiares dentro do governo e na esfera do poder são normalíssimas, que a geringonça não é uma manobra táctica que branqueia a natureza anti-democrática do PCP ou que as Instituições e as funções públicas mais relevantes não estão em estado de profunda erosão quando não de implosão. O PS quer controlar as Fake News porque não interessam ao PS mentiras novas. As ilusões e embustes que o PS produz são-lhe mais do que suficientes. Ao PS não interessam mentiras novas, mas não interessam sobretudo novas verdades. Como poderia interessar ao PS, paladino do combate às Fake News, cavaleiro imaculado de espada em riste pela transparência, que viesse por aí alguém sugerir que Pedro Marques, o cabeça de lista pelo PS às eleições europeias, fosse ele próprio um dos elementos que alimentava o blogue Câmara Corporativa, uma máquina de contra-informação ao serviço de Sócrates. Ou que alguém se lembrasse de sublinhar que o número 3 dessa mesma lista é Pedro Silva Pereira, o lugar-tenente de Sócrates que o PS oportun(ístic)amente renegou? São de facto tempos gloriosos estes em que ouvimos, na mesma semana, o PS defender medidas contra as Fake News em nome da cidadania e Ricardo Salgado afirmar que todos os dias se lembra dos lesados do BES. Por este caminho, ainda vamos ver Carlos César preocupado com o nepotismo e o Juiz Neto de Moura a doar as suas posses à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

 

* artigo publicado na edição de Março do Dia 15.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Gógol não era economista

por jpt, em 31.03.19

chagal.jpg

 

Inúmeros políticos e assessores saíram à liça para defender o governo neste "affaire famigilia" (que já ecoa na imprensa estrangeira). Até o candidato socratista ao parlamento europeu veio, melífluo, dizer que "não mas enfim ..." (ler o texto ligado pelo Pedro Correia em postal abaixo). Os "comentadores" eixo-domaljugular já confirmaram que tudo está bem no reino. E, cerveja para cima do bolo, Pacheco Pereira reduz as críticas ao emaranhado do governo português à incapacidade geral em criticar as políticas económico-financeiras do PS. Ou seja, na visão do meu antigo professor, um tipo como eu, e nisso parecido com tantos outros, que não estudou economia não tem o direito a interrogar-se ou indignar-se. Mesmo que tenha a ideia de que alguma coisa não correrá bem, que tenha a sensação que este texto de Joaquim Miranda Sarmento é capaz de ser um bom diagnóstico da situação económica nacional, para Pacheco Pereira isso não chega: não sendo eu capaz de escrever a crítica e/ou melhorá-la ou sustentá-la, tenho que me ir calando. Nos tempos em que ele, Pacheco Pereira, nos ensinava a isto chamava-se "economicismo". Mas enfim, os tempos mudam, e há que adaptar as ideias aos novos ares. 

Portanto, irrito-me com coisas? Vejo-as como denotativas do actual "estado da arte", como aquilo do secretário de estado de defesa do consumidor continuar a exercer funções, apesar de querer o namorado capitão como motorista, decerto - é a única razão que consigo perspectivar para tal inaudita pretensão - para lhe possibilitar sexo durante as horas de expediente, tendo-o ali a pénis de semear, por assim dizer? Que me desirrite, dirá o professor Pacheco Pereira, que tivesse eu ido estudar Economia ...

Ocorre-me que Nikolai Gógol não era economista. E que está o meu país cheio de avatares de Tchítchikov. E, também, que o meu antigo e respeitado professor já desapareceu há muito tempo. Ficou só isto.

 

"Resumindo, eis o nosso herói [Tchítchíkov] em pessoa, tal como é! Mas talvez me exijam que o caracterize definitivamente com um único traço: quem é ele, em termos de moral? É claro que não é um herói cheio de perfeições e virtudes. Quem é então? Um canalha? Mas porquê canalha, logo assim de repente, por que teremos de ser tão severos para com o nosso próximo? Hoje em dia já não existem canalhas entre nós, há apenas pessoas bem-intencionadas, amáveis; talvez se encontrem só duas ou três susceptíveis de darem a cara ao opróbrio e à bofetada pública, e mesmo estas falam de virtude. A um homem assim seria mais justo dar-lhe outro nome: homem prático, homem granjeador. A aquisição é que tem culpa de tudo: por causa dela é que foram feitas as coisas que o mundo chama de pouco limpas. É verdade, há neste carácter qualquer coisa de repugnante, e ao mesmo leitor que, nos caminhos da sua vida, tem amizade com um homem assim, que come à mesma mesa com ele e partilha gostosamente com ele as suas horas de lazer, olhará para ele de esguelha se tal homem lhe aparecer na qualidade de herói de um drama ou de um poema. Ora sábio é aquele que não desdenha carácter nenhum, mas, fitando nele o olhar perscrutador, o investiga até às causas primeiras. São rápidas as metamorfoses do ser humano: de um momento para o outro cresce no seu íntimo um terrível verme que canaliza para si, arbitrariamente, todos os sucos vitais. Por mais de uma vez tem acontecido que não só uma forte paixão, mas mesmo uma minúscula paixoneta por uma insignificância qualquer cresça e invada todo o ser humano nascido para verdadeiras façanhas, fazendo com que esqueça as suas obrigações sagradas e veja em ninharias a sua grande e sagrada vocação. Não têm conta, como as areias do mar, as paixões humanas, e todas diferentes umas das outras; e todas elas, baixas ou nobres, no início obedecem ao homem e só depois se tornam os seus terríveis senhores. Bem-aventurado aquele que escolheu para si, de entre todas, a mais bela das paixões: a cada hora e a cada minuto que passa cresce e multiplica-se a sua desmedida bem-aventurança e cada vez ele entra mais fundo no infinito paraíso da sua alma. Há porém aquelas paixões que não são escolha do homem. Nasceram com ele e com ele hão-de morrer, o homem não tem forças para fugir delas. Guia-as uma vontade superior, existe nelas um princípio que perpetuamente nos chama, que não se cala em toda a nossa vida. São destinadas a cumprir uma grande missão na terra: seja na forma de uma imagem sombria, seja levantando voo como fenómeno radioso que alegrará o mundo - dos dois modos, foram chamadas à vida em prol de um bem que, para o homem, é incompreensível. Ora então, no nosso Tchítchikov a paixão que o move não depende dele e, na sua fria existência, talvez já durma aquilo que mais tarde ou mais cedo lança os homens de joelhos perante a sabedoria dos céus. (...)

 

Ora o que é penoso não é a possibilidade de alguém ficar desagradado com o nosso herói, mas, pelo contrário, a insuperável certeza, bem enraizada na alma, de que, com este mesmo herói, com este Tchítchikov, os nossos leitores poderiam ficar agradados. Se o autor não tivesse espreitado tão fundo na alma dele, se não tivesse içado do seu íntimo aquilo que, fugaz, se esconde da luz, se não lhe tivesse desvendado aqueles seus mais secretos pensamentos que a ninguém se confiam, se apenas o tivesse mostrado tal como ele se apresentou na cidade, ao Manílov e aos outros, ah, então toda a gente ficaria contentíssima e tomá-lo-ia por pessoa interessante. (...) Sim, meus bons leitores, não vos apetece ver a miséria humana a descoberto. Para quê, dizem os senhores, será que vale a pena? Não saberemos já que existem muitas coisas estúpidas e desprezíveis nesta vida? Já sem isso nos acontece muitas vezes assistir àquilo que não agrada a ninguém. É melhor mostrar-nos o belo, o admirável. Faça, antes, com que esqueçamos! "Para que me dizes, meu amigo, que as coisas andam mal na minha herdade?", diz o proprietário rural ao seu feitor. "Sei tudo isso muito bem, meu amigo, será que não tens mais nada do que falar? Deixa-me na ignorância, deixa-me esquecer, e então serei feliz." Sendo assim, aquele dinheiro que serviria para, de algum modo, corrigir as coisas, é gasto nos vários meios de procurar o esquecimento. A mente, que talvez pudesse descobrir ainda alguma fonte de grandes recursos, adormece e não tarda, toda a herdade é vendida em leilão e o proprietário, na miséria, vai por esse mundo fora em busca de esquecimento, com a alma pronta a cometer baixezas que, outrora, até o assustariam.

 

O autor ouvirá também acusações da parte dos assim chamados patriotas, desses que, até agora sossegadinhos nos seus recantos, se dedicam a coisas de outro género, amealhando o dinheirinho, assegurando o seu bem-estar à conta dos outros; ora, mal acontece alguma coisa insultuosa para a pátria, na opinião deles, mal aparece algum livro que revele uma verdade amarga, saltam de todos os seus cantinhos (...) e soltam o grito: "Admite-se trazer estas coisas à luz do dia, gritá-las aos quatro ventos? É que tudo isto nos diz respeito, é nosso - e então será bom alardeá-lo? O que dirão os estrangeiros?" (...) uma modesta resposta às acusações de alguns patriotas ardentes que, até determinado momento, se dedicam sossegadamente a uma qualquer filosofia ou a fazerem crescer os seus capitais à custa da pátria ternamente amada e que, em vez de pensarem em não fazer o mal, pensam só em que ninguém diga o que fazem mal. Mas não, não é o patriotismo a causa das acusações, há outras coisas por trás. Por que querem esconder a palavra?"

(Nikolai Gógol, Almas Mortas, Assírio & Alvim, 2017, 284-288. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

(Ilustração "A Chegada de Tchítchíkov à Cidade de N", de Marc Chagall, 1923).

Autoria e outros dados (tags, etc)

O novo símbolo do PS

por jpt, em 25.03.19

geni-com-review.jpg

O novo visual, substituindo mãos e rosas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

No comboiozinho do Peixoto

por Pedro Correia, em 28.02.19

transferir.jpg

 

Pedro "Abrantes" Marques, cabeça-de-lista do PS às europeias, fez parte do blogue socrático Câmara Corporativa.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Costa e a "diletância"

por Pedro Correia, em 18.02.19

825531[1].jpg

 

António Costa falou há pouco no Palácio de Belém, onde assistiu à posse dos novos ministros e secretários de Estado, na quarta remodelação governamental ocorrida nesta legislatura. Aproveitando o local e a ocasião para fazer propaganda política, já a pensar na eleição de 26 de Maio, que permitirá aos portugueses escolher os nossos próximos eurodeputados. No dia em que, segundo uma sondagem da Aximage, a sua avaliação é a mais negativa, aos olhos dos portugueses, desde que assumiu o cargo de chefe do Executivo.

Confrontado pelos jornalistas, acabou por dizer aquilo que talvez não pensasse inicialmente, omitindo o respeito institucional que lhe deve merecer o Parlamento Europeu. Pronunciando-se, ainda por cima, na sede do representante máximo do poder político português - que não é ele, como sabemos.

«É saudável que haja membros do Governo que estejam disponíveis a servir o País no Parlamento Europeu. O Parlamento Europeu não pode ser só um local de diletância política e de sound bites», declarou o primeiro-ministro. Pouco lhe faltou para apelar, ali mesmo, ao voto em Pedro Marques e Maria Manuel Leitão Marques, os ministros que acabam de sair para concorrerem ao órgão legislativo que tem sede em Bruxelas e Estrasburgo.

Vão substituir, no elenco de candidatos do PS, os eurodeputados Francisco Assis (que foi o cabeça-de-lista em 2014) e Ana Gomes. Ambos "diletantes", presume-se. E especialistas em sound bites. Terá sido por isso que Costa lhes passou guia de marcha? Devem estar ambos satisfeitíssimos por receberem estes doces qualificativos, da parte de quem por cá manda, na hora do regresso à pátria.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Maldita hemeroteca

por Diogo Noivo, em 28.01.19

"A maneira como PSD e CDS têm gerido a relação, sempre sensível, com as Forças Armadas, as magistraturas, a diplomacia e as Forças de Segurança combina tentativas ilegítimas de manipulação política e um desprezo ostensivo pelo estatuto e a centralidade destes braços indispensáveis do Estado. Promete-se o que se sabe não poder cumprir; joga-se o jogo perigoso das alianças táticas e circunstanciais, em torno, as mais das vezes, de bandeiras populistas e acenando com promessas de benefícios corporativos; e acaba-se invariavelmente por mentir, adiar, fugir e mentir outra vez."

Augusto Santos Silva, "O desprezo da direita pelo Estado" (4.8.2015)

 

O furto em Tancos, o desinvestimento nas Forças de Segurança, a descoordenação nos incêncios florestais, a guia de marcha a Joana Marques Vidal, os cortes no orçamento da Polícia Judiciária e outros casos de "desprezo ostensivo" são, seguramente, ficção.

Autoria e outros dados (tags, etc)

48384988_2262514587361875_7465602618803355648_n.jp

(Entrevista ao Diário de Notícias: transcrição e excertos em filme. Para quem tenha dúvidas ou queira aludir a uma hipotética descontextualização, este trecho em rodapé aparece no oitavo filme apresentado)

 

Quem me está próximo preocupa-se por eu falar sozinho, aparente sinal de senilidade, óbvio marcador de maluquice. "Não te preocupes", vou adiantando, "sempre falei", o que não sei se sossegará alguém. Não sabe, passará agora a saber, se isto ler, que muitas vezes, não sempre mas muitas vezes, nisso falo com o meu pai. Ontem à noite conversei com ele sobre isto, esta ministra da Saúde PS que considera os sindicalistas renitentes como "criminosos, infractores". "Pai, viste esta tipa, então o Partido apoia isto?" e ele, que foi comunista até à morte, daqueles cunhalistas "sem qualquer culto de personalidade", a menear a cabeça, com ar até amargurado, e eu sarcástico "isto já parece lá a vossa União Soviética, para estes gajos um dia destes nem haverá direito à greve", e ele a repreender-me "deixa-te de coisas". E eu, qual adolescente implacável, "eu deixo, mas vocês é que são a geringonça, a esquerda, a apoiarem esta tipa". Ele escorropichou o seu, sempre frugalíssimo, cálice de genebra (ou seria rum?), levantou-se e praguejou, à sua maneira, "patifes!". E culminou "isto tem que acabar" antes do seu "boa noite, vou-me deitar". Eu sorri, servi-me com abundância do rum (ou seria genebra?) e fiquei até a desoras a ver o "trio de ataque", o Oliveira, o Gobern e um rapaz de melena arisca que "representa" o Sporting. Pois antes estes que tal ministra geringôncica. Depois, antes de me deitar, ao espelho lavando os dentes, surpreendi-me a falar sozinho, "criminosos? infractores? os sindicalistas? ... estes gajos perderam completamente a noção". Nisso a minha mãe assomou ao corredor, preocupada, "Zé vai-te deitar, já é tardíssimo e estás para aí a falar sozinho", e eu que "tá bem, mãe, já estou a ir", e ela sorri-me "vai, que já bem me basta o teu pai que não me deixa dormir, ali a falar mal do governo".

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

teodorico-e-alpedrinha-por-rui-campos-matos.jpg

(Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos)

 

Foi-se a ministra, orgulhosamente lesbiana, a Guadalajara, decerto que com adido à ilharga – mas não a Cuernavaca com o necessário Cônsul, estou disso certo – e por lá resmungou algo, sobranceira a portugueses, Portugal e seus jornalistas e jornaleiros. Entretanto, cá longe, noutro “lá fora”, ando eu a reler, 35 anos depois, o “Relíquia”. Eça não é, diz quem sabe, o Zola, o Balzac, muito menos o Flaubert, mas é o que temos, e ainda que me solavanque o encanto – tetrali o “Os Maias” por causa do filme de João Botelho, e disso me apercebi, já nada adolescente ou vinteanista, franzindo o meu cenho ao traço grosso da caricatura que escorrega daquele Ega – continua uma delícia.

 

Enfim, perorava a ministra lá em Guadalajara quando o Raposão, o bom do Teodorico, me aportou a Alexandria, naquela sua ímpia, pois humana, peregrinação à então Terra Santa. Logo se acolheu ao afamado e recomendado “Hotel das Pirâmides”, deparando-se com um patrício (onde é que não há um português?), “moço de bagagens e triste“, ali algo desvalido dados os infortúnios de amores e impensares, o Alpedrinha, figura ímpar do panteão queiroziano, mais que não seja por aquela sua sábia e monumental saída, que em mim habitava sem lhe recordar a autoria (“Tu já estiveste em Jerusálem, Alpedrinha?“, perguntou-lhe o Teodorico, “Não senhor, mas sei … Pior que Braga, algo que talvez tenha acicatado aquele Luiz Pacheco). Chegava-se pois, no mesmo fim-de-semana da ministra no México, o bom do Teodorico às terras da Esfinge e, lá de tão longe, responde à sáfica governante: “E se o cavalheiro trouxesse por aí algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a política.”, atreveu-se o Alpedrinha. “Concedi-lhe generosamente todos os “Jornais de Notícias” que embrulhavam os meus botins“, logo concedeu o malandrote.

Isto nem em Cuernavaca lá iria. Quanto mais em Guadalajara.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Destituição?

por jpt, em 29.10.18

45000733_2117830914950508_8370902087516553216_n.jp

Isto começou com alguns conhecidos jornalistas da esquerda socialista que botam nos "jornais de referência", foi secundado por "opinadores". Para meu espanto até por antropólogos (ironizo um pouco quanto a este espanto, no seio da corporação surpreende-me a desfaçatez mas não o pensamento). Defende-se o escrutínio dos votos dos imigrantes brasileiros em Portugal para opinar sobre a pertinência da sua permanência no país. A indução de um ambiente de pressão, moral que seja, sobre essa "comunidade" - que será muito mais um colectivo inorgânico de indivíduos, contendo alguns núcleos de sociabilidade e de entrejuda mas não exclusivos. De facto, a exigência que estes cidadãos legalmente residentes ("documentados", na gíria politicamente correcta desta falsa "esquerda") assumam - relativamente ao seu país e, em sentido lato, face ao mundo - os valores político-culturais putativamente dominantes na sociedade que os acolheu. Nos termos dos intelectuais (e dos antropólogos em particular) trata-se da exigência de uma "assimilação", perspectiva sempre contestada quando relativa a imigrantes oriundos da Ásia ou da África. Uma vontade assimiladora que é sempre dita efeito de racismo, de lusotropicalismo, de imperialismo, de (neo)colonialismo (o prefixo está a ficar em desuso muito por influência do pensamento boaventuriano, que tornou "colonialismo" um all aboard para definir a história moderna e contemporânea). 

 

Esta ênfase persecutória sobre os brasileiros é ainda por cima discriminatória, de modo paternalista, essa suprema face do racismo: ninguém nesta "esquerda", se preocupa em andar a escrutinar os votos (se os houver) dos imigrantes nepaleses, dos paquistaneses ou bangladexes, integrados em processos eleitorais complexos, entre ascensões de comunistas, "trumps" asiáticos e fundamentalismos islâmicos; ninguém se lembra de tentar encontrar as simpatias políticas dos imigrantes magrebinos ou do ocidente subsahariano, onde abundam os radicalismos islamófilos. E se alguém aventar a necessidade de fazer essa pesquisa, logo a corporação antropológica (olha logo estes) e os jornalistas do ex-DN e do Expresso, virão contestar, desabridos, a deriva persecutória, racista, securitária. Mas sobre os brasileiros, o voto no energúmeno bolsonar? Tudo é permitido. Isto mostra bem o paroquialismo desta classe-média locutora portuguesa mas também a incongruência e mediocridade intelectual e moral deste meio. Pois trata-se de um meio ambiente, não apenas de alguns miseráveis: eles botam estas coisas e não há, nos seus contextos de referência, partidários, profissionais, uma única voz crítica. Se algum jornalista do CM ou do Observador, se algum professor da Católica ou do ISCSP, escrevesse sobre a necessidade de escrutinar os votos dos imigrantes angolanos ou mauritanos para aferir da pertinência da continuidade dessa comunidade? O que diriam jornalistas, antropólogos e outros intelectuais, as presidentes da junta socialistas, os "comunicadores" e bloguistas-facebuqueiros? O que escreveriam os anticolonialistas directores dos jornais de referência, ex-diários que acolhem estes verdadeiros xenófobos nas suas páginas e nem tugem nem mugem? Mas este lixo? Passa. Porque os seus locutores "fazem parte ...", "são dos nossos" ...

 

 

Margarida Martins, a conhecida guida gorda do frágil, é diferente. Pois é presidente de uma junta de freguesia lisboeta, eleita no PS. Tem responsabilidades oficiais. Representa a besta exactamente como os outros locutores, do Expresso de Balsemão, do DN de Ferreira Fernandes ou das universidades, sejam estas quais forem. Mas representa-a assente, sentada, num cargo público para o qual foi eleita nas listas do partido do governo. Para mais é presidente de Arroios, freguesia onde coabitam imigrantes de dezenas de nacionalidades. E tem este tipo de mentalidade persecutória (e assimilacionista) face a "comunidades" imigradas. Isto é um óbvio caso que requer a destituição. Pelo menos a retirada de apoio de um partido que está no governo e anda com a prosápia que anda - ali logo ao lado a mandar construir um templo com fundos públicos, destinado aos estrangeiros, por exemplo.

 

Claro que os jornais de referência não a atacarão. Afinal a "guida" é "lisboa". E, mais do que tudo, é "pêésse", das "nossas".

 

Um gajo olha para esta gente, estes guidas gordas, estes jornalistas rastejantes, estes antropólogos "de esquerda", e lembra-se, constata, que, como todos, tem um bolsonaro cá dentro. Há que o reprimir. Ser cívico, civilizado. E, nesse civismo, clamar o óbvio: Margarida Martins tem que ser destituída. Isto é inaceitável. Os restantes têm que ser desprezados. E ditos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ventania

por jpt, em 14.10.18

leslie-podera-vir-passar-o-fim-de-semana-19081-1.j

 

A ventania que remodelou o governo PS é muito mau sinal. Com o PSD igual ao Sporting pós-Alcochete, Cristas encantada com o pseudo-sucesso lisboeta e o CDS incapaz de por Mesquita Nunes onde já devia estar, o BE roblesado e o PCP no respeitável mas doloroso e inimputável estado mental em que tantos dos nossos queridos mais-velhos vão ficando, o vice de Sócrates reforça-se bem. A senhora da Cultura é competente (também quem lá estava era péssimo, fácil de substituir). E Cravinho é muito bom, cumpriu bem como presidente da cooperação e foi excelente como secretário de estado. Está na óbvia rota para futuro MNE. E o Matos Fernandes, tão resguardado que nunca chamuscado nos terríveis fogos e nas coisas do petróleo, vai-se alargando. "Marquem as minhas palavras", querem alguém do Porto no poder?, esperem-pouco e olhem para ali.

Contornar estes baixios vai ser muito difícil. Mas, como em tempos se disse, navegar é preciso, viver (a vida videirinha, funcionária/avençada) não é preciso ...

Autoria e outros dados (tags, etc)

O PS É QUE FEZ, O PS É QUE FAZ!

por jpt, em 09.10.18

saramago.jpg

 

Num dia é o apelo da esquerda socialista à perseguição e expulsão de imigrantes que não votam para os países deles segundo os "nossos" princípios e valores - nenhum dos deles, nenhum líder, jornalista, deputado, bloguista-facebuqueiro, sempre tão ciosos da sua "superioridade moral", protesta com o desaforo destas aspirantes a modelos (até vejo portugueses antropólogos doutorados a convocar essa mesma perseguição, os democratas ..., nuns "que fazem eles neste país", "como é que os vamos tirar daqui", aos brasileiros residentes). Não se lê uma única pessoa da chamada esquerda, do arco "geringonça" a denunciar, contestar esta vilania. Um único.

No dia seguinte é esta apropriação necrófaga.

Em Moçambique numa campanha os propagandistas inventaram o belo chavão "A Frelimo é que fez, a Frelimo é que faz". O PS também se apropriou disso, virou-o "O PS É QUE FEZ, O PS É QUE FAZ!". Até o morto Saramago ...

O geringoncismo é mesmo isto. Execrável.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os pirilampos

por jpt, em 08.10.18

 

(Transcrevo um postal meu no facebook, apenas elidindo uma expressão trocada pelo seu acrónimo):

 

Há alguns dias uma consóror bloguista enviou-me esta palestra muito interessante, longa mas bem animada, com sageza e humor. Forma de olhar um Brasil(eiro) relevante, neste dia, nesta era, tão peculiares. Nada tendo a ver aproveito para deixar duas impressões, uma sobre o PSD (partido ao qual me liga nele ter votado em 1999) e outra sobre o não-PSD.

1 - tenho várias ligações-FB de veementes adeptos desse partido. Não todos mas vários, até dos mais arreigados (tipo com fotos de PPC afixadas nos murais), transpiram simpatia pelo efeito bolsonárico, entre o sarcasmo e a ironia face aos escombros da "esquerda" e a empatia com os dichotes do futuro presidente. Tenho alguma dificuldade em compreender como quem todos os dias defende a prévia PGR (como eu o faço) tem algum apreço por um tipo que proclama a tortura como um necessário instrumento de investigação; que quem se ira com MRS a exigir silêncio substantivo a Cavaco Silva considere despiciendo que se proclame a necessidade de matar Fernando Henrique Cardoso; que indignados com os kamovs de Costa e seu "não me faça rir" diante da desgraça florestal lusa achem piada ao anúncio da privatização dos restos da floresta brasileira; e por aí adiante. Sarcasmo ou pirraça para serem laicados que tudo isso seja.

Acho que esta gente vai ser um problema ... para o PSD, coito deste rebotalho. E digo-o com pena, preparado que estava para votar em PPC (pessoa que isento desta vergonha toda) na sua desejável candidatura contra o inaceitável PR que vamos tendo. Mas se na sua base de apoio abundarem estes piadísticos desprezíveis isso ser-me-á impossível. Por questões ideológicas: pois se nada tenho contra as aspirantes a modelos (como a actual gentrificação da prostituição consigna) tudo me move contra aquilo, tão diferente, dos "fdps": esta mescla de blasés imbecis e de lineares fascistas.

2. Muitos devaneios se escreveram sobre o Brasil (ainda há pouco aqui vi transcrição de uma intelectual pomposa botando ontem que são os ricos que apoiam Bolsonaro. Viu-se ...). Mas talvez o mais significativo foi o que li ontem, um enfático apelo de uma intelectual a um não Bolsonaro em nome dos "mulheres, homossexuais, afrodescendentes, ameríndios". Um tipo olha para isto e pensa "quer-se dizer, um gajo como eu, homem, medianamente heterossexual, totalmente eurodescendente, não serve?". Ou vai como mero "companheiro de viela"?

Talvez tudo isto promova um "efeito Bolsonaro" em algumas mentes: por um lado, e de uma vez por todas, a consciência de que a criminalização do exercício de funções políticas, que o PT praticou, promove a extrema fragilização das instituições e das adesões democráticas. Ou seja, que não é preciso esperar que o deputado Galamba, tarde e a péssimas horas, se pronuncie contra o fartar vilanagem para que as pessoas se sintam legitimadas para criticar a "esquerda"; e, por outro lado, a percepção que esta visão comunitarista, centrada na imaginação e estrategização de raças, géneros, comunidades de crentes e tralhas afins, é uma mera importação de agendas e modos de pensar, e é insuficiente. E incompetente. Por mais simpáticos que sejam (alguns) objectivos. E pensar que há que largar este danado radicalismo cristão, a fusão de poder(es) e culpa, alimentado pelas esquizofrénicas ciências sociais embrenhadas na cartografia denunciatória e ilegitimadora dos (micro)poderes. Pois estes, "injustos" que surjam, são ordenadores, são vistos como tal e, afinal, são requeridos como tal. Como se viu, ai, ai, ontem. Por maiores ou melhores "políticas" que os queiram combater ...

Há sempre uma outra solução, a tradicional: dizer que os outros estão alienados quando pensam/actuam diferente do que nós pensamos. E que estão iluminados quando connosco concordam. Honestamente, aos 54 anos (e dito trumpista, homofóbico, quase-nazi, ressabiado, invejoso, fascista e, mais-do-que-tudo, lusotropicalista), nada percebo do Brasil e pouco mais sobre o resto. E gostava de ser algo iluminado. Mas estou farto destes pirilampos que se acham focos eléctricos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não é preciso ser druida

por jpt, em 04.10.18

costa.jpg

 

Escrevi "O ministro da defesa ainda o é (ele que disse que se calhar não tinha havido roubo em Tancos - estamos a brincar?, não é óbvio o que o homem sabia?)" - num postal de 27.9 (e podia ter sido de há meses), e boto eu sem fontes, mero civil, e ainda por cima emigrado.

O traste lixou-se agora em tribunal: a que horas será preso, é o que me ocorre perguntar? E já agora, a ministra do mar, aquela que nomeia a sócia para gerir os portos (g'anda lata ...), já se demitiu? Irá presa?

Isto com esperança, que ser sportinguista é ser esperançoso, de que ainda haveremos de chegar aos kamovs. Apesar das progenituras anticolonialistas. Devagarinho ..., e decerto que só depois do Celo de Sousa ter caído. Mas haveremos de lá chegar. Até às barragens. Até às barragens chegaremos. A essas se calhar já só em registo de "história". Mas ficarão as "histórias", pelo menos para se reconhecerem os apelidos dos descendentes. Destes socialistas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para os amigos tudo. Para os outros, há o PS

por João Villalobos, em 07.09.18

Adoro a pastinha encarnada cujos segredos apenas podemos especular. A gravata fúnebre do senhor lá atrás (o qual, como diria um escritor que ninguém já hoje lê, sorri à morte com meia cara). A outra pastinha azul sobre cujos segredos apenas podemos especular, quase da cor do vestido da mesma senhora que olha quiçá para as chem trails no céu. E, principalmente, a coerência de certo PS na defesa dos seus. A bem da transparência. Nas próximas eleições, só será parvo quem quiser. A fotografia é do grande repórter fotográfico António Pedro Ferreira. O que ela retrata é de todos nós.

A notícia relacionada. E a legenda da foto, para que não haja confusões por parte de quem não segue os links: "Valdemar Alves com António Costa, em 2017, durante as homenages às vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D