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Delito de Opinião

António Costa sexagenário

jpt, 17.07.21

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(Conselheiro Acácio, por António)

António Costa faz hoje 60 anos (os meus votos de saúde). O Público, sempre servil ao poder PS, disponibiliza (em acesso livre) este seu panegírico, escrito por Ascenso Simões (o mui ilustre que anda afadigado em derrubar o Padrão de Descobrimentos e, presumo, outras coisas).
 
Recomendei, através de múltiplas redes sociais (do já velho e-mail ao whatsapp), a leitura deste texto aos meus amigos moçambicanos. Pois na "Pérola do Índico" ao longo dos anos fui lendo alguns extremados elogios (em artigos e até em livro) a políticos bem instalados. E muitos dos meus amigos (quantas vezes eleitores, simpatizantes e até militantes dos partidos dos assim supra-elogiados) diante desses textos faziam um ricto enojado, naquilo tão desconfortável da vergonha pelo alheio. E resmungando "isto só aqui é que é possível!!!".
 
Pois é a esses meus amigos que aviso: leiam este texto. E vejam que "estamos juntos!!!". Que isto de videirinhos despudorados há-os em todo o lado. Já Eça de Queirós o sabia e descrevia.

Ainda Cabrita?

jpt, 08.07.21

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(Postal de 5.7.2021)
 
O ministro da Segurança Rodoviária - que tem acumulado dislates políticos - atropela um trabalhador na auto-estrada quando vogaria a cerca de 200 à hora numa zona de trabalhos sinalizados. Na sequência os seus serviços emitem declarações falsas, tentando imputar responsabilidades ao patrão do falecido. 3 semanas depois nada mais se sabe - para além de uma grotesca história sobre a propriedade do carro oficial -, uma delonga que apouca a estabilidade política no sector tutelado.
 
Entretanto, e ainda que atarefados com múltiplas tarefas (o governo está a violar a Constituição, o que não é normal em democracia, e fá-lo de "modo intempestivo" devido a uma "irrelevância estatística", após ter celebrado a rentrée dos Reis Magos turistas), os habituais publicistas da "situação" desunham-se nas teclas, invectivando de "oportunistas" os condoídos com o "estado da arte", e um deles, Marques Lopes, segue a via socratista e clama que o problema são as "perguntas do Correio da Manhã". Um antigo ministro socialista enche o peito e proclama que todos os governantes violam os limites das velocidades rodoviárias, nisso querendo ilibar politicamente o prócere Cabrita - mas "esquece-se" de referir que este é, e repito, o ministro da segurança rodoviária e que os seus serviços já mentiram à república sobre esta matéria. Matéria essa que implicou uma morte. Pormaiores que seriam letais se houvesse um minimo de... decência.
 
Enfim, lembro que a semana passada o ministro da Saúde inglês se demitiu, apesar da intensa demonstração de apoio que recebeu da sua rainha (basta ver o pequeno filme para tal perceber). Pois foi filmado a beijar uma amiga de longa data e, malvado tóxico que é, também a acariciá-la abaixo das costas. Entenda-se que não caiu devido a moralistas invectivas dada aquela infidelidade conjugal. Mas porque sendo ministro da saúde violou as regras de "distância social" naquela beijoquice com a amiga. Ou seja, e ainda que a patética argumentação demonstre como o puritanismo correctista se multiplicou neste Covidoceno, Hanckock caiu porque violou os ditames impostos pelo Estado no âmbito da sua tutela.
 
Percebe-se que os publicistas avençados nem queiram saber disto, pois as respectivas tenças têm como termos de referência (ToRs) o ecoar da cartilha semanal. Mas que um gajo que foi ministro não queira perceber isto? Isto é o descalabro do PS. E cada vez mais cheira a fim de festa. Mal, mesmo, já fedor.

O Secretário de Estado Galamba

jpt, 08.07.21

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(Postal de 3.7.2021)

"Jovem segura sombrinha para que o Secretário de Estado Galamba não apanhe sol na moleirinha.", ironiza Rui Rocha.

Galamba está no poder - e numa posição importante - devido aos seus intensos serviços de propaganda socratista, muitos deles cumpridos no blog colectivo Jugular, constituído por radicais socratistas e do qual emanou (foi a Professora Palmira Silva que o instruiu) um blog anónimo remunerado de contra-informação e de disseminação do que agora se chama "fake news", o Câmara Corporativa, sempre pelos "jugulares" louvado e defendido. Se se pode torcer o nariz a estes antecedentes galambianos também se pode conceder que são adequados ao vigente socratismo sem Sócrates.
 
Enfim, a historieta deste "pequeno mal" do pacote de jornalistas, activistas e académicos que serviram com denodo a corrupção socratista e que continuam em funções, no governo, na política activa e na imprensa (até escandalosamente no "serviço público" da RTP, como Vale de Almeida), está mais do que sabida e redita. Mas tem alguma pertinência lembrá-la nesta semana. Durante a qual um dos mais afamados membros desse grupo e, in illo tempore, sabida promotora deste Galamba, câncio, provocou debate sobre a pérfida objectivação das mulheres por causa de um vestido atrevido (há quem lhe chame combinação) de uma assistente do inenarrável programa "Preço Certo" - como se o problema não fosse o programa, por si mesmo inaceitável numa televisão pública.
 
Mas a tal propagandista do socratismo (com ou sem o "animal feroz"), seus inúmeros "partilhadores" e concordantes, calam-se diante desta imensa objectivação das mulheres, deste rebaixar do "pessoal menor", nisto de em 2021 uma merdita de secretário de estado - e de um partido que se diz "socialista" - aceitar que uma mulher lhe seja apenas haste de guarda-sol.
 
Isto é o Portugal de hoje. Esta escumalha imunda Jugular a colher aplausos. "Anunciada na tv". E a chegar ao governo, para gerir os interesses nas minas. E parte, substancial, do povo pronta para lhes segurar seja o que for...
 
Como eu prefiro eu uma quarentona voluptuosa em vestes generosas! Antes o "Preço Certo" que estes "jugulares".

Recolher obrigatório

jpt, 08.07.21

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(Postal de 2.7.2021)
 
Devido a louvor alheio acabo de ler um artigo de uma afamada jornalista de investigação - do independente Diário de Notícias - no qual, e a propósito do Ministro da Administração Interna, as críticas aos governantes são resumidas a oportunismos de oposicionistas, afadigados a tentarem fazer cair ministros.
 
Por isso aqui garanto que não tenho a utopia de derrubar o sempiterno ministro Santos Silva, ainda por cima logo após a conclusão da presidência europeia. Apenas recordo que há menos de um mês o ministro (dos negócios estrangeiros) considerava "intempestiva", incompreensível e baseada em "irrelevância estatística" a decisão do parceiro britânico de controlar as deslocações ao nosso país - algo que depois a Alemanha também decidiu -, ameaçando-o mesmo com "retaliações".
 
Agora, e enquanto os avençados d'agora se desdobram em elogios ao governo, à "Super-Marta"e ao "está tudo bem" (como o sportinguista deputado Pinotes quando vai comentar futebol à TV), é declarado o recolher obrigatório em 45 concelhos. Decerto que medida "intempestiva" devido a uma "irrelevância estatística", dirá o auto-proclamado "parolo".
 
Quanto aos críticos? "Oportunistas", clamará a "jornalista de investigação" câncio no seu espaço no independente "Diário de Notícias". E os oficiais de comunicação - no ISCTE e não só - reforçarão os elogios à "Super-Marta".
 
No fundo? "Porreiro, pá!".

Segurança Rodoviária

jpt, 08.07.21

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(Velho postal de 30.6.2021)
 
A gentrificação da esquerda portuguesa, com a "colarinhização" do operariado remanescente e o avençamento dos antigos "intelectuais orgânicos", nunca se terá visto tanto como agora: o Ministro da Administração Interna, detentor da tutela sobre a segurança rodoviária, transitando em excesso de velocidade numa zona sinalizada atropela mortalmente um operário não-especializado, ali a trabalhar. O governante alija-se de quaisquer responsabilidades. A família enlutada cai na ruína.
 
E a "esquerda" - sindicatos, partidos, associações, publicistas - cala-se. O ministro? Duas semanas passadas continua em funções.
 
(Já agora, e porque é a única moeda de que estes trastes percebem: sabem para onde depois vão os votos?)
 
Adenda: A tentativa de ministro e governo se eximirem à responsabilidade relativamente a "contrapartidas" financeiras (com as aspas necessárias diante do termo utilizado para um seguro devido à família amputada do seu pai) é uma coisa inenarrável. Mas a isso soma-se a atitude, que me narram, do ministro Eduardo Cabrita nem sequer ter tido a humanidade de se inteirar no local - por frémito solidário que fosse - do acontecido com o sinistrado, mantendo-se com o seu ministro encerrado na viatura. Algo que mostra, grita, o tipo de homem que ali está, evidentemente depois tentando-se escapulir à assumpção de responsabilidades, políticas, morais, financeiras.
 
Neste caso não há muito a escalpelizar: um carro de ministro em excesso de velocidade atropela um trabalhador em área laboral sinalizada. Grande borregada do condutor, total responsabilidade política do ministro. Um infelicidade absoluta para o falecido, um drama para a sua família. E um infelicidade muito relativa, ainda assim, tanto para o motorista como para o seu mandante. Que deverão arcar com as suas pesadas responsabilidades e, apesar de tudo, seguir com as suas vidas. Mas como esperar isso quando o PM Costa, interrogado sobre hipotéticas responsabilidades num incêndio que causou 60 e tal (65?) mortos, tantos deles numa estrada, teve o desplante de responder "Não me faça rir". "Não me faça rir"!!!..-
 
E tudo se torna ainda mais pérfido se pensarmos não só que Cabrita é o responsável pela Segurança Rodoviária. Mas também no facto de que - na sequência das críticas à "endogamia" do governo passado, pejado de relações conjugais e filiais - a sua mulher deixara de ser ministra. Para agora, dois anos depois, ser "repescada" para um posto muitíssimo bem remunerado (16000 euros mensais, mais ou menos). E que é o de Autoridade de Mobilidade e Transportes, o que imediatamente - mesmo se for algo incorrecto - faz remeter para este acontecimento infausto. Ou seja, o governo (mesmo que Cabrita seja, como é, um péssimo ministro) tem que tentar calar isto. E os avençados, jornalistas, universitários, colunistas, velhos bloguistas do "Jugular" e Câmara Corporativa e actuais Adões e Silvas, têm de redobrar o afã na constante felação ao poder, socorrendo o governo nesta abjecta vergonha.

Uma enorme vaia

Pedro Correia, 25.06.21

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O governo do partido do senhor Ferro Rodrigues proíbe-nos há 15 meses de assistir a jogos de futebol em Portugal e há poucas horas reiterou essa interdição em toda a Área Metropolitana de Lisboa. Alegando motivos sanitários.

Entretanto, o próprio senhor Ferro incentiva os portugueses, proibidos de frequentar estádios em Portugal, a encher um estádio... em Espanha. Por espantosa coincidência, precisamente na zona de Espanha onde existe maior risco sanitário.

 

Obedecendo a fidelidades tribais, há quem bata palminhas a isto.

Da minha parte vai uma enorme vaia.

A ambição do país

Paulo Sousa, 23.06.21

Vivemos num país em que a matemática só entusiasma quando se está num apuramento para, ou durante, uma competição internacional de futebol.

Ainda os jogadores não tinham regressado ao balneário, após a derrota com a Alemanha, e já os mais talentosos matemáticos de bancada tinham sossegado o país com a garantia de que no jogo de hoje, com a França, até podemos perder por dois golos que continuamos na competição.

Se a Selecção das Quinas fosse treinada pelo PS, a táctica teria sempre a derrota como objectivo, mas só por dois golos. Se conseguíssemos esse objectivo ambicioso festejaríamos emocionados essa grande vitória. Se por azar, ou arte do adversário, sofrêssemos o terceiro golo, então a cabeça do responsável de gestão do Regulamento Geral da Protecção de Dados da Federação teria de rolar. Com coisas sérias não se brinca.

Fantastárquico

Sérgio de Almeida Correia, 15.06.21

Untitled.jpg(créditos: Mário Cruz/LUSA/Observador)

 

O processo de escolha do candidato do Partido Socialista à Câmara Municipal do Porto tem todos os ingredientes para se escrever um guião de um filme de terror.

A bem dizer, há muitos anos que por aquelas bandas não surge um candidato digno desse nome saído de um processo de escolha democrático sem escolhos, guerras de paróquia, investidas pessoais e amuos de luminárias. O falecido Pedro Baptista dizia que "aquilo é irreformável", e não estava longe da razão. 

Da indicação oficial de Eduardo Pinheiro, que só resistiu vinte e quatro horas, ao nome de José Luís Carneiro, que obviamente não estava disponível para se estatelar ao comprido, passando pelo nome do agora europeu, e já duplo derrotado em anteriores eleições, Manuel Pizarro, até se chegar a Rosário Gamboa, e agora a Tiago Barbosa Ribeiro, ora dentro, ora fora, foi todo um percurso inenarrável, ao qual a direcção do partido não é alheia e de onde não sai incólume. Ainda menos o secretário-geral.

Naturalmente que qualquer que venha a ser o resultado no Porto, a culpa será de todos eles. Nunca dos portuenses que assistiram incrédulos a tudo o que se passou. E não apenas no PS, também convém dizê-lo. 

Há gente com lugar cativo que se continua a não perceber o que anda a fazer na política e nos partidos. Lamentável.

O estrume

jpt, 10.05.21

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Em tempos João Soares, então ministro da Cultura, bujardou que daria umas bofetadas em Augusto M. Seabra e Pulido Valente, devido a coisas que estes haviam botado na imprensa. A "boca" nem era grave, pirraça dedicada a homens da mesma geração que não tinha sentido efectivo e assim por todos foi entendida. Mas, e apesar de ser um político com passado - não foi mau presidente de Lisboa -, teve de se demitir. Pois há coisas incompatíveis com a gravitas do poder.
 
Agora João Galamba, secretário de Estado de minas e outros negócios, chama "estrume" (aliás, merda) e "asquerosa" a uma rubrica na imprensa, ditos evidentemente dirigidos à senhora que a protagoniza. E nada acontece. O passado político deste Galamba é mais ténue: apenas o socratismo visceral exercido no blog Jugular. Onde, com gente como Palmira Silva, Vale de Almeida e Câncio, entre outros, se defendeu o ex-PM até à última e se promoveu e defendeu com alacridade o ainda artesanal "fake news" avant la lettre de então.
 
Deve ser isto a "compaixão" para com Sócrates e seus esbirros a que a jornalista Maria Antónia Palla apelou há dias no - sempre ele - "Público". Pois Soares, com seus defeitos e qualidades, não foi um socratista. E esta gente, estes Galambas e afins, estes estrumes e asquerosos, foram-no. E assim continuam, neste aggiornamento em formato costista. E por isso realmente convêm a este poder. A este modo de política. Omnívoro.

Videirinhos & Rousseff, Lda.

jpt, 12.04.21

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Na passada sexta-feira não ouvi o juiz Rosa. Li breve sinopse do que ele proferiu. Peço que me corrijam se o incompreendi: Rosa constatou que o antigo PM e ex-secretário-geral do PS é culpado de crimes de corrupção já prescritos e enviou-o para tribunal como réu devido a crimes económicos cometidos enquanto Primeiro-Ministro. Isto é uma verdadeira bomba, um escândalo!

Os agentes do socratismo, os videirinhos a la blog Jugular, atrevem-se agora a gargalhar na internet e a clamar que se desmontou uma incompetente cabala. E até as raríssimas vozes socialistas então menos atreitas a Sócrates limitam-se a criticar a Justiça. Elidem, totalmente, este escândalo. E a cumplicidade do seu partido, de militantes e dirigentes, e dos inúmeros opinadores públicos (académicos e jornalistas em especial) com aquele miserável período. Pois em termos estruturais o pior nem foi a corrupção instalada no poder - algo recorrente em qualquer regime. Mas sim a penosa corrupção do espaço público, feita de cumplicidade e de conivência. Instalada, repito, na Academia e na Imprensa. E estas sonsas reacções mostram como isso não mudou, como essa gente, moles de dependentes, está "pronta para outra"...

Tudo isto é doloroso. Mas temos que sofrer estes nossos compatriotas. Têm o direito de assim serem, por miseráveis que sejam. Mas já diferente é aceitar que uma estadista estrangeira, ex-presidente de um país aliado, se venha intrometer na nossa vida nacional apoiando um réu de tamanho calibre. Que escumalha esta Rousseff.

Isto é jornalismo

Pedro Correia, 06.04.21

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Faz hoje oito dias, registou-se um momento notável de televisão. Um jornalista travou a verborreia de um político que recusava responder às questões que lhe eram dirigidas. Aconteceu na SIC Notícias e cumprimento por isso Miguel Ribeiro, que conduzia a emissão. 

Eram 15.28 dessa terça-feira quando surgiu em antena o deputado socialista Porfírio Silva a propósito da promulgação, pelo Presidente da República, de três diplomas aprovados no Parlamento - apenas com o voto contra do PS - para reforço dos apoios sociais no combate à pandemia. Pretendia a SIC que o parlamentar clarificasse e concretizasse uma crítica ao Chefe do Estado publicada numa rede social.

«Queria tentar perceber as palavras que escreveu no Facebook quando disse que o entendimento do Presidente da República é de uma violação extensiva da Constituição. Porque é que utilizou esta expressão?», questionou o jornalista, no exercício do seu principal dever deontológico, que é o de fazer perguntas. Para assegurar o direito dos cidadãos à informação.

Silva começou por dizer: «Eu respondo já à sua pergunta e não lhe vou fugir.» Mas fugiu mesmo, mandando a promessa às malvas. E desatou a debitar a cartilha do PS, utilizando aquele tempo de antena para mera promoção do Governo e do partido. 

Às 15.32, Miguel Ribeiro insistiu: «Porque é que acha que o Presidente da República tem uma interpretação abusiva da Constituição?» O parlamentar continuou a fugir à pergunta e a refugiar-se na catequese partidária.

Até que o jornalista perdeu a paciência perante tanto desrespeito à sua função em antena - que é a de obter respostas, não propaganda. «Vai andando à volta e não responde», concluiu, cortando a palavra ao sonso que afrontara Marcelo na rede social mas se furtava à polémica em televisão.

Eram 15.39: tinham passado onze minutos. Voltava a imperar o jornalismo, a cartilha era devolvida ao Largo do Rato. Lá é que está bem.

«A realidade vence sempre»

Excelente entrevista de Sérgio Sousa Pinto

Pedro Correia, 30.03.21

A entrevista já foi dada à estampa há uns dias, no Público, mas venho muito a tempo de chamar a atenção para ela. Uma longa entrevista a Sérgio Sousa Pinto - deputado, presidente da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros, membro da Comissão Nacional do PS e antigo líder da Juventude Socialista - conduzida por Maria João Avillez.

Vale a pena ler com atenção.

 

Destaco três excertos, com a devida vénia:

«Ou mudamos ou acabaremos numa Suécia fiscal implantada numa Albânia económica. A classe média já exporta os filhos licenciados. Um dia esses filhos enviarão remessas para financiar a velhice dos pais. O colapso da classe média significará a inviabilidade do País e do nosso regime democrático. Chega de propaganda, chega de atirar palavras contra a realidade. A realidade vence sempre.»

«Esta subversão das coisas prende-se também com o modo como se geram hoje os partidos. Há uma preferência pela subordinação e há uma cultura intimidatória: tudo pelo chefe, nada contra o chefe. É por isso que vamos aos congressos partidários e aquilo é um enfado insuportável... Como em nome da democracia se inventou a eleição directa dos líderes, o resto dos trabalhos é um cerimonial sem sombra de interesse. Bem sabemos que as mudanças para pior são sempre ditadas pelas melhores razões: mais democracia, mais transparência, mais tudo, enquanto construímos uma gaiola de bondades que vai arruinar o regime.»

«Não é possível funcionar assim: tanto poder ao líder, tanta insignificância aos indivíduos. O PS e o PSD serão em breve incapazes de gerar personalidades, transformados como estão em máquinas trituradoras. Não geram personalidades e a democracia é um regime de personalidades, é um regime de vozes. Hoje só há coros.»

Remover Padrão e afins...

jpt, 24.02.21

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Vem aí a Primavera. E a bazooka financeira europeia, cujas virtudes indutoras não nos vão sendo aventadas, enquanto a sua fiscalização alhures foi já algo acautelada. A prevenção invernosa da epidemia foi uma catástrofe. O início da vacinação foi algo atrapalhado, com uns mariolas do poder a palmarem umas doses para uso próprio. Sob uma ministra da saúde que tende a considerar criminosos os que se lhe opõem, as críticas a tal desatino são consideradas antipatrióticas. Com tudo isso concorda um punhado de intelectuais, ditos antifascistas, que, ao consagrado estilo de José Sócrates, se erguem contra "as perguntas do Correio da Manhã", apelando ao controlo dos meios de informação e ao descarado expurgar de críticas ao governo - entre outros surgem escritores (atrás de minha casa a escola chama-se Alice Vieira, estamos a formar crianças no respeito a uma censora e isto vem pacífico à sociedade); académicos (notória a presença do abissal CES nesse painel de patrióticos censores), ou o antigo e a actual directores do Museu do Aljube (estes dois militantes do PCP nem têm o pudor de tentar fazer esquecer o execrável vínculo  nepotista que manusearam na conquista daquele lugar na administração pública). Entretanto outras coisas menores vão acontecendo: a TAP intervencionada soçobra, com o autoproclamado "corajoso" Pedro Nuno Santos aos comandos da aeronave; ninguém atenta enquanto o engenheiro Sócrates jagoza sem acusações que se vejam; e o banqueiro do regime constata, decerto que aliviado, que nunca será Fouquet. O ministro da Educação incumpre sonantes e repetidas promessas. Os profissionais do sector cultural, na maioria de mundivisões "à esquerda", constatam - talvez antipatrioticamente - o tipo de ministra que lhes coube em tutela. E, lá bem no fundo, até pouco relevante, a economia nacional é uma "devastada armada" e mesmo que o infame Passos Coelho nos mande emigrar não há, agora, quem e onde nos acolham...

No meio de todo este deserto de problemáticas, a actualíssima "questão colonial" veio congregar atenções, catapultadas pela investida do codicioso dr. Ba, que o demonstra poderoso ariete do "team" governamental, qual Ibrahimović (eu preferiria dizer Lukaku, até pelo seu extraordinário desempenho no último derby milanês, corolário do recente conflito pessoal entre os dois magníficos avançados. Mas decerto que, face às sensibilidades actuais, alguns diriam "racista" essa minha analogia), capaz de driblar atenções e preocupações da "moldura humana", em épocas transactas dita, e temida, "eleitorado volátil".

É no âmbito desta "operação racial" que a remoção do Padrão dos Descobrimentos lisboeta acaba de ser colocada a debate público pelo Partido Socialista, por intermédio de um dos seus deputados à Assembleia da República. Passada uma semana dessa proposta o carácter partidário - e não meramente pessoal - desta iniciativa torna-se notório, mesmo evidente, face ao silêncio (sempre ele anuência) que colheu da direcção do PS e, também, do presidente da Câmara de Lisboa, até porque este figura grada do partido e sempre dito putativo seu futuro líder. Para confirmar a dimensão partidária deste novo conflito político - e não meramente "questão cultural", como alguns resumem - logo de seguida o PAN, um dos partidos que sustentam o actual governo, propôs a remoção de pinturas da Assembleia da República, devido aos motivos históricos que nelas constam. Pois dirá o dr. Costa, e seus fiéis correligionários, antes discutam a "Pátria" de antanho do que façam críticas antipatrióticas actuais. Ou seja, que digam mal do governo, como é timbre desta plebe viciosa e desrespeitosa.

Enfim, desabafo feito, digo ao que venho. Será curial mas não muito elegante aproveitar este blog para chamar a atenção para textos no meu blog pessoal, o discreto Nenhures. Mas faço-o hoje. Pois a propósito deste "bota-abaixo o Padrão" o meu amigo Tiago Matos Fernandes - que conheci há décadas em Moçambique, onde trabalhou como voluntário e depois investigou para a sua excelente tese de mestrado -, botou um belíssimo texto no facebook, "o mundo num postal de facebook" como lhe disse. O Tiago pouco ou nada concordará com o ditirambo que eu aqui acima coloquei. Mas ainda assim deixou-me colocá-lo lá no Nenhures. Não o coloco aqui pois é algo longo para um blog colectivo e generalista. Mas muito o recomendo e por isso convido os leitores do DO a lerem-no: Enquanto Vasco da Gama dormia.

 

Sobre o funeral de Marcelino da Mata

jpt, 20.02.21

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É certo que um antigo disse que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Mas outro escreveu que nada há de novo sob este Sol. E assim o problema de se blogar há já 18 anos é que, quase certamente, já se botou algo sobre a maioria das coisas que vão acontecendo.

A morte do tenente-coronel Marcelino da Mata provocou polémica - decerto que incrementada pela generalizada inactividade neste Covidoceno. E que foi muito potenciada pela presença do Presidente da República no seu funeral. Várias vezes já aqui invectivei o histriónico exercício presidencial de Sousa, forma de preencher a vacuidade do seu projecto político, apenas pessoalista - anacronicamente  mimetizando o modus faciendi tardo-imperial do seu digníssimo pai, aquando Governador-Geral de Moçambique. Cabota desprovido de gravitas, minando a auctoritas da função, a esta esvaziando, reduzindo-a a influência dependente das fragilidades conjunturais dos outros órgãos de soberania. O eleitorado (também conhecido por "povo") gosta e vota. E Sousa recompensa-se nisso. E o país deficita. Para não dizer definha.

Nesta ocasião isso é evidente. Alimentando uma situação em que - apesar deste contexto de crise gravíssima e de urgentes decisões estratégicas- , o país mediático está de novo - como o vem estando desde há quase dois anos - encerrado no confronto das minorias demagógicas, os ultramontanos saudosistas face aos revanchistas identitaristas, estes acalentados pelo Partido Socialista no âmbito da sua estratégia de dominação dos diversos feixes da esquerda urbana. Serve isto para articiosamente acirrar campos, nada mais.

Sobre este assunto é certo que há algumas vozes ponderadas, mas são escassas: o texto "Memórias de Sangue" do socialista Sérgio Sousa Pinto é um exemplo de sageza. Mas que ficará dele retido quando no mesmo dia um seu correligionário, o deputado Ascenso Simões, estuporadamente lamenta não ter havido mais mortos no 25 de Abril (bem mais agressivo e incompreensível do que o activista Mamadou Ba quando na academia, citando Fanon, convocou a "morte do homem branco" - da mundivisão dominante)? Propondo ainda Ascenso Simões, a coberto do revisionismo patrimonial, que se derrube o Padrão dos Descobrimentos?

Mas enfim, o que me convoca aqui é esta continuada incontinência do Presidente Sousa, a sua imponderação. Durante esta semana, diante deste despautério - repito, potenciado pela sua presença no funeral do tenente-coronel Mata, símbolo da africanização das tropas portuguesas - recordei-me de um texto que botei em 12 de Julho de 2004. Sobre a ausência do então Presidente Jorge Sampaio do funeral de Maria de Lurdes Pintassilgo - de quem ele era, pelo menos ideologicamente, bem próximo. A demonstrar que há outras formas de exercer o poder. E que são melhores, mais sagazes. Mais competentes. Mesmo que discordemos politicamente dos agentes políticos. E mesmo que menos beijoqueiras. Aqui reproduzo o texto:

O Poder e a Morte

"A ausência de Jorge Sampaio foi muito notada mas um dos seus assessores lembrou que o Presidente "nunca vai a funerais." (no "Público", em notícia a propósito da morte de Maria de Lurdes Pintassilgo, falecida a 10 de Julho desse ano). Notam, reparam, no sagrado do poder? O do rei sagrado, chefe tradicional, ungido pelos deuses, actual antepassado, centro da sociedade, ponto meridiano do cosmos, descendente e representante do passado, garante da continuidade, aquele que faz chuva, que ordena as estações, que faz frutificar, aquele que nos leva até ao futuro, o que dá vida. Esse nunca, mas nunca, vai a funerais, não se conspurca com a morte. Não periga a fertilidade de que é representante, garantia, "banco", "carteiro". Não a periga com a poluição do fim. Da morte infértil, caótica.

Nada critico, pelo contrário. Fico surpreendido, e deliciado, ao saber que a instituição política mais importante de Portugal, dotada de mais simbolismo [mais alto (magistrado), comandante em chefe, garante, árbitro, etc], concebido como figura central do sistema político português, pelo que da própria sociedade, cumpre um tabu (e sai termo vulgar), o tabu da morte, que é recorrente numa pluralidade de outras sociedades. Algo do simbólico do poder que eu nunca tinha percebido no meu país. Excelente. A mostrar continuidades no nosso Portugal moderno, racionalista. Até laico. Pois esta arquitectura da função presidencial não deriva de dificuldades com o "sobrecarregar de agendas" ou de "critérios optativos". Mas sim de avisadas continuidades do não-dito. Tantas vezes do não-pensado. O ritual do poder, assim sua essência.

O próximo texto sobre a matéria será quando vir um PR presente num funeral. Pois isso significará algo. E não será para o criticar, mas sim para tentar perceber as causas de tamanha inflexão.

ADENDA:  Comentadores referem-me que o PR frequenta funerais dos seus pares estrangeiros: mas essas são mortes estrangeiras, forasteiras, no exterior, não poluem a nossa ordem fértil, não perigam a nossa saúde. 

As vacinas

jpt, 02.02.21

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As gentes do "aparelho de Estado" andam a safar-se, e aos seus, vacinando os parentes, amantes e até o pessoal das pastelarias às quais vão tomar os abatanados. O tipo que chefia a vacinação - que é "do Bloco" e ainda se julgará nos palanques da campanha presidencial, e talvez por isso se tenha esquecido de regulamentar sobre as doses sobrantes - diz que os que se zangam com isto são os do CHEGA (apesar de até o antigo governante Seixas da Costa, nunca avesso ao PS, ter protestado...). 
 
No meio disto há (pelo menos) dois presidentes de câmara a mafiarem a vacinação. O gajo de Reguengos de Monsaraz - esse que preside àquele lar onde imensos velhos morreram não exactamente por causa dos "médicos cobardes" (Costa dixit) mas por cúmulo de desidratação. Ou seja, por não terem sido alimentados convenientemente, o que em bom português se diz morreram de fome. E a gaja de Portimão, que diz que é gorda.
 
Ora ambos são do PS, partido do governo. Dada a bronca geral esperar-se-ia uma reacção partidária, célere, a dessolidarizar-se com tais militantes e tais práticas. Talvez não do seu secretário-geral, pois Primeiro-Ministro, muito atarefado em era pandémica e presidência europeia. Com toda a certeza que não do seu presidente, o açoriano Carlos César, pois deficiente ético profundo, assim incapaz de actuar neste caso. Mas porventura por parte desta senhora, comentadora televisiva, parceira ("amiga e camarada") de Pacheco Pereira. E secretária-geral adjunta do partido desses autarcas. Mas não tuge. Nem muge. 

Coincidências

João Sousa, 05.01.21

Há dias, Catarina Martins lamentou, a propósito da polémica que está a rodear o procurador José Guerra, que "informações falsas em currículos sejam situações comuns de mais em Portugal". Catarina Martins surpreendeu-me: talvez com a sua acutilância ainda tolhida pela digestão das pesadas ceias natalícias, ela, que tantas vezes no passado se mostrou rápida e sinuosa nos saltos de lógica, escolheu agora um simples "informações falsas em currículos são demasiado comuns em Portugal" para se lamentar.

Acontece que Catarina Martins, muito cirurgicamente, está a cometer um erro de análise.

O que aqui está em causa, ao contrário do que ela diz, não é o frequente (na nossa política) embelezamento do  próprio currículo. O que aconteceu não foi um político anunciar-se engenheiro quando não passa de um licenciado, fazer exames por fax, completar licenciaturas com equivalências, conseguir o canudo dias antes de ser nomeado para cargos públicos que o exigem, ou fazer cursos de qualidade manhosa. O próprio José Guerra já declarou não ter tido nada que ver com a tal carta enviada pelo Estado português. O que aconteceu, e que já está a ser discutido na Europa civilizada, foi o Estado português ter enviado, como justificação da sua não aceitação da escolha feita pelo comité europeu de selecção, uma carta onde embelezou o currículo do "seu" nomeado.

Admito que tenho atravessado esta polémica com alguma indiferença - não por achar que não tem importância, mas por já não me conseguir surpreender com o que é "apenas mais uma" questão mal explicada. Contudo, movido pela curiosidade, fui pesquisar o que já foi publicado sobre estes personagens. Fosse eu pessoa maldosa ou desconfiada, ficaria preocupado. Não o sendo, presumo tratar-se apenas de um imenso rol de coincidências.

É coincidência, seguramente, que o irmão de José Guerra tenha sido quem viabilizou, enquanto presidente do Instituto de Conservação da Natureza, a construção do Freeport.

É coincidência, de certeza, que José Guerra tenha sido nomeado pelo governo de José Sócrates para o Eurojust quando "já decorriam investigações à viabilização e implantação do outlet em Alcochete".

É coincidência que um dos seus colegas no Eurojust tenha sido José Lopes da Mota, suspenso por 30 dias em 2009 por pressões exercidas sobre os procuradores que investigavam em Portugal o caso Freeport.

Só pode ser coincidência, estou seguro, que Van Dunem tenha sido, em 2009, "o único elemento do órgão disciplinar do Ministério Público a votar contra a penalização de José Luís Lopes da Mota" (e nomeou-o, há seis meses, para seu conselheiro com a missão de "apoiar a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia").

É coincidência, só pode ser, que o júri constituído dentro do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) para avaliar as candidaturas a este cargo de procurador europeu apenas tenha definido o valor de cada um dos critérios de avaliação depois de saber quem eram os candidatos. E só pode ser coincidência que um desses critérios fosse interpretado de forma suficiente livre  para dar vantagem a José Guerra: "(...) os conselheiros decidiram que, para o concurso de procurador nacional na Procuradoria Europeia, o critério da "experiência como magistrado do Ministério Público" seria interpretado no sentido da "antiguidade na magistratura". Ou seja, por exemplo, um procurador com 20 anos de carreira, mesmo que 15 fossem passados nos Tribunais de Família e Menores, seria considerado como tendo mais experiência do que outro com 10 anos de serviço, nem que todo este tempo fosse a investigar fraudes com fundos europeus. Curiosamente, esta interpretação foi ao encontro do candidato José Guerra, que ocupa a 21ª posição na lista de antiguidade, enquanto Ana Carla Almeida está na 22ª."

Só pode ser coincidência que o júri europeu tenha ignorado a classificação dada pelo júri do CSMP e tenha escolhido, para um organismo destinado a investigar crimes económicos no espaço europeu, a procuradora Ana Carla Almeida por causa da sua maior experiência em... investigação de crimes económicos.

E que outra coisa pode ser senão coincidência que Ana Carla Almeida, tão energicamente (e atabalhoadamente) preterida pelo governo português em favor do seu special one José Guerra, seja a procuradora que, em Setembro de 2019, avançou com buscas à ANPC e ao MAI por suspeitas de favorecimento a uma empresa do marido de uma autarca do PS no caso das "golas da Protecção Civil", e seja também a procuradora do processo que envolve suspeitas de fraude em fundos europeus relacionado com a empresa Go Big or Go Home, que pertenceu a um antigo secretário de estado socialista?

Sim, tudo isto são coincidências. Que outra coisa havia de ser? Alguns, encostados a um certo poder, serem protegidos e premiados - e outros, que se metem com ele, levarem? Não: recuso-me a acreditar nisso. Afinal, estamos num Estado de Direito e somos um país da Europa, não é?

O Brasão Dourado

jpt, 04.01.21

ministra.jpe

Antes de tudo quero dizer que cá em casa tenho uns bibelots iguaizinhos aos da ministra. Depois será interessante dizer que em 2015 o novo governo encontrou o país algo em alvoroço: enormes trapalhadas com os grandes bancos privados e suas algo esconsas ligações à banca pública e ao poder político, as quais devastaram as finanças estatais; o antigo primeiro-ministro acusado de crimes gravíssimos. Ainda assim o Presidente eleito era íntimo do banqueiro cerne daquele rombo financeiro e o novo governo encheu-se de antigos colegas do ex-primeiro-ministro, como se nada tivesse acontecido, entre a usual e curial presunção de inocência do réu Sócrates e a extraordinária presunção da candura generalizada da elite do PS. Nesse ambiente, mais que não fosse, seria de esperar que o poder político procurasse com denodo reforçar a confiança do país na sua justiça, ser nesse âmbito mais ainda do que "mulher de César", no hastear da bandeira da radical separação de poderes, da não intromissão governamental no reino da Justiça. Sarar, por assim dizer, as feridas de parte substancial da população, magoada com o socratismo e seus elos com Espírito Santo, descrente face à imagem da costumeira impunidade jurídica dos poderosos. Tal não veio a acontecer. E o afã em afastar (por "tradição", disse-se com impudicícia) a anterior Procuradora-Geral mostrou bem esse sentimento de desnecessidade em religar a sociedade - em afivelar a justeza do comportamento governamental -, objectivo irenista afinal tão propalado pelo presidente Sousa quando abordando temáticas mais comezinhas do que as ligações do seu íntimo Espírito Santo com o partido charneira da então "geringonça".

Entretanto o tempo longo vai passando. Espírito Santo e tantos outros seus colegas cruzam em paz os seus "anos dourados". O engenheiro Sócrates, ainda que já descrente em vir a ascender a Belém, torna-se um freguês jagoz, sem mais. Os seus antigos colegas e/ou subordinados, governam, sem qualquer rebuço. Ou seja, o regime manteve-se, impune - e até hierático, apesar do popularucho toque do seu presidente. 

Este caso do envio do procurador Guerra para a Europa é demonstrativo da soberba governamental, da cegueira face às chagas que existem, uma descrença social que não se cura com "selfies" de Sousa. O ministério da Justiça entendeu nomear Guerra, ao invés do pretendido pelas instâncias europeias - e reclama ter feito isso por acordo com órgãos corporativos nacionais. Mas para fazer essa proposta "doirou o brasão" do procurador preferido, falseou informações oficiais sobre o seu percurso. A ministra nega a relevância do facto, tudo reduz a um "lapso". Depois, decerto que pressionada, aceita a demissão do seu director-geral responsável pelos serviços que promoveram o documento falseado. Este demite-se invocando a "responsabilidade republicana", a de assumir as falhas dos serviços que dirige. E deixa referido que apresentara o tal documento à ministra antes de o enviar, que ela teve conhecimento (compreensivo, entenda-se) do seu conteúdo. 

A bofetada é gigantesca. Só menor do que a indignidade governamental. Isto até arrepia.

Adenda: o comunicado da DGPJ que explicita que o documento falsário foi do conhecimento do Gabinete da Ministra foi apagado do sítio do Ministério da Justiça. Isto é uma vergonha, patética.

Debates

jpt, 03.01.21

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Noite já longa vi em diferido o combate Ferreira/Ventura. Ferreira mal preparado, pois oscilando, como se indeciso, entre o "estilo estadista" e o "gingar morcão". Assim, e porque muito mais homogéneo na táctica da "pressão alta", e já mestre na "finta jagunça", Ventura sovou.
 
Para descansar da épica peleja segui para o confronto Matias/Sousa. Um encanto: ela gentilíssima com o professor. Este gentilíssimo com a deputada, e muito a louvando bem como ao seu BE, e também para com o aprazível moderador, que inclusive foi coadjuvando. Sousa é Sábio. Ou seja, Sousa Rules!
 
Entretanto acordei e fui ver a entrevista da ministra da Justiça na RTP, a propósito deste caso da transferência do procurador Guerra para a Europa. Um pouco abespinhada, é certo, mas coberta de razão. Pois, como culminou, o populismo germina nestas coisas, nesta forma rasteira de fazer política. Repare-se, como nos lembrou, que esta "oposição" demagogicamente foi buscar uma carta (aliás, "nota de trabalho" do seu ministério) "do ano passado". Ou seja, denuncia que se vasculhe o processo de óbvio favorecimento de uma candidatura. Porque foi ... no passado.