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Dois (mais um)

por João Sousa, em 27.10.19

Vou lendo por aí que os membros do governo, ontem, viajaram em dois autocarros da Carris (com um terceiro de reserva) fretados para tal acção de propaganda. Para transportar tanta gente, imagino que os autocarros usados tenham sido deste modelo:

autocarro da tomada de posse

Fora da caixa (24)

por Pedro Correia, em 05.10.19

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«Aquele que no dia da eleição ou no anterior fizer propaganda eleitoral por qualquer meio será punido com prisão até seis meses.»

Lei Eleitoral, art. 141.º

 

Cá estamos todos a "reflectir". Excepto os 60 mil compatriotas que optaram pela votação antecipada, há uma semana: esses não tiveram direito a reflexão com chancela oficial e 24 horas para o efeito inscritas no granito da lei - confirmando assim que aquele verso da cantiga, «em cada rosto igualdade», é pura treta.

Se o sol nascesse para todos, cada um de nós disporia dum dia inteirinho para reflectir, votasse quando votasse. Verifico que, em flagrante violação dos princípios constitucionais, aqueles mais se apressam a cumprir este relevante dever cívico são afinal penalizados: o Estado que nos pastoreia com os seus códigos e o seu fisco esquece-se deles, trata-os como eleitores de segunda, forçando-os a votar sem o período de reflexão legal que assegura aos restantes cidadãos.

 

Dizem-nos também que este é um dia de abstinência política, em evidente sucedâneo dos ancestrais jejuns de estrita obediência religiosa. Na era das redes sociais, este sacrossanto mandamento tornou-se ainda mais obsoleto: só a força da inércia tem impedido os doutos legisladores cá do burgo de o remeterem para o caixote do lixo da História - medida que só pecaria por tardia. Há desde logo uma clara correspondência etimológica entre abstinência e abstenção, o que não me parece muito estimulante enquanto factor de incentivo ao voto.

Mas todas as tradições acabam por ser quebradas. Também esta, a da interdição da propaganda política em véspera do exercício generalizado do direito a eleger quem nos governará na legislatura que vai seguir-se.

Bastou percorrer os telediários de hoje, mal soaram as badaladas da meia-noite.

 

Abertura do Jornal da Meia-Noite, na SIC Notícias:

«A DBRS subiu o rating da dívida soberana de Portugal, que está agora no terceiro nível acima do lixo. A agência canadiana explica a decisão com a melhoria persistente em vários indicadores-chave do rating. A DBRS espera ainda um compromisso com uma gestão orçamental prudente, independentemente do resultado das eleições de domingo.»

Quarta notícia do 24 Horas, na RTP 3:

«A agência de notação financeira DBRS subiu o rating de Portugal. Passou agora para o nível estável. É o terceiro acima de lixo e é o mais elevado dos últimos oito anos. A SBRS é a agência que tem a classificação mais elevada para a dívida portuguesa.»

Notícia igualmente destacada na 25.ª Hora, da TVI 24:

«A agência canadiana de notação financeira DBRS subiu o rating de Portugal. Uma notícia divulgada seis meses depois de a agência ter dito que ponderava rever em alta a notação de Portugal e em vésperas de eleições legislativas. De acordo com a agência de notação financeira canadiana, o risco do crédito de Portugal tem agora a classificação de BBB+, um nível acima da avaliação feita no início de Abril. Entenda-se que esta avaliação é aplicada à capacidade de um país pagar a sua própria dívida. A letra A indica a melhor classificação e a C ou a D considera o risco especulativo, também designado como "lixo". Também a perspectiva sobre a dívida portuguesa melhorou de estável para positiva.»

 

Bingo! Até uma agência financeira com sede no outro lado do Atlântico contribui para a ponderação do nosso voto.

Dá que pensar neste dia de reflexão.

Fora da caixa (17)

por Pedro Correia, em 28.09.19

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«A justiça trata da justiça e os políticos tratam da política.»

António Costa, ontem, no Porto 

 

O Ministério Público já interveio pelo menos duas vezes nesta campanha eleitoral: a 18 de Setembro, ao constituir arguido o secretário de Estado da Protecção Civil, forçado a demitir-se; e a 26 de Setembro, ao deduzir acusação contra o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes.

Felizmente, sucessivos responsáveis têm tranquilizado a opinião pública, assegurando não existir gestão política dos processos judiciais. Ficamos, naturalmente, todos muito mais descansados.

 

O Instituto Nacional de Estatística já interveio pelo menos duas vezes nesta campanha eleitoral: a 23 de Setembro, ao anunciar a revisão das cifras macro-económicas de 2017 e 2018 devido a uma oportuna «combinação de alterações metodológicas com a incorporação de novos dados»,  propiciando títulos como este, do Público: «PIB mais alto e défice mais baixo»; e ontem, ao antecipar estimativas sobre o desemprego referentes ao mês de Agosto que permitem títulos como este, da TSF: «Valor mais baixo desde 2002.»

Felizmente, sucessivos responsáveis têm tranquilizado a opinião pública, assegurando não existir instrumentalização dos organismos do Estado para efeitos de propaganda governamental. Ficamos, naturalmente, todos muito mais descansados.

Pago jornal, levo propaganda

por Pedro Correia, em 25.04.19

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Compro um exemplar do jornal espanhol El País, que com a actual directora regressou aos tempos de colagem despudorada ao Partido Socialista, e salta-me lá de dentro um panfleto eleitoral com esta carantonha que parece de um foragido de Alcatraz.

Pego na coisa com a repugnância de quem se sente servido por gato a preço de lebre e questiono-me se é isto que querem aqueles que em Portugal reivindicam a todo o tempo que a imprensa "assuma" preferências partidárias. Lamento contrariá-los, mas prefiro o modelo português. Detesto que na compra de um jornal me ofereçam propaganda partidária em jeito de brinde. E só abriria uma excepção a esta inabalável regra se no panfleto eleitoral do PSOE me surgisse a inspiradora imagem que se segue.

 

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Despudor

por Pedro Correia, em 11.01.19

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António Costa não brinca em serviço. Nestes dias - sem falhar um - tem cultivado a propaganda mais descarada, dominando a agenda mediática com temas que parecem demonstrar enorme dinamismo do seu governo mas que são afinal meras repetições de medidas anteriormente divulgadas ou anúncios de obras sem a menor garantia de que passarão do papel. 

Foi assim na terça-feira, ao alardear com enorme pompa e circunstância que estava tudo a postos para o arranque da construção do aeroporto do Montijo - que afinal, como logo se apurou, é um projecto ainda sem asas para voar por falta de um instrumento imprescindível: a luz verde dos especialistas ambientais, tanto portugueses como comunitários.

De resto, o único relatório de impacto ambiental até hoje elaborado chumbou o projecto. Nada disso obstou a que a propaganda ocorresse, com direito a um descomunal tempo de antena - sem contraditório - em todos os canais televisivos.

 

No dia seguinte, passou-se do aeroporto para o metropolitano e do Montijo para Lisboa. Com o mesmo procedimento digno dos melhores manuais de marketing político: Costa, acompanhado de gorda comitiva, fez-se filmar e fotografar em estações do metro para anunciar o prolongamento da linha amarela e verde que há muito fora já tornada pública.

Nada havia, de facto, para noticiar - excepto que o projecto da linha circular, anunciado em Maio de 2017 com conclusão inicial prevista para 2021, irá sofrer pelo menos dois anos de atraso, não se comprometendo agora sequer o primeiro-ministro com a data de 2023 para o corte da respectiva fita.

Ainda assim, fez-se mais uma monumental sessão de propaganda.

 

Hoje Costa ruma a Évora para outra despudorada sessão de embuste político. Anunciando que o futuro Hospital Central do Alentejo, a construir ali, é «prioritário enquanto obra estruturante», blablablá, patati patatá.

Trata--se da mesma  obra virtual que mereceu anteriores fluxos de propaganda governamental. Com idêntico despudor.

Em Outubro de 2017, o Executivo socialista fez constar que o novo Hospital de Évora seria «prioridade» a inscrever no Orçamento do Estado para 2018. 

Há precisamente um ano, em Janeiro de 2018, o Governo anunciou a dotação de 40 milhões de euros para o arranque da construção deste hospital, no âmbito da reprogramação do programa Portugal 2020, com início previsto para daí a meses. O ano terminou sem que nada se visse.

Em Outubro de 2018, coube ao ministro das Finanças reeditar o anúncio, apresentando matéria antiga como se fosse novidade. E sem qualquer compromisso com prazos, o que dá sempre muito mais jeito para quem apregoa a mercadoria.

No meio de tudo isto, ninguém parece corar de vergonha.

 

Não sei o que mais criticar. Se a falta de decoro dos responsáveis governativos, se a falta de memória deste jornalismo preguiçoso e distraído que engole notícias comprovadamente em terceira mão, as coloca sem sobressaltos de consciência no micro-ondas e as serve ao público como se fossem novidade absoluta.

Expressamente

por Pedro Correia, em 26.12.18

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Ah, doce país este, em que aquele que é considerado o mais influente jornal cá do burgo, ao lado de uma manchete com pura propaganda governamental, elege como notícia mais relevante da semana, ao alto da sua primeira página, nada menos que isto: «Expresso abandona o saco de plástico». Em nome da «sustentabilidade do nosso planeta» e em parceria com um destacado grupo empresarial português, naturalmente mencionado com todas as letras. Para ficar bem claro que naquela respeitável montra jornalística a propaganda não é só política. Expressamente.

Os Telefonemas da Proximidade

por Rui Rocha, em 01.05.18

Em declarações recentes, a Ministra da Justiça manifestou o seu entusiasmo com a evolução da actividade dos Juízos de Proximidade. Os números são de facto impressionantes. Estão a funcionar neste momento 43 unidades. No primeiro trimestre de 2018, realizaram-se 364 Julgamentos de Tribunal Singular. Em média, realizaram-se 2,8 Julgamentos por Juízo de Proximidade por mês. Mas a coisa não fica por aqui. Nestas unidades, praticaram-se, no mesmo trimestre, 55.831 actos. Nestes incluem-se, designadamente, actos praticados no Citius, registo de actos avulsos, fases informativas, conta/liquidação, actualização de intervenientes, emissão de registos criminais e cumprimento de despachos. Se tivermos em conta que os Juízos de Proximidade contam com uma equipa de dois funcionários, cada um deles praticará, em média, o arrepiante número de 10 actos por dia útil de trabalho, sem contar com o preenchimento do euromilhões às 3as e 6as feiras. É claro que, de acordo com dados oficiais do Ministério da Justiça, está incluído nestes o atendimento telefónico de mais de 13.000 chamadas. É algo surpreendente que o atendimento telefónico que, por natureza pode ser feito em qualquer local, conte para os números deste serviço de proximidade. Mas isso devo ser eu que não valorizo suficientemente a vantagem de um cidadão de Ansião ser atendido por um funcionário que tem o sotaque da terra. Ou o de a Dª Fatinha do Cadaval ligar para o Juízo de Proximidade e ter o seu primo Tonico a fazer-lhe uma consulta no Citius. Em todo o caso, se expurgássemos as chamadas telefónicas dos actos de proximidade, os diligentes funcionários deste serviço teriam praticado ainda assim 8 actos diários, sempre sem contar com o preenchimento do euromilhões. Uma canseira. Felizmente, hoje, Dia do Trabalhador, podem estar calmamente nas suas casas, sem terem de passar o dia com a angústia de inventarem formas de ocupar o tempo.

Notas sobre o Focus Group e assim

por Rui Rocha, em 26.11.17

1 - É óbvio que o governo utilizou o estudo do focus group e o evento de hoje em Aveiro como instrumento de propaganda política. É, pois, uma imoralidade utilizar dinheiros públicos para financiar uma acção promocional descarada de Costa y sus muchachos.

2 - A validade da metodologia e a probidade de quem agora ou antes (Carlos Jalali ou Marina Costa Lobo) conduziu o estudo não estão em causa. Mas o que é claro é que os académicos não perceberam (ou não quiseram perceber) que uma coisa é a validade científica e outra, bem diferente, é a instrumentalização do seu trabalho para uma manobra de lavagem e promoção de imagem à custa do dinheiro do contribuinte. A intervenção de hoje de Jalali, focada na metodologia e na sua credibilidade, é bem o exemplo disso. Não é obviamente esse o ponto fundamental da discussão. É penoso ver alguém com créditos académicos prestar-se ao papel de idiota útil ao serviço dos propósitos do governo.

3 - O evento está, em todo o caso, morto e enterrado. Aquilo não funciona. Não há entusiasmo. Não há sequer aparência de contraditório que crie uma percepção de credibilidade. Nada daquilo é verosímil. Se o que Costa pretendia era projectar uma imagem de proximidade e transparência, tudo o que conseguiu provocar foi um enorme fastio. Não fosse a polémica prévia e ninguém teria suportado aquilo mais de 10 minutos. Assim, os mais resistentes terão chegado aos 15. Este modelo de comunicação não conseguiria entuasiasmar um exército de formigas ainda que lhes acenasse com um pacote de açúcar.

4 - O governo deu este fim de semana dois sinais claros de que se encontra numa situação fragilizada e que sente que perdeu o contacto emocional com os eleitores. Ontem, pôs todos os ministros na estrada, nas mais diversas iniciativas um pouco por todo o lado. Eduardo Cabrita esteve na inauguração do Centro Regional do Sistema de Alerta de Tsunamis, no Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Centeno visitou a Alfândega do Aeroporto de Lisboa. Manuel Heitor, da Ciência e do Ensino Superior, foi a Matosinhos e a Braga para lançar uma nova iniciativa – «Manhãs Com Tecnologia». Hoje, foi o que se viu. Uma tentativa falhada de falar com o país em ambiente controlado, fazendo lembrar, nos propósitos e no contexto, as Conversas em Família de Marcello Caetano. Seguramente, não será pondo os membros do governo a esvoaçar como libelinhas tontas ou com iniciativas de comunicação postiças que Costa recuperará da imagem que, por sua inépcia, viu degradar-se nas últimas semanas.

Mais do que prestarem um serviço público, as companhias áreas de bandeira foram instrumentos da política externa dos Estados. A Turkish Airlines, certamente por excesso de zelo, levou a coisa um pouco mais longe e assumiu o papel de veículo de propaganda do regime liderado pelo presidente Recep Tayyip Erdoğan. E fê-lo com a subtileza e com a elegância de um choque frontal entre dois Airbus A340.
Mão amiga – uma expressão lamentavelmente caída em desuso – mostrou-me há umas semanas a revista de bordo da companhia aérea turca. Esta edição apenas existe em turco e, pelo que pude perceber, só está disponível em voos regionais. Junto a este post algumas fotos que fiz a essa publicação, pedindo desculpa pela fraca qualidade das imagens.
Em 1984, Orwell escreveu que quem controla o passado, controla o futuro. Cientes disto e da consequente necessidade de consolidar uma versão oficial da História, a Turkish Airlines diz ao que vem logo na capa e na contracapa. Imagens épicas e com imenso potencial iconográfico dos “protestos pró-democracia”, isto é, das manifestações de apoio ao presidente no momento em que decorria um estranho golpe de Estado, marcam o tom da revista (ver imagem abaixo).

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Um ataque à pátria requer inimigos. Se houver conspiração, tanto melhor. E se essa conspiração tiver ramificações internacionais então é um mimo para a máquina de propaganda. A revista da Turkish resume tudo isto com mestria (ver imagem seguinte). De um lado, fotos das detenções dos golpistas, encabeçadas por uma cronologia dos “factos” – a narrativa não pode ter falhas. Do outro lado, uma infografia onde se explicam as ligações norte-americanas, com o respectivo apoio financeiro e institucional, de Fethullah Gülen, o alegado instigador do golpe falhado.

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Mas há mais. Fotos dos cabecilhas locais do golpe são acompanhadas por uma infografia onde constam as intuições às quais pertenciam e quantos homens de cada uma delas estiveram envolvidos na tentativa de derrube de Erdoğan. Seguem-se obviamente imagens de um presidente corajoso, determinado e sereno a dar uma entrevista à CNN (se for a um órgão de comunicação social estrangeiro sempre dá um ar menos amanhado). Há ainda fotografias de manifestantes pró-Erdoğan à porta de várias embaixadas turcas, nas quais o fotógrafo, socorrendo-se das técnicas de Leni Riefenstahl, faz com que 8 tipos pareçam 80 – mas destas, infelizmente, não colhi imagens.

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Depois de anos submetida a jacobinismo militar, a Turquia atura agora o autoritarismo despudorado do presidente Recep Tayyip Erdoğan. E já não se disfarça. Ao ver esta revista percebe-se bem o interesse de alguns governos em manter as companhias aéreas sob controlo estatal.

Reflexões governativo-parlamentares

por João André, em 27.10.15

Formar governo

Com os resultados das eleições conhecidos o Presidente da República deveria ter, desde logo, indigitado o líder do partido (ou coligação) vencedor para formar governo. As declarações de António Costa demonstraram desde logo que havia margem para deixar passar até um governo minoritário. Dependendo da forma como as coisas corressem o aparelho interno do PS poderia ter forçado uma coligação.

 

Isto não quer dizer que um governo à esquerda não fosse possível nem legítimo. É-o claramente. Se os partidos encontram uma plataforma de entendimento isso é tão legítimo como se o BE decidisse agora apoiar o governo PSD/CDS. Quaisquer conclusões sobre intenções dos votantes são disparatadas. Há no entanto uma ressalva que eu, pessoalmente, faço: se o putativo líder do governo não for do partido mais votado, então essa coligação à esquerda tem de o ser sob a forma de governo. Apresentar um acordo de incidência parlamentar baseado apenas no próximo orçamento e em linhas gerais muito vagas para viabilizar um governo PS não faz sentido. O PS estaria numa posição excessivamente fraca e cairia ao menor abalo.

 

Nesta situação, o governo deve ser o do partido mais votado (ou coligação, PSD/CDS). O PS deveria simplesmente apresentar a intenção de se abster em relação ao orçamento e programa de governo e, no futuro, votar cada proposta de lei de acordo com as suas posições políticas. Se isto levasse a uma queda do governo dentro de 12, 18 ou 40 meses, assim fosse. São essas as regras do jogo democrático e parlamentar: quem não tem maioria tem que negociar.

 

A situação actual é simples: PCP e BE querem mostrar que não são avessos a negociar para formar governo (crítica que recebem amiúde). Querem também que o ónus de medidas duras fique com o PS e quaisquer responsabilidades de novas eleições fiquem para os outros. António Costa quer simplesmente manter o poder no PS. Mesmo que não consiga ser PM, pode sempre argumentar que foi por influência dos outros. Já PSD e CDS estão simplesmente à espera que ou o PS mude de rumo ou que haja novas eleições e o poder lhes caia no colo porque a responsabilidade será dos outros. Basicamente esperam que 1987 se repita.

 

Presidente da República

Na sua intervenção, Cavaco Silva demonstrou mais uma vez a arrogância e absoluta falta de compreensão pela democracia que o caracteriza desde sempre. Mesmo tomando uma decisão acertada (de forma tardia e assim contribuindo para a confusão, como afirmo acima), acabou a fazer um ataque à esquerda que terá deixado a direita trauliteira (e também a esquerda do mesmo tipo) a salivar e a direita clássica a desesperar.

 

Cavaco Silva não entende como é possível que outros tenham posições diferentes das dele. Tem uma mente tecnocrática que só vê uma forma de fazer coisas, como se a política fosse uma ciência exacta. Não o é. Há forma diferentes de chegar ao mesmo destino e há destinos diferentes que poderão também ser atractivos. Claro que a negação desta evidência é parte da estratégia de uma onda de direita (que hesito chamar neo-conservadora ou outra coisa qualquer - os seus promotores habituais são normalmente libertários na economia e profundamente conservadores socialmente) que tem varrido o mundo ocidental.

 

Em Portugal tem vindo a instalar-se na comunicação social e blogues (a reacção neste meio do lado da esquerda foi profundamente canhestra na forma de coisas como o Câmara Corporativa) e tem vindo a fazer tudo o que pode para condicionar o debate. As posições que são tomadas baseiam-se nas mais básicas estratégias de agitar o espantalho (no que são facilmente seguidos por outros) e de evitar qualquer verdadeiro debate de ideias ou situações reais.

 

Não sei se Cavaco Silva é seguidor ou promotor disto tudo, mas é uma bandeira destas acções. Nas suas declarações acabou a tentar dar razões para ignorar tudo o que não seguisse a sua opinião e dar armas a quem prefira apenas e só círculos uninominais. Depois do resto dos desastres da sua presidência, só falta chegar ao fim do mandato e declarar que passará a presidente vitalício. Felizmente que nem ele se atreveu até agora a desafiar a constituição (apenas a demonstrar o seu desprezo por ela).

Agitar o espantalho

por João André, em 14.10.15

Numas eleições há conclusões que se podem retirar de forma directa dos resultados: quem é mais votado (lista, partido ou coligação) é o vencedor. No sistema eleitoral português isto deveria levar de forma imediata a que o presidente encarregue o vencedor de formar governo. Sozinho ou em acordo com outros.

 

Isto contudo não impede outras leituras. Se os vencedores não conseguirem um acordo que garanta uma maioria no parlamento, é perfeitamente legítimo que outras forças políticas o façam. É perfeitamente concebível que partidos como o PS, o PCP e o BE acabem por conseguir fazer menos cedências nos seus pontos individuais para apresentar um programa conjunto do que no caso do PSD/CDS e PS. Isto pelo menos em princípio, até porque para mim o PS está estruturalmente mais próximo do PSD que do PCP ou BE. A proximidade PS-PCP-BE e o afastamento PSD-PS são circunstanciais, resultando de uma política extremista do governo e posições eleitoralistas e populistas de Costa.

 

Em qualquer dos casos, é óbvio para qualquer pessoa com um mínimo de cultura democrática que um governo "de esquerda" não defraudaria o resultado das últimas eleições. Se o bloco PS-PCP-BE é mais votado e se consegue entender, obviamente que tem de ter direito a formar governo. Se o deve fazer já é outra questão.

 

Como muita gente à direita o sabe, os ataques deixaram de ser pela via da legitimidade democrática e passaram pelo percurso do espantalho: agitemos os medos aos quatro ventos que a esquerda vai afundar este país e pode ser que isto não suceda (ou seja de pouca dura). O argumento é que os muy democráticos mercados se assustariam e o país estaria de imediato a braços com outro resgate.

 

Eu até vou ignorar a narrativa em que este governo salvou o país (o BCE é uma instituição do Zimbabwe como se sabe) porque não é discussão que faça diferença (aos fanáticos não vale a pena apontar os erros de lógica). Vou simplesmente apontar que em posts (cingindo-me apenas ao Delito de Opinião) como este, este, este, este, este ou este não há um argumento que mereça ser imprimido. São uma lamentável colecção de ataques à esquerda que faz parte do tecido democrático português e a qual parece causar urticária quando quer sair dos seus parcos lugares naquele cantinho do parlamento.

 

Muito sinceramente não espero muito deste hipotético governo de esquerda. Não existirá. É apenas a forma que Costa encontra de acalmar as suas hostes mais à esquerda. É no entanto sintomático e muito demonstrativo da cultura de muita gente que uma solução perfeitamente democrática seja atacada em favor daquela que ao longo de quatro anos não fez mais do que colocar o selo em ordens vindas de outros lados. Quem ataca este governo são os apologistas de governos inexistentes, de testas de ferro tecnocráticos que não entenderiam o significado da palavra democracia mesmo que esta lhes fosse explicada por Sócrates (o original).

 

É, mais uma vez, a política do espantalho. É a política do "não há outra solução". Para estes, se o governo fosse dissolvido em favor de uns directores nomeados por Frankfurt não haveria perda. A política em si parece ter perdido o significado: há uma só solução e outras opções deixam de ser consideradas até ao dia em que as eleições serão consideradas uma perda de tempo e dinheiro e só sejam vistas como panem et circensis.

A campanha já começou

por Pedro Correia, em 04.07.15

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 Imagem O Insurgente

 

Tenho de aplaudir a nova estratégia de comunicação do PSD: espalhar pelo País cartazes com a fotografia de Sócrates. Não há propaganda mais eficaz que esta.

Tácticas velhas

por João André, em 19.03.14

Sobre o manifesto, ou melhor, a reacção ao mesmo, disse o essencial. Faltou-me uma coisa: o ataque ao respeito pela constituição. O governo vive mal com a constituição que herdou, isso é certo e inegável. Não gosta dela e gostaria de a remover e substituir por outra ideologicamente menos carregada - como o próprio governo. Nisso, fora a completa falta de ideias do porquê, nada há de mal. As constituições são elaboradas, adoptadas e vão sendo mudadas, revistas ou substituídas de acordo com os tempos e as vontades dos políticos eleitos. Este governo poderia dizer (e há quem o diga) que a constituição está excessivamente pesada pelo lado socialista, que tem artigos a mais, que não está adequada aos tempos modernos, etc. Aquilo que lhe falta será apresentar uma alternativa. Há 3 anos que andam a falar em reformar o estado e até ao momento entregaram-nos uma redacção da 4ª classe que estava morta ainda antes de a tinta secar. De permeio demonstraram o desprezo que têm por qualquer constituição ao entregar orçamentos atrás de orçamentos ilegais.

 

Agora, aquilo que se vê é que os defensores deste governo parecem querer que a constituição seja letra morta de facto (como escrevi, o governo já a ignora há muito). Quaisquer medidas de controlo da dívida que respeitem o orçamento são - na estranha cabeça desta gente - convites ao despesismo. O branco e preto e o preto é aquilo que nós queremos, parecem dizer. E como a constituição é esquerdista, esta gente que quer obedecer ao orçamento também só o pode ser. Pelo meio faz-se o elogio à clareza de Jerónimo de Sousa, que disse o mesmo mas com mais propostas e mais clareza. Ergo, os 70 são todos uns comunistas.

 

Obviamente que não pensam assim. Sabem bem que se virem um Bagão Félix ou uma Manuela Ferreira Leite ou um Adriano Moreira pela frente se urinam todos de excitação ou medo pela desanda que levariam. Sabem que tais personalidades não são de esquerda. Sabem que o manifesto foi pouco concreto em propostas porque um manifesto assinado por Adriano Moreira e Francisco Louçã nunca poderá ser concreto para além do seu mote essencial: renegociar a dívida. Sabem também que o manifesto demonstra o oposto daquilo que o governo tem feito: um diálogo que gerou um consenso. Sabem tudo isto porque não são burros. Mas ignoram.

 

Ignoram porque há eleições a chegar. Ignoram porque em breve chegará o referendo ao governo na forma de legislativas e convém começar a pintar o inimigo como um extremista perigoso. Ignoram porque sabem que é preciso manipular a história, mesmo que para tal seja preciso mentir, assustar, intimidar. Ignoram porque sabem que isso é preciso para eviar falar nas mentiras dos governos, nos atropelos às liberdades comuns, nos ataques à imprensa livre. Ignoram porque o mestre manipulador das luzes e sombras está de volta. Ignoram porque ainda haverá muito poleiro para distribuir.

 

No fundo, ignoram as verdades que conhecem porque seguem as cartilhas mais manipuladoras da propaganda: assusta o eleitorado; faz do teu adversário um inimigo; agita as águas; mente até que a mentira seja aceite como uma verdade; usa toda a euqalquer boa notícia até à exaustão e estica-a quase até se partir. São cartilhas conhecidas de todos. Sabendo que uma boa parte dos nossos liberais são antigos marxistas, maoístas ou trotskistas, isso não surpreende. Até o último voto ser contado e reportado, ainda muito lixo vai voar.

Ja som Ukrajinec

por Pedro Correia, em 22.02.14

 

Na Ucrânia, por estes dias, não se luta apenas nas ruas e nas praças. As batalhas da propaganda política também são decisivas, com o recurso às novas tecnologias. Este vídeo, por exemplo, teve rápida difusão mundial: já recebeu 3,5 milhões de visualizações.

Dois minutos: não é preciso mais. Uma jovem chamada Yulia difunde a mensagem, clara e directa, recorrendo à técnica do vivo televisivo: "Queremos ser livres".

É quanto basta para o essencial ficar dito. E para o eco se propagar: "Ja som Ukrajinec".

Um marco na luta contra o Governo de Kiev. E uma lição de eficácia comunicacional também.

Publicado também aqui

O apoio ao negócio dos cafés

por João André, em 16.09.13

O governo anuncia com pompa e circunstância um "apoio" ao emprego de 25 milhões de euros para 110 mil contratos em 2014. Tanta massa para tanta gente... É pá, 'pera aí... 25 milhões a dividir por 110 mil, saca da calculadora para não fazer asneira - olhe para o lado doutor Crato - e dá 227 euros por pessoa por ano. Não parece muito... Deixa lá ver então, a dividir por 365 dias dá 62 cêntimos por dia. Olha, a bica da manhã está paga. Os cafés é que não se vão poder queixar.

 

Eu até já nem me espanto com a falta de vergonha deste governo. Isto é aquilo a que uma amiga chama de vender merda em papel de embrulho. Só me pergunto é se os jornalistas portugueses estão assim tão abovinados que já nem se lembram de fazer as perguntas pertinentes no momento em que vêem a porcaria tão mal embrulhada.

A Galp deve ter razão

por Rui Rocha, em 24.11.12

A DECO publicou um estudo em que conclui que os combustíveis premium como o G Force e o H Energy são iguaizinhos aos de marca branca. A GALP, entretanto, ripostou dizendo que os combustíveis são iguais à saída da refinaria mas são diferentes na bomba. Não sou especialista, mas inclino-me para dar razão à GALP. Na verdade, abasteço sempre em postos de marca branca e posso garantir que nunca me aconteceu nada assim:

O estilo Sócrates

por Pedro Correia, em 17.07.10

Com José Sócrates, é sempre abissal a diferença entre a propaganda e a realidade. Nada melhor para ilustrar isto do que o chamado "cheque-bebé", que a 1 de Fevereiro fez títulos de primeira página em todo o lado para assinalar os primeiros cem dias da actividade governativa. "Por cada nova criança nascida em Portugal, o Estado abrirá uma conta-poupança com um valor inicial de 200 euros, que poderá ser reforçada pelos pais que, para tal, poderão beneficiar dos mesmos benefícios fiscais atribuídos aos PPR – Planos Poupança Reforma", referia o noticiário da altura. Era uma cópia pálida e mixuruca de uma medida semelhante anunciada dois anos antes em Espanha por Rodríguez Zapatero, o governante europeu que serve de fonte inspiradora ao primeiro-ministro português. Acontece que o chefe do Governo espanhol, pressionado pelos efeitos da crise que sempre procurou negar, se viu forçado a revogar esta medida em Maio. Um problema que o homólogo português não terá de enfrentar. Motivo: passados quase seis meses, o cheque-bebé à portuguesa, que tantas parangonas mereceu na altura, nunca saiu do papel. O processo está parado.

É um estilo de governação. O estilo Sócrates. Capaz de faltar a todas as promessas feitas - até aos bebés de chucha.

Onde está a fita métrica da ERC?

por Pedro Correia, em 31.01.10

A perplexidade é do Blasfémias - e minha também. Um "debate" na Antena 1 sobre "O Estado e a competitividade da economia portuguesa" que inclui como participantes estas excelentíssimas personalidades: o ministro das Finanças, o ministro da Economia, o governador do Banco de Portugal e a procuradora-geral adjunta Cândida Almeida.

Não sei o que mais me espanta nesta iniciativa em que não se pretende sequer esboçar um arremedo de debate. Ditar frases de propaganda para a acta, como se fosse uma sessão do Conselho de Ministros para a área económica?  Proclamar as excelsas virtudes do Executivo Sócrates? Convencer os 600 mil desempregados portugueses que o País vai de vento em pôpa graças à governação socialista?

E já agora o que faz neste painel a ubíqua drª Cândida Almeida, certamente com imensos afazeres em questões da sua área? Tornou-se especialista em "competitividade"?

E uma última pergunta: será que célebre fita métrica da ERC levou sumiço?

TGV: vamos ser sérios?

por João Carvalho, em 17.09.09

Está provadíssimo que Manuela Ferreira Leite tem imensa dificuldade, no que toca a fazer-se entender. Ora porque as ideias lhe saem atabalhoadas, ora porque as palavras se soltam entarameladas, ora porque as ironias lhe escapam sem graça, o certo é que abundam as intervenções infelizes. O que permite uma utilização ora escusadamente abusiva, ora intencionalmente distorcida, por parte dos adversários.

Como Pacheco Pereira e outros conselheiros-gurus (?) parece que não andam a ajudar muito, vou ensaiar aqui a recolocação nos trilhos de um assunto que me interessa especialmente: o TGV. Mas aviso já que só o faço porque:

– o PSD e a sua líder não me pagam e esta ajudinha não terá continuidade;

– não sou advogado de defesa de um nem de outra, que nem sabem que estou a dar-lhes uma mãozinha;

– mantenho todas as reservas que já aqui trouxe mais do que uma vez sobre o TGV (v. «Qual TGV, qual quê!?»);

– não estou necessariamente de acordo com a actual posição do PSD e da sua líder sobre o TGV;

– fico estarrecido com a facilidade que algumas máquinas de propaganda profissionais revelam no aproveitamento de declarações pouco ou nada felizes através de interpretações pouco ou nada sérias.

Posto isto, vamos ao assunto, para ver se nos entendemos e deixamos de ser enrolados.

Com um discurso mais claro ou menos claro, Manuela Ferreira Leite disse que Espanha era parte interessada na criação da alta velocidade ferroviária em Portugal. Foi isto que ela disse, porque eu ouvi. E mais disse que achava que Portugal não está (pelo menos, por agora) em condições de pôr o projecto a andar, face ao agravamento inerente da nossa dívida externa.

Resumida e bem situada (creio eu) essa posição, independentemente do que cada um pensa sobre isso, não vejo qualquer motivo para o chinfrim que vai por aí. Porque:

– toda a gente sabe que os espanhóis estão interessados no nosso TGV com ligações à fronteira comum, por causa dos fundos europeus disponíveis para o efeito (e não só);

– é razoável alterar decisões, se as condições reais o aconselharem ou forem alteradas no tempo.

Quem ainda insiste na falta de coerência implícita a este último ponto pode estar a ser sério (eu próprio fico na retranca). Mas também há quem o use para agitar as hostes e manter o sururu na agenda, o que já não é sério. José Sócrates e os seus seguidores sabem bem do que estou a falar, porque:

– a promessa de não subir os impostos não foi cumprida;

– a promessa de referendar o tratado europeu não foi cumprida;

– a promessa de fazer crescer a economia não foi cumprida;

– a promessa de criar 150 mil novos postos de trabalho não foi cumprida;

– a promessa de controlar as contas públicas não foi cumprida;

– a promessa de encarar os "estudos de viabilidade" do TGV não foi cumprida;

– a promessa de regularizar a situação dos que trabalham para o Estado em regime precário irregular não foi cumprida;

– etc. (não fui exaustivo).

É grave? Há quem diga que sim. Pode ser. Não sei. Quero crer que o rol de promessas que Sócrates não cumpriu tem uma justificação séria: as condições reais não o aconselharam ou foram alteradas no tempo. Não? Se estiver enganado, peço desculpa.

Propaganda em três tempos

por João Carvalho, em 29.07.09

1. As novas instalações judiciais de Lisboa constituem agora palco de propaganda do governo. Nas Varas Criminais, os monitores de última geração promovem as acções do ministro da Justiça, através de uma filmagem em que o protagonista que conduz o espectador é o próprio ministro da Justiça. Alberto Costa contraria a indignação que a insólita iniciativa está a provocar, declarando que se trata apenas de informar de modo objectivo. Informar sobre as vantagens de se ter um ministro como ele, supõe-se.

 

2. A ideia é curiosa. Informar objectivamente sobre o que de bom um ministro faz é um dever, para que se perceba a razão pela qual os portugueses não cabem em si de contentes. Como é suposto todos os ministros acharem bem feito aquilo que fazem, não se vislumbra qualquer motivo para que os restantes ministros não se promovam de modo semelhante. Rodados os filmes e adquirido o equipamento, a única dificuldade parece ser encontrar lugares suficientes para transmitir todos os filmes do governo.

 

3. O caso mais complicado há-de ser a rodagem do filme sobre a actividade do ministro do Ambiente. A menos que seja aceitável uma curta-metragem sobre a sua inactividade. Com vista sobre a costa portuguesa, prolongada com vista sobre a costa espanhola, mais a costa francesa, a costa italiana e a costa grega. E intervalo para café. E uma alegoria inspirada no padre António Vieira, mas com um sermão às árvores. (Peço desculpa por não mencionar o nome dele, mas ninguém soube dizer-mo.  Só me dizem que existe.)


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