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Delito de Opinião

Isto é jornalismo

Pedro Correia, 06.04.21

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Faz hoje oito dias, registou-se um momento notável de televisão. Um jornalista travou a verborreia de um político que recusava responder às questões que lhe eram dirigidas. Aconteceu na SIC Notícias e cumprimento por isso Miguel Ribeiro, que conduzia a emissão. 

Eram 15.28 dessa terça-feira quando surgiu em antena o deputado socialista Porfírio Silva a propósito da promulgação, pelo Presidente da República, de três diplomas aprovados no Parlamento - apenas com o voto contra do PS - para reforço dos apoios sociais no combate à pandemia. Pretendia a SIC que o parlamentar clarificasse e concretizasse uma crítica ao Chefe do Estado publicada numa rede social.

«Queria tentar perceber as palavras que escreveu no Facebook quando disse que o entendimento do Presidente da República é de uma violação extensiva da Constituição. Porque é que utilizou esta expressão?», questionou o jornalista, no exercício do seu principal dever deontológico, que é o de fazer perguntas. Para assegurar o direito dos cidadãos à informação.

Silva começou por dizer: «Eu respondo já à sua pergunta e não lhe vou fugir.» Mas fugiu mesmo, mandando a promessa às malvas. E desatou a debitar a cartilha do PS, utilizando aquele tempo de antena para mera promoção do Governo e do partido. 

Às 15.32, Miguel Ribeiro insistiu: «Porque é que acha que o Presidente da República tem uma interpretação abusiva da Constituição?» O parlamentar continuou a fugir à pergunta e a refugiar-se na catequese partidária.

Até que o jornalista perdeu a paciência perante tanto desrespeito à sua função em antena - que é a de obter respostas, não propaganda. «Vai andando à volta e não responde», concluiu, cortando a palavra ao sonso que afrontara Marcelo na rede social mas se furtava à polémica em televisão.

Eram 15.39: tinham passado onze minutos. Voltava a imperar o jornalismo, a cartilha era devolvida ao Largo do Rato. Lá é que está bem.

Ponto zero

João Sousa, 09.02.21

Ouviu-se há dias um leve rumor de indignação (e gozo) por um gráfico tuitado (e entretanto apagado) por uma das centrais de propaganda do PS:

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Uma tempestade num cálice de licor, é o que vos digo. Em vez de censurarmos a falta de vergonha do partido, louvemos a sua contenção por não ter publicado algo assim:

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Nota: àqueles que sintam a tentação de justificar com habilidades semelhantes feitas pelo PSD, CDS, BE ou até pelo Clube de Chinquilho de Freixo de Espada à Cinta, respondo antecipadamente que as canalhices não se anulam - somam-se.

Presidenciais (12)

Pedro Correia, 22.01.21

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UM CONVITE A CAÇAR CEDILHAS

Há palavras que nunca devem ser usadas na propaganda política. Uma delas é a palavra "Força" - destacada nestes cartazes destinados a promover a candidata Marisa Matias. Inútil explicar porquê: basta um ligeiro retoque para dar lugar a Forca, algo de que todos fogem e ninguém elege. Apetece perguntar onde teria a cabeça quem produziu tão infeliz ideia.

Se isto acontecesse há uns anos, confesso que me espantaria. Porque o Bloco de Esquerda habituou-nos a ser bom na propaganda. Acontece, no entanto, que as coisas mudam: alguns dos seus membros mais qualificados nesta área migraram discretamente para o PS ou desiludiram-se do activismo político, desligando-se do partido. Os que foram ficando ou surgiram depois têm muito menos engenho e arte. E percebem pouco ou nada das subtilezas da língua portuguesa.

Só me admiro que a candidata, dotada de sensibilidade política, tenha avalizado esta lamentável palavra de ordem. Que só baralha e nada diz - além de estimular a caça à cedilha por parte das hostes adversárias. Devia ter vetado isto, alegando motivo de força maior. Sem ambiguidades verbais de qualquer espécie.

A campanha minimal

João Sousa, 21.01.21

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A comunicação social publicitou que Marcelo Rebelo de Sousa seria o candidato, após Vitorino Silva, com orçamento de campanha mais reduzido. Além disso, Marcelo prescindiu dos tempos de antena e só planeou fazer "campanha de rua" durante quatro dias por, veja-se lá, D. Marcelo I "O Justo" pretender "evitar expôr uma disparidade entre as imagens da sua história recente como Chefe de Estado e as dos outros candidatos".

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Campanha minimal? O que foi o primeiro mandato de Marcelo senão uma longa e dispendiosa campanha eleitoral?

No final do ano, lembremos os ciclos que se repetem

Paulo Sousa, 31.12.20

A generosa injecção de fundos público nos decrépitos órgãos de comunicação social já começa a ter frutos.

Eis a capa de ontem do DN, dia em que este histórico jornal voltou a ter versão impressa:

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E eis também a reacção do nosso Exmo PM:

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Em época de final de ano, é interessante verificar como a vida é feita de ciclos que se repetem.

Neste documentário da RTP sobre a Reforma Agrária, ao minuto 25, podemos ouvir duas quadras laudatórias dedicadas em 1973 ao Presidente do Conselho Dr. Marcelo Caetano, aquando à sua visita a uma herdade modelo, e que bem podiam estar no editorial da edição do dia 30 de Dezembro do 2020 do DN. Aqui vai:

Somos humildes trabalhadores
Dizemos isto sinceramente
Hoje vivemos mais à vontade
Graças ao nosso Presidente

Presidente como este
No mundo não há igual
Melhorou a vida a todos
Salvando assim Portugal (o jornal)

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Aproveito para desejar um Feliz Ano Novo aos co-autores do Delito de Opinião, assim como a todos os leitores que diariamente nos presenteiam com a sua atenção e disponibilidade.

Muito obrigado.

És muito bom, António

Pedro Correia, 15.04.20

A esposa do ministro da Economia, falando na primeira pessoa do plural enquanto vice-presidente da Associação de Hotelaria de Portugal, surge na TVI a felicitar a entrevista concedida escassas horas antes pelo primeiro-ministro ao Observador«Aplaudimos. Foram, de facto, declarações muito felizes.»

Quanto mais a crise aperta, mais se percebe que este Governo não brinca em serviço.

Fora da caixa (24)

Pedro Correia, 05.10.19

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«Aquele que no dia da eleição ou no anterior fizer propaganda eleitoral por qualquer meio será punido com prisão até seis meses.»

Lei Eleitoral, art. 141.º

 

Cá estamos todos a "reflectir". Excepto os 60 mil compatriotas que optaram pela votação antecipada, há uma semana: esses não tiveram direito a reflexão com chancela oficial e 24 horas para o efeito inscritas no granito da lei - confirmando assim que aquele verso da cantiga, «em cada rosto igualdade», é pura treta.

Se o sol nascesse para todos, cada um de nós disporia dum dia inteirinho para reflectir, votasse quando votasse. Verifico que, em flagrante violação dos princípios constitucionais, aqueles mais se apressam a cumprir este relevante dever cívico são afinal penalizados: o Estado que nos pastoreia com os seus códigos e o seu fisco esquece-se deles, trata-os como eleitores de segunda, forçando-os a votar sem o período de reflexão legal que assegura aos restantes cidadãos.

 

Dizem-nos também que este é um dia de abstinência política, em evidente sucedâneo dos ancestrais jejuns de estrita obediência religiosa. Na era das redes sociais, este sacrossanto mandamento tornou-se ainda mais obsoleto: só a força da inércia tem impedido os doutos legisladores cá do burgo de o remeterem para o caixote do lixo da História - medida que só pecaria por tardia. Há desde logo uma clara correspondência etimológica entre abstinência e abstenção, o que não me parece muito estimulante enquanto factor de incentivo ao voto.

Mas todas as tradições acabam por ser quebradas. Também esta, a da interdição da propaganda política em véspera do exercício generalizado do direito a eleger quem nos governará na legislatura que vai seguir-se.

Bastou percorrer os telediários de hoje, mal soaram as badaladas da meia-noite.

 

Abertura do Jornal da Meia-Noite, na SIC Notícias:

«A DBRS subiu o rating da dívida soberana de Portugal, que está agora no terceiro nível acima do lixo. A agência canadiana explica a decisão com a melhoria persistente em vários indicadores-chave do rating. A DBRS espera ainda um compromisso com uma gestão orçamental prudente, independentemente do resultado das eleições de domingo.»

Quarta notícia do 24 Horas, na RTP 3:

«A agência de notação financeira DBRS subiu o rating de Portugal. Passou agora para o nível estável. É o terceiro acima de lixo e é o mais elevado dos últimos oito anos. A SBRS é a agência que tem a classificação mais elevada para a dívida portuguesa.»

Notícia igualmente destacada na 25.ª Hora, da TVI 24:

«A agência canadiana de notação financeira DBRS subiu o rating de Portugal. Uma notícia divulgada seis meses depois de a agência ter dito que ponderava rever em alta a notação de Portugal e em vésperas de eleições legislativas. De acordo com a agência de notação financeira canadiana, o risco do crédito de Portugal tem agora a classificação de BBB+, um nível acima da avaliação feita no início de Abril. Entenda-se que esta avaliação é aplicada à capacidade de um país pagar a sua própria dívida. A letra A indica a melhor classificação e a C ou a D considera o risco especulativo, também designado como "lixo". Também a perspectiva sobre a dívida portuguesa melhorou de estável para positiva.»

 

Bingo! Até uma agência financeira com sede no outro lado do Atlântico contribui para a ponderação do nosso voto.

Dá que pensar neste dia de reflexão.

Fora da caixa (17)

Pedro Correia, 28.09.19

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«A justiça trata da justiça e os políticos tratam da política.»

António Costa, ontem, no Porto 

 

O Ministério Público já interveio pelo menos duas vezes nesta campanha eleitoral: a 18 de Setembro, ao constituir arguido o secretário de Estado da Protecção Civil, forçado a demitir-se; e a 26 de Setembro, ao deduzir acusação contra o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes.

Felizmente, sucessivos responsáveis têm tranquilizado a opinião pública, assegurando não existir gestão política dos processos judiciais. Ficamos, naturalmente, todos muito mais descansados.

 

O Instituto Nacional de Estatística já interveio pelo menos duas vezes nesta campanha eleitoral: a 23 de Setembro, ao anunciar a revisão das cifras macro-económicas de 2017 e 2018 devido a uma oportuna «combinação de alterações metodológicas com a incorporação de novos dados»,  propiciando títulos como este, do Público: «PIB mais alto e défice mais baixo»; e ontem, ao antecipar estimativas sobre o desemprego referentes ao mês de Agosto que permitem títulos como este, da TSF: «Valor mais baixo desde 2002.»

Felizmente, sucessivos responsáveis têm tranquilizado a opinião pública, assegurando não existir instrumentalização dos organismos do Estado para efeitos de propaganda governamental. Ficamos, naturalmente, todos muito mais descansados.

Pago jornal, levo propaganda

Pedro Correia, 25.04.19

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Compro um exemplar do jornal espanhol El País, que com a actual directora regressou aos tempos de colagem despudorada ao Partido Socialista, e salta-me lá de dentro um panfleto eleitoral com esta carantonha que parece de um foragido de Alcatraz.

Pego na coisa com a repugnância de quem se sente servido por gato a preço de lebre e questiono-me se é isto que querem aqueles que em Portugal reivindicam a todo o tempo que a imprensa "assuma" preferências partidárias. Lamento contrariá-los, mas prefiro o modelo português. Detesto que na compra de um jornal me ofereçam propaganda partidária em jeito de brinde. E só abriria uma excepção a esta inabalável regra se no panfleto eleitoral do PSOE me surgisse a inspiradora imagem que se segue.

 

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Despudor

Pedro Correia, 11.01.19

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António Costa não brinca em serviço. Nestes dias - sem falhar um - tem cultivado a propaganda mais descarada, dominando a agenda mediática com temas que parecem demonstrar enorme dinamismo do seu governo mas que são afinal meras repetições de medidas anteriormente divulgadas ou anúncios de obras sem a menor garantia de que passarão do papel. 

Foi assim na terça-feira, ao alardear com enorme pompa e circunstância que estava tudo a postos para o arranque da construção do aeroporto do Montijo - que afinal, como logo se apurou, é um projecto ainda sem asas para voar por falta de um instrumento imprescindível: a luz verde dos especialistas ambientais, tanto portugueses como comunitários.

De resto, o único relatório de impacto ambiental até hoje elaborado chumbou o projecto. Nada disso obstou a que a propaganda ocorresse, com direito a um descomunal tempo de antena - sem contraditório - em todos os canais televisivos.

 

No dia seguinte, passou-se do aeroporto para o metropolitano e do Montijo para Lisboa. Com o mesmo procedimento digno dos melhores manuais de marketing político: Costa, acompanhado de gorda comitiva, fez-se filmar e fotografar em estações do metro para anunciar o prolongamento da linha amarela e verde que há muito fora já tornada pública.

Nada havia, de facto, para noticiar - excepto que o projecto da linha circular, anunciado em Maio de 2017 com conclusão inicial prevista para 2021, irá sofrer pelo menos dois anos de atraso, não se comprometendo agora sequer o primeiro-ministro com a data de 2023 para o corte da respectiva fita.

Ainda assim, fez-se mais uma monumental sessão de propaganda.

 

Hoje Costa ruma a Évora para outra despudorada sessão de embuste político. Anunciando que o futuro Hospital Central do Alentejo, a construir ali, é «prioritário enquanto obra estruturante», blablablá, patati patatá.

Trata--se da mesma  obra virtual que mereceu anteriores fluxos de propaganda governamental. Com idêntico despudor.

Em Outubro de 2017, o Executivo socialista fez constar que o novo Hospital de Évora seria «prioridade» a inscrever no Orçamento do Estado para 2018. 

Há precisamente um ano, em Janeiro de 2018, o Governo anunciou a dotação de 40 milhões de euros para o arranque da construção deste hospital, no âmbito da reprogramação do programa Portugal 2020, com início previsto para daí a meses. O ano terminou sem que nada se visse.

Em Outubro de 2018, coube ao ministro das Finanças reeditar o anúncio, apresentando matéria antiga como se fosse novidade. E sem qualquer compromisso com prazos, o que dá sempre muito mais jeito para quem apregoa a mercadoria.

No meio de tudo isto, ninguém parece corar de vergonha.

 

Não sei o que mais criticar. Se a falta de decoro dos responsáveis governativos, se a falta de memória deste jornalismo preguiçoso e distraído que engole notícias comprovadamente em terceira mão, as coloca sem sobressaltos de consciência no micro-ondas e as serve ao público como se fossem novidade absoluta.

Expressamente

Pedro Correia, 26.12.18

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Ah, doce país este, em que aquele que é considerado o mais influente jornal cá do burgo, ao lado de uma manchete com pura propaganda governamental, elege como notícia mais relevante da semana, ao alto da sua primeira página, nada menos que isto: «Expresso abandona o saco de plástico». Em nome da «sustentabilidade do nosso planeta» e em parceria com um destacado grupo empresarial português, naturalmente mencionado com todas as letras. Para ficar bem claro que naquela respeitável montra jornalística a propaganda não é só política. Expressamente.

Os Telefonemas da Proximidade

Rui Rocha, 01.05.18

Em declarações recentes, a Ministra da Justiça manifestou o seu entusiasmo com a evolução da actividade dos Juízos de Proximidade. Os números são de facto impressionantes. Estão a funcionar neste momento 43 unidades. No primeiro trimestre de 2018, realizaram-se 364 Julgamentos de Tribunal Singular. Em média, realizaram-se 2,8 Julgamentos por Juízo de Proximidade por mês. Mas a coisa não fica por aqui. Nestas unidades, praticaram-se, no mesmo trimestre, 55.831 actos. Nestes incluem-se, designadamente, actos praticados no Citius, registo de actos avulsos, fases informativas, conta/liquidação, actualização de intervenientes, emissão de registos criminais e cumprimento de despachos. Se tivermos em conta que os Juízos de Proximidade contam com uma equipa de dois funcionários, cada um deles praticará, em média, o arrepiante número de 10 actos por dia útil de trabalho, sem contar com o preenchimento do euromilhões às 3as e 6as feiras. É claro que, de acordo com dados oficiais do Ministério da Justiça, está incluído nestes o atendimento telefónico de mais de 13.000 chamadas. É algo surpreendente que o atendimento telefónico que, por natureza pode ser feito em qualquer local, conte para os números deste serviço de proximidade. Mas isso devo ser eu que não valorizo suficientemente a vantagem de um cidadão de Ansião ser atendido por um funcionário que tem o sotaque da terra. Ou o de a Dª Fatinha do Cadaval ligar para o Juízo de Proximidade e ter o seu primo Tonico a fazer-lhe uma consulta no Citius. Em todo o caso, se expurgássemos as chamadas telefónicas dos actos de proximidade, os diligentes funcionários deste serviço teriam praticado ainda assim 8 actos diários, sempre sem contar com o preenchimento do euromilhões. Uma canseira. Felizmente, hoje, Dia do Trabalhador, podem estar calmamente nas suas casas, sem terem de passar o dia com a angústia de inventarem formas de ocupar o tempo.

Notas sobre o Focus Group e assim

Rui Rocha, 26.11.17

1 - É óbvio que o governo utilizou o estudo do focus group e o evento de hoje em Aveiro como instrumento de propaganda política. É, pois, uma imoralidade utilizar dinheiros públicos para financiar uma acção promocional descarada de Costa y sus muchachos.

2 - A validade da metodologia e a probidade de quem agora ou antes (Carlos Jalali ou Marina Costa Lobo) conduziu o estudo não estão em causa. Mas o que é claro é que os académicos não perceberam (ou não quiseram perceber) que uma coisa é a validade científica e outra, bem diferente, é a instrumentalização do seu trabalho para uma manobra de lavagem e promoção de imagem à custa do dinheiro do contribuinte. A intervenção de hoje de Jalali, focada na metodologia e na sua credibilidade, é bem o exemplo disso. Não é obviamente esse o ponto fundamental da discussão. É penoso ver alguém com créditos académicos prestar-se ao papel de idiota útil ao serviço dos propósitos do governo.

3 - O evento está, em todo o caso, morto e enterrado. Aquilo não funciona. Não há entusiasmo. Não há sequer aparência de contraditório que crie uma percepção de credibilidade. Nada daquilo é verosímil. Se o que Costa pretendia era projectar uma imagem de proximidade e transparência, tudo o que conseguiu provocar foi um enorme fastio. Não fosse a polémica prévia e ninguém teria suportado aquilo mais de 10 minutos. Assim, os mais resistentes terão chegado aos 15. Este modelo de comunicação não conseguiria entuasiasmar um exército de formigas ainda que lhes acenasse com um pacote de açúcar.

4 - O governo deu este fim de semana dois sinais claros de que se encontra numa situação fragilizada e que sente que perdeu o contacto emocional com os eleitores. Ontem, pôs todos os ministros na estrada, nas mais diversas iniciativas um pouco por todo o lado. Eduardo Cabrita esteve na inauguração do Centro Regional do Sistema de Alerta de Tsunamis, no Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Centeno visitou a Alfândega do Aeroporto de Lisboa. Manuel Heitor, da Ciência e do Ensino Superior, foi a Matosinhos e a Braga para lançar uma nova iniciativa – «Manhãs Com Tecnologia». Hoje, foi o que se viu. Uma tentativa falhada de falar com o país em ambiente controlado, fazendo lembrar, nos propósitos e no contexto, as Conversas em Família de Marcello Caetano. Seguramente, não será pondo os membros do governo a esvoaçar como libelinhas tontas ou com iniciativas de comunicação postiças que Costa recuperará da imagem que, por sua inépcia, viu degradar-se nas últimas semanas.

Tão subtil como um choque frontal entre dois A340

Diogo Noivo, 19.12.16

Mais do que prestarem um serviço público, as companhias áreas de bandeira foram instrumentos da política externa dos Estados. A Turkish Airlines, certamente por excesso de zelo, levou a coisa um pouco mais longe e assumiu o papel de veículo de propaganda do regime liderado pelo presidente Recep Tayyip Erdoğan. E fê-lo com a subtileza e com a elegância de um choque frontal entre dois Airbus A340.
Mão amiga – uma expressão lamentavelmente caída em desuso – mostrou-me há umas semanas a revista de bordo da companhia aérea turca. Esta edição apenas existe em turco e, pelo que pude perceber, só está disponível em voos regionais. Junto a este post algumas fotos que fiz a essa publicação, pedindo desculpa pela fraca qualidade das imagens.
Em 1984, Orwell escreveu que quem controla o passado, controla o futuro. Cientes disto e da consequente necessidade de consolidar uma versão oficial da História, a Turkish Airlines diz ao que vem logo na capa e na contracapa. Imagens épicas e com imenso potencial iconográfico dos “protestos pró-democracia”, isto é, das manifestações de apoio ao presidente no momento em que decorria um estranho golpe de Estado, marcam o tom da revista (ver imagem abaixo).

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Um ataque à pátria requer inimigos. Se houver conspiração, tanto melhor. E se essa conspiração tiver ramificações internacionais então é um mimo para a máquina de propaganda. A revista da Turkish resume tudo isto com mestria (ver imagem seguinte). De um lado, fotos das detenções dos golpistas, encabeçadas por uma cronologia dos “factos” – a narrativa não pode ter falhas. Do outro lado, uma infografia onde se explicam as ligações norte-americanas, com o respectivo apoio financeiro e institucional, de Fethullah Gülen, o alegado instigador do golpe falhado.

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Mas há mais. Fotos dos cabecilhas locais do golpe são acompanhadas por uma infografia onde constam as intuições às quais pertenciam e quantos homens de cada uma delas estiveram envolvidos na tentativa de derrube de Erdoğan. Seguem-se obviamente imagens de um presidente corajoso, determinado e sereno a dar uma entrevista à CNN (se for a um órgão de comunicação social estrangeiro sempre dá um ar menos amanhado). Há ainda fotografias de manifestantes pró-Erdoğan à porta de várias embaixadas turcas, nas quais o fotógrafo, socorrendo-se das técnicas de Leni Riefenstahl, faz com que 8 tipos pareçam 80 – mas destas, infelizmente, não colhi imagens.

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Depois de anos submetida a jacobinismo militar, a Turquia atura agora o autoritarismo despudorado do presidente Recep Tayyip Erdoğan. E já não se disfarça. Ao ver esta revista percebe-se bem o interesse de alguns governos em manter as companhias aéreas sob controlo estatal.

Reflexões governativo-parlamentares

João André, 27.10.15

Formar governo

Com os resultados das eleições conhecidos o Presidente da República deveria ter, desde logo, indigitado o líder do partido (ou coligação) vencedor para formar governo. As declarações de António Costa demonstraram desde logo que havia margem para deixar passar até um governo minoritário. Dependendo da forma como as coisas corressem o aparelho interno do PS poderia ter forçado uma coligação.

 

Isto não quer dizer que um governo à esquerda não fosse possível nem legítimo. É-o claramente. Se os partidos encontram uma plataforma de entendimento isso é tão legítimo como se o BE decidisse agora apoiar o governo PSD/CDS. Quaisquer conclusões sobre intenções dos votantes são disparatadas. Há no entanto uma ressalva que eu, pessoalmente, faço: se o putativo líder do governo não for do partido mais votado, então essa coligação à esquerda tem de o ser sob a forma de governo. Apresentar um acordo de incidência parlamentar baseado apenas no próximo orçamento e em linhas gerais muito vagas para viabilizar um governo PS não faz sentido. O PS estaria numa posição excessivamente fraca e cairia ao menor abalo.

 

Nesta situação, o governo deve ser o do partido mais votado (ou coligação, PSD/CDS). O PS deveria simplesmente apresentar a intenção de se abster em relação ao orçamento e programa de governo e, no futuro, votar cada proposta de lei de acordo com as suas posições políticas. Se isto levasse a uma queda do governo dentro de 12, 18 ou 40 meses, assim fosse. São essas as regras do jogo democrático e parlamentar: quem não tem maioria tem que negociar.

 

A situação actual é simples: PCP e BE querem mostrar que não são avessos a negociar para formar governo (crítica que recebem amiúde). Querem também que o ónus de medidas duras fique com o PS e quaisquer responsabilidades de novas eleições fiquem para os outros. António Costa quer simplesmente manter o poder no PS. Mesmo que não consiga ser PM, pode sempre argumentar que foi por influência dos outros. Já PSD e CDS estão simplesmente à espera que ou o PS mude de rumo ou que haja novas eleições e o poder lhes caia no colo porque a responsabilidade será dos outros. Basicamente esperam que 1987 se repita.

 

Presidente da República

Na sua intervenção, Cavaco Silva demonstrou mais uma vez a arrogância e absoluta falta de compreensão pela democracia que o caracteriza desde sempre. Mesmo tomando uma decisão acertada (de forma tardia e assim contribuindo para a confusão, como afirmo acima), acabou a fazer um ataque à esquerda que terá deixado a direita trauliteira (e também a esquerda do mesmo tipo) a salivar e a direita clássica a desesperar.

 

Cavaco Silva não entende como é possível que outros tenham posições diferentes das dele. Tem uma mente tecnocrática que só vê uma forma de fazer coisas, como se a política fosse uma ciência exacta. Não o é. Há forma diferentes de chegar ao mesmo destino e há destinos diferentes que poderão também ser atractivos. Claro que a negação desta evidência é parte da estratégia de uma onda de direita (que hesito chamar neo-conservadora ou outra coisa qualquer - os seus promotores habituais são normalmente libertários na economia e profundamente conservadores socialmente) que tem varrido o mundo ocidental.

 

Em Portugal tem vindo a instalar-se na comunicação social e blogues (a reacção neste meio do lado da esquerda foi profundamente canhestra na forma de coisas como o Câmara Corporativa) e tem vindo a fazer tudo o que pode para condicionar o debate. As posições que são tomadas baseiam-se nas mais básicas estratégias de agitar o espantalho (no que são facilmente seguidos por outros) e de evitar qualquer verdadeiro debate de ideias ou situações reais.

 

Não sei se Cavaco Silva é seguidor ou promotor disto tudo, mas é uma bandeira destas acções. Nas suas declarações acabou a tentar dar razões para ignorar tudo o que não seguisse a sua opinião e dar armas a quem prefira apenas e só círculos uninominais. Depois do resto dos desastres da sua presidência, só falta chegar ao fim do mandato e declarar que passará a presidente vitalício. Felizmente que nem ele se atreveu até agora a desafiar a constituição (apenas a demonstrar o seu desprezo por ela).

Agitar o espantalho

João André, 14.10.15

Numas eleições há conclusões que se podem retirar de forma directa dos resultados: quem é mais votado (lista, partido ou coligação) é o vencedor. No sistema eleitoral português isto deveria levar de forma imediata a que o presidente encarregue o vencedor de formar governo. Sozinho ou em acordo com outros.

 

Isto contudo não impede outras leituras. Se os vencedores não conseguirem um acordo que garanta uma maioria no parlamento, é perfeitamente legítimo que outras forças políticas o façam. É perfeitamente concebível que partidos como o PS, o PCP e o BE acabem por conseguir fazer menos cedências nos seus pontos individuais para apresentar um programa conjunto do que no caso do PSD/CDS e PS. Isto pelo menos em princípio, até porque para mim o PS está estruturalmente mais próximo do PSD que do PCP ou BE. A proximidade PS-PCP-BE e o afastamento PSD-PS são circunstanciais, resultando de uma política extremista do governo e posições eleitoralistas e populistas de Costa.

 

Em qualquer dos casos, é óbvio para qualquer pessoa com um mínimo de cultura democrática que um governo "de esquerda" não defraudaria o resultado das últimas eleições. Se o bloco PS-PCP-BE é mais votado e se consegue entender, obviamente que tem de ter direito a formar governo. Se o deve fazer já é outra questão.

 

Como muita gente à direita o sabe, os ataques deixaram de ser pela via da legitimidade democrática e passaram pelo percurso do espantalho: agitemos os medos aos quatro ventos que a esquerda vai afundar este país e pode ser que isto não suceda (ou seja de pouca dura). O argumento é que os muy democráticos mercados se assustariam e o país estaria de imediato a braços com outro resgate.

 

Eu até vou ignorar a narrativa em que este governo salvou o país (o BCE é uma instituição do Zimbabwe como se sabe) porque não é discussão que faça diferença (aos fanáticos não vale a pena apontar os erros de lógica). Vou simplesmente apontar que em posts (cingindo-me apenas ao Delito de Opinião) como este, este, este, este, este ou este não há um argumento que mereça ser imprimido. São uma lamentável colecção de ataques à esquerda que faz parte do tecido democrático português e a qual parece causar urticária quando quer sair dos seus parcos lugares naquele cantinho do parlamento.

 

Muito sinceramente não espero muito deste hipotético governo de esquerda. Não existirá. É apenas a forma que Costa encontra de acalmar as suas hostes mais à esquerda. É no entanto sintomático e muito demonstrativo da cultura de muita gente que uma solução perfeitamente democrática seja atacada em favor daquela que ao longo de quatro anos não fez mais do que colocar o selo em ordens vindas de outros lados. Quem ataca este governo são os apologistas de governos inexistentes, de testas de ferro tecnocráticos que não entenderiam o significado da palavra democracia mesmo que esta lhes fosse explicada por Sócrates (o original).

 

É, mais uma vez, a política do espantalho. É a política do "não há outra solução". Para estes, se o governo fosse dissolvido em favor de uns directores nomeados por Frankfurt não haveria perda. A política em si parece ter perdido o significado: há uma só solução e outras opções deixam de ser consideradas até ao dia em que as eleições serão consideradas uma perda de tempo e dinheiro e só sejam vistas como panem et circensis.