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Delito de Opinião

Presidenciais (19)

Pedro Correia, 26.01.21

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FALAR DO QUE INTERESSA

Na noite das presidenciais ouvimos vários discursos. Alguns verdadeiramente lamentáveis, como o do zangadíssimo Rui Rio, que reclamava para o seu partido os louros da vitória de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto zurzia em jornalistas e comentadores, e o de Ana Gomes, que aproveitou o momento para um deplorável ajuste de contas com António Costa, que a ignorou olimpicamente durante a campanha. Ou o de Catarina Martins, que sorria com ar enlevado como se não acabasse de ter visto a sua candidata sofrer uma humilhante derrota nas urnas. Ou o de André Ventura, que parecia ter tocado a estratosfera do alto dos seus 11,9% - percentagem muito inferior à que obteve quando se candidatou pelo PSD à Câmara Municipal de Loures.

A melhor intervenção, de longe, foi a última. A do vencedor. Marcelo foi sereno e sóbrio, sem triunfalismo de qualquer espécie, na mensagem escrita que dirigiu aos portugueses. Está consciente das imensas dificuldades que o aguardam num mandato que ninguém pode invejar. Talvez por isso, foi o único a abordar em pormenor o tema mais preocupante: este duríssimo combate à pandemia, com a grave crise sanitária contrariando todo o optimismo que o Governo andou a impingir-nos, enquanto a crise económica e social vai espreitando ao virar da esquina. Em 30 de Setembro, quando terminarem as moratórias de crédito entretanto prorrogadas, isto tornar-se-á muito evidente.

«É a minha, a vossa, a nossa principal missão: primeiro, conter e aliviar a pandemia; para depois podermos passar para o que tanto precisamos, a reconstrução», declarou o Presidente reeleito neste notável discurso de vitória, proferido na reitoria da Universidade de Lisboa. Em contraste com vários outros oradores da noite, que ignoraram o tema ou o remeteram para plano secundário. Como se houvesse hoje alguma outra prioridade na vida nacional.

Falar do que interessa, sem politiquices nem mesquinhos cálculos de tacticismo imediatos, consciente deste pesadelo bem real que assombra o quotidiano das pessoas concretas: isto explica por que motivo o recandidato fez a diferença neste escrutínio em que obteve mais 8,7% e mais 122 mil votos do que conseguira em 2016. Com um impressionante intervalo de dois milhões de votos para a segunda classificada.

Quem na cena política portuguesa persiste em não entender isto, vive num mundo paralelo, desligado da realidade. Faria bem em aprender alguma coisa com o professor Marcelo.

 

Presidenciais (18)

Pedro Correia, 25.01.21

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ALTOS E BAIXOS

 

POR CIMA

 

MARCELO REBELO DE SOUSA

Atinge o pódio dos melhores resultados eleitorais de sempre num Presidente da República em Portugal. Só ultrapassado pelos 70,4% da reeleição de Mário Soares em 1991 e pelos 61,2% de Ramalho Eanes em 1976. Não é proeza para menosprezar: com mais 122 mil votos contabilizados e mais 8,7% em comparação com a votação de há cinco anos, reforça a legitimidade política e prepara-se para assumir um papel ainda mais determinante no xadrez institucional português. 

 

ANDRÉ VENTURA

Começou por inventar um partido, depois reinventou-se a si próprio como candidato presidencial. Com meio milhão de votos, sai como um dos triunfadores da noite: nunca a direita mais radical havia chegado tão longe nas urnas. Esteve a escassa distância do segundo lugar global, mas atingiu-o na maioria dos distritos e destrona o PCP no Alentejo. Este escrutínio equipara-o a meio PSD e liquida o CDS: sai da marginalidade e entra no sistema que tanto diz abominar no seu discurso populista.

 

TIAGO MAYAN GONÇALVES

Talvez a maior surpresa: um perfeito desconhecido para os portugueses, ombreou com Marcelo e levou Ventura ao tapete nos debates televisivos. Protagonizando sem complexos uma direita liberal que há muito integra a cena política europeia mas só agora irrompe - com o atraso do costume - no xadrez partidário nacional. Foi recompensado: faz subir de 1,3% para 3,2% a votação da IL nas legislativas de 2019, passando de 67 mil para 134 mil votos. E já vale mais de 4% em Lisboa e Porto.

 

ANTÓNIO COSTA

O PS optou pela falta de comparência nestas eleições: foi uma dor de cabeça a menos para o primeiro-ministro, que assiste à vitória do candidato a quem concedeu apoio pessoal, com palavras inequívocas, e faz reduzir à expressão mínima a facção socialista que preconiza uma fusão a prazo com o BE. Essa facção foi a votos e ficou claro o que vale: 13%. Boas notícias para o chefe do Governo, que precisa muito mais de Marcelo Rebelo de Sousa do que de um Pedro Nuno Santos.

 

 

POR BAIXO

 

ANA GOMES

Colou-se ao argumentário do BE, em irmandade siamesa com Marisa Matias, procurando sempre captar mais votos radicais do que moderados. Incapaz de atrair socialistas, sem apoios de peso no Governo além de Pedro Nuno, fica muito abaixo de Manuel Alegre em 2006 (-8%) ou Sampaio da Nóvoa em 2016 (-10%). E atirou-se a Costa num ressabiado discurso da noite eleitoral. Resta-lhe o fraco consolo de ter roubado a Marisa o título de "mulher mais votada de sempre em presidenciais".

 

MARISA MATIAS

Permanece o mistério: porque arriscou recandidatar-se quando a sua área política já estava preenchida por Ana Gomes e a comparação com 2016 lhe seria fatalmente desfavorável? Neste escrutínio tomba de 10,1% para 3,9% e perde 300 mil votos - do quase meio milhão anterior para os 164 mil actuais. Tornando delirante o risonho discurso da líder bloquista, Catarina Martins, que ontem à noite parecia desembarcada da Terra do Nunca. Cheira a princípio do fim do Bloco.

 

JOÃO FERREIRA

Cumpriu um fraquíssimo tirocínio para a liderança do PCP. Em percentagem, obtém o segundo pior registo de sempre dos comunistas, superando por três décimas o péssimo resultado de Edgar Silva em 2016. Mas recolhe ainda menos votos, ficando-se pelos 180 mil. Ultrapassado por Ventura em Évora, Beja e Setúbal, sai pessoalmente muito fragilizado desta contenda, onde só se destacou por ser o candidato com campanha mais cara. Ainda conseguirá suceder a Jerónimo de Sousa?

 

RUI RIO

Vê a sua liderança ainda mais fragilizada e comporta-se como derrotado. Isto ficou ontem patente, quando celebrava o triunfo de Marcelo enquanto a sua linguagem corporal e a sua face carrancuda desmentiam tudo quanto dizia. Desancou comentadores, como se concorresse contra eles, e voltou a reclamar para o PSD um papel exclusivo ao centro - continuando a abrir todo o flanco direito ao aventureiro Ventura, de quem se tornou refém simbólico. Ainda não percebeu o que se passa. 

Presidenciais (17)

Pedro Correia, 25.01.21

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AS ESQUERDAS GOLEADAS

Três candidaturas presidenciais assumidamente "de esquerda", assim se proclamando perante o eleitorado com os chavões próprios de quem vê o mundo a preto e branco diabolizando a outra metade do hemisfério.

Estas três candidaturas, somadas, só recolheram 21% dos votos ontem expressos nas urnas. Menos do que Sampaio da Nóvoa isolado há cinco anos. O equivalente ao que Manuel Alegre obteve em 2006, também sozinho.

Quase quatro quintos dos portugueses que compareceram nas mesas de voto deixaram evidente a sua preferência por outras opções, situadas em território da não-esquerda. O das direitas, para usar o rudimentar léxico político importado da geometria. A direita social, a direita liberal, a direita autocrática. 

À luz desta lógica de arrumação política, as esquerdas personificadas em Ana Gomes, João Ferreira e Marisa Matias acabam de sofrer uma goleada histórica nesta eleição presidencial de que sai um claro vencedor: Marcelo Rebelo de Sousa, reforçando o seu triunfo de 2016 com mais cem mil votos e quase mais nove pontos percentuais do que alcançou há cinco anos.

Sendo também o primeiro Presidente, na história da democracia portuguesa, a vencer em todos os concelhos do País.

 

Nada fica igual: este escrutínio ocorrido no auge da gravíssima crise pandémica que só ontem causou mais 275 vítimas mortais produzirá efeitos sísmicos na política portuguesa. Forçando reconfigurações em vários tabuleiros, como se verá a curto prazo.

A primeira consequência é a morte do CDS, apesar da patética tentativa do seu ainda presidente de colar-se ao grande vencedor da noite. Merece exéquias dignas. Paz à sua alma. 

Mas muito mais vai mudar. Com legitimidade revalidada, Marcelo não perdeu tempo. No discurso de vitória, na Reitoria da Universidade de Lisboa, acaba de dizer com total transparência que um dos seus objectivos, no segundo mandato a iniciar em Março, será contribuir para uma «alternativa forte» ao actual Governo «para que a sensação de vazio não convide a desesperos e a aventuras».

Recado que segue direito para Rui Rio. O ainda presidente do PSD nunca poderá dizer que não foi avisado.

Presidenciais (16)

Pedro Correia, 24.01.21

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NO PIOR MOMENTO

Para que não restem dúvidas, a minha objecção a este insensato calendário eleitoral da corrida ao Palácio de Belém - com ou sem pandemia - já há dez anos me levava a escrever isto:

«É absurdo as eleições presidenciais continuarem a realizar-se em meados de Janeiro, o mês mais frio. Sei do que falo: andei na estrada em Janeiro de 2006, acompanhando como jornalista a caravana eleitoral de Manuel Alegre, que se viu impedida de se deslocar a certas regiões - a Bragança, por exemplo - devido a fortes nevões. Um deles deixou-nos bloqueados no Marão: lá tivemos de regressar imprevistamente ao Porto às tantas da noite, com a agenda por cumprir.

São absurdas estas corridas presidenciais com as festas de Natal e de Ano Novo de permeio. Que dispersam as atenções e distanciam os eleitores dos candidatos, fomentando a abstenção. O primeiro calendário eleitoral, em Junho de 1976, fazia bastante mais sentido. E até o segundo, no início de Dezembro, em 1980. Janeiro é que não faz sentido algum.»

 

Palavras publicadas no DELITO DE OPINIÃO a 13 de Janeiro de 2011

O que fizeram os decisores políticos perante este problema, que ultrapassa largamente uma simples questão formal? Nada.

Como de costume em Portugal, a inércia apodera-se do processo de decisão, neutralizando-o. Medidas que noutros quadrantes são resolvidas com rapidez, tendo em vista o combate à abstenção e a aproximação entre eleitos e eleitores, por cá são empurradas com a barriga. Durante anos. E o maior especialista em adiar soluções, como temos visto ao longo destes meses, chama-se António Costa.

 

Chegou mais um processo eleitoral, anunciado com cinco anos de antecedência. O País vive desde Março debaixo de sucessivos estados de emergência, agrilhoado pelo coronavírus que matou mais de mil pessoas só na semana passada. O Governo, como barata tonta, manda-nos ficar em casa em nome do cumprimento dum dever cívico e manda-nos sair de casa em nome do cumprimento doutro dever cívico. Tudo ao mesmo tempo.

Como nada quiseram alterar, mantendo a rigidez do calendário com o fervor de Moisés agarrado às Tábuas da Lei, vivem hoje horas angustiantes. Se a abstenção atingir níveis nunca vistos em Portugal, isto representa o maior descrédito das instituições políticas precisamente quando Costa exerce por inerência as funções de presidente do Conselho da União Europeia. E enfraquece ipso facto a legitimidade do próximo mandato do inquilino de Belém. No pior momento.

Já falta pouco para sabermos. Mas não auguro nada de bom.

Presidenciais (15)

Pedro Correia, 23.01.21

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O DIA DOS ATRASADOS MENTAIS

Eis que chega o chamado "dia de reflexão". Em que as figuras tutelares do Estado nos tratam como atrasados mentais. Coitados de nós: precisamos de espremer as meninges durante 24 horas, em recatado silêncio, para ponderar em que quadradinho haveremos de inscrever um xis. 

Apetece mandá-las "reflectir" para o raio que as parta. E perguntar-lhes, já agora, se este dia importantíssimo também foi concedido aos mais de 240 mil eleitores que optaram por antecipar o voto presencial, exercendo o dever cívico no domingo passado. Sou capaz de apostar que não. Sendo assim, haverá motivo para invalidar tais votos não submetidos ao crivo prévio do "dia de reflexão"? 

Mandam as anacrónicas normas ainda em vigor que todas as acções de promoção das candidaturas estejam interditas nestas 24 horas de solene pasmaceira. Como se fosse possível apagar o que ficou escrito na vasta galáxia digital. E de novo pergunto: sendo assim, por que raio não vigorou isso também no dia 17 de Janeiro, quando dezenas de milhares de portugueses já votavam?

Enfim, perguntas retóricas. Sabendo à partida que não terão resposta. O que esperar afinal dum Tribunal Constitucional, duma Comissão Nacional de Eleições e dum Ministério da Administração Interna que autorizam, permitem e validam a presença nos boletins de voto dum candidato que nunca o foi?

Como se nada disto merecesse ser levado a sério. E se calhar não merece mesmo.

Presidenciais (14)

Pedro Correia, 22.01.21

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A CULPA FOI MINHA

Não sei se alguém chegou antes de mim, mas eu terei sido dos primeiros. Em Maio de 2015, numa série de textos aqui publicados e que acabaram por ser reunidos em livro, lancei no DELITO a pré-candidatura de Ana Gomes ao Palácio de Belém. Nessa prosa que lhe dediquei, enumerava prós e contras da embaixadora na corrida à Presidência, concretizada cinco anos depois. 

Alguns pontos favoráveis: «Seria a primeira chefe do Estado português do sexo feminino - e a primeira em regime republicano - desde a morte prematura da Rainha D. Maria II, em 1853. Xanana, de quem se tornou amiga, decerto não se importaria de viajar de propósito a Portugal para abrilhantar os comícios de campanha da ex-embaixadora portuguesa em Jacarta.»

Alguns pontos desfavoráveis: «A palavra voa-lhe por vezes mais veloz que o pensamento, como quando se apressou a invocar causas "sociais" para o morticínio no Charlie Hebdo. Alguns socialistas, que nunca integraram o seu clube de fãs, assumiriam sem hesitar qualquer outra opção de voto. Os cristais de Belém sofreriam eventuais danos irreparáveis nos momentos em que a voz dela se elevasse aos patamares característicos de Bianca Castafiore.»

 

Podem elogiar-me ou criticar-me à vontade: assumo toda a responsabilidade pelo que escrevi. Entretanto, permitam-me destacar esta frase premonitória: «Alguns socialistas, que nunca integraram o seu clube de fãs, assumiriam sem hesitar qualquer outra opção de voto.»

Assenta que nem uma luva a quase todas as actuais figuras gradas do PS - começando, naturalmente, por António Costa.

Presidenciais (13)

Pedro Correia, 22.01.21

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Puro marketing político: João Ferreira tem andado a distribuir exemplares da lei fundamental portuguesa a criancinhas e jovens, martelando até ao limite a palavra "Constituição" nas suas intervenções públicas. 

Que eu tivesse reparado, nenhum dos jornalistas que acompanham a exígua caravana deste candidato se lembrou de anotar este dado factual: a Constituição tão exaltada por João Ferreira, na sua versão actual, é muito diferente do texto original de 1976 - único que o PCP aprovou no hemiciclo de São Bento. Depois disso houve sete revisões constitucionais que contaram sempre com a assumida objecção do partido da foice e do martelo. 

O texto agora celebrado pelo representante comunista nas presidenciais é, portanto, aquele a que o PCP se opôs nas sucessivas alterações. Introduzidas em 1982 (diminuição da carga ideológica da Constituição, fim do Conselho da Revolução, criação do Tribunal Constitucional), 1989 (abertura do sistema económico, fim das nacionalizações "irreversíveis"), 1992 (incorporação do Tratado de Maastricht, adesão ao euro), 1997 (reforço dos poderes do parlamento e do Tribunal Constitucional, luz verde a candidaturas independentes nas autarquias), 2001 (ratificação do Tribunal Penal Internacional), 2004 (reforço da autonomia regional, limite dos mandatos dos titulares de cargos políticos executivos) e 2005 (luz verde ao referendo do tratado constitucional europeu). Votando contra as seis primeiras e abstendo-se na mais recente.

O auto-proclamado "candidato da Constituição" apregoa, portanto, aquilo que o seu partido rejeitou. O que não deixa de ter graça, sem diminuir o mérito da sua iniciativa pedagógica: mais vale distribuir exemplares da Constituição do que exemplares do Avante!, um jornal onde nunca faltou quem escrevesse que «as políticas de Estaline terão sido as mais correctas e as únicas que podiam garantir a construção do socialismo e defender as conquistas revolucionárias» .

Presidenciais (12)

Pedro Correia, 22.01.21

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UM CONVITE A CAÇAR CEDILHAS

Há palavras que nunca devem ser usadas na propaganda política. Uma delas é a palavra "Força" - destacada nestes cartazes destinados a promover a candidata Marisa Matias. Inútil explicar porquê: basta um ligeiro retoque para dar lugar a Forca, algo de que todos fogem e ninguém elege. Apetece perguntar onde teria a cabeça quem produziu tão infeliz ideia.

Se isto acontecesse há uns anos, confesso que me espantaria. Porque o Bloco de Esquerda habituou-nos a ser bom na propaganda. Acontece, no entanto, que as coisas mudam: alguns dos seus membros mais qualificados nesta área migraram discretamente para o PS ou desiludiram-se do activismo político, desligando-se do partido. Os que foram ficando ou surgiram depois têm muito menos engenho e arte. E percebem pouco ou nada das subtilezas da língua portuguesa.

Só me admiro que a candidata, dotada de sensibilidade política, tenha avalizado esta lamentável palavra de ordem. Que só baralha e nada diz - além de estimular a caça à cedilha por parte das hostes adversárias. Devia ter vetado isto, alegando motivo de força maior. Sem ambiguidades verbais de qualquer espécie.

Presidenciais (11)

Pedro Correia, 21.01.21

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SIMPLESMENTE OBSCENO

Mais de 200 portugueses a morrer por dia, só com Covid – o equivalente a um avião cheio de passageiros cair todos os dias em Portugal, como escreveu o João Vieira Pereira. Mesmo assim, esta classe política foi incapaz de dar o passo que se impunha: suspender a putativa “campanha eleitoral” que por aí anda, supostamente para «contactar com os eleitores», quando eles (todos nós) estão obrigados a cumprir o «dever geral de confinamento», sob pena de pesadíssimas multas, ou lutam pela saúde e pela vida em unidades hospitalares sem capacidade de resposta para atender os pacientes.

 

Não entender que a tal “campanha” já devia ter sido suspensa é simplesmente obsceno. E mais um sinal de que esta gente vive totalmente alheada da realidade. Na actual atmosfera de pesadíssimo luto nacional, estes políticos (todos eles) prestar-nos-iam o maior favor se respeitassem a dor e a angústia dos portugueses, substituindo a “campanha” por acções de voluntariado junto de quem mais sofre e de quem mais precisa.

Procedendo como procedem, contribuem para engrossar as fileiras da abstenção em doses maciças a cada dia que vai passando, tornando inúteis e até risíveis todas as sondagens.

Teriam feito bem melhor em alterar o calendário eleitoral perante esta situação de calamidade pública, adiando por dois ou três meses o voto presidencial num escrutínio cujo desfecho, aliás, os portugueses conhecem de antemão. Souberam aprovar nove estados de emergência consecutivos, banalizando o que devia ser excepcional, mas não quiseram ou não souberam fazer o que o mais elementar bom senso recomendaria: adaptar a agenda política às dramáticas circunstâncias que vivemos.

Mas como exigir-lhes tamanho esforço mental se autorizaram um boletim de voto que parece uma rábula grotesca do Ricardo Araújo Pereira, cobrindo-se de ridículo, não conseguiram organizar o voto antecipado com eficácia mínima e foram incapazes de proporcionar o voto por correspondência a 1,4 milhões de portugueses recenseados no estrangeiro?

 

«Neste abençoado país todos os políticos têm “imenso talento”. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um “talento de primeira ordem”! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de “robustícissimos talentos”! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado “com imenso talento”, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!», escreveu Eça, pondo estas palavras na boca do seu alter ego João da Ega, n’Os Maias.

Palavras que continuam ironicamente actuais quase século e meio depois.

Presidenciais (10)

Pedro Correia, 21.01.21

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DESCUBRA AS DIFERENÇAS

Antigamente os jornais costumavam publicar dois desenhos que pareciam iguais mas afinal tinham pequeníssimos pormenores que os diferenciavam. Objectivo: desafiar os leitores mais argutos a descobrir as "sete diferenças".

Vem isto a propósito de Ana Gomes e Marisa Matias. Tento descortinar qualquer diferença programática, ideológica ou até de retórica política entre elas - sempre sem conseguir. Intriga-me, portanto, que ambas corram para Belém disputando o mesmíssimo eleitorado, sem terem feito aparentemente o menor esforço para convergir numa candidatura comum. O que só pode prejudicar ambas.

Admito, porém, estar enganado. Talvez existam entre elas as tais "sete diferenças". Alguém me ajuda a descobrir quais são? 

Fita portuguesa em destaque

Cristina Torrão, 20.01.21

O cinema português está novamente de parabéns. O filme “Desventuras em Bragança”, o drama de uma tia e seu sobrinho ciganos, foi galardoado com o prémio Bolsonaro, na categoria de melhor argumento original. É sabido que este prémio não é apreciado pelos vultos da cultura, mas não deixa de ter impacto internacional. Aqui um resumo da fita:

A tia e o sobrinho têm um breve momento de fama, num evento organizado por um político compincha e generoso, muito amigo dos pobres e com coragem suficiente para organizar um jantar com 170 pessoas, em plena crise pandémica, com ambulâncias a formarem filas às portas dos hospitais.

Nesse evento, a tia declara: “Não sigo os ideais da etnia, eu sou completamente diferente. Embora seja da etnia, não me revejo nalgumas coisas da cultura e da vida deles”, por exemplo, “não trabalhar, a falta de higiene, viver em barracas”. A seu lado, o sobrinho concorda ser preciso “todos trabalharem para o País andar para a frente”.

O arrependimento dos dois constitui a primeira surpresa nesta intricada trama. A tia publica nas redes sociais um pedido de desculpas pelas ofensas involuntárias, considerando ter existido “um mal-entendido”, pois o que ela queria dizer era “que todos deveríamos trabalhar e contribuir com os impostos para o bem de todos, quer fosse de etnia cigana ou não”.

A segunda reviravolta nos acontecimentos é ainda mais dramática. Num vídeo pessoal gravado horas depois do sucedido, o sobrinho confessa não ser cigano e garante ter sido convidado a aparecer na sede quando “já estava na cama”. E relata: “O segurança do senhor Ventura agarrou-me pelo braço e meteu-me lá dentro (…) Entrei porque me agarraram”. Pede desculpa aos ciganos por toda a polémica criada e confessa ter muitos amigos daquela etnia, alguns dos quais, admite, até já estiveram com ele na cadeia. “O que gosto é de fumar um porro [charro] de erva e estar com os amigos tranquilamente” (...) “Oxalá me tivessem pagado. Se soubesse antes que ia ter mil pessoas a ameaçarem-me no Facebook, teria pedido cinco mil euros…”.

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A animar o enredo, surge ainda um empresário, piloto nas horas vagas, o verdadeiro galã da fita, simpatizante do tal político e garantindo que votaria nele, se pudesse. Não lhe será, contudo, possível, por a sua residência fiscal ser em Marrocos, onde tem uma empresa de relvas desportivas.

Assim que seja possível estrear a fita, quem arranjar entrada para o empolgante evento, fica automaticamente inscrito no sorteio de um batom preto. Entretanto, pode aceder-se a mais pormenores desta história mirabolante, incluindo o vídeo pessoal do sobrinho, clicando no link dado. Vai ver que não se arrepende!

Presidenciais (9)

Pedro Correia, 19.01.21

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O VÍRUS DA INCOMPETÊNCIA

Em vez de andarem preocupad@s com as cores de batons, @s candidat@s presidenciais deviam preocupar-se com a saúde de milhares de portugueses que têm o dever de permanecer todo o próximo domingo junto das mesas de voto, conduzindo e fiscalizando o processo eleitoral.

Serão pelo menos 2500 cidadãos, nas 600 mesas de voto distribuídas pelo País. Em estado de emergência e na fase mais agressiva - e mortífera - da pandemia. Pessoas que estarão junto às urnas a receber e entregar cartões de cidadão e boletins de voto, durante horas a fio, em espaço fechado, previsivelmente sem ventilação, nesta época de invernia. Isto porque faltou vontade política para adiar este processo eleitoral, como o mais elementar bom senso recomendava.

Sem esquecer os cidadãos que também no domingo irão percorrer os lares de idosos com urnas eleitorais para recolher votos nesse mesmo dia - em moldes ainda por definir pelo Governo, pelas autarquias e pela Comissão Nacional de Eleições.

 

Pura navegação à vista, tudo ao sabor do imprevisto, medidas atrás de medidas tomadas em cima do joelho. Enquanto o ministro da Administração Interna contemplava, embevecido, as longas filas que se formaram anteontem junto das escassas mesas de voto disponíveis, atrevendo-se a compará-las à enorme afluência eleitoral registada nas presidenciais de 1976

Aquelas 260 mil pessoas que se inscreveram para o voto antecipado tinham um objectivo: escapar às hipotéticas filas do domingo que vem. Azar: acabaram por esperar muito mais tempo para poderem votar. Algumas chegaram a aguardar duas horas, em condições dignas de um país do Terceiro Mundo e potenciadoras de novos contágios por Covid-19.

Um retrato perfeito do vírus da incompetência que tem atacado com força o Governo. E que, sem olhar a cores políticas, atacou também o que resta da suposta e silenciosa oposição.

Política, pandemia e SNS: estamos num «carro desgovernado»

Pedro Correia, 18.01.21

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«A situação actual compara-se a um carro desgovernado. (...) Não tenho dúvida nenhuma de que o SNS e o sistema de saúde no seu conjunto, incluindo o sector social e o sector privado, estão a atingir limites preocupantes.»

 

«Se dependesse de mim, as escolas teriam sido fechadas. Se dependesse de mim, eu não teria esperado pelo dia 12, pela reunião do Infarmed, e teria tomado as medidas no dia 2 de Janeiro. Se dependesse de mim, nesta fase em que estamos a caminhar em direcção a uma parede, eu não teria um discurso tão soft, tão macio.»

 

«A indisciplina não resulta apenas do facto de os portugueses não serem agora os heróis de Março. Em Março éramos todos heróis e o melhor povo do mundo - e agora somos todos mal-comportados... Não. As pessoas, genericamente, aderem, cumprem, mas estão cansadas, estão exaustas.»

 

«Choca-me e custa-me muito ver o peso da mortalidade [por Covid-19] e ver Portugal neste primeiro lugar, que é o pior primeiro lugar que poderíamos ter em qualquer área.»

 

«Uma das razões que levam ao desânimo e até ao desencanto e à frustração mesmo dos profissionais da saúde é dizer-se que a democracia não pode ser parada por uma crise como a que estamos a viver. Isto não é respeitar a democracia. Porque o valor máximo, em democracia, é o respeito pela vida.»

 

«Creio que os portugueses não estão a dar atenção nenhuma às campanhas políticas e aos debates. Neste momento a preocupação dos candidatos devia ser visitar hospitais e ver as condições em que os profissionais da saúde e os bombeiros estão a trabalhar.»

 

«Qual é a prioridade do País neste momento? Diminuir esta propensão para o descalabro do Serviço Nacional de Saúde e para o número de mortos.»

 

Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, esta noite na TVI

Da igualdade

Cristina Torrão, 18.01.21

«Quanto às presidenciais de Janeiro em Portugal: porque é que os 1,4 milhões de eleitores portugueses que vivem fora de Portugal não podem votar por correspondência nas presidenciais? Só na Alemanha há mais de cem mil portugueses que, para votar, são obrigados a fazê-lo presencialmente numa rede consular esparsa e mal equipada e a deslocar-se centenas de quilómetros para entregar o seu voto. Obviamente, a maioria abstém-se. Nas últimas presidenciais, de acordo com a Pordata, a abstenção dos eleitores portugueses no estrangeiro foi de 99%. Porque se recusa o governo a legislar para possibilitar o voto postal e porque se mantém tão discreto neste assunto o actual presidente da República?»

Miguel Szymanski, PT-Post (jornal português na Alemanha) nº 317, Novembro 2020

 

«Nesta eleição, teremos de nos deslocar presencialmente aos consulados e muita gente terá que fazer centenas de quilómetros para votar. Os consulados não são, na sua maioria, espaços de grande dimensão e, por isso, antevê-se um processo que, com as normas de distanciamento social, poderá demorar mais tempo do que o habitual. A juntar-se a isto, temos que ter em conta que Janeiro é o pico do Inverno em muitos países, onde as comunidades portuguesas estão mais concentradas e não menos importante, muitos desses países têm restrições de mobilidade por causa do Covid, que poderão condicionar severamente, ou até mesmo impedir, as deslocações aos consulados. A receita terá o resultado que toda a gente sabe: um recorde de abstenção por parte dos portugueses a viver fora de Portugal, onde esta já é tradicionalmente elevada».

Gonçalo Galvão Gomes, cabeça-de-lista do PAN ao círculo Europa nas eleições legislativas de 2015 e 2019, PT-Post nº 318, Dezembro 2020

 

O disparate de não podermos votar por correspondência aumenta de dimensão em tempos de pandemia. O consulado de Hamburgo, por exemplo, além de não ser espaçoso, fica num 4º andar. Em caso de grande afluência, como organizar a fila de espera?

E porque só aos cidadãos recenseados em território nacional é dada outras possibilidades como o voto antecipado? No fundo, isto é uma forma de discriminar e não deve estar de acordo com a Constituição. Moramos no estrangeiro, mas temos nacionalidade portuguesa, temos um Cartão de Cidadão como qualquer um de vós. Não temos os mesmos direitos?

Presidenciais (8)

Pedro Correia, 18.01.21

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CALAMIDADE NACIONAL

Quase 200 vítimas mortais todos os dias em Portugal, só devido à Covid-19. Somos já o país do mundo com maior número de novas infecções e o quarto também à escala global com mais óbitos per capita. Temos mais mortos por milhão de habitantes do que os EUA

Enquanto este drama sem desfecho à vista assombra o quotidiano de milhões de portugueses, algumas microcaravanas presidenciais andam por aí preocupadas com batons.

Não pode haver maior indício do abismo que existe hoje entre políticos e pessoas comuns. Esta gente não se enxerga?

Janeiro negro: retrato do País em títulos do "Expresso"

Pedro Correia, 16.01.21

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«Governo preparado para manter restrições até à Primavera»

Nos próximos dois meses vão morrer tantas pessoas como nos últimos dez.

 

«Lisboa no limite, Centro e Alentejo mal e Norte a piorar»

Situação de pré-rotura de muitas unidades do Serviço Nacional de Saúde está a agravar-se devido à pandemia.

 

«Hospital de campanha fechado há meses por falta de médicos»

Unidade de contingência, com 58 camas, está no estádio Universitário desde Junho e nunca foi utilizada.

 

«DGS selecciona cancros que não podem ficar por operar»

Documento define prioridades entre doentes com intervenções inadiáveis face ao fecho de blocos operatórios.

 

«Portugal é o quarto país da Europa com as casas mais frias»

Nesta lista, só Bulgária, Lituânia e Chipre estão pior que nós.

 

«Aquecer a casa na vaga de frio: são 36 cêntimos por hora»

Consumo global de electricidade cresce 10% este mês, mas subida do consumo doméstico pode ser ainda maior.

 

«Imigração cai 9% em ano de pandemia»

Em 2019, estrangeiros haviam contribuído para 12% dos nascimentos em Portugal, atingindo um peso inédito na natalidade.

 

«Investimento público foi a grande vítima do défice zero»

Milhões de euros gastos pelo Estado não chegam sequer para compensar o desgaste das infra-estruturas.

 

«PIB pode cair até 7% este trimestre»

Caso as estimativas se confirmem, a economia portuguesa terá encolhido 8,2% no ano passado.

 

«Marcelo volta à rua sob tutela da DGS»

Presidente da República já fez mais de 80 testes à Covid-19.

 

«Assembleia da República reduz trabalhos»

Parlamento volta a realizar apenas dois plenários por semana, mantendo a redução do número de deputados por sessão.

 

Presidenciais (7)

Pedro Correia, 15.01.21

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UNIDO À MÁSCARA

Terça à noite, na RTP, houve um espectáculo dentro do espectáculo: seis candidatos presidenciais, reunidos no Pátio da Galé, debateram com um sétimo candidato, que ali só compareceu por via digital. Privilégio de rei-soberano, que não se digna descer ao povoado. Mesmo que o "povoado", como era o caso, se situe no Terreiro do Paço.

Os primeiros falaram sem máscara. O que se manteve à distância fez questão de aparecer com ela. Apesar de se encontrar em casa. «Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?», interrogava-se há nove meses Ferro Rodrigues, segunda figura do Estado português. Sem imaginar que, nove meses depois, a primeira figura nem a dispensaria no aconchego das paredes domésticas.

O "presidente dos afectos", que distribuía abracinhos e beijinhos, deu agora lugar ao "presidente dos infectos", que se resguarda de si próprio na solidão do lar. Quem diria que se trata do mesmo intrépido aventureiro que noutro século se atreveu a mergulhar na poluição do Tejo?

Presidenciais (6)

Pedro Correia, 14.01.21

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A PRIMEIRA VEZ

Lembro-me bem da emoção e do sentido de responsabilidade que senti ao votar pela primeira vez, aos 18 anos. O cuidado que tive ao analisar programas eleitorais e propostas dos candidatos - a "politizar-me", como então se dizia. Lembro-me bem da sensação de que, do ponto de vista da participação cívica, acabara de transpor uma etapa fundamental, atingindo a idade adulta.

Falo hoje com jovens de 18 anos e não encontro nada disso. Não sabem nada de política, não querem saber, não tencionam votar nem conhecem nenhum amigo que pense fazê-lo. Chegámos a isto, em quatro décadas de regime democrático.

Gostava de ver debatido nesta campanha o tema - cada vez mais preocupante, cada vez mais urgente - do progressivo divórcio entre os jovens e a democracia participativa. Nenhuma instituição sobrevive sem rituais - e nenhum deles é tão relevante como o voto. Acontece que os jovens portugueses - à semelhança do que vem sucedendo na generalidade dos países europeus - não votam, em larga percentagem, sem que isso pareça causar a mínima preocupação aos candidatos nem aos comentadores enredados no politiquês dos serões televisivos. Os políticos falam para serem escutados pelos comentadores e estes falam para serem escutados pelos políticos, num circuito fechado que apenas contribui para pôr os eleitores ainda mais à distância.

Pressinto que estas serão umas presidenciais marcadas pela maior taxa de abstenção de sempre, com destaque para a abstenção dos eleitores com menos de 30 anos.

Há sete candidatos, com uma média de idades de 50,5 anos (o mais velho tem 72 anos, o mais novo festeja amanhã o 38.º aniversário). Até agora, não ouvi uma palavra de qualquer deles sobre a deserção dos jovens. Apesar de poucos temas terem a gravidade que este tem.

Presidenciais (5)

Pedro Correia, 12.01.21

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A CAMPANHA QUE NÃO EXISTE

Estas presidenciais pós-natalícias têm vindo a transformar-se num nítido nulo, totalmente dominadas pela pandemia em curso. Os protagonistas políticos cederam palco aos virologistas. Existe apenas um vago ruído de fundo nos fugazes intervalos da monotícia Covid. A democracia segue dentro de momentos.

Ligada ao ventilador, em estado comatoso, esta campanha que já nasceu moribunda esteve ontem à beira de ser eutanasiada. Com o candidato favorito das sondagens, Rebelo de Sousa, a anunciar ao País que era portador de infecção. Quase todos os outros, que tinham estado com ele em dias anteriores, entraram em estado de prevenção profiláctica, recolhendo ao domicílio. E a campanha parecia ter congelado de vez.

Esta era a notícia da noite de ontem. A notícia desta manhã contradisse a anterior: Marcelo voltou a submeter-se ao teste e desta vez acusou negativo ("acusar negativo", neste caso, é positivo, o que simboliza bem o quadro geral de trapalhada em que vivemos). O jornalismo mais cortesão pode respirar de alívio: como noutros tempos se escrevia, «Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes».

O destino parece sorrir ao hipocondríaco Marcelo, positivo-negativo. Os adversários estão anestesiados, a militância política ficou reduzida a quase nada, o quadro sintomatológico do País é alarmante - o que favorece a benevolente figura do Chefe do Estado, zelador e cuidador do reino. 

Quando o inquilino de Belém se constipa, os portugueses sentem-se engripados. Marcelo já atraía eleitores de vários géneros - agora atrai também o eleitor comovido que ontem sentiu um susto ao supô-lo atingido pelo malfadado vírus. Incluindo ainda alguns dos quase 700 mil compatriotas que em 1976 votaram em Pinheiro de Azevedo, à época internado numa unidade de cuidados intensivos devido a um enfarte de miocárdio.

Ao voto por antecipação, que este ano deve ser mais elevado que nunca, junta-se o voto por comiseração. Os adversários de Marcelo têm motivos para tremer. E não é do frio.

Presidenciais (4)

Pedro Correia, 11.01.21

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DEBATE GOMES-MARCELO

Há uma diferença enorme entre querer e poder. Esta foi a frase extraída de um western que me veio à memória mal terminou o frente-a-frente da noite de anteontem entre Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa na RTP, bem moderado por Carlos Daniel. 

Para azar da nossa antiga representante em Jacarta, este não foi apenas o debate que lhe correu pior: foi também aquele em que Marcelo se saiu melhor. Enquanto ela titubeava, ele ia espetando farpas. Sempre de largo sorriso no rosto, talvez para aliviar a dor da antagonista.

Mas foram farpas precedidas de anestesia. Como sempre fez nestes debates, o presidente recandidato começou por elogiar quem tinha à frente. Ana Gomes - sublinhou - «teve um papel muito importante para Timor-Leste e para Portugal num momento histórico». Pura técnica retórica, que Marcelo domina com requinte florentino. 

Produziu efeitos com a bloquista Marisa Matias: quase só faltou saírem ambos a valsar do estúdio. E começou por funcionar também com a candidata apoiada pelo PAN e pelo Livre, ao ponto de o moderador se sentir forçado a dar-lhe duas deixas para ela criticar Marcelo. Antes que os telespectadores, bocejando, mudassem de canal.

Foi Carlos Daniel a sugerir ligação entre o suposto falhanço da pedagogia presidencial e o brutal aumento dos contágios por Covid-19 com uma pergunta directa à ex-eurodeputada: «Responsabiliza o Presidente da República pelo que está a acontecer?» Foi ele também a introduzir o tema do homicídio no SEF, que tanto incomoda Rebelo de Sousa. «Esta é das matérias em que eu faria diferente», afirmou a antiga militante do MRPP.

 

Ia a coisa a meio quando começou a haver debate. Ana Gomes atacou Rebelo de Sousa por viabilizar a nova solução governativa dos Açores - elogiando de caminho Cavaco Silva por ter convidado inicialmente Passos Coelho, vencedor nas urnas sem maioria parlamentar, para formar governo no Outono de 2015. Carregou de achismos a sua arma verbal e disparou: «Acho grave, normaliza uma força de extrema-direita.»

Seguiu-se este diálogo, com Marcelo a falar cada vez mais depressa e Gomes a pisar o travão:

- Como é que o Presidente da República recusa uma maioria parlamentar? (...) A posição da senhora embaixadora é proibir, fazer cordão sanitário. Eu sou contra. Ganha-se no debate das ideias, não se ganha proibindo, não se ganha calando. Isso é vitimizá-los.

- Não se trata de proibir...

- Trata-se. Defendeu a ilegalização, é proibir.

- As democracias têm de se defender contra os intolerantes, já dizia Karl Popper.

- Defende-se com as ideias, não se defende policiando.

- Se estivesse... quando estiver no lugar de Presidente da República serei absolutamente incisiva.

- Nunca pediu antes a ilegalização do partido. Foi ao Ministério Público pedir? Como cidadã indignada, porque esperou para ser candidata para vir dizer isso?

 

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Em política, o que parece é. Há quatro meses, parecia que Ana Gomes não descortinava sombras no mandato presidencial. Por uma vez, o inquilino de Belém recorreu à cábula que trazia preparada, lendo uma declaração da candidata: «Faço um balanço positivo do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. (...) Foi muito importante a articulação entre os governos e o Presidente.» Data: 9 de Setembro. Conclusão do sorridente Marcelo: «Até ao dia seguinte à declaração da sua candidatura achava que a articulação tinha sido magnífica.»

Sentindo que os minutos se escoavam sem pontificar no confronto televisivo, a socialista abandonou por uma vez o tom diplomático. Aludiu à «relação de amizade» entre Marcelo e Ricardo Salgado, sugerindo interferências de Belém no passo de caracol a que segue o processo BES.

Pisava um terreno em que nem o rei das insinuações, André Ventura, ousou mover-se.

Isto permitiu que Marcelo desenrolasse um inventário: «No meu mandato, orgulho-me de terem avançado - com duas procuradoras, não só com uma - a Operação Marquês, a Operação BES, recentemente o julgamento de Tancos, a Operação Lex, operações contra magistrados judiciais. Avançaram, não pararam.» 

Permitiu-lhe também o contra-ataque. Em comparação subliminar com o líder do Chega, remeteu-a à gaveta dos que disparam primeiro e só pensam depois: «Não sei se percebe o quão ofensivo é aquilo que disse. (...) Atingiu a minha honorabilidade e a minha integridade. Eu nunca diria de si aquilo que disse de mim. Não vale tudo na política.»

A sua antagonista nada mais de relevante proferiu.

 

Este foi o debate em que emergiu um vencedor mais nítido. Marcelo, receando a abstenção por parecer vencedor antecipado, só mobiliza votos vitimizando-se. Precisava do pretexto que Ana Gomes lhe serviu quando cedeu à tentação da demagogia.

Na sombra, António Costa terá sorrido: o seu candidato saiu-se bem neste western da campanha, galopando em triunfo na pradaria.

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Frases do debate:

 

Gomes - «É preciso ter uma relação leal e franca com o Governo.»

Marcelo - «Quem disse que o primeiro-ministro era igual ao primeiro-ministro húngaro Orbán não fui eu, foi a senhora embaixadora.»

Gomes  - «Marcelo Rebelo de Sousa podia contribuir mais para as soluções.»

Marcelo  - «A senhora embaixadora tem de estabilizar a sua opinião.»

Gomes - «Eu sei que o senhor professor, ate pela sua relação de amizade com o dr. Ricardo Salgado, é certamente das pessoas com mais interesse em que o caso BES já tivesse sido esclarecido, que já tivessem sido apuradas responsabilidades.»

Marcelo - «Eu não distingo entre portugueses. Não tenho interesses especiais, no caso Rui Pinto... não tenho interesses especiais nenhuns.»

Gomes - O senhor fala sobre tudo...»

Marcelo - «Não falo sobre tudo, falo sobre o que é importante. Quem fala sobre tudo é a senhora embaixadora.»