Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

À nora*

José Meireles Graça, 15.02.26

Num artigo neste jornal, dizia em Agosto de 2023 um prestigiado autor:

“E não conheço ninguém que no PSD ou na IL deixasse de votar nestes partidos por causa do alegado perigo de um entendimento com o partido dos fascistas. Porque um sócio minoritário que traga capital não vai definir a política da empresa – isso é o que fazem os sócios maioritários. No Chega sabem bem disso, que fazem teoricamente exigências (de pastas ministeriais, por exemplo) que sabem não poder ser cumpridas. O que quer dizer que entendem, e bem, que para continuarem a crescer o melhor é a chamada direita agir como se fosse de esquerda.”

Em Março do ano seguinte o mesmo teimoso voltava à carga:

“Só isto? Não, há mais e de índole prática: Governar é escolher e escolher é desagradar a alguns no imediato. Ou, se não for assim, desagradar à maioria a prazo. A segregação irracional do Chega deixa-o livre para acentuar a sua pulsão de cavalgar todo o descontentamento, resolver todo o imbróglio, ultrapassar toda a dificuldade a golpes de simplismo – e crescer.”

Em Maio constatava melancolicamente que o Chega, “livre de peias, tem asneirado com abundância”. E acrescentava que

“Se acordos discretos com o Chega já eram difíceis agora ficaram-no mais. De modo que de reformas (as quais, por definição, desagradam sempre a uma parte do eleitorado) estamos conversados.”

Pelo meio ficaram muitos textos por aqui e por ali que verberavam comportamentos de personagens cheganas detestáveis, que há por lá avonde, incluindo o líder, que se esforça por agradar aos indignados no tasco falando como eles. Sem porém perturbar o essencial, que é isto:

As linhas vermelhas antes das legislativas foram um claríssimo erro, e não ter feito um acordo de incidência parlamentar depois delas outro. Porque o Chega associado à governação seria um e é pouco provável que comesse por dentro a aliada AD; e por fora é outro, que vai cavalgando todos os descontentamentos, e a mediocridade dos resultados da governação, a ver se acapara o Poder.

É a esta luz que se deve ver a candidatura de Ventura à Presidência: um degrau na procissão até à ermida que fica lá no alto do monte.

Cidadão que respeite as instituições e não ache que mergulhá-las na confusão a benefício de um projecto que tem o defeito de ser contra uma quantidade de coisas que precisam de tratamento sem que se perceba o que são exactamente os medicamentos, não podia votar Ventura. E por isso, tendo excluído cada um dos outros por razões que a cada um cabiam, defendi o voto em Seguro.

Aos meus numerosos amigos que colam Seguro ao PS e à esquerda e aproveitam para associar à comandita os apoiantes oriundos da direita tenho um esclarecimento a fazer, e uma mensagem pedagógica a transmitir:

O esclarecimento: Seguro respeita a Constituição e esta, no que toca à organização do Estado (que era o que estava em jogo) não é de esquerda nem de direita, é o que temos; Ventura ameaçava destruir as mesas do Palácio de Belém com murros furibundos e as bancadas do de S. Bento aos pontapés – o país não tem nada a ganhar com mobiliário danificado.

A mensagem: Não há uma direita, há várias, e não reconheço, nem ninguém dono do seu nariz reconhece, autoridade a próceres da opinião para reclamar marcas registadas e distribuir etiquetas.

E agora? Temos um líder, Montenegro, que nem o módico de reformas que pretenderia fazer consegue levar a bom termo porque precisa ou do PS, que não é parceiro para reformar coisa alguma, ou do Chega, que para crescer não quer desagradar a nenhum grupo suficientemente numeroso de eleitores que possa sair prejudicado; um Presidente que, se puder e dentro dos limites da Constituição e das circunstâncias, favorecerá o PS na versão centro-esquerda, do que só pode vir marasmo; e um Chega que talvez não esteja longe do seu tecto, ou esteja fadado para o ultrapassar sem que porém se perceba o que é que, fora da revisão do Código Penal, do reforço dos poderes das magistraturas e das polícias, mais umas quantas violências e gesticulações no domínio da corrupção e imigração, defende. Como não se percebe (ou melhor, do que se conhece a gente preferia ignorar) o que defende como polítca económica, a menos que seja para levar a sério aquela ideia de baixar impostos, subir salários manu militari e outras frescuras estatistas. Há por lá gente com mais senso e menos demagogia? Há, mas ainda não se lhe vê a marca.

Ficaríamos melhor com Ventura como Presidente? Não, para o regime deixar de ser semipresidencialista é preciso alterar a Constituição, não pôr em Belém um arrebatado com os olhos postos noutro palácio. E Seguro vai resolver algum dos problemas do país? Não, mas não seria um obstáculo sério a que uma solução aparecesse lá onde se governa.

Essa solução, vai aparecer? Há um Ventura genuinamente reformista, que é Passos. Está, porém, posto em sossego, deve achar que por aqui é só malucos que não está para aturar.

* Publicado no Observador

Está de chuva

Pedro Correia, 30.01.26

rain.jpg

 

É absurdo as eleições presidenciais continuarem a realizar-se em meados de Janeiro, o mês mais frio, o mês mais chuvoso. Sei do que falo: andei na estrada em Janeiro de 2006, acompanhando como jornalista a caravana eleitoral de Manuel Alegre, que se viu impedida de se deslocar a certas regiões do País - a Bragança, por exemplo - devido a fortes nevões. Um deles deixou-nos bloqueados no Marão: lá tivemos de regressar imprevistamente ao Porto às tantas da noite, com a agenda por cumprir.

São absurdas estas corridas presidenciais com as festas de Natal e de Ano Novo de permeio. Que dispersam as atenções e distanciam os eleitores dos candidatos, contribuindo para fortes índices de abstenção.

O primeiro calendário eleitoral, em Junho de 1976, fazia bastante mais sentido. E até o segundo, no início de Dezembro, em 1980. Janeiro é que não faz sentido algum. Estranhamente, até agora não ouvi uma palavra sobre o assunto da parte dos candidatos ou de certos comentadores que gastam serões televisivos a debitar banalidades, incapazes de deixar transparecer uma ideia original ou esboçar um ângulo de análise digno de reflexão.

Presidenciais

José Meireles Graça, 21.01.26

Na aldeia há apenas dois restaurantes, um de cada lado da rua principal. São ambos muito frequentados, sendo o mais antigo maior e com mais farta clientela.

O prato mais conhecido num são as tripas à moda do Porto, bastante apimentadas; e no outro a língua estufada com ervilhas e puré.

Os clientes tendem a ter perfis diferentes: No mais pequeno sobretudo motoristas de camião, vendedores de feira e negociantes de gado, no maior funcionários, quadros de empresas, profissionais liberais e pessoas gradas da terra.

Dentro de cada um quase todos se conhecem, salvo o turista de passagem. E lá onde está a gente mais composta não se ignoram os podres de muitos velhos clientes. Há também alguns intelectuais, normalmente de farta cabeleira e com duas fundas rugas de preocupação cavadas nas fontes inspiradas. Suscitam respeito e algum temor de, em vez de comerem, se dedicarem a prédicas sobre revolução social que os restantes ouvem calados e entediados.

Os donos são também diferentes: Um, o mais recente e jovem, espalha-brasas iracundo que gesticula muito, fala alto e atira dichotes para o outro lado da rua; e o outro um profissional sereno, à antiga, filósofo desencantado à sua maneira.

Gosto de tripas e não rejeito o picante; e, ainda que apreciando língua, naquele sítio põem-lhe demasiada cenoura e puré foi coisa que apreciei muito mas era quando tinha seis meses.

Onde vou então, habitualmente? Ao das tripas não, que há o risco de intoxicação e o barulho é insuportável. E no da língua bem gostava de não pôr os pés.

Mas a gente tem de comer em algum sítio, se não quiser ficar em casa a dialogar com as paredes.

Antigamente é que tudo isto era bom? Olhem que não, olhem que não

Pedro Correia, 10.01.26

111111.jpg

2222222.jpg

A RTP exibiu há poucos dias, no seu canal de notícias, o documentário A Duas Voltas, que recorda a mais emocionante campanha eleitoral da democracia portuguesa, ocorrida faz agora 40 anos.

Recorrendo ao valioso espólio documental da televisão pública, esta instrutiva série em cinco episódios devia ser exibida nas escolas secundárias. Por recordar um período de extrema polarização política, quando o regime já tinha dez anos e o País permanecia na cauda de vários indicadores económicos, apesar de termos ingressado pouco antes na Comunidade Económica Europeia. A inflação rondava os 20%, havia meio milhão de desempregados, a chaga dos salários em atraso instalara-se em muitas empresas.

Foi a primeira vez - e única, até agora - em que uma eleição presidencial se decidiu a duas voltas - disputadas a 26 de Janeiro e a 16 de Fevereiro de 1986. Na ronda inicial, venceu Freitas do Amaral com larga vantagem: 46,3%, muito acima de Mário Soares, que recolheu 25,4% dos boletins. Na ronda decisiva, as posições inverteram-se: Soares derrotou Freitas, com 51,2% contra 48,8%. Triunfo à tangente: menos de 140 mil votos de diferença num universo de quase 6 milhões de eleitores.

Para trás ficaram outros aspirantes a Belém: o ex-número 2 do PS, Francisco Salgado Zenha, teve 20,9%, e a antiga primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo ficou com 7,4%. 

 

Este documentário - que recomendo sem reservas - é muito interessante pela abundância de pormenores que fornece e pela ampla gama de depoimentos que recolhe, mas também por nos traçar um expressivo retrato do que era o Portugal político de 1986.

Eu vivi esse período histórico já como jornalista profissional e confirmo: o país aqui descrito estava muito longe do cenário idílico que alguns comentadores tocados pela nostalgia nos querem descrever hoje, sob o princípio "no meu tempo é que era bom". Insistindo na tese de que se registou séria degenerescência na democracia portuguesa ao longo destas quatro décadas. Excelente então, péssima agora.

Não é verdade. Basta recordar em traços largos o que sucedeu em 1985-1986. Pintasilgo atraiçoada por Ramalho Eanes, inquillino do Palácio de Belém que a incentivou a avançar na batalha da sucessão e depois lhe tirou o tapete, deixando-a sozinha em palco. Zenha e Soares rompendo em definitivo uma camaradagem de 30 anos, envolvendo-se numa luta fratricida. O Presidente da República mandando às malvas o dever de isenção, enviando a esposa para comícios em apoio expresso a Zenha enquanto formava um partido político a partir do palácio. O secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, tirando da cartola um candidato fictício, Ângelo Veloso - mera manobra para obter tempo de antena favorável a Zenha, que contaria com os votos comunistas na primeira volta.

Tacticismo, intriga, traição, populismo do mais rasteiro: nenhum destes ingredientes faltou.

 

Falta acrescentar, em pano de fundo: o Partido Comunista de férrea obediência soviética valia ainda 15,5% de votos neste país membro da NATO, em plena Guerra Fria. Quando toda a Europa de Leste permanecia amordaçada, no lado de lá da Cortina de Ferro. Com 38 deputados e 47 presidências de câmaras municipais, o PCP mantinha enorme influência nas ruas, nos sindicatos e nas redacções dos órgãos de informação, onde facilmente impunha a sua narrativa.

Era tão influente que bastava a vontade de um só homem, neste caso o próprio Cunhal, para decidir o desfecho de um escrutínio. Aconteceu a 2 de Fevereiro, com a convocação de um congresso extraordinário do PCP: o líder do partido, renegando tudo quanto dissera desde sempre contra Soares, recomendou aos militantes que votassem no socialista, mesmo tapando-lhe a cara e o nome no boletim de voto. E a multidão comunista obedeceu cegamente à ordem do "camarada Álvaro".

Soares deve a Cunhal - seu inimigo histórico - o primeiro mandato como presidente. Tudo a pretexto de travar o passo ao "reaccionário" Freitas do Amaral, que por ironia do destino viria a encerrar a carreira política como ministro dos Negócios Estrangeiros do governo Sócrates

 

Era este o país que alguns lembram agora com suspiros nostálgicos.

Um país em que o moderadíssimo Freitas não virava uma esquina sem ouvir alguém chamar-lhe "fascista". Um país em que milhares de militantes partidários obedeciam cegamente à voz de comando do dirigente máximo, seguindo-o sempre em rebanho após cada decisão contraditória. Um país em que o Presidente conspirava contra governos e a sua esposa surgia como réplica serôdia de Evita Perón, beijando criancinhas em comícios renovadores.

Um país em que toda a imprensa diária estava "nacionalizada" e a televisão livre do monopólio estatal ainda soava a utopia. 

 

Na corrida eleitoral nem faltava o candidato ungido por Belém com este discurso: «É necessária uma nova democracia e uma nova república. Uma nova democracia, porque a que temos é uma democracia achacada por vários vícios, como o clientelismo, a irresponsabilidade, a corrupção, o centralismo e a desigualdade perante a lei.»

Assim falou Zenha ao apresentar-se como concorrente à chefia do Estado. Soa-vos a algo familiar? Pois.

Não acreditem quando vos disserem que antigamente era tudo melhor.

 

A Duas Voltas, documentário de Ivan Nunes e Paulo Pena, pode ser visto ou revisto na RTP Play.

Mariana tem paciência, irás à presidência

José Meireles Graça, 24.07.25

Se Mariana Mortágua decidisse ser candidata a PR teria o meu apoio. É que a Presidência quase não tem poderes nenhuns, está reduzida à imagem cerimonial e à magistratura de influência, pelo que o que quer que ache o Presidente não conta para nada e logo por aí Mariana não tem contraindicações. Quanto à imagem: Dos candidatos com hipóteses de ganharem temos o almirante, que é demasiado alto e com uma carantonha de sargento e Marques Mendes, que é demasiado baixo, além de António José Seguro que é sério e por isso mesmo muito chato. Dos outros e outras nem falo porque não têm hipóteses, além de serem feios ou terem defeitos insuperáveis, como Centeno, que tem um sorriso em forma de esgar, Cotrim, que anda sempre com a camisa desabotoada, ou Sampaio da Névoa (os jornalistas costumam grafar “Nóvoa” por razões misteriosas), que parece o Professor Pardal.

De imagem estamos conversados. Mariana é decorativa, tem voz doce, e isso levaria a que não nos firmássemos no que ela realmente estivesse a dizer, que seriam invariavelmente asneiras. Isto, que pode parecer contraditório com o acima referido papel da função, não o é se tomarmos como referência o que fez Marcelo: fartou-se de dizer coisas agradáveis e já serão raros os portugueses que não tenham uma selfie com ele, emoldurada em cima da lareira, mas ninguém lembra nada do que disse, prova provada de que tanto faz paleio assim como assado. E convir-se-á que se Mariana trocasse de fato de banho na praia, como fez Marcelo, semelhante gesto atrairia muito mais atenção, e simpatia, do que a manobra daquele.

Tudo isto chega para justificar o meu voto? Não. Mas os Portugueses, por esta altura, já sabem que vão eleger um rei constitucional a prazo e não sabem mas também não interessa que este rei eleito ainda tem menos poderes que o saudoso D. Carlos. Cujos pais, avós e tetravós sabíamos quem eram, o que garantia ser das melhores proveniências.

De modo que Mariana Mortágua acabaria por consolidar a ideia de que se calhar valeria a pena experimentar outra coisa, e essa coisa só poderia ser a monarquia.

Se sou monárquico? Hoje sim, se aparecer um candidato que me encha, ainda que só pela metade, as medidas, talvez volte a ser republicano.  

Treinador de bancada que não passa disso

Pedro Correia, 25.06.25

ASS.webp

Augusto Santos Silva, em recente entrevista à SIC Notícias, exibiu o seu maior desdém pelas candidaturas à Presidência da República já anunciadas. Em particular a de António José Seguro, antigo secretário-geral do PS.

Seguro, em vez de se refugiar em profundos cálculos afundado no sofá, como António Vitorino, ou fazer de conta que avança sem nunca dar um passo em frente, como vários outros socialistas, apresentou-se como candidato a Belém numa concorrida sessão pública nas Caldas da Rainha - cidade onde reside - em que faltaram lugares sentados para tantos que lá compareceram para lhe manifestar apoio.

 

ajs.jpg


Vale a pena recapitular algumas frases que pronunciou nesta sessão, a 15 de Junho:

 

«Não preciso de aprender no cargo: chego preparado.»

«O País precisa de um Presidente que seja referência moral e não ruído mediático.»

«Agirei como Presidente que escuta antes de falar.»

«Precisamos de governos de projecto e não de governos de turno.»

«Governos a prazo conduzem Portugal a prazo.»

«Só a criação de riqueza pode trazer progresso, melhores salários e melhores pensões.»

«Consultarei o Conselho de Estado mas não me dispensarei de escutar o conselho do povo.»

«Não saio do meu conforto para fazer mais do mesmo: venho para mudar. Se fosse para ser mais do mesmo, haveria outros melhores do que eu.»

«Liderei [como deputado] a reforma que permitiu ao Parlamento exercer verdadeiro controlo político sobre os governos, designadamente com a realização de debates quinzenais com a presença do primeiro-ministro.»

«Sozinho, no plenário da Assembleia da República, levantei-me para votar contra a lei de financiamento dos partidos políticos que reduziu o controlo da entrada de dinheiro.»

«Quero ser um Presidente da República respeitado pelo exemplo.»

 

Questiono-me quais destas declarações terão provocado um esgar de repulsa a Santos Silva, levando-o a debitar a seguinte frase quase bombástica na mais recente das suas entrevistas: «Nenhum dos três candidatos que estão no terreno cumpre os requisitos mínimos que um Presidente da República de um país como Portugal deve ter.»

Notem bem: requisitos mínimos. Visando, em particular, o seu camarada de partido. Que, ao contrário dele, não fez parte do séquito de José Sócrates.

Caso para perguntar porque espera então o enfastiado Augusto para deixar de ser treinador de bancada e apresentar-se enfim a jogo. Noção de que é incapaz de mobilizar apoios ou simples receio de ir a votos?

Antes a surdez do que tal sorte

Pedro Correia, 22.06.25

 

Não deixem o homem voltar a assassinar o hino nacional se querem mesmo que ele seja eleito Presidente da República.

Implorem-lhe que fique calado: ninguém é menos patriota se escutar o hino em silêncio. Mau (péssimo) é destroçá-lo nota por nota, numa confirmação viva, quase desesperada, da profunda incultura musical dos portugueses.

Se ele insistir, assegurem-se de que não tem nenhum microfone perto dele. Ou desliguem-no, se for necessário. Os fins justificam os meios.

Quem avisa, amigo é.

Pantalhas presidenciais

Pedro Correia, 05.06.25

mendes-e-almirante-1.jpg

 

Duas estações televisivas, nos seus canais noticiosos, parecem já ter elegido os seus candidatos de estimação a Presidente da República.

A SIC/SIC N prefere Luís Marques Mendes.

A TVI/CNN-P escolhe Henrique Gouveia de Melo.

Na RTP, ainda não percebi. Talvez aguardem por Sampaio da Nóvoa.

A CMTV, que só se ocupa de crime e bola, parece simpatizar com Rui Costa.

Sim, não é futebol

Sérgio de Almeida Correia, 04.06.25

cartaz99457_grande.jpg

Diz a presidente da Comissão de Honra de Marques Mendes, Leonor Beleza, que "[o] presidente da República não é um árbitro, não estamos no futebol aqui. Não tem o presidente da República como árbitro que enfrenta as diferenças ou as competições entre distintas equipas. O presidente da República é ele próprio um ator. É um ator de primeira grandeza, nos termos da nossa arquitetura constitucional. Ele não arbitra, ele participa.

Creio que Leonor Beleza tem toda a razão quando o afirma. O seu candidato, Marques Mendes, é um verdadeiro actor. Ele não tem experiência política. A sua experiência é cénica. A política foi uma peça na sua vida de actor.

E como actor tem estado no palco, há decénios, com prejuízos pessoais, diariamente sentidos na bolsa, sujeitando-se à luz forte dos holofotes, à provação de horas de maquilhagem, de tal forma que o pó de arroz, os trejeitos e as sombras já fazem parte da sua pele. Da sua personalidade.

É um actor habituado à novela política, experiente nos jogos de bastidores e nas deixas. Tão experiente que, não raras vezes, tem feito de ponto. Consoante o guião e o encenador adapta-se às circunstâncias.

E a melhor prova de que é um actor está em levar a palma à multiplicidade de sensibilidades dos apoiantes de Henrique Gouveia e Melo.

Marques Mendes conseguiu reunir na sua Comissão de Honra um painel tão ecléctico, tão garrido, tão animado, que desmente a ideia daquele outro candidato, o que vem da casta militar, quando transmite a ideia de que a política não é exclusivo daqueles "(palavrão) que fizeram um curso especial que é o curso da política".

Sim, Leonor Beleza tem razão. Marques Mendes não é um árbitro. Ele para o apito não tem jeito. E corria o risco de passar despercebido dentro do campo. Ou de engolir o apito na hora de exibir os cartões quando os jogadores começassem a encher o peito e a lançar-lhe uns perdigotos nas lentes.

Marques Mendes é um actor de primeira grandeza. Que ninguém tenha dúvida. Há anos que o mostra pública e religiosamente em horário nobre nas suas récitas e homilias. Tão depressa compungindo como irado, solidário e justiceiro, ora condescendente e tolerante quanto implacável e esquecido, surgindo perante o povo português com a sabedoria amestrada de um Sinhozinho Malta na hora de conquistar a viúva Porcina.

Não sei se alguma vez irá receber um Globo de Ouro ou um Grande Prémio do Teatro Português. Estará sempre a tempo.

O facto de ainda não ser o candidato preferido de José Sócrates dá-lhe pontos, mas o seu grande trunfo, e daí a oportunidade da tirada de Leonor Beleza, é Marques Mendes apresentar-se a eleições no seu papel de actor e apoiado por uma Comissão de Honra que parece o elenco completo de uma produção de Filipe La Féria para o Politeama. De Toy a Moedas, dos verdadeiros árbitros do chuto-na-bola ao Toni, de António Sala a Margarida Rebelo Pinto e à tropa, há lugar para todos. Até para abades.

E se no final a peça for um fiasco – não seria a primeira vez –, haverá sempre a possibilidade de se recuperarem as figurantes, pedir um subsídio à Solverde e abrir em Fafe, que tão carecida está, uma escola de samba.

Começou bem

Sérgio de Almeida Correia, 03.06.25

"Por um lado, há uma certa ideia de casta política; que, por um lado, defende o cidadão que participe na democracia e na vida pública, mas são um conjunto de cidadões que fizeram um curso especial que é o curso da política."

"Imagine que tem um jogo de futebol de dois clubes e há um árbitro com a camisola de um dos clubes. Qual será a ideia de independência desse árbitro. A minha camisola interior só tem uma coisa lá a dizer que é Portugal, não tem mais nada."

"A primeira medida que implementaria seria começar a falar menos, e a falar só quando for necessário sobre coisas substantivas."

"Se calhar o melhor sistema, o que faria mais sentido, é que todas as pessoas que saem do contrato militar, ficarem numa reserva de forma voluntária mas com alguma recompensa por esse esforço. E essa reserva vai chegar ao número que é um objetivo."

"Eu sou pró-vida teria dificuldade em deixar passar uma lei que facilitasse o suicídio em vida, mas onde está a fronteira?"

"Portugal deve investir o que for necessário para a defesa de Portugal e de acordo com os aliados. Não podemos ficar desfasados."

Não faltou nada

Sérgio de Almeida Correia, 02.06.25

1901-Tinturaria-Cambournac-01-0119.jpg

(créditos: daqui)

E o grande momento concretizou-se. A plateia encheu-se.

Havia adscritos, numerários e supranumerários, maçons e ex-maçons, autarcas, empresários, condenados reintegrados no sistema, jotinhas, donas de casa, reformados, jovens, chefes de família, camaradas, reformistas, facilitadores de negócios, ex-ministros, reservistas, traficantes de influências, poliglotas, os falhados da política, germanófilos, gastrónomos e videntes.

E houve discursata. Profunda. Quase um programa de governo. A Constituição vai ter de mudar, claro.

Ele promoverá as mudanças necessárias, distribuirá raspanetes e lições como quem distribui vacinas.

E vai tomar decisões, muitas decisões. Quais, como, ninguém sabe. O que é preciso é ter bandeiras. Agitá-las muito. Saber ler o tele-ponto. Há-de melhorar, com a prática. Como a política. Não há clubes fechados. E se houver algum fechado a gente abre. 

O apoio não lhe falta. E também não faltou ninguém.

Fiquei satisfeito por saber que os convites chegaram a tempo. Mas para a próxima convém enviá-los mais cedo para que os convidados possam tirar os fatos dos roupeiros e colocá-los a arejar a tempo e horas.

Quando isto não acontece, como se viu, nalguns tecidos, sendo indiferente que se tratem de fardas, batinas, paramentos luxuosos, becas, togas, fatos de cerimónia ou vestidos de seda, independentemente de quem os veste, o pivete não sai com facilidade.

É sempre um problema nas lavandarias. O senhor Cambournac já o dizia à Mélita. Aquilo não sai com Miss Dior ou Vétiver. Não é como a traça nas lãs, que com métodos modernos se consegue manter à distância. Nada disso.

É há tecidos em que ao cheiro, com o tempo, se juntam pequenas manchas. Não há limpeza que os recupere. Nem cinquenta anos de arejamento resolvem o problema.

Nestes casos, eu só vejo uma solução: enviar os convites ainda mais cedo.

Eu sugeria que o fizessem antes das eleições autárquicas. Para se ganhar tempo enquanto se cumpre o calendário até Janeiro.

Seria muito desagradável chegar-se a uma tomada de posse com os convidados a tresandarem a cânfora, a naftalina, e com o cheiro a mofo entranhado na plateia a chegar ao discursante.

Qual deles preferem?

Dezasseis proto-candidatos à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa

Pedro Correia, 29.11.24

Entre os pré-candidatos, proto-candidatos, putativos candidatos e aqueles que adorariam candidatar-se à Presidência da República mesmo sabendo não ter a menor hipótese de lá chegarem, enumerei uma lista de dezasseis, que passo a reproduzir por ordem alfabética. Desta lista sairá quem vai suceder a Marcelo Rebelo de Sousa. *

Espero que quem me lê aproveite para destacar o(s) candidato(s) da sua preferência. E também que digam quem são aqueles que em circunstância alguma terão o seu voto.

Se não for pedir muito, espero ainda que possam justificar o que os leva a assumir tais opções de apoio ou rejeição, desde já, na próxima corrida ao Palácio de Belém.

 

Eis a lista:

images.jpg

ANA GOMES

anre.jpg

ANDRÉ VENTURA

António_Guterres,_23.03.23.jpg

ANTÓNIO GUTERRES

antonio-jose-seguro.jpg

ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

av.webp

ANTÓNIO VITORINO

ass.jpg

AUGUSTO SANTOS SILVA

cc.jpg

CARLOS CÉSAR

hen.jpg

HENRIQUE GOUVEIA E MELO

db.jpg

JOSÉ MANUEL DURÃO BARROSO

aguiar.jpg

JOSÉ PEDRO AGUIAR BRANCO

Luis-Marques-Mendes.jpg

LUÍS MARQUES MENDES

mario-centeno.jpg

MÁRIO CENTENO

paulo-portas-1.jpg

PAULO PORTAS

author_photo_185.png

PEDRO SANTANA LOPES

rui.jpg

RUI MOREIRA

rui rio.jpg

RUI RIO

 

* Da lista não constam Leonor Beleza e Pedro Passos Coelho, que já se auto-excluíram de viva voz.

Ele anda por aí

Pedro Correia, 16.07.24

DB.jfif

Nos últimos dias, Durão Barroso mostrou-se muito por aí. Tem a idade de Santana Lopes, mas parece mais bem conservado. Começo a pensar que estamos perante um proto-candidato à Presidência da República em Janeiro de 2026 - terá ele então 69 anos. «Curioso número», parafraseando Mota Amaral.

Não sei o que pensam sobre o tema, mas eu fixaria este nome desde já.

A história repete-se

Pedro Correia, 08.12.23

RC.jpg

 

«Nas próximas presidenciais uma segunda volta é, assim, praticamente inevitável. Não era esse o seu objectivo, mas Nobre e Alegre abriram um caminho que não se volta a fechar.»

Ricardo Costa (Expresso, 29 de Janeiro de 2011)

 

«Eu acho que as próximas presidenciais vão ser a duas voltas. Nós estamos pouco habituados a isso porque a última vez que houve presidenciais a duas voltas foi em 1986.»

Ricardo Costa (SIC Notícias, 9 de Outubro de 2023)

De volta

Pedro Correia, 03.07.23

AJS.jpg

 

António José Seguro regressa, após longo interregno. E a dizer coisas acertadas. Como estas: «Não basta batermos no peito para dizer que somos desta ou daquela ideologia. É importante que a prática esteja de acordo com os valores e princípios dessa ideologia e, sobretudo, com os resultados.» Palavras que podem ter vários destinatários. Entre eles, António Costa.

Em Maio, Seguro já tinha avisado: tenciona voltar aos palcos políticos. As dúvidas dissiparam-se: vai mesmo andar por aí.

É um nome a ter em conta na próxima campanha presidencial.