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Postais do Meu País Improvável

por Francisca Prieto, em 07.03.14

Um dia, numa praia do meu pais improvável tão difícil de lá se chegar que só os mais ousados se aventuram, chegou a hora de ir embora. Os miúdos pedem mais um mergulho e eu, na esperança de conseguir prolongar as horas mornas, deixo. Quero lá saber se vêm todos molhados e se enchem o carro de areia.  Sento-me numa cadeira e espero, enquanto repasso pela memória retalhos de verões antigos.

Na praia, sobramos nós e um grupo de nudistas para os quais os miúdos olharam com muita curiosidade ao início da tarde mas que, a esta hora, já nem ligam.

Começamos a andar em direcção ao carro com a algazarra de quem passou um dia em cheio. Numa esquina do areal daquele fim de mundo, entalada entre dois rochedos, está estacionada uma roullote com duas pranchas de surf no tejadilho. Cá fora, uma mesa e um par de cadeiras. E, à medida que nos aproximamos, o proprietário de pé, a tocar contrabaixo.

Postais do Meu País Improvável

por Francisca Prieto, em 30.01.14

Um dia, num hotel do meu pais improvável, chegou um rapaz que, pela incompreensibilidade do discurso, se supôs ou provir de um reino distante, ou ser louco. À cautela, informaram-no da diária. Dormida por uns tantos euros, incluíndo a pernoita do cão.

O rapaz levou a mão ao bolso das calças andrajosas e retirou um maço de notas. O suficiente para acautelar a despesa. Mais do que suficiente para intrigar quem o recebeu.

Durante várias jornadas, à hora da refeição, dirigiu-se ao restaurante e apontou para a ementa. O pedido repetiu-se dia após dia: um prato de frango, com guarnição à parte. O cão comia a carne, ele alimentava-se da guarnição.

Ao fim de uma temporada, numa viatura de gabarito incontestável, chegou ao hotel um senhor de fato escuro. Acertaram-se as últimas contas e, rapaz e cão, entraram para o carro com um aceno de despedida. Pelo que se percebeu, o senhor era motorista, chauffeur à antiga. De resto, não se percebeu mais nada.

Postais do Meu País Improvável

por Francisca Prieto, em 23.01.14

Numa aldeia do meu país improvável existe um alemão que, pela manhã, se senta de ceroulas nos degraus defronte de sua casa e um francês que toma duche ao ar livre, todo nu, praticamente no meio da rua. Ando mortinha para que algum forasteiro me venha falar disto, só para poder dizer que são figurantes dos Fura Del Baus, contratados para dar exotismo à região.

Postais do Meu País Improvável

por Francisca Prieto, em 19.01.14

No meu país improvável, às vezes vou à povoação vizinha pelo caminho de baixo. Não por ser mais curto, muito pelo contrário. É um troço de terra que me obriga a passar por pequenos riachos, facilmente evitáveis se preferisse calcorrear o alcatrão. Mas por ali vou muito tempo sem rede de telemóvel, tanto tempo que por momentos chego a acreditar que estou a chegar à Nova Zelândia.

A meio do caminho de baixo costumo cruzar-me com cabras a pastar e levanto o braço num aceno para cumprimentar quem estiver a tomar conta delas.

Um dia fui surpreendida por uma jovem pastora de semblante alemão, com cabelo em rasta, que em pleno pasto envergava umas calças de algodão largeironas enroladas na cintura e uma parte de cima de um biquíni. Numa mão um cajado e, na outra, um livro aberto, dobrado pela lombada.

Ao dar pela minha passagem, levantou a cabeça e respondeu ao meu aceno com um sorriso.


O nosso livro






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