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Delito de Opinião

Portugueses em Cuxhaven

Cristina Torrão, 26.05.22

Por vezes, há coincidências interessantes. Tinha eu acabado de publicar (aqui e aqui) fotografias de Cuxhaven, quando o Jornal Católico da Diocese de Hildesheim (do qual sou assinante) publicou uma reportagem sobre os portugueses daquela cidade costeira, na sua edição nº 19, do passado dia 15 de Maio.

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Em Cuxhaven, vivem cidadãos de 112 nações diferentes e a comunidade mais numerosa é, precisamente, a portuguesa, com cerca de 1300 pessoas. Estamos no Norte da Alemanha, de maioria Protestante, de maneira que os portugueses representam uma parte importante da paróquia católica de Santa Maria.

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Duas portuguesas mereceram destaque, nesta reportagem. Maria Santos é, há vários anos, a coordenadora da comunidade portuguesa da paróquia. No dia da visita do jornal, Maria Santos não tinha mãos a medir, pois as crianças da primeira comunhão treinavam para o grande dia e, a 14 de Maio, como todos os anos, far-se-ia a procissão de Nossa Senhora de Fátima.

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A outra senhora destacada é Áuria da Cunha, em Cuxhaven desde 1969. Tinha 22 anos, quando lá chegou, a fim de trabalhar na indústria pesqueira, como muitas outros portugueses e portuguesas. A missa na língua de Camões realiza-se todos os sábados, às 16h 15m. Áuria da Cunha chega sempre à igreja meia hora mais cedo, a fim de ter tempo de rezar primeiro o terço, na companhia de algumas outras pessoas.

Na verdade, trata-se de uma missa só em parte portuguesa, já que, à falta de um padre da nossa terra, é rezada em alemão, enquanto a comunidade responde em português. Dois padres alternam-se na celebração: um alemão e um polaco. Este último, de nome Dabrowski, começou a aprender português há cerca de dois anos e reza já parte da cerimónia na nossa língua. «Vejo grande alegria e agradecimento nos olhos da comunidade, quando o faço», assegura o clérigo polaco.

As Associações portuguesas, que nasceram como cogumelos neste país nos anos 1960 e 70, há muito que agonizam, por falta de interesse das novas gerações. Já as paróquias católicas continuam a ser um grande amparo para os portugueses emigrados. Porque, como diz Maria Santos, «sem Igreja, nada funciona» (ohne Kirche geht es nicht).

Judiarias

Ana CB, 04.05.22

 

Sou mais de pensar no futuro do que no passado, mas nas minhas viagens gosto de visitar bairros antigos. Presto atenção particular à arquitectura, sobretudo quando não está “maquilhada” pelas falsas reconstituições que tantas vezes alteram o carácter original dos lugares (assunto com pano para mangas, que poderá ser motivo para outro artigo). Estes bairros são muitas vezes a linha que me conduz a conhecer um pouco da história de cada lugar, frequentemente a posteriori, e também frequentemente para tentar separar o trigo do joio, ou seja, o que é facto histórico verificado daquilo que é efabulação ou exagero para chamariz turístico. Nos últimos anos, o acaso tem levado os meus passos até algumas antigas judiarias em cidades e vilas europeias, e tenho vindo a interessar-me progressivamente por estes bairros, que de uma forma geral mantêm algumas das suas características originais e terão sido menos adulterados pelos modismos da passagem dos séculos.

 

HERVÁS

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Diz a publicidade turística que o seu bairro judeu é um dos mais interessantes e melhor conservados em Espanha. Para mim, foi um dos que mais gostei de visitar até hoje. Hervás fica a pouco mais de 100 km da nossa fronteira, entre Plasencia e Salamanca, entre florestas de castanheiros e carvalhos na região do vale do rio Ambroz. A vila tem as suas raízes em finais do século XII, quando as terras foram doadas por Afonso VIII a monges templários, que ali erigiram uma ermida e apoiaram o povoamento local, submetido à autoridade do Duque de Béjar.

 

Em 1391, estalou em Sevilha uma revolta contra a população judaica, que se alastrou depois a várias cidades dos reinos de Castela, Aragão e Navarra. A Europa sofria os efeitos devastadores da peste de 1348, e no imaginário colectivo havia que atribuir a tragédia a alguém. Ferrán Martínez, arcediago de Écija, foi o grande instigador da revolta, no culminar de vários anos de pregação antijudaica, e os seus seguidores ficaram conhecidos como “matadores de judeus”. Para escaparem aos assassinatos em massa, muitos judeus foram obrigados a assumir a fé católica, e outros fugiram para localidades mais pequenas, onde a convivência religiosa era pacífica e os senhores feudais asseguravam alguma protecção aos habitantes das suas terras. As primeiras referências documentadas sobre a presença de judeus em Hervás datam de 1464, mas é provável que algumas famílias já se tivessem instalado na localidade em datas anteriores.

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Em 1492, quando finalmente unificaram o Reino de Espanha, os Reis Católicos decretaram a expulsão de todos os judeus. Das 45 famílias judaicas que viviam em Hervás, apenas 14 decidiram ficar na localidade, convertendo-se ao cristianismo; as restantes foram conduzidas à fronteira com Portugal, onde se refugiaram. No entanto, vários desses exilados regressaram a Hervás dois anos mais tarde, beneficiando de um édito régio que conferia uma carta de segurança aos conversos castelhanos que quisessem retornar ao reino, garantindo-lhes também formas de recuperarem os seus bens. Uma das pessoas regressadas foi o rabino Samuel, que ingressou na confraria de São Gervásio e pôde assim continuar dissimuladamente a apoiar a prática judaísta e a coesão desta comunidade em Hervás. Apesar de tudo, a aceitação de cristãos-novos na vida da localidade permaneceu difícil e demorada, com estatutos discriminatórios e perseguições que levaram alguns deles à fogueira até que, em 1661, a duquesa D. Teresa Sarmiento de la Cerda aboliu as discriminações impostas e a integração das famílias de cristãos-novos pôde finalmente prosseguir sem grandes entraves.

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O bairro judeu de Hervás começa junto ao rio Ambroz, na ponte medieval da Fonte Chiquita, que é o monumento mais antigo da vila. Vai depois subindo suavemente por ruas estreitas e sinuosas (a Callejilla tem apenas 55 cm de largura!), cheias de recantos e becos, até ao local simplesmente conhecido como La Plaza, uma confluência de ruas marcada por uma oliveira e uns bancos de jardim. As placas toponímicas com uma estrela de David ajudam a identificar as ruas do bairro, que foi declarado conjunto histórico-artístico em 1969 e alvo de uma reabilitação profunda nos anos 90, na qual os próprios habitantes também se empenharam. A arquitectura das casas é tradicional, com paredes de pedra e adobe ou taipa, e tabique em madeira de castanheiro – construções irregulares que ignoram a simetria, com dois ou três pisos, o último sendo muitas vezes saliente ou até mesmo unido à casa do lado oposto da rua. As paredes estão ocasionalmente cobertas por telhas árabes invertidas, colocadas na vertical, ou por pranchas de madeira em sobreposição – soluções de isolamento térmico pensadas para aligeirar os rigores do calor estival e os ventos frios que sopram do Pico Pinajarro. Cabos eléctricos e tubos metálicos convivem com varandins de ferro forjado e vasos de flores, e as portas e janelas ainda não sucumbiram à tentação do alumínio.

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Para capitalizar o potencial turístico da judiaria de Hervás, desde 1997 que se realiza em inícios de Julho a festa “Los Conversos”. Há exposições, música, degustações e uma recriação histórica teatralizada da vida na localidade em tempos medievais e de eventos marcantes na história da sua comunidade.

 

 

BOLONHA

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A história da comunidade judaica em Bolonha remonta à segunda metade do século XIV, quando cerca de quinze famílias se instalaram na cidade. Apesar de verem as suas actividades continuamente controladas e das limitações que lhes foram sendo impostas ao longo dos anos, e envolvida sobretudo no comércio da seda e da joalharia, nos empréstimos bancários e na medicina, esta comunidade prosperou de tal forma que em meados do século XVI as sinagogas já eram em número de onze – mais do que as existentes em Roma – e Bolonha tinha uma prestigiada academia rabínica. Famosas eram também as oficinas gráficas da cidade, onde em 1482 foi impressa a primeira versão física do Pentateuco com comentários do Rabi Shlomo Yitzhaki, mais conhecido como Rashi.

 

Em 1555, um decreto do Papa Paulo IV ordenou que os judeus fossem separados do resto da população, e em Bolonha ficaram confinados a um bairro definido por muros e por portões que eram abertos quando o sol nascia (para que os seus habitantes pudessem ir trabalhar noutros locais, pois a segregação religiosa tinha o cuidado de não abranger as suas actividades, muito importantes para a cidade), fechados ao anoitecer, e constantemente vigiados. Além disso, eram obrigados a usar uma marca distintiva, para serem facilmente identificados, e apenas foi permitido que uma sinagoga continuasse em funcionamento. Uma das entradas deste gueto ficava na Via de’ Giudei, uma rua estreitinha e sombria que principia na Piazza di Porta Ravegnana, onde se erguem as famosas Duas Torres de Bolonha (durante o período fascista e anti-semita em Itália, a Via de’ Giudei passou a chamar-se precisamente Via delle Due Torri); outra encontrava-se no cruzamento da Via del Carro com a Via Zamboni; e uma terceira entrada fazia-se pelo arco que liga a Via Guglielmo Oberdan ao Vicolo Mandria.

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A criação do gueto judaico de Bolonha suscitou óbvia agitação e alguma resistência, e apesar de ter sido escolhida a zona da cidade onde a maioria das famílias já vivia, muitas outras foram forçadas a vender as suas casas e mudar-se. Por outro lado, cristãos que viviam dentro do perímetro definido para o gueto tiveram de sair dos seus domínios e arrendá-las aos novos habitantes (os judeus passaram a não estar autorizados a possuírem propriedades). Tendo uma área disponível tão pequena, a comunidade aproveitou todo o espaço o melhor que podia, construindo em altura e até mesmo por cima das ruas, num puzzle tridimensional de que hoje ainda restam muitos vestígios. A espinha dorsal do bairro é a Via dell’Inferno, onde até 1943 existiu uma sinagoga (no actual número 16), que foi destruída pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. O nome da rua não se devia a nenhum motivo religioso: resultou de uma mera associação do fogo às chamas do inferno, pois antes da criação do gueto existiam na rua várias oficinas de ferreiro.

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Uma nova bula pontificial expulsou em 1569 os judeus que viviam em quase todos os territórios directamente governados pela Igreja Católica Romana. Readmitidos por Bolonha em 1586, voltaram a ser banidos sete anos depois, desta vez por mais de dois séculos, até à chegada dos franceses de Bonaparte em 1796, que libertou a cidade da influência papal.

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O traçado do gueto judeu de Bolonha permanece bem identificável na actualidade, definido por um labirinto de becos e ruelas que se entrelaçam, arcadas e passagens suspensas, casas muito próximas umas das outras, com janelas pequenas e várias portas (algumas delas falsas, estando as entradas verdadeiras mais dissimuladas), varandas que se misturam com semi-arcadas, e onde a pedra e os grafitis alternam com as cores soalheiras das casas renovadas, que têm portadas garridas nas janelas e plantas que se derramam pelas paredes abaixo.

 

 

BUDAPESTE

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A presença judaica na área de Budapeste data do período romano, e há documentos que atestam a sua importância e prosperidade tanto na Idade Média como durante o tempo em que a região pertenceu ao Império Otomano. No entanto, quando em 1686 uma coligação de exércitos cristãos reconquistou Buda, a sinagoga foi incendiada e todas as pessoas que nela se encontravam presentes pereceram. A comunidade judaica que vivia a oeste do Danúbio foi praticamente dizimada.

 

No século XVIII, começou a nascer em Pest um novo bairro judeu, que corresponde actualmente à metade interior do Erzsébetváros (o Distrito VII), dentro do perímetro definido pela rua Király, avenida Erzsébet, rua Dohány e avenida Károly. Em 1867, os judeus húngaros passaram a ter direitos civis idênticos aos da restante população, e a comunidade floresceu. Budapeste estava em rápido crescimento urbano e económico, atraindo cada vez mais habitantes, que em 1910 já ultrapassavam o milhão – e quase um quarto das pessoas professavam a fé judaica. O bairro judeu era uma área comercial e residencial vibrante, e constituía o núcleo cultural e religioso da comunidade, contando com três sinagogas.

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Depois da Primeira Guerra, o Império Austro-Húngaro desintegrou-se e a Hungria perdeu dois terços do território que detinha antes do conflito e mais de metade da sua população. A instabilidade económica crescente levou ao descontentamento social e a uma cada vez maior animosidade contra os judeus, que se transformaram em alvo preferido dos líderes húngaros, em especial depois da subida ao poder de Miklós Horthy, que instaurou um regime de extrema-direita influenciado pelas políticas anti-semitas da Alemanha nazi. Após a ocupação alemã em Março de 1944, as autoridades húngaras ordenaram que o bairro judeu fosse transformado em gueto e completamente separado do exterior. Em apenas 56 dias, muitos milhares de judeus foram deportados para os campos da morte na Polónia, e o partido ultranacionalista NYKP, que esteve no poder entre 15 de Outubro de 1944 e 28 de Março de 1945, matou mais de dez mil. Dos que restaram, a maioria morreu de fome, doença ou hipotermia nas ruas do gueto.

 

A chegada do exército soviético em Janeiro de 1945 libertou o gueto e os seus poucos sobreviventes, mas durante a era comunista a população do bairro foi diminuindo, atraída pela modernidade dos distritos mais periféricos de Budapeste. O declínio e as adulterações imobiliárias foram alterando o carácter original da judiaria, e a gentrificação ocorrida nos últimos vinte anos deu-lhe um rumo diferente. Permanecem as três sinagogas, das quais a da rua Dohány é a mais frequentada e também a mais famosa, por ser a maior da Europa. E é de facto um edifício belíssimo e impressionante, construído em meados do século XIX em estilo neo-românico combinado com elementos mouriscos e bizantinos. Permanece também o traçado meio irregular das ruas densamente construídas, onde ainda predominam os edifícios de arquitectura historicista, as suas fachadas debruadas ou forradas a pedra, com grandes janelas e elementos ornamentais ilustrativos de todos os “neos” – neoclássicos, neogóticos, neobarrocos.

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As cicatrizes dos acontecimentos da Segunda Grande Guerra ainda são visíveis actualmente, como também o são os danos provocados pelas décadas de abandono a que o bairro foi votado. E no entanto, qual fénix renascida das cinzas, é precisamente devido à sua degradação que este antigo bairro judeu é agora um dos locais mais trendy da Europa, elevando o Erzsébetváros à categoria de distrito mais populoso de Budapeste. As rendas baixas de edifícios dilapidados em ruas negligenciadas começaram a atrair, nos primeiros anos deste século, uma população jovem e empreendedora, pese embora com poucos meios financeiros para investir. O primeiro caso de sucesso foi o Szimpla Kert, ícone dos chamados “ruin bars” que são agora uma espécie de imagem de marca da cidade. O que começou por ser uma tentativa de salvar da demolição um complexo que em tempos abrigou habitações e uma fábrica, tornou-se primeiro no local mais cool de Budapeste, frequentado pela juventude liberal e vanguardista, e depois numa atracção turística que é obrigatório visitar. O espaço degradado foi sendo progressivamente preenchido com toda a espécie de móveis velhos, objectos mais ou menos estranhos, bugigangas, plantas, luzes e tudo o que se possa imaginar, funcionando simultaneamente como café e bar, local de espectáculos, festas e eventos, mercado de produtos agrícolas ao domingo de manhã, e loja de artigos kitsch. Cada sala é um mundo diferente, há escadas e recantos, grafitis nas paredes, cores vibrantes, banheiras que são assentos, bicicletas penduradas no tecto, manequins, e até um carro. Uma miscelânea caótica que atordoa os sentidos à noite, quando o barulho das pessoas e da música alta nem nos deixa pensar, mas é surpreendentemente convidativa durante o dia, quando o lugar está tranquilo e quase vazio. Duas faces de uma mesma moeda.

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Atrás do sucesso do Szimpla Kert vieram lojas, ateliers, restaurantes com comida de todo o mundo, mais bares, e muita arte de rua. Na nova vida deste bairro convivem o antigo e o novo, judeus e gentios, habitantes e turistas, a tradição e o vanguardismo. Claro que nem tudo são vantagens, e como em tantos centros históricos de outras cidades, a popularidade e o turismo estão a fazer subir os preços das habitações, e a afastar os residentes para outros distritos mais baratos e mais tranquilos. É mais uma fase na história do bairro judeu de Budapeste.

 

 

CASTELO DE VIDE

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Embora não haja certezas quanto às origens do bairro judeu de Castelo de Vide, há indícios de que as primeiras famílias judias se tenham instalado na localidade em princípios do século XIV. Apesar da segregação existente, que tinha como vantagem fortalecer laços dentro da própria comunidade e manter inalterados os seus hábitos religiosos e culturais, a convivência entre cristãos e judeus era pacífica e mutuamente benéfica. Por tradição, além da sua vocação mercantil, a comunidade judaica apostava no estudo e no desenvolvimento intelectual, razão pela qual muitos dos seus elementos desempenhavam funções socialmente importantes, fosse como físicos, botânicos, professores, prestamistas ou homens de leis. Foi aqui que nasceu Garcia da Orta, filho de judeus conversos, que mais tarde estudou medicina na Universidade de Salamanca e exerceu esta profissão em Goa a partir de 1534.

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O número de famílias judaicas em Castelo de Vide cresceu sobretudo após 1492, ano em que os Reis Católicos de Espanha ordenaram a expulsão de todos os judeus que viviam nos seus territórios, muitos dos quais se refugiaram em Portugal, onde ainda podiam professar a sua religião sem incómodos de maior. Crê-se que mais de cinco mil judeus vindos de Espanha tenham passado por ali, e bastantes terão ficado. No entanto, o Portugal como refúgio tranquilo foi sol de pouca dura. A negociação do casamento de D. Manuel I com Isabel de Aragão, filha dos Reis Católicos, levou a que o nosso rei fosse pressionado a, também ele, expulsar do reino quem não se convertesse ao catolicismo, o que acabou por suceder em 1496. Quarenta anos mais tarde foi criado em Portugal o Tribunal da Inquisição, marco negro na história da convivência religiosa no nosso país, onde se iniciou um terrível período de perseguição aos cristãos-novos que só terminaria em 1767 com a reforma pombalina e com o fim da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos.

 

Apesar das conversões forçadas, a prática do judaísmo nunca desapareceu completamente em Portugal, e Castelo de Vide testemunha bem esse facto. Nas ruas do antigo bairro judeu, entretanto sujeito a modificações e recuperações, ainda se notam elementos característicos do tipo de ocupação que tiveram, e que continuaram preservados ao longo dos séculos. A judiaria desenvolveu-se na encosta nascente da vila, a partir das muralhas do castelo. O largo onde fica a Fonte da Vila é o centro radial deste bairro – e a fonte é, além disso, o ex-libris de Castelo de Vide. Aproveitando as águas de uma nascente, a fonte terá sido ampliada ao longo dos tempos, datando do século XVI o essencial da forma que lhe conhecemos hoje: rectangular, ornamentada e com uma cobertura piramidal suportada por colunas de mármore. Deste largo saem as ruas da Fonte, do Arçário, do Mestre Jorge e a rua Nova, que ligam a várias outras num padrão sinuoso e irregular. Nas ruas empedradas que levam ao Castelo, as casas têm habitualmente duas portas no piso térreo: uma daria acesso às escadas que levavam ao piso superior, de habitação, e a outra seria a da loja onde era desenvolvida a actividade comercial da família. Muitas destas casas ainda conservam os pórticos ogivais de granito, alguns com gravações nas impostas que suportam o arco, que podem ser símbolos profissionais ou pequenos entalhes com cerca de 10 cm, característicos do culto judaico, que têm o nome de “mezuzot”.

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Na esquina da Rua da Fonte com a Rua da Judiaria encontramos o edifício da antiga Sinagoga, que agora é um museu. As sondagens arqueológicas efectuadas durante as obras de recuperação revelaram que o edifício teve períodos de ocupação distintos desde pelo menos o século XIV, com uma primeira fase até ao século XVI e uma outra mais tardia. Crê-se que no piso superior se encontraria o Tabernáculo e um espaço dedicado ao ensino. Escavados na base do piso inferior descobriram-se três silos, que também apresentam indícios de terem sido usados em épocas diferentes. Terá passado a servir de residência particular no século XVIII, e foi reconstruída em 1972 de acordo com a sua traça original.

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Deste passado, mantém-se na memória colectiva a importância da celebração da Páscoa em Castelo de Vide. Da prática do judaísmo nesta vila foi herdada a bênção dos borregos, cujo abate posterior tem semelhanças com o ritual judaico tradicional.

 

***

 

Estes são apenas quatro exemplos de bairros judeus, entre os muitos que estão bem identificados em vários países da Europa. Como tudo o que envolve reconstituição histórica secular, há sempre alguma (por vezes bastante) controvérsia em torno destes bairros. Mas isso não lhes retira o encanto, nem afecta a minha capacidade de imperfeitamente imaginar como terá sido o dia-a-dia das pessoas que ali viveram ao longo dos tempos, e que outras histórias interessantes aquelas paredes contariam se pudessem falar.

Foi o medo que nos trouxe até aqui

Paulo Sousa, 17.02.22

Poucas sociedades sabem o que querem. Pelo contrário, sabem muito melhor o que não querem. As emoções toldam a razão e quem aspira a liderar uma sociedade, mais do que mostrar razoabilidade, bom sendo e visão de futuro, o que necessita mesmo é de um discurso que gere emoções. Quanto mais emocional for a sociedade, e por exclusão de partes menos racional, mais esta regra se aplica.

O medo é a emoção que melhor explica a recente maioria absoluta do PS. Os portugueses tiveram medo que o PSD ficasse refém do Chega, tiveram medo que as reformas que Rio pretendia fazer exigissem cortes como no tempo da Troika e tiveram medo das mudanças que sabem que com PS nunca ocorrerão. É certo que também não queriam uma maioria absoluta, fosse de que partido fosse, mas foi exactamente a soma de todos os medos que a explica. Sabendo que este seria o resultado, estou certo que muitos dos que votaram PS não o fariam.

Há muitos anos que os portugueses não votam movidos por emoções positivas. Lembro-me do tempo do cavaquismo e do entusiasmo de sentir na algibeira o real crescimento económico. O ânimo nacional pelo trajecto conseguido desde a instauração da democracia deixava-nos orgulhosos. Esse tempo teve o seu momento mais alto na Expo98 e depois disso tudo começou a arrefecer. No optimismo nacional, o euro2004 já não foi mais que um Verão de São Martinho.

Depois desses tempos, os portugueses passaram a decidir movidos por sentimentos negativos. Quiseram castigar os excessos do cavaquismo, quiseram castigar Guterres por ter desistido, Durão Barroso por ter emigrado, Manuela Ferreira Leite por ser cavaquista e austera, e Sócrates por nos ter levado à falência. Estranhamente votaram mais tarde maioritariamente na coligação PAF, mas apenas porque ainda não se tinham esquecido da bancarrota. Depois disso os portugueses votaram contra a austeridade e desta vez votaram com medo do Chega e das reformas.

E assim vamos andando. Faltos de esperança e de ambição.

Olhando para qualquer um dos candidatos que possam a breve prazo vir a liderar o PSD, o ainda maior partido da chamada direita portuguesa, não antevejo em nenhum deles a capacidade de dar voz e corpo a uma mensagem positiva, a uma emoção mobilizadora que não seja contra algo. Daqui a quatro anos, quase cinco, talvez possa ser apelativo querer acabar com os excessos da maioria absoluta do PS, mas apesar do tempo se mover com demasiada rapidez, ainda falta muito para chegar a esse dia e o próximo líder antes disso terá de lutar para sobreviver a uma longa travessia do deserto. No PSD o sangue novo é escasso. O carreirismo jotista só fica atrás do do PS e apenas pela incapacidade de chegar ao poder.

Carlos Moedas será actualmente o único possível líder dos sociais-democratas capaz de criar uma mensagem positiva, mas estou certo que cumprirá o seu mandato à frente da Câmara Municipal, sendo que pela natureza da política autárquica um mandato é sempre insuficiente para deixar um legado.

Tal como vimos no passado dia 30, sem uma alternativa pela positiva, o PS e a sua máquina de comunicação com tentáculos em quase todos os órgãos de informação, é capaz de resistir às mais dolorosas tragédias como as dos incêndios florestais, a assaltos a instalações militares, a um governo quase siamês do de Sócrates, ao nepotismo, aos clãs familiares de poder, ao caso Raríssimas, ao assassinato de um cidadão às mãos do SEF, às infindáveis trapalhadas e literais atropelos de Eduardo Cabrita, ao colapso do SNS durante a pandemia, à emigração continua da geração com a melhor formação académica de sempre, à domesticação das instituições que deveriam servir de contra-peso ao poder e que pouco a pouco estão todas nas mãos dos boys e girls socialistas. A eles tudo lhe é perdoado, tudo é relativizado.

Ainda antes da vergonhosa trapalhada com os votos dos emigrantes, sobre o que a Cristina e o jpt já aqui postaram, a saúde da nossa democracia já tinha descido vários pontos nos rankings internacionais. Não será esta maioria absoluta que irá inverter a tendência. Antes pelo contrário.

As ondas de choque desta incompetência chegaram agora ao Tribunal Constitucional, que ordenou a repetição do acto eleitoral no círculo da Europa. O mais previsível é que venha a verificar-se uma enorme abstenção. Os nomes de quem está por detrás deste triste episódio não estão certamente guardados nos paióis de Tancos, pelo que seria importante que fossem tornados públicos. Não que o envolvimento nesta vergonha os impeça de virem a assumir relevantes cargos públicos, mas pelo menos para quando isso acontecer entendermos que são nestes detalhes que se alimentam os partidos de protesto. Já aqui escrevi também sobre o benefício que o PS retira do vigor do Chega, e de como a relação entre estes dois partidos pode ser descrita, recorrendo ao conceito de externalidade positiva usada em microeconomia. Ambos ganham com a existência do outro, tal como no exemplo académico do pomar que tem uma colónia de abelhas na vizinhança.

Não preciso de dizer o quanto desprezo a agremiação de André Ventura, mas para encerrar este capítulo só faltava agora era que fosse o terceiro partido mais votado a conseguir um dos dois mandatos ainda por apurar. Isso seria um hino aos sentimentos negativos que nos trouxeram até aqui.

Retrato do país em sete títulos de jornal

Pedro Correia, 28.01.22

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               Expresso, 17 de Setembro                                             i, 16 de Dezembro

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           Público, 17 de Dezembro                                         Público, 18 de Dezembro   

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                     Expresso, 23 de Dezembro

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               Público, 24 de Dezembro

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                 Jornal de Notícias, 19 de Janeiro

Facto nacional de 2021

Pedro Correia, 13.01.22

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VACINAÇÃO EM MASSA

Quase todos nós passámos por isto entre Janeiro e Dezembro: fomos vacinados contra a covid-19. Em dose dupla, na grande maioria dos casos. E ainda com reforço, em boa parte, à beira do fim do ano. A vacinação em massa foi considerado o Acontecimento Nacional de 2021 em eleição democrática no DELITO DO OPINIÃO, seguindo uma tradição aqui iniciada em 2010.

Graças à unidade de missão liderada pelo almirante Henrique Gouveia e Melo, Portugal passou do quinto lugar mundial em número de infectados na relação com o número de habitantes e do oitavo posto em óbitos também nesta escala registados no início de Fevereiro para o estatuto - reclamado pelo Governo - de país proporcionalmente mais vacinado no globo, já em Novembro, quando 86% da população nacional tinha recebido vacinas. 

A memória colectiva tende a diluir-se. Eis, portanto, o momento de lembrar como este caminho foi muito tortuoso. Em Janeiro, chegámos a ser o país com mais mortes e mais novos casos de coronavírus por milhão de habitantes, quando havia 11 pessoas a morrer por hora de Covid-19. O panorama alterou-se, para muito melhor, graças em boa parte à intervenção de Gouveia e Melo, a quem o Expresso, em Junho, chamava "o almirante salva-vidas". Num só dia, 6 de Julho, foram ministradas mais de 154 mil vacinas.

 

A pandemia continua connosco, agora com carácter quase endémico e um surto de infecções menos letal. Mas não esquecemos o pesadelo destes quase dois anos nem o combate que lhe foi sendo travado neste país agora com 19.181 mortos oficialmente registados, vítimas do vírus que veio da China. E ainda não é possível baixar a guarda. Ontem Portugal registou um máximo de novos casos em 24 horas: 40.945. Apesar das vacinas e de todas as outras precauções que nos dominam o quotidiano. 

Não por acaso, o acontecimento nacional do ano destacado pelo DELITO em 2020 já tinha sido o novo coronavírus. Nota-se uma linha de continuidade neste destaque de 2021, que mereceu dez dos 25 votos da tribo "delituosa". 

 

O segundo lugar, com sete votos, coube ao colapso da geringonça, associado (três votos) ao chumbo do Orçamento do Estado, o primeiro ocorrido desde sempre em quase meio século de sistema democrático. 

 

Depois, cinco outros factos, cada qual com um voto. Passo a enunciá-los para ficarem devidamente lavrados em acta:

- Atropelamento do trabalhador Nuno Santos pela viatura ministerial em que seguia o ex-ministro Eduardo Cabrita.

- Decisão do Governo de "investir" na TAP com dinheiro dos nossos impostos.

- A rocambolesca fuga para a África do Sul do ex-banqueiro João Rendeiro, já condenado por sentença definitiva em Portugal.

- Sporting campeão nacional de futebol 19 anos depois.

- Queda de Luís Filipe Vieira, confrontado com uma sucessão de investigações judiciais que o levaram a abandonar a presidência do Benfica.

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

Facto nacional de 2014: derrocada do Grupo Espírito Santo

Facto nacional de 2015: acordos parlamentares à esquerda

Facto nacional de 2016: Portugal conquista Europeu de Futebol

Facto nacional de 2017: Portugal a arder de Junho a Outubro

Facto nacional de 2018: incúria do Estado

Facto nacional de 2019: novos partidos no Parlamento

Facto nacional de 2020: o vírus que nos mudou a vida

Os ungidos, os outros e o meu voto

Paulo Sousa, 07.01.22

Os lisboetas são desde há muito, talvez desde sempre, uma amálgama de gente oriunda de muitos recantos do país, do finado império e do restante mundo. Está longe de ser a mais cosmopolita capital da Europa, mas é fácil concluir que será a cidade mais diversa do país.

Existe um círculo de lisboetas, nem todos alfacinhas nados, que por pisarem as alcatifas do poder interpretam-se a si próprios como tendo sido incensados por uma força superior que os distingue dos demais portugueses. Quando se tratam de lisboetas de adopção podemos dizer que num certo momento das suas vidas terão atravessado um pórtico reservado apenas aos escolhidos e afortunados. Depois desse momento, e que até poderá ter ocorrido de forma não consciente, passaram a considerar que os problemas do país se esgotam nas avenidas que percorrem e no que é noticiado pelos jornalistas lisboetas.

Para os nascidos já alfacinhas a dinâmica é diferente. Muito poucos alguma vez terão vivido na “província” que quer dizer fora da Grande Lisboa. É como se nascer e viver dentro da Grande Lisboa proporcionasse uma camada adicional de civilização e para eles isso é tão óbvio que dispensa explicação.

Recordo-me de no final dos anos 80, num qualquer intercâmbio escolar, uma turma de Lisboa (sei lá de onde, podia ser do Forte da Casa, de Oeiras ou até do Barreiro) visitou a Escola Secundária de Porto de Mós. Andaram por ali umas horas já não sei a que propósito, e alguns deles foram assistir a uma aula da minha turma. O livro dessa disciplina não tinha ilustrações coloridas. “Vejam lá que aqui os livros ainda são a preto e branco”, disparou logo o mais espigadote, para gáudio dos seus colegas. Podia ter sido bem pior, mas a piadola não gerou mais que uns levantar de sobrancelhas, uns olhares trocados entre nós, seguidos de uns encolher de ombros. Provavelmente o tipo até preferia ter ido naquele dia ao Jardim Zoológico, mas o melhor que lhe calhou foi um intercâmbio com um escola secundária na província.

De forma mais ou menos assumida, em todos os grupos do bicho humano existe a noção dos que lhe pertencem e dos que não partilham a mesma identidade e valores. Para o círculo dos ungidos de Lisboa, nados e adoptados, o poder pode ser tomado democraticamente, é óbvio, 25 de Abril sempre, blá, blá, blá, mas têm de ser por um dos seus confrades. Para os de fora, alcatrão e penas.

O ungidos toleraram Durão Barroso, José Sócrates (com a sua famoso casa na Rua Castilho) e António Costa, mas nunca perdoaram as gafes literárias nem o ligeiro sotaque algarvio de Cavaco Silva e muito menos as conferências de imprensa de Rui Rio feitas por a partir de hotéis do Porto.

Dito isto, aproveito este postal para fazer a minha declaração de voto não próximo dia 30.

Se o nosso sistema eleitoral não sofresse do centralismo que reflecte parte do que acima tentei retratar, em Portalegre a democracia seria igual à de Lisboa, mas isso não se verifica, pois, este deprimido distrito do interior elege apenas 2 deputados. Lisboa elege 48. Este tremendo desequilíbrio leva a que quem no distrito de Portalegre não tencione votar num dos dois principais partidos não valha a pena sair de casa para ir votar. A abstenção, como bem sabemos, resulta da falta de sentido democrático dos portugueses e depois de cada acto eleitoral todos os líderes partidários afirmam com ar sério que o país tem de estudar o fenómeno da abstenção e encontrar a forma de a reduzir. Já aqui postei sobre uma sugestão que reduziria este enorme desequilíbrio e aguardo que possa ser corrigido a breve prazo.

Leiria, o meu distrito, elege 10 deputados. Neste cenário, votar em qualquer partido que tenha menos de 10% das intenções dos voto, facilmente corresponderá ao desperdício desse mesmo voto. Se fosse eleitor em Lisboa ou no Porto (que elege 40 deputados) não duvidaria um segundo em votar IL. Se votasse no Porto ainda votaria com mais convicção pois saberia que estava a ajudar a que Carlos Guimarães Pinto fosse deputado. Não duvido que é de gente como ele, desempoeirada e com mundo, que repudia as fórmulas javardas do Ventura, com capacidade de argumentação e capaz de questionar o marasmo socialista, que o país precisa no Parlamento.

Tendo como cenário de fundo os últimos 20 anos de estagnação económica, a arrogância e a sobranceria com que o PS trata o país, é urgente que o poder mude de mãos. Milhões de portugueses acharão o mesmo, mas têm receio que o seu voto no PSD possa dar azo a que Ventura venha a ter uma palavra a dizer na futura fórmula governativa. Para os que, não fosse o receio do Chega, até votariam PSD, o que devem fazer é mesmo votar PSD. Cada voto adicional no PSD reduz o peso relativo do Chega. Para quem não usufrua do privilégio de ser eleitor num grande círculo eleitoral e queira interromper a hegemonia socialista não tem alternativa ao PSD.

Por tudo isto, por achar que a fricção entre os media e Rio e Rio e os media, se auto-alimentam, por achar que a grelha de exigência aplicada a Rui Rio só foi aplicada até hoje a Cavaco Silva, e apenas por este também se apresentar como vindo de fora dos ungidos, votarei no PSD.

Ibéria unida

Cristina Torrão, 13.10.21

Espanha tem muito que celebrar e nada a arrepender-se”.

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No Dia da Espanha, o partido de extrema-direita VOX publicou no Twitter uma ilustração de um mapa-mundo com os territórios que pertenceram a Espanha durante o período colonial sinalizados a vermelho, entre eles Portugal, assim como Cabo Verde, Moçambique ou até a Guiné-Bissau.

(E eu acrescento o Brasil, ou é dos meus olhos?)

Ó Venturinha, os teus compinchas espanhóis andam a gozar contigo! Tens de os pôr na ordem! Ou só berras na nossa Assembleia?

Um retrato do País oficial

Pedro Correia, 02.10.21

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O ministro da Defesa desautoriza o Presidente da República, anunciando a intenção de exonerar o chefe do Estado Maior da Armada, à revelia de Belém, o que mereceu pronta reacção de repúdio da parte de Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto comandante supremo da instituição militar.

ministro das Infraestruturas desafia a autoridade do titular das Finanças, seu colega no Conselho de Ministros, com críticas destemperadas.

Demite-se o director financeiro da TAP após escassos três meses em funções.

Demite-se o director clínico do Hospital de Setúbal em protesto contra a situação de rotura nas urgências. 

Um banqueiro condenado a dez anos de pena de prisão já sem recurso - por crimes de fraude fiscal qualificada, abuso de confiança e branqueamento de capitais - foge para o estrangeiro, perante a passividade da juíza titular do processo. Enquanto a inócua ministra da Justiça, fiel à sua imagem de marca, fala em «desconforto» .

Três magistradas, alegando pretextos vários, recusam julgar um perigoso gangue denominado Hells Angels.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras reteve mais de 3 milhões e meio de euros de fundos comunitários para acolher refugiados em Portugal, entre Janeiro e Setembro.

O Governo que tanto apregoa a «transição digital» remete o País para a cauda dos Estados comunitários em redes móveis de quinta geração: na União Europeia, só Portugal e Lituânia ainda não dispõem de serviços comerciais 5G. O ministro da Economia limita-se a exprimir «preocupação», como faria qualquer de nós.

Cento e cinco dias depois, continuamos sem saber a que velocidade seguia a viatura do ministro da Administração Interna que atropelou mortalmente o trabalhador Nuno Santos na A6, perto de Évora.

 

Eis, em poucas linhas, um retrato do País oficial.

Nada lisonjeiro. Mesmo nada.

Pequeninos, felizes e eternamente adiados

Sérgio de Almeida Correia, 10.08.21

Uma das características do regime anterior era o culto da pequenez, do isolamento, do orgulhosamente sós. Passados quase 50 anos sobre o golpe militar que permitiu a instauração da democracia verifica-se que nos nossos dirigentes a mentalidade não mudou. E tanto faz ser o veterano Presidente da República como o novato verborreico da Secretaria de Estado do Desporto.

Com excepção do Presidente do Comité Olímpico, que foi bem mais comedido e realista nas suas palavras, certamente tendo presente que as metas estabelecidas eram pouco ambiciosas — quanto mais modestos forem os objectivos mais fácil será transformar os mínimos alcançados num êxito retumbante —, todos aqueles que ouvi embandeiraram em arco com os resultados obtidos.

Não está em causa o esforço individual de cada um dos atletas, já que à sua medida cada um deles procurou exceder-se, dignificar a camisola do país que representa, e que a todos nos representa, e alcançar o sucesso pessoal que permitisse elevar o espírito e engrandecer o esforço colectivo.

Exultei com os resultados desportivos, e não só com os dos medalhados, mas esses resultados são acima de tudo uma consequência do esforço individual de cada um dos atletas, e do trabalho dos clubes, já que o investimento do país no desporto continua a ser sofrível.

Como sofrível é o resultado colectivo alcançado quando olho para os nossos resultados e os comparo com os dos Países Baixos (10 medalhas de ouro, 12 de prata, 14 de bronze), da Nova Zelândia (7 de ouro, 6 de prata, 7 de bronze), da Hungria (6 de ouro, 7 de prata, 7 de bronze), da Suíça (3 de ouro, 4 de prata, 6 de bronze), da Dinamarca (3 de ouro, 4 de prata, 4 de bronze), da Suécia (3 de ouro, 6 de prata), da Noruega (4 de ouro, 2 de prata, 2 de bronze),ou até da Croácia (3 de ouro, 3 de prata, 2 de bronze) ou da Bulgária (3 de ouro, 1 de prata, 3 de bronze). É evidente que ninguém de bom senso pode ficar “orgulhoso” com a nossa prestação colectiva.

E é escusado, como fez o Presidente da República, vir dizer que "[o] adiamento dos jogos, a sua realização numa cidade tão distante e com um clima tão diferente do nosso, foram dificuldades adicionais a uma preparação já de si longa e muito exigente", pois que essas dificuldades adicionais foram iguais para todos (pelo menos para os europeus).

Pior, ainda, está alguma comunicação social que num exercício de estupidificação colectiva se dedica a comparar os resultados de Portugal com os dos Estados Unidos da América ou da China para concluir que os nossos são melhores.

Enquanto entre nós a mentalidade dominante for a de nos contentarmos com os mínimos, procurando transformar num sucesso aquilo que colectivamente não passa da mediania, quando não raro do sofrível, num exercício de auto-convencimento institucional da excepcionalidade, dificilmente obteremos melhores resultados.

Mudou-se a Constituição, consolidou-se a democracia, mas a mentalidade pequenina e tacanha, de vistas curtas e à medida dos umbigos nacionais, continua a ser a mesma.

E o que é ainda mais triste de ver é que essa mentalidade não só não muda como se transmite às novas gerações e se perpetua em governantes como o secretário de Estado do Desporto.

Fosse a mentalidade do Jorge Fonseca, da Patrícia, do Pichardo, do Pimenta ou da Telma, por exemplo, como antes foi a do Lopes ou da Mota, igual à deles e continuaríamos na casa da partida à espera de melhores dias. Esses são exemplos de transcendência individual que não nos podem permitir esquecer os nossos insucessos colectivos.  

Naturalmente que o nosso atraso desportivo (e não falo do futebol ou dos desportos motorizados), como sempre, acompanha o atraso das nossas elites e o pouco aproveitamento que fizemos de todas as potencialidades da integração na União Europeia, muito em especial quando vemos o que outros que entraram muito depois de nós conseguiram.

Continuamos a puxar muito pouco por nós. A exigirmos pouco a nós próprios em termos colectivos. E ainda menos às nossas elites políticas. Só somos capazes de nos superar individualmente, seja no desporto ou na ciência. Colectivamente continuamos adiados. Eternamente adiados. E apesar de tudo felizes, e todos medalhados e contentinhos na nossa singela mediania.

Quase cinco décadas volvidas sobre Abril de 1974, é o culto da pequenez e da mediocridade que se voltam a revelar e a imperar em todo o seu esplendor nas palavras dos nossos dirigentes políticos. Um país de comendadores e conselheiros.

Que fado estuporado é o nosso.

Poder de compra

Cristina Torrão, 24.07.21

O Paulo Sousa mostrou aqui o baixíssimo poder de compra dos portugueses, em relação à gasolina. Eu faço-o hoje em relação aos testes antigénio, que estão finalmente disponíveis nos supermercados portugueses.

Bem sei que são baratos, mas convém referir que, pelo preço de 2,79 €, um alemão, que ganha duas a três vezes mais do que um português, compra testes para toda a família.

Como referi, há dias, eles custam cerca de 80 cêntimos, na Alemanha. Se estiverem em promoção, são ainda mais baratos. Quando surgiram, no início de Maio, custavam 4,99 €, mas logo houve supermercados que baixaram o preço, provocando uma reacção em cadeia, escorregando o valor por ali abaixo.

É possível que aconteça semelhante em Portugal. Pelo menos, no LIDL (cadeia de supermercados alemã), vi os testes ontem por 2,69 €. E os leitores/comentadores deste blogue, o que já experienciaram?

 

Adenda: em relação ao preço da gasolina, tenho uma opinião muito dividida. Sei que há muita gente que depende do carro, mas também há muita (talvez mais) que bem podia prescindir dele. Além disso, aqui em Macedo de Cavaleiros, há o péssimo hábito de manter o motor ligado em circunstâncias injustificáveis, como quando se vai tomar café, por exemplo, ou mesmo lanchar, ou quando se conversa com alguém. O cúmulo foi um vizinho nosso que manteve o motor do carro ligado, enquanto lavava o veículo, operação que durou cerca de quinze minutos! Considero tal atitude uma falta de respeito pelo semelhante (já nem falo do ambiente). A que propósito tenho eu de aguentar o barulho do carro do vizinho e de lhe cheirar o escape, enquanto tomo chá na minha varanda? Quando assisto a cenas destas, peço desculpa, mas penso que a gasolina ainda não é suficientemente cara.

A falta de sorte

Paulo Sousa, 28.06.21
 
“Hoje é dia de futebol, e aqui estamos todos unidos em torno do futebol e, portanto, eu não vou agora estar a falar de outros temas, porque é desconcentrar o fundamental.”
Marcelo Rebelo de Sousa, no ínicio do jogo com a Hungria em 15 de Junho de 2021

Deixamos que a falta de sorte se tornasse na última camada de pele do nosso ADN cultural. Foi por ela que ficámos repetidas vezes no lado errado da história. Os nossos governantes alimentam essa ideia e sempre que se lhes exige responsabilidades e consequências apontam sonsamente para a falta de sorte.
Assim, e mais uma vez devido à causa habitual, fomos ontem afastados do “fundamental” e relegados para a nossa vidinha cheia de coisas “secundárias”, tais como a pandemia e os seus efeitos, a estagnação económica e social, a pobreza, o marasmo e a endogamia política, o nepotismo, a dívida, a iminente subida das taxas de juro, a subserviência dos média e mais uma mão cheia de idênticas banalidades.
Os nossos políticos adoram que mergulhemos nesta anestesia colorida em que os torneios internacionais de futebol se tornaram e, quando terminam, ficam a pensar se no próximo campeonato ainda estarão no poder.
Será no Qatar e já no próximo ano. Até lá regressemos às tricas secundárias.

Porto, Portugal, República Portuguesa

Pedro Correia, 17.06.21

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Anteontem escrevi aqui um postal estranhando que toda a gente tenha de repente começado a chamar "Países Baixos" à Holanda - pelos vistos a mais recente palavra interdita do Índex dos novos tempos.

Esta moda inunda todo o discurso mediático, escrito e verbal. Como se dizer Holanda fosse pecado.

 

A minha perplexidade deveu-se a isto: percebi que tal designação se havia tornado proibida quase da noite para a manhã. Ao ouvir transmissões desportivas, com narradores a repetirem "Países Baixos" mais de cem vezes num simples jogo de futebol. Como não há gentílico adequado à nova terminologia e o vocábulo "holandês" está igualmente interdito, todos repetem "Países Baixos" até à náusea. Podia ser uma expressão bonita, mas não. Dificilmente haverá algo tão inadequado para designar um país, à luz do nosso imaginário onomástico.

Pus-me a pensar nesta aparente irrelevância e concluí que vivemos cada vez mais mergulhados em novos interditos e numa rede interminável de microcensuras. A tal ponto que nem damos conta. E quase sempre sem entendermos porquê.

 

Conheço vários holandeses: nunca me apercebi que sentissem o mais leve incómodo por serem designados assim. Dizem-me algumas almas mais zelosas, nesta caixa de comentários, que a mudança se justifica para evitar a confusão entre a Holanda - que é apenas uma parcela do reino neerlandês - e o Estado que faz fronteira com a Bélgica e a Alemanha.

A explicação confunde mais do que esclarece. Desde logo, o nome oficial desse país é Reino dos Países Baixos. Habitado por... holandeses. Esqueceram-se de inventar um gentílico para adequar uma coisa à outra.

Depois, se a moda pega, resta-nos concluir que andamos todos desactualizados. Pois deixemos também de chamar Suíça à Confederação Helvética - nome oficial desse país. E de chamar Grécia à República Helénica - outro nome com chancela oficial.

Os suíços serão helvéticos, os gregos serão helénicos.

E os holandeses? São... holandeses.

 

Ainda pela mesma lógica, qualquer dia Portugal deixa de se chamar Portugal. Pois deriva de Porto, que é apenas uma pequena parte de Portugal.

Portugal, aliás, não se chama Portugal. Chama-se oficialmente República Portuguesa.

Porque não haveremos então de denominá-la assim na linguagem corrente?

 

 

ADENDA: Uma palavra de merecido elogio ao Luís Freitas Lobo, que hoje, comentando em directo o jogo Holanda-Áustria na Sport TV, utilizou sempre a palavra interdita, rejeitando o Índex. Espero que não seja penalizado por isso.

De longe, muito longe

Sérgio de Almeida Correia, 10.06.21

10 de Junho, o dia do Noddy nos país dos brinquedos

Paulo Sousa, 09.06.21

Segundo o Observador, a Câmara Municipal de Lisboa enviou para a Embaixada da Federação Russa, o nome, morada e contacto telefónico dos organizadores de uma manifestação de apoio ao opositor russo Navalny.

Sendo que dois deles têm dupla nacionalidade, russa e portuguesa, o mesmo equivale a dizer que poderá ter criado um problema para os respectivos familiares que lá vivam. Os manifestantes em causa ficam também a saber que uma viagem à Rússia lhes poderá causar alguns problemas de saúde. De acordo com as ancestrais práticas russas e soviéticas, o envio para a Sibéria é reservado às(aos) respectivas(os) viúvas(os).

Confrontado com o facto consumado, Fernando Medina terá respondido inicialmente que os promotores deveriam “ter o cuidado de não facultar informações pessoais que excedam o estritamente necessário para o cumprimento dos preceitos legais indicados”. Os líderes russos são tão previsíveis a despachar empecilhos para onde eles não chateiam, como os socialistas portugueses o são a descartar responsabilidades. Há coisas que nunca mudam.

Porém, o líder do município da capital não quis deixar o assunto assim. Arregaçou as mangas e enviou um email à “Embaixada da Federação Russa e ao Ministério do Estrangeiro Russo(!)” exigindo que apagassem os dados pessoais dos organizadores da manifestação.

O Noddy no país dos brinquedos não faria melhor. Os russos sabem bem que se não apagarem os dados, o Noddy irá chamar o Sr. Lei e para lhes dar uma lição.

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Obviamente que este assunto não terá qualquer consequência política, até porque em caso de aperto Fernando Medida poderá sempre usar o argumento infalível de que “foi sem querer”. E se mesmo assim não for suficiente, surgirá o Professor Marcelo a garantir que tudo será apurado até às últimas consequências. Vai ficar tudo ficar bem.

Hoje a Selecção ganhou e amanhã é 10 de Junho. Espero que possam aproveitar a ponte.

Viva Portugal! Viva o país do Noddy!

Portugueses, cidadãos de segunda

Pedro Correia, 05.06.21

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Sim, o Governo trata os portugueses como cidadãos de segunda: sentimo-nos como gente estranha na nossa própria terra.

Isto tornou-se evidente quando as autoridades sanitárias viabilizaram a presença de público no jogo Chelsea-Manchester City, enquanto interditavam o acesso, mesmo muito limitado e circunscrito a pessoas devidamente testadas, de espectadores à partida final do campeonato nacional de râguebi, realizada no Jamor. A federação da modalidade fez um pedido formal, prontamente recusado pela DGS. Alegando razões de saúde pública inexistentes no desafio do Porto, também ocorrido a 29 de Maio.

 

Mesma data, mesma entidade pública, duas deliberações de carácter oposto: 500 portugueses proibidos de aceder às bancadas do Estádio Nacional, 16.500 ingleses autorizados a ver a final da Liga dos Campeões no Estádio do Dragão.

Uma discriminação totalmente intolerável.

 

Mas a duplicidade não termina aqui. Na véspera do jogo que opôs as duas equipas inglesas no Porto, a Assembleia da República aprovou a Lei n.º 33-A/2021, isentando do pagamento de IRS e de IRC todas as entidades estrangeiras envolvidas na organização daquela final. Incluindo «representantes e funcionários, clubes de futebol, respectivos desportistas e equipas técnicas, nomeadamente treinadores, equipas médicas e de segurança privada e outro pessoal de apoio».

Reza o diploma, espantosamente, que «esta isenção é apenas aplicável às entidades que não sejam consideradas residentes em território português». Um regime fiscal de excepção. Com Governo e Parlamento de cócoras perante os interesses futebolísticos da UEFA, organização internacional privada.

 

Fazem-nos sentir estrangeiros neste país a que chamamos nosso. Estranha sensação, inaceitável condição.

Alguns deles são capazes de cantar o hino de mão no peito, à americana. E de entoar loas patrioteiras no Dia de Portugal prestes a chegar. Já nada me espanta.

Um exemplo

Paulo Sousa, 04.06.21

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Foto José Fernandes

Já sabíamos que algo diferente estava a acontecer. Quando o processo de vacinação foi entregue à responsabilidade do Vice-Almirante Gouveia e Melo, mais do que ter entrado nos eixos, todo a dinâmica subiu a um nível de excelência num serviço público, a que infelizmente não estamos habituados.

O artigo do Expresso de hoje confirma isso mesmo. Existe alguém que está a exigir resultados e que está rodeado de gente motivada e capaz de realizar coisas efectivamente benéficas para os portugueses. E sem regatear esforços.

Diferentes forças corporativas já por várias vezes tentaram alterar as prioridades definidas, mas têm esbarrado na saudável ambição de querer fazer as coisas como deve ser.

Quando lhe perguntam como reage aos elogios públicos, Gouveia e Melo concorda que “estamos a vacinar a um ritmo elevadíssimo. Mas eu acho que podemos fazer mais coisas bem feitas.” E acrescenta: “Todos estão a trabalhar que nem leões, mas a minha função é estar permanentemente a empurrá-los. (…) Se uma pessoa dá 10, eu vou pedir 12, se dá 12, vou pedir 14.”

Sobre o facto de ele próprio ainda não ter sido vacinado responde: “Porque a minha faixa etária [60 anos] ainda não fechou. Enquanto não tiver 95% das pessoas neste grupo vacinadas, aguardo.” Como comandante que é, quer ser o último a abandonar o campo de combate e mostra o que é liderar pelo exemplo.

Além de uma indiscutível promoção, o Vice-Almirante merece também uma condecoração do estado português e o reconhecimento público.

Parte do marasmo em que o país vive resulta exactamente da incapacidade que a máquina do estado tem em lidar com atitudes generosas e competentes. Quando expostos lado a lado, os acomodados não conseguem ocultar aquilo que são, mas como são tantos, unem-se na sua mesquinhez e facilmente afastam quem mostra ser brilhante.

Não queria que o país fosse governado por militares, mas teve de ser um militar a lembrar-nos o ponto de mediocridade a que chegámos. A aversão pelo esforço e pelo trabalho está tão enraizada que é normal que uma dirigente política possa afirmar, sem pudor nem consequências, que na escola a diversão é mais importante que a aprendizagem. E também sabemos como lida com as escolas que não alinham nessa cantiga.

E o país, manso e conformado, encaixa a canga sem reclamar.

Mas é possível fazer diferente. Também por nos lembrar disso, ficamos em dívida para com o Vice-Almirante Gouveia e Melo.

Se for português, tome cuidado

Pedro Correia, 29.05.21

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Ingleses aos milhares, tomando de assalto as esplanadas do Porto (onde hoje se realiza a final da Liga dos Campeões) e os bares algarvios, enquanto a polícia persegue portugueses nas praias. Sem estado de emergência.

Caso para perguntar se os ladrões estão em greve. Caso para perguntar também, em tom mais sério, se os direitos, liberdades e garantias - desde logo o direito de nós, portugueses, frequentarmos as mesmas praias que o Governo deseja ver povoadas de súbditos britânicos - já foram revogados de vez.