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Delito de Opinião

Emigrantes

Cristina Torrão, 23.01.23

Tiago Pinto Pais, editor do PT-Post, jornal português na Alemanha, na edição nº 341, Novembro 2022:

Na sexta-feira passada calhou conhecer, no âmbito de uma actividade profissional prestada a uma empresa lituana com actividade em Berlim, um jovem português que se mudou recentemente para a capital alemã. A equipa com que participou na actividade em causa conta com 16 elementos, que se dedicam exclusivamente à gestão das obrigações de protecção de dados dos utilizadores de uma aplicação. Em Portugal, o Paulo era o único elemento da empresa em que trabalhava encarregado de garantir o mesmo, com a consequência, bem conhecida no país, de extensas horas de trabalho adicionais sem lugar a qualquer tipo de remuneração. Em Berlim, aufere o triplo do salário líquido face à remuneração que obtinha no Porto. Como tal, refere-se com relativa indiferença às rendas elevadas nas cidades alemãs porque, no final de contas, a remuneração líquida disponível após o pagamento de despesas de habitação continua a ser, em termos comparativos, muito superior àquela que restaria na cidade do Porto.

(…)

Seria bom conhecer um governo português que se preocupasse em promover o investimento e o crescimento, em vez de motivar os seus cidadãos a procurar melhor sorte noutras paragens. No final de contas, o malvado do Passos Coelho já deixou de governar o país há 7 anos…

Curtas

Paulo Sousa, 19.01.23

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Os últimos dias tem sido férteis na revelação de casos e casinhos que mais me parecem um destrunfar, como se de poupanças se tratassem, de coisas guardadas na gaveta para usar um dia contra alguém a quem se pretenda atacar.

Soubemos que Luís Montenegro, e um seu muito próximo colaborador, estarão envolvido em benefícios poucos claros e que, mesmo vindo a revelar-se no futuro legalmente estéreis, merecem uma avaliação política.

Numa democracia evoluída, estes dois casos seriam suficientes para o afastamento destas duas personagens.

E é aí que que me leva o raciocínio que motivou este postal.

Estes casos mostram o quão tóxico se tornou o PS no nosso regime. É tanto o nepotismo, o abuso, o favorecimento, a endogamia e a prevaricação do partido que governou sozinho o país em 22 dos últimos 28 anos, que estes dois casos acabam por parecer coisas banais e sem importância.

Um ideal por cumprir

Paulo Sousa, 16.01.23

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Na edição nº2 da revista Crítica XXI, a mais recente na sua ainda curta vida, está disponível um artigo especialmente interessante que me motivou a escrevinhar este postal.

Do autor, Alexandre Franco Sá, conhecia apenas alguns artigos no Observador.  Neste artigo propõe-se tratar de algumas semelhanças e diferenças entre Portugal e o Brasil, por ocasião do segundo centenário da independência deste.

Alexandre Franco Sá avança com a constatação de que “tanto em Portugal quanto no Brasil, o modo como nos imaginamos e representamos não coincide com o que realmente somos e fazemos, com o que desejamos ser ou com o que as circunstâncias nos obrigam a ser.

Citando Eduardo Lourenço traz à conversa a relação irrealista que Portugal tem consigo mesmo, lembrando que a relação idiossincrática entre a nossa reduzida dimensão geográfica e o imenso impacto das navegações realizadas pelos nossos antepassados, gerou uma representação ficcional de si mesmo. “Não fomos, nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação. Contudo, se exceptuarmos talvez a Macedónia e Roma, poucas vezes um povo partindo de tão pouco alcançou um direito tão claro a ser tido por “grande””.

Refere depois o mote do Padre António Vieira, herdado por Pessoa quando diz: “Para nascer, pouca terra: para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal: para morrer, o mundo”.

Olhando a partir da actualidade para a dimensão dessa ilusão, sugere que daí resultou uma existência doentia avessa à realidade histórica e concreta. Lembra-nos o “medo de existir”, assim designado por José Gil, segundo o qual a prudência coincide com a paralisação marcada por se furtar à realidade. “O medo da inscrição, de afrontar as forças do mundo, o medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver. Medo de arriscar. A prudência é a lei do bom senso português”. E acrescenta que “a leviandade suscitada pela não-inscrição permite que a lei não se cumpra ou que dela se escape, que os programas não se realizem, que não se pense nunca a longo prazo, que as fiscalizações não se façam, que a administração não se transforme realmente, que os projectos de reforma não se executem, que os governos não governem.”

Daqui parte então para o que designa como “Portugal e Brasil entanto imagens invertidas um do outro”. Se Portugal, enquanto pequena nação incapaz de se aceitar como pequena, mas sem se conceber como grande, do Brasil pode dizer-se o oposto. Desde antes da sua independência que o Brasil constitui, sob todos os critérios e não apenas os geográficos, uma grande nação. Grande no seu território, nos seus recursos, mas também nos seus costumes formados pelo cruzamento de etnias de vários continentes assim como pelo espaço de liberdade que logrou construir na relação entre elas. Mas trata-se de uma nação que, estranhamente, por mais que se invoque a si mesma como um “gigante pela própria natureza”, efectivamente recusa-se a sê-lo.

O artigo continua com muitas mais referências históricas e não o irei aqui descarregar. A revista tem outros artigos de interesse e merece que sobre ela seja dispensada alguma atenção.

Foram várias os pensamentos que este artigo desencadeou em mim. Se olharmos para a nossa história recente teremos de concordar com esta nossa incapacidade em lidar com a realidade. Se ouvirmos os nossos responsáveis políticos, e os seus acérrimos defensores nas redes sociais e na imprensa (todos ungidos pela omnisciência) iremos concluir que todas as grandes variáveis que afectam, e afectarão, o nosso dia-a-dia, assim como dos nossos descendentes, estão controladas. Se da tômbola nos sair uma bola favorável, o mérito é do governo imobilista. Se, pelo contrário, for um amargo de boca, então teremos de nos lembrar que outros estão bem pior, e que vendo bem, sem a protecção da tal prudência imobilista tuga, ainda nos arriscaríamos a tudo perder, seja lá o que designam por “tudo”.

Toda a narrativa pretende promover o aparente conforto que apenas quer imitar o homem-estátua da Rua Augusta, até porque qualquer possível reforma nos iria revelar os rigores da realidade. Os junkies mais agarrados à anestesia veneram as vozes públicas que lhes garantam mar chão e vento de feição e irritam-se, e atacam, quem tiver o atrevimento de lembrar o caos dos serviços públicos, que há uma semana não há aulas ou que lembre os números da emigração e da demografia são um sintoma verdadeiramente preocupante. Qualquer voz dissonante da narrativa do “está tudo bem e vai ficar ainda melhor” ou que lembre o jocoso provérbio italiano do “se non è vero, è ben trovato”, é destratada e carimbada de fascista.

Um triste exemplo é a alienação implícita no relatório da IAVE (Instituto de Avaliação Educativa) relativa ao período lectivo que coincide com a pandemia. Segundo a IAVE, ao contrário do que aconteceu no resto do mundo, os alunos portugueses conseguiram melhores resultados em 2022 do que os obtidos em 2019 em quase todos os itens em que foram avaliados. Este espasmo deslaçado da realidade foi engolido pelo vórtice mediático e ninguém se perturbou.

E foi também assim, anestesiados e desligados dos rigores da realidade, que chegamos à “estabilidade” que só uma maioria absoluta pode garantir. A receita assenta no síndrome do cônjuge enganado, que prefere ignorar todas as evidências, combinado com a máxima de que não há impossíveis que um mentiroso não possa prometer.

A “existência doentia avessa à realidade histórica e concreta” em que vivemos encharcados, e a que Alexandre Franco de Sá se refere no artigo, está aí, à vista de todos. Mesmo dos que garantem nada ver.

As demissões no poder

jpt, 13.01.23

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A bica da manhã com amigo, ele décadas de empresário ("empreendedor", diz-se agora) do turismo - o que não é sinónimo de "industrial" da hotelaria e "restauração" (mais termos em voga, que sublinho nas aspas não vão os leitores pensar que me actualizei no papaguear). E se eu sou dos que em relação ao (governo) PS dizem "mata" ele é mesmo daqueles que logo clamam "esfola"! E assim o assunto - até porque ele não é de futebóis - que logo brota é este esboroar do governo e adjacentes, escandaleiras, demissões, acusações, bifidismos presidenciais, condenações, imprecações e até prisões.

Ora eu hoje acordei a modos que andrógino, qual Schiele, e até me venho sentindo assim. E resmungo o que senti na alvorada ao ler da demissão do assessor do primeiro-ministro, condenado em tribunal. Nunca ouvira falar do agora convicto Magalhães Ribeiro e nada simpatizo com o perfil, um socialista ex-presidente da câmara (Cartaxo) apeado em eleições e repescado para os gabinetes de São Bento. Parece figura típica... E do caso só conheço o que é dito nos jornais - deve ser uma peça da LUSA, por todos reproduzida. Mas se isso é o cerne da questão, caramba!... Ao que parece o homem, então ainda autarca, escreveu (ou um assessor dele) na página camarária no Facebook que reunira com a ministra da Saúde (a inefável Temido, a "super-Marta" para os socialistas) em plena pandemia. E que esta lhe prometera instalar uma qualquer infraestrutura sanitária no concelho... E agora condenam-no em tribunal por "más práticas" propagandísticas, pois aquilo coincidiu com um tal de "período pré-eleitoral". Mas bem se sabe que o uso dos meios de comunicação municipais para engrandecimento próprio e dos seus partidos é uma tradição - quando regressei a Portugal escrevi aqui do meu espanto, até enjoado, com esse tipo de desplante caciquista que encontrei na minha freguesia Olivais. E muito mais e até pior vi depois, nos Olivais e na rede de freguesias de Lisboa. Ainda assim a sentença deste caso no Cartaxo parece-me um abuso, um exagero. Não só devido a essa tradição comunicacional nas autarquias mas também ao seu conteúdo específico. Ou seja, ou isto se trata de uma cena tipo "evasão fiscal do Al Capone", apanhar um gabiru pelo único rabo de palha que tem - o que me parece ser muito rebuscado - ou então é um exagero judicial.

Por outras palavras, será um caso de "justicialismo" (eu sei, o termo tem outro significado mas vem sendo hábito usá-lo assim, e tenho de me actualizar, como acima deixei implícito), um tribunal a proferir uma sentença "exemplar". E não sendo eu lido em ciências jurídicas nem na filosofia do direito tenho a vaga impressão de que não há pior do que "castigos exemplares". E assim cada caso terá circunstâncias atenuantes e/ou agravantes. Mas não deve ser "exemplar", qual lição aos "vulgares", os da sociedade, proferida na vara do senhor doutor juiz. E se assim surgir torna-se um abuso... E é isto que me parece o affaire Cartaxo, concluía eu, já em mudas ânsias de uma segunda bica e, até, da partilha de um dos saborosíssimos jesuítas da casa.

Enfim, perorava eu a minha tendencial simpatia para com o socialista em causa esperando uma reacção abrupta do meu amigo, o tal "esfola" dedicado a este triste estado da república. Quando avança ele, impaciente até me querendo interromper a prosápia. Dizendo-me que pior ainda, por assim dizer, é o caso da antiga secretária de Estado do Turismo, Rita Marques. Afiançando-me que a senhora foi - e que é esse o sentimento daquele sector económico - uma boa governante: vinda de outra área, apanhando o Covid-19 e o colapso da actividade, percebendo bem a situação, promovendo de modo eficaz os possíveis apoios, não aparentando ter vieses favorecedores ("um gajo nunca sabe, mas não pareceu nada...", é a expressão canónica). Enfim, foi alguém competente, ágil, empenhado. Terá sido uma surpresa a sua não recondução, foi homenageada pelos agentes. E o mais normal é que tenha sido contratada - e até terá havido concorrência nisso - para trabalhar no sector... "Será, mas é ilegal", ripostei eu, azedo dado que o jesuíta afinal não tinha sido encomendado. "Sim, será", responde-me, mas que quererei eu?, "a senhora não é política, é independente, vai deixar de trabalhar?..."

Entretanto já se fez tarde, temos de avançar ao nosso destino, seguimos ao Sado. Fartos deste poder mas ambos, talvez cândidos, sentindo que há por aí uma histeria, talvez até anseios necrófagos. Contestemos, claro - no mercado paguei um panito por 400 escudos e o padeiro logo me avisou que para a semana custará mais 30 - mas há que calibrar o tom...

Facto nacional de 2022

Pedro Correia, 09.01.23

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O REGRESSO DA INFLAÇÃO

Duas gerações de portugueses nunca tinham experimentado isto. Todo o ano passado foi vivido sob o espectro da inflação, numa depreciação contínua do valor do dinheiro e consequente aumento dos preços dos bens essenciais. Desde 1993 que não se registavam cifras destas entre nós: o surto inflacionário chegou a atingir dois dígitos (10,1%) em Outubro. No final do ano, cifrava-se em 9,6%. Mas pode voltar a subir neste primeiro trimestre de 2023, segundo alertou o governador do Banco de Portugal. Reflectindo-se de forma bem visível na diminuição do nosso poder de compra.

A política monetária seguida pelos bancos centrais, a pandemia que abalou as tradicionais cadeias de abastecimento e a guerra na Ucrânia, com a consequente crise energética e alimentar, foram causas próximas deste regresso à inflação, que se regista um pouco por todo o mundo e causa muita preocupação entre os portugueses. Ao ponto de este regresso da inflação ter sido eleito o Acontecimento Nacional de 2021, embora por escassa margem, pelos autores do DELITO DE OPINIÃO: sete votos em 20 dos que participaram - podendo sempre ser escolhido mais de um tema, como é tradicional entre nós.

«Esta antiga campanheira da nossa já longa história voltou a dar sinal de si. Poderíamos ter aproveitado a sua hibernação, de três décadas, mas o avanço mais efectivo verificado na sua ausência foi o disparar da dívida do país», assinalou um dos "delituosos", justificando a escolha.

 

Em segundo lugar, com seis votos, ficou o que alguns intitularam desgovernação, havendo também quem lhe chamasse crise política. Em alusão aos sucessivos casos que abalaram o governo maioritário de António Costa, num constante entra-e-sai de membros do Executivo. «Não tenho memória de se ter assistido a tantas demissões num governo que ainda não fez um ano» , observou alguém.

A inesperada maioria absoluta do PS nas legislativas de Janeiro foi outro tema mencionado, recolhendo quatro votos. É outro regresso: neste caso a um cenário político inexistente desde 2009, quando chegou ao fim o primeiro Executivo de José Sócrates. 

Menção ainda (com dois votos) para o caos nos hospitais, também classificado de "derrocada do SNS" - outro assunto que foi acompanhando o quotidiano nacional em 2022.

 

Depois, cinco outros factos, cada qual com um voto. Passo a enunciá-los para ficarem lavrados em acta como sempre sucede, ano após ano, no nosso blogue:

- Escândalo de pedofilia na Igreja Católica «e o subsequente rosário de disparates dos seus representantes, e de um certo chefe de Estado de um estado supostamente laico».

- A continuação ideológica da geringonça por outros meios.

Fim da geringonça e a «oportunidade perdida de dar um novo rumo ao país».

- O crescente impacto das alterações climáticas no litoral e no interior de Portugal.

Fim do uso obrigatório da máscara (muitos de nós já nos tínhamos esquecido disto).

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

Facto nacional de 2014: derrocada do Grupo Espírito Santo

Facto nacional de 2015: acordos parlamentares à esquerda

Facto nacional de 2016: Portugal conquista Europeu de Futebol

Facto nacional de 2017: Portugal a arder de Junho a Outubro

Facto nacional de 2018: incúria do Estado

Facto nacional de 2019: novos partidos no Parlamento

Facto nacional de 2020: o vírus que nos mudou a vida

Facto nacional de 2021: vacinação em massa

Futebol surreal

Cristina Torrão, 02.12.22

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O Mundial do Catar tem sido um fiasco em questão de audiências televisivas, na Alemanha. E, agora que a Mannschaft já deixou as arábias, até me pergunto se os canais estatais ARD e ZDF continuarão a transmitir os jogos.

Algo se passa na selecção alemã. Um tipo de futebol que deixou de funcionar? Falta de adaptação dos seleccionadores (sempre alemães) ao novo estilo de jogadores com origem migrante, como Serge Gnabri, Leroy Sané e Jamal Musiala? Enfim, nem sequer sou treinadora de bancada, não me compete dar respostas, muito menos, encontrar soluções. Mas a maneira como a Alemanha foi eliminada, desta vez, foi muito deprimente. O jogo de ontem teve momentos surreais.

A Alemanha tinha de ganhar. Mas estava, ao mesmo tempo, dependente de uma vitória da Espanha. Os primeiros golos foram marcados quase ao mesmo tempo: a Alemanha aos 10 minutos, a Espanha aos 11 minutos. Estava tudo a correr bem. Mas, aos 48, o Japão empatou e aos 51 pôs-se em vantagem. Logo a seguir, aos 58 minutos, a Costa Rica empatou. Aqui, o meu marido e eu passámos a torcer por uma vitória da Costa Rica. E note-se que o meu marido é alemão! Porquê? Se a Alemanha já não tinha praticamente hipóteses, que fosse a Espanha também eliminada. E não é que a Costa Rica marca o segundo golo aos 70 minutos?

Alegria efémera. Três minutos depois, Havertz empatou o jogo. Maldito Havertz! Ficámos numa situação muito ingrata, não me lembrava de já ter vivido semelhante, a assistir a um jogo de futebol. Deveríamos torcer pelo terceiro golo da Costa Rica? Mas: e se a Espanha ainda conseguisse virar o resultado?

O que veio a seguir foi surreal. A Alemanha começou a marcar golos e a Costa Rica desesperava. Tudo em vão. O marcador do Japão-Espanha congelara naquele fatal 2:1. Foi penoso ver a Alemanha a aumentar a sua vantagem, sabendo que tal vitória beneficiava apenas a Espanha.

Só nos resta esperar que “Marruecos” trate da saúde a “nuestros hermanos”.

E, de resto, viva Portugal!

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No Cávado

jpt, 08.11.22

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(A Norte do Trancão [3]) 
 
Apenas agora, já com esta idade, venho conhecer um dos mais belos locais portugueses, a foz do Cávado. Cruzo-a, com vagares, e sob extremosa cicerone, entre a quase bíblica Ofir e o sal da terra em Cepães. Tenho a sorte de ser recebido com algum sol e marés vivas, tudo a sublinhar o belo local, a deixar-me mimar pela pátria.

Guardo assim a ironia, afogo o sarcasmo: pois que dizer destes poderes autárquicos, brutos, rudes, que num sítio de paisagem maravilhosa, desembocadura de uma lendária sinuosa restinga, afixam este mamarracho letrado como se quem lá esteja não saiba onde está?

Uma pena, comento para o lado. Mas enquanto vou reconhecendo que a cidade resistiu ao desvario que avassalou vilas e cidades litorais nas últimas décadas. Pois, que me desiluda eu quanto ao futuro, avisam-me, e lá me vão mostrar as patadas (em arquitectura "contemporânea", claro) que os magnatas das câmaras circundantes ali colocam a despropósito. E me avisam também que o PDM local foi agora alterado pelo actual presidente - um mau arquitecto (de uma qualquer universidade cerca do "Porto") tão ansioso pela edificação em altura como o estão alguns empreiteiros locais, consabidos financiadores do partido. Do partido do presidente claro. O do dr. Marquês Mendes, do prof. Rebelo de Sousa, do dr. Montenegro. E então, enquanto os de Braga e afins (os de outro partido, que de facto é o mesmo) vão construindo ("à Siza", "à Távora"), estes preparam-se para meter mais uns andares em cima dos caixotes.

E para entretanto serem gostados, votados? Põem o nome da terra junto ao rio... Chamam brutos aos passantes. E estes gostam? 

Capelas curiosas

Ana CB, 28.10.22

Desconheço se há algum inventário completo de todas as capelas e ermidas que temos em Portugal, mas tenho as minhas dúvidas de que exista. Serão muitas centenas, um trabalho de compilação gigantesco. País maioritariamente católico desde a fundação, em Portugal encontramos pequenas capelas por todo o lado – seja nas maiores cidades ou nas aldeias mais remotas ou minúsculas, no coração das localidades ou no meio de nenhures, quase incógnitas entre edifícios ou em grande destaque e rodeadas de aparato. São uma das formas de expressão mais genuína da devoção religiosa popular, e assumem uma enorme diversidade de aspectos, muitas delas com características únicas e excepcionais pela sua história, localização ou aparência. Há muitas que são particularmente curiosas, e com a minha apetência especial por locais fora do comum tenho coleccionado memórias de várias destas capelas “diferentes”, algumas das quais já visitei mais do que uma vez – não por questões religiosas, mas apenas porque são lugares que me atraem, cada um à sua maneira. Estas são só algumas das minhas preferidas.

 

Anta-capela de Alcobertas/Igreja de Santa Maria Madalena

(Alcobertas, Rio Maior)

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As antas-capelas são um dos muitos exemplos que mostram a forma como a religião cristã adaptou em seu benefício as tradições pagãs, e a sua concepção original faz com que sejam das construções religiosas mais interessantes do nosso país. Existem apenas seis em Portugal, e nem todas em bom estado. A de Alcobertas já foi autónoma, nela se venerando Santa Maria Madalena. Algures entre os séculos XVII e XVIII, perdeu a independência e passou a ser capela lateral da igreja dedicada à mesma santa – razão pela qual o seu acesso é feito pelo interior desta igreja. Imediatamente a seguir ao arco, forrado a azulejos da mesma época, por onde se entra na capela, são visíveis os esteios e a laje de cobertura do corredor do dólmen. Graníticos e de grande dimensão (têm cerca de cinco metros de altura, o que faz do conjunto um dos dez maiores monumentos megalíticos do género situados na Península Ibérica), os esteios da câmara ovóide já perderam a sua protecção superior original; o cimo da capela é agora fechado por um muro de tijolo e um tecto abobadado, sobre o qual assenta o telhado, de aspecto recente. Calcula-se que este dólmen date de finais do Neolítico (entre 4000 e 3500 a.C.), e terá sido cristianizado no século XVI.

 

A obscuridade do interior é aligeirada pela cor branca do tecto e da toalha que cobre o altar, revestido de azulejos tricolores que incluem uma representação não muito vulgar de Maria Madalena, arrojada na sua seminudez. Também curiosamente, sobre pedras colocadas num plano superior está uma pequena imagem quinhentista, em barro pintado de várias cores, que se supõe ser de Santa Ana, representada com um livro aberto no colo. Ainda outra curiosidade é o facto de os esteios terem gravadas, na sua superfície, muitas “covinhas” (nome técnico: fossetes), motivos rupestres encontrados com grande frequência em rochas e monumentos megalíticos, cuja finalidade continua a ser desconhecida, pese embora as várias possíveis explicações que lhes têm sido atribuídas.

A este lugar de devoção secular a Santa Maria Madalena estão associadas duas lendas, que se baralham entre si. Uma conta que foi esta santa a criadora das pedras que compõem o dólmen. A outra diz que por esta anta ter sido lugar de culto pagão, os populares tentaram demoli-la; mas cada tentativa de destruição era contrariada pela santa, que voltava milagrosamente a erguê-la. Respeitando a aparente vontade de Santa Maria Madalena, optou então o povo por dar a volta à situação, convertendo o local numa capela católica.

 

 

Capela e Gruta de Nossa Senhora da Lapa

(Entrevinhas, Sardoal)

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Dois quilómetros a sudeste da localidade de Entrevinhas há uma zona de lazer, nas margens da ribeira de Arecez. A montante, perto da modesta Barragem da Lapa, existe uma gruta onde desde há séculos é venerada a Virgem Maria. A entrada da gruta foi redesenhada em alvenaria, destacada por uma faixa amarela, e está protegida por um gradeamento de ferro. No interior, uma série de degraus feitos de pedras xistosas, em jeito de altar, conduzem os olhos até a um nicho, também realçado com ornamentos em amarelo, onde foi colocada uma pequena escultura policromada da Nossa Senhora da Lapa, na sua representação mais habitual. Este culto mariano, tão antigo que se desconhece quando terá começado, levou a que em meados do séc. XVII o Abade João Cansado mandasse edificar uma capela na margem oposta da ribeira, criando assim um pequeno santuário dedicado a Nossa Senhora. Há registo de um breve do Papa Alexandre VII, com data de 28 de Março de 1659, concedendo privilégios especiais a quem rezasse missa na capela. E em 1926, um jornal local dava conta de uma peregrinação eucarística ao local no dia de São João, tradição já antiga.

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Meio encaixada num maciço rochoso elevado, a salvo de enchentes em épocas de muita chuva, acede-se à capela por uma curta escadaria dupla. É uma construção simples, com alguns elementos barrocos na fachada e um arco sineiro sobre um dos lados do telhado, mas já sem sino. Nota-se que está a precisar de uma renovação. Está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1996, mas é uma capela privada e as visitas ao interior (que está descrito como sendo bem mais rico do que o exterior) só são possíveis por marcação com o seu proprietário.

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A zona de lazer onde se situa a capela é tranquila e agradável. Acompanhando a ribeira, filas extensas de árvores de grande porte criam uma área fresca para passear, piquenicar, ou até mesmo tomar banho, nos dias em que o calor aperta. Uma ponte de troncos e tábuas de madeira faz a ligação entre as duas margens. No extremo oposto ao da gruta há um parque de merendas, chorões frondosos, uma barreira de pedra para controlar o fluxo da água, e uma pequena cascata mais à frente. É um sítio bom para relaxar, dotado de um certo encanto, pese embora tenha no geral um aspecto pouco cuidado.

 

 

Capela do Calvário/Capela de Santa Maria Madalena

(Ferreira do Alentejo)

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É possivelmente a capela mais estranha do nosso país, e se não fosse a cruz de metal bem visível no topo, ninguém faria a mínima ideia da sua finalidade. Pequena, branca e cilíndrica, a fazer lembrar uma redoma, tem uma faixa amarela pintada na sua base, um lanternim sobre a cúpula, e várias dezenas de pedras irregulares de granito incrustadas nas paredes, concentrando-se sobretudo na parte superior. Além de estranha, é também misteriosa, pois desconhece-se o porquê de tão curiosa decoração. Moda alentejana, já que ornamentação semelhante existe na vizinha localidade de Beringel e consta que terá existido uma outra no mesmo género em Beja? Evocação do calvário de Jesus (que parece ser a explicação mais comum)? Ou da salvação de Maria Madalena (condenada a apedrejamento e uma das figuras representadas no altar da capela)? No interior, a parede do altar está pintada de azul-céu e decorada com estuques brancos com formas vegetais ou representando alguns Arma Christi (Instrumentos da Paixão, símbolos associados ao martírio de Jesus). O azul repete-se em faixas geométricas pintadas na abóbada.

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Calcula-se que a sua construção date dos séculos XVII ou XVIII. Originalmente, foi erguida num outro local da vila, a antiga Rua do Calvário, e transferida em 1868 para um dos extremos da então Rua de Lisboa, que agora é a Avenida Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Classificada como Imóvel de Interesse Público em 2003, a espécie de praça onde se encontra é zona de protecção especial, com a capela no seu centro, isolada e bem visível. À volta há edifícios baixos, de traça tradicional, um ou outro com ar apalaçado, e uma fonte ornamental moderna, com bicas e repuxos, que dá um certo ambiente de frescura a esta vila alentejana.

Seja qual for a razão das suas origens, o certo é que esta capela se tornou no ícone máximo de Ferreira do Alentejo – que é, de resto, uma vilazinha pacata, bem arranjada e limpa, com vários outros motivos de interesse para uma visita mais demorada.

 

 

Capela de Nossa Senhora das Vitórias

(Furnas, São Miguel)

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Praticamente isolada na margem sul da Lagoa das Furnas, esta capela é muito diferente de qualquer outro monumento religioso em São Miguel e, por ter bastante altura e uma torre aguçada, passa facilmente por igreja. Meio dissolvida entre a água e todo aquele verde, com a pedra manchada e avermelhada pelo tempo, as suas formas elaboradas tornam-se incongruentes num enquadramento tão simples. Visto de longe, o conjunto tem um ar algo surreal.

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Foi mandada construir em fins do século XIX por José do Canto, um abastado proprietário açoriano, para servir de mausoléu à sua mulher e a ele próprio. José do Canto era um intelectual progressista e botânico amador, e esta capela encontra-se precisamente numa das suas antigas propriedades, a mata-jardim a que foi dado o seu nome. Construída em estilo neogótico, possui uma dimensão bastante generosa, com uma torre sineira alta, pontiaguda e ornamentada. No interior, chamou-me primeiro a atenção, por não ser muito habitual, o belíssimo piso de mosaicos coloridos. Os vitrais das janelas altas, que do exterior parecem desenxabidos, mostram-se bem mais ricos quando vistos de dentro. A pedra cinzenta nua da estrutura, com as tonalidades dadas pela passagem dos anos, contrasta com a madeira castanha do gradeamento, do púlpito e dos altares. Incomum é também a ausência da talha dourada, tão habitual nos lugares de culto em Portugal, mas isso em nada lhe diminui o encanto.

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Capela de São Mamede

(Janas, Sintra)

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Saindo de Janas para norte na direcção de Fontanelas, encontramos a poucas centenas de metros, do lado esquerdo, um terreno descampado onde se ergue uma construção branca e baixa, de formato circular, que à primeira vista não dá a ideia de ser um edifício religioso. Mas é, como o provam as pequenas cruzes que se erguem no topo, visíveis se olharmos com mais atenção. Dedicada a São Mamede, esta capela data presumivelmente do séc. XVI, embora até agora não tenha sido possível saber exactamente quando foi construída. Suspeita-se inclusivamente que a sua origem seja bem mais remota, reportando-se à época romana, e que no local tenha existido um templo consagrado ao culto da deusa Diana. A razão para esta suspeita prende-se com a romaria que ali se realiza anualmente em meados de Agosto, e que se reveste de um carácter muito particular: os lavradores da região trazem até ali o seu gado (e por vezes animais domésticos), e com ele dão três voltas à capela no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Mais tarde, como pagamento das suas promessas ou como pedido de protecção para os seus animais, colocam ex-votos e oferendas agrícolas no interior da capela. Embora estas festividades sejam em honra de São Mamede, protector do gado, as suas características assemelham-se em muito às dos antigos cultos dedicados a Diana, a deusa romana das florestas e protectora dos animais, cuja principal festa ocorria no dia 13 de Agosto. Existem documentos dos séculos XV e XVII que referem esta festa dedicada a São Mamede com pormenores semelhantes aos de hoje, o que prova que esta tradição já é bastante antiga.

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É uma das poucas capelas de planta circular existentes no nosso país, e a sua concepção é atribuída, por alguns entendidos na matéria, a Francisco d’Olanda, embora tal facto não esteja de maneira nenhuma confirmado. Tem ainda a particularidade de possuir um alpendre que acompanha metade da circunferência do edifício, com colunas de pedra e janelas que lhe dão um invulgar aspecto de casa de habitação. É por este alpendre que se acede à porta de entrada na capela, cujo interior é bastante simples e despojado – como todo o edifício, aliás. Apesar de estar junto à estrada, o local onde se ergue a Capela tem uma certa aura de serenidade, e sente-se no ar o cheiro intenso dos pinheiros que estão plantados em redor. Os bancos corridos de pedra no interior do alpendre convidam a sentar e relaxar, a descontrair da correria diária, a aproveitar o sossego.

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Capela de Nossa Senhora da Orada

(Melgaço)

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Já são muitas as centenas de anos que passaram pelas pedras manchadas da Capela de Nossa Senhora da Orada. À saída de Melgaço, na estrada que vai para São Gregório, e encaixada entre os muros de uma quinta vinhateira e umas quantas casas rústicas vulgares, pode facilmente passar despercebida a quem vai de carro com a atenção mais virada para a paisagem aberta do lado do rio. E no entanto, esta capela do século XIII é um dos edifícios mais surpreendentes da arquitectura religiosa do Alto Minho (já de si riquíssima em exemplares soberbos do período românico). Dizem os entendidos que mostra ser do período tardo-românico, por possuir alguns elementos protogóticos. Mais leiga do que eles, os meus olhos notam sobretudo o portal com colunas e arcos muito trabalhados, os cachorros com símbolos e figuras esculpidas, sob as cornijas, e um motivo vegetal por cima da porta norte que (mais uma vez de acordo com os peritos) representa a árvore da vida e é único em Portugal.

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Na sua escrita tão característica, Saramago descreveu a Capela da Orada no livro “Viagem a Portugal”, e foram precisamente as palavras dele que me trouxeram aqui pela primeira vez, há já muitos anos:

 

Mas a Igreja da Nossa Senhora da Orada, pequena construção românica decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui pedem-se olhos, registos fotográficos que acompanhem o jogo da luz, a câmara de cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos, volutas, é dizer modilhões, tímpano, aduelas, e isto está sem dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça, tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é.

 

Em tempos, junto à capela esteve colocado um cruzeiro – erguido em 1567, ano de peste e portanto de fervor religioso acrescido. Questões logísticas ligadas à quantidade de devotos que o contornavam nos dias de romaria acabaram por o deslocar, em fins do século XIX, para um pouco mais acima, no outro lado da estrada, local que é agora um miradouro de excelência sobre Melgaço, o rio Minho e terras galegas. Tal como sucede com a capela, a imagem de um tosco Cristo crucificado e o desgaste do granito acusam as centenas de anos a que este cruzeiro já sobreviveu.

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Anta-Capela de São Dinis

(Pavia, Mora)

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Outra anta-capela de que gosto particularmente, pela sua harmonia estética, é a de Pavia. A sua importância histórica levou a que fosse classificada como Monumento Nacional em 1910. Não sendo difícil de reconhecer, pode passar despercebida a quem não souber da sua existência e for desatento, meio escondida que está no recanto de um largo com árvores, bem vindas pela sombra mas que também funcionam como cortina visual.

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Apesar das intervenções feitas pela mão humana, são bem visíveis os sete grandes esteios (agora unidos por alvenaria) do monumento megalítico original, mais ainda porque a capela está virada de costas para as vias de acesso principais. A anta terá sido erguida algures pelos milénios IV ou III a.C., e por desígnios misteriosos sobreviveu até ser cristianizada, provavelmente no século XVII. A sua transformação em capela dedicada ao culto de São Dinis não envolveu nem grandes complexidades, nem grandes quantidades de cimento: um alçado saliente, com a abertura para entrada, protegida por portas de madeira e portões de ferro, e uma cruz no topo; um pequeno campanário rectangular mais elevado, que abriga o sino; e três degraus para acesso ao interior, mais elevado do que o nível da rua.

Por dentro, a capela não poderia ser mais minimalista: paredes nuas e apenas um frontal de altar revestido de azulejos azuis e brancos, decorados com volutas e querubins e com uma representação fora do comum de São Dinis ao centro, em tamanho reduzido. Sobre o altar, um pano branco bordado e uma jarra de cerâmica com flores artificiais. O despojamento interior, que o contraste com os azulejos de influência barroca acentua sobremaneira, condiz bem com o aspecto geral desta capela, onde as características primitivas não foram abafadas pelas alterações posteriores e permanecem bem marcadas.

 

 

Capela de Nossa Senhora do Monte

(Santarém)

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Na cidade a que chamam “capital do gótico” não faltam monumentos religiosos, mas esta capela é uma curiosidade. Primeiro que tudo, porque é românico-gótica, com origens no século XII, mas também tem características renascentistas, fruto de uma remodelação no século XVI. Depois, porque se encontra em meio urbano, quase “abafada” pelas construções que a rodeiam e que, embora sejam baixas, roubaram a vocação que este lugar já teve de miradouro privilegiado sobre o vale que se estende para oeste da cidade. E finalmente, porque é desde há uns anos a sede da Paróquia Ortodoxa Romena de Santarém, cujo nome é “Ascensão do Senhor”, utilização que não é habitual nos edifícios de raiz católica apostólica romana.

A capela é toda de pedra nua, com excepção de um “acrescento” lateral em alvenaria. Rectangular e com vários volumes, a sua característica mais marcante é a galilé (alpendre com colunas) que ocupa a totalidade das fachadas oeste (a principal) e sul. Assentes sobre um murete baixo, as colunas elegantes terminam em capitéis decorados, cada um de sua maneira, com elementos vegetais, volutas e cabeças de onde saem asas, representando anjos. Na fachada nascente há um nicho muito elegante, que os peritos dizem ser quinhentista, tal como os alpendres, e de recorte mudéjar. Abriga uma escultura que representa a Virgem Maria, que terá sido bem colorida em tempos mas agora apenas tem uns restos de tinta azul no manto. Alguém terá achado por bem “embelezar” o nicho com algumas flores artificiais que já viram melhores dias, entre elas uma rosa, de tamanho desproporcionado e cor já muito desbotada, colocada sobre as mãos unidas da imagem.

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A história desta capela também não é desprovida de particularidades algo fora do comum. Pertencendo originalmente à Colegiada de Santa Maria de Alcáçova, em meados do século XIII passou para a posse da Casa de São Lázaro – hospital e leprosaria criados em Santarém por D. Afonso II, que contraiu lepra e escolheu isolar-se nesta cidade, onde veio a morrer em 1223. A partir do século XVII, o Hospital de São Lázaro passou a ser administrado pela Misericórdia, o mesmo sucedendo à capela. Datam deste século os lambris de azulejos que existem no interior.

 

Apesar de encafuada entre casas e carros, que lhe retiram uma parte do protagonismo no local, a Capela de Nossa Senhora do Monte mantém uma aura de encanto e um aspecto de dignidade, de que sobrevive ali por mérito próprio, há muitos séculos, e ali continuará por muitos mais, qualquer que seja o destino dos edifícios que a cercam.

 

 

Anta-capela de São Brissos/Capela de Nossa Senhora do Livramento

(Santiago do Escoural, Montemor-o-Novo)

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O nosso Alentejo é uma região riquíssima no que toca a vestígios pré-históricos, e é na estrada que liga Santiago do Escoural a Évora que encontramos mais um monumento megalítico adaptado a local de culto católico. Isolada, com um ar meio perdido junto à entrada para um couto de caça, passa facilmente despercebida a quem não vai propositadamente à sua procura. Tem entre cinco e seis mil anos e o seu nome religioso é Capela de Nossa Senhora do Livramento, atribuído após a sua transformação e cristianização no séc. XVII. Classificada como Monumento Nacional desde 1910, da anta primitiva restam alguns esteios, um dos quais está caído ao lado da capela, e parte da laje de cobertura, que foi integrada no tecto da ermida. Está pintada de branco, com uma faixa azul na base, à maneira das casas típicas alentejanas, e só é possível visitar o interior mediante marcação antecipada.

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Até recentemente foi lugar de romaria, especialmente por alturas da Páscoa. A Senhora do Livramento está tradicionalmente associada ao parto, mas a que está nesta capela tem desempenhado também uma outra função: a de invocar as chuvas em anos de seca prolongada, atribuição que lhe advém de uma daquelas lendas em que nós, portugueses, somos pródigos, e cuja origem mística se perde nos tempos. São Brissos é um santo português que terá sido o segundo bispo de Évora e supostamente martirizado pelos romanos no séc. IV d.C. Existem no Alentejo várias povoações com o seu nome, uma delas bem perto da anta-capela, e a imagem do santo ocupa lugar de destaque na igreja da localidade. Diz então a lenda que a Senhora do Livramento e São Brissos tiveram um filho, também representado na anta-capela ao colo da sua mãe. Ora sucede que o dito santo acabou por trair a mãe do seu filho com a Senhora das Neves (talvez em dia de muito calor, quem sabe, que esta Senhora devia ser fresquinha…) e o casal ficou de candeias às avessas para todo o sempre. Quando a seca já vai longa e a chuva começa a fazer falta, os habitantes da localidade transportam a Senhora do Livramento para a igreja de São Brissos, onde a colocam de costas voltadas para o seu antigo amor. No entanto, o filho permanece na anta-capela – e então a Senhora, com saudades da criança e obrigada a estar ao pé do homem que a traiu, chora rios de lágrimas, lágrimas essas que se transformam em chuva. Uma lenda ao gosto da nossa tão portuguesa costela trágica.

O Facebook

jpt, 24.10.22

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(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Há um bom par de anos que chamei a este facebook a "likeland", a terra onde partilhamos aprazíveis "gostares", uma verdadeira "utopia" de bem-estar moral. Não é um defeito, é uma saudável panaceia que nos intervala os males do mundo. Cada vez isso mais me é visível, pelo menos no nicho das interacções que o algoritmo anima entre as minhas milhares de ligações - os "amigos-FB" com os quais interajo, neste "comércio" mais ou menos frequente de "sorrisos", "anuências" e "saudações", os "likes" (e "comentários"), que (n)os vão fazendo verdadeiros vizinhos, pois nomes que se me vão tornando conhecidos mesmo que nos desconheçamos na vida real, essa incómoda "real land", tópica.
 
Mais percebo isso pois as nossas características, as desta minha "comunidade" de entreajuda moral, a dos envolvidos neste nosso (quase)diário "estamos juntos", que se quer avessa à solidão - mesmo que enfrente apenas o "sozinhismo" -, implica que me acolhem com ruído prazeroso e solidário, e assim basto "gostável", as novas e notas da minha vida: uns dizeres sobre o meu Sporting, ecos de uma patuscada entre amigos reais, um resmungo com a minha ciática que afinal também é gota mas esta, afinal e vá lá, é apenas um entorse, ainda que bastante incomodativo, um sucesso da minha (magnífica) filha, um livrito para o qual me consegui concentrar, uma memória do "meu" Moçambique, uma nota sobre um bom filme visto na TV ou sobre uma tasca que descobri, uma piada menos brejeira que recebi no Whatsapp. E algum, escasso, etc.
 
Já algo oposta é a reacção se me ponho a opinar, ou a ecoar opiniões alheias, sobre os "males do mundo", os da tal "real land". As quais vou percebendo como uma violação do protocolo que nos une aqui, neste espaço de suspensão das preocupações e querelas, essas que preenchem a vida e, também, os dizeres nas "rádio, tv, disco e cassete pirata" que nos inundam o quotidiano. Que colhem um silêncio que não será exactamente uma discordância comigo ou com a minha forma - pois para isso há o "desamigar", o neologismo daqui - mas muito mais um até mudo "ó amigo/vizinho Teixeira, deixe-se disso, quer falar de coisas sérias, incómodas? Guarde isso para os blogs, homem...". Ou, até, "para si...", num "já viu como está a sua vida? Estivesse estado você calado...!", que é coisa que não é raro dizerem-me os da "vida real".
 
Enfim, resta-me anuir a este nosso protocolo (numa concordância ao velho mandamento "se está mal mude-se"). Aceitar esta nossa prazerosa "likeland" tal qual ela é - ainda que consciente e convicto de que esta terra não é a Cocanha.
 
Mas ainda assim deixo, pois renitente, uma citação que Paulo Sousa colocou agora no Delito De Opinião, sobre esta nossa terra Portugal. Um excerto de um texto que não é de um furioso esquerdista nem de um paladino do professor Ventura, nem de um publicista da sempre pérfida "oposição". É de Ricardo Costa, director do tão institucional de alinhado "Expresso" e também irmão do nosso primeiro-ministro desde 2015. Deixo-a aqui, à transcrição, sabendo que poucos "gostarão" dela. E que, pior ainda, poucos nela atentarão. Pois afronta o sossego identitário de tantos dos "vizinhos":
 

Lost in Fuseta

Cristina Torrão, 09.09.22

Não é todos os dias que se recebem comentários a um postal publicado há mais de três anos, mas ontem aconteceu-me. E qual não foi a minha surpresa, quando hoje deparo com mais um.

Escrevia eu, a 6 de Julho de 2019, sobre Portugal-Krimis, ou seja, livros policiais alemães, tendo Portugal como cenário.

E falava então no Lost in Fuseta, de Gil Ribeiro:

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O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações).

Ontem, a comentadora Paula Bonifácio Vilas disse que a televisão alemã ia passar o filme Lost in Fuseta no Sábado. Por acaso, o meu marido, que já leu duas ou três aventuras algarvias do Leander Lost, já me tinha falado nisso. Hoje, o comentador Artur Nunes pedia um link, onde se pudesse assistir ao primeiro episódio.

De facto, trata-se de um série e o ARD (1º canal alemão, ou Das Erste) até vai apresentar amanhã os dois primeiros episódios. A minha revista televisiva apresenta o primeiro com a frase: Jetzt geht's also an die Algarve! - «Agora, vai-se então até ao Algarve!»

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Este episódio vai ser apresentado às 20h15m, o segundo às 21h45m (hora alemã).

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Ambos podem ser já vistos online, na Mediathek do ARD. Já deixei os links ao comentador Artur Nunes, mas aqui vão, mais uma vez, caso haja mais alguém interessado. Para quem não percebe alemão, servem para ir dar uma olhada.

Primeiro episódio:

https://www.ardmediathek.de/video/krimis-im-ersten/lost-in-fuseta-1-ein-krimi-aus-portugal/das-erste/Y3JpZDovL2Rhc2Vyc3RlLmRlL2tyaW1pcy1pbS1lcnN0ZW4vYTJjM2Y1NWMtOGQ5Yy00ZTc1LTljNDAtMTNmNTNjOWZiMWJi

Segundo episódio:

https://www.ardmediathek.de/video/krimis-im-ersten/lost-in-fuseta-2-ein-krimi-aus-portugal/das-erste/Y3JpZDovL2Rhc2Vyc3RlLmRlL2tyaW1pcy1pbS1lcnN0ZW4vMDg3MjI3OWUtMjJiNy00MWNjLWFhOTUtOWI3NzgwZDU3NjRj

 

A Independência do Brasil

jpt, 07.09.22

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Cumprem-se hoje 200 anos da independência do Brasil. É tonitruante o relativo silêncio, qual murmúrio, em Portugal sobre o assunto - publicações, filmes, documentários, congressos? Nem mesmo o recordar, trazendo para os escaparates, do que foi sendo bem feito sobre essa época. Razões para tal haverá, desde a pequenez (ultramontana) que ao processo ainda sente como "perda" - e que na senda deste Ventura de agora ainda chamará "terroristas" aos Tiradentes - e o patético (identitarista) que se quer "desculpar" da História, a ver se nisso pingam uns subsídios extra para as ONGs e centros de investigação que controlam.

Enfim, deixo aqui memória desta interessante "Oceanos", n. 44 (2000), com  alguns artigos interessantes sobre portugueses no Brasil independente, que foi coordenado pelo antropólogo Robert Rowland - estou a folhear/reler hoje, como celebração...

E deixo um desejo sincero aos meus (poucos) amigos e amigos-FB brasileiros. O de que daqui a 200 anos o Brasil tenha evoluído o suficiente para que os seus problemas já não sejam culpa do colonialismo português. Será difícil, pois até agora não conseguiram libertar-se disso. Mas talvez venha a ser possível...

Diferenças

Sérgio de Almeida Correia, 24.08.22

image-2.jpg(créditos: Paulo Spranger/Global Imagens)

Há uma semana tinham divulgado a sua intenção e anunciado os seus propósitos. Ainda que alguns possam ter a nacionalidade portuguesa, o que desconheço, assumem-se como nacionais da China. E foi nessa qualidade que ontem saíram à rua empunhando bandeiras chinesas, cartazes e megafones.

E, pergunta-se, fizeram-no em que local? Na capital de Portugal, em Lisboa. Mais exactamente diante da Embaixada dos Estados Unidos da América, um local sensível em termos de segurança.

Os EUA são um aliado de Portugal de longa data. E são também seu parceiro na Organização do Tratado do Atlântico Norte e noutras organizações de que ambos fazem parte.

Os manifestantes chineses quiseram dar conta da sua oposição à política externa estado-unidense e do seu apoio ao Governo da China e às suas políticas em relação a Taiwan. A favor de uma China única. Nada contra. Estão no seu direito. E eu até estou de acordo com "Uma Única China", contra as provocações.

Cada um apoia e critica quem quer, manifesta-se como quer, quando quer, respeitando as suas convicções e as leis. Essa é a essência da vida democrática. Não é o medo, a unanimidade e o silêncio em caso de se pensar de maneira diferente.

E aqueles chineses fizeram-no pacificamente, sem oposição do Governo português, do Ministério da Administração Interna ou da PSP, que também não andou a importunar, filmar, fotografar e a levar para a esquadra, nas coloridas ramonas para posterior identificação, quem lá esteve.

Não foram impedidos de se manifestar, ainda que pudessem causar algum constrangimento à circulação e não tivessem respeitado as recomendações das autoridades sanitárias chinesas quanto às medidas de combate e controlo da Covid-19 – não guardaram distâncias, não usaram máscaras, não foram fazer testes PCR antes de se manifestarem.

Enfim, tiveram toda a liberdade para se exibir, gritar, opinar na terra estrangeira que os acolheu, onde vivem e fazem os seus negócios, contra a política de um país amigo de Portugal. Ninguém os impediu ou invocou leis de segurança interna ou a pandemia para os contrariar na sua intenção. E não vão ser agora acusados da prática de crimes de desobediência, julgados e condenados.

Seria bom que em Macau, o Governo da RAEM, o seu Chefe do Executivo, o Secretário para a Segurança, o Comandante da PSP e aqueles senhores que se sentam no hemiciclo da Praia Grande olhassem para este caso e para a forma como as autoridades de Portugal o trataram.

Estou certo de que se em Macau fosse convocada uma manifestação por residentes que se quisessem manifestar livremente, ao abrigo da Lei Básica, respeitando todas as leis e recomendações dos SSM, para darem conta do seu apoio à política das Nações Unidas e da União Europeia em relação à Ucrânia, de condenação à invasão russa, contra os crimes e violações dos direitos humanos que são diariamente cometidos no Mianmar e no Afeganistão, tal manifestação jamais seria autorizada.

E se fossem empunhadas bandeiras portuguesas, como ali foram erguidas bandeiras chinesas, logo apareceria um patriota zeloso a acusar os manifestantes de serem uns saudosos do colonialismo. E nessa crítica seriam também seguidos por alguns estrangeiros anafados, cheios de saudades dos tempos da URSS como antes tiveram da tropa que no passado os alimentou, e que aqui residem gerindo folhas de couve e missas a troco de subsídios e viagens.

É evidente que no actual contexto nada disto seria possível em Macau. Como anteriormente não foi possível por parte de trabalhadores birmaneses que aqui laboram e que se quiseram manifestar contra as atrocidades da junta militar. Ou a residentes contra os abusos da polícia de Hong Kong.

E sabem porquê? Porque o sistema de direitos, liberdades e garantias dos residentes de Macau, constante da Declaração Conjunta e da Lei Básica, pifou. Finou-se. E é agora um simples punhado de frases soltas entregues à interpretação dos sempre disponíveis burocratas de serviço.   

Mas é bom que se sublinhe, até pelo pequeno episódio de ontem da manifestação de Lisboa promovida pela Liga dos Chineses em Portugal, com o apoio de todas as associações chinesas existentes em Portugal, a diferença entre uma democracia digna desse nome, que acolhe estrangeiros como se fossem os seus nacionais, dando-lhes espaço, paz, trabalho, acima de tudo liberdade para se expressarem e manifestarem, e um regime policial onde diariamente se assiste à erosão das liberdades e das garantias mais básicas pelas mais estapafúrdias razões.

Era só isto que hoje vos queria dizer. Amanhã não sei se poderei fazê-lo.

 

Em tempo: A LUSA queixa-se de ter sido filmada, mas não esclarece por quem. As autoridades portuguesas deverão esclarecê-lo, porque se jornalistas portugueses são filmados na sua terra por agentes estrangeiros, então é porque muita coisa está mal no reino da Dinamarca e será preciso tomar medidas.

Longe dos media

Paulo Sousa, 15.08.22

Ontem levei a bandeira de São Miguel Arcanjo à missa e à procissão do Chão Pardo. O lugar do Cham Pardo, na ortografia dos documentos do sec. XVI onde pela primeira vez é referido, é mais antigo do que a sede de freguesia, que é o Juncal, há mais de 450 anos. A imagem do seu orago é uma pietá muito antiga, que em termos artísticos não é muito elaborada, mas em termos de arte sacra é claramente a imagem mais preciosa de toda freguesia.

Passados os dois anos mais fortes da pandemia, nem todas as tradicionais festas das pequenas povoações foram retomadas. Isso aconteceu até em terras de maior dimensão. Por isso, hoje no Chão Pardo, só houve missa e procissão.

Noutros anos, entre o Juncal e o Chão Pardo, desenrolaram-se algumas disputas pelas datas de celebração das festas. A dimensão das festas do Juncal é incomparavelmente superior, mas o fim de semana em que tradicionalmente decorriam as festas do Chão Pardo, o segundo de Agosto, coincidia com o dia 15 da Ascensão de Nossa Senhora. Alguns anos em que o feriado calhou a uma sexta ou segunda-feira, um fim de semana grande, levaram a que quem estivesse à frente das festas do Juncal, tenha preferido avançar para o confronto e fizeram a festa nessa mesma data. O pároco da altura não conseguiu mediar o conflito e já nem me recordo como fez para presidir às duas cerimónias no mesmo dia.

Mas isso aconteceu no tempo em que o país ainda tinha ambição e acreditava que haviam combates que valiam a pena serem travados. Nos dias de hoje, já ninguém quer consumir energias nesse tipo de disputas. Nem de outras. Por isso, neste fim de semana no Chão Pardo, nem sequer festa houve. No Juncal, regressou-se há alguns anos ao terceiro fim de semana de Agosto, e por isso começam na próxima sexta-feira. Dizem que vão ser as melhores dos últimos três anos.

Finda a celebração da missa vespertina com a liturgia do feriado de hoje, no exterior da capela coordenou-se a sequência correcta da procissão. À frente ia a bandeira da Nossa Senhora da Piedade, que é nova e por isso foi a sua estreia, seguida pela bandeira de São Miguel Arcanjo, padroeiro da freguesia, transportada por mim. Depois vinha o andor com as oferendas, compostas por bolos ferradura e umas merendeiras, seguido pela cruz, ladeada por duas lanternas, o pároco, ainda a recuperar de um acidente da viação e de uma ida à TV, e antes da população vinha ainda a imagem da Nossa Senhora da Piedade, transportada num andor sobre os ombros dos locais.

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Ao contrário de outros lugares, como é o caso dos Casais Garridos, a procissão do Chão Pardo não é muito longa. Foram umas escassas centenas de metros. Saímos do estreito largo da capela, entramos na estrada principal, onde nos cruzamos com alguns automóveis que seguiam convictos nos seus percursos domingueiros e passamos ao lado dos gigantes carros da empresa de camionagem ali sediada, estacionados onde não é habitual estarem e que por isso imaginei que ali estavessem também para a procissão. Na única curva da estrada principal do Chão Pardo, entramos à esquerda pela Travessa da Procissão, onde há uns anos amassei uma lateral de uma carrinha por ter achado que ali conseguia passar. Fechamos aquela pequena volta na forma do algarismo 9, regressamos à estrada principal e daí até à capela.

Pelo caminho fui reparando nas casas desocupadas, algumas de quem conheci os donos, nos pilares de um palheiro feitos em tijolo de burro emalhetado, em duas colchas penduradas à janela mostrando devoção e querendo honrar a procissão, na verdura espalhada pelo chão e fui ouvindo os reparos ditos em alta voz sobre a velocidade da marcha.

Oh Adélia vai mais devagar! Olha que a Nossa Senhora ainda não saiu da Capela e já tens a volta quase feita, mulher. Parece que vais carregada com o andor dos bolos. Avé, avéee… Olha que com este vento a bandeira também não é fácil de segurar, pá. Nantinportes. Oh mor, tens de olhar para trás e andar mais devagar. Oh nina, puxa o cordel da bandeira pa isto não se imbrulhar.

Chegados à capela e aliviados os ombros que transportavam os andores dos bolos e da Nossa Senhora da Piedade, o Padre António sugeriu que, face à dificuldade em arranjar quem organizasse a festa, no próximo ano se constituísse uma comissão com os habitantes com 25, 35, 45, 55 e 65 anos. Foi apenas uma ideia e desafiou a que todos pensassem nisso, que depois iriam reunir para saber o que se deveria fazer.

Antes de terminar a celebração pediu uma salva de palmas a Nossa Senhora e depois, sempre sorridente, anunciou que lá fora havia filhoses, café da avó e cervejas.

Já cá fora de novo, comprei um bolo de ferradura, troquei cumprimentos e umas agradáveis banalidades com alguns conhecidos, e regressei para casa com a bandeira de São Miguel.

No próximo Domingo, na festa do Juncal em honra de São Miguel Arcanjo, se a tradição se cumprir, todas as bandeiras de todos os lugares da freguesia farão parte da procissão. Para além do estremecimento interior provocado pelas sucessivas salvas de foguetes e morteiros, que disputam o espectro sonoro com a música da Filarmónica, é sempre uma coisa bonita de ser vista.

Definitivamente, o mundo fora das metrópoles é uma reserva de civilização.

A tristeza

Paulo Sousa, 11.08.22

A Emigração foi o assunto do Contra-Corrente da segunda-feira passada na Rádio Observador. Não apenas a emigração dos anos 60 e 70, mas também a emigração da chamada “geração mais bem preparada de sempre”. Além do enquadramento do tema feito pela sempre acutilante Helena Matos, ouviram-se vários relatos contados na primeira pessoa. É muito diferente a situação de quem pretende ter uma experiência internacional para valorização pessoal e aqueles que a certa altura no programa são descritos como sendo refugiados económicos. Nestes casos, ninguém emigra de ânimo leve e foram vários os participantes que assumem a perda, o corte e o desenraizamento, mas esse é o custo para os que ambicionam sair de casa dos seus pais e a ter um plano de vida.

Foram diversos os pensamentos que me cruzaram o espírito enquanto ouvia este programa, mas o que se sobrepôs foi a tristeza pela incapacidade do país em se governar, em zelar pelos seus.

E se nos media nacionais a silly season costuma coincidir com os meses de Verão, a realidade continua a pairar e a dar sinal de si. Ao contrário do que aconteceu durante o período em que fomos intervencionados pela Troika (continuo à espera de uma explicação sobre o motivo que levou o governo socialista de então a ter pedido ajuda), os partos nas ambulâncias já não abrem os telejornais. Agora, só lá pelo minuto 20 ou 28 dos noticiários são abordados os bebés que morrem por falta da normal assistência médica e hospitalar. A mortalidade materna aumentou significativamente, mas isso passou a ter apenas uma importância relativa. A abundância das queixas desta natureza poderia resultar de um grande aumento da natalidade, mas infelizmente além de o país ter bebés insuficientes, ainda se dá ao luxo de não os estimar.

Os media mais gelatinosos sabem bem que quem se mete com o PS leva. Confirmando a teoria evolucionista de Darwin, segundo a qual só quem se adapta pode sobreviver, já passaram a noticiar os serviços médicos que ainda funcionam. Como tudo é muito Simplex e Modernex, o SNS até disponibiliza esta informação on-line. Grande pinta.

O Expresso noticiou no passado fim-de-semana o disparo da mortalidade em Portugal. As estimativas relativas ao primeiro semestre de 2022 foram ultrapassadas em mais de 5.000 óbitos. Os especialistas ouvidos afirmam que o envelhecimento da população já estava considerado nessas mesmas estimativas e as mortes por Covid justificam apenas uma pequena parcela do total. Algo que importa entender está a escapar ao escrutínio político.

Também sobre este tema, João Miguel Tavares no Público acrescenta ainda que as bases de dados públicas, que permitiriam estudar a evolução da mortalidade, estão a ser alvo de um meticuloso tratamento pelos seus responsáveis que impede que se cheguem a conclusões claras.

Entretanto, soubemos que Sérgio Figueiredo, ex-director da TVI, foi contratado por ajuste directo pelo Ministério das Finanças. Podemos desligar esta contratação do facto de o actual ministro das Finanças ter sido remunerado até há pouco tempo como comentador nesse mesmo canal, mas para isso temos de fazer muita força. Sabemos também que Sérgio Figueiredo é amigo da maior referência ética do PS e isso é apenas mais uma coincidência.

Os empresários portugueses são acusados de serem atrasados e incultos, mas a realidade mostra-nos que a mais elevada taxa de IRC dos países europeus da OCDE é afinal um custo que eles têm de suportar para estarem livres de concorrência. Assim, sem investimento estrangeiro e sem a entrada de novos operadores, não têm de progredir, não têm de melhorar os seus métodos nem a qualidade da sua gestão. Também não têm de competir pela mão-de-obra pois enquanto os seus trabalhadores não decidirem emigrar, não terão mais ninguém que venha do exterior para lhe oferecer um salário mais alto.

Um em cada cinco de nós vive na pobreza e ao mesmo tempo sabemos que os patrícios que estão bem estacionados na pirâmide do estado, que vivem de rendas e não da riqueza que não produzem, não toleram qualquer reforma ou mudança. Perante a evidência gritante dos factos que aqui muito resumidamente enumero, todos eles transportam consigo, bem memorizadas e na ponta da língua, uma lista de ditos e esconjuros a que recorrem amiúde. Isto está mal por causa do Passos, da direita, das gasolineiras, da pandemia, dos privados, dos liberais, da guerra, tudo serve. Mas a falência evidente dos serviços do estado faz com que apenas os lunáticos fervorosos e os que confundem a realidade com aquilo que observam a partir do seu umbigo, ainda acreditem que está tudo óptimo.

Quem quiser desligar tudo isto dos números referentes ao consumo de psicofármacos, que o faça, mas para mim esse é apenas mais um indicador do nosso tremendo insucesso social deste início de século.

É tudo demasiado triste.

Rir para não chorar

Paulo Sousa, 11.07.22

Durante uma breve ausência estival, circulei por diversas zonas do país e tive a oportunidade de continuar a acumular a recolha de detalhes relativos a algumas das nossas excentricidades.

Assim, algures neste rectângulo onde acaba a Europa, deparei-me com um divertimento muito procurado pela miudagem e que consiste numa estrutura que sobe e desce e que, graças a uns elásticos especiais, permite que os seus utilizadores saltem em cima de uma cama-elástica até uma altura considerável.

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As filas chegam a ser extensas e o tempo que cada freguês tem para saltar depende do número de pessoas que está à espera. Se a fila for longa o tempo de uso vai diminuindo, e vice-versa.

Não duvido que as regras da ASAE tenham sido imaginadas com os melhores dos propósitos, mas, não sofrêssemos todos da mácula que resulta de sermos humanos, e, pior ainda, portugueses, essas regras rapidamente começaram a sofrer de incoerências que resultam da nossa dificuldade em encontrar um equilíbrio entre a especificidade que os fiscais e os cidadãos necessitam e a diversidade com que a realidade contra-ataca.

Na base deste equipamento, que segundo o seu responsável destina-se a pessoas com menos de 20 quilogramas, está afixada a seguinte informação:

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Não irei aqui debruçar-me sobre cada uma das frases ou dos pictogramas, mas apenas sobre a proximidade que toda esta parafernália tem com os escapulários, as pagelas com imagens de santos e beatos, com as velas acesas em devoção ou até mesmo como a “protecção de campo magnético” do episódio do Sr. Tobias dos Gato Fedorento.

Talvez algum zeloso funcionário tenha exigido tais avisos, ou talvez não seja mais do que um “não vá o diabo tecê-las”, o que é certo é que se a ASAE quiser multar terá de ir procurar outra não-conformidade, e se o eu intuito for mesmo esse, sacar uma coima, então o empresário só se safa dela se conhecer a pessoa certa.

A alienação

Paulo Sousa, 03.06.22

Ouvimos diariamente os auto-elogios vomitados pelos nossos governantes sobre as maravilhas do estado do SNS, seguidos dos hossanas em pagamento pela comunicação social. Ao mesmo tempo todos os dias tropeçamos na evidência da sua incapacidade em acudir às necessidades dos portugueses. São os atrasos nas consultas, nas cirurgias, nos diagnósticos e nos tratamentos. A mortalidade não-Covid tem sido estoicamente ignorada por todos os que defendem a situação.

À minha volta, são vários os casos que confirmam a miséria a que nos deixamos chegar. Estados oncológicos tardiamente diagnosticados, radioterapias consecutivamente adiadas ao longo de vários meses, falta de médicos e de consultas que acabam por alimentar idas recorrentes à medicina privada, e cada vez mais, a contratação de seguros de saúde.

Soube ontem também que pela primeira vez em 40 anos morreram mais de 10.000 portugueses durante o mês de Maio.

Também ontem foi o Hospital de S. João que suspendeu as ecografias do segundo trimestre a grávidas, devido à diminuição do número de médicos. Os exemplos nunca mais acabam.

Na educação, ouvi há dias um aluno do 12º que teve a classificação de 4,5 em 20, em dois testes consecutivos a Física, a garantir que irá ter 10 no final do ano. Aqui perto há uma escola pública com 17 funcionários administrativos, vizinha de uma outra, de contrato de associação, que para um universo escolar quase idêntico, consegue funcionar com 3. A mais que avisada falta de professores em curso já está a acontecer e irá agravar-se.

Entretanto o Ministro da Educação anuncia, feliz, que o número de alunos que chumbaram de ano, que na novilíngua se diz “foram retidos”, foi dos mais baixos de sempre, assumindo na entrelinhas que a redução de conhecimentos adquiridos na escola é uma das consequências das políticas da governação socialista.

A dívida pública em 2015, ano em que António se tornou PM, era de 235 mil milhões e em 2022, mesmo com todos os sucessos que a Comunicação Social replica dos spins socialistas, esse valor ultrapassará os 270 mil milhões.

Nada de bom pode resultar desta combinação de factos.

O país vive desligado da realidade. A vitória do PS nas últimas legislativas, e por maioria absoluta, foi mais uma manifestação dessa alienação. Votou-se no PS com a convicção de quem quer calar os alertas, as recomendações e os críticos. Isto podia estar bem pior e o que temos, mesmo não sendo nosso, chega-nos bem. Quem vier depois que feche a porta.

Um dia, no futuro, os nossos descendentes irão ficar incrédulos como é que o país se deixou enredar nesta armadilha.

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Portugueses em Cuxhaven

Cristina Torrão, 26.05.22

Por vezes, há coincidências interessantes. Tinha eu acabado de publicar (aqui e aqui) fotografias de Cuxhaven, quando o Jornal Católico da Diocese de Hildesheim (do qual sou assinante) publicou uma reportagem sobre os portugueses daquela cidade costeira, na sua edição nº 19, do passado dia 15 de Maio.

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Em Cuxhaven, vivem cidadãos de 112 nações diferentes e a comunidade mais numerosa é, precisamente, a portuguesa, com cerca de 1300 pessoas. Estamos no Norte da Alemanha, de maioria Protestante, de maneira que os portugueses representam uma parte importante da paróquia católica de Santa Maria.

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Duas portuguesas mereceram destaque, nesta reportagem. Maria Santos é, há vários anos, a coordenadora da comunidade portuguesa da paróquia. No dia da visita do jornal, Maria Santos não tinha mãos a medir, pois as crianças da primeira comunhão treinavam para o grande dia e, a 14 de Maio, como todos os anos, far-se-ia a procissão de Nossa Senhora de Fátima.

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A outra senhora destacada é Áuria da Cunha, em Cuxhaven desde 1969. Tinha 22 anos, quando lá chegou, a fim de trabalhar na indústria pesqueira, como muitas outros portugueses e portuguesas. A missa na língua de Camões realiza-se todos os sábados, às 16h 15m. Áuria da Cunha chega sempre à igreja meia hora mais cedo, a fim de ter tempo de rezar primeiro o terço, na companhia de algumas outras pessoas.

Na verdade, trata-se de uma missa só em parte portuguesa, já que, à falta de um padre da nossa terra, é rezada em alemão, enquanto a comunidade responde em português. Dois padres alternam-se na celebração: um alemão e um polaco. Este último, de nome Dabrowski, começou a aprender português há cerca de dois anos e reza já parte da cerimónia na nossa língua. «Vejo grande alegria e agradecimento nos olhos da comunidade, quando o faço», assegura o clérigo polaco.

As Associações portuguesas, que nasceram como cogumelos neste país nos anos 1960 e 70, há muito que agonizam, por falta de interesse das novas gerações. Já as paróquias católicas continuam a ser um grande amparo para os portugueses emigrados. Porque, como diz Maria Santos, «sem Igreja, nada funciona» (ohne Kirche geht es nicht).

Judiarias

Ana CB, 04.05.22

 

Sou mais de pensar no futuro do que no passado, mas nas minhas viagens gosto de visitar bairros antigos. Presto atenção particular à arquitectura, sobretudo quando não está “maquilhada” pelas falsas reconstituições que tantas vezes alteram o carácter original dos lugares (assunto com pano para mangas, que poderá ser motivo para outro artigo). Estes bairros são muitas vezes a linha que me conduz a conhecer um pouco da história de cada lugar, frequentemente a posteriori, e também frequentemente para tentar separar o trigo do joio, ou seja, o que é facto histórico verificado daquilo que é efabulação ou exagero para chamariz turístico. Nos últimos anos, o acaso tem levado os meus passos até algumas antigas judiarias em cidades e vilas europeias, e tenho vindo a interessar-me progressivamente por estes bairros, que de uma forma geral mantêm algumas das suas características originais e terão sido menos adulterados pelos modismos da passagem dos séculos.

 

HERVÁS

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Diz a publicidade turística que o seu bairro judeu é um dos mais interessantes e melhor conservados em Espanha. Para mim, foi um dos que mais gostei de visitar até hoje. Hervás fica a pouco mais de 100 km da nossa fronteira, entre Plasencia e Salamanca, entre florestas de castanheiros e carvalhos na região do vale do rio Ambroz. A vila tem as suas raízes em finais do século XII, quando as terras foram doadas por Afonso VIII a monges templários, que ali erigiram uma ermida e apoiaram o povoamento local, submetido à autoridade do Duque de Béjar.

 

Em 1391, estalou em Sevilha uma revolta contra a população judaica, que se alastrou depois a várias cidades dos reinos de Castela, Aragão e Navarra. A Europa sofria os efeitos devastadores da peste de 1348, e no imaginário colectivo havia que atribuir a tragédia a alguém. Ferrán Martínez, arcediago de Écija, foi o grande instigador da revolta, no culminar de vários anos de pregação antijudaica, e os seus seguidores ficaram conhecidos como “matadores de judeus”. Para escaparem aos assassinatos em massa, muitos judeus foram obrigados a assumir a fé católica, e outros fugiram para localidades mais pequenas, onde a convivência religiosa era pacífica e os senhores feudais asseguravam alguma protecção aos habitantes das suas terras. As primeiras referências documentadas sobre a presença de judeus em Hervás datam de 1464, mas é provável que algumas famílias já se tivessem instalado na localidade em datas anteriores.

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Em 1492, quando finalmente unificaram o Reino de Espanha, os Reis Católicos decretaram a expulsão de todos os judeus. Das 45 famílias judaicas que viviam em Hervás, apenas 14 decidiram ficar na localidade, convertendo-se ao cristianismo; as restantes foram conduzidas à fronteira com Portugal, onde se refugiaram. No entanto, vários desses exilados regressaram a Hervás dois anos mais tarde, beneficiando de um édito régio que conferia uma carta de segurança aos conversos castelhanos que quisessem retornar ao reino, garantindo-lhes também formas de recuperarem os seus bens. Uma das pessoas regressadas foi o rabino Samuel, que ingressou na confraria de São Gervásio e pôde assim continuar dissimuladamente a apoiar a prática judaísta e a coesão desta comunidade em Hervás. Apesar de tudo, a aceitação de cristãos-novos na vida da localidade permaneceu difícil e demorada, com estatutos discriminatórios e perseguições que levaram alguns deles à fogueira até que, em 1661, a duquesa D. Teresa Sarmiento de la Cerda aboliu as discriminações impostas e a integração das famílias de cristãos-novos pôde finalmente prosseguir sem grandes entraves.

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O bairro judeu de Hervás começa junto ao rio Ambroz, na ponte medieval da Fonte Chiquita, que é o monumento mais antigo da vila. Vai depois subindo suavemente por ruas estreitas e sinuosas (a Callejilla tem apenas 55 cm de largura!), cheias de recantos e becos, até ao local simplesmente conhecido como La Plaza, uma confluência de ruas marcada por uma oliveira e uns bancos de jardim. As placas toponímicas com uma estrela de David ajudam a identificar as ruas do bairro, que foi declarado conjunto histórico-artístico em 1969 e alvo de uma reabilitação profunda nos anos 90, na qual os próprios habitantes também se empenharam. A arquitectura das casas é tradicional, com paredes de pedra e adobe ou taipa, e tabique em madeira de castanheiro – construções irregulares que ignoram a simetria, com dois ou três pisos, o último sendo muitas vezes saliente ou até mesmo unido à casa do lado oposto da rua. As paredes estão ocasionalmente cobertas por telhas árabes invertidas, colocadas na vertical, ou por pranchas de madeira em sobreposição – soluções de isolamento térmico pensadas para aligeirar os rigores do calor estival e os ventos frios que sopram do Pico Pinajarro. Cabos eléctricos e tubos metálicos convivem com varandins de ferro forjado e vasos de flores, e as portas e janelas ainda não sucumbiram à tentação do alumínio.

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Para capitalizar o potencial turístico da judiaria de Hervás, desde 1997 que se realiza em inícios de Julho a festa “Los Conversos”. Há exposições, música, degustações e uma recriação histórica teatralizada da vida na localidade em tempos medievais e de eventos marcantes na história da sua comunidade.

 

 

BOLONHA

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A história da comunidade judaica em Bolonha remonta à segunda metade do século XIV, quando cerca de quinze famílias se instalaram na cidade. Apesar de verem as suas actividades continuamente controladas e das limitações que lhes foram sendo impostas ao longo dos anos, e envolvida sobretudo no comércio da seda e da joalharia, nos empréstimos bancários e na medicina, esta comunidade prosperou de tal forma que em meados do século XVI as sinagogas já eram em número de onze – mais do que as existentes em Roma – e Bolonha tinha uma prestigiada academia rabínica. Famosas eram também as oficinas gráficas da cidade, onde em 1482 foi impressa a primeira versão física do Pentateuco com comentários do Rabi Shlomo Yitzhaki, mais conhecido como Rashi.

 

Em 1555, um decreto do Papa Paulo IV ordenou que os judeus fossem separados do resto da população, e em Bolonha ficaram confinados a um bairro definido por muros e por portões que eram abertos quando o sol nascia (para que os seus habitantes pudessem ir trabalhar noutros locais, pois a segregação religiosa tinha o cuidado de não abranger as suas actividades, muito importantes para a cidade), fechados ao anoitecer, e constantemente vigiados. Além disso, eram obrigados a usar uma marca distintiva, para serem facilmente identificados, e apenas foi permitido que uma sinagoga continuasse em funcionamento. Uma das entradas deste gueto ficava na Via de’ Giudei, uma rua estreitinha e sombria que principia na Piazza di Porta Ravegnana, onde se erguem as famosas Duas Torres de Bolonha (durante o período fascista e anti-semita em Itália, a Via de’ Giudei passou a chamar-se precisamente Via delle Due Torri); outra encontrava-se no cruzamento da Via del Carro com a Via Zamboni; e uma terceira entrada fazia-se pelo arco que liga a Via Guglielmo Oberdan ao Vicolo Mandria.

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A criação do gueto judaico de Bolonha suscitou óbvia agitação e alguma resistência, e apesar de ter sido escolhida a zona da cidade onde a maioria das famílias já vivia, muitas outras foram forçadas a vender as suas casas e mudar-se. Por outro lado, cristãos que viviam dentro do perímetro definido para o gueto tiveram de sair dos seus domínios e arrendá-las aos novos habitantes (os judeus passaram a não estar autorizados a possuírem propriedades). Tendo uma área disponível tão pequena, a comunidade aproveitou todo o espaço o melhor que podia, construindo em altura e até mesmo por cima das ruas, num puzzle tridimensional de que hoje ainda restam muitos vestígios. A espinha dorsal do bairro é a Via dell’Inferno, onde até 1943 existiu uma sinagoga (no actual número 16), que foi destruída pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. O nome da rua não se devia a nenhum motivo religioso: resultou de uma mera associação do fogo às chamas do inferno, pois antes da criação do gueto existiam na rua várias oficinas de ferreiro.

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Uma nova bula pontificial expulsou em 1569 os judeus que viviam em quase todos os territórios directamente governados pela Igreja Católica Romana. Readmitidos por Bolonha em 1586, voltaram a ser banidos sete anos depois, desta vez por mais de dois séculos, até à chegada dos franceses de Bonaparte em 1796, que libertou a cidade da influência papal.

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O traçado do gueto judeu de Bolonha permanece bem identificável na actualidade, definido por um labirinto de becos e ruelas que se entrelaçam, arcadas e passagens suspensas, casas muito próximas umas das outras, com janelas pequenas e várias portas (algumas delas falsas, estando as entradas verdadeiras mais dissimuladas), varandas que se misturam com semi-arcadas, e onde a pedra e os grafitis alternam com as cores soalheiras das casas renovadas, que têm portadas garridas nas janelas e plantas que se derramam pelas paredes abaixo.

 

 

BUDAPESTE

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A presença judaica na área de Budapeste data do período romano, e há documentos que atestam a sua importância e prosperidade tanto na Idade Média como durante o tempo em que a região pertenceu ao Império Otomano. No entanto, quando em 1686 uma coligação de exércitos cristãos reconquistou Buda, a sinagoga foi incendiada e todas as pessoas que nela se encontravam presentes pereceram. A comunidade judaica que vivia a oeste do Danúbio foi praticamente dizimada.

 

No século XVIII, começou a nascer em Pest um novo bairro judeu, que corresponde actualmente à metade interior do Erzsébetváros (o Distrito VII), dentro do perímetro definido pela rua Király, avenida Erzsébet, rua Dohány e avenida Károly. Em 1867, os judeus húngaros passaram a ter direitos civis idênticos aos da restante população, e a comunidade floresceu. Budapeste estava em rápido crescimento urbano e económico, atraindo cada vez mais habitantes, que em 1910 já ultrapassavam o milhão – e quase um quarto das pessoas professavam a fé judaica. O bairro judeu era uma área comercial e residencial vibrante, e constituía o núcleo cultural e religioso da comunidade, contando com três sinagogas.

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Depois da Primeira Guerra, o Império Austro-Húngaro desintegrou-se e a Hungria perdeu dois terços do território que detinha antes do conflito e mais de metade da sua população. A instabilidade económica crescente levou ao descontentamento social e a uma cada vez maior animosidade contra os judeus, que se transformaram em alvo preferido dos líderes húngaros, em especial depois da subida ao poder de Miklós Horthy, que instaurou um regime de extrema-direita influenciado pelas políticas anti-semitas da Alemanha nazi. Após a ocupação alemã em Março de 1944, as autoridades húngaras ordenaram que o bairro judeu fosse transformado em gueto e completamente separado do exterior. Em apenas 56 dias, muitos milhares de judeus foram deportados para os campos da morte na Polónia, e o partido ultranacionalista NYKP, que esteve no poder entre 15 de Outubro de 1944 e 28 de Março de 1945, matou mais de dez mil. Dos que restaram, a maioria morreu de fome, doença ou hipotermia nas ruas do gueto.

 

A chegada do exército soviético em Janeiro de 1945 libertou o gueto e os seus poucos sobreviventes, mas durante a era comunista a população do bairro foi diminuindo, atraída pela modernidade dos distritos mais periféricos de Budapeste. O declínio e as adulterações imobiliárias foram alterando o carácter original da judiaria, e a gentrificação ocorrida nos últimos vinte anos deu-lhe um rumo diferente. Permanecem as três sinagogas, das quais a da rua Dohány é a mais frequentada e também a mais famosa, por ser a maior da Europa. E é de facto um edifício belíssimo e impressionante, construído em meados do século XIX em estilo neo-românico combinado com elementos mouriscos e bizantinos. Permanece também o traçado meio irregular das ruas densamente construídas, onde ainda predominam os edifícios de arquitectura historicista, as suas fachadas debruadas ou forradas a pedra, com grandes janelas e elementos ornamentais ilustrativos de todos os “neos” – neoclássicos, neogóticos, neobarrocos.

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As cicatrizes dos acontecimentos da Segunda Grande Guerra ainda são visíveis actualmente, como também o são os danos provocados pelas décadas de abandono a que o bairro foi votado. E no entanto, qual fénix renascida das cinzas, é precisamente devido à sua degradação que este antigo bairro judeu é agora um dos locais mais trendy da Europa, elevando o Erzsébetváros à categoria de distrito mais populoso de Budapeste. As rendas baixas de edifícios dilapidados em ruas negligenciadas começaram a atrair, nos primeiros anos deste século, uma população jovem e empreendedora, pese embora com poucos meios financeiros para investir. O primeiro caso de sucesso foi o Szimpla Kert, ícone dos chamados “ruin bars” que são agora uma espécie de imagem de marca da cidade. O que começou por ser uma tentativa de salvar da demolição um complexo que em tempos abrigou habitações e uma fábrica, tornou-se primeiro no local mais cool de Budapeste, frequentado pela juventude liberal e vanguardista, e depois numa atracção turística que é obrigatório visitar. O espaço degradado foi sendo progressivamente preenchido com toda a espécie de móveis velhos, objectos mais ou menos estranhos, bugigangas, plantas, luzes e tudo o que se possa imaginar, funcionando simultaneamente como café e bar, local de espectáculos, festas e eventos, mercado de produtos agrícolas ao domingo de manhã, e loja de artigos kitsch. Cada sala é um mundo diferente, há escadas e recantos, grafitis nas paredes, cores vibrantes, banheiras que são assentos, bicicletas penduradas no tecto, manequins, e até um carro. Uma miscelânea caótica que atordoa os sentidos à noite, quando o barulho das pessoas e da música alta nem nos deixa pensar, mas é surpreendentemente convidativa durante o dia, quando o lugar está tranquilo e quase vazio. Duas faces de uma mesma moeda.

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Atrás do sucesso do Szimpla Kert vieram lojas, ateliers, restaurantes com comida de todo o mundo, mais bares, e muita arte de rua. Na nova vida deste bairro convivem o antigo e o novo, judeus e gentios, habitantes e turistas, a tradição e o vanguardismo. Claro que nem tudo são vantagens, e como em tantos centros históricos de outras cidades, a popularidade e o turismo estão a fazer subir os preços das habitações, e a afastar os residentes para outros distritos mais baratos e mais tranquilos. É mais uma fase na história do bairro judeu de Budapeste.

 

 

CASTELO DE VIDE

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Embora não haja certezas quanto às origens do bairro judeu de Castelo de Vide, há indícios de que as primeiras famílias judias se tenham instalado na localidade em princípios do século XIV. Apesar da segregação existente, que tinha como vantagem fortalecer laços dentro da própria comunidade e manter inalterados os seus hábitos religiosos e culturais, a convivência entre cristãos e judeus era pacífica e mutuamente benéfica. Por tradição, além da sua vocação mercantil, a comunidade judaica apostava no estudo e no desenvolvimento intelectual, razão pela qual muitos dos seus elementos desempenhavam funções socialmente importantes, fosse como físicos, botânicos, professores, prestamistas ou homens de leis. Foi aqui que nasceu Garcia da Orta, filho de judeus conversos, que mais tarde estudou medicina na Universidade de Salamanca e exerceu esta profissão em Goa a partir de 1534.

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O número de famílias judaicas em Castelo de Vide cresceu sobretudo após 1492, ano em que os Reis Católicos de Espanha ordenaram a expulsão de todos os judeus que viviam nos seus territórios, muitos dos quais se refugiaram em Portugal, onde ainda podiam professar a sua religião sem incómodos de maior. Crê-se que mais de cinco mil judeus vindos de Espanha tenham passado por ali, e bastantes terão ficado. No entanto, o Portugal como refúgio tranquilo foi sol de pouca dura. A negociação do casamento de D. Manuel I com Isabel de Aragão, filha dos Reis Católicos, levou a que o nosso rei fosse pressionado a, também ele, expulsar do reino quem não se convertesse ao catolicismo, o que acabou por suceder em 1496. Quarenta anos mais tarde foi criado em Portugal o Tribunal da Inquisição, marco negro na história da convivência religiosa no nosso país, onde se iniciou um terrível período de perseguição aos cristãos-novos que só terminaria em 1767 com a reforma pombalina e com o fim da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos.

 

Apesar das conversões forçadas, a prática do judaísmo nunca desapareceu completamente em Portugal, e Castelo de Vide testemunha bem esse facto. Nas ruas do antigo bairro judeu, entretanto sujeito a modificações e recuperações, ainda se notam elementos característicos do tipo de ocupação que tiveram, e que continuaram preservados ao longo dos séculos. A judiaria desenvolveu-se na encosta nascente da vila, a partir das muralhas do castelo. O largo onde fica a Fonte da Vila é o centro radial deste bairro – e a fonte é, além disso, o ex-libris de Castelo de Vide. Aproveitando as águas de uma nascente, a fonte terá sido ampliada ao longo dos tempos, datando do século XVI o essencial da forma que lhe conhecemos hoje: rectangular, ornamentada e com uma cobertura piramidal suportada por colunas de mármore. Deste largo saem as ruas da Fonte, do Arçário, do Mestre Jorge e a rua Nova, que ligam a várias outras num padrão sinuoso e irregular. Nas ruas empedradas que levam ao Castelo, as casas têm habitualmente duas portas no piso térreo: uma daria acesso às escadas que levavam ao piso superior, de habitação, e a outra seria a da loja onde era desenvolvida a actividade comercial da família. Muitas destas casas ainda conservam os pórticos ogivais de granito, alguns com gravações nas impostas que suportam o arco, que podem ser símbolos profissionais ou pequenos entalhes com cerca de 10 cm, característicos do culto judaico, que têm o nome de “mezuzot”.

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Na esquina da Rua da Fonte com a Rua da Judiaria encontramos o edifício da antiga Sinagoga, que agora é um museu. As sondagens arqueológicas efectuadas durante as obras de recuperação revelaram que o edifício teve períodos de ocupação distintos desde pelo menos o século XIV, com uma primeira fase até ao século XVI e uma outra mais tardia. Crê-se que no piso superior se encontraria o Tabernáculo e um espaço dedicado ao ensino. Escavados na base do piso inferior descobriram-se três silos, que também apresentam indícios de terem sido usados em épocas diferentes. Terá passado a servir de residência particular no século XVIII, e foi reconstruída em 1972 de acordo com a sua traça original.

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Deste passado, mantém-se na memória colectiva a importância da celebração da Páscoa em Castelo de Vide. Da prática do judaísmo nesta vila foi herdada a bênção dos borregos, cujo abate posterior tem semelhanças com o ritual judaico tradicional.

 

***

 

Estes são apenas quatro exemplos de bairros judeus, entre os muitos que estão bem identificados em vários países da Europa. Como tudo o que envolve reconstituição histórica secular, há sempre alguma (por vezes bastante) controvérsia em torno destes bairros. Mas isso não lhes retira o encanto, nem afecta a minha capacidade de imperfeitamente imaginar como terá sido o dia-a-dia das pessoas que ali viveram ao longo dos tempos, e que outras histórias interessantes aquelas paredes contariam se pudessem falar.

Foi o medo que nos trouxe até aqui

Paulo Sousa, 17.02.22

Poucas sociedades sabem o que querem. Pelo contrário, sabem muito melhor o que não querem. As emoções toldam a razão e quem aspira a liderar uma sociedade, mais do que mostrar razoabilidade, bom sendo e visão de futuro, o que necessita mesmo é de um discurso que gere emoções. Quanto mais emocional for a sociedade, e por exclusão de partes menos racional, mais esta regra se aplica.

O medo é a emoção que melhor explica a recente maioria absoluta do PS. Os portugueses tiveram medo que o PSD ficasse refém do Chega, tiveram medo que as reformas que Rio pretendia fazer exigissem cortes como no tempo da Troika e tiveram medo das mudanças que sabem que com PS nunca ocorrerão. É certo que também não queriam uma maioria absoluta, fosse de que partido fosse, mas foi exactamente a soma de todos os medos que a explica. Sabendo que este seria o resultado, estou certo que muitos dos que votaram PS não o fariam.

Há muitos anos que os portugueses não votam movidos por emoções positivas. Lembro-me do tempo do cavaquismo e do entusiasmo de sentir na algibeira o real crescimento económico. O ânimo nacional pelo trajecto conseguido desde a instauração da democracia deixava-nos orgulhosos. Esse tempo teve o seu momento mais alto na Expo98 e depois disso tudo começou a arrefecer. No optimismo nacional, o euro2004 já não foi mais que um Verão de São Martinho.

Depois desses tempos, os portugueses passaram a decidir movidos por sentimentos negativos. Quiseram castigar os excessos do cavaquismo, quiseram castigar Guterres por ter desistido, Durão Barroso por ter emigrado, Manuela Ferreira Leite por ser cavaquista e austera, e Sócrates por nos ter levado à falência. Estranhamente votaram mais tarde maioritariamente na coligação PAF, mas apenas porque ainda não se tinham esquecido da bancarrota. Depois disso os portugueses votaram contra a austeridade e desta vez votaram com medo do Chega e das reformas.

E assim vamos andando. Faltos de esperança e de ambição.

Olhando para qualquer um dos candidatos que possam a breve prazo vir a liderar o PSD, o ainda maior partido da chamada direita portuguesa, não antevejo em nenhum deles a capacidade de dar voz e corpo a uma mensagem positiva, a uma emoção mobilizadora que não seja contra algo. Daqui a quatro anos, quase cinco, talvez possa ser apelativo querer acabar com os excessos da maioria absoluta do PS, mas apesar do tempo se mover com demasiada rapidez, ainda falta muito para chegar a esse dia e o próximo líder antes disso terá de lutar para sobreviver a uma longa travessia do deserto. No PSD o sangue novo é escasso. O carreirismo jotista só fica atrás do do PS e apenas pela incapacidade de chegar ao poder.

Carlos Moedas será actualmente o único possível líder dos sociais-democratas capaz de criar uma mensagem positiva, mas estou certo que cumprirá o seu mandato à frente da Câmara Municipal, sendo que pela natureza da política autárquica um mandato é sempre insuficiente para deixar um legado.

Tal como vimos no passado dia 30, sem uma alternativa pela positiva, o PS e a sua máquina de comunicação com tentáculos em quase todos os órgãos de informação, é capaz de resistir às mais dolorosas tragédias como as dos incêndios florestais, a assaltos a instalações militares, a um governo quase siamês do de Sócrates, ao nepotismo, aos clãs familiares de poder, ao caso Raríssimas, ao assassinato de um cidadão às mãos do SEF, às infindáveis trapalhadas e literais atropelos de Eduardo Cabrita, ao colapso do SNS durante a pandemia, à emigração continua da geração com a melhor formação académica de sempre, à domesticação das instituições que deveriam servir de contra-peso ao poder e que pouco a pouco estão todas nas mãos dos boys e girls socialistas. A eles tudo lhe é perdoado, tudo é relativizado.

Ainda antes da vergonhosa trapalhada com os votos dos emigrantes, sobre o que a Cristina e o jpt já aqui postaram, a saúde da nossa democracia já tinha descido vários pontos nos rankings internacionais. Não será esta maioria absoluta que irá inverter a tendência. Antes pelo contrário.

As ondas de choque desta incompetência chegaram agora ao Tribunal Constitucional, que ordenou a repetição do acto eleitoral no círculo da Europa. O mais previsível é que venha a verificar-se uma enorme abstenção. Os nomes de quem está por detrás deste triste episódio não estão certamente guardados nos paióis de Tancos, pelo que seria importante que fossem tornados públicos. Não que o envolvimento nesta vergonha os impeça de virem a assumir relevantes cargos públicos, mas pelo menos para quando isso acontecer entendermos que são nestes detalhes que se alimentam os partidos de protesto. Já aqui escrevi também sobre o benefício que o PS retira do vigor do Chega, e de como a relação entre estes dois partidos pode ser descrita, recorrendo ao conceito de externalidade positiva usada em microeconomia. Ambos ganham com a existência do outro, tal como no exemplo académico do pomar que tem uma colónia de abelhas na vizinhança.

Não preciso de dizer o quanto desprezo a agremiação de André Ventura, mas para encerrar este capítulo só faltava agora era que fosse o terceiro partido mais votado a conseguir um dos dois mandatos ainda por apurar. Isso seria um hino aos sentimentos negativos que nos trouxeram até aqui.