Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Pequeninos, felizes e eternamente adiados

Sérgio de Almeida Correia, 10.08.21

Uma das características do regime anterior era o culto da pequenez, do isolamento, do orgulhosamente sós. Passados quase 50 anos sobre o golpe militar que permitiu a instauração da democracia verifica-se que nos nossos dirigentes a mentalidade não mudou. E tanto faz ser o veterano Presidente da República como o novato verborreico da Secretaria de Estado do Desporto.

Com excepção do Presidente do Comité Olímpico, que foi bem mais comedido e realista nas suas palavras, certamente tendo presente que as metas estabelecidas eram pouco ambiciosas — quanto mais modestos forem os objectivos mais fácil será transformar os mínimos alcançados num êxito retumbante —, todos aqueles que ouvi embandeiraram em arco com os resultados obtidos.

Não está em causa o esforço individual de cada um dos atletas, já que à sua medida cada um deles procurou exceder-se, dignificar a camisola do país que representa, e que a todos nos representa, e alcançar o sucesso pessoal que permitisse elevar o espírito e engrandecer o esforço colectivo.

Exultei com os resultados desportivos, e não só com os dos medalhados, mas esses resultados são acima de tudo uma consequência do esforço individual de cada um dos atletas, e do trabalho dos clubes, já que o investimento do país no desporto continua a ser sofrível.

Como sofrível é o resultado colectivo alcançado quando olho para os nossos resultados e os comparo com os dos Países Baixos (10 medalhas de ouro, 12 de prata, 14 de bronze), da Nova Zelândia (7 de ouro, 6 de prata, 7 de bronze), da Hungria (6 de ouro, 7 de prata, 7 de bronze), da Suíça (3 de ouro, 4 de prata, 6 de bronze), da Dinamarca (3 de ouro, 4 de prata, 4 de bronze), da Suécia (3 de ouro, 6 de prata), da Noruega (4 de ouro, 2 de prata, 2 de bronze),ou até da Croácia (3 de ouro, 3 de prata, 2 de bronze) ou da Bulgária (3 de ouro, 1 de prata, 3 de bronze). É evidente que ninguém de bom senso pode ficar “orgulhoso” com a nossa prestação colectiva.

E é escusado, como fez o Presidente da República, vir dizer que "[o] adiamento dos jogos, a sua realização numa cidade tão distante e com um clima tão diferente do nosso, foram dificuldades adicionais a uma preparação já de si longa e muito exigente", pois que essas dificuldades adicionais foram iguais para todos (pelo menos para os europeus).

Pior, ainda, está alguma comunicação social que num exercício de estupidificação colectiva se dedica a comparar os resultados de Portugal com os dos Estados Unidos da América ou da China para concluir que os nossos são melhores.

Enquanto entre nós a mentalidade dominante for a de nos contentarmos com os mínimos, procurando transformar num sucesso aquilo que colectivamente não passa da mediania, quando não raro do sofrível, num exercício de auto-convencimento institucional da excepcionalidade, dificilmente obteremos melhores resultados.

Mudou-se a Constituição, consolidou-se a democracia, mas a mentalidade pequenina e tacanha, de vistas curtas e à medida dos umbigos nacionais, continua a ser a mesma.

E o que é ainda mais triste de ver é que essa mentalidade não só não muda como se transmite às novas gerações e se perpetua em governantes como o secretário de Estado do Desporto.

Fosse a mentalidade do Jorge Fonseca, da Patrícia, do Pichardo, do Pimenta ou da Telma, por exemplo, como antes foi a do Lopes ou da Mota, igual à deles e continuaríamos na casa da partida à espera de melhores dias. Esses são exemplos de transcendência individual que não nos podem permitir esquecer os nossos insucessos colectivos.  

Naturalmente que o nosso atraso desportivo (e não falo do futebol ou dos desportos motorizados), como sempre, acompanha o atraso das nossas elites e o pouco aproveitamento que fizemos de todas as potencialidades da integração na União Europeia, muito em especial quando vemos o que outros que entraram muito depois de nós conseguiram.

Continuamos a puxar muito pouco por nós. A exigirmos pouco a nós próprios em termos colectivos. E ainda menos às nossas elites políticas. Só somos capazes de nos superar individualmente, seja no desporto ou na ciência. Colectivamente continuamos adiados. Eternamente adiados. E apesar de tudo felizes, e todos medalhados e contentinhos na nossa singela mediania.

Quase cinco décadas volvidas sobre Abril de 1974, é o culto da pequenez e da mediocridade que se voltam a revelar e a imperar em todo o seu esplendor nas palavras dos nossos dirigentes políticos. Um país de comendadores e conselheiros.

Que fado estuporado é o nosso.

Poder de compra

Cristina Torrão, 24.07.21

O Paulo Sousa mostrou aqui o baixíssimo poder de compra dos portugueses, em relação à gasolina. Eu faço-o hoje em relação aos testes antigénio, que estão finalmente disponíveis nos supermercados portugueses.

Bem sei que são baratos, mas convém referir que, pelo preço de 2,79 €, um alemão, que ganha duas a três vezes mais do que um português, compra testes para toda a família.

Como referi, há dias, eles custam cerca de 80 cêntimos, na Alemanha. Se estiverem em promoção, são ainda mais baratos. Quando surgiram, no início de Maio, custavam 4,99 €, mas logo houve supermercados que baixaram o preço, provocando uma reacção em cadeia, escorregando o valor por ali abaixo.

É possível que aconteça semelhante em Portugal. Pelo menos, no LIDL (cadeia de supermercados alemã), vi os testes ontem por 2,69 €. E os leitores/comentadores deste blogue, o que já experienciaram?

 

Adenda: em relação ao preço da gasolina, tenho uma opinião muito dividida. Sei que há muita gente que depende do carro, mas também há muita (talvez mais) que bem podia prescindir dele. Além disso, aqui em Macedo de Cavaleiros, há o péssimo hábito de manter o motor ligado em circunstâncias injustificáveis, como quando se vai tomar café, por exemplo, ou mesmo lanchar, ou quando se conversa com alguém. O cúmulo foi um vizinho nosso que manteve o motor do carro ligado, enquanto lavava o veículo, operação que durou cerca de quinze minutos! Considero tal atitude uma falta de respeito pelo semelhante (já nem falo do ambiente). A que propósito tenho eu de aguentar o barulho do carro do vizinho e de lhe cheirar o escape, enquanto tomo chá na minha varanda? Quando assisto a cenas destas, peço desculpa, mas penso que a gasolina ainda não é suficientemente cara.

A falta de sorte

Paulo Sousa, 28.06.21
 
“Hoje é dia de futebol, e aqui estamos todos unidos em torno do futebol e, portanto, eu não vou agora estar a falar de outros temas, porque é desconcentrar o fundamental.”
Marcelo Rebelo de Sousa, no ínicio do jogo com a Hungria em 15 de Junho de 2021

Deixamos que a falta de sorte se tornasse na última camada de pele do nosso ADN cultural. Foi por ela que ficámos repetidas vezes no lado errado da história. Os nossos governantes alimentam essa ideia e sempre que se lhes exige responsabilidades e consequências apontam sonsamente para a falta de sorte.
Assim, e mais uma vez devido à causa habitual, fomos ontem afastados do “fundamental” e relegados para a nossa vidinha cheia de coisas “secundárias”, tais como a pandemia e os seus efeitos, a estagnação económica e social, a pobreza, o marasmo e a endogamia política, o nepotismo, a dívida, a iminente subida das taxas de juro, a subserviência dos média e mais uma mão cheia de idênticas banalidades.
Os nossos políticos adoram que mergulhemos nesta anestesia colorida em que os torneios internacionais de futebol se tornaram e, quando terminam, ficam a pensar se no próximo campeonato ainda estarão no poder.
Será no Qatar e já no próximo ano. Até lá regressemos às tricas secundárias.

Porto, Portugal, República Portuguesa

Pedro Correia, 17.06.21

spring-netherlands-1140x453.jpg

 

Anteontem escrevi aqui um postal estranhando que toda a gente tenha de repente começado a chamar "Países Baixos" à Holanda - pelos vistos a mais recente palavra interdita do Índex dos novos tempos.

Esta moda inunda todo o discurso mediático, escrito e verbal. Como se dizer Holanda fosse pecado.

 

A minha perplexidade deveu-se a isto: percebi que tal designação se havia tornado proibida quase da noite para a manhã. Ao ouvir transmissões desportivas, com narradores a repetirem "Países Baixos" mais de cem vezes num simples jogo de futebol. Como não há gentílico adequado à nova terminologia e o vocábulo "holandês" está igualmente interdito, todos repetem "Países Baixos" até à náusea. Podia ser uma expressão bonita, mas não. Dificilmente haverá algo tão inadequado para designar um país, à luz do nosso imaginário onomástico.

Pus-me a pensar nesta aparente irrelevância e concluí que vivemos cada vez mais mergulhados em novos interditos e numa rede interminável de microcensuras. A tal ponto que nem damos conta. E quase sempre sem entendermos porquê.

 

Conheço vários holandeses: nunca me apercebi que sentissem o mais leve incómodo por serem designados assim. Dizem-me algumas almas mais zelosas, nesta caixa de comentários, que a mudança se justifica para evitar a confusão entre a Holanda - que é apenas uma parcela do reino neerlandês - e o Estado que faz fronteira com a Bélgica e a Alemanha.

A explicação confunde mais do que esclarece. Desde logo, o nome oficial desse país é Reino dos Países Baixos. Habitado por... holandeses. Esqueceram-se de inventar um gentílico para adequar uma coisa à outra.

Depois, se a moda pega, resta-nos concluir que andamos todos desactualizados. Pois deixemos também de chamar Suíça à Confederação Helvética - nome oficial desse país. E de chamar Grécia à República Helénica - outro nome com chancela oficial.

Os suíços serão helvéticos, os gregos serão helénicos.

E os holandeses? São... holandeses.

 

Ainda pela mesma lógica, qualquer dia Portugal deixa de se chamar Portugal. Pois deriva de Porto, que é apenas uma pequena parte de Portugal.

Portugal, aliás, não se chama Portugal. Chama-se oficialmente República Portuguesa.

Porque não haveremos então de denominá-la assim na linguagem corrente?

 

 

ADENDA: Uma palavra de merecido elogio ao Luís Freitas Lobo, que hoje, comentando em directo o jogo Holanda-Áustria na Sport TV, utilizou sempre a palavra interdita, rejeitando o Índex. Espero que não seja penalizado por isso.

De longe, muito longe

Sérgio de Almeida Correia, 10.06.21

10 de Junho, o dia do Noddy nos país dos brinquedos

Paulo Sousa, 09.06.21

Segundo o Observador, a Câmara Municipal de Lisboa enviou para a Embaixada da Federação Russa, o nome, morada e contacto telefónico dos organizadores de uma manifestação de apoio ao opositor russo Navalny.

Sendo que dois deles têm dupla nacionalidade, russa e portuguesa, o mesmo equivale a dizer que poderá ter criado um problema para os respectivos familiares que lá vivam. Os manifestantes em causa ficam também a saber que uma viagem à Rússia lhes poderá causar alguns problemas de saúde. De acordo com as ancestrais práticas russas e soviéticas, o envio para a Sibéria é reservado às(aos) respectivas(os) viúvas(os).

Confrontado com o facto consumado, Fernando Medina terá respondido inicialmente que os promotores deveriam “ter o cuidado de não facultar informações pessoais que excedam o estritamente necessário para o cumprimento dos preceitos legais indicados”. Os líderes russos são tão previsíveis a despachar empecilhos para onde eles não chateiam, como os socialistas portugueses o são a descartar responsabilidades. Há coisas que nunca mudam.

Porém, o líder do município da capital não quis deixar o assunto assim. Arregaçou as mangas e enviou um email à “Embaixada da Federação Russa e ao Ministério do Estrangeiro Russo(!)” exigindo que apagassem os dados pessoais dos organizadores da manifestação.

O Noddy no país dos brinquedos não faria melhor. Os russos sabem bem que se não apagarem os dados, o Noddy irá chamar o Sr. Lei e para lhes dar uma lição.

J_F93ILH_400x400.jpg

Obviamente que este assunto não terá qualquer consequência política, até porque em caso de aperto Fernando Medida poderá sempre usar o argumento infalível de que “foi sem querer”. E se mesmo assim não for suficiente, surgirá o Professor Marcelo a garantir que tudo será apurado até às últimas consequências. Vai ficar tudo ficar bem.

Hoje a Selecção ganhou e amanhã é 10 de Junho. Espero que possam aproveitar a ponte.

Viva Portugal! Viva o país do Noddy!

Portugueses, cidadãos de segunda

Pedro Correia, 05.06.21

mw-860.jpg

 

Sim, o Governo trata os portugueses como cidadãos de segunda: sentimo-nos como gente estranha na nossa própria terra.

Isto tornou-se evidente quando as autoridades sanitárias viabilizaram a presença de público no jogo Chelsea-Manchester City, enquanto interditavam o acesso, mesmo muito limitado e circunscrito a pessoas devidamente testadas, de espectadores à partida final do campeonato nacional de râguebi, realizada no Jamor. A federação da modalidade fez um pedido formal, prontamente recusado pela DGS. Alegando razões de saúde pública inexistentes no desafio do Porto, também ocorrido a 29 de Maio.

 

Mesma data, mesma entidade pública, duas deliberações de carácter oposto: 500 portugueses proibidos de aceder às bancadas do Estádio Nacional, 16.500 ingleses autorizados a ver a final da Liga dos Campeões no Estádio do Dragão.

Uma discriminação totalmente intolerável.

 

Mas a duplicidade não termina aqui. Na véspera do jogo que opôs as duas equipas inglesas no Porto, a Assembleia da República aprovou a Lei n.º 33-A/2021, isentando do pagamento de IRS e de IRC todas as entidades estrangeiras envolvidas na organização daquela final. Incluindo «representantes e funcionários, clubes de futebol, respectivos desportistas e equipas técnicas, nomeadamente treinadores, equipas médicas e de segurança privada e outro pessoal de apoio».

Reza o diploma, espantosamente, que «esta isenção é apenas aplicável às entidades que não sejam consideradas residentes em território português». Um regime fiscal de excepção. Com Governo e Parlamento de cócoras perante os interesses futebolísticos da UEFA, organização internacional privada.

 

Fazem-nos sentir estrangeiros neste país a que chamamos nosso. Estranha sensação, inaceitável condição.

Alguns deles são capazes de cantar o hino de mão no peito, à americana. E de entoar loas patrioteiras no Dia de Portugal prestes a chegar. Já nada me espanta.

Um exemplo

Paulo Sousa, 04.06.21

vice almirante.png

Foto José Fernandes

Já sabíamos que algo diferente estava a acontecer. Quando o processo de vacinação foi entregue à responsabilidade do Vice-Almirante Gouveia e Melo, mais do que ter entrado nos eixos, todo a dinâmica subiu a um nível de excelência num serviço público, a que infelizmente não estamos habituados.

O artigo do Expresso de hoje confirma isso mesmo. Existe alguém que está a exigir resultados e que está rodeado de gente motivada e capaz de realizar coisas efectivamente benéficas para os portugueses. E sem regatear esforços.

Diferentes forças corporativas já por várias vezes tentaram alterar as prioridades definidas, mas têm esbarrado na saudável ambição de querer fazer as coisas como deve ser.

Quando lhe perguntam como reage aos elogios públicos, Gouveia e Melo concorda que “estamos a vacinar a um ritmo elevadíssimo. Mas eu acho que podemos fazer mais coisas bem feitas.” E acrescenta: “Todos estão a trabalhar que nem leões, mas a minha função é estar permanentemente a empurrá-los. (…) Se uma pessoa dá 10, eu vou pedir 12, se dá 12, vou pedir 14.”

Sobre o facto de ele próprio ainda não ter sido vacinado responde: “Porque a minha faixa etária [60 anos] ainda não fechou. Enquanto não tiver 95% das pessoas neste grupo vacinadas, aguardo.” Como comandante que é, quer ser o último a abandonar o campo de combate e mostra o que é liderar pelo exemplo.

Além de uma indiscutível promoção, o Vice-Almirante merece também uma condecoração do estado português e o reconhecimento público.

Parte do marasmo em que o país vive resulta exactamente da incapacidade que a máquina do estado tem em lidar com atitudes generosas e competentes. Quando expostos lado a lado, os acomodados não conseguem ocultar aquilo que são, mas como são tantos, unem-se na sua mesquinhez e facilmente afastam quem mostra ser brilhante.

Não queria que o país fosse governado por militares, mas teve de ser um militar a lembrar-nos o ponto de mediocridade a que chegámos. A aversão pelo esforço e pelo trabalho está tão enraizada que é normal que uma dirigente política possa afirmar, sem pudor nem consequências, que na escola a diversão é mais importante que a aprendizagem. E também sabemos como lida com as escolas que não alinham nessa cantiga.

E o país, manso e conformado, encaixa a canga sem reclamar.

Mas é possível fazer diferente. Também por nos lembrar disso, ficamos em dívida para com o Vice-Almirante Gouveia e Melo.

Se for português, tome cuidado

Pedro Correia, 29.05.21

thumbnail_20210529_123311[1].jpg

 

Ingleses aos milhares, tomando de assalto as esplanadas do Porto (onde hoje se realiza a final da Liga dos Campeões) e os bares algarvios, enquanto a polícia persegue portugueses nas praias. Sem estado de emergência.

Caso para perguntar se os ladrões estão em greve. Caso para perguntar também, em tom mais sério, se os direitos, liberdades e garantias - desde logo o direito de nós, portugueses, frequentarmos as mesmas praias que o Governo deseja ver povoadas de súbditos britânicos - já foram revogados de vez.

O Estado que desconfia dos cidadãos

Pedro Correia, 07.05.21

images.jpg

 

Passam as décadas, passam os governos, mas algo nunca muda: a problemática relação entre o português que cumpre as obrigações de cidadania e o Estado que tantas vezes nos ignora. Proporcionando serviços de péssima qualidade, transportes públicos caóticos, protecção civil que deixa arder metade do património florestal do País, uma educação pública que não chega a todos, saúde sem meios físicos nem humanos capazes de corresponder às crescentes necessidades de uma população envelhecida, justiça insuficiente e caracterizada por uma lentidão exasperante. Ao contrário do que sucede nos países nórdicos, por exemplo, os portugueses dificilmente encontram retorno dos impostos que pagam em melhorias efectivas da qualidade de vida.

O zelo que o Estado - através do Governo - dispensa aos seus funcionários não tem paralelo na forma como se relaciona com o cidadão comum, encarado essencialmente como contribuinte. E, nesta óptica, considerado culpado até prova em contrário, numa inaceitável inversão do princípio constitucional da presunção da inocência, como há dois anos se verificou em operações stop realizadas pela Autoridade Tributária em parceria com a GNR para apanharem supostos infractores fiscais na via pública. Esquecendo-se o próprio Estado da sua condição de grande devedor: só as dívidas aos fornecedores e credores do Serviço Nacional de Saúde totalizavam 2,9 mil milhões de euros em 2017, segundo uma auditoria do Tribunal de Contas divulgada em 2019.

Em Portugal, ao contrário do que sucede nouros países, a regra não é o Estado confiar nos cidadãos. A regra é o Estado desconfiar dos cidadãos. Como se existisse para servir-se de nós e não para nos servir, como é nosso direito e seu dever.

O assassinato nunca prescreve ("Mord verjährt nie")

Cristina Torrão, 30.04.21

Prescrição de assassinato (1).jpg

No passado dia 17 de Abril, o canal alemão ZDF transmitiu um policial sobre a tentativa de resolução de um assassinato acontecido há trinta anos ("30 Jahre", no texto em baixo).

 

Prescrição de Assassinato (2).jpg

Tratava-se de um telefilme, mas, na Alemanha, investigações deste tipo não são ficcionais. O assassinato nunca prescreve. Sobretudo, quando existem meios de identificar um assassino, mesmo passada uma eternidade sobre o crime (como a descodificação do ADN). Já em Portugal, não se investiga um assassinato que tenha ocorrido há quinze anos ou mais. Porque, se os crimes não prescrevem, a possibilidade de instauração ou continuação de um processo penal ou ainda, noutros casos, a execução da sanção aplicada, prescrevem.

 

Vem isto a propósito de mais um policial de Mario Lima, o pseudónimo de um escritor alemão que vive em Portugal e do qual já aqui falei. Neste seu terceiro livro, cujo título Die Mauern von Porto é um pouco difícil de traduzir (talvez “Emparedadas no Porto”), ele ocupa-se precisamente com a prescrição de um assassinato.

 

Die Mauern von Porto.jpeg

Um incêndio num prédio do Bairro da Sé, mais precisamente, na Rua da Bainharia, provoca estragos numa casa ao lado, vazia há várias décadas. Bombeiros e polícia penetram na casa, a fim de melhor avaliarem os estragos e, na mansarda, deparam com uma parede que, tudo indica, foi levantada à pressa e não tem qualquer passagem para o resto da divisão. Resolve-se mandar deitar a parede abaixo e surgem dois esqueletos, um deles ainda com restos de roupa.

 

A PJ é accionada e os exames de peritagem revelam tratar-se dos restos mortais de duas mulheres, mais precisamente, de uma adulta e de uma jovem de treze ou catorze anos. Porém, quando a equipa do inspector Fonseca se prepara para investigar o caso, a peritagem revela ainda que, apesar de os restos mortais indiciarem morte violenta, o crime terá acontecido há cerca de vinte anos. É um duro golpe, principalmente, para as duas investigadoras da equipa, que logo suspeitam que se trataria de mãe e filha e são firmes no pressuposto de que a culpa nunca prescreve.

 

Nunca me tinha ocupado do assunto e confesso que não sabia que um assassinato prescreve ao fim de quinze anos. O que são quinze anos? Nada! Neste livro, através de uma agente que é inserida na equipa do inspector Fonseca depois de ter trabalhado no departamento de combate à corrupção, o autor aflora ainda a prescrição de crimes de corrupção, alguns já ao fim de dois anos, assim como o enriquecimento ilícito de pessoas à frente de uma Fundação. E não é esquecido o facto de estas leis favorecerem os poderosos e os ricos, que, além de terem influência, estão em condições de contratarem advogados capazes de protelarem a investigação, até que os crimes prescrevam. Como se vê, Mario Lima aborda um tema bem actual. Já por isso, se aconselha a tradução deste seu livro.

 

A equipa do inspector Fonseca vai ser dada enfim a possibilidade de encontrar o culpado, pois um crime perpetrado há um tempo não tão longo assim despoleta acontecimentos fatais. O assassino fica nervoso com a descoberta dos esqueletos das suas vítimas. E há quem ainda não tenha digerido o desaparecimento de duas familiares, embora lhe tenha sido dada uma explicação plausível para a ausência delas. Porém, há sempre dúvidas que não se esclarecem, causando discussões, chantagens. E, numa hora de aperto, um assassino bem pode cometer novo crime...

 

Excelente policial de Mario Lima, que criou uma bela equipa de investigadores da PJ e que, como de costume, descreve na perfeição a atmosfera da cidade do Porto.

 

 

Adenda: o post estava programado há alguns dias e soube hoje, dia 30/04, que o ZDF vai transmitir um documentário, às 00:30 horas, sobre novas técnicas de investigação criminal, apresentando o exemplo de um especialista em ADN que ajudou a localizar o assassino de um rapazinho desaparecido em 1996.

Para inglês ver

Paulo Sousa, 16.04.21

Ontem ouvi um relato de um telefonema feito por um responsável de uma escola pública, dirigido ao encarregado de educação de um aluno com fraco aproveitamento escolar. Ao referido encarregado de educação foi proposto que dada a situação – entenda-se o perfil do aluno – se ele aceitava que o seu educando participasse nos exames nacionais como sendo aluno externo, evitando assim de prejudicar o ranking da escola.

Lamentavelmente o receptor da chamada não respondeu que aceitaria desde que a proposta fosse feita por escrito, e simplesmente declinou a ideia.

Umas horas mais tarde trouxe esse episódio à conversa com uma pessoa amiga reformada do ensino, e a reacção foi quase como de um encolher de ombros. Sim, essas coisas acontecem.

Lembrei-me de imediato da repetida ladainha de alguns professores que explicam os maus comportamentos de alguns alunos com as deficiências educacionais que estes trazem de casa. Será que podemos perguntar qual a referência moral que uma escola dá aos seus alunos, quando faz uma proposta destas?

Tentando ignorar a vertente ética de tudo isto, podemos dizer que o nosso atraso crónico resulta também desta menorização e desprezo da realidade. Prefere-se de longe as aparências e por elas vale sempre a pena maltratar umas estatísticas e arrendondar umas esquinas.

Depois de tentar arredar tudo isto do meu espírito, soube que o nosso PM quer mudar o modelo de contagem de casos COVID, para poupar o turismo no Algarve.

A atitude retratada pela expressão que dá o título a este postal, e que ganhou forma durante o domínio inglês do nosso país, no início do sec. XIX, faz realmente parte da nossa forma de estar na vida.

A leviandade com que enganamos os nossos compatriotas faz parecer que estamos mesmo convictos de que não nos estamos a enganar a nós próprios.

Os melhores ficam à margem

Dois casos emblemáticos em Portugal

Pedro Correia, 30.03.21

            Eça_de_Queirós_c._1882.jpg fernando-pessoa-l.jpg

 

Em 1887, Eça de Queiroz concorreu com A Relíquia ao Prémio D. Luís, instituído por este monarca e atribuído pela Academia Real das Ciências de Lisboa. O júri, presidido por Manuel Pinheiro Chagas (oficial do Exército e historiador menor, um homem que havia sido ministro da Marinha e detestava Eça) excluiu aquele romance, conferindo o galardão à peça teatral O Duque de Viseu, assinada por Henrique Lopes de Mendonça, oficial da Armada, contista e dramaturgo, autor da letra do actual hino nacional.

Cento e trinta e quatro anos depois, A Relíquia é um dos títulos fundamentais da ficção portuguesa do século XIX enquanto o drama de Lopes de Mendonça jaz sepultado na poeira de velhas bibliotecas.

 

Em 1934, Fernando Pessoa concorreu com Mensagem à primeira edição dos prémios literários promovidos pelo Secretariado de Propaganda Nacional. O júri, presidido por António Ferro, elegeu A Romaria, de Vasco Reis (pseudónimo do padre franciscano Manuel Reis Ventura), como melhor livro de poesia do ano, atribuindo-lhe o Prémio Antero de Quental, enquanto relegava a obra de Pessoa para uma "segunda categoria" com valor pecuniário cinco vezes inferior. Ferro, que presidia ao júri por ser director do SPN, não votou: só lhe caberia escolha num eventual caso de empate. Três dos quatro restantes membros - Alberto Osório de Castro, Acácio de Paiva e Mário Beirão - optaram por Reis (pelo menos dois deles detestavam Pessoa e não guardavam segredo disso). A única mulher com voto, Teresa Leitão de Barros, ficou isolada ao enaltecer a «beleza literária» dos versos pessoanos.

Oitenta e sete anos depois, a Mensagem é um dos títulos fundamentais da poesia portuguesa do século XX enquanto a lírica de Reis desapareceu do mapa e hoje só é lembrada por este triste exemplo de miopia de um júri literário.

 

Lembro-me sempre destes dois casos cada vez que oiço falar na atribuição de prémios. Tantas vezes os juízos contemporâneos acabam por distinguir e enaltecer a incompetência. Muitas vezes estas escolhas são condicionadas por inaceitáveis preconceitos estéticos ou mesquinhas animosidades pessoais. Assim os Mendonças e os Reis são levados em ombros enquanto os talentosos ficam à margem, como autores sem préstimo nem valia.

É verdade que o tempo acaba por repor a escala de valores, conduzindo cada qual ao lugar que merece. Mas não é menos certo que isso costuma suceder tarde de mais. Eça e Pessoa - figuras incontestáveis do património cultural português, com leitores em todo o mundo - nunca recuperaram por completo destas humilhações que lhes foram infligidas pelos referidos grupúsculos de pequenos e médios literatos. O segundo nem sequer viveria um ano mais: o resto da sua obra acabaria por ser póstuma, aliás à semelhança do que ocorreu com Eça, exceptuando Os Maias, já concluído em 1887 e lançado logo no ano seguinte.

 

Serão casos isolados? Nem por isso. Pelo contrário, ambos ilustram um velho mal português: acontece asneira quando o critério de julgamento e o poder de decisão são confiados aos medíocres.

O que, para nossa desgraça, acontece quase sempre. Não só na literatura, mas em tudo o resto.

Vão chamar pequenos a outros

Como muitos portugueses vêem Portugal

Pedro Correia, 29.03.21

img_432x243$2016_02_16_19_22_43_514650.jpg

Portugal dos Pequenitos, em Coimbra

 

Há dois lugares-comuns na linguagem corrente entre nós - designadamente ao nível dos textos jornalísticos - que sempre considerei ridículos.

 

O primeiro é aludir-se a Portugal como se estivéssemos ausentes do continente europeu. Não passa um dia em que não escutemos alguém referir-se à vontade de «viajar para a Europa» ou de ver as equipas portuguesas de futebol «disputar competições na Europa».

Como se o Minho ou o Algarve, por exemplo, não fossem Europa. Como se Lisboa ou Freixo de Espada-à-Cinta não fossem Europa. Como se o campeonato nacional de futebol não se disputasse em solo europeu.

Como se não fôssemos aliás, duplamente europeus - enquanto um dos mais antigos Estados-nações do continente, com fronteiras estáveis desde 1249, e membro de pleno direito da actual União Europeia desde 1986.

 

O segundo é afirmar-se que Portugal «é um país pequeno».  Outra inverdade, como agora se diz.

À escala europeia, vivemos num país de média dimensão. Superior, em área geográfica e até em população, a muitos outros.

Duplicamos o tamanho da Suíça, da Holanda, da Dinamarca e da Estónia. Triplicamos o da Bélgica e da Albânia. Temos um território mais de quatro vezes superior ao da Eslovénia. E superamos claramente em área geográfica vários outros países: Irlanda, República Checa, Áustria, Sérvia, Lituânia, Letónia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Moldávia, Macedónia do Norte e Chipre. Já sem mencionar os micro-Estados.

Nesta dimensão, estamos ao nível da Hungria - a que nunca ouvi chamar "país pequeno".

 

O mesmo pode concluir-se ao nível da população: Portugal tem mais habitantes do que a Hungria, precisamente. Mas também da Suécia, da Áustria, da Suíça, da Bulgária, da Bielorrússia e da Sérvia. Duplicamos a da Dinamarca, da Finlândia, da Eslováquia, da Noruega, da Irlanda e da Croácia. E estamos num evidente patamar acima destes: Bósnia, Albânia, Lituânia, Moldávia, Eslovénia, Letónia, Estónia, Islândia e Chipre.

Em número de habitantes, podemos equiparar-nos à Grécia e à República Checa. E temos apenas dez países à nossa frente, num conjunto de 44 Estados

Não faltam países pequenos, à escala europeia: Albânia, Eslovénia, Montenegro e Macedónia do Norte - todos com menos de 30 mil km². Já para não falar em Chipre ou Luxemburgo, abaixo dos 10 mil km². Ou dos micro-Estados: Andorra, Malta, Liechenstein, São Marinho, Mónaco e a Cidade do Vaticano. 

 

Gostava que perdêssemos este vício de nos diminuirmos cada vez que mencionamos o povo que somos e a geografia em que nos inserimos. Em suma, quando falamos de nós.

Mas talvez seja pedir de mais. Às vezes convenço-me de que transportamos uma carga genética propícia à autoflagelação. Como dizia o outro, não somos herdeiros dos aventureiros e dos exploradores: somos herdeiros dos que cá ficaram.

Efeméride

Sérgio de Almeida Correia, 26.03.21

Declaracao conjunta.jpg

Foi há exactamente trinta e quatro anos, em 26/03/1987, que foi rubricado em Pequim, pelo embaixador Rui Medina e pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da RPC, Zhou Nan, o texto acordado entre as delegações de Portugal e da China para a Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau, o qual viria a ser assinado em 13 de Abril seguinte e regeria até 1999 o modo como se processaria a reversão do território para o seu legítimo soberano. A partir daí seria a Lei Básica da Região Administrativa Especial a marcar os segundos, os minutos e as horas.

Este aniversário ocorre num momento de fricção entre a China e os Estados Unidos, a União Europeia, o Reino Unido; e entre aquela e alguns dos aliados dos outros na Ásia e no Pacífico.

Macau, apesar do clima de paz, estabilidade e segurança de que beneficia desde há mais de duas décadas também tem sofrido as consequências da conjuntura internacional e da geografia em que se insere. E estas fazem-se sentir ao nível das liberdades, em especial em matéria de direitos fundamentais, os quais têm sido objecto da imposição de constrangimentos, nuns casos mais dissimulados do que noutros, e de acções que transformaram uma região de cariz mediterrânico, numa extensão rica do estado autoritário, policial, censor e persecutório que comanda os destinos do sistema socialista e controla os mais ínfimos e inócuos movimentos dos seus cidadãos.

De um ponto de vista formal poucas coisas mudaram. Numa perspectiva substancial mudou quase tudo. E há muita coisa que até agora ou não foi cumprida de todo – continua a não haver sindicatos e a inexistir uma lei da greve –, ou está a ser restringida em termos nunca antes previstos – liberdade de imprensa, direito de reunião, manifestação e desfile –, muito embora o discurso oficial seja muitas vezes, tanto o português – cada vez mais desvalorizado e desrespeitado na comunicação oficial, na administração pública, nas polícias e nos tribunais – como o chinês, um discurso que continua a querer fazer passar uma mensagem que não corresponde a realidade, por vezes destinado a compô-la para os olhos externos ou a disfarçá-la para os internos que se habituaram a comer sofregamente e sem nada questionarem tudo o que lhes põem no prato.

A pandemia do Covid-19 tem servido de cortina para muita coisa. A coberto desta e da contribuição da RAEM para a segurança nacional foram criados sistemas de controlo dos residentes dignos de uma novela de Orwell, não raro complementados com decisões kafkianas e com uma visão do segundo sistema incompatível com o princípio da separação de poderes.

A aceleração do processo de integração na RPC comportou mudanças em relação às quais não se ouviu uma palavra dos responsáveis de Portugal, aliás na linha daquele que é o entendimento de alguns compatriotas, de que não obstante os compromissos internacionalmente assumidos, consideram que a permanência da nossa comunidade residente é uma situação de favor e que esta justifica todos os silêncios e atropelos que sejam cometidos, dos mais ligeiros aos mais graves, desde que no final apareça um prato de lentilhas, haja um arraial anual, vinho tinto e chouriço.

Mudanças que merecem a compreensão e até são aplaudidas por alguns contorcionistas, que os há em todo o lado, em todos os tempos e de todas as nacionalidades, ou por um ou outro titular de currículo menos recomendável por aqui estabelecido, mas que para a maioria trabalhadora, que só se manifesta discretamente nas reuniões familiares, em rodas de amigos ou que de todo evita manifestar-se, é um peso suportado mais com desgosto, tristeza, abnegação e fé do que com sacrifício.

Afinal os mesmos sentimentos que emergem de cada vez que se vê partir um rosto querido da comunidade, levando consigo a história dos lugares e a memória das suas gentes, se ouve um embaixador desculpar os atropelos, um ministro asneirar (o acordo entre Portugal e a China não se chama Lei Básica; Portugal não tem quaisquer obrigações a cumprir no âmbito desta, e também não podia ter visto que se trata de uma lei interna chinesa), ou se vêem os cronistas do império acordarem estremunhados e desinformados para realidades longínquas, para as quais de quando em vez são despertados, que os ultrapassam e que para eles continuam desconhecidas ao fim de tantos anos. 

IMG_8341.JPG

Falando em "símbolos coloniais"

Pedro Correia, 23.02.21

 

Nas últimas semanas tem havido muita discussão nas redes sociais, em Portugal, sobre a manutenção de "símbolos coloniais". Por vezes com vocabulário datado de há meio século e hoje totalmente ultrapassado. Qualquer folheto ou documentário de propaganda turística demonstra como o adjectivo colonial foi reabilitado, entre elogios ditirâmbicos à «arquitectura colonial», à «gastronomia colonial» e até à «atmosfera colonial» nas mais diversas paragens. Não faltam aliás, ainda hoje, países com possessões coloniais - com destaque para França, Holanda, Reino Unido, Dinamarca e até os Estados Unidos.

Alguns por cá, tolhidos por absurdos complexos de inferioridade e totalmente incapazes de assumir a História com as suas luzes e sombras, não perdem uma oportunidade de esgrimir contra "símbolos coloniais" - seja aos gritos contra a toponímia (como a da Praça do Império, em Lisboa) ou na diabolização de palavras consideradas malditas (como ocorreu na polémica em torno do putativo Museu dos Descobrimentos), passando pela vandalização de estátuas (como a do Padre António Vieira) ou até pela demolição de monumentos (como sugere um deputado socialista, aludindo ao Padrão dos Descobrimentos), mimetizando a histeria em curso nos States. 

Em qualquer dos casos, pretende-se submeter factos passados ao crivo de cartilhas ideológicas actuais em nome da correcção política. Ignorando vozes sábias, como a de Ramalho Eanes, que muito recentemente declarou: «Sem império, dificilmente teríamos mantido a independência em certas épocas. Seríamos uma Catalunha.»

 

Enquanto por cá isto se passa, vale a pena revisitarmos países e territórios que já fizeram parte do império colonial português. Para verificarmos como os símbolos históricos relacionados com Portugal são hoje ali encarados no espaço público. Proponho-vos uma pequena digressão em imagens oriundas de África, América, Ásia e Oceânia.

Sem lamúrias nostálgicas mas com respeito integral pelo tempo que passou.

 

diogo gomes mindelo.jpg

Mindelo, Cabo Verde: estátua do navegador Diogo Gomes

 

Farim.JPG

Farim, Guiné-Bissau: padrão evocativo do Infante D. Henrique

 

76_big[1].jpg

Huambo, Angola: estátua de Norton Matos, governador (1912-1915) e alto-comissário (1921-1924)

 

J santarém p escobar j de paiva.jpg

São Tomé: estátuas dos navegadores João de Santarém, Pero Escobar e João de Paiva

 

vasco-da-gama.jpg

Ilha de Moçambique: estátua de Vasco da Gama

 

tomé souza salvador.jpg

Salvador, Brasil: estátua de Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil (1549-1553)

 

OldGoa-ViceroyArch.jpg

Goa: Arco dos Vice-Reis, com estátua de Vasco da Gama 

 

damão aniceto rosário e.jpg

Damão: monumento aos portugueses que «morreram pela pátria»

 

450px-NunoCunhaDiu.jpg

Diu: estátua de D. Nuno da Cunha, vice-rei da Índia (1529-1538)

 

Jorge alvares.jpg

Macau: estátua do navegador Jorge Álvares

 

Díli padrão henriquino.jpg

Díli, Timor-Leste: padrão evocativo do Infante D. Henrique