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Delito de Opinião

Estádios de 2ª divisão no Euro 2024*

Cristina Torrão, 05.07.24

Apesar de morar a apenas 60 km de Hamburgo, não vou assistir ao vivo ao jogo de hoje entre Portugal e a França. Por um lado, é dificílimo arranjar bilhete. Por outro, custar-me-ia muita energia emocional. Não estarei, assim, entre os portugueses que se deslocarão ao Volksparkstadion, um dos maiores estádios da Alemanha, com capacidade para 57.000 pessoas. E pertencente a uma equipa da… 2ª divisão!

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Imagem Wikipedia

Não é o único. Muita gente em Portugal não saberá que, na verdade, metade dos estádios alemães, onde se disputam as partidas deste Euro, pertencem a clubes da 2ª divisão. Cinco, entre os dez escolhidos: Düsseldorf, Köln (Colónia), Gelsenkirchen (pertencente ao Schalke 04), Berlim (o Estádio Olímpico, com lotação para 74.000 pessoas, é a “casa” do Hertha BSC) e Hamburgo, onde hoje se jogará os quartos de final entre Portugal e a França.

Hamburgo (onde morei durante sete anos) é a segunda maior cidade alemã (1,852 milhões de habitantes), à frente de Munique, Colónia e Frankfurt. Além disso, o Hamburger SV conta com uma Taça dos Campeões, uma Taça das Taças e seis campeonatos no seu palmarés. E, até 2018, era a ÚNICA equipa alemã que nunca tinha estado na 2ª divisão, desde a criação da Bundesliga, em 1963, nos moldes que hoje se conhecem (o Bayern de Munique, nessa altura, não foi convidado para participar na Bundesliga; ficou na 2ª divisão, só subindo à 1ª na época de 1965/66).

De há dez anos para cá, os adeptos do Hamburger SV vêm precisando de nervos de aço. Como aqui registei, o clube esteve quase a descer, em 2014, mas assegurou a sua permanência no play-off por uma unha negra. Nessa altura, o capitão da equipa era a antiga estrela da selecção neerlandesa Rafael van der Vaart. E, depois deste susto, anunciaram-se medidas drásticas para tirar o clube da crise, incluindo a dissolução de todo o management.

Enfim, as “medidas drásticas” não conseguiram tirar o Hamburger SV do último terço da tabela e, em 2018, acabou mesmo por descer. Não preciso de dizer que os adeptos se acostumaram à máxima “para o ano é que vai ser”. O Hamburgo ficou, desde então, três vezes no quarto lugar (épocas 21/22, 22/23 e 23/24) e outras tantas no terceiro, sendo que este lugar permite o play-off com o ante-penúltimo classificado da Bundesliga.

Esta época, que até começou muito bem, acabou, mais uma vez, no quarto posto. E a humilhação foi ainda maior, perante a subida à Bundesliga da segunda equipa de Hamburgo, eterna rival do Hamburger SV: o FC St. Pauli.

O FC St. Pauli é uma clássica equipa de 2ª divisão. Passou uma época na Bundesliga nos anos 1970 e outra em 2010/11. Mas também já desceu à 3ª divisão, vendo-se obrigada a jogar na chamada Liga Regional do Norte, de 2003 a 2007. Como se depreende, esta subida significa muito para este pequeno clube. E deprime ainda mais os adeptos do Hamburger SV.

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Millerntor-Stadion - Foto Gudrun Becker

O Millerntor-Stadion, com lotação para quase 30.000 pessoas, e onde o FC St. Pauli está “em casa”, tem, desde ontem, servido de treino para as selecções de Portugal e da França.

Curiosidade: O bairro de St. Pauli inclui a rua Reeperbahn, onde se situa o famoso red-light district de Hamburgo.

*Originalmente publicado no És a nossa Fé

Eficácia à portuguesa e mulheres alemãs*

Cristina Torrão, 02.07.24

Nunca tinha visto sessão de penáltis tão rápida, até os meus nervos aguentaram.

Não costumo assistir a este tipo de desempate, esteja Portugal envolvido. E já me preparava para sair da sala, quando me apercebi de que seriam os eslovenos a inaugurar a sessão. Pensei: “OK, eles marcam golo e eu saio”. Mas Diogo Costa fez a sua primeira defesa! Quando vi que seria Ronaldo o primeiro português, estive novamente para sair, considerando a tragicidade que o envolvera neste jogo. Mas pensei: “Enfim, os eslovenos falharam o primeiro; se ele não marcar, desta vez, não é tragédia nenhuma”. Mas ele marcou! “Pronto, ainda aguento ver o próximo esloveno”. E o Diogo Costa tornou a defender! Já não havia desculpa para sair e o resto foi o que se sabe: tudo acabado em três tempos, com vitória de Portugal por 3-0. Era esta a eficácia que se esperava durante o tempo normal de jogo. Enfim, estamos nos quartos. E Diogo Costa escreveu a primeira página digna de registo na História deste Euro.

Bem, e onde entram as alemãs no meio disto tudo? Na transmissão televisiva do ARD, onde elas estiveram em maioria.

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A locutora desportiva Christina Graf foi a voz-off de todo o desafio. Não pela primeira vez, é ela a responsável por muitos jogos do Euro transmitidos pelo ARD. Christina Graf foi igualmente jogadora de futebol, mas uma lesão grave no tornozelo obrigou-a a abandonar a carreira com apenas 23 anos. Enfim, ganhou-se uma excelente locutora e jornalista.

Ao intervalo e no fim da partida, tivemos as análises de Sebastian Schweinsteiger, ao lado de outra mulher, Esther Sedlaczek, também já habitual nestas andanças.

2024-07-01 Schweinsteiger & Esther Sedlaczek.jpg

Não gostava de Sebastian Schweinsteiger como jogador. Excelente, sem dúvida, mas bastante agressivo e impaciente, muitas vezes, arrogante. Desde que casou, em 2016, com a antiga tenista sérvia Ana Ivanović, modificou-se, está um outro homem. Ponderado, calmo e simpático, nem sequer pratica o chamado “mansplaining” com Esther Sedlaczek, do estilo: “até podes ser competente, mas eu sou homem, fui um dos melhores jogadores do mundo e vai dar-me um gozo enorme pôr a nu as tuas deficiências nesta matéria”. Uma atitude muito comum em homens, mesmo não sendo estrelas e tendo uma mulher competente a seu lado. Schweinsteiger limita-se a opinar e a analisar o solicitado por Esther Sedlaczek, falando bem, sem hesitações, nem interrupções, mantendo um semblante simpático. Um comentador de grande classe.

Que diferença dos debates futeboleiros portugueses, entre homens! Mesmo não sabendo alemão, tentem ver um pouco do vídeo da análise final do jogo de ontem, uma análise dinâmica e descontraída (espero que os direitos permitam a visualização do vídeo em Portugal). Os dois começam aliás por falar da Eslovénia e, só depois, se dedicam à nossa selecção.

Mais mulheres no futebol português, fora das quatro linhas, precisam-se!

Sebastian Schweinsteiger e Ana Ivanović têm três filhos. O mais novo nasceu no ano passado.

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Foto Gala

*Publicado originalmente no És a Nossa Fé.

Sete de Portugal

Maria Dulce Fernandes, 24.06.24

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Desde 2022 que a ingratidão de muitos portugueses, nomeadamente os fatais "Velhos do Restelo”, alguns que pontuam por outras cores clubísticas e os fundamentalistas da religião e dos direitos humanos (que viram todos os jogos transmitidos pela TV desde o Qatar, com explosões de entusiasmo e crescente euforia sem pestanejar), têm tentado abater e arrasar um dos maiores futebolistas de todos os tempos a nível mundial, com um palmarés de recordes batidos invejável e, quem sabe, até difícil de ultrapassar.

Nem tudo o que é “velho” não presta. Para todos aqueles que conheço, que falaram cobras e lagartos deste fenomenal desportista e de um treinador que o chamou à selecção que tem representado brilhantemente durante anos, sendo um dos poucos, senão o único português conhecido e aclamado além-fronteiras pela sua ética de trabalho e excelência profissional, carregando em ombros o nome de Portugal pelo mundo fora, tenho afivelado o meu melhor sorriso sarcástico, aquele que guardo para as ocasiões especiais. Palavras para quê? O coxo velho da cadeira de rodas e das muletas em campo, seja qual for o desfecho do Euro 2024, deu-lhes já uma bela e justíssima bofetada sem mão.

Viva ele! Viva Portugal!

Victor

Sérgio de Almeida Correia, 23.06.24

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Não poderia faltar. Por isso lá estive. 

Onde? Perguntar-me-ão.

Ali, na Casa Garden, paredes-meias com o Jardim Luís de Camões, onde está o espartano busto do dito, gravado no tempo da antecâmara feita na solidez da rocha que o protege das intempéries.

Ontem esteve lá o Victor. O autor, em 1989, da capa do I Glossário Jurídico Luso-Chinês. Nessa altura ninguém sabia quem era ele. E ainda hoje não sabem. Os portugueses. Os outros sabem.

Pois bem, o Victor lançou um livro, imaginem só, com todos os desenhos que fez para os cartazes do Dez de Junho. Desde 1990. Falhou dois anos. Houve um espírito menor iletrado que passou pelo Instituto Cultural sem ter percebido quem era o Victor.

A bem dizer não é um livro. É uma enciclopédia. Uma novela. Um filme. Está lá tudo. Até o quase de que quase nunca ninguém fala. Mais a senhora dona Amália e o Eusébio.

Mas ontem o Victor falou. Disse umas palavras com tudo aquilo que lhe ia na alma. Emocionou-se. Eu vi. E foi como se a noite anterior ainda não tivesse acabado. E o Álvaro, o Miguel e eu, que quase nunca estamos com o Victor, tivemos o privilégio de nos termos encontrado com ele de véspera. Mais o Nelson. Até parecia que tinha sido combinado. Ah, les grands esprits. Sauf moi.

E depois, aquela cumplicidade no olhar, tão querida e descomprometida, de quem já fez o caminho das pedras sem se perder. E voltou sempre. Deixando tudo no mesmo sítio, seguindo a ordem natural das coisas, a natureza dos homens, a beleza das mulheres, e o respeito por tudo aquilo que nos rodeia. O respeito e a gratidão.

O Victor sublinhou-o. Eu também o sublinho.

A ética dos homens livres, que sabem qual o preço da sua liberdade e o custo da ousadia, medem isso mesmo. Lêem todos o mesmo painel que o Victor registou. São três palavras muito simples, e que dizem tudo. Liberdade, respeito e gratidão.

A ordem dos factores não é aleatória. Não se nasce antes de morrer. Embora haja alguns que conseguem morrer sem nunca terem nascido. E mandam.

O Victor é tudo isso. Porque o talento dos grandes nunca sai desses parâmetros. Não há cagança, há discrição. Não há serodismo, há História.

Tal e qual como na profundidade do olhar do mocho, protegido na sua terna penugem, atravessando a cortina do tempo na verticalidade dos anos. Um após outro.

E depois, o Victor é um tipo de uma generosidade extrema, de uma alma imensa, com uma portugalidade tão vincada que me faz sentir o quanto sou pequenino, o quanto somos todos menores perante um traço maior que nos define nos cinco continentes. Para todo o sempre.

É claro que gostei do livro (obrigado pela dedicatória e o autógrafo), do momento, de sentir o quanto o Victor estava emocionado.

E recordei-me daquele dia de manhã em que me telefonou porque tinha levado o quadro errado, porque o meu não estava na galeria, estava em casa dele. Agora está em Cascais, onde pertence.

Mas não foi por isso que fiquei grato ao Victor, nem é por tal que escrevo estas linhas.

Eu escrevo porque gosto de cumprir as minhas obrigações.

Neste caso é mais do que uma obrigação. E ao contrário da minha sombra, eu não tenho gosto em deixar uma obrigação por cumprir. Cumpri-las também me dá gozo, me dá prazer, e é um acto intrínseco de liberdade.  Como quando bebo um gin & tonic e fumo um charuto. 

E escrevo aqui e agora, nesta hora de onde não avisto o golfo de Sorrento, porque os cartazes do Dez de Junho do Victor deverão, a partir de hoje, percorrer o mundo. E depois deverão ser expostos na Assembleia da República, no Museu da Presidência, percorrendo as escolas de Portugal e ilhas. Espero que a Isabel Moreira esteja atenta.

Espero que o outro Victor, o de Tóquio, ainda os possa acolher na nossa Embaixada. E que eu possa lá ir. Mais a outra sombra que me acompanha.

E que em Lisboa, no Porto, em Paris, em São Paulo, em San José, na Horta, talvez no Peter´s, onde for, encontrem um espaço e um mecenas, já que há tantos nas revistas, para pagar o transporte dos cartazes. Para que todos possam ver e conhecer o Victor. Em toda a sua simplicidade.

O que lá está não pode ser descrito. Não vemos todos a mesma coisa. E sabemos haver gente com olhos que não vê, e cegos que vêem para lá dos limites da Eternidade. Ou que viam. Como o meu padrinho Fernando Luís. Ou o Jorge Luís Borges. Que saudade, de ambos, meu Deus.

Em rigor, a razão de escrever estas linhas é que também há coisas que têm de ser ditas. Para que não se pense, um dia, que os portugueses importantes de Macau, e aqui agradeço ao anónimo, são pequenos lucíferes anões, milionários, sem pátria, que têm tempo de antena à segunda, terça e quarta-feira sempre com o mesmo fato e a mesma gravata.

Até porque o Victor não usa gravata. Não sei mesmo se ele sabe o que isso é, embora eu goste muito gravatas. De boas gravatas. E faça gosto em usá-las. Quando posso. Até se desfazerem. Às vezes depois disso.

Não, o que aqui me traz é muito mais importante do que tudo isso, só tendo paralelo na generosidade do Victor. E o Carlos irmão que me perdoe com toda a sua simpatia.

Porque o que é mesmo importante aqui ficar escrito, e os meus amigos que me desculpem, a começar pelo José Manuel, o Rui e o Luís, que já cá não estão, é que o Victor, que é igualmente um amigo, é o maior português de Macau desde os tempos do Camilo Pessanha. Isto tinha de ficar escrito.

E isto é tão rigoroso quanto a minha saudade pela Mélita, a minha paixão pela música do Brel, o encanto pela Loren, pela poesia do Fernando, a escrita do José ou do António, ou a minha paixão pela ternura da M.T. e os meus amigos.

O Victor é uma espécie de Serge Gainsbourg que fala português. Sabe rir em chinês e ainda pisca o olho aos amigos.

Não falo nelas porque nisso ele é como eu, e eu não sei quem é a sua Jane Birkin. Não temos tempo para lhes piscar os olhos porque gostamos de os ter bem abertos quando mergulhamos no seu olhar. E nos perdemos até reencontrarmos o caminho de volta.

Tirando isso, que acima ficou escrito para memória futura, recomendo-vos que façam uma visita à Catarina Cottinelli e à Casa Garden.

Certamente que já não encontrarão por lá a Amélia, nem o Carlos, que têm outras vidas, e já fizeram o seu trabalho, como outros também o fizeram, a partir do Porto, para trazerem, e entregarem, verdade seja dita, o Victor a Portugal e aos portugueses.

E uma vez mais, no mesmo dia em que Portugal estraçalhou os nossos amigos turcos em Dortmund, sob a batuta de um inspirado capitão, recomendo-vos a liberdade, o olhar, a generosidade, o encanto e a serenidade de um português de Macau.

Português como nós. Quer dizer, um bocadinho maior do que nós. 

Coisas que todos os milionários querem comprar, mas que só está ao alcance de espíritos superiores.

De génios na sua arte. De talentos que não se mercadejam. De gente como o Victor.

Saravah, Victor. A bênção, Senhor.

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P.S. Fez bem em estar presente o cônsul-geral de Portugal, Alexandre Leitão. Amanhã, provavelmente, será também caricaturado. Como muitos outros o foram. Mas só os imbecis não são suficentemente inteligentes para não se rirem da sua própria caricatura.

Ó Portugal, se fosses só três sílabas

Paulo Sousa, 10.06.24

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .

 

1965, Alexandre O’Neill

26 grandes e pequenas razões para conhecer Portugal

Ana CB, 10.06.24

Gosto de Portugal desde que me lembro de ser gente. Comecei a viajar pelo país quando ainda era miúda, com a minha família, e tenho recordações vívidas de vários lugares onde íamos passar férias ou simplesmente de visita: a Praça da Fruta nas Caldas da Rainha; a praia da Foz do Arelho; o Portugal dos Pequenitos; Albufeira quando as praias tinham pouca gente e os carros ainda passavam na Rua 5 de Outubro; Sines antes de a terem estragado; as rectas do Alentejo, onde o meu pai cometia a “loucura” de acelerar até aos 100 km por hora; os passeios em Lisboa, a cidade onde nasci e vivi a maior parte da minha vida.

Alentejo.JPG

À medida que os anos foram passando, continuei a viajar em Portugal. E quanto mais conheço este nosso pequeno país, mais ele parece crescer. Há sempre um recanto que ainda não tinha descoberto, um museu que abriu há pouco tempo, uma aldeia reconstruída, uma praia renovada, um parque com alguma novidade. Esta capacidade que Portugal tem de se reinventar é um dos seus maiores atributos, a par da enorme diversidade paisagística e cultural.

 

Numa altura em que o mundo parece ter entrado em ebulição constante, com as guerras e o terror a espalharem-se por quase todos os continentes como erva daninha, viver em Portugal é uma sorte. Sorte porque os nossos conflitos sociais são sempre brandos quando comparados com os dos outros, sorte porque somos um país pequeno que não ameaça ninguém, nem ninguém cobiça, sorte porque apesar de estar longe da perfeição, o nosso país ganha em comparação com muitos outros. Estão à vontade para discordar, mas esta é a minha opinião.

 

Hoje, Dia de Portugal, parece-me ser uma boa altura para “contar as nossas bênçãos” e enumerar todas as boas razões por que vale tanto a pena viver aqui e, sobretudo, conhecer melhor o nosso país.

 

Estátua de D. Afonso Henriques, Guimarães.JPG

Somos o Estado-nação mais antigo da Europa. As nossas fronteiras foram definidas em 1297 pelo tratado de Alcanizes e mantêm-se inalteradas desde essa altura (à parte aquela velha querela sobre Olivença e arredores que todos conhecemos). Talvez por isso as nossas regiões, tão diferentes umas das outras, consigam coexistir pacificamente (com um ou outro bairrismo que até nos torna mais divertidos) há tanto tempo.

 

As ilhas portuguesas são verdadeiros tesouros. Os Açores são nove jóias, todas diferentes umas das outras e felizmente ainda não demasiado lapidadas pelo turismo, razão pela qual receberam recentemente o certificado de destino sustentável atribuído pelo Global Sustainable Tourism Council (GSTC). Quanto às ilhas do arquipélago da Madeira, são como que uma espécie de paraíso tropical português. As Desertas e as Selvagens são áreas protegidas e de acesso restrito. Madeira e Porto Santo são mecas do turismo nacional e internacional, mas nem isso nos rouba o prazer que é visitá-las. E há ainda as Berlengas, as ilhas da Ria Formosa, a alentejana ilha do Pessegueiro e muitas outras, atlânticas ou fluviais, ilhéus, mouchões e ínsuas, cada um destes isolados pedaços de terra ou rocha com a sua própria mística e as suas próprias histórias.

Poço da Ribeira do Ferreiro, ilha das Flores.JPG

 

Em Portugal (continente e ilhas) estão classificados 24 parques naturais e 1 parque nacional. Juntando-lhes várias reservas naturais, zonas de paisagem protegida, monumentos naturais e parques marinhos, o que não nos falta são lugares onde podemos usufruir o que há de melhor na natureza em estado ainda razoavelmente bruto.

 

Há no nosso país vestígios pré-históricos importantíssimos. Desde os achados relacionados com dinossauros na Lourinhã e na Serra de Aire aos inúmeros monumentos megalíticos com milhares de anos que existem em todo o país, passando pelas gravuras rupestres do Escoural e do Côa, e pelo esqueleto com 24.500 anos do Menino de Lapedo, em Portugal têm sido encontradas inúmeras e significativas evidências arqueológicas que contribuíram para um melhor conhecimento da vida na Terra em vários períodos da Pré-História.

Cromeleque dos Almendres, Alentejo.JPG

 

Temos inscritos na UNESCO 17 lugares como Património Mundial e 10 elementos como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Podem consultar as listas aqui e aqui.

 

A Universidade de Coimbra é uma das mais antigas do mundo ainda em funcionamento. Foi criada por D. Dinis em 1290, com a sua localização a alternar entre Lisboa e Coimbra até 1537, ano em que se fixou definitivamente na cidade que lhe dá o nome. A Biblioteca Joanina, que data do século XVIII, é uma das bibliotecas europeias mais bonitas e originais.

Paços da Universidade, Coimbra.JPG

 

A língua portuguesa é riquíssima e falada por 265 milhões de pessoas. Celebra-se a 5 de Maio, desde 2019, o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Há falantes de português espalhados pelos cinco continentes, e a diversidade de sotaques e vocabulário é enorme, mesmo dentro do pequeno rectângulo formado por Portugal Continental.

 

A Livraria Bertrand que fica no Chiado, em Lisboa, abriu as portas em 1732. Está registada no Guinness World Records como sendo a livraria mais antiga do mundo ainda em funcionamento. Situada num edifício forrado a azulejo na esquina da Rua Garrett com a Rua Anchieta, cada uma das suas sete salas com tectos abobadados tem o nome de um escritor português. A sala Aquilino Ribeiro, que é a sala de entrada, ainda mantém estantes antigas em madeira maciça.

 

Há cada vez mais investimento para renovar e melhorar as nossas cidades e vilas. Nota-se um esforço enorme em todo o país para tornar mais agradáveis os grandes aglomerados populacionais. É verdade que este esforço é dirigido ao aumento do turismo em Portugal, mas também é verdade que nalguns aspectos todos nós, habitantes e visitantes, acabamos por beneficiar disso, sobretudo no que toca ao património cultural e ao embelezamento dos espaços públicos. É claro que há também o reverso da medalha (aumento do ruído em certas zonas, subida dos preços da habitação e de certos bens, descaracterização), mas mesmo assim ainda estamos longe dos exageros que se vêem por esse mundo fora. Até ver…

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A calçada portuguesa é uma expressão artística genuinamente nossa. Herança histórica da cultura e da tecnologia de construção dos romanos, fomos nós, os portugueses, que lhe demos vida e características especiais e a espalhámos pelo mundo. Onde quer que encontremos pavimentos calcetados com paralelepípedos de pedra branca e negra formando desenhos, podemos ter a certeza de que a inspiração e a ideia partiram daqui. Apesar de associarmos quase sempre a cor preta da pedra ao basalto, a verdade é que na calçada portuguesa são habitualmente utilizados o calcário branco e o negro. O basalto apenas é usado nas ilhas, onde existe em abundância e se torna mais económico, pois é um material muito mais duro e difícil de trabalhar.

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O Estilo Manuelino tem características muito próprias que o tornam distinto das outras correntes góticas. Particularmente notável no campo decorativo, tem uma preferência nítida pelas ornamentações de inspiração marítima e vegetal, exóticas e em quantidade abundante, influência indubitável das civilizações com que os nossos navegadores contactavam. Está também sempre presente a simbologia régia, importante para que ninguém esquecesse quem tinha sido o promotor da obra arquitectónica admirada.

 

Há em Portugal 241 castelos (se a Wikipedia estiver correcta e eu não me tiver enganado na contagem). A maioria deles data da Idade Média, sobretudo dos séculos da fundação do país e subsequente expansão até à consolidação das nossas fronteiras. Alguns são sobejamente conhecidos e visitados, outros estão praticamente em ruínas, mas todos eles são lugares cheios de interesse, ricos em história e em lendas, e parte importante do nosso património cultural.

Castelo do Algoso.JPG

 

Ficam no nosso país os pontos mais ocidentais da Europa. O Cabo da Roca, perto da vila de Sintra, é o ponto mais a oeste no continente europeu, visitado todos os anos por milhares e milhares de pessoas, tanto estrangeiros como nacionais. Quanto ao ponto mais ocidental da Europa, o ilhéu de Monchique, é uma simples rocha com 30 metros de altura ao largo da Fajã Grande, na nossa maravilhosa ilha das Flores.

 

Portugal tem uma enorme diversidade de pontes, a maioria delas belíssimas. Há várias de origem romana, que encontramos como ex libris de cidades ou vilas, ou então em lugares recônditos, quase escondidas. Outras, concebidas em épocas diversas da nossa História, evoluíram com o passar do tempo, modificando-se sucessivamente para se adaptarem às necessidades de utilização. E muitas são verdadeiros prodígios da engenharia, ícones de metal ou betão que identificamos facilmente com um simples olhar e se impõem como elementos dominantes na paisagem.

Ponte Luiz I, porto.JPG

 

A ponte internacional mais pequena do mundo liga Portugal a Espanha. TTem 6 metros de comprimento e 1,95 metros de largura e está construída sobre a ribeira de Abrilongo. Partilhada entre o nosso Alentejo e a Extremadura espanhola, une as localidades de Marco/El Marco, que na realidade são uma única aldeia onde se fala português. Durante muitos anos não foi mais do que uma rudimentar ponte pedonal em chapa metálica com um corrimão, que por vezes era arrastada pela corrente da ribeira se ocorriam chuvas mais abundantes. Há alguns anos foi construída uma nova ponte com suporte metálico e tabuleiro e protecções laterais de madeira.

Ponte do Marco, Alentejo.JPG

 

Fica na aldeia da Carrasqueira, junto ao rio Sado, o maior cais palafítico da Europa. Começou a ser construído nos anos 50 do século passado pelos pescadores que queriam aceder às suas embarcações durante a maré vazia, quando as margens do rio estão lamacentas e pantanosas. É uma obra-prima da arquitectura popular, uma rede irregular de passadiços feitos com tábuas pregadas sobre estacas de madeira que se tem mantido relativamente inalterada ao longo das décadas. De aspecto enganadoramente frágil, estende-se ao longo de algumas centenas de metros pelo estuário do rio adentro e abriga os pequenos barcos de pesca coloridos dos cada vez menos pescadores que ainda se mantêm activos naquela zona.

Cais palafítico da Carrasqueira, Setúbal.JPG

 

No nosso país há milhares de aldeias, na sua maioria riquíssimas em história, tradição, gastronomia, cultura e valor artístico. Algumas são famosas e recebem inúmeros visitantes todos os anos; outras, apesar de praticamente desconhecidas, são verdadeiras jóias com um património antiquíssimo para conhecer, tradições que perduram desde há séculos, histórias que merecem ser contadas e ouvidas. A desertificação galopante de grande parte das nossas aldeias tem vindo mais recentemente a ser contrariada pela necessidade crescente de regressar às origens e ao respeito pela natureza (e também pelo seu interesse turístico), o que está a provocar o ressurgimento progressivo de algumas delas.

 

Portugal é um país de mar. Temos mais de 940 km de linha de costa em Portugal Continental e quase outro tanto nas ilhas, extensas faixas de areia alternando com falésias rochosas de onde temos vistas amplas sobre o Atlântico. O mar é a nossa vocação: trouxe-nos glória no passado, é uma ânsia no presente, e quem sabe se não será ele o nosso futuro. E é o mar que nos dá as ondas célebres que fazem do nosso país uma das mecas do surf mundial.

Praia da Ursa, Sintra.JPG

 

As nossas praias são excelentes. No continente são de areia fininha e clara, com águas frescas na costa oeste e mais amenas no Algarve. Nas ilhas há de tudo um pouco. Quanto às praias fluviais, crescem de ano para ano em quantidade e qualidade. E todas elas nos oferecem paisagens que enchem os olhos e o coração.

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Em Portugal Continental temos quase 3 mil horas de sol por ano e o nosso clima é predominantemente temperado, o que nos torna um país a que toda a gente se adapta com facilidade, seja em férias ou para viver. Se pensarmos que a maioria dos países europeus, por exemplo, não chega a ter 2 mil horas de sol por ano e tem temperaturas médias bem abaixo das nossas… não é difícil perceber as nossas vantagens.

 

Portugal é um país líder no recurso às energias renováveis. Entre 31 de Outubro e 6 de Novembro de 2023 batemos mais uma vez o nosso recorde do número de horas/dias em que a produção em termos de energias renováveis foi suficiente para suprir o consumo: 149 horas (mais de seis dias consecutivos). Foram produzidos 1102 GWh, mais do que o consumo nacional durante o mesmo período (840 GWh). Em 2022, a contribuição das fontes de energia renovável no consumo final de energia (incluindo consumos não energéticos) foi de 32%. E na Europa, somos o sétimo país que mais consome energia vinda de recursos renováveis.

Serra de São Macário.jpg

 

O calçado português é dos melhores do mundo. Conhecido desde sempre pela qualidade dos seus produtos, este sector tem vindo a evoluir exponencialmente desde os anos 90, aliando as novas tecnologias à criatividade e à flexibilidade logística e produtiva. Com a aposta nos produtos personalizados e de grande valor acrescentado, as exportações cresceram durante oito anos consecutivos e o calçado português passou a ser o segundo mais caro a nível mundial.

 

A cortiça é um dos nossos produtos naturais mais característicos. Temos em Portugal a maior extensão de sobreiros do mundo (33% da área mundial), pelo que não é de admirar sermos os maiores produtores e exportadores de cortiça – que além de tudo o mais é um produto totalmente reaproveitável e extraído manualmente sem danificar a árvore. O maior, mais antigo e mais produtivo sobreiro que existe no mundo foi plantado no ano de 1783 em Águas de Moura (Alentejo) e deram-lhe o nome de Assobiador. Foi eleito a mais bela árvore da Europa em 2018 no concurso “Tree of the Year”.

 

Há três oliveiras portuguesas entre as árvores mais velhas do mundo. A oliveira do Mouchão, em Mouriscas (Abrantes) tem a provecta idade estimada de 3350 anos. Em Santa Iria de Azóia, perto de Lisboa, sobrevive e ainda dá azeitona a oliveira a que chamam Portugal e se calcula ter cerca de 2850 anos. A mais jovem das três está em Monsaraz e terá à volta de 2450 anos.

Oliveira milenária, Santa Iria da Azóia.JPG

 

Em Portugal come-se maravilhosamente. A gastronomia tradicional portuguesa é rica e variada, usamos ingredientes que pouco ou nada são usados noutros países, tudo nos serve para fazer um prato delicioso. Temos vários tipos de sopas, cozinhamos a carne e o peixe de todas as maneiras e feitios, e temos dezenas de variedades diferentes de pão. Ninguém prepara o bacalhau como nós, nem com tanta imaginação. Adoramos inventar petiscos, e até a nossa comida de rua e o fast food são acima da média. Preferimos o azeite às outras gorduras e há séculos que sabemos usar bem os condimentos. E haverá algum outro país que tenha tanta diversidade de doces como nós? O café é praticamente uma instituição em Portugal; qualquer rua tem pelo menos uma pastelaria ou tasca onde se pode matar a fome ou a sede. E como se tudo isto não bastasse, ainda temos um sem-número de restaurantes de fusão, gourmet, vegetarianos ou com comidas típicas dos quatro cantos do mundo.

Arroz de sarrabulho, Ponte de Lima.jpg

 

Os vinhos portugueses são únicos e originais. Já na época da ocupação romana se exportavam vinhos produzidos no nosso território, o que quer dizer que produzimos bons vinhos desde há mais de dois mil anos. Um estudo de 2013 identificou 248 variedades de castas vinícolas indígenas de Portugal, consideradas pelos maiores especialistas como um “tesouro”. Isto faz com que os nossos vinhos tenham uma originalidade e uma variedade inigualáveis, a par com uma enorme qualidade – mesmo quando o seu preço não é elevado – razão pela qual o nosso país é uma referência entre os produtores vinícolas a nível mundial e as suas exportações de vinho têm vindo a crescer consistentemente.

 

Poderia facilmente continuar aqui a enumerar razões pelas quais Portugal merece ser conhecido, visitado e apreciado, porque neste caso elas também são como as cerejas e vêm umas atrás das outras. Só que este post arriscar-se-ia assim a ser interminável, e no fundo a minha missão passa simplesmente por vos incentivar a todos a continuarem a descobrir Portugal. Aceitam o desafio?

 

(Adaptado de um post no blogue Viajar Porque Sim)

Mercearias

Sérgio de Almeida Correia, 21.04.24

Douro Boys | ENOBAHIA

Aproveito a VI Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau), mais conhecido como Fórum Macau, e a vinda à RAEM do novo ministro da Economia de Portugal, Pedro Reis, para escrever algumas linhas sobre um problema de natureza prática que afecta a reputação de Portugal no exterior. Penso que nenhum governante minimamente interessado e competente deixará de prestar atenção às consequências das más apostas e das boas políticas, pois qualquer que seja o caso perduram no tempo. E, nalguns casos, colam-se de tal forma ao país que muitas vezes se torna difícil, quando o produto é mau, recuperar de um desastre. 

Ainda tenho na memória a crise que se abateu há quatro décadas sobre as exportações de azeite espanhol depois da crise da síndrome da colza ou do azeite tóxico, que afectou mais de 20 mil pessoas e provocou mais de um milhar de mortos. Tudo porque o óleo de colza desnaturado que era utilizado na indústria, devido à ganância do lucro, foi adulterado e desviado para consumo humano. O Supremo Tribunal espanhol considerou o Estado espanhol co-responsável pelo sucedido e o azeite de Espanha levou um abanão do qual levou anos a recompor-se. Em 2001 foi o óleo de bagaço de azeitona com benzopireno, um produto cancerígeno e péssimo para a saúde, a causar novos problemas.

Aqui o assunto não é tão grave e o exemplo serve apenas como chamada de atenção para o importante papel que o Estado, e neste caso específico o Ministério da Economia, tem na definição de políticas, na promoção das nossas exportações e no papel que algumas instituições devem assumir na defesa do nome de Portugal e dos bons produtores nacionais.

Ao longo da minha vida, e até da conversa com amigos que exploram negócios, nomeadamente restaurantes e lojas de venda a retalho de produtos alimentares (vinhos, enchidos, queijos, produtos de cosmética, por exemplo) em diversos pontos da Ásia, tenho-me apercebido da necessidade de se fazer uma aposta na qualidade dos produtos que são exportados pelos produtores portugueses, que aparecem  e saõ apoiados em campanhas promocionais no exterior, participando em feiras internacionais por todo o mundo. Muitos produtores têm eles próprios capacidade de inovação e de internacionalização e estão cientes da importância de se exportar com qualidade. Veja-se o caso dos Douro Boys e como a sua aposta no melhor vinho que se produz na região que abraça o rio que lhes deu nome se tem revelado um sucesso na China. 

O programa do XXIV Governo de Portugal enfatiza em diversos pontos uma aposta na internacionalização e no aumento de competitividade da economia portuguesa, referindo mesmo a aposta num “novo paradigma da economia portuguesa”, a exigir instituições e um tecido empresarial capaz de se posicionar entre os melhores a nível europeu e mundial, orientando os fundos europeus para “proje[c]tos que permitam à economia promover a criação de riqueza, que potenciem as vantagens competitivas nacionais e que elevem o valor acrescentado da economia portuguesa e que promovam as exportações, assente em critérios de sele[c]ção claros, uma aplicação transparente e fiscalização rigorosa.”

Oxalá assim seja. Quem circule pelos supermercados de Macau, de Hong Kong e de outras cidades asiáticas, já se terá apercebido da co-existência nas suas prateleiras e corredores de produtos portugueses de excelente qualidade, apreciados e venerados por qualquer gastrónomo ou enófilo, com outros produtos de péssima qualidade. Do pior que se produz e vende inclusivamente em Portugal. Estar a exportar presunto com menos de seis meses de cura, intragável, queijos industriais que são uma verdadeira pasta, peixe “prensado” e muitas vezes congelado em deficientes condições, de péssimo sabor, cheiro repelente e pior textura, são produtos exportáveis que em nada contribuem para uma boa imagem do país no exterior. 

E, ao contrário do que já ouvi por aí, não se trata apenas de um problema de mercado do tipo “se o consumidor não gostar não volta a comprar”. Porque da primeira vez pode vender-se tudo; depois  exporta-se uma segunda vez, para já não se vender como da primeira ou ser comercializado no destino, em final de prazo, com 50% de desconto. Os consumidores têm boa memória e dificilmente haverá uma terceira vez porque a seguir virá produto idêntico de Espanha, do Chile, de Itália ou da Austrália, a preços igualmente competitivos e de melhor qualidade. 

O Ministério da Economia deverá conduzir internamente  campanhas massivas de consciencialização dos produtores nacionais para a imperiosidade de se produzir com qualidade para a exportação. E através do AICEP e da rede consular tem de fazer um aposta nessa qualidade, no melhor que somos capazes de produzir para diferentes segmentos de mercado, mas que terá de ser necessariamente acessível a várias bolsas nos países de destino. 

O que não se pode de todo é apoiar as exportações e a presença em certames internacionais apenas por apoiar. Tem de haver critério, tem de haver selecção nos apoios e no que se deixa sair. Não pode haver apoio, seja a que nível for, à exportação da mediocridade. Não se podem exportar nacos de banha dentro de tripa com o rótulo de “chouriço tradicional” porque nem é chouriço nem é tradição em parte alguma do país comer o que não presta.

Isto não significa, obviamente, promover as empresas dos amigos e correligionários do partido que estão sempre disponíveis para agilizar negócios, financiá-las e abrir a porta dos fundos aos fala-barato que travestidos de empresários ou fazendo de "secretários de Estado", andam por aí e vão percorrendo a rede consular, visitando os amigos e “irmãos”, falando de cátedra sobre a política nacional, como se fossem umas drag queens, arregimentando apoios para as próximas eleições, enquanto gesticulam muito e vão amealhando comissões de intermediação à custa de um lobbying fomentado à sombra das juventudes partidárias e que não raro dificilmente se distingue do tráfico de influências.

Os exemplos que nos chegam de França, de Itália, da África do Sul, da Austrália, da América do Sul, ou de países europeus com a dimensão de uma Dinamarca, de uma Bélgica ou dos Países Baixos, mostram que é possível produzir a preços competitivos, com qualidade e exportar em quantidade. Portugal também pode e deve fazer o mesmo. Já que não somos capazes de segurar os nossos melhores dentro do país, ao menos que sejamos capazes de exportar o melhor. Que chegue a todos e a preços competitivos. Olhem para a rapaziada dos Douro Boys. Não será muito difícil fazer como eles, ganhar escala, dimensão e cultivar a excelência. E que não haja medo. A qualidade dá sempre frutos a médio e longo prazo. 

Por uma vez sejamos inteligentes e façamos alguma coisa por Portugal e os portugueses. A começar com o que enviamos para a China e os PLP. As câmaras de comércio, os consulados e o AICEP não servem só para jantaradas. Deles se espera que sejam úteis e façam o melhor por Portugal. Muitos já o fazem. É preciso alargar a rede e cultivá-la com critério, controlando o que de mau sai de Portugal para o exterior. E aí é fundamental o papel do Ministério da Economia. Não sejamos tolerantes com a mediocridade. Ainda que seja da nossa cor política.

Um dos mais comentados

Pedro Correia, 14.04.24

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É já um dos dez postais mais comentados de sempre neste blogue. Este, sobre a louvável decisão do Governo de mandar às malvas o "criativo" logótipo que punha fim à bicolor bandeira portuguesa, tornando-a numa réplica quase perfeita da tricolor bandeira da República do Mali.

O autor da referida réplica que pretendia «renovar» o símbolo nacional lavrou em público o seu protesto, insurgindo-se abertamente contra a mudança. Com a mesma veemência que já havia usado antes, numa entrevista em que confessou: «Não me revejo na bandeira portuguesa.»

O senhor, que pela empreitada encomendada pelo executivo socialista recebeu 74 mil euros, merece ser ressarcido. Talvez com a oferta de um voo aéreo em classe executiva para o Mali. Com bilhete só de ida, para ali poder inspirar-se devidamente antes de executar novo trabalho "criativo". Aqui deixo a sugestão. Sem cobrar nada.

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Lost in Fuseta soma e segue

Cristina Torrão, 07.04.24

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Esta saga delituosa começou a 6 de Julho de 2019, quando escrevi sobre policiais alemães, tendo Portugal como cenário (os chamados Portugal-Krimis). Entre eles, estava Lost in Fuseta, de autoria de Gil Ribeiro, sobre o comissário alemão Leander Lost, que vai parar a Fuseta, num qualquer intercâmbio. Com a síndrome de Asperger, Leander Lost possui uma memória fotográfica e não compreende o ilógico. Além de ser incapaz de mentir, não reconhece a ironia, criando situações hilariantes.

Passado três anos, o postal teve direito a mais um comentário. Paula Bonifácio Vilas referiu que a televisão alemã ia passar o filme Lost in Fuseta, a 10 de Setembro de 2022. De facto, o ARD transmitiu dois episódios seguidos (de hora e meia cada), referentes à chegada de Leander Lost ao Algarve e ao seu primeiro caso. Esta foi, por assim dizer, a primeira temporada da série. Passado quase mais um ano, o intrigante comissário alemão chegava à televisão portuguesa. Através da comentadora Manuela Regueiras, ficámos a saber a RTP 2 haver transmitido esses episódios no fim-de-semana de 12 e 13 de Agosto de 2023.

Mas o Leander Lost veio para ficar (pelos vistos, também aqui no Delito). Tendo aquela primeira experiência resultado em boas audiências, o ARD decidiu dar seguimento à série (na versão livro, já vai em seis volumes). Foi transmitida mais uma temporada, de igualmente dois episódios, desta vez, em separado: o primeiro, na passada quinta-feira, e o segundo ontem, dia 6.

Enfim, não admira que o 1.º canal alemão aposte neste policial. O autor dos livros, que se “esconde” por trás do pseudónimo Gil Ribeiro, é, na verdade, um conhecido guionista de telefilmes e séries, vencedor de vários prémios, de sua graça, Holger Karsten Schmidt. A ele é dedicada a pequena caixa, à direita, intitulada “FilmInfo”, acompanhando o anúncio de transmissão do episódio de quinta-feira:

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Escusado será dizer que o próprio Holger Karsten Schmidt escreve os guiões para as filmagens dos livros do seu próprio pseudónimo.

No anúncio do episódio transmitido ontem, a caixa “FilmInfo” serve para sugerir Fuseta como destino de férias. Pois, atenção: Fuseta não é fruto da imaginação de Gil Ribeiro/Holger Karsten Schmidt, existe realmente! Acrescenta-se, no entanto, duvidar-se que uma localidade de apenas 2000 habitantes dê tanto trabalho à Polícia Judiciária. É verdade. Mas que temos nós contra um famoso guionista alemão, que adoptou um pseudónimo português e leva Fuseta e Faro como cenário de policiais de bastante sucesso aos leitores e espectadores alemães?

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Por vezes, não me é claro se o cenário é a capital algarvia, ou a terra da “tia Anica”. Sou uma nulidade nessa matéria, só estive duas vezes no Algarve e uma única em Faro. Mas, enfim, para os alemães é igual ao litro. Além disso, a trama é cheia de suspense, mesmo que, para isso, sejamos levados a fechar os olhos a algumas incongruências. Desta vez, a origem dos crimes estava num complô angolano e, apesar de dois dos protagonistas pertencerem aos Serviços Secretos desse país desde antes da sua independência, não pareciam muito velhos. Enfim, a um deles, poderíamos, com muito boa vontade, dar-lhe setenta e poucos anos, mas ao outro, diria que, no máximo, cinquenta.

Mas para que havemos de ser esquisitos? Leander Lost é bem capaz de levar ainda mais turistas ao Algarve (Fuseta que se prepare, pois tornou-se “location” a visitar). E não é todos os dias que vemos uma produção televisiva alemã, transmitida em “prime-time”, cheia de expressões portuguesas. Além dos clássicos “olá”, “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “como está”, pode-se ouvir, por exemplo, “polícia judiciária”, expressões culinárias e, claro, uma catrefada de nomes. Em relação a um deles e respectivo diminutivo, Holger Karsten Schmidt permite-se mesmo uma piada alusiva à sua frequência: “Qual Toninho? O filho do padeiro ou do carteiro?”; “Penso que nenhum desses dois”.

"Au revoir" Mali, regressamos a Portugal

Pedro Correia, 04.04.24

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No discurso da tomada de posse do novo Governo, anteontem, Luís Montenegro anunciou que a comemoração dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões - vulto maior da cultura portuguesa, figura com dimensão universal - será devidamente assinalada. Colmatando a chocante omissão do Governo anterior.

Garantiu também o fim do ridículo logótipo do executivo socialista, que há cinco meses tinha decidido "cancelar" o escudo nacional, pagando 74 mil euros por tal aberração. Recuperamos o nosso símbolo secular - que serve de traço de união entre regimes, ideologias e gerações. Numa linha de continuidade histórica.

O primeiro-ministro recém-empossado não se contentou com o anúncio: já levou a promessa à prática (ver imagem acima). Deixamos de nos confundir com a bandeira do Mali - na versão que reproduzo aqui em baixo, sem nostalgia alguma.

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Mali, Senegal ou Congo: é só escolher

Pedro Correia, 18.01.24

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Reparo no logótipo eleitoral 2024, que vi aqui pela primeira vez.

Passámos mesmo então a ter oficialmente três cores listadas: verde, amarelo e vermelho. Como o Mali, o Senegal, a Etiópia, a Guiné, o Congo, Benim, Gana ou os Camarões. Por vontade do Executivo com maioria absoluta de menor duração da nossa história democrática.

Enfim, um governo absolutamente incapaz de fazer reformas ao fim de oito anos de mandato ininterrupto encontrou aqui um desígnio reformista: transformar a bicolor bandeira portuguesa em tri - talvez como símbolo da "interseccionalidade", ou lá como chamam a essa treta.

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Mas se o amarelo da esfera armilar tem pujança suficiente para ser promovido a faixa cromática autónoma, emparceirando com o verde e o vermelho, por que raio discriminar o azul e o branco, que também pigmentam o escudo nacional?

Eis outra sugestão "reformista", agora já só possível de aplicar na próxima legislatura. Uma bandeira pentacolor. À atenção de quem se prepara para congeminar o programa eleitoral do P(Nuno)S.

Entretanto, deixo aqui três cromos. Com as bandeiras de alguns dos países africanos a que estes génios da desgovernação nos querem equiparar. Façam o favor de escolher qual é a da vossa preferência.

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Bandeira do Mali

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Bandeira do Senegal

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Bandeira do Congo

Facto nacional de 2023

Pedro Correia, 16.01.24

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QUEDA DO GOVERNO DE MAIORIA ABSOLUTA

Em 2022, o PS emergia eufórico das urnas: acabara de conquistar a segunda maioria absoluta da sua história - a primeira havido sido em 2005, com José Sócrates. António Costa via-se inesperadamente premiado pelos eleitores após uma campanha desastrosa do PSD, em que Rui Rio foi acumulando erros do princípio ao fim. Com o BE e o PCP a pagarem o preço político de terem contribuído para a geringonça durante quatro anos e chumbado o Orçamento do Estado de 2022.

Mas o impensável aconteceu: o PS absoluto revelou-se muito mais frágil do que o PS relativo. O Governo recauchutado de Costa protagonizou uma sucessão de monumentais trapalhadas - desde os 14 ministros e secretários de Estado que foram abandonando o barco pelos motivos mais diversos até à inenarrável nomeação de João Galamba para ministro das Infraestruturas e à sua manutenção no cargo, contra todas as evidências e o parecer expresso do Presidente da República, por obstinação do chefe do Executivo, já desligado da realidade.

Tinha tudo para correr mal. E correu mesmo. O copo transbordou em 7 de Novembro, com o anúncio de que Galamba estava a ser investigado pelo Ministério Público, tal como o "facilitador" Diogo Lacerda Machado (melhor amigo do primeiro-ministro) e o próprio chefe de gabinete de Costa, Vítor Escária - este apanhado com 75.800 euros em notas escondidas no gabinete de São Bento, a escassos 20 metros da secretária do chefe do Governo. Pior ainda: o próprio Costa era alvo desta "Operação Influencer" por suspeita do crime de prevaricação.

«Obviamente, apresentei a minha demissão a sua excelência, o senhor Presidente da República», declarou o primeiro-ministro ao princípio dessa tumultuosa tarde. Marcelo Rebelo de Sousa anunciaria depois a dissolução da Assembleia da República a 15 de Janeiro (concretizada ontem) e a marcação de eleições legislativas antecipadas para 11 de Março. Virava-se a página, nada voltaria a ser igual.

 

Esta estrondosa queda do Governo de maioria absoluta foi eleita, por larga maioria, o Acontecimento Nacional de 2023 pelos autores do DELITO DE OPINIÃO. Que aqui, como em qualquer outro capítulo das nossas escolhas anuais, podem sempre votar em mais de um tema.

«Inenarrável, tanto o Governo, como a sua queda» - foi um dos comentários registados. «Apenas um ano depois de Costa nos garantir que iriam ser mais quatro anos», houve quem lembrasse. Enquanto a «descoberta de 75.800€ em dinheiro escondidos no gabinete contíguo ao de António Costa» justificava menção específica.

 

Em segundo lugar, não muito distante, ficou o colapso do Serviço Nacional de Saúde - tema que percorreu todo o ano de 2023 em Portugal e já se prolongou para 2024. Algo «gravíssimo», sublinhou um dos autores deste blogue. Enquanto outra voz se levantava para destacar isto: «Foi o facto de maior impacto directo na vida dos cidadãos deste país e é o exemplo acabado da falta de visão e má gestão dos sucessivos governos desde há muitos anos.» Já em 2022 este assunto fora aqui mencionado, oscilando entre as designações "caos nos hospitais" e "derrocada no SNS".

Terceiro lugar para a histórica Jornada Mundial da Juventude, que congregou em Agosto cerca de milhão e meio de visitantes, jovens na sua esmagadora maioria, transfigurando durante mais de uma semana a face de Lisboa. Também com a presença do Papa Francisco, nesta sua primeira visita à capital portuguesa enquanto dirigente supremo da Igreja Católica. 

 

Três outros factos, cada qual com um voto. Passo a enunciá-los para ficarem lavrados em acta como sempre sucede, ano após ano, no nosso blogue:

- Revelações sobre abusos sexuais na Igreja (facto já mencionado no ano anterior).

- A bicicleta atirada contra as portas de vidro do Ministério do Ambiente: «É o símbolo de muito, senão de tudo o que sucedeu, ainda por cima coroado de rídiculo e inverosímil. Quando tentei explicar o que tinha sucedido a colegas estrangeiros, riram-se na minha cara, com imensa dificuldade em acreditar.» 

- A decadência generalizada do regime, envolvendo acontecimentos já mencionados e alguns outros. Desta forma: «A queda do Governo; o afundamento do SNS; a estultificação do ensino público; o caso Galamba; a novela TAP, o que se descobriu na CPI e foi pressurosamente varrido para debaixo do tapete; 75 mil euros em notas encontrados escondidos em São Bento; a promiscuidade na gestão dos assuntos públicos.»

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

Facto nacional de 2014: derrocada do Grupo Espírito Santo

Facto nacional de 2015: acordos parlamentares à esquerda

Facto nacional de 2016: Portugal conquista Europeu de Futebol

Facto nacional de 2017: Portugal a arder de Junho a Outubro

Facto nacional de 2018: incúria do Estado

Facto nacional de 2019: novos partidos no Parlamento

Facto nacional de 2020: o vírus que nos mudou a vida

Facto nacional de 2021: vacinação em massa

Facto nacional de 2022: o regresso da inflação

Liberdade sim, mas só para nós

Pedro Correia, 03.01.24

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Meio século depois do 25 de Abril, chegámos a isto: queremos a democracia para nós enquanto toleramos e até aplaudimos a implantação de ditaduras noutros quadrantes. Tenho pensado nisto enquanto escuto à minha volta várias vozes mostrando indiferença ou até uma discreta simpatia pelos regimes de Cabul e de Teerão, entre outros.

Ao ouvir isto concluo, uma vez mais, que pecamos por falta de apego à liberdade. Tenho a convicção de que muitos portugueses não se importariam de voltar a ver por cá um regime "musculado". Só isso explica a defesa que fazem, nas redes sociais, dos regimes autoritários ou ditatoriais implantados além-fronteiras.

 

O mais contraditório é que muitas das pessoas que emitem opiniões deste género estão sempre a enaltecer o "nosso" 25 de Abril. Enquanto negam que outros povos tenham o seu próprio 25 de Abril. Democracia aqui, tudo bem; ditadura noutros países, tudo bem também.

«Não me venham falar em direitos humanos», vou lendo e escutando demasiadas vezes. Frase que poderia ter sido proferida por Salazar, reeditada neste Portugal do século XXI. Como se a atracção pelos regimes de "pulso forte" estivesse inscrita no nosso código genético. E se calhar está mesmo.

Por ocasião da data da Restauração *

Paulo Sousa, 07.12.23

Na passada sexta-feira celebramos o Feriado da Restauração. No primeiro de Dezembro de 1640 restauramos a nossa independência da coroa espanhola e reassumimos o controle do nosso destino. Portugal e Espanha são hoje países muito diferentes do que eram então. Importa também lembrar que desde a sua génese, a natureza política da unidade dos dois países ibéricos foi sempre muito distinta. Em contraste com a nossa homogeneidade, Espanha é um estado multinacional, que alberga dentro de si diferentes identidades, línguas e sensibilidades. Nesse sentido, podemos dizer que de entre todos os povos ibéricos que assim o desejassem, os portugueses foram os únicos que alcançaram a pretensão de não serem espanhóis. Olhando para o que por lá se passa nestes dias e para as confusões que a nossa conquista de 1640 nos poupa, encontraremos fortes motivos para celebrar.

Alargando o olhar, numa actualidade recheada de lutas e reivindicações protagonizadas por movimentos identitários, o caso português é uma notável excepção. Com as fronteiras terrestres mais antigas do mundo, Portugal, uma nação antiga, tem, juntamente com o Brasil, quase o exclusivo dos casos em que a sua língua coincide rigorosamente com o seu território, ou seja, saindo do país em qualquer direcção, sai-se igualmente do espaço da língua nacional. Na Europa isso não acontece em nenhum outro país. Fala-se francês na Bélgica, mas não na Córsega, fala-se italiano na Suíça, mas não na Sardenha, fala-se alemão na Alemanha, mas também Áustria, em algumas regiões da Finlândia a língua dominante é o sueco e fala-se finlandês numa parte da Rússia, fala-se grego em partes da Albânia e também no Chipre. Os exemplos seguem para fora do mapa da Europa.

Não podemos dizer que este estado de excepção de que beneficiamos seja de nosso exclusivo mérito, pois foi a geografia que nos permitiu essa graça. Localizados onde a terra acaba e o mar começa, nos nossos longos séculos de história fomos apenas invadidos pelas tropas napoleónicas que por cá andaram pouco tempo. Pelo contrário, no centro e leste da Europa, inúmeras cidades já pertenceram a diferentes reinos e impérios, levando a que por aí coexistam diferentes credos, línguas e alfabetos.

Enquanto pilar identitário, a língua portuguesa tem ainda outras particularidades interessantes. Todos os países que a partilham, são banhados pelo mar e todos eles são rodeados por países de línguas diferentes, o que me permite imaginar a língua portuguesa como um arquipélago, que só pode ser ligado pelo mar.

Num mundo em ebulição, em que se recorre à força para tentar impor identidades, a homogeneidade da identidade dos portugueses é um tremendo factor de estabilidade que nos poupa a imensos desassossegos e sobressaltos e é também isso que celebramos neste primeiro de Dezembro.

Brindemos então à nossa relativa independência e à nossa sólida identidade.

 

* Texto publicado no jornal O Portomosense

Tudo do avesso

Sérgio de Almeida Correia, 24.11.23

konstantin-2-696x793.png(Konstantin Bessmertny)

É natural que a Procuradora-Geral da República possa dizer com toda a naturalidade "Não me sinto responsável por coisa nenhuma", o que aliás parece não ser coisa nova lá para os lados do rectângulo.

E estou em crer que é uma visão partilhada, comungada e subscrita por todos os que por ali tudo cumprem escrupulosamente sem que ninguém seja responsável por coisa nenhuma.

Veja-se, por exemplo, o Conselho de Estado de onde sai tudo, ninguém confirma, todos se desmentem, sem que ninguém viole as suas obrigações de sigilo.

E deve ser tudo tão natural que até é um juiz, titular de órgão de soberania e sindicalista, quem vem publicamente fazer de defensor oficioso da actuação do Ministério Público, não obstante as minhas dúvidas sobre se isso será compatível com o dever de reserva que sobre ele impende e decorre do respectivo estatuto.

Mas depois de ver magistrados jubilados, um deles conselheiro, a exercerem funções pouco compatíveis com o seu estatuto e, pelo menos num caso, sem o conhecimento do CSM, em Macau, presumo que tudo isso devam ser apenas consequências menores de frases infelizes, minudências, bizarrias e disfuncionalidades sistémicas da alegre vida das corporações e dos partidos que cuidam de nós.

 

P.S. Então e o Sócrates publica as memórias antes ou depois de ser julgado? Temo que, entretanto, ao tempo que as coisas duram, também fiquem todos afectados pelo Alzheimer, como o outro. 

"O modo português de ser socialista"

jpt, 12.11.23

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Nos governos de Sócrates houve uma constante defesa daquele líder, independentemente do que era tão óbvio. Nisso se afadigaram militantes do PS, e basta recordar as maiorias "albanesas" que Sócrates obtinha nos congressos do partido. E também os simpatizantes foram "activistas" produtores da nuvem de fumo que pretendia esconder a malandragem governativa. E não seria necessário recordar esse período não fosse ter vária dessa gente transitado para os governos de Costa, como Fernando Medina ou Augusto Santos Silva - esse que agora vai ao Conselho de Estado afirmar que é necessário "pôr em ordem o Ministério Público", e que foi o único governante socialista que gozou a população por causa do escândalo do socratismo, ao dizer-se "parolo" por não ter percebido o detalhe do seu homónimo e alegado "financiador" do neto do volframista, nisso tanto demonstrando o seu desplante avesso à democratização do país. Ou recompensados com tenças em Estrasburgo/Bruxelas, como o braço-direito Silva Pereira, ou Marques e Leitão Marques. E também muitos desses militantes e ou simpatizantes, então, pois mais jovens, apenas frenéticos publicistas do socratismo, ascenderam ao governo, como o célebre Galamba ou o agora mui mudo Adão e Silva.

Tendo regressado ao poder, após o hiato da gestão da quase catastrófica crise financeira global, o PS de Costa tentou barrar o processo ao socratismo. E o afastamento de Marques Vidal da PGR foi o caso mais sonante, no fundo uma manobra desse desejado "pôr em ordem o Ministério Público", para além de todas as manobras de controlo da comunicação social - e será de lembrar que chegaram ao ponto de nomear como responsável da informação do serviço público uma prima de Costa, que se viu obrigada a demitir-se tais práticas teve nesse posto. Depois, tão insuportável era o conúbio com a imagem de Sócrates que o PS decidiu dele se apartar, deitar borda fora aquele lastro para resistir à tormenta: o ardil foi simples, em dias consecutivos num final de semana, o presidente do partido Carlos  César, a célebre Câncio, renomada publicista socratista, e Galamba, então mero deputado e criatura de Sócrates, vieram demarcar-se publicamente do ex-primeiro-ministro.

Assim enviado o fedorento cadáver político às revoltas águas da Ericeira o PS de Costa seguiu livre no poder. Entre inúmeros - e tantos deles patéticos - "casos e casinhos" a pax costista estabeleceu-se. Primeiro com o apoio dos partidos comunistas, seduzidos por algumas prebendas redistribrutivas para as suas bases e clientelas. E depois sozinhos, por quatro anos, que nos habituássemos nós. Grosso modo, as pessoas eram as mesmas, as práticas são as mesmas, as diferenças virão apenas dos trejeitos individuais.

Na passada semana "o modo português de ser socialista", para glosar Gilberto Freyre, sofreu um KO técnico. Ontem, António Costa reergueu-se e veio ao ringue apresentar a "narrativa" que o PS procurará apresentar aos seus fiéis e restantes adeptos, temerosos do que a malvada "direita" lhes fará. No fundo Costa apresentou-se como epígono de Isaltino de Morais, num trinado um pouco diferente: "temos dinheiro nos gabinetes mas fazemos".

Caberá aos jornalistas, a politólogos ou mesmo a historiadores da contemporaneidade o elencar com detalhe a miríade de "casos e casinhos", e suas articulações, destes oito anos. Para a sua compreensão será muito produtivo associá-los ao acontecido nos governos do anterior primeiro-ministro socialista. E, para uma visão mais "antropológica" - mais estrutural, por assim dizer - julgo que será relevante fazer recuar esta análise ao historial da administração socialista de Macau, molde que foi do modus faciendi das posteriores gerações de políticos daquele  partido. Cujos últimos restantes agora (definitivamente?) colapsam.

Trata-se de um partido de gentes que já há mais de vinte anos estavam incapazes de rebelarem contra os presidentes Soares abraçado ao fugitivo Craxi, ou Sampaio abraçado a Abílio Curto, sempre em nome de uma tal de "amizade". Ou seja, o que hoje se passa não é um momento, é sim fruto de uma mundividência colectiva, predominante naquele partido. Sendo assim, o PS não se regenerará, sofre de necrose política. Estuporado diante da visão de Madrid é incapaz de sopesar, e nisso actuar sobre si mesmo, o que aconteceu aos seus congéneres de França, Grécia, Itália... Pois o problema não é "Costa", é tudo aquilo. E, para mal dos nossos muitos pecados, diante de toda esta decadência temos o pior presidente da República do nosso regime, o mais incompetente pois o mais ininteligente, uma total inadequação sobre a qual me repito desde há muitos anos. É assim necessário sublinhar isto: estamos muito mal entregues. Pois assim o votámos.

Entre a incessante série de comentários recebidos sobre a actual situação escolho divulgar estes três. Porque dizem tudo o que é básico sobre a torpe "narrativa" que António Costa quer legar ao seu partido. 

 

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Prontos para continuar

Sérgio de Almeida Correia, 09.11.23

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(créditos: Miguel A. Lopes/Lusa)

Depois das belas mistelas que têm andado a fazer na cozinha e na copa desde que a despensa ficou à sua guarda, e em que ainda não se percebeu o que esteve o Chef a preparar durante quase dois anos, é natural que a louça suja se acumule, os copos estejam um nojo e cheios de dedadas e marcas de batom, as baratas corram vertiginosas de um lado para outro, haja restos de comida pelo chão, as luvas se apresentem com cortes, todas encharcadas por dentro e a cheirar mal, os puxadores das gavetas impregnados de restos de comida e o chão pingado e pegajoso, onde são visíveis as marcas das pegadas dos ajudantes da copa com restos de farinha e massa, sendo impossível no meio de tanta falta de higiene e ausência de limpeza distinguir os panos que servem para limpar a bancada dos que são usados para enrolar as tortas.

Não obstante, há sempre um figurão de roupão e pantufas, que chegou com o anti-ciclone dos Açores e passa a vida a entrar e a sair da cozinha enquanto vai espreitando para dentro do frigorífico a ver se já lá estão as lampreias e os fios de ovos, não escondendo nesse ínterim o afã dos dedinhos sapudos na recolha de umas lascas de presunto caídas na banca, perguntando a todos aqueles com quem se cruza e que envergam avental se a mesa já está posta e o vinho escolhido.

Não, não está e já não vai estar.

Porque com o lote de ajudantes respeitáveis, com experiência de alta culinária, doçaria conventual e salgados que arranjaram, os únicos que se alambazam são os ratos que de quando em vez são pulverizados com insecticida pelos especialistas do Palácio Palmela, razão que os motiva a continuarem as suas frequentes e prolongadas incursões às gavetas dos pacotes de bolachas e afins quando vislumbram junto ao fogão e ao forno mais movimento dos barões de polainas e das duquesas de cores garridas.

De qualquer modo, enquanto os empregados da tasca da esquina, chefiados pelo chefe de sala do Ribadouro, correm à procura de bandejas, se afadigam a colocar aventais novos e apertam os laçarotes pretos na ânsia de iniciarem funções, talvez seja melhor arranjarem uma máquina para cortar a pasta, não vá a supervisão do Banco de Portugal abrir uma investigação para apurar a razão de não guardarem, na falta de lei especial, o fundo de maneio no porta-luvas do BMW. Ou, por causa dos assaltos, no bolso do avental. 

Delítio de Opinião

jpt, 07.11.23

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(Foto de José Sena Goulão, Lusa)

Está tudo estupefacto pelo terramoto acontecido. Ainda a quente permito-me este "delítio de opinião"* diante da derrocada destes oito anos de Costa, e isto em pleno seu crescendo da arrogância "maioritária" - tão demonstrada há dias no Parlamento, naquela patuscada de Costa ao atirar Galamba para o fecho da discussão do Orçamento, óbvia afronta ao Presidente mas também a todos o que tanto criticaram não só a ascensão do publicista do socratismo como a sua manutenção e recente promoção.

Esbardalha-se Costa agora devido à teia tentacular (passe o absurdo zoomórfico) de interesses de um partido que governou o país durante 22 dos últimos 28 anos, deixando para outros - a tenebrosa "direita", dizem-nos - a gestão das monumentais crises.

Costa, talentoso, apareceu hoje a demitir-se em pose de Estado, competente. Até à "direita" lhe gabam a "dignidade política e pessoal". Assumiu que sai ciente de nada se arrepender e de nada ter incumprido, de "cabeça erguida" - e "mãos limpas" depreendeu. Apenas porque não pode haver suspeitas de comportamentos criminalizáveis de um primeiro-ministro. E nem se vitimizou, apenas se disponibilizou à "Justiça" e às "instituições democráticas".

Melíflua "dignidade". Pois nem uma palavra para o realmente relevante: teve um chefe de gabinete, e manteve-o até ao limite do possível, acusado de umas trapaças autárquicas. Substitui-o por um outro, homem de estrita confiança, agora detido. O seu grande amigo, instrumento para as negociações oficiosas, está detido. Isto é o seu pessoal mais próximo. Tem ministros arguidos - entre os quais o famigerado Galamba, alguém por quem Costa tanto finca-pé tem feito. Isto para além das inúmeras trapalhadas que se têm seguido nos seus governos, algumas das quais o pudor me impede de aludir neste momento de queda desta gente. 

Ou seja, a questão não é se Costa tem comportamentos criminosos, à imagem de um seu antecessor correligionário - e acredito que não os tenha.  O problema é estritamente político. Por um lado é individual, residindo nos critérios que este primeiro-ministro tem para escolher as suas pessoas de confiança na condução do país - que são, vê-se, paupérrimos. Tornando-o um incompetente. E, note-se, nisso indigno, pois irresponsável. Por um outro lado é colectivo - e por isso muito mais importante -, e radica no estado desde há muito degenerado do Partido Socialista, cujas elites são useiras e vezeiras em malfeitorias patrimonialistas, minando o desenvolvimento do país. E por isso durante os anos destes três últimos governos tudo fizeram para parecer que "o socratismo nunca existiu". Mas não só existiu como lhes é o âmago.

Mas após a alegria da queda deste governo, e - sonho - desta malfadada geração "socialista", logo se levanta a angustiada questão. Quem para lhes suceder? Pois urge mudar, desenvolver o país. E é óbvio que para isso nos partidos democráticos se impõem "chicotadas psicológicas", passe o futebolês. E novos modelos tácticos. Que venham, e já. Sem atentar nos pesares de algumas vaidades e anseios pessoais.

* Agradeço a CFN, veterana leitora deste blog, que logo me enviou a sua exigência de que escrevesse eu ainda hoje um "delítio de opinião"...., assim tornando irresistível o apelo.