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(...)Não

por jpt, em 09.12.18

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Neste corropio que é o hoje duas ideias são constantes: que o que acontece é novidade (ao que se junta a atribuição de "genialidade" à aparente inovação); que o que acontece é um anúncio escatológico. Não sou especialista mas sempre me parecem frutos da influência bíblica. O antropólogo David Graeber afirma este amarelismo francês como um movimento social sucedâneo dos "ocupas" americanos - o tal princípio - e diagnostica que lhe é própria a desnecessidade de uma teoria, que acção e teoria lhe(s) são conjuntas. E que aos intelectuais, assim desapossados do seu estatuto "orgânico", lhes cumpre menos falar e muito escutar.

Enfim, talvez seja. Mas Steiner escreveu um dia que "já não temos inícios". E, por outro lado, a descrença no Apocalipse vem-se espalhando, pelo menos numa Europa relativamente livre dos evangelistas que se incrustaram no poder nos EUA e Brasil, e dos coranistas que pululam nas suas vizinhanças. 

Talvez por isso me lembre do Buzinão, em 1994. Quando, inopinadamente, por iniciativa de alguns camionistas, tudo trancou no acesso a Lisboa, e a revolta da população veio ao de cima, potenciada por uma década do poder de Cavaco Silva. Sem ser preciso sms (nem sei se na altura havia telemóveis no país) ou similares formas de convocatória. O país cruzara uma década de enormes transformações, a redução da população no sector primário tinha sido gigantesca, enorme o incremento das condições de saúde e de educação, etc., coisas da entrada na CEE. Mas talvez ainda maior tivesse sido o crescimento das expectativas iludidas. Sabe-se o que aconteceu, de seguida o PSD foi derrotado. Tal como Cavaco Silva nas presidenciais e a sua carreira política terminou para sempre. Ou, pelo menos, assim se disse. 

Mas o que me é relevante é a memória de um brilhante texto de Pacheco Pereira, uma crónica num diário lisboeta - eu julgo que está publicado no seu livro "O Nome e a Coisa", mas não tenho comigo os meus livros; e googlei mas não encontro nem o texto nem qualquer referência - sobre a vida de um casal na Outra Banda, uma imensamente feliz forma de tentar consciencializar políticos e comunicadores da Boa Banda do "estado da arte" populacional. Para que pudessem entender, pelo menos alguns deles, parcelas do país que geriam e que desconheciam (e desprezariam, muitos deles com toda a certeza).

Não me vou meter a perorar sobre o conteúdo sociológico ou ideológico do Buzinão de 1994. Mas lembro-me do acontecimento por três coisas: talvez tudo isto não seja assim tão novidade, uma importação "born in USA", tão dependente de novas formas de entendimento da política, tão "movimento social". Que talvez o mundo, como o pensamos e sentimos, talvez não vá acabar, se calhar até ao fim do ano. E que sim, que são os "intelectuais" - mas muito dificilmente os avençados da Boa Banda - que podem falar, mostrando a opacidade que a partidocracia cria em seu torno, para se reproduzir. Assim fenecendo. 

E nada disto leva a concluir que as reclamações/propostas (essa amálgama teoria/prática que o conhecido antropólogo propõe como frutífera) destes "movimentos sociais" sejam "justas". De facto, como mostrou a história portuguesa, muitas vezes são apenas uns dealers a protestar com a redução dos lucros mensais. E, em geral, são apenas um gritado, ululado, (...)Não. E de Nãos está o inferno a abarrotar.

Falta pensar. Estrategicamente. Este é um bom contributo.

 

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O Frexit

por jpt, em 09.12.18

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Um grande amigo veio ontem da África Austral a Paris, para uma actividade académica, e caiu na confusão, envia-me durante a noite uma mensagem sobre o caos. As coisas foram crescendo durante o dia, o Le Monde anuncia 130 000 manifestantes e vários confrontos.

Em Portugal, enquanto o "Verdes" do BE quer legislar sobre os provérbios (deixemo-nos de rodeios, depois desta iniciativa não há qualquer dúvida, o regime acabou, está é mal-enterrado), os ur-fascistas, os comunistas e os idiotas úteis rejubilam com a deriva francesa. Já se haviam meneado com os racistas catalães, bebido uns uísques com o referendo escocês, a este sentindo qual vingança do Ultimato. E, em cada grupo à sua medida, deliciam-se com a (re)emergência dos nacionalismos mais aguerridos, míticos ou místicos, tal como o flamengo, que depois de se dulcificar para entrar no poder foi perdendo apelo e que retoma agora o caminho "durão", ou os Faragismos avulsos. Seja porque simpatizam com essa via (os tais ur-fascistas), seja porque tudo isso simboliza esta "corja" que manda (e a faz estremecer), e é "porreiro" protestar com isso, cria público para os painéis televisivos e os murais de instagram/facebook, seja porque julgam contribuir para um "amanhã que canta", a que agora chamam "alterglobalização" ou outra tralha qualquer que sobreviva no "discurso correcto". 

Símbolo da coalizão estuporada que emerge, sedimentada na aversão à democracia representativa e no sonho de reviver no mundo colonial de XX, é este pequeno fait-divers. Uma colunista conhecida, nada de esquerda note-se, clama sobre a manifestação dos "coletes amarelos" que 80 por cento dos franceses os apoiam  - na bem mais pequena Lisboa há anos uma manifestação contra a austeridade, convocada por estes meios tecnológicos que se dizem agora novos, e sem instituições por trás, induzida rizomaticamente, congregou entre 150 000 e 500 000 pessoas (os números variavam imenso, consoante os locutores). Paris tem 5 vezes a população de Lisboa, grosso modo. Quererá isso dizer, por mera aritmética, que então 400 por cento dos portugueses (e estou a optar pelos números mais baixos) estavam contra o governo austero? A mesma colunista do Expresso, nada de esquerda, repito-me, traduz um texto literário elogiando os "coletes amarelos" - não registei o autor, mas pareceu-me ser de Dickens mas talvez seja do "Germinal" de Zola - e fá-lo publicar num blog da extrema-esquerda negacionista, daqueles falsários da história que negam o terrorismo comunista na democracia portuguesa e invectivam de fascistas os que se lembram (inventam, na versão deles) das FP-25.  É um pormenor que é pormaior, significando bem quem espera o esfrangalhar dos corroídos pés de barro das democracias europeias. Repito, os tais "ur-fascistas", os (neo)comunistas, os idiotas úteis, na maioria vindo da lumpen-intelectualidade, os colunistas da imprensa escrita, comentadores da radiotelevisão. 

Acima deixo cópia de um panfleto dos "coletes amarelos" franceses. Na lista de exigências ao poder, nítido ainda que confuso (oxímoro que é precioso para a mobilização política) programa de reforma do sistema político, é patente essa coalizão ideológica, dos extremismos políticos agora unidos: o controlo da imigração (questão dextra) junto ao fim da presença (neo)colonial em África (gauchisme puro), o fim da "ideologia na escola" (Bolsonaro à Paris) e dos plásticos e da influência farmacêutica (canhotices lite), etc. E se não tiverem paciência para ler (ou se vos for difícil o francês) vejam só o ponto 16 - inscrição na constituição da proibição do Estado intervir na saúde, no ensino, na educação, na família (Cela vous rapelle quelque chose?, ou seja does that ring a bell?). E depois, claro, o ponto fundamental para estas manifestações, o seu verdadeiro motor (e o que faz estes luso-grupos tanto disto gostar): o ponto 9, o Frexit. É esse o clímax que todos estes perseguem. Uns, muitos dos tais idiotas úteis, só querem estar na orgia. Mas os outros sabem bem ao que se ... deitaram.

Entretanto já recebo mensagens para uma manifestação de "coletes amarelos" portugueses, no 21 de Dezembro. Espero que a polícia, vigorosamente instruída nas suas recrutas, seja implacável. Recordo que estão presos cerca de 40 cidadãos há mais de seis meses, acusados de terrorismo, por terem combinado assaltar umas instalações desportivas e terem batido em 3 ou 4 profissionais de futebol. Quero saber se a administração interna do país tem a coragem para mandar prender, com a mesma intensidade, estes amarelos caso venham a fazer actos similares. Mesmo que esta imprensa os diga "vítimas". De um qualquer "contexto", social, globalizado, de "exclusão". 

Pois eu sou do Sporting e gosto muito do Bas Dost. Mas causar dois ou três pontos na cabeça (de oiro) do avançado holandês não é tão mais grave do que avançar para partir e pilhar a capital, causando até hipotéticos ferimentos em polícias ou civis. O Estado português só tem essa alternativa, se os mariolas se portarem mal é prendê-los como aquilo aquilo que a lei diz, "terroristas". E fazê-los apodrecer na prisão. E deixar as colunistas idiotas, seus aliados neo-comunistas e ur-fascistas a guincharem. Pois guinchos loucos não chegam ao céu.

 

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China e Portugal

por jpt, em 06.12.18

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A esperada notícia surge, no meio da "crónica" da visita do presidente chinês, assim como coisa óbvia no meio da assinatura de vários documentos, todos prometendo imensos ganhos para Portugal: o habitual. Que, passando os anos, nunca são escrutinados. Ou seja, lá no meio de tudo Portugal anuncia a vontade de entrar no "comboio" da OBOR (um cinto, uma estrada), a gigantesca operação de construção e dinamização viária que a China prepara para se tornar (ainda mais) central, retornar a "império do meio". Alguns dos nossos tradicionais aliados não estão tão entusiasmados (os EUA muito renitentes, tal como os britânicos) e a União Europeia tem iniciativa e metodologias diferentes. As preocupações não só com a cristalização de um novo centro político e económico - completamente alheio a valores democráticos, coisa que não é de somenos para todos os que não se restringem ao conteúdo da malga própria -, bem como as considerações sobre este hiper-projecto, pensado sem considerações ecológicas, de equilíbrios políticos, locais, regionais e globais, e postulando indiferença (que será letal, em muitos casos) às questões da governação, são esquecidas?

É certo que se trata apenas de um memorando, não vinculativo. Mas no estado actual do Estado haverá muita amplitude para gerir recuos nesta área? Mas mais ainda, uma questão destas, de gigantesca importância económica e geoestratégica para as próximas décadas, é apresentada assim ao país, no meio de um pacote de acordos que surge anunciado quase como se festividade natalícia? De que fala a imprensa durante este anúncio da participação portuguesa na iniciativa OBOR? Do director do MNE que borregou no seu facebook, dizendo que Xi Jinping é o DDT. "Lamentável", diz o ministro (e sê-lo-á). Mas muito mais lamentável, abissalmente mais lamentável, é esta opacidade com que se trata do nosso futuro, ralé ignara que assim nos condenam a ser.

Quem tiver paciência, uma hora de visão crítica sobre o plano chinês para as próximas décadas. Quem não tiver paciência sempre pode ir ao Facebook onde estão a protestar com o diplomata. Por ter, descuidadamente, dito a verdade.

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A China e o país inibido

por jpt, em 05.12.18

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Em 2005 o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao visitou Portugal. José Socrates, então recente primeiro-ministro, incentivou o visitante a usar Portugal como intermediário nas crescentes relações sino-"palop". Na época eu trabalhava na área da "cooperação" (ajuda pública ao desenvolvimento) e muito me chocaram aquelas declarações do ainda relativamente desconhecido Sócrates (não se perspectivava tamanho descalabro),  por razões subjectivas e objectivas.

 

As subjectivas eram algo óbvias. Qualquer pessoa da minha geração se poderá lembrar o que foi o governo de Macau nos últimos quinze anos de tutela portuguesa. A coabitação entre os governos de Cavaco Silva e as presidências de Soares e Sampaio - sendo a presidência da república a responsável por aquela região - significaram que Macau foi administrado, num período de grande crescimento infraestrutural, pelos quadros socialistas. E foi público que se o PSD (e não só) se conspurcou na gestão da inserção europeia, o PS saiu profundamente lesionado da "coisa macaense", no afã da "árvore das patacas". Infecção que levou para os governos de Guterres e que este, criticável político mas homem honrado, deixou transparecer com o rebuço retórico do "pântano" quando se demitiu. Por isso, quando em 2005 Sócrates ofereceu os préstimos do país, e da sua administração, para facilitar a extroversão africana da China tudo indiciava que o PS não fizera qualquer "julgamento ético" (como Augusto Santos Silva reduz agora a avaliação da política) do seu percurso recente. Como se veio a comprovar, tanto pelas más-práticas dos governantes como pelo apoio cúmplice da generalidade dos profissionais da palavra pública, jornalistas e académicos, durante o consulado socratista. E hoje.

 

Mas as razões objectivas eram ainda mais óbvias. Num breve texto de Dezembro de 2007 eu resmungava isso, ecoando várias conversas em Maputo. Desde finais de XX que a China hiper-desenvolvera as suas relações comerciais e políticas com os países africanos. Com propósitos e estratégias bem diversos dos da União Europeia, e de Portugal nas suas relações soluçantes com as antigas colónias. O evidente falhanço dos desenvolvimentos africanos (já elencado nos 1960s pelo nada pró-colonial René Dumont) conduzira, desde os 80s, a alterações nas formas de "cooperação" entre a UE (e de países aliados, como EUA, Canadá, Suíça ou Noruega) e África. Grosso modo subordinando doacções, ajuda técnica e empréstimos bonificados a uma "condicionalidade política". Ou seja, à aceitação de boas práticas estatais, de uma democratização assente na "boa governança" (tétrico jargão), do incremento e autonomização da "sociedade civil", da descentralização avessa à opacidade dos poderes, da protecção ecológica, no fundo ao chamado "desenvolvimento sustentável", crente que a democracia é desenvolvimento, uma ideia consagrada no Nobel da Economia então atribuído a Amartya Sen. Muitos criticam este paradigma, dizendo-o neoliberal, exportação do modelo "ocidental" e neo-colonial. Poderá também ser tudo isso, e com toda a certeza contém a defesa dos interesses dos países doadores ("ocidentais"), que é esse o princípio das relações internacionais. Mas também não era só isso, pois fruto de transformações demográficas, socioeconómicas e ideológicas nos países europeus, que haviam promovido genuínas preocupações ideológicas e técnicas de promover algo melhor do que vinha acontecendo no desenvolvimento africano, combater o malvado "afro-pessimismo" (o aggiornamento do racismo), e procurar a defesa do meio ambiente, triturado alhures.

 

A chegada dos interesses chineses tudo alterou. Neles inexiste qualquer intuito democratizador ou sensibilidade ecológica, ou objectivo desenvolvimentista - há uma preocupação na construção de infraestruturas viárias que promovam o comércio de matérias-primas (e a seu tempo de produtos industriais imensamente sub-remunerados) para a China, algo que as burguesias africanas vêm considerando "desenvolvimento". Estas enormes construções infraestruturais são entendidas localmente como "ofertas" (basta conversar em Maputo com a burguesia letrada para ouvir isso), quando são obras basto sobre-orçamentadas e sob empréstimos chineses, para além de muitas vezes serem de duvidosa urgência (caso exemplar é a recente ponte de Maputo, uma verdadeira excentricidade se sopesadas as necessidades infraestruturais do país, e uma total aberração se considerado o preço astronómico e sobredimensionado da obra). Ou seja, a China financia directamente a sua indústria, construindo em África através de empréstimos contraídos pelos poderes africanos; e indirectamente, através do estabelecimento das infraestruturas de aquisição de matérias-primas baratas.

 

Questões como o desenvolvimento tecnológico ou empresarial africano (a transferência de saberes) é de nula relevância, o desenvolvimento social é inconsiderado - e nesta área será importante discernir quais as concepções dominantes na China sobre "África" e os "africanos", principalmente se pensarmos no rolo auto-crítico que os europeus fazem sobre o "paternalismo" e o "racismo" com que as suas sociedades interagem com África e seus habitantes. O resultado destes últimos anos é tétrico: países africanos imensamente endividados, ainda que com diferentes conteúdos (países como a África do Sul - mas que outros? - têm alguma maior capacidade de resistência). Dívidas que têm penhores, os recursos naturais, que assim vão passando explicitamente para o manuseio chinês. A razia ecológica, em particular a desflorestação é quase incomensurável. E a corrupção das elites exponenciou-se, num verdadeiro sublinhar da velha definição marxista de "burguesia compradora". É um neo-colonialismo radical, um neo-colonialismo selvagem, para glosar a expressão "capitalismo selvagem". (Abaixo deixo um programa da Al-Jazeera, que não é a "Voz da América" nem qualquer "Canal de Bruxelas" sobre o assunto, para quem tiver interesse).  

 

Para qualquer tipo que tivesse dois dedos de testa e uns centímetros de conhecimento esta via era já óbvia em 2005. O poder português, o PS de Sócrates, preferiu a obtenção de migalhas - no seio do que agora se sabe serem interesses esconsos das articulações político-económicas: por exemplo, em 2006 noticiava o Público que o Espírito Santo ajudara a entrada chinesa no petróleo angolano (alguma ideia sobre a situação actual?, é a pergunta sarcástica necessária). Ou seja, refutando a nossa inserção nas políticas desenvolvimentistas europeias (os célebres acordos de Lomé e Cotonou) e toda a retórica que acompanhara o estabelecimento da CPLP na década anterior. Nada disto importou, apenas a miragem de alguns ganhos como intermediário da entrada triunfal da política económica chinesa em África. E, ainda mais ridículo, com promessas de abertura do enorme mercado chinês aos produtos portugueses, pomposamente anunciada na imprensa aquando da visita do PM chinês em 2005: 13 anos passados seria interessante ver os dados reais dessa abertura, e o impacto na economia portuguesa. 

 

Alguns dirão que nada havia a fazer, que a dinâmica africana da China foi tão possante que uma pequena economia como Portugal nada poderia fazer em contrário, clamando assim a subordinação à "razão de Estado" e à obtenção de ganhos para o país. É uma paupérrima concepção de Estado e de mundo, bem como da política africana portuguesa. Mas mesmo que nesse registo rasteiro, de avaliação política sob estritos critérios de contabilidade nacional, será importante questionar: que ganhos económicos teve o país na sua extroversão para a China? E qual a situação das relações económicas com África, em particular com as duas grandes ex-colónias? E as relações políticas (catalépticas as com Moçambique, apesar da retórica do nosso PR, gélidas as com Angola, apesar do fogareiro agora aceso pelo PR angolano)? Outros, com mais memória, dirão que o governo de Sócrates teve o sucesso de conseguir realizar a cimeira Europa-África, em plena crise diplomática devido à oposição Reino Unido - Zimbabwe. Foi um facto, mas isso ter-se-á devido aos méritos da equipa do MNE da altura, Amado e Cravinho (este agora em rota para MNE do próximo governo). E deixa a pergunta fundamental: quais os benefícios reais obtidos, tanto para África como para Portugal, e já nem falo da política desenvolvimentista da UE? Ou seja, a sinofilia do governo português mostrou bem o quão de cabotagem era o seu rumo. Em termos internacionais. E em termos nacionais. Foi anunciado, de modo evidente, em 2005. Tornou-se evidente nos anos subsequentes.

 

Quinze anos depois se a situação das relações africanas com África é esta, também o é a relação de Portugal e de alguns países europeus. A influência chinesa está a crescer na Europa austral, de modo avassalador. Aqui não há matérias-primas, das quais a indústria chinesa necessita. O objectivo são os mercados, o "mercado europeu", necessários à indústria e à finança daquele país. Mas o tipo de abordagem predatória será o mesmo. As sociedades europeias amortecerão o impacto socioeconómico de maneira mais protegida, mas o impacto desdemocratizador talvez venha a ser mais sentido (não se está já a sentir?). Não se trata de ser sinófobo, ou de clamar "Vêm aí os Chineses". Mas de perceber, passado este tempo e sendo explícito o que já era óbvio, que quando se vê um governante português como a actual Secretária de Estado do Turismo choramingar a um grupo económico chinês "…por favor, usem-nos, como porta de entrada, como cobaias, para testar a forma de entrarem na Europa" estamos no "grau zero" da política. E que as nossas elites políticas nada aprendem com a história recente. Os socialistas (e o bloco central por definição) na sua cabotagem, na busca de restos disponíveis. Os comunistas presos a uma patética solidariedade com um poder que de "comunista" tem o nome e a foice e o martelo - lembram-se as pessoas da sabujice do parlamento português ao recusar receber o Dalai Lama em 2001, por pressões chinesas, e do texto do velho dirigente comunista Aboim Inglez, esse que fora em tempos de conflito sino-soviético muito adversário da China, a esse respeito? Rezava assim: "Tivemos entre nós, uma semana, o sr. Kenzin Gyatso, mais conhecido pelo título do 14º Dalai Lama, numa das suas constantes itinerâncias pelo mundo, na condição de cabecilha do que resta da clique reaccionária e retrógrada tibetana, conluiada com o imperialismo para atacar a China pela via da mentira e do separatismo". À direita os liberais, cegos e sonâmbulos, a quererem crer que isto é o "mercado" - quando "isto" é o capitalismo de Estado, de que se falava sobre o bloco soviético, mas agora super-competente. E o BE sempre relativamente simpático com quaisquer laivos de "alterglobalização" (entenda-se, antiamericanismo) que surja no horizonte. 

 

Nenhum destes partidos,  nenhuma das fracções desta "burguesia compradora" portuguesa, se opõe ao verdadeiro imperialismo chinês, voraz que é. E os governantes pedem "por favor" para que os interesses chineses sejam mais céleres e intensivos na sua intervenção. É a mesma mediocridade, ininteligente, cleptocrática e anti-patriótica que reconhecemos em tantos dos poderes africanos. Sem qualquer projecto de país, plano ou estratégia de desenvolvimento. E depois, sabe-se lá porquê, dizem-se, ufanos, de "esquerda", símbolo do progressismo e desenvolvimentismo. 

 

E um povo que a apoia. Nessa confluência um país inibido de o ser. Nada mais do que isso.

 

(Então aqui fica o programa a que aludi, vinte minutos sobre o presente de África. E o futuro de Portugal).

 

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A GNR

por jpt, em 05.12.18

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A Few Good Men (Uma Questão de Honra) é um até penoso filme, protagonizado pela então conhecida Demi Moore, o ainda jovem Tom Cruise e Jack Nicholson (num dos mais histriónicos overactings da sua longa carreira no género). Quase todos o terão (entre)visto, num qualquer serão televisivo. Mas lembro o argumento, completamente típico, um padrão de Hollywood: Cruise representa o jovem, algo desinserido, mais arisco do que rebelde, que enfrenta as perversões do "sistema", provocadas pelo desvio (psicológico) de um malvado Nicholson, comandante de uma unidade de tropas especiais no qual um soldado morrera devido à recruta. No final, contra todas as expectativas (menos a de todos os espectadores, claro), o Young Rebel redime-se da sua apatia e derruba o mau indivíduo, purificando o sistema. O filme é de 1992, podemos dizer que passara o tempo dos anti-heróis. Mas também podemos dizer que exactamente nesse mesmo ano Hollywood produziu uma macro obra-prima, pois Mestre Clint realizou Unforgiven. Que serviria, (muito) mais que não fosse, para mostrar a tralha cinéfila e cultural que este "Uma Questão de Honra" era.

Ao saber do que vai acontecendo na GNR bem que me lembrei do filme. O comandante do centro de formação, um coronel Ramos, já foi apeado. E um antigo dirigente da escola da GNR, Carlos Chaves, com o posto de general, já veio dizer que o problema foi de o instrutor ter perdido a cabeça e o exercício não ser supervisionado. Pronto, está resolvido o assunto. O coronel Ramos segue para outro serviço, o tal instrutor irá dar instrução para outro lado. O sistema purificado, pois arejado. E mantendo-se tudo igual.

Entretanto, e para (hipotética) vergonha do general Chaves, aparecem outras imagens. Outro exercício, outro instrutor, mesma modalidade de instrução: oficiais super protegidos a darem porrada em recrutas desprotegidos, estes nem um capacete protector têm, como é usual nos treinos de boxe. Ou seja, por mais que o general Carlos Chaves, do alto dos seus 3 anos de director da Escola da GNR, nos queira mentir, protegendo a sua corporação reduzindo tudo a uma má-prática individual, o que se passa é que há uma metodologia de treino alargada. Não é um erro de falta de supervisão. Não é um instrutor destrambelhado. É um modus operandi: a instrução passa por oficiais protegidos a espancarem recrutas. São estes instrutores, estes oficiais, que o general Carlos Chaves - pressuroso a mentir-nos, reduzindo o caso a um infeliz incidente - e os colegas (gente desta não é camarada de ninguém, nunca subiram acima de colegas) formou. Brotaram do molde que ele manuseou (ou criou, não sei).

Caladinho, e decerto que muito protegido, com a armadura necessária para dar porrada nos recrutas, e pronto a roçar-se nos políticos, está o tenente-general Luís Francisco Botelho Miguel, comandante da GNR, responsável máximo, e obviamente conhecedor, destes métodos de instrução. Alguns dirão que este oficial tem muitos méritos. Com toda a certeza que terá. Os necessários para passar à reserva. Já. Sem honra. Pois nenhum oficial que deixa espancar os seus homens merece qualquer respeito. Nem estar ao serviço.

 

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Virar a página da austeridade (II)

por Diogo Noivo, em 30.11.18

Já o referi aqui: ferrovia num caos sem precedentes, degradação das condições de segurança interna a um nível do qual não há memória no período democrático, hospitais a viver uma época especialmente penosa, e a maior carga fiscal dos últimos 22 anos. Ficámos hoje a saber que, por ordem do Governo, os alunos com maiores dificuldades económicas só receberão metade das bolsas de mérito que deveriam ser entregues no 1º período. Ainda bem que virámos a página da austeridade e que o “muro” já não existe.

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(Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos)

 

Foi-se a ministra, orgulhosamente lesbiana, a Guadalajara, decerto que com adido à ilharga – mas não a Cuernavaca com o necessário Cônsul, estou disso certo – e por lá resmungou algo, sobranceira a portugueses, Portugal e seus jornalistas e jornaleiros. Entretanto, cá longe, noutro “lá fora”, ando eu a reler, 35 anos depois, o “Relíquia”. Eça não é, diz quem sabe, o Zola, o Balzac, muito menos o Flaubert, mas é o que temos, e ainda que me solavanque o encanto – tetrali o “Os Maias” por causa do filme de João Botelho, e disso me apercebi, já nada adolescente ou vinteanista, franzindo o meu cenho ao traço grosso da caricatura que escorrega daquele Ega – continua uma delícia.

 

Enfim, perorava a ministra lá em Guadalajara quando o Raposão, o bom do Teodorico, me aportou a Alexandria, naquela sua ímpia, pois humana, peregrinação à então Terra Santa. Logo se acolheu ao afamado e recomendado “Hotel das Pirâmides”, deparando-se com um patrício (onde é que não há um português?), “moço de bagagens e triste“, ali algo desvalido dados os infortúnios de amores e impensares, o Alpedrinha, figura ímpar do panteão queiroziano, mais que não seja por aquela sua sábia e monumental saída, que em mim habitava sem lhe recordar a autoria (“Tu já estiveste em Jerusálem, Alpedrinha?“, perguntou-lhe o Teodorico, “Não senhor, mas sei … Pior que Braga, algo que talvez tenha acicatado aquele Luiz Pacheco). Chegava-se pois, no mesmo fim-de-semana da ministra no México, o bom do Teodorico às terras da Esfinge e, lá de tão longe, responde à sáfica governante: “E se o cavalheiro trouxesse por aí algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a política.”, atreveu-se o Alpedrinha. “Concedi-lhe generosamente todos os “Jornais de Notícias” que embrulhavam os meus botins“, logo concedeu o malandrote.

Isto nem em Cuernavaca lá iria. Quanto mais em Guadalajara.

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Em 2016 candidatei-me a uma bolsa de doutoramento, desta Fundação para a Ciência e a Tecnologia. A então nova direcção mudara os requisitos para as candidaturas: exigia a gente como eu, com "licenciaturas pré-Bolonha" e sem mestrado, que apresentasse um documento da universidade "doutoradora" a comprovar a admissibilidade do candidato. Sem especificar que órgão académico devia exarar esse documento. Assim fiz. E a candidatura foi recusada, nem sequer avaliada, com o argumento que não fora suportada com um documento proveniente do órgão académico adequado.

Contestei essa anulação, com um recurso. Argumentei que a) o regulamento era omisso nesta matéria, não especificava qual o órgão que deveria comprovar a adequação do perfil do candidato; b) a opção sobre quem deveria produzir tal documento havia sido da universidade, estatal, decerto que mal informada pela própria FCT.

Ou seja, reproduzi o velho "vocês que são brancos que se entendam" ("brancos" significando mesmo os "brancos" de hoje, os funcionários públicos). Em alguma coisa se devem ter entendido, pois o regulamento de candidaturas para os concursos seguintes foi logo alterado, passando a especificar que órgão académico deverá produzir este tipo de documento. Alteração que comprova a insuficiência anterior, fruto da incipiente mudança regulamentar desta nova direcção da FCT.

Recebi agora, dois anos e tal depois (eu já noutra vida), um email assinado por um tal de Paulo Ferrão, funcionário público presidente daquele organismo estatal, a dar-me resposta ao recurso. Que não tenho qualquer razão, diz. E que se quiser protestar que vá para tribunal. Ou seja, nem o regulamento que ele aprovou estava mal feito. Nem os seus colegas estavam distraídos. O morcão sou mesmo eu.

Note-se, o tal de Ferrão esperou mais de dois anos para me dizer isto. Mas aquilo que me ofende mesmo é que no final do email o homem ainda mandou escrever "cumprimentos". O tipo, após mais de dois anos, ainda tem o desplante de me saudar ...

A minha filha pede/exige que eu não escreva palavrões no FB/blog, e a minha irmã secunda-a. Assim o faço. Mas é claro que os murmuro. Daqueles bem peludos, aludindo às imorais e nada higiénicas ascendências destes gajos.

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Quem me vê a blogar no És a Nossa Fé poderá confirmar: botei que me fartei (literalmente) a favor de Bruno de Carvalho. E depois botei que me fartei contra Bruno de Carvalho - porque o homem "se passou", porque mostrou uma horrível concepção de exercício do poder associativo, porque eu terei aberto a pestana. Dito isto: é totalmente inadmissível que um homem - por suspeitas de participação num crime acontecido há seis meses, entretanto desprovido dos meios institucionais que facilitariam a reprodução de actividades similares, e publicamente disponível para depor - seja detido num dia para prestar declarações, interrogado apenas duas dias e meio depois e liberto quatro dias após a sua detenção. Alguma coisa está errada, algo está podre na república.

E não, a lei não serve para justificar isto. Os funcionários públicos, juristas e polícias, não podem configurar assim as suas práticas. Isto é uma vergonha, um ocaso. Antes um Mustafa que um polícia ou um jurista deste tipo. Vou repetir: antes um Mustafa que um polícia ou um jurista deste tipo.

 

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Virar a página da austeridade

por Diogo Noivo, em 15.11.18

1. Sou passageiro da CP há pouco mais de duas décadas. Exceptuando os períodos em que residi no estrangeiro, fui sempre utilizador dos caminhos de ferro nacionais. Nunca os vi tão mal. Os atrasos e as supressões de comboios na área metropolitana de Lisboa são diários (pelo que leio, no resto do país é igual). Consequentemente, os comboios que circulam vão a rebentar pelas costuras, sendo cada vez mais normal não conseguir entrar e ter de esperar pelo comboio seguinte. Perante a falência real do serviço prestado, aqueles que têm responsabilidades políticas falam na redução do preço dos títulos de transporte, demonstrando assim que estão completamente alheados das dificuldades diárias do cidadão comum.

 

2. No que respeita à segurança de pessoas e bens também não há memória de uma época tão lamentável. Os fogos florestais mataram como nunca e no rol de causas consta o fracasso técnico do Estado (do fracasso político é melhor não falar). O roubo de Tancos é em tudo semelhante: fracasso técnico do Estado e do fracasso (e desfaçatez) político é melhor não falar. As Forças de Segurança, PSP e GNR, atravessam um momento de carência especialmente duro, como ficou bem ilustrado num trabalho recente da SIC. Já o trabalho notável do Ministério Público e da Polícia Judiciária será recompensado com um corte orçamental no próximo ano.

 

3. A carga fiscal não diminuiu, apenas foi organizada de forma diferente. Estamos com a carga fiscal mais elevada dos últimos 22 anos.

 

4. A prometida descentralização é destratada com medidas ad hoc a raiar da infantilidade, algo de resto patente na novela Infarmed. Sobre o estado da arte das assimetrias regionais vale muito a pena ler este artigo de Luís Aguiar-Conraria.

 

5. O ano de 2017 foi o annus horribilis dos Hospitais com cerca de 300 milhões de euros em EBITDA negativo. A falta de profissionais no sector é gritante, as listas de espera vergonhosas e a ineficiência do Serviço Nacional de Saúde atingiu um patamar do qual já não havia memória. Além dos problemas sistémicos existem problemas graves de dignidade plasmados na vergonha sem nome de ter uma ala pediátrica com serviço de oncologia a funcionar num contentor.

 

6. Mais assuntos podem ser acrescentados, mas estes bastam para demonstrar que o “virar da página da austeridade” e a “queda do muro” não nos deixaram melhor. Pelo contrário. Por isso, é de perguntar onde andarão as vozes corajosas que entoaram “grandoladas” entre 2011 e 2015, onde andarão os indignados, onde andarão os que gritavam “as pessoas primeiro”. Não quero acreditar que a revolta do passado fosse apenas um produto artificial gerado por convicções puramente ideológicas.

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Mourinho

por jpt, em 08.11.18

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(Postal para o És a Nossa Fé

 

Juventus-Manchester United, no palco global da “Champions” o jogo entre as equipas dos dois portugueses mais conhecidos do mundo, pelos seus extraordinários méritos. Também por isso eles alvos de tanta raiva nacional, mostra desse traço cultural constante, a inveja dos patrícios com sucesso “lá fora”, tão paradoxal e desprezível num país que foi colonial (e abominou os seus colonos) e é de emigração (e menospreza os seus emigrantes). A abjecta reacção generalizada, isenta daquilo chamado “dúvida”, às acusações de uma acompanhante de luxo a Cristiano Ronaldo, é um caso extremo disso. Mas é algo continuado, há uns anos (2012, 2013?), num treino da selecção antes de um jogo particular em Guimarães o público gritava “Messi, Messi” para espanto do CR7. Pois porquê aquilo? Tal como a constante maledicência sobre Mourinho – há quantos anos, 10?, se lêem inúmeros comentários e opiniões na imprensa sobre o estar ele “ultrapassado”? – disso é prova.

Ontem o confronto (também) entre eles. Algo que connosco fala, sportinguistas, sobre o nosso clube. O CR7 orgulho máximo da nossa formação, encabeçando o trio maravilha de três décadas gloriosas, Futre-Figo-Cristiano. Talvez o melhor jogador do mundo, e cada vez mais isso se evidencia (Messi como o génio trabalhado, Ronaldo como o trabalho genial). E Mourinho, o técnico em actividade com mais vitórias relevantes, em tempos recusado pelo Sporting (um dos três erros históricos do clube, junto aos com Eusébio e Futre). Negado, julgo recordar (ou sonho a memória?), quando o actual director do futebol do Sporting, então capitão, se armou em Sérgio Ramos e torpedeou em público essa vinda, associando-se aos sábios espectadores, esses sempre armados de vigorosos lenços brancos, que clamaram inadmissível que um treinador transitasse do Benfica para o Sporting. Pois desde há décadas que os fungões espirram …

Enfim, vem isto a propósito do final do jogo de ontem. Mourinho, que em Manchester e Turim foi azucrinado pelos adeptos italianos, jogou bem e triunfou. A Juventus é melhor, ganhara soberbamente fora e em casa tinha o jogo na mão. CR7 fez um jogo magnífico, um golo espantoso e deu outros a marcar, desperdiçados por pés Quadrados. Mas Mourinho pensou bem, substituiu melhor, e teve a sorte (essa grande jogadora) por ele. E fez a reviravolta, mesmo no fim. Jogo épico.

Mas o que é mesmo magnífico é a sua reacção. Provocatória, deselegante, desnecessária, digam o que disserem. Mas é uma delícia. Porque é futebol. Mas ainda mais do que isso, porque é completamente portuguesa. Não exactamente o gesto da mão na orelha, algo mais comum. Mas é aquele trejeito da boca, “hâânnn?”, “dígam lá agóra!!”. Algo, ricto e óbvio som, tão nosso, tão português de rua, bairro, popular, tão “tuga”, tão treinador da bola, como se fosse ali aqueles técnicos dos tempos de antes, os do Aliados do Lordelo ou do Montijo a ganharem à Sanjoanense ou ao Amora, assim a fazer o mundo pequeno e igual quanto às mesuras que se lhe (não) deve, e nisso também tão eu, tão nós, os que não temos nem vergonha de ser portugueses nem abominamos os nossos que ganham alhures. Vejo-o ali na tv e rio-me, gargalho, “ah g’anda Mourinho, meu patrício”, meu e nosso orgulho amanhã. Saídos à rua, entre nós e com os outros, “hâânnn?”, “dígam lá agóra!!”. Nós povo, rindo, que hoje no fim do dia tragaremos o “petit verre”, escorropicharemos o bagaço branco, e irei eu até à rua, à porta da “petite restauration”, a tasca daqui, a fumar o cigarro e, se necessário, no choque com o frio, assoar-me-ei aos dedos, sacudindo o ranho para o chão, e se calhar ainda terei que cuspir, na azia do álcool. E, entre nós, riremos, com desprezo mas também mágoa, desses invejosos lá na terra. E ainda mais, com gargalhada mesmo, com alguma amarga piada sobre essa paneleirage, tão amaricada, sensíveis coitadinhos, a agitarem os lencinhos brancos, arrebitados em meneios no “olhem para mim”, que é para isso que lhes servem os trapos.

G’anda Zé Mourinho, g’anda patrício. E viva também o CR7, o melhor do mundo.

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A guerra na primeira pessoa

por Alexandre Guerra, em 24.10.18

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Quando estive há cerca de dois meses na Bósnia, conheci um jovem guia, que está a tirar o doutoramento numa universidade de Ancara e que tem estado envolvido no museu de Srebenica. Este projecto ocupa as antigas instalações do que foi o então quartel-general do tristemente célebre contingente holandês ao serviço da UNPROFOR, localizado em Potacari, a poucos quilómetros da vila de Srebrenica, que viu serem assassinados de forma sistemática mais de oito mil bósnios muçulmanos (bosniaks), entre 11 e 16 de Julho de 1995, sob os ordens militares do general sérvio Ratko Mladic. A meio de uma das conversas que tive com Jasko, fiquei impressionado com o conhecimento que detinha sobre a presença portuguesa nas missões da ONU e NATO. Apesar de ele não ter mais de 30 anos, tinha bem presente a boa prestação que o contingente português teve ao serviço da força de manutenção de paz da NATO (IFOR), em 1996, cujo objectivo era a “implementação” das linhas dos Acordos de Dayton (1995). Tratava-se da primeira projecção de forças militares nacionais em larga escala desde o fim da Guerra Colonial.

 

Já antes, em pleno conflito nos Balcãs, Portugal teve uma participação muito limitada, mas importante, na missão UNPROFOR (United Nations Protection Force), destacando para a Bósnia e Croácia, entre 1992 e 1995, um pequeno grupo de “observadores militares” não armados de capitães e majores do Exército e Força Aérea. Esta operação acabou por ser uma extensão da missão europeia de verificação do cessar-fogo entre a recém-proclamada independente Eslovénia e a (ainda) Federação da Jugoslávia. Quando a Missão de Monitorização da CEE/UE deu lugar à força da ONU, os primeiros capacetes azuis portugueses chegaram no primeiro trimestre de 1992. Nesse primeiro momento, foram apenas cinco “observadores” integrados na United Nations Military Observation (UNMO), um ramo da UNPROFOR.

 

Entre 1992 e 1995, tempo do mandato da UNPROFOR, Portugal foi mantendo “observadores” no terreno, que iam desempenhando missões diárias que, embora não sendo de perfil militar puro e duro, se revelaram de enorme importância na criação de um clima de confiança no seio das populações tocadas pelos soldados nacionais. Como se pode ler na introdução do recente livro “A Guerra na Antiga Jugoslávia Vivida na Primeira Pessoa” (Colibri, Maio de 2018), coordenado pelos militares Carlos Branco, Henrique Santos e Luís Eduardo Saraiva, os observadores “viveram com a população em locais recônditos com quem partilharam o infortúnio. Sentiram o pulsar das comunidades onde estavam inseridos, conheceram os seus dramas em primeira mão. Pisaram minas, foram atingidos com estilhaços de granadas, tiveram acidentes de viatura, estiveram nas miras dos snipers, em zonas de morte, foram vítimas de ataques e assaltos, supervisionaram a troca de cadáveres e de prisioneiros de guerra. Foram testemunhas em primeira mão de violação de acordos. Sofreram a prisão e interrogatórios agressivos. Viveram em condições precárias, por vezes, sem electricidade, sem água corrente, aquecimento ou vidros nas janelas, oq eu se tornou numa minudência para que estava diariamente debaixo de fogo de morteiros de artilharia.

 

Foram ainda apanhados entre fogos cruzados, controlaram o tráfego aéreo, lidaram diariamente com as facções, pediram evacuações médicas, e tiveram de tomar decisões eticamente difíceis, algumas delas com consequências dramáticas. Testemunharam em directo o sofrimento. Viveram as agruras da guerra na sua plenitude.

 

São estes testemunhos que agora podem ser lidos num livro que reúne textos (em português e inglês) de militares que fizeram parte da UNMO. Com prefácio do embaixador José Cutileiro, este livro é um contributo inestimável para o conhecimento de quem se interessa pelo conflito da antiga Jugoslávia, que tantas marcas geopolíticas deixou naquela região da Europa. Mas é também uma janela para se perceber de que forma a “experiência jugoslava” marcou um novo período na projecção internacional das Forças Armadas Portuguesas no âmbito de nova ordem sistémica... Mais cosmopolita, interdependente e difusa.

 

Texto publicado originalmente n'O Diplomata

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O acessório e o essencial

por Pedro Correia, em 20.10.18

Esquecemo-nos com demasiada frequência de que os políticos são gente comum, com qualidades e defeitos como qualquer de nós. E por vezes com dramas íntimos que merecem o nosso respeito e o nosso apoio. Reflicto nisto a propósito de Bernardino Soares, ex-líder parlamenter do PCP e actual presidente da Câmara de Loures: ele e a mulher, Marta, têm um filho que nasceu há três anos com grave insuficiência respiratória devido ao parto prematuro. Acederam agora a partilhar a história do pequeno Francisco com os espectadores da SIC, numa reportagem que merece aplauso. E que nos faz reflectir sobre a urgência da aprovação do Estatuto de Cuidador Informal neste país que tanto se ocupa com o acessório enquanto vai esquecendo o essencial.

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Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 08.10.18

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 

 

Texto reeditado no dia em que se assinalam 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago

 

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Capítulo VI

por Alexandre Guerra, em 26.09.18

No dia 17 de Junho de 2017, na região de Pedrógão, algo aconteceu de dantesco e em poucas horas as chamas do Inferno trouxeram a morte a 66 pessoas, das quais 47 morreram carbonizadas na EN 236-1. Foi o dia em que o País se confrontou com a sua impotência e incompetência, onde as estruturas do Estado falharam nas suas mais elementares funções. No fundo, todos nós, enquanto sociedade, falhámos na defesa dos nossos concidadãos.

 

Os fenómenos e as circunstâncias que rodearam tal tragédia tinham (e ainda têm) que ser compreendidas e explicadas e, como tal, coube ao especialista Domingos Xavier Viegas, professor catedrático de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, a responsabilidade de elaborar um relatório técnico sobre o que aconteceu naquele trágico dia. Esse documento, que será fundamental no âmbito do processo judicial em curso, foi entregue ao Governo a 15 de Outubro, mas houve uma parte do estudo que nunca foi divulgada ao público, o capítulo VI, por conter testemunhos dos sobreviventes e considerações feitas pelos técnicos que fizeram a investigação.

 

Compreende-se que, na altura, se quisesse evitar a exposição das famílias das vítimas e dos sobreviventes, que tanto já tinham sofrido, no entanto, aquilo que agora nos é dado a conhecer pelo jornal i, com a colaboração do próprio Xavier Viegas, através da divulgação do capítulo VI, tem uma tal dimensão trágica e humana que, por um lado, alimenta a revolta interior pelo que aconteceu, por outro, reforça a obrigação de cada um de nós, enquanto cidadão, ser cada vez mais exigente na defesa e protecção das nossas gentes e recursos.

 

Os textos publicados esta Terça e Quarta feiras no jornal i são de um realismo impressionante e mostram como homens, mulheres, idosos, famílias inteiras tomaram decisões de vida ou de morte em momentos de pânico, sem qualquer auxílio externo e totalmente entregues à sua sorte. Nos próximos dias serão divulgados mais partes desse capítulo VI que, no fundo, acaba também por ser o registo de um dos mais negros episódios da história do Portugal democrático.

 

Despender alguns minutos do nosso dia a ler estes relatos pessoais e dos técnicos não é apenas uma questão de informação, é também quase uma obrigação para com a memória de todos aqueles que perderam as suas vidas, para que possamos ajudar a construir um Estado que nunca mais deixe os seus ao abandono.   

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"Ter terra" é isto

por Pedro Correia, em 15.09.18

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Volto a Castelo Branco, cinco anos depois. Está um Verão dos antigos: 32 graus neste meio de Setembro. Calha bem: venho em busca de raízes neste regresso esporádico a um dos lugares que transporto nos genes. Terra onde viveram os meus avós (e cuja casa, nas traseiras do Liceu, ficou praticamente destruída pelo tornado de 1954), onde nasceu uma das minhas tias, onde a minha mãe fez o ensino secundário. Viemos com ela em 2013, sabendo todos - ela, melhor que ninguém, com os dotes de presciência que sempre evidenciou - que era uma viagem única. Por ser a última.

Talvez por isso, absorveu-a intensamente. Levámo-la lá acima, ao castelo. Em tantos anos, nunca tinha visitado tal paragem, de onde se disfruta um panorama incomparável: «No meu tempo, nenhuma rapariga vinha aqui, nem sequer acompanhada.»

É um mundo diferente daquele onde ela ia de burro, dar aulas a garotos da aldeia, no Rosmaninhal. A cidade expandiu-se imenso, em todas as direcções. Das ameias do castelo, já mal distingo o quartel onde o meu avô foi comandante antes de rumar à última comissão em África: é um ponto quase remoto, diluído na malha urbana. 

 

O hotel na colina, onde me hospedei pela primeira vez em 2006, continua a proporcionar-nos uma visão deslumbrante das vastas planícies em redor - tendo agora a novidade de alojar turistas de diversas nacionalidades. A cidade exibe enfim um terminal rodoviário que não a envergonha, colado à estação ferroviária. Mas o centro parece-me mais despovoado: nunca consegui entender a "intervenção" do chamado Programa Polis, que o desfigurou por completo. Coincidência ou não, o Praça Velha - outrora o meu restaurante favorito aqui na terra - fechou as portas, na emblemática Praça Luís de Camões: outra excelência gastronómica que elimino da minha lista.

Mas gostei de saber que foi recuperado o Cine-Teatro Avenida, após décadas de abandono, e que o Jardim do Paço mantém o viço de sempre. Incluo-o, sem favor, entre os dez mais belos de Portugal.

Venho em visita demasiado apressada, não chego a contactar o meu ex-professor Manuel Costa Alves, que tanto me marcou nas suas aulas de Geografia, nem os filhos dum quase-irmão do meu pai, que na minha infância sempre tratei como primos.

 

À porta da Sé, gente toda aperaltada neste sábado estival: é um casamento. Miro os noivos com um sorriso largo: foi aqui mesmo que os meus pais casaram, conheço este local de dezenas de fotografias dos álbuns de família.

Reparo numa árvore ampla, de folhas largas e escuras, ignoro como se chama. Alguém me esclarece: é um abacateiro. Símbolo de novidade por estas bandas. 

Velho e novo, tudo se conjuga. Nas vilas como nas vidas. Miro a cidade cá de cima, do hotel, e logo me vêm à memória aquelas estrofes da cantiga de Arlindo de Carvalho que aprendi na infância mais remota: «E quem nasceu lá, em Castelo Branco, / não é feliz noutra terra.»

"Ter terra" é isto. Esta necessidade de um cíclico banho lustral capaz de nos lavar por dentro, em resposta a um apelo que soa no mais fundo de nós.

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Marcelo no país que não tem voz

por Pedro Correia, em 06.08.18

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 Imagem da Sábado

 

Tenho, de antemão, bastante pena do Presidente da República que sucederá a Marcelo Rebelo de Sousa. Porque irá ser permanentemente comparado com o seu antecessor. De forma desfavorável, não custa antecipar. Por mais que isso custe aos escassos detractores do actual inquilino de Belém, incapazes de dar o braço a torcer no reconhecimento dos seus méritos.

Há quem sobrestime o papel das agências de comunicação na chamada "formatação de políticos". Acontece que nenhuma agência, por mais credenciada que seja, consegue aquilo que sucedia nas fábulas da nossa infância, capazes de transformar sapos em príncipes pelo efeito de um simples beijo. Isto não acontece, de todo, na vida real. Nenhuma agência de comunicação seria capaz de fabricar um candidato com a soma das qualidades de Marcelo. O actual Chefe do Estado - que, recorde-se, andou quatro décadas a preparar-se para a função que hoje desempenha - não necessita dos préstimos de agência alguma: basta-lhe a conjugação do seu instinto político com o talento que até alguns dos seus mais empedernidos adversários lhe reconhecem, tudo polvilhado com o lastro que foi acumulando em múltiplos terrenos, no plano político e no plano mediático.

Até em férias isto acontece. Viu-se neste fim de semana, o mais quente de sempre em Portugal desde que há registos credíveis sobre a temperatura atmosférica. Marcelo fora da agenda oficial, distante dos palcos institucionais, trocando a solene gravata pelo calção de banho, mergulhando nas águas convidativas das praias fluviais do País esquecido, forçando de algum modo os meios de comunicação a irem ter com ele. Só assim, neste Portugal tão assimétrico, onde o "interior" começa tantas vezes a 30 quilómetros do litoral, é possível vermos em horário nobre dos nossos noticiários televisivos regiões tão belas e tão ignoradas pela turba dos tudólogos urbano-depressivos. Como Tondela, Vouzela, Arganil, Oliveira do Hospital e Penacova.

Graças a ele, Marcelo. Atento às áreas deprimidas do rectângulo lusitano que necessitam mais que nunca de visitantes prontos a contribuir para a dinamização do frágil tecido económico local. Atento como nenhum outro ao país dos portugueses cuja voz não chega ao Terreiro do Paço.

Até em férias, o Presidente da República faz mais pelo combate à desertificação do interior do que mil discursos de cem ministros.

Vai ser árdua, a tarefa do seu sucessor.

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.07.18

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Britain’s ‘disgraceful’ pre-handover efforts to deny nationality to Hongkongers revealed in declassified cabinet files

 

Officials repeatedly pressured Portugal not to grant rights to Macau residents to prevent Hongkongers from asking for similar treatment

"(...) Portugal had remained adamant that its constitution did not allow it to distinguish between holders of Portuguese nationality, unlike Britain, which had a two-tier system, according to the files. "

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Portugal no Mundial (2).

por Luís Menezes Leitão, em 21.06.18

O jogo de ontem ia parecendo Alcácer-Quibir. E desta vez o Desejado mal se viu.

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Um país onde se lê pouco e mal

por Pedro Correia, em 19.06.18

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Portugal é dos países da Europa onde menos se lê: só compramos, em média, 1,3 livros por ano. Estes péssimos índices, que não merecem qualquer tipo de censura social, ajudam a explicar por que motivo 45% dos alunos do 5.º ano de escolaridade são incapazes de identificar Portugal no mapa da Europa Ocidental - algo que se justifica pelo facto de o ensino, entre nós, estar cada vez mais desprovido de exigência, privilegiando-se o carácter "lúdico" da aprendizagem, que deve merecer a "adesão emocional" das crianças enquanto o esforço se ausenta das salas de aula.

Há tempos, num grupo de cerca de dezena e meia de pessoas da chamada classe média-alta reunidas em Lisboa, perguntei a cada uma delas se tinha comprado algum livro no ano anterior. Excepto num caso, as respostas foram todas negativas. A nossa chamada elite vive divorciada de leituras: é incapaz de comprar um romance ou um jornal, por exemplo. Sai de casa para abancar num restaurante, mesmo caro, mas nem lhe ocorre deslocar-se a um teatro ou um cinema, a um concerto ou a uma exposição.

 

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Em Novembro de 2013, fechou em Lisboa o cinema King. Foi durante anos o que mais frequentei. Lá vi alguns filmes inesquecíveis - vários de Pedro Almodóvar, por exemplo. Em diversas ocasiões não havia praticamente mais ninguém na sala: era fácil antever que acabaria por encerrar. Como encerrara o Londres, em Fevereiro desse ano - outro cinema da capital de que fui visitante assíduo. Nos últimos meses o seu estado de degradação tornara-se de tal modo evidente que não custava antecipar-lhe o fim.

Depois de fechado, muitos do que o votaram ao abandono lembraram-se de pôr a circular um abaixo-assinado entre os moradores da zona exigindo à câmara que não autorizasse a abertura de uma loja chinesa no seu lugar. Ainda me lembro do ar de espanto da senhora que me pôs o papel à frente, pedindo a minha assinatura, quando lhe respondi que me recuso a subscrever petições xenófobas. A loja abriu em 2014 e lá está, sempre cheia, no preciso local onde existia o antigo cinema, quase sempre vazio. Os mesmos que viraram as costas à sala de espectáculos passaram a acorrer ao estabelecimento comercial - incluindo ex-promotores do tal abaixo-assinado prontamente esquecido.

 

Somos assim: deixamos encerrar jornais, cinemas, livrarias. No momento em que fecham, logo surge o habitual coro de carpideiras lamentando o sucedido. Em regra, quem mais chora é quem menos contribui para evitar em tempo útil que o deserto cultural vá alastrando entre nós numa escalada galopante.

Quantos pais, incluindo na petulante Lisboa, nunca oferecem um livro aos filhos? Quantos já os levaram a visitar um monumento ou um museu? Quantos reagem com um resignado encolher de ombros à notícia de que um filho de dez anos é incapaz de apontar Portugal no mapa?

Que modelo de exigência estamos a proporcionar à geração que vai seguir-se?

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