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Greta

por jpt, em 12.12.19

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Greta Thunberg visitou Portugal. Estava eu ausente do país, de longe apenas notei o coro dos incomodados. E logo depois é escolhida como "Personalidade do Ano" pela Time (ainda por cima com foto de capa feita em Lisboa) - e é audível como recrudesce o silvo dos dichotes. Broncos e incultos - p. ex. a quantidade de imbecis que leio considerando, até explicitamente, essa escolha como um "Prémio" mostra o quão grave é a pandemia de morcanzite no país.

Quem me conhece sabe do quão autofágico sigo, mesmo que o tom assertivo, até exarcebado, de alguns postais possa aparentar o inverso aos desconhecidos "amigos-FB" e/ou visitas-de-blog. Razões minhas (que seria demasiado intimista explanar). Mas ainda que sob essa condição gosto deste meu texto Greta D'Arc, que aqui botei há meses. Pois nele inventei o cognome à rapariga (não vira antes atribuirem-lho). E porque lá está tudo, até de forma concisa, que é necessário para demonstrar o quão visceral é a estupidez reinante, nesse apatetado e cada vez mais "venturoso" nicho de atrasados intelectuais que se dizem "direita". De alguns, poucos, até sou amigo.

E um tipo envelhece, cada vez mais entalado entre esta vizinhança energúmena feita de joacin@s, (afinal) rangéis e piores-que-isso, para além da asquerosa ladroagem socratista, esta que chamávamos "ciganada" quando éramos putos.

O que vale é que há a esplanada do bairro. E o futebol para se conversar, cruzando imperiais. E é neste refúgio que releio este meu "Greta d'Arc". E digo, humilde, "na mouche, jpt".

Injustiças

por Diogo Noivo, em 27.11.19

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Apresentou-se aos eleitores como “mulher, afrodescendente e gaga”. O partido pelo qual se candidatou confirmou que, de facto, era “mulher, afrodescendente e gaga”. E, para dissipar qualquer dúvida que pudesse existir, a comunicação social atestou repetidamente que a candidata era “mulher, afrodescendente e gaga”. Estas três características foram o alfa e o ómega do projecto político em apreço, com todos – candidata, partido, e órgãos de comunicação social – a resumir a mensagem ao sexo, à melanina e às dificuldades de fala.

Por isso, as críticas lançadas a Joacine Katar Moreira e ao partido LIVRE são manifestamente injustas. Eleita, a deputada é escrupulosa no cumprimento do seu programa eleitoral: é mulher, afrodescendente e gaga. Nunca um/uma candidat@ foi tão rigoros@ no cumprimento do que afirmou em campanha – julgo que esta é a forma correcta de escrever a frase na novilíngua vigente.

Ninguém quis falar de política, de ideias, de convicções. A definição de interesse público e a forma de o defender estiveram em parte incerta durante toda a contenda eleitoral. A comunicação política foi propositadamente centrada em aspectos inócuos, já que a síntese “mulher, afrodescendente e gaga” nada nos diz sobre a experiência, a competência e o discernimento da pessoa para o exercício de funções públicas. Por isso, exigir à deputada e ao partido coisa diferente é injusto.

A manifestação das Forças de Segurança

por Diogo Noivo, em 21.11.19

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Por dever de um ofício passado, dialoguei e negociei diariamente com os sindicatos da PSP e com as associações profissionais da GNR ao longo de quase três anos. Terminadas essas funções, o respeito que tinha pelas Forças de Segurança transformou-se em profunda admiração.

Sei que muitas das reivindicações que estão na base da manifestação de hoje são inteiramente justificadas. Falta de material e de equipamento, postos e esquadras em condições deploráveis, e insuficiência de efectivo em algumas zonas do país são queixas com basto fundamento. Sei também que nenhum governo português terá capacidade financeira para colmatar os problemas existentes, uma dificuldade muito agravada pela calamitosa gestão do actual Executivo na área da Administração Interna.

Dito isto, há quatro aspectos que têm sido convenientemente esquecidos pelas estruturas sindicais e que, salvo raríssimas excepções, a comunicação social não percebe (honra seja feita ao Diário de Notícias, que por sistema aborda os temas relacionados com as Forças de Segurança com a atenção e profundidade devidas).

 

1. Carreiras e remunerações. Ao longo de décadas, os sucessivos governos – de esquerda e de direita – foram incapazes de aumentar os salários na PSP e na GNR de forma estruturada porque isso implicaria redesenhar por completo a organização de carreiras e de categorias profissionais, uma caixa de pandora que ninguém quer abrir. Em compensação, criaram-se subsídios e foi-se aumentando o seu valor – subsídio de patrulha, subsídio de operações especiais, subsídio de binómio cinotécnico, subsídio de fardamento, etc. Em resultado, entre 20% e 50% da remuneração mensal de um elemento das Forças de Segurança depende de subsídios, que são variáveis, o que faz com que uma parte importante dos polícias e dos militares da GNR não saibam ao certo quanto ganham por mês. Em síntese, em vez se de pensar as remunerações de maneira racional e sustentável, optou-se por ir colocando remendos. A alteração deste estado de coisas é onerosa, mexe com interesses corporativos e, por isso, conta com a firme oposição de sindicatos e associações profissionais. Porém, se nenhum governo tiver a coragem de mexer neste aspecto, o problema continuará a agravar-se.

 

2. O valor político dos subsídios. Na época em que trabalhei no MAI, e apesar do programa de assistência financeira ao qual Portugal se encontrava sujeito, foi possível aumentar o subsídio de fardamento em 100%, passando de 25€ mensais para 50€. Este complemento salarial tem duas particularidades: está isento de tributação fiscal; e, não obstante se designar “de fardamento”, pode ser usado para qualquer fim, sendo por isso parte do salário. Na altura, foi proposto aos representantes sindicais a alternativa de ser o Estado a fornecer o fardamento, o que naturalmente implicaria o fim do dito subsídio. Sem surpresa, os sindicatos não aceitaram a proposta, entre outras razões porque a manutenção de subsídios lhes permite afirmar que o salário de muitos polícias ronda os 700€ (esquecendo-se de referir que este valor é o salário base) e, dessa forma, conseguir a simpatia da opinião pública para mais reivindicações.

 

3. A falta de efectivos. Há zonas do país onde faltam profissionais. Por outro lado, os poucos que estão ao serviço têm mais de 45 anos de idade. É a mais absoluta das verdades. Contudo, esquecem-se habilmente os sindicatos e as associações profissionais que parte do problema se deve à alocação de recursos humanos, em particular aos milhares de elementos da PSP e militares da GNR que se encontram em funções de apoio operacional (vulgo ‘funções administrativas’ ou 'de secretaria'). São funções cobiçadas, desde logo porque, em regra, decorrem em horário de expediente, não implicando por isso a realização de turnos penosos. Os representantes sindicais não o referem porque têm associados a desempenhar funções de apoio operacional, que obviamente desejam manter. Uma melhor alocação de recursos não resolverá a falta de pessoal – até porque há funções administrativas que só podem ser realizadas por gente da PSP e da GNR –, mas ajudaria bastante a mitigar o problema.

 

4. O aparecimento Movimento Zero. Criado há não muito tempo por profissionais da PSP e da GNR, não tem liderança nem porta-vozes. É aquilo a que agora se chama ‘movimento inorgânico’. Teme-se que nas suas fileiras haja gente de extrema-direita e indivíduos apostados em desestabilizar as Forças de Segurança.

Em Julho deste ano, membros do Movimento Zero viraram as costas ao Ministro da Administração Interna e, mais grave, ao Director Nacional da PSP numa cerimónia pública. Julgo que foi a primeira vez que tal aconteceu. Dada a natureza hierárquica das Forças de Segurança e o espírito de corpo que as caracteriza, foi um gesto muito sério. A classe política – governo e partidos da oposição – foi incapaz de perceber a seriedade do acontecimento. Salvo honrosas excepções, a comunicação social noticiou o sucedido com a mesma atenção com que informa sobre a ocorrência de um acidente rodoviário.

Não sei o que é o Movimento Zero nem quem o conduz. É o resultado da profunda insatisfação que existe nas Forças de Segurança, agravada pelo alheamento do actual governo. Mas, não menos importante, é fruto da ineficácia dos sindicatos e das associações profissionais: até há bem pouco tempo, a PSP tinha 12 sindicatos e a GNR pelo menos cinco, mas juntos não representavam metade do efectivo. Não me surpreende que tenham sido ultrapassados por um grupo sem rosto que ninguém controla. O inenarrável André Ventura e o PNR tentam apanhar boleia do Movimento, no qual suspeito que têm apoiantes. Mas aposto que o Movimento Zero não se deixará capturar por interesses partidários, com tudo de bom e de mau que daí resulta.

 

São muitos os problemas em causa, alguns complexos e antigos. Por incapacidade dos vários governos e por resistência dos sindicatos e associações profissionais, o que eram pequenas dificuldades transformou-se em desafios graves e prementes. Porque não vejo quem seja capaz de inverter a marcha, creio que a manifestação de hoje é apenas o início de algo que veio para ficar.

A inveja é o desporto nacional

por Pedro Correia, em 21.11.19

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Ao contrário do que muitos supõem, o maior desporto nacional não é o futebol: é a inveja. Pura e dura.

Como os comentários lidos e ouvidos nas últimas 24 horas sobre a ida de José Mourinho para o Tottenham confirmam, uma vez mais.

"Barco Negro"

por Cristina Torrão, em 31.10.19

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Depois de ter postado aqui sobre os “Portugal-Krimis”, ou seja, livros policiais situados em território português, mas escritos por alemães, houve um escritor, com pseudónimo Mario Lima, que se manifestou nos comentários. Este autor alemão vive há vários anos no Minho com a mulher e três gatos e dedica-se à produção (em pequena escala) de vinho verde tinto.

Fiquei curiosa quanto aos seus livros, não só por ter trocado impressões com ele, como por ele os situar no Porto, uma cidade que me diz muito. Nasci em Castelo de Paiva, vivi muitos anos em Vila Nova de Gaia e licenciei-me na Universidade do Porto. A personagem principal dos dois livros de Mario Lima é o inspector Fonseca, da PJ do Porto.

Li o primeiro, Barco Negro, inspirado no lindíssimo fado homónimo de Amália Rodrigues (no link indicado, pode ouvir-se a versão original e a cantada por Mariza). Trata-se de um enredo bem construído e uma leitura que entretém, mantendo o leitor em suspense. Não há dúvida de que Mario Lima conhece bem o Porto e Matosinhos e consegue transmitir a atmosfera dessas duas cidades, pelo menos, no Inverno. Este foi um aspecto que apreciei particularmente. Ainda não li mais nenhum destes “Portugal-Krimis”, mas sempre imaginei que os autores falassem muito do sol e das praias.

Pois bem, a acção de Barco Negro decorre de início de Novembro até Janeiro do ano seguinte, ou seja, em plena estação fria e cheia da chuva. A história inicia-se debaixo de uma chuva torrencial, que atrapalha o trabalho dos investigadores da PJ, quando surgem dois cadáveres em Perafita, Matosinhos. Embora haja dias de sol pelo meio, o frio não deixa de nos perseguir durante todo o livro, havendo inclusive uma cena passada perto de uma casa de montanha, na zona de Montalegre, com temperaturas abaixo de zero. Pois, isto também é Portugal! Achei igualmente interessante alguma referência ao tempo da ditadura e à PIDE.

Entre os investigadores da PJ, encontra-se uma jovem estagiária, psicóloga, que, na verdade, chega a roubar protagonismo ao inspector Fonseca, perguntando-se o leitor quem será, afinal, a personagem principal. Enfim, o inspector Fonseca é o único que vem mencionado na capa dos dois livros. Não sei como é no segundo, Tod in Porto (Morte no Porto), mas, na minha opinião, se Mario Lima pretende criar um inspector carismático para a sua série de policiais, vai ter de se dedicar mais ao Fonseca e refrear a sua “paixão” pela bonita e sexy Ana Cristina.

Infelizmente, o livro só existe em língua alemã e eu recomendaria a sua tradução. Se há algo que aprecio em obras destas, é a nossa imagem vista por alguém de fora. Por isso, não resisto a traduzir uma pequena passagem da página 265. O cenário é um hipermercado em vésperas de consoada natalícia:

«Na secção do peixe, encontravam-se quantidades extra de bacalhaus empilhados sobre mesas. Escolher o bacalhau certo para a consoada não era resolução para tomar de ânimo leve. Todos se aglomeravam à volta das mesas, cada qual o melhor especialista na matéria. Um bacalhau assim, salgado e seco, não devia ter uma cor muito esbranquiçada e também a consistência era importante: fosse ele mole demais, não servia. As pessoas pegavam nos bacalhaus e vergavam-nos, de olhar crítico. Era aquele o certo? A maior parte dos peixes acabava por ser novamente atirada para a pilha. Não haveria melhor? Casais mais velhos entreolhavam-se preocupados, abanando a cabeça. “Não valem nada”. Uma velhota baixinha desconfiava que os melhores estavam escondidos bem lá no fundo. Resoluta, arrancava um bacalhau a seguir ao outro do fundo da pilha, atirando-os para cima do monte, examinando cada um deles de testa franzida. Nada, mais uma vez. Venha o próximo!»

Notas breves sobre a noite eleitoral

por Diogo Noivo, em 07.10.19

1. Ao contrário do que foi dito por António Costa, os portugueses não gostam da geringonça. Os portugueses gostam do PS. Os socialistas reforçaram o seu respaldo eleitoral, mas o Bloco de Esquerda perdeu mais de 57.000 votos e a CDU mais de 115.000 (um desaire colossal). Ver nestes resultados um triunfo da geringonça é um delírio.

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fonte: SGMAI

 

2. O resultado do PSD é inenarrável. Pior só mesmo o discurso de Rui Rio. O Pedro Correia já aqui disse o essencial sobre o assunto.

 

3. Mais do que um mau resultado, o CDS pode ter iniciado o princípio do fim. A próxima liderança será determinante.

 

4. Dos pequenos partidos que entram o parlamento, o mais votado foi o Chega, ainda que por margem diminuta. É favor abrir os olhos. A culpa não é dos eleitores, frequentemente acusados de incultura quando partidos desta natureza chegam aos parlamentos (aliás, olhando para a votação por grau de escolaridade, o campeão junto daqueles que menos formação têm será o PS). Os eleitores têm sempre razões atendíveis e importa compreendê-las.

 

5. A Tunísia também foi às urnas ontem. Tem cerca de 11 milhões de habitantes e 7 milhões de eleitores. Portugal tem mais ou menos a mesma população e mais de 10 milhões de eleitores. Um destes países tem um Ministério para a modernização administrativa.

Cancro da Mama

por jpt, em 03.10.19

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[Cartaz da exposição* que decorre desde anteontem, 1.10, no Instituto Português de Oncologia do Porto. Página no Facebook, com as fotografias e os textos da exposição, estes últimos da autoria de artistas musicais e escritores. Grupo no Facebook aberto a quem queira escrever sobre as fotografias, sob o mote "movimento de empatia"]

No átrio da ala do cancro da mama, no I.P.O. do Porto, estão expostas dúzia e meia de fotografias. Os modelos são homem e mulheres que disso padecem. Sem rebuços, surgem com as suas amputações, como agora vão, mostrando-se na sua beleza, a de cada um, o quinhão dela que a cada um de nós coube, maior ou menor consoante quem nos vê e como nos olha. E na formosura da imensidão da força que denotam e da esperança com que nos reconfortam.

Propõe o projecto que cada um faça o seu "exercício de empatia" escrevendo algo - ou pensando algo, presumo eu. Hesito, procuro o tom, esse que poderá parecer adequado, o do sentimento, fraterno/amoroso, talvez aposto em vestes de requebros poéticos, abraçando com palavras o camarada homem, e sendo algo mais caloroso, até aprisionado pelo atrevimento próprio àquela toxicidade que agora vem sendo denunciável, com as camaradas mulheres. Assim louvando-lhes a coragem, celebrando-lhes a beleza, nada idealizada mas sim esta, óbvia, do tal qual estamos neste agora. Talvez até, distraindo-me, elevando uma ou outra, ou mesmo o conjunto, a arquétipo. Esse que falso, é óbvio, pois ali estão apenas indivíduos. Belos, corajosos. Desejáveis. Seguiria eu então para um ensaio (antropológico) sobre a constituição do desejo?, um poemaço romântico? uma narrativa erótica?, uma qualquer-coisa assim ficcionando sentimentos?

Mas eu não sou esse tipo. Pois vejo as fotografias e vivo outras histórias, menos poetizáveis, até menos narráveis. E é essa minha empatia, rude, descelebratória, que me ocorre. Pois surge-me Sousa, o cidadão presidente, no seu constante "somos os melhores do mundo". E concordo. Pois, dizem-me, somos nós, portugueses, os campeões europeus do divórcio com as mulheres com cancro da mama. Seguimos nº 1 do ranking,  mais de 60% ... Implacáveis seguimos, nisso competentes. Vem o cancro às nossas mulheres? Partimos para outras. Tratamentos? As unhas macilentas, quebradiços os dentes, corpos engordados com os químicos, ancas alargadas, nem um pêlo para amostra, da vagina à cabeça, que aos de abaixo pouco prezamos, olhos baços, e nem falo do medo, quantas vezes até desespero, dos padeceres que nem imagino, dos temores de desacompanhar os filhos, quando os há, tudo isso tão pouco apelativo? E ainda por cima cortam-lhes as nossas tão queridas mamas, a uma ou mesmo às duas? E ainda para mais arrancam-lhes o útero? Nisso tudo durante tempo mulheres sem desejos, vontades? Não foi isto que contratualizámos. Ficou danificada?, vamos para outras. Nisso, nessa mobilidade, nesse verdadeiro empreendedorismo, seguimos "Os melhores da Europa", competentes. E isto vai assim em todos os estratos, "acontece nas melhores famílias". E há bónus, não acaba aqui. Que há quem não se separe, que isto do divórcio empobrece - e de que maneira, como o afiançará quem por ele passa. E assim, conta quem sabe, tantas são as mulheres do cancro da mama, essas durante temporadas menos atreitas ao sexo, menos belas, e, se calhar pior do que tudo, menos airosas como fadas do lar, que às mágoas da doenças juntam as marcas das agressões, as dos "apenas" dichotes e as das verdadeiras pancadas dos extremosos maridos. E isto já não entra para o "ranking".

É esta a minha "empatia". Antipatizando, imenso, com o meu à volta. Compatriota.

*Fotografados / Textos: Telma Feio / Samuel Úria; Susana Neto / Fernando Ribeiro (Moonspell); Susana Cunha / The Legendary Tigerman; Sandra Gil / João Gil; Rute Vieira /  Rita Redshoes; Lourdes Pereira / Ricardo Ramos, Beatriz Rodrigues (The Dirty Coal Train); Paula Pereira / Jorge Benvinda, Nuno Figueiredo (Virgem Suta); Maria Maria / Olavo Bilac; Lucinda Maria Almeida / Jorge Palma; Ivete Oliveira / José Cid; Cristina Filipe Nogueira / António Bizarro; Carla Sofia Henriques / Alice Vieira; Ana Bee / Suzi Silva; Joana Barros / Ana Isabel Pereira; Agostinho Branco / Lena d'Água

 

Perceber Tancos (II)

por Diogo Noivo, em 03.10.19

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A trama não se adensa muito, mas a lista de alucinados que vê no caso de Tancos uma encenação criada para prejudicar a geringonça e o PS não pára de crescer: Vasco Lourenço perpetrou mais um artigo de opinião e Pedro Abrunhosa – isto não se inventa – veio a terreiro afirmar que Tancos apenas serve para salvar a direita.

Naturalmente, sobre os crimes em apreço, sobre as declarações indecorosas de titulares de cargos públicos e sobre o fracasso do aparelho de segurança e defesa do Estado Lourenço e Abrunhosa nada têm a dizer.

 

ADENDA: Porque o absurdo do caso não conhece limites, esta semana soubemos que Azeredo Lopes não fazia ideia do que era um paiol quando assumiu funções de Ministro da Defesa Nacional. Portanto, não será exagerado assumir que, para o ex-Ministro, G3 seria a designação dada a um ponto erógeno.

Perceber Tancos

por Diogo Noivo, em 01.10.19

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O caso de Tancos resiste a qualquer esforço taxonómico. Tem um lado ridículo, de ópera bufa, demasiado absurdo para ser verdade. Tem ainda um outro lado, de total ausência de responsabilidade institucional, excessivamente gravoso para que tenha ocorrido num Estado de Direito democrático.

Olhamos para os factos demonstrados e custa a acreditar. Vemos a facilidade com que se entra clandestinamente em instalações militares para roubar armas e explosivos, facto ao qual se junta a pièce de résistance cómica: o material militar foi transportado num carrinho de mão por indivíduos com apodos artísticos como “O Fechaduras”, “O Pisca” e “O Caveirinha”. Nenhuma obra de ficção se atreveria a algo tão patético.

Percebemos também que houve uma operação de encobrimento do crime, o que sugere sofisticação e destreza típicas de um livro de Graham Greene, mas que na verdade foi de um amadorismo confrangedor.

Percebemos ainda que houve um ministro da Defesa mitómano e com sintomas de deslumbramento pelo poder que muito provavelmente deu cobertura activa ao espetáculo de vaudeville.

Percebemos agora que o deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro, um apparatchik que nunca leu Orwell, estava ao corrente da situação. Optou por participar tacitamente no encobrimento, mas não se cobriu de vergonha quando o facto se tornou público: apresenta-se outra vez como candidato à Assembleia da República.

Por fim, estamos à espera de perceber se o Primeiro Ministro foi conivente, ou se simplesmente é possível que um esquema desta dimensão ocorra sem que o chefe do Governo se aperceba. Tanto a hipótese A como a B deveriam ter consequências sérias.

Como se tudo isto não bastasse, há um rol de alucinados, onde pontificam José Sócrates, Vasco Lourenço e uma parte do Partido Socialista, que no meio de tanta falta de decoro – para não falar na montanha de crimes – encontra em Tancos uma urdidura tecida para prejudicar a geringonça e o PS.

Isto não se inventa. 

Senhor, falta cumprir-se Portugal

por Paulo Sousa, em 26.09.19

Nestes dias o principal assunto nos Emirados Árabes Unidos é a chegada de Hazza Al Mansouri, o primeiro astronauta emiradense (ou emirático) à Estação Espacial Internacional.

Chegou hoje pela manhã e de acordo com a Wikipédia é o seu 228º visitante, representando a 19ª nacionalidade a fazer-se presente neste veículo que se pode definir sem metáforas como sendo uma das fronteiras do conhecimento.

Além das bandeiras mais habituais nestas paranças, já por lá andaram um belga, um sueco, um dinamarquês, um cazaque, um sul-africano, um malaio e um espanhol.

Não consigo ficar indiferente quando olho isto e de seguida para aquilo que fomos e somos.

A importância que o nosso país, uma nação antiga, no contributo da descoberta das costas do mundo inteiro e na recolha de informação para que se pudessem desenhar os mapas e assim conhecer o globo onde vivemos esgotou-se há muito.

O tempo passou e no sec XXI a nossa mais recente conquista foi conseguir trocar défice financeiro por défice nos serviços públicos.

Tentamos esquecer que o quadro de pessoal do império português, na sua versão mais extensa do Brasil ao Japão, não ultrapassava 6000 pessoas, clérigos incluídos. Hoje temos mais de meio milhão de servidores públicos mas, ao contrário do que aconteceu no passado, vivemos obcecados com o próprio umbigo.

Nos tempos em que desbravamos o desconhecimento e vivemos na fronteira de ciência aportamos em muitas latitudes e também no desértico e desinteressante território onde Hazza Al Mansouri nasceu. Hoje o país dele ambiciona em sentar-se a bordo da ISS enquanto que no país dos outrora descobridores se discute quem é que sabia o quê e quem que é que anda a mentir.

Neste tempo sobressaltado de eleições gostava que pelo menos um dos candidatos se propusesse a nos levar pela mão e nos transmitisse a ambição de regressarmos às franjas do conhecimento, onde já fomos felizes para que então, como nos disse Pessoa, se cumprisse Portugal.

O incorrectismo

por jpt, em 09.09.19

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Vivemos uma época de combate aos preconceitos apoucadores. Alguns movimentos sociais, e nisso também alguns intelectuais, têm vindo a traçar rumos, tentando expurgar as culturas dominantes de estereótipos discriminatórios e nisso transformar as práticas sociais com estes articuladas. Mas há sempre quem resista, constituindo aquilo a que em tempos de chamou "forças de bloqueio". Muitas destas surgem sonoras no campo da comunicação social e seus adjacentes. Mas talvez as mais empedernidas habitem no mundo económico, controladas por um empresariado voraz na busca de lucros, suportado por esse meio letrado, semi-intelectual, constituído por profissionais da comercialização (dita "marketing", em estrangeiro para adquirir prestígio) e da publicidade. 

Deparei-me agora com este ataque aos homossexuais masculinos. É certo que na actualidade já alguns dos mais prestigiados intelectuais portugueses os defendem, lutando contra preconceitos que ainda os desvalorizam, até compondo e aderindo a uma muito justa teoria antropológica que - finalmente - estipula os quatro grupos existentes na História da Humanidade. De facto, sabe-se agora que existem três grupos vítimas da violência radical, devastadora, escravizadora e assassina: Crianças, Mulheres, "Gays, Queers e Outros Assim" (sigo a conceptualização do consagrado Frederico Lourenço). E um grupo agente da tal malevolência, assassina, escravizadora, estupradora: os Outros. Estes são os Homens Heterossexuais, cujas malevolências contínuas são puro reflexo da sua  masculinidade tóxica, da qual seguem escravos militantes. 

Mas ainda assim é nesta actualidade, na qual o conhecimento histórico e antropológico já nos permite assumir esta compreensão da evolução humana, que uma empresa, na sua insana demanda de lucro fácil, continua a produzir este tipo de insultos, jocosos e ridicularizadores, àquela parte boa da Humanidade.

Mas não vai sozinha neste cruel e alienante rumo. Ao lado daquele insensível produtor alcoólico encontro este outro, desrespeitando os cidadãos séniores, tanto na imagem decadente que deles apresenta, como utilizando epítetos apoucadores, até vis, como se lhes retirando a integridade - no sentido amplo e assim ainda mais perverso, o da redução da sua totalidade e da sua dignidade. 

Urge olhar para estas práticas e alterá-las. O caminho será difícil e longo. Mas necessário.

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Boris para o fim-de-semana

por jpt, em 30.08.19

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(Texto longo, muito mais com o registo de conversa para blog individual mas já que o botei aqui o replico, até porque vamos para o fim-de-semana)
 
Não tenho grandes vínculos com o John Bull. Algum, broken, conhecimento da sua língua. E poucos britânicos contemporâneos realmente me marcaram - Berlin, Leach, Naipaul, Page, Popper, Richards, nenhum deles, e por diferentes razões, um verdadeiro arquétipo appointed by Her Majesty, com a óbvia excepção de Sir Edmund (esta agora foi à João Carlos Espada ...). Mas atrevo-me a opinar, e justifico-o: há mais de uma década que lá tenho família mui próxima queridos amigos, daqui a semanas a minha adolescente filha ali irá cursar a universidade.
 
O que se passará não será uma desgraça para a Grã-Bretanha, e daqui a uns tempos nem se lembrarão das angústias havidas. Mas esta finta ao parlamentarismo é politicamente significante, demonstrativa do processo europeu actual, sinal que vivemos "tempos interessantes". E é ainda mais significante que tal não aconteça na Grécia, Espanha ou Portugal, recentes democracias, ou nas ainda mais recentes das ex-(quase)colónias do Urso Soviético, algumas um bocado trapalhonas. Brota exactamente no cerne histórico da democracia parlamentar. Sinto que isto terá muito mais impacto do que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. "Tempos (ainda mais) interessantes" aí vêm.
 
Para enfrentar este aparente futuro muito haverá para pensar, e definir. Primeiro do que tudo, perceber quais são os problemas. Entre estes estão as formas de recrutamento dos colectivos das lideranças políticas. Num momento em que as capacidades de influenciar o rumo das sociedades se esvaem, em que a soberania efectiva se esgarça, devido à economia mundial e não aos projectos políticos agregadores, quem surge na política? Para simplicar, o problema não é Boris Johnson, nem o "mágico" Steve Bannon. O problema é o tipo David Cameron (quem?). Estes pequenos projectistas de cabotagem  que são recrutados, ascendem, influenciam, e se impõem, gente às vezes sans foi ni loi (como diriam os normandos) mas sempre sem rumo. Grassam, por todo o lado. E não por uma qualquer "crise" de valores, mas devido ao funcionamento do espaço político.
 
Por cá leio vários a defender o gambito de Boris Johnson. Dizem, pressurosos, que é uma acção positiva, tendente ao respeito pelo voto, o resultado do referendo. Correcto. Mas o parlamento também foi votado, donde este argumento é uma óbvia contradição, um pensamento a la carte. É legal, aplaudem. É. Mas não parece nada legítimo. E os ilustres doutos deveriam saber a diferença nada ténue entre os termos. Não haja dúvidas, o encanto com que esta medida de Boris Johnson é acolhida mostra, grita, uma coisa: os seus apoiantes (lusos e não só) não gostam de parlamentos.
 
E o júbilo diante desta versão boreal da Jangada de Pedra do comunista Saramago mostra bem que os seus apoiantes não gostam da União Europeia, querem-lhe a pele. Não a querem melhorar (intensificar ou aligeirar, redireccionar ou estancar), querem-na finda. Nunca percebi qual a razão de portugueses defensores da economia de mercado e da democracia parlamentar tanto detestarem a União Europeia. Talvez tenha sido aquela legislação adversa aos galheteiros públicos. Ou talvez seja a questão da (i)migração. É sempre interessante, no sentido de espantoso, ver doutos portugueses insurgirem-se contra os direitos dos emigrantes. Pois mostra bem que não vêm para além da ponta da respectiva pilinha, perorando que vão num país de emigrantes. Mas não deve ser por causa desta temática da (i)migração. Pois se o fosse discutir-se-iam mudanças nas regulamentações europeias: o livre-trânsito interno, a apetência por mão-de-obra exógena, etc. Mas esse não é o motivo, é apenas o pretexto. 
 
Desde o anúncio da trivela Johnsoniana li vários locutores lusos aplaudindo-a. Insisto, é gente que, de facto, não gosta do parlamentarismo e não gosta da União Europeia. Um destes dias estarão a perorar contra a NATO - de facto já o fizeram quando Trump chegou ao poder e polemizou sobre a organização. Pode-se sorrir e dizer que têm uma agenda política parecida com a do BE e a do PCP! Ou podemos ser um pouco mais analíticos, na senda das teorias da conspiração, e pensar que são teclados putinescos.
 
Mas de facto não são nada disso. São apenas uns ultramontanos "à antiga", uns reaccionários do piorio. Lendo-os - nas redes sociais - vê-se que muitos defendem novas alternativas políticas, como a Iniciativa Liberal, o partido do comentador Ventura, o Aliança (do agora desnorteado Santana Lopes, a fazer tristes figuras de "ocupa"). Eu não estou a dizer que o Iniciativa Liberal (no qual se calhar votarei) ou o Aliança (no qual teria votado se estivesse em Portugal nas últimas eleições) defendem estas posições. Estou a dizer que no seu interior têm estes núcleos, que poderão ser pequenos mas são audíveis - doutos num país de "doutores".
 
Assim, no registo de conversa que é o deste postal (e, a bem verdade, o de todos os postais), o que é necessário é recrutar boas lideranças políticas nos partidos democráticos, gente com algum tino e cuja ambição não seja apenas voluptuosa. E que tenham algum tipo de projecto, nacional e internacional. Um "desígnio", para usar um termo que os seguidores do pensamento de Inês Pedrosa abominam. Seja nos partidos democráticos tradicionais, seja nestes novos. Que não venham Camerons. E cameronzinhos. Que se defenda a democracia parlamentar dos gambitos, trivelas e fintas adversários. E que se defenda a União Europeia, modificando-a, intensificando-a, aligeirando-a, imigrando-a ou não.
 
O que significa, também, refutar, pontapear, o comunismo identitarista, sempre empenhado na demonização da tradição democrática europeia, invectivando o "ocidente", propondo-se a "rever conteúdos culturais", querendo traumatizar para, de facto, apoucar, nisso desfazendo.
 
No nosso país o primeiro passo para isto é simples: arranjar alguém para liderar o PSD, que anda aí aos caídos, decerto que muito devido à tralha militante. Já agora, convém que seja alguém que não surja, a um mês e picos das eleições, em abraços sorridentes ao sucessor de José Sócrates. E em começando por aí continue-se, despertando o CDS da sua condição hospitalar. Ou, porque não?, desliguem-no da máquina. 
 
Pois o estertor dos partidos democráticos, que até pode ter piada para quem ande cansado dos tropeções e aleivosias correntes na política, só terá um desfecho. Piores partidos, piores gentes, piores soluções.
 
Vamos seguir o caso britânico. Ou, como já muitos anunciam, vamos ver o caso inglês. Wait and see ...

Ausências

por Rui Rocha, em 29.08.19

Ontem, quando confrontado por cidadãos com temas concretos, Costa patinou. Na parte conduzida por jornalistas mais interessados na intrigazinha política, passou entre os pingos da chuva. Falta realidade e assertividade na interpelação do poder. A culpa não é só da oposição.

Say "Cheese"

por Maria Dulce Fernandes, em 27.08.19

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Tenho os meus petiscos de eleição. Gosto de doces bem confeccionados, mas perco-me por queijo. Qualquer queijo. Todo o queijo. 

O meu pai era de Castelo Branco. Lá em casa havia sempre queijo. Queijo tipo rabaçal de boca cheia, queijo picante (o famigerado queijo chulé), queijo conservado em azeite aveludado e suave, queijo tipo Nisa, mais seco e fantástico, e queijo tipo Serra para comer à colherada, simplesmente fabuloso . 

Para mim, desde que haja queijo, está-se bem.

Ou pelo menos estava-se 

Não me lembro de não ter queijo para comer sempre que me apetecesse. 

E apetecer, apetece sempre, mas diz que não. 

Com o avançar da idade tornamo-nos mais serenos, mais calmos, mais ricos em saber e em saber que ganhámos candura, temperança,  conhecimento e peso. 

O peso não é apenas o dos anos, é mais o do que o esqueleto suporta e comporta e toda uma série de óbices que traz por acréscimo. 

HDL, LDL, VLDL, TOTAL... totalmente   dessincronizados... 

Drogas, chás e dietas... eu... a... fazer... dieta !!!! 

Tudo light e com moderação... pois sim. 

Alguém já provou queijo Limiano light? Daquele que não se sabe bem se estamos a comer o queijo ou a embalagem de plástico? Não? Então provem e digam de sua justiça. 

Alguém já provou qualquer queijo digno do nome em versão light que não soubesse a PVC fatiado? 

E leite magro? Parece a aguada de cal com que a minha avó caiava a chaminé. Não tem sabor nem odor... é tudo menos leite. 

A Grande Mudança chegou no ano passado. Deixei de ser uma cinquentona enxuta e passei humildemente à condição de sexagenária. 

Estranhamente, a Grande Mudança deu-se sem qualquer alteração, fosse pela efeméride, tampouco pelas gordurices.  

Não vou comer coisas light nem PVCs ou esferovites. 

 

Para tudo é preciso moderação e eu, que sempre soube quando parar, vou deixar as alfaces para os grilos e as sementes para os passarinhos: tenho um queijo de Azeitão à minha espera que é um mimo. 

Todos os cuidados são poucos

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.08.19

"The mainland’s public security administration regulations cover a wide range of minor offences, from disturbing public order to infringing property rights. Under mainland law, police can hold individuals suspected of minor offences under administrative detention for up to 15 days, but families must be notified in writing within 24 hours of detention."

Dizia alguém, há dias, que era melhor ter um acordo (mau) de entrega de infractores em fuga entre Portugal e Macau do que não ter nenhum e entregar quem fosse pedido sem qualquer documento. Ou ficar à espera que os viessem buscar.

Para além de já se ter demonstrado que os vêm (vão, no caso de HK) buscar quando querem, como sucedeu anteriormente no caso dos livreiros, o que aconteceu com o funcionário consular inglês de Hong Kong, detido no passado dia 8 de Agosto, em Shenzhen, no decurso de uma viagem de trabalho, é a prova de que para a RPC os acordos nesta matéria servem para muito pouco.

Embora as autoridades chinesas tivessem a obrigação de informar por escrito as autoridades de HK, no prazo de 24 horas após a detenção de Simon Cheng, nada disseram. Isto não pode ser ignorado.

O homem foi detido, posto a cumprir pena, sem assistência de qualquer advogado, e a família só teve conhecimento de que estava a acontecer, e que ele estava do lado de lá e preso, no dia 21 de Agosto. Isto é, só 13 dias depois de preso e posto a cumprir pena, para a qual nunca havia sido antes previamente julgado e condenado, é que foi prestada informação sobre o paradeiro de Simon Cheng. No entanto, as autoridades do outro lado da fronteira sempre dirão que se tratava de um cidadão chinês de HK e que tudo foi feito de acordo com a lei, pois claro.

O que aconteceu é a prova de que todos os cuidados são poucos, e de que o acordo recentemente celebrado entre Portugal e a RAEM em matéria de entrega de infractores deverá ser analisado com toda a atenção pela Assembleia da República e o Presidente da República. A haver algum compromisso sobre a matéria, aquele deverá ser claro, coisa que o actual não é, e conferir certeza e segurança jurídica em qualquer momento, não se correndo o risco de haver "arranjos" entre a RAEM e a RPC que escapem ao nosso controlo.

Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. E em matéria de direitos humanos todos os cuidados são poucos.

Postais de Coimbra

por Pedro Correia, em 15.08.19

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Aqueduto de São Sebastião

 

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Jardim Botânico

 

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Sé Velha

 

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Jardim da Sereia

 

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Igreja de S. Tiago

 

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Chanfana no Cantinho dos Reis

 

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Leitão à Bairrada (meia dose) no Joaquim dos Leitões

 

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Vista geral da cidade, a partir do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

 

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Vista da Alta coimbrã

 

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Mondego azul (sem um barco em pleno Agosto...)

A via portuguesa [pub]

por Diogo Noivo, em 08.08.19

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Portugal faz as primeiras páginas em Espanha. A “vía portuguesa” – vulgo “geringonça” – é apontada por muitos como a solução ideal para resolver o impasse governativo no país vizinho. No jornal digital The Objective, um periódico espanhol feito por gente notável e desempoeirada que lê muito e bem (e escreve melhor ainda), assino um artigo de opinião onde analiso os limites da via portuguesa como salva-vidas político. O texto pode ser lido aqui.  

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Avenida Dailly, Schaerbeek, Bruxelas, de onde partimos no último sábado, eu em verdadeiro torna-viagem, quiçá o meu último, quem sabe se apenas o deste agora. Decidido o regresso automobilizado logo os patrícios ali vizinhos me aconselharam os cuidados necessários ao trabalhoso caminho: que ultrapassássemos Paris durante a noite, para evitar o seu demoníaco trânsito. Assim o fiz, largando a de facto bela e aprazível Bruxelas ao fim da tarde, de molde a cruzar aquele horroroso remoinho durante a meia-noite dominical, ainda assim atarefadíssima. Mas o conselho mais fundamental foi o dedicado ao combustível: que atestasse à saída do país, cerca de Mons. Que reabastecesse o mínimo possível em França, que tão mais cara por lá servem a gasolina – tanto que até terá provocado aquilo dos “coletes amarelos” que andaram nas bocas nestes últimos tempos, principalmente aquelas mais ditas eurocépticas. Assim o fiz, carregando a meio do franco trecho, e reforçando o pouco necessário já no País Basco gascão. E que atestasse no início do reino nosso irmão e de novo no seu término, ali nas imediações da antes mítica Vilar Formoso. Pois, disseram-me, e não só acreditei como o comprovei, a gasolina é tão mais cara em França do que na Bélgica e em Espanha. E é isso a verdade, como qualquer viajante mais atento o pode comprovar.

Mas o que mais me surpreendeu foi já conduzindo na Pátria Amada, apesar desta tantas vezes dita "Gasta", e assim o ir parecendo. Pois, autoestrada adiante fui vendo os anúncios dos preços do combustível. E bem fidedignos o são, pois mostram que a gasolina comum é mais cara em Portugal do em Espanha. E do que na Bélgica - onde as pessoas ganham, grosso modo, cerca de três vezes mais. E até do que na França - a tal terra dos furiosos "coletes amarelos", onde os rendimentos ainda são maiores. Não o acredita o prezado e almejado leitor do blog? Dirá que este bloguista é um "lusotropicalista"? Um "neoliberal"? Um "(filo)fascista"? Um "ressabiado/ressentido/invejoso"? Ou mesmo um "populista"? Ou até, como agora sói dizer-se, um mero "padeiro dos Olivais"? Não acredita mesmo? Então confirme aqui.

Lisboa alcançada. Malas amontoadas em casa. E vou às compras, à grande superfície fronteira, um estabelecimento Pingo Doce. O equivalente, por assim dizer, ao Colruyt de Schaerbeek onde abastecia parcelas do rancho até há tão pouco. Venho com os preços bruxelenses, essa Brasília da Europa, bem frescos na memória. E fico estupefacto: não só tantos dos vegetais são mais caros, os espinafres (especializei-me, entretanto, num saboroso esparregado, lembrando-me da saudosa matapa), os espargos, os cogumelos, as berinjelas, as abobrinhas (sempre galicamente ditas courgettes), com preços mais acima. E etc. Mas, e notai bem, até o pão é mais caro. O pão. Vou repetir, sem isso acompanhar com alguma praga, até o pão é mais caro.

Parcas compras feitas e vou até ao Arcadas, desde há décadas o meu café de bairro, saudoso que venho da bela imperial da casa, sem igual, vos garanto, e dos seus apreciáveis salgados. Para além do convívio, este talvez o produto mais refinado da casa. Saudações feitas o patrão logo me mostra, comentando-a, como é uso entre nós, a capa do diário - e ainda não sabia eu ter este sido visitado pela inspecção das finanças e como tal, dada a alguma mácula vasculhada, convocado a adoçar as suas relações com o poder governamental, características da nossa política que os intelectuais e teclistas avençados juraram menosprezar. A capa do diário? Meia dúzia de VIPs socialistas não foram apresentados a tribunal há uns meses, como se esperaria se seguindo as leis. E o tal PS, o partido da dupla funcional Sócrates & Costa, voa nas sondagens para a maioria absoluta.

A gasolina é mais cara do que em França, o pão mais caro do que em Bruxelas. E a malta segue trepidante, "no comboio descendente," vão todos "à gargalhada, uns por verem rir os outros, e os outros sem ser por nada", vão "todos à janela, uns calados para os outros, e os outros a dar-lhes trela, mas que grande reinação! Uns dormindo, outros com sono, e os outros nem sim nem não".

"Populista", dirão alguns intelectuais comentadeiros. "Masculino tóxico", dirão teclistas adamados e não só. Serei, isso e até pior e menos. Mas que fique claro neste meu regresso à gasta e amada Pátria: não é só a gasolina, até o pão é mais caro do que "lá fora". Acreditem, que sobre esse assunto este Padeiro olivalense segue atento.

E a malta gosta disto. Que fazer? Torre-se o pão velho. Ou açorde-se-lo, se para isso houver arte.

E que se lixe, que isto, qu'esta gente, não tem arranjo.

Retratos de falência

por Diogo Noivo, em 24.07.19

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Longe dos corredores do poder, de algumas tribunas periodísticas, e do 'circuito da mão-fria' – os simpáticos e elegantes eventos onde um copo on the rocks arrefece a mão de quem o segura –, há um país que se move como pode.

Os transportes públicos são, a um só tempo, um espaço de desespero e de privilégio. De desespero para quem os usa, porque os atrasos, as supressões e a degradação do chamado “material circulante” pintam uma paisagem magrebina. Em bem mais de uma década como passageiro da CP nunca assisti a um estado tão calamitoso de serviço prestado. Contudo, e apesar do quadro de miséria, ser passageiro é também um privilégio, uma vez que as redes de transportes públicos são um exclusivo de três ou quatro centros urbanos.

Perante a ineficiência do serviço prestado, os passageiros que dispõem de rendimentos para ter carro próprio têm alternativa. Os restantes submetem-se ao não-há-nada-a-fazer, chegando tarde ao seu local de trabalho, perdendo consultas e vagas para exames médicos, problemas resumidos num longo e penoso etcétera. Os serviços públicos deveriam mitigar as desigualdades, mas, no caso em apreço, servem para as agravar.

Um texto publicado hoje no Observador revela um lado mais dramático do caos instalado: pessoas que perdem o emprego e que são preteridas em entrevistas de trabalho por residirem na margem sul do Tejo. A explicação não reside em preconceito, mas sim no temor dos empregadores a contratar alguém que depende dos barcos da Soflusa para cruzar o rio. A posição dos empregadores é compreensível, mas a penalização sobre os residentes na margem sul tem tanto de inaceitável como de terceiro-mundista.

Os preços do imobiliário na capital empurraram famílias para a periferia, o que tem um custo horário nos movimentos pendulares quotidianos entre casa e local de trabalho. A esse custo acresce agora uma penalização laboral, única e exclusivamente por ineficiência dos serviços de transporte.

Este quadro inenarrável de penalização de quem menos tem, que agrava de sobremaneira a desigualdade social, suscita várias dúvidas. Por exemplo, saber o paradeiro daqueles que no passado recente se especializaram em ‘grandoladas’. Ou perceber o que aconteceu aos arautos do ‘povo’ e dos mais pobres. Ou, ainda, perguntar à oposição – assumindo que existe – o que tem a dizer sobre o assunto. Suspeito que são perguntas sem resposta.

O discurso do 'nós vs. eles', do 'povo vs. elites', é perigoso e inútil. A melhor forma de o combater é garantir que não tem adesão à realidade diária de quem vota.

Linhas tortas

por Maria Dulce Fernandes, em 13.07.19

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Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta sim o que poderás fazer pelo teu país e obterás resposta igual para ambas as perguntas: nada.
Não esperes nada do teu País pois ele já nada tem para te dar.
Deu-te um berço, uma língua, uma identidade, a noção de pertença a algo grandioso que transcende éticas individuais. Deu-te a vã glória de integrares a história e as histórias daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando. Deu-te liberdade e democracia. Deu-te valor.
 
E tu retribuíste, com o teu percurso de inclusão social, com a tua aprendizagem, com o teu estudo, a tua qualificação, o teu trabalho, com o teu suor, até com as tuas lágrimas. É chavão, é cliché, é legítimo.
 
Poderia dizer-se que se igualaram no dar e no receber, não fora a oligarquia que se impôs para te guiar e formular as leis que regem cada minuto do teu dia, ditar cada vez mais e o ditado ser cada vez mais draconiano e os mandos dos ditantes cada vez mais retorcidos de favores aos favorecidos.
 
Olhas em volta e, num hemiciclo de eleitos, não encontras um rosto que exprima rectidão, experiência, solução... tampouco honestidade cívica. Cada palavra é subliminar, repleta de sinónimos que são  hiperónimos, hipónimos que são parónimos, antónimos que são homónimos. Cada frase é uma charada conotada com as máscaras da tragédia, onde com um sorriso te apetece chorar.
 
E tu olhas mas não vês, escutas mas não ouves, tocas mas não agarras, falas e nada dizes, porque te perdeste dos sentidos e já não consegues sentir mais nada. Até o desespero ou a raiva já se conformaram e segues com o rebanho, sem pastor nem pastagem, sem bússola nem compasso, indiferente aos pontos cardeais, porque afinal o que és tu senão mais um ponto colateral perdido nestas linhas tortas que ninguém sabe endireitar?


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