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Portugal

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.06.19

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(Getty Images)

"Porque na sociedade portuguesa actual, o medo, a reverência, o respeito temeroso, a passividade perante as instituições e os homens supostos deterem e dispensarem o poder-saber não foram ainda quebrados por novas forças de expressão da liberdade.

Numa palavra, o Portugal democrático de hoje é ainda uma sociedade de medo. É o medo que impede a crítica. Vivemos numa sociedade sem espírito crítico – que só nasce quando o interesse da comunidade prevalece sobre o dos grupos e das pessoas privadas. (...)

Portugal conhece uma democracia com um baixo grau de cidadania e liberdade" – José Gil, Portugal, Hoje – O Medo de Existir, Relógio D'Água, 2004, pp. 40-41 

 

Combatamos, pois, o medo. Sejamos cidadãos de corpo inteiro. Sejamos melhores portugueses. Onde quer que estejamos.

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Aprender Mar, aprender Portugal

por Maria Dulce Fernandes, em 10.06.19

Quando eu era pequenina, a Avó ninava a canção do Barquinho e eu choramingava: Pobre barquinho, que fez chape!!  no mar… 

 Mal damos pelo tempo passar e já estamos a aprender. Aprendemos a sorrir, a comer, a gatinhar, a falar... 

Num ápice, estamos a juntar números e letras, a aprender o B + A = BA e o 1 + 1 = 2.  

Aprendemos sobre Portugal, sobre os Primitivos, os Bárbaros, os Gregos, os Romanos, os Arabes e o al Andalus, osCristãos, o Condado Portucalense e a Reconquista

Aprendemos que do tempo das trevas nasceu uma luz imensa. 

Aprendemos principalmente sobre o mar e os marinheiros que montados em cascas de noz com mastros com as velas da Cruz de Cristo, cavalgavam as ondas por esses mares fora, sem medo do desconhecido, rasgando horizontes, enfrentando tempestades, colhendo para Portugal os frutos da imortalidade histórica. Aprendemos que não há vento que nos desvie nem onda que nos afunde. Aprendemos que o homem do leme nos levaria sempre a bom porto, enfrentando intrepidamente todos os mostrengos que lhe quisessem obstruir passagem:.

Não sei se é por estar a ficar (mais) velha, que me sinto nostálgica e derrotista, mas tem dias que estou a ver as notícias, sempre más, só tristezas, crimes, desgraças e corrupção e me pergunto por onde andará o Homem do Leme, um Homem do Leme. 

Temos andado á deriva por tanto tempo e não há ninguém com vontade e pulso firme para conduzir este barco através deste negrume de incontrolável turbulência, através deste mar de despudor e ignomínia.  

O Homem do Leme tornou-se no D.Sebastião da era moderna e voltará talvez numa manhã de nevoeiro. Só espero que ainda tenha visibilidade e visão para poder encontrar Portugal, mas tenho em mim que destas trevas não sairá qualquer faúlha, desde que a imoralidade a desvergonha e a incorrecção  se tornaram parte integrante da cultura moderna  

"... 

Dar-te-ei a nau Catrineta 

Para nela navegar. 

Não quero a nau Catrineta 

Que a não sei governar. 

Que queres tu, meu gajeiro, 

Que alvíssaras te hei-de dar? 

"Capitão, quero a tua alma 

Para comigo a levar 

...". 

 

Bom Dia de Potugal.

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O regime

por Pedro Correia, em 31.05.19

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Imagem do blogue Tu Vais Vencer

 

Por vezes basta uma foto para nos explicar quase tudo. Esta, por exemplo. Que nos mostra três habitantes do reino da impunidade. 

Uma imagem que ajuda a esclarecer, com mais eficácia do que mil discursos, como é letal o vírus que vai corroendo a nossa democracia.

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Greta D'Arc

por jpt, em 24.05.19

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Nas últimas semanas fui vendo em blogs e no Facebook vários pequenos textos de gente que leio com atenção e até de amigos bem próximos, que surgiram azedos sobre Greta Thunberg, a jovem sueca tornada ícone ambientalista. Alguns até partilhando um texto viperino, gozando com a propalada condição da jovem, dita com o síndrome de Asperger. Trata-se de um meio intelectual definível, ainda que algo heterogéneo ideologicamente: é gente que se revê num "centro", "direita" ou até "extrema-direita", que anuncia filiação a um conservadorismo ou a um liberalismo, ou mesclando-os, às vezes de forma um pouco atrapalhada. O argumento é sempre similar: o aquecimento global é um mito, ouvir uma jovem é um populismo e/ou uma infantilização da vida política. Alguns complementam sobre a impossibilidade desta adolescente ter a solução para o problema, ainda que este inexistente, segundo as suas perspectivas, um oxímoro argumentativo que parece escapar a estes locutores.

Foi comentando um desses textos, oriundo de um intelectual português que bem aprecio, que me surgiu a ideia - a qual, de tão óbvia me pareceu, porventura outrem já terá avançado mas se assim aconteceu desconheço-o - que esta adolescente é uma Jeanne D'Arc actual. Pois, lendo a história da donzela de Orleans, tornada símbolo da cristandade e do seu país, de facto do polissémico "morrer pela Pátria", como não intuir que aquele comportamento obsessivo da adolescente camponesa poderá ter sido originado numa peculiar condição? E com toda a certeza, como aliás comprova o seu final, também ela incomodou os sábios "bloguistas" e "facebuquistas" de então. Apesar de ter sido útil ao reino.

Daí esta minha Greta D'Arc, obsessiva na sua dedicação à causa ambientalista. E que tanto incomoda tantos locutores. Esta dedicação extrema teve impacto. Ela apareceu induzindo um movimento ecologista geracional. Se em Outubro os iniciais pequenos grupos ecologistas deste movimento tinham ainda alguma dificuldade em chegar à fala com o secretário-geral da ONU (ainda que acolhidos pelo seu gabinete), agora Thunberg, a sua inspiradora, é recebida, sinal da crescente consciência de alguns líderes políticos da gravidade da situação. Uma esmagadora maioria dos cientistas está convencida que o problema é enorme e urgente. Uma minoria nega-o. Como se sabe, na história nem sempre a maioria dos cientistas (a "ciência normal") tem a razão face às minorias. Mas este argumento tem uma fragilidade nesta questão: as minorias que estavam certas normalmente (ainda que nem sempre) fundamentavam-se em hipóteses e métodos inovadores, afrontando as perspectivas vigentes. Neste caso as minorias renitentes não apresentam essas características inovadoras. Mas mesmo assim é possível que os que negam a hipótese do aquecimento global poderão estar certos - e que bom que será se assim for. Mas ainda que assim seja, que não estejamos na alvorada de uma dramática mudança climática causada pela humanidade, algo é inegável: a degradação ecológica é gigantesca.  E universal. E justifica toda a atenção.

Os que negam a hipótese de aquecimento - e a pertinência de atentar nesta jovem ícone e no actual movimento ecologista juvenil - são também um fenómeno intelectual interessante: os que se dizem conservadores alheiam-se de um tradicional item das agendas políticas conservadoras, a protecção ecológica; e os que se dizem liberais, estão totalmente alheados de uma visão capitalista, se se quiser da "destruição criativa" (eu sei que Schumpeter não é o arquétipo do liberal mas não pode ser dito como um radical anti-liberal), das imensas possibilidades lucrativas de novas políticas ecológicas (nas várias áreas da actividade). Ou seja, nestes locutores não é um conservadorismo e muito menos um verdadeiro liberalismo que vigoram. É um mero atavismo. Não de agora. O sufragar das posições americanas sobre o assunto mostram-no bem: há quase duas décadas, no seu primeiro discurso de tomada de posse presidencial, George W. Bush anunciou o seu distanciamento ao protocolo de Quioto por este ser adverso ao "american way of live". Dizer (resmungar) na altura - e depois - que tal afirmação era vácua, pois o tal "modo de vida" assentou na vigorosa abertura a transformações, devida à capacidade inovadora, organizativa e tecnológica, de uma sociedade cheia de recursos e livre de imensas barreiras institucionais que vigoravam nas suas concorrentes industrializadas de então, surgiria como uma resposta "comunista" ou parecida. Mas é uma coisa tão óbvia ...

Este atavismo impensante dos irritados com o impacto de Greta Thunberg, e do movimento que ela simboliza (e induziu), nota-se num aspecto e prova-se noutro. É comum (porventura como o foi nas gerações precedentes) ouvir os actuais adultos menorizarem as práticas da juventude actual: não são dados à leitura, atentam em youtuberes vácuos, não brincaram na rua, seguem sobre-protegidos e assim alheados da natureza, não socializam, encerrados em consolas de jogos e telemóveis, na futilidade da internet imediatista, são consumidores mimados, são totalmente apolitizados, etc. Subitamente, no espaço de um semestre, um movimento internacional de jovens cresceu: na sua heterogeneidade não surgem folclóricos, presos a velhas pantominas hippiescas; não são um culto de falsos heróis que encestam bolas em redes; nem cultuam LSD ou heroinas, que tanto maceraram as gerações precedentes; não destroem as propriedades públicas e privadas, como os seus "tios" vestidos de coletes amarelos; não saíram dos "seminários de insurreição" promovidos em acampamentos de maoístas e trotskistas; não têm como ídolos um qualquer Ernesto Guevara ("fuzilamos e continuaremos a fuzilar") em frémitos de utopias devastadoras; não seguem perversos pregadores hindús, islâmicos ou evangelistas, advogados de uma "purificação" das almas. Querem, e para isso se manifestam ordeiramente, numa saudável heterogeneidade de estilos, uma mais ampla informação sobre o estado da situação ecológica, e que se desenvolvam políticas de protecção ambiental - questão que há décadas está na agenda internacional mas que não tem conhecido grandes progressos, devido às resistências das elites político-económicas. Querem isso e assim se mostram jovens cidadãos. Interessados e empenhados, bem ao contrário do que deles dizem os mais-velhos, que os proclamam alienados.

Uma questão recente mostra, provando-a, a radical superficialidade destes críticos. Ou a sua estreita visão do futuro: há duas semanas Mike Pompeo - antigo director da CIA e agora ministro dos negócios estrangeiros americano, como tal alguém bem mais importante e escrutinável do que Greta Thunberg - discursou no Conselho Ártico e disse: "Because far from the barren backcountry that many thought it to be in Seward’s time, the Arctic is at the forefront of opportunity and abundance. It houses 13 percent of the world’s undiscovered oil, 30 percent of its undiscovered gas, and an abundance of uranium, rare earth minerals, gold, diamonds, and millions of square miles of untapped resources. Fisheries galore. 

And its centerpiece, the Arctic Ocean, is rapidly taking on new strategic significance. Offshore resources, which are helping the respective coastal states, are the subject of renewed competition. Steady reductions in sea ice are opening new passageways and new opportunities for trade. This could potentially slash the time it takes to travel between Asia and the West by as much as 20 days. Arctic sea lanes could come before – could come the 21s century Suez and Panama Canals."

Passados dias percebe-se que nem um dos incomodados com a visibilidade de Thunberg, desta Greta D'Arc de hoje, e do juvenil movimento ecológico, comentou estas declarações do governante americante. Omnívoras, demonstrando uma visão do mundo até demencial. Nem um, que tenha eu reparado, destes locutores portugueses as comentou. Nem um. Nem um ... 

Isto em Pompeo, e no mundo "trumpiano", é um fundamentalismo mercantil (não liberal, entenda-se bem) patético, tal e qual como os fundamentalismos desses radicais de outros cultos. E nestes luso-locutores (até nos meus amigos próximos que assim bacocam) é muito um mero blaseísmo, a patetice do fastio. Pois ficam muito enfastiados com a agitação alheia, destes "jovens". Isto não é "direita", nem "extrema-direita", nem "centro". É só parvoíce. Perversa. E carregadinha de presunção, a presunção da "distinção". Que gente ... Que se julga, saber-se-á lá porquê, que por intelecto não é, com toda a certeza, acima do vulgo. De nós, comuns. Vão nisso enganados, pois se, como disse Ulianov, "o esquerdismo é a doença infantil do comunismo", este blaseísmo nada mais é que a doença senil do capitalismo. O tal atavismo ...

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Ler

por Pedro Correia, em 10.05.19

Ricardo Arroja, n'O Insurgente«Não há coerência. Não há rectidão. Apenas manha, aldrabice e muita falta de vergonha. Mais do que novos poderes, faltam em Portugal novos contra-poderes que limitem e contrariem aqueles que usurpam a democracia desta maneira. Que disciplinem aqueles para quem literalmente vale tudo. Caso contrário, a “filosofia” instalada levará a que sejam uns atrás dos outros, cada qual à espera da sua oportunidade para sacar e aldrabar.»

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Retrato de sobrevivência

por Diogo Noivo, em 23.04.19

Pedro Braz Teixeira publica hoje um importante artigo no ECO onde pede maior clareza e detalhe ao INE na informação sobre distribuição de salários e rendimentos.

Sem prejuízo da importância do tema, o que mais impressiona - e indigna – no texto é o quadro que segmenta o vencimento líquido de trabalhadores por conta de outrem.

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Mesmo tendo em conta possíveis insuficiências nos dados, é perturbante constatar que quase 65% da população portuguesa aufere menos de 900€ mensais. E que praticamente 80% recebe mensalmente um valor inferior a 1.200€.

Considerando os custos com habitação nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto (onde reside boa parte da população), o preço da energia (combustíveis e eletricidade à cabeça) e as debilidades dos serviços públicos (da saúde à segurança de pessoas e bens), o quadro retrata um povo que sobrevive. O tão apregoado fim da austeridade não passa de uma enorme fraude.

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A Igreja Católica em crise

por Cristina Torrão, em 15.04.19

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Leio e comento o Delito de Opinião há quase dez anos, embora, nos últimos tempos, as visitas se tenham tornado mais raras. Como tantos de nós (mea culpa) sucumbi à mais conhecida rede social (sim, o Facebook) e as minhas rondas pelos blogues diminuíram. Não obstante, foi com imensa alegria que recebi o convite do Pedro Correia para me tornar autora regular de um dos mais famosos e lidos blogues portugueses, uma demonstração de confiança que muito me honra.

Feita esta introdução, vamos ao assunto que aqui me trouxe: o abuso sexual de menores dentro da Igreja Católica.

Vivo na Alemanha e sou assinante de um jornal católico semanal, o KirchenZeitung, ou KiZ, na sua abreviatura oficial, pertencente ao bispado de Hildesheim. Nos últimos tempos, traz um ou mais artigos sobre este tema em quase todas as suas edições. Há quem ache que é demais e apele a que se deixe o assunto em paz. Já se admitiu que o problema existe. Não chega? Até porque, felizmente, os clérigos abusadores não são a maioria.

Surdo a tais apelos, o KiZ insiste no assunto. E eu aplaudo. Porque é disso mesmo que os prevaricadores estão à espera: que, depois de se fazer uma balbúrdia à volta do assunto, o caso adormeça e eles possam voltar a maltratar as suas vítimas na paz do Senhor. Como sempre foi, durante séculos e séculos. Uma teia impenetrável de prevaricadores e coniventes, que abafam os crimes, que nunca castigam os criminosos, levando a Igreja de Cristo a esta situação incomportável: protecção dos criminosos, em vez de protecção das vítimas! Dizia, há tempos, uma colaboradora desse jornal: é inadmissível que um padre que o deixe de ser, a fim de se casar, seja tratado de forma mais dura pela sua Igreja, do que aqueles que abusam sexualmente de crianças!

Tenho lido relatos incríveis de antigas vítimas. Também há mulheres, mas a maioria parece ser homens. Em todo o caso, trata-se de pessoas que, só aparentemente, levam uma vida normal, pois não se livram de depressões, insónias, ataques de pânico e tentativas de suicídio durante toda a sua vida. Pessoas com asco de si próprias. Pessoas que tornam a recordar coisas que julgavam esquecidas, por exemplo, quando têm filhos, levando-as a cair novamente num poço escuro e frio, chegando a ficar com medo de tocar nas crianças (as suas crianças) de forma imprópria.

É duro ouvir um homem de sessenta anos dizer que se martirizou com pensamentos de pecado, ao lembrar-se de como regozijou ao saber que o padre, que abusara dele durante dois anos, ia ser transferido para outra paróquia. Na festa de despedida, toda a gente estava triste, por aquele padre tão simpático se ir embora. E ele, um miúdo de 11 ou 12 anos, estava feliz. E censurou-se por isso! É duro ler como bispos regiam autênticas redes de troca de menores. É duro ler como um padre, ganhando a confiança de uma família, a ponto de fazerem férias juntos, abusasse do miúdo, que dormia com ele, enquanto os pais dormiam no quarto ao lado, pensando que o filho não poderia estar entregue em melhores mãos.

Este último caso ilustra como a Igreja tem responsabilidades acrescidas. O Papa Francisco desiludiu no seu discurso de encerramento do encontro extraordinário de bispos em Roma, a fim de debater o assunto, há cerca de dois meses, ao relembrar que abusos sexuais a menores acontecem em todos os lugares onde adultos estão em contacto com crianças e jovens, como clubes desportivos, colónias de férias, lares, etc. Esta relativização caiu mal a muita gente, pois não se pode comparar o prestígio de um clérigo, representante de Deus na Terra, com o de um treinador de ginástica. Além disso, aconteça onde acontecer este crime, não pode ser nunca menorizado ou relativizado. Muitos se perguntam o que levou um Papa, normalmente tão acutilante e corajoso, ficar-se por discurso tão modesto. Por isso, escolhi a fotografia acima para ilustrar este post (igualmente copiada do KiZ): o Papa mostra-se abatido e encolhido, como se o peso que carrega nos ombros se tenha tornado demais para ele.

Numa altura de falta de padres e de igrejas quase vazias, escândalos deste tipo minam a confiança na instituição milenar. Não há dúvida de que a Igreja vive uma grande crise e só resolverá o problema com uma grande reforma. Alguns bispos alemães dão os primeiros passos, apesar de sofrerem a contestação de muitos dos seus pares. O novo bispo de Hildesheim, por exemplo, afirmou, numa entrevista, que a ganância do poder está inscrita no DNA da Igreja. Foi naturalmente muito contestado. Mas também apoiado. Porque ele pôs o dedo na ferida. Os abusos impunes de menores só se tornaram possíveis, porque a Igreja se transformou num clube de homens que se protegem uns aos outros, a fim de manterem o seu poder.

O bispo Heiner Wilmer não se deixa intimidar e constituiu uma comissão que deverá investigar os casos de abuso sexual no seu bispado entre os anos 1957 e 1982, o tempo de regência de um bispo muito querido e conceituado, mas que se desconfia que fazia parte de uma rede de troca de rapazinhos, algo que caiu como uma bomba entre os católicos alemães que se lembram dele, até agora, com muita saudade. Os elementos da comissão investigadora não são clérigos, nem estão particularmente relacionados com a Igreja, a fim de garantir a sua independência. E o bispo Heiner Wilmer prometeu pôr todos os arquivos à disposição dos investigadores. Este é um dos problemas, quando se trata de investigar: a retenção de informação por parte da Igreja.

Quatro pessoas fazem parte da comissão: dois psicólogos, que se encarregarão de entrevistar possíveis vítimas e outras testemunhas; um procurador-geral reformado que, durante quinze anos, presidiu a uma comissão que investigou crimes nazis em Ludwigsburg, e a antiga Ministra da Justiça da Baixa Saxónia (um Land alemão) que presidirá à comissão (informações tiradas do Kiz nº 14, de 07 de Abril passado).

O facto de estar uma mulher à frente desta comissão não é por acaso. O bispo Heiner Wilmer é de opinião de que a Igreja Católica só tem a ganhar envolvendo mulheres nos seus assuntos. Mais: ele considera ser essencial a participação de mulheres na reforma que se exige, não excluindo a sua ordenação.

Foi com agrado que, apesar das críticas que lhe são feitas, constatei haver colegas seus a seguir-lhe o exemplo. No último KiZ (nº 15, de 14 de Abril), li que o bispo de Osnabrück, Franz-Joseph Bode, considera a discussão do papel da mulher na Igreja como urgente, central e inevitável. Na sua opinião, a Igreja Católica está a desmoronar e só pode recuperar a confiança, quando mulheres e homens trabalharem em conjunto. Li igualmente com muito agrado que o bispo de Limburg, Georg Bätzing, pretende igualmente constituir uma comissão, a fim de investigar os abusos sexuais no seu bispado nos últimos setenta anos. A comissão será constituída por duas pessoas não ligadas à Igreja e terão de ser um homem e uma mulher.

Não se trata, aqui, de quotas ou de calar críticas. Trata-se, acima de tudo, de enquadrar mulheres nos meandros da Igreja, quebrando o monopólio dos homens que se apoiam e protegem mutuamente. Desejo muito que isso aconteça. Não porque as mulheres sejam, em geral, melhores do que os homens, mas porque a sua presença quebrará a irmandade masculina. Além disso, a sua opinião deve ser ouvida. Os homens são apenas metade da Humanidade. Nos dias de hoje, não há razão para que sejam apenas eles a decidirem sobre assuntos que digam respeito a toda a Humanidade. Na verdade, impressiona-me que tal procedimento tenha vigorado durante milénios!

Sigo tudo isto com grande interesse, não para atacar a Igreja Católica, mas numa grande esperança de que ela se consiga renovar. A Igreja enfrenta um dos maiores desafios da sua História e urge redefinir o seu papel. Para que serve, hoje em dia? Apenas para baptizados, comunhões, casamentos e funerais? Não podemos esquecer as suas tão necessárias missões caritativas espalhadas pelo mundo. E a Igreja Católica alemã tem-se concentrado noutras causas: o apoio aos refugiados (nos últimos anos, entraram cerca de dois milhões, neste país) e a ecologia. Sim, a preservação do ambiente, aliada à causa animal, tem-se tornado, cada vez mais, uma causa da Igreja. A razão? Proteger a Criação Divina.

Seria bom que a Igreja portuguesa lhe seguisse o exemplo, fomentando o debate sobre temas polémicos e se deixasse de dogmas ultrapassados, a fim de se dedicar a causas realmente importantes.

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Ba e os outros

por jpt, em 25.03.19

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Ao invés de muita gente cada vez mais gosto do Dr. Ba (líder da secção do BE chamada SOS Racismo). Digo-o sem ironia (ou sarcasmo): é um tipo atrevido, e isso é de louvar (ainda para mais no país do respeitinho). Imigrante, oriundo de África (não sei se já é português, mas isso para o caso é irrelevante) atreve-se a botar o que pensa, não se coíbe. Muito saúdo isso. Discordo do que o homem pensa? Pelo que vou lendo vou discordando, mas isso nem é importante. O que é relevante são dois corolários que retiro do que dele vou lendo:

1) O dr. Ba,  tornado "figura pública", deslumbrou-se, pois está há tempo demais perto do poder (trabalha na AR; é sufragado pelo poder mediático lisboeta - o eixo socratista, perene, exemplificado pelo bloco ex-blog Jugular/painel Eixo do Mal). Como qualquer indivíduo ("sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação"), ao deslumbrar-se borrega.

Este breve texto, algo alarmista mas talvez não totalmente infundado, é mais do que exemplo de despiste pessoal. Mas também do ambiente geral entre os "beaux esprits" lisboetas. Em Portugal já se é olhado com rancor ao dizer-se "preto" e mesmo "negro"; os mais patetas dos patetas já se ufanam ao escrever Car@s ou Prezad@s, e pessoas medianamente inteligentes até lhes respondem; termos como "mariquice" ou "prostituta" são vetados; é-se apupado se se trata uma conviva por "querida" (de facto quer dizer "quero-te", é um bocadinho exagerado assim dito em público, temos que convir ...); e agora importou-se o termo "mansplaining" para invectivar a simpática complacência com a parvoíce, quando esta emanada por uma mulher: ou seja, pode-se ser condescendente com um estúpido mas não com uma estúpida, o que não deixa de ser uma discriminação. E neste ambiente geral, cioso da correcção, o dr. Ba avança, atrevido como já disse, e chama-nos "tugas". Termo que, como sabe qualquer tipo que já tenha saído das ruas da Atalaia e da Rosa, anos 1980s, é amplamente pejorativo. Mas, como é o Ba, fica bem.

Mais notório ainda é a bojarda sobre os ucranianos. O dr. Ba celebrizou-se por defender imigrantes ou descendentes de imigrantes de origem africana. Meto as mãos no fogo que os adeptos da selecção ucraniana que foram ao jogo terão sido, na sua maioria, os imigrantes daquele país que ficaram em Portugal. Para o dr. Ba, paladino de determinadas "comunidades" imigradas, os imigrados com diferentes origens são generalizáveis, discriminalizáveis, invectiváveis (nazis, pronto). Este afrontar entre imigrantes de diferentes origens é típico, tradicional (olhem eu aqui na Bélgica a poder comprovar isso). Ou seja, Ba não só reproduz o eixo Bloco/PS Bairro Alto na sua recente invectiva aos imigrantes brasileiros, como reproduz a velha rivalidade sociológica entre os imigrantes de diferentes origens. Ba é um eco da história, e é um eco das suas limitações pessoais? Como todos nós o somos. Mas é também um eco da mediocridade hipócrita "lisboeta" - e isso já é uma opção pessoal. Será o tal deslumbramento, talvez. Mas é mais do que isso, é uma reaccionária mundividência, ignorante e ... atrevida.

2) O outro corolário é mais curto: tem alguma "piada" (de facto é tétrico) ver como um meio que vive do seu capital cultural, profissionais intelectuais com formação em ciências sociais (sociologia, antropologia, estudos culturais, coisas mais humanísticas), não só é permeável a este tipo de elaborações medíocres como as defende e ecoa. Refutar Ba e seus apoiantes e/ou paladinos convoca invectivas oriundas desse meio socioprofissional: somos logo ditos "lusotropicalistas" (entenda-se, salazaristas, fascistas) ou, num ou outro de intelecto mais refinado, "universalistas neo-liberais" (ou seja, o mesmo).

Há algum tempo li umas citações de textos de Ba: defende para os "nossos bairros" ("deles", presumo. Ou então "todos", se pensar como um "universalista neo-liberal") algo definível como "sovietes de bairro", policiamento comunitário, vistorias, etc. Aquilo que em Moçambique ficou conhecido por "grupos dinamizadores", sem tirar nem por. O que me é notório é ver como (principalmente) antropólogos - alguns dos quais minhas ligações-FB, ainda que o Algoritmo nos aparte - que viveram e/ou trabalharam em Moçambique muito são críticos da I República (onde aqueles vigoraram, no seu início). Muito mais críticos do que eu (que sou um dos tais torpes fascistas, neo-liberais, lusotropicalistas). Mas depois deliciam-se com esta conversa, ombreiam, defendem. Querem-no para o país. E até o escrevem. Isto seria risível. Se não fosse abjecto. "Mil vezes antes o dr. Ba do que estes doutores", afianço. A minha sorte é que não os encontro em Schaerbeek.

Adenda: O muito útil Polígrafo alerta para o facto do texto de Ba ter sido manipulado, tendo-lhe sido malevolamente amputada a referência a "skinheads" ("ucranianos e tugas"), potenciando o tom generalizador. Seja, lamentável que aconteça isto. Que efeitos sobre o postal? Nenhuns. O dr. Ba, a propósito de um jogo de futebol com uma equipa ucraniana convoca a ideia de "cabeças rapadas nazis" ucranianos e tugas. Fá-lo em todos os jogos de futebol? Não, apenas aqui diante da presença desse tipo de estrangeiros, promove uma generalização (abusiva, discriminatória) originada em campanhas russas anti-ucranianas (como Milhazes nos lembra) - mostrando que o vínculo moral dos simpatizantes do PCP com a autocracia russa actual também se alarga do BE. Quanto aos nacionais tudo na mesma, já éramos e continuamos "tugas".

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O país novo

por Diogo Noivo, em 19.03.19

No Público, Bárbara Reis alerta para a banalização da greve de fome. Recorda Marion Wallace Dunlop, Ghandi, Fariñas e outros para arguir que este método de pressão política serve para reivindicar “direitos básicos quando não há diálogo nem esperança”. Um olhar atento sobre a História contemporânea inviabiliza a conclusão da jornalista, mas esse não é o ponto.

 

Bárbara Reis considera abusiva a greve de fome de Peixoto Rodrigues, dirigente sindical da PSP, porque no nosso país existem 17 sindicatos de polícia e, embora insuficientes, porque essa Força de Segurança mereceu do actual governo progressões na carreira e aumentos salariais.

 

Correctíssimo. Mas não há aqui nada de novo ou de extraordinário. A proliferação de estruturais sindicais na PSP já se verificava no tempo do anterior governo, um Executivo que também aprovou promoções e aumentos salariais. Por exemplo, e apesar de se viver à época um período de duras restrições financeiras, o subsídio mensal de fardamento teve um aumento de 100%, passando de 25€ para 50€ (apesar da designação, os elementos policiais dispõem dessa verba como bem entenderem, podendo usar o dinheiro para outros fins que não a aquisição de fardamento, o que faz dele um complemento salarial normal).

 

Portanto, a diferença não está no contexto, mas sim na forma como ele é interpretado. Se durante a vigência do governo liderado por Passos Coelho as reivindicações e as formas de luta – inclusive as “invasões de escadarias” – eram tidas como legítimas e necessárias, agora são vistas como excessivas e extemporâneas. Adjectivação à parte, aqui reside o grande mérito da chamada geringonça: gente que oscilava entre o alheamento e o maniqueísmo passou a sopesar as subtilezas do contexto. Nem é tudo mau.

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Maldita hemeroteca

por Diogo Noivo, em 28.01.19

"A maneira como PSD e CDS têm gerido a relação, sempre sensível, com as Forças Armadas, as magistraturas, a diplomacia e as Forças de Segurança combina tentativas ilegítimas de manipulação política e um desprezo ostensivo pelo estatuto e a centralidade destes braços indispensáveis do Estado. Promete-se o que se sabe não poder cumprir; joga-se o jogo perigoso das alianças táticas e circunstanciais, em torno, as mais das vezes, de bandeiras populistas e acenando com promessas de benefícios corporativos; e acaba-se invariavelmente por mentir, adiar, fugir e mentir outra vez."

Augusto Santos Silva, "O desprezo da direita pelo Estado" (4.8.2015)

 

O furto em Tancos, o desinvestimento nas Forças de Segurança, a descoordenação nos incêncios florestais, a guia de marcha a Joana Marques Vidal, os cortes no orçamento da Polícia Judiciária e outros casos de "desprezo ostensivo" são, seguramente, ficção.

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O postal que aqui deixei sobre a monográfica de Joaquín Sorolla no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem um post scriptum sobre o término de funções da direcção daquele museu. Ontem, o Diário de Notícias publicou uma entrevista ao director cessante, António Filipe Pimentel, interessantíssima para compreender as razões da direcção, o comportamento da tutela e as necessidades da Cultura em Portugal. Merece ser lida.

A entrevista dá para longas páginas de análise. Cinjo-me a dois pontos. Primeiro, o Ministério da Cultura prevê agora atribuir um NIF aos museus, passo elementar para um módico de autonomia, uma reivindicação antiga de Pimentel que S. Exa. a Ministra da Cultura terá recusado sempre – aparentemente, a reivindicação tornou-se atendível após a direcção do MNAA ter manifestado a sua indisponibilidade para continuar em funções.

Segundo, nos museus, como em tantos outros domínios públicos, a austeridade não só se mantém como é hoje mais intensa. Pior, e porventura reflexo de posicionamento ideológico, a tutela trata como iguais coisas que são manifestamente diferentes. Para efeitos de enquadramento do assunto, note-se que a colecção do MNAA é a “única coleção de relevância internacional existente em Portugal. Não é por acaso que, no ano passado, estiveram emprestadas 150 peças e 450 outras de toda a parte do mundo que vieram para exposições nossas.”

A par da sua importância estritamente cultural, os museus e as instituições culturais podem ser armas potentes na projecção externa de um país. Pimentel refere, e bem, o papel desempenhado pelo Museu do Prado na “marca Espanha”. Aliás, sem entrar no debate público vs privado, instituições como o Prado, o Thyssen-Bornemisza, o Reina Sofia e o Caixaforum Madrid mostram de maneira muito tangível como se cria e divulga uma imagem positiva de  Espanha no mundo.

Em 2014, os habituais vultos da cultura pátria e os intelectuais de ocasião congregaram-se em torno a António Costa, pois só ele poderia acabar com a austeridade e com a "falta de visão" no sector. A Cultura apoia António Costa, lia-se no cabeçalho do manifesto com cerca de 600 subscritores. Salvo o erro, nenhum se pronunciou ainda sobre o estado de coisas no MNAA, nem mesmo o inefável e antes muito activo António-Pedro Vasconcelos – o mesmo Vasconcelos encabeçou o protesto contra a privatização da TAP e agora, com a companhia aérea novamente na esfera de influência do Estado, nada tem a dizer sobre o facto de esta liderar o ranking mundial de atrasos.

Vale o que vale, mas à direcção cessante do MNAA desejo as maiores felicidades. Já a nós, os que fruímos de bens culturais, desejo paciência. Estamos condenados aos caprichos de uma tutela errante que se vê imbuída de uma missão civilizadora e, claro, aos inconsequentes vultos da cultura nacional.

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A minha semana em cinco palavras

por Pedro Correia, em 12.01.19

 

Vergonha.

Asco.

Lamento.

Repulsa.

Despudor.

 

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A autoridade no Estado Democrático

por Diogo Noivo, em 04.01.19

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Miguel Macedo demitiu-se das funções de Ministro da Administração Interna num momento em que não era arguido nem, por maioria de razão, acusado de nada. Explicou, naquele ano de 2014, que deixava o lugar porque a mera existência de suspeitas afectava a sua autoridade enquanto titular de cargo público. Outros tempos.

 

Numa declaração à imprensa com pouco mais de três minutos, disse que "[a]pesar de não ter qualquer responsabilidade pessoal, no plano político as circunstâncias são de natureza distinta”. Acrescentou Macedo que o "Ministro da Administração Interna tem de ter sempre uma forte autoridade para o exercício pleno das suas responsabilidades. Essa autoridade ficou diminuída [por força das suspeitas]". De facto, outros tempos.

 

Hoje foi absolvido após um longo processo onde houve claro prejuízo para a sua vida profissional e política. Nunca se queixou, nunca alegou conspirações abracadabrantes. Nunca atacou a Justiça na praça pública. Outro tipo de gente.

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(...)Não

por jpt, em 09.12.18

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Neste corropio que é o hoje duas ideias são constantes: que o que acontece é novidade (ao que se junta a atribuição de "genialidade" à aparente inovação); que o que acontece é um anúncio escatológico. Não sou especialista mas sempre me parecem frutos da influência bíblica. O antropólogo David Graeber afirma este amarelismo francês como um movimento social sucedâneo dos "ocupas" americanos - o tal princípio - e diagnostica que lhe é própria a desnecessidade de uma teoria, que acção e teoria lhe(s) são conjuntas. E que aos intelectuais, assim desapossados do seu estatuto "orgânico", lhes cumpre menos falar e muito escutar.

Enfim, talvez seja. Mas Steiner escreveu um dia que "já não temos inícios". E, por outro lado, a descrença no Apocalipse vem-se espalhando, pelo menos numa Europa relativamente livre dos evangelistas que se incrustaram no poder nos EUA e Brasil, e dos coranistas que pululam nas suas vizinhanças. 

Talvez por isso me lembre do Buzinão, em 1994. Quando, inopinadamente, por iniciativa de alguns camionistas, tudo trancou no acesso a Lisboa, e a revolta da população veio ao de cima, potenciada por uma década do poder de Cavaco Silva. Sem ser preciso sms (nem sei se na altura havia telemóveis no país) ou similares formas de convocatória. O país cruzara uma década de enormes transformações, a redução da população no sector primário tinha sido gigantesca, enorme o incremento das condições de saúde e de educação, etc., coisas da entrada na CEE. Mas talvez ainda maior tivesse sido o crescimento das expectativas iludidas. Sabe-se o que aconteceu, de seguida o PSD foi derrotado. Tal como Cavaco Silva nas presidenciais e a sua carreira política terminou para sempre. Ou, pelo menos, assim se disse. 

Mas o que me é relevante é a memória de um brilhante texto de Pacheco Pereira, uma crónica num diário lisboeta - eu julgo que está publicado no seu livro "O Nome e a Coisa", mas não tenho comigo os meus livros; e googlei mas não encontro nem o texto nem qualquer referência - sobre a vida de um casal na Outra Banda, uma imensamente feliz forma de tentar consciencializar políticos e comunicadores da Boa Banda do "estado da arte" populacional. Para que pudessem entender, pelo menos alguns deles, parcelas do país que geriam e que desconheciam (e desprezariam, muitos deles com toda a certeza).

Não me vou meter a perorar sobre o conteúdo sociológico ou ideológico do Buzinão de 1994. Mas lembro-me do acontecimento por três coisas: talvez tudo isto não seja assim tão novidade, uma importação "born in USA", tão dependente de novas formas de entendimento da política, tão "movimento social". Que talvez o mundo, como o pensamos e sentimos, talvez não vá acabar, se calhar até ao fim do ano. E que sim, que são os "intelectuais" - mas muito dificilmente os avençados da Boa Banda - que podem falar, mostrando a opacidade que a partidocracia cria em seu torno, para se reproduzir. Assim fenecendo. 

E nada disto leva a concluir que as reclamações/propostas (essa amálgama teoria/prática que o conhecido antropólogo propõe como frutífera) destes "movimentos sociais" sejam "justas". De facto, como mostrou a história portuguesa, muitas vezes são apenas uns dealers a protestar com a redução dos lucros mensais. E, em geral, são apenas um gritado, ululado, (...)Não. E de Nãos está o inferno a abarrotar.

Falta pensar. Estrategicamente. Este é um bom contributo.

 

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O Frexit

por jpt, em 09.12.18

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Um grande amigo veio ontem da África Austral a Paris, para uma actividade académica, e caiu na confusão, envia-me durante a noite uma mensagem sobre o caos. As coisas foram crescendo durante o dia, o Le Monde anuncia 130 000 manifestantes e vários confrontos.

Em Portugal, enquanto o "Verdes" do BE quer legislar sobre os provérbios (deixemo-nos de rodeios, depois desta iniciativa não há qualquer dúvida, o regime acabou, está é mal-enterrado), os ur-fascistas, os comunistas e os idiotas úteis rejubilam com a deriva francesa. Já se haviam meneado com os racistas catalães, bebido uns uísques com o referendo escocês, a este sentindo qual vingança do Ultimato. E, em cada grupo à sua medida, deliciam-se com a (re)emergência dos nacionalismos mais aguerridos, míticos ou místicos, tal como o flamengo, que depois de se dulcificar para entrar no poder foi perdendo apelo e que retoma agora o caminho "durão", ou os Faragismos avulsos. Seja porque simpatizam com essa via (os tais ur-fascistas), seja porque tudo isso simboliza esta "corja" que manda (e a faz estremecer), e é "porreiro" protestar com isso, cria público para os painéis televisivos e os murais de instagram/facebook, seja porque julgam contribuir para um "amanhã que canta", a que agora chamam "alterglobalização" ou outra tralha qualquer que sobreviva no "discurso correcto". 

Símbolo da coalizão estuporada que emerge, sedimentada na aversão à democracia representativa e no sonho de reviver no mundo colonial de XX, é este pequeno fait-divers. Uma colunista conhecida, nada de esquerda note-se, clama sobre a manifestação dos "coletes amarelos" que 80 por cento dos franceses os apoiam  - na bem mais pequena Lisboa há anos uma manifestação contra a austeridade, convocada por estes meios tecnológicos que se dizem agora novos, e sem instituições por trás, induzida rizomaticamente, congregou entre 150 000 e 500 000 pessoas (os números variavam imenso, consoante os locutores). Paris tem 5 vezes a população de Lisboa, grosso modo. Quererá isso dizer, por mera aritmética, que então 400 por cento dos portugueses (e estou a optar pelos números mais baixos) estavam contra o governo austero? A mesma colunista do Expresso, nada de esquerda, repito-me, traduz um texto literário elogiando os "coletes amarelos" - não registei o autor, mas pareceu-me ser de Dickens mas talvez seja do "Germinal" de Zola - e fá-lo publicar num blog da extrema-esquerda negacionista, daqueles falsários da história que negam o terrorismo comunista na democracia portuguesa e invectivam de fascistas os que se lembram (inventam, na versão deles) das FP-25.  É um pormenor que é pormaior, significando bem quem espera o esfrangalhar dos corroídos pés de barro das democracias europeias. Repito, os tais "ur-fascistas", os (neo)comunistas, os idiotas úteis, na maioria vindo da lumpen-intelectualidade, os colunistas da imprensa escrita, comentadores da radiotelevisão. 

Acima deixo cópia de um panfleto dos "coletes amarelos" franceses. Na lista de exigências ao poder, nítido ainda que confuso (oxímoro que é precioso para a mobilização política) programa de reforma do sistema político, é patente essa coalizão ideológica, dos extremismos políticos agora unidos: o controlo da imigração (questão dextra) junto ao fim da presença (neo)colonial em África (gauchisme puro), o fim da "ideologia na escola" (Bolsonaro à Paris) e dos plásticos e da influência farmacêutica (canhotices lite), etc. E se não tiverem paciência para ler (ou se vos for difícil o francês) vejam só o ponto 16 - inscrição na constituição da proibição do Estado intervir na saúde, no ensino, na educação, na família (Cela vous rapelle quelque chose?, ou seja does that ring a bell?). E depois, claro, o ponto fundamental para estas manifestações, o seu verdadeiro motor (e o que faz estes luso-grupos tanto disto gostar): o ponto 9, o Frexit. É esse o clímax que todos estes perseguem. Uns, muitos dos tais idiotas úteis, só querem estar na orgia. Mas os outros sabem bem ao que se ... deitaram.

Entretanto já recebo mensagens para uma manifestação de "coletes amarelos" portugueses, no 21 de Dezembro. Espero que a polícia, vigorosamente instruída nas suas recrutas, seja implacável. Recordo que estão presos cerca de 40 cidadãos há mais de seis meses, acusados de terrorismo, por terem combinado assaltar umas instalações desportivas e terem batido em 3 ou 4 profissionais de futebol. Quero saber se a administração interna do país tem a coragem para mandar prender, com a mesma intensidade, estes amarelos caso venham a fazer actos similares. Mesmo que esta imprensa os diga "vítimas". De um qualquer "contexto", social, globalizado, de "exclusão". 

Pois eu sou do Sporting e gosto muito do Bas Dost. Mas causar dois ou três pontos na cabeça (de oiro) do avançado holandês não é tão mais grave do que avançar para partir e pilhar a capital, causando até hipotéticos ferimentos em polícias ou civis. O Estado português só tem essa alternativa, se os mariolas se portarem mal é prendê-los como aquilo aquilo que a lei diz, "terroristas". E fazê-los apodrecer na prisão. E deixar as colunistas idiotas, seus aliados neo-comunistas e ur-fascistas a guincharem. Pois guinchos loucos não chegam ao céu.

 

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China e Portugal

por jpt, em 06.12.18

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A esperada notícia surge, no meio da "crónica" da visita do presidente chinês, assim como coisa óbvia no meio da assinatura de vários documentos, todos prometendo imensos ganhos para Portugal: o habitual. Que, passando os anos, nunca são escrutinados. Ou seja, lá no meio de tudo Portugal anuncia a vontade de entrar no "comboio" da OBOR (um cinto, uma estrada), a gigantesca operação de construção e dinamização viária que a China prepara para se tornar (ainda mais) central, retornar a "império do meio". Alguns dos nossos tradicionais aliados não estão tão entusiasmados (os EUA muito renitentes, tal como os britânicos) e a União Europeia tem iniciativa e metodologias diferentes. As preocupações não só com a cristalização de um novo centro político e económico - completamente alheio a valores democráticos, coisa que não é de somenos para todos os que não se restringem ao conteúdo da malga própria -, bem como as considerações sobre este hiper-projecto, pensado sem considerações ecológicas, de equilíbrios políticos, locais, regionais e globais, e postulando indiferença (que será letal, em muitos casos) às questões da governação, são esquecidas?

É certo que se trata apenas de um memorando, não vinculativo. Mas no estado actual do Estado haverá muita amplitude para gerir recuos nesta área? Mas mais ainda, uma questão destas, de gigantesca importância económica e geoestratégica para as próximas décadas, é apresentada assim ao país, no meio de um pacote de acordos que surge anunciado quase como se festividade natalícia? De que fala a imprensa durante este anúncio da participação portuguesa na iniciativa OBOR? Do director do MNE que borregou no seu facebook, dizendo que Xi Jinping é o DDT. "Lamentável", diz o ministro (e sê-lo-á). Mas muito mais lamentável, abissalmente mais lamentável, é esta opacidade com que se trata do nosso futuro, ralé ignara que assim nos condenam a ser.

Quem tiver paciência, uma hora de visão crítica sobre o plano chinês para as próximas décadas. Quem não tiver paciência sempre pode ir ao Facebook onde estão a protestar com o diplomata. Por ter, descuidadamente, dito a verdade.

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A China e o país inibido

por jpt, em 05.12.18

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Em 2005 o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao visitou Portugal. José Socrates, então recente primeiro-ministro, incentivou o visitante a usar Portugal como intermediário nas crescentes relações sino-"palop". Na época eu trabalhava na área da "cooperação" (ajuda pública ao desenvolvimento) e muito me chocaram aquelas declarações do ainda relativamente desconhecido Sócrates (não se perspectivava tamanho descalabro),  por razões subjectivas e objectivas.

 

As subjectivas eram algo óbvias. Qualquer pessoa da minha geração se poderá lembrar o que foi o governo de Macau nos últimos quinze anos de tutela portuguesa. A coabitação entre os governos de Cavaco Silva e as presidências de Soares e Sampaio - sendo a presidência da república a responsável por aquela região - significaram que Macau foi administrado, num período de grande crescimento infraestrutural, pelos quadros socialistas. E foi público que se o PSD (e não só) se conspurcou na gestão da inserção europeia, o PS saiu profundamente lesionado da "coisa macaense", no afã da "árvore das patacas". Infecção que levou para os governos de Guterres e que este, criticável político mas homem honrado, deixou transparecer com o rebuço retórico do "pântano" quando se demitiu. Por isso, quando em 2005 Sócrates ofereceu os préstimos do país, e da sua administração, para facilitar a extroversão africana da China tudo indiciava que o PS não fizera qualquer "julgamento ético" (como Augusto Santos Silva reduz agora a avaliação da política) do seu percurso recente. Como se veio a comprovar, tanto pelas más-práticas dos governantes como pelo apoio cúmplice da generalidade dos profissionais da palavra pública, jornalistas e académicos, durante o consulado socratista. E hoje.

 

Mas as razões objectivas eram ainda mais óbvias. Num breve texto de Dezembro de 2007 eu resmungava isso, ecoando várias conversas em Maputo. Desde finais de XX que a China hiper-desenvolvera as suas relações comerciais e políticas com os países africanos. Com propósitos e estratégias bem diversos dos da União Europeia, e de Portugal nas suas relações soluçantes com as antigas colónias. O evidente falhanço dos desenvolvimentos africanos (já elencado nos 1960s pelo nada pró-colonial René Dumont) conduzira, desde os 80s, a alterações nas formas de "cooperação" entre a UE (e de países aliados, como EUA, Canadá, Suíça ou Noruega) e África. Grosso modo subordinando doacções, ajuda técnica e empréstimos bonificados a uma "condicionalidade política". Ou seja, à aceitação de boas práticas estatais, de uma democratização assente na "boa governança" (tétrico jargão), do incremento e autonomização da "sociedade civil", da descentralização avessa à opacidade dos poderes, da protecção ecológica, no fundo ao chamado "desenvolvimento sustentável", crente que a democracia é desenvolvimento, uma ideia consagrada no Nobel da Economia então atribuído a Amartya Sen. Muitos criticam este paradigma, dizendo-o neoliberal, exportação do modelo "ocidental" e neo-colonial. Poderá também ser tudo isso, e com toda a certeza contém a defesa dos interesses dos países doadores ("ocidentais"), que é esse o princípio das relações internacionais. Mas também não era só isso, pois fruto de transformações demográficas, socioeconómicas e ideológicas nos países europeus, que haviam promovido genuínas preocupações ideológicas e técnicas de promover algo melhor do que vinha acontecendo no desenvolvimento africano, combater o malvado "afro-pessimismo" (o aggiornamento do racismo), e procurar a defesa do meio ambiente, triturado alhures.

 

A chegada dos interesses chineses tudo alterou. Neles inexiste qualquer intuito democratizador ou sensibilidade ecológica, ou objectivo desenvolvimentista - há uma preocupação na construção de infraestruturas viárias que promovam o comércio de matérias-primas (e a seu tempo de produtos industriais imensamente sub-remunerados) para a China, algo que as burguesias africanas vêm considerando "desenvolvimento". Estas enormes construções infraestruturais são entendidas localmente como "ofertas" (basta conversar em Maputo com a burguesia letrada para ouvir isso), quando são obras basto sobre-orçamentadas e sob empréstimos chineses, para além de muitas vezes serem de duvidosa urgência (caso exemplar é a recente ponte de Maputo, uma verdadeira excentricidade se sopesadas as necessidades infraestruturais do país, e uma total aberração se considerado o preço astronómico e sobredimensionado da obra). Ou seja, a China financia directamente a sua indústria, construindo em África através de empréstimos contraídos pelos poderes africanos; e indirectamente, através do estabelecimento das infraestruturas de aquisição de matérias-primas baratas.

 

Questões como o desenvolvimento tecnológico ou empresarial africano (a transferência de saberes) é de nula relevância, o desenvolvimento social é inconsiderado - e nesta área será importante discernir quais as concepções dominantes na China sobre "África" e os "africanos", principalmente se pensarmos no rolo auto-crítico que os europeus fazem sobre o "paternalismo" e o "racismo" com que as suas sociedades interagem com África e seus habitantes. O resultado destes últimos anos é tétrico: países africanos imensamente endividados, ainda que com diferentes conteúdos (países como a África do Sul - mas que outros? - têm alguma maior capacidade de resistência). Dívidas que têm penhores, os recursos naturais, que assim vão passando explicitamente para o manuseio chinês. A razia ecológica, em particular a desflorestação é quase incomensurável. E a corrupção das elites exponenciou-se, num verdadeiro sublinhar da velha definição marxista de "burguesia compradora". É um neo-colonialismo radical, um neo-colonialismo selvagem, para glosar a expressão "capitalismo selvagem". (Abaixo deixo um programa da Al-Jazeera, que não é a "Voz da América" nem qualquer "Canal de Bruxelas" sobre o assunto, para quem tiver interesse).  

 

Para qualquer tipo que tivesse dois dedos de testa e uns centímetros de conhecimento esta via era já óbvia em 2005. O poder português, o PS de Sócrates, preferiu a obtenção de migalhas - no seio do que agora se sabe serem interesses esconsos das articulações político-económicas: por exemplo, em 2006 noticiava o Público que o Espírito Santo ajudara a entrada chinesa no petróleo angolano (alguma ideia sobre a situação actual?, é a pergunta sarcástica necessária). Ou seja, refutando a nossa inserção nas políticas desenvolvimentistas europeias (os célebres acordos de Lomé e Cotonou) e toda a retórica que acompanhara o estabelecimento da CPLP na década anterior. Nada disto importou, apenas a miragem de alguns ganhos como intermediário da entrada triunfal da política económica chinesa em África. E, ainda mais ridículo, com promessas de abertura do enorme mercado chinês aos produtos portugueses, pomposamente anunciada na imprensa aquando da visita do PM chinês em 2005: 13 anos passados seria interessante ver os dados reais dessa abertura, e o impacto na economia portuguesa. 

 

Alguns dirão que nada havia a fazer, que a dinâmica africana da China foi tão possante que uma pequena economia como Portugal nada poderia fazer em contrário, clamando assim a subordinação à "razão de Estado" e à obtenção de ganhos para o país. É uma paupérrima concepção de Estado e de mundo, bem como da política africana portuguesa. Mas mesmo que nesse registo rasteiro, de avaliação política sob estritos critérios de contabilidade nacional, será importante questionar: que ganhos económicos teve o país na sua extroversão para a China? E qual a situação das relações económicas com África, em particular com as duas grandes ex-colónias? E as relações políticas (catalépticas as com Moçambique, apesar da retórica do nosso PR, gélidas as com Angola, apesar do fogareiro agora aceso pelo PR angolano)? Outros, com mais memória, dirão que o governo de Sócrates teve o sucesso de conseguir realizar a cimeira Europa-África, em plena crise diplomática devido à oposição Reino Unido - Zimbabwe. Foi um facto, mas isso ter-se-á devido aos méritos da equipa do MNE da altura, Amado e Cravinho (este agora em rota para MNE do próximo governo). E deixa a pergunta fundamental: quais os benefícios reais obtidos, tanto para África como para Portugal, e já nem falo da política desenvolvimentista da UE? Ou seja, a sinofilia do governo português mostrou bem o quão de cabotagem era o seu rumo. Em termos internacionais. E em termos nacionais. Foi anunciado, de modo evidente, em 2005. Tornou-se evidente nos anos subsequentes.

 

Quinze anos depois se a situação das relações africanas com África é esta, também o é a relação de Portugal e de alguns países europeus. A influência chinesa está a crescer na Europa austral, de modo avassalador. Aqui não há matérias-primas, das quais a indústria chinesa necessita. O objectivo são os mercados, o "mercado europeu", necessários à indústria e à finança daquele país. Mas o tipo de abordagem predatória será o mesmo. As sociedades europeias amortecerão o impacto socioeconómico de maneira mais protegida, mas o impacto desdemocratizador talvez venha a ser mais sentido (não se está já a sentir?). Não se trata de ser sinófobo, ou de clamar "Vêm aí os Chineses". Mas de perceber, passado este tempo e sendo explícito o que já era óbvio, que quando se vê um governante português como a actual Secretária de Estado do Turismo choramingar a um grupo económico chinês "…por favor, usem-nos, como porta de entrada, como cobaias, para testar a forma de entrarem na Europa" estamos no "grau zero" da política. E que as nossas elites políticas nada aprendem com a história recente. Os socialistas (e o bloco central por definição) na sua cabotagem, na busca de restos disponíveis. Os comunistas presos a uma patética solidariedade com um poder que de "comunista" tem o nome e a foice e o martelo - lembram-se as pessoas da sabujice do parlamento português ao recusar receber o Dalai Lama em 2001, por pressões chinesas, e do texto do velho dirigente comunista Aboim Inglez, esse que fora em tempos de conflito sino-soviético muito adversário da China, a esse respeito? Rezava assim: "Tivemos entre nós, uma semana, o sr. Kenzin Gyatso, mais conhecido pelo título do 14º Dalai Lama, numa das suas constantes itinerâncias pelo mundo, na condição de cabecilha do que resta da clique reaccionária e retrógrada tibetana, conluiada com o imperialismo para atacar a China pela via da mentira e do separatismo". À direita os liberais, cegos e sonâmbulos, a quererem crer que isto é o "mercado" - quando "isto" é o capitalismo de Estado, de que se falava sobre o bloco soviético, mas agora super-competente. E o BE sempre relativamente simpático com quaisquer laivos de "alterglobalização" (entenda-se, antiamericanismo) que surja no horizonte. 

 

Nenhum destes partidos,  nenhuma das fracções desta "burguesia compradora" portuguesa, se opõe ao verdadeiro imperialismo chinês, voraz que é. E os governantes pedem "por favor" para que os interesses chineses sejam mais céleres e intensivos na sua intervenção. É a mesma mediocridade, ininteligente, cleptocrática e anti-patriótica que reconhecemos em tantos dos poderes africanos. Sem qualquer projecto de país, plano ou estratégia de desenvolvimento. E depois, sabe-se lá porquê, dizem-se, ufanos, de "esquerda", símbolo do progressismo e desenvolvimentismo. 

 

E um povo que a apoia. Nessa confluência um país inibido de o ser. Nada mais do que isso.

 

(Então aqui fica o programa a que aludi, vinte minutos sobre o presente de África. E o futuro de Portugal).

 

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A GNR

por jpt, em 05.12.18

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A Few Good Men (Uma Questão de Honra) é um até penoso filme, protagonizado pela então conhecida Demi Moore, o ainda jovem Tom Cruise e Jack Nicholson (num dos mais histriónicos overactings da sua longa carreira no género). Quase todos o terão (entre)visto, num qualquer serão televisivo. Mas lembro o argumento, completamente típico, um padrão de Hollywood: Cruise representa o jovem, algo desinserido, mais arisco do que rebelde, que enfrenta as perversões do "sistema", provocadas pelo desvio (psicológico) de um malvado Nicholson, comandante de uma unidade de tropas especiais no qual um soldado morrera devido à recruta. No final, contra todas as expectativas (menos a de todos os espectadores, claro), o Young Rebel redime-se da sua apatia e derruba o mau indivíduo, purificando o sistema. O filme é de 1992, podemos dizer que passara o tempo dos anti-heróis. Mas também podemos dizer que exactamente nesse mesmo ano Hollywood produziu uma macro obra-prima, pois Mestre Clint realizou Unforgiven. Que serviria, (muito) mais que não fosse, para mostrar a tralha cinéfila e cultural que este "Uma Questão de Honra" era.

Ao saber do que vai acontecendo na GNR bem que me lembrei do filme. O comandante do centro de formação, um coronel Ramos, já foi apeado. E um antigo dirigente da escola da GNR, Carlos Chaves, com o posto de general, já veio dizer que o problema foi de o instrutor ter perdido a cabeça e o exercício não ser supervisionado. Pronto, está resolvido o assunto. O coronel Ramos segue para outro serviço, o tal instrutor irá dar instrução para outro lado. O sistema purificado, pois arejado. E mantendo-se tudo igual.

Entretanto, e para (hipotética) vergonha do general Chaves, aparecem outras imagens. Outro exercício, outro instrutor, mesma modalidade de instrução: oficiais super protegidos a darem porrada em recrutas desprotegidos, estes nem um capacete protector têm, como é usual nos treinos de boxe. Ou seja, por mais que o general Carlos Chaves, do alto dos seus 3 anos de director da Escola da GNR, nos queira mentir, protegendo a sua corporação reduzindo tudo a uma má-prática individual, o que se passa é que há uma metodologia de treino alargada. Não é um erro de falta de supervisão. Não é um instrutor destrambelhado. É um modus operandi: a instrução passa por oficiais protegidos a espancarem recrutas. São estes instrutores, estes oficiais, que o general Carlos Chaves - pressuroso a mentir-nos, reduzindo o caso a um infeliz incidente - e os colegas (gente desta não é camarada de ninguém, nunca subiram acima de colegas) formou. Brotaram do molde que ele manuseou (ou criou, não sei).

Caladinho, e decerto que muito protegido, com a armadura necessária para dar porrada nos recrutas, e pronto a roçar-se nos políticos, está o tenente-general Luís Francisco Botelho Miguel, comandante da GNR, responsável máximo, e obviamente conhecedor, destes métodos de instrução. Alguns dirão que este oficial tem muitos méritos. Com toda a certeza que terá. Os necessários para passar à reserva. Já. Sem honra. Pois nenhum oficial que deixa espancar os seus homens merece qualquer respeito. Nem estar ao serviço.

 

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Virar a página da austeridade (II)

por Diogo Noivo, em 30.11.18

Já o referi aqui: ferrovia num caos sem precedentes, degradação das condições de segurança interna a um nível do qual não há memória no período democrático, hospitais a viver uma época especialmente penosa, e a maior carga fiscal dos últimos 22 anos. Ficámos hoje a saber que, por ordem do Governo, os alunos com maiores dificuldades económicas só receberão metade das bolsas de mérito que deveriam ser entregues no 1º período. Ainda bem que virámos a página da austeridade e que o “muro” já não existe.

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(Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos)

 

Foi-se a ministra, orgulhosamente lesbiana, a Guadalajara, decerto que com adido à ilharga – mas não a Cuernavaca com o necessário Cônsul, estou disso certo – e por lá resmungou algo, sobranceira a portugueses, Portugal e seus jornalistas e jornaleiros. Entretanto, cá longe, noutro “lá fora”, ando eu a reler, 35 anos depois, o “Relíquia”. Eça não é, diz quem sabe, o Zola, o Balzac, muito menos o Flaubert, mas é o que temos, e ainda que me solavanque o encanto – tetrali o “Os Maias” por causa do filme de João Botelho, e disso me apercebi, já nada adolescente ou vinteanista, franzindo o meu cenho ao traço grosso da caricatura que escorrega daquele Ega – continua uma delícia.

 

Enfim, perorava a ministra lá em Guadalajara quando o Raposão, o bom do Teodorico, me aportou a Alexandria, naquela sua ímpia, pois humana, peregrinação à então Terra Santa. Logo se acolheu ao afamado e recomendado “Hotel das Pirâmides”, deparando-se com um patrício (onde é que não há um português?), “moço de bagagens e triste“, ali algo desvalido dados os infortúnios de amores e impensares, o Alpedrinha, figura ímpar do panteão queiroziano, mais que não seja por aquela sua sábia e monumental saída, que em mim habitava sem lhe recordar a autoria (“Tu já estiveste em Jerusálem, Alpedrinha?“, perguntou-lhe o Teodorico, “Não senhor, mas sei … Pior que Braga, algo que talvez tenha acicatado aquele Luiz Pacheco). Chegava-se pois, no mesmo fim-de-semana da ministra no México, o bom do Teodorico às terras da Esfinge e, lá de tão longe, responde à sáfica governante: “E se o cavalheiro trouxesse por aí algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a política.”, atreveu-se o Alpedrinha. “Concedi-lhe generosamente todos os “Jornais de Notícias” que embrulhavam os meus botins“, logo concedeu o malandrote.

Isto nem em Cuernavaca lá iria. Quanto mais em Guadalajara.

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