Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Notas breves sobre a noite eleitoral

por Diogo Noivo, em 07.10.19

1. Ao contrário do que foi dito por António Costa, os portugueses não gostam da geringonça. Os portugueses gostam do PS. Os socialistas reforçaram o seu respaldo eleitoral, mas o Bloco de Esquerda perdeu mais de 57.000 votos e a CDU mais de 115.000 (um desaire colossal). Ver nestes resultados um triunfo da geringonça é um delírio.

Captura de ecrã 2019-10-07, às 10.26.33.png

fonte: SGMAI

 

2. O resultado do PSD é inenarrável. Pior só mesmo o discurso de Rui Rio. O Pedro Correia já aqui disse o essencial sobre o assunto.

 

3. Mais do que um mau resultado, o CDS pode ter iniciado o princípio do fim. A próxima liderança será determinante.

 

4. Dos pequenos partidos que entram o parlamento, o mais votado foi o Chega, ainda que por margem diminuta. É favor abrir os olhos. A culpa não é dos eleitores, frequentemente acusados de incultura quando partidos desta natureza chegam aos parlamentos (aliás, olhando para a votação por grau de escolaridade, o campeão junto daqueles que menos formação têm será o PS). Os eleitores têm sempre razões atendíveis e importa compreendê-las.

 

5. A Tunísia também foi às urnas ontem. Tem cerca de 11 milhões de habitantes e 7 milhões de eleitores. Portugal tem mais ou menos a mesma população e mais de 10 milhões de eleitores. Um destes países tem um Ministério para a modernização administrativa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cancro da Mama

por jpt, em 03.10.19

soc.jpg

[Cartaz da exposição* que decorre desde anteontem, 1.10, no Instituto Português de Oncologia do Porto. Página no Facebook, com as fotografias e os textos da exposição, estes últimos da autoria de artistas musicais e escritores. Grupo no Facebook aberto a quem queira escrever sobre as fotografias, sob o mote "movimento de empatia"]

No átrio da ala do cancro da mama, no I.P.O. do Porto, estão expostas dúzia e meia de fotografias. Os modelos são homem e mulheres que disso padecem. Sem rebuços, surgem com as suas amputações, como agora vão, mostrando-se na sua beleza, a de cada um, o quinhão dela que a cada um de nós coube, maior ou menor consoante quem nos vê e como nos olha. E na formosura da imensidão da força que denotam e da esperança com que nos reconfortam.

Propõe o projecto que cada um faça o seu "exercício de empatia" escrevendo algo - ou pensando algo, presumo eu. Hesito, procuro o tom, esse que poderá parecer adequado, o do sentimento, fraterno/amoroso, talvez aposto em vestes de requebros poéticos, abraçando com palavras o camarada homem, e sendo algo mais caloroso, até aprisionado pelo atrevimento próprio àquela toxicidade que agora vem sendo denunciável, com as camaradas mulheres. Assim louvando-lhes a coragem, celebrando-lhes a beleza, nada idealizada mas sim esta, óbvia, do tal qual estamos neste agora. Talvez até, distraindo-me, elevando uma ou outra, ou mesmo o conjunto, a arquétipo. Esse que falso, é óbvio, pois ali estão apenas indivíduos. Belos, corajosos. Desejáveis. Seguiria eu então para um ensaio (antropológico) sobre a constituição do desejo?, um poemaço romântico? uma narrativa erótica?, uma qualquer-coisa assim ficcionando sentimentos?

Mas eu não sou esse tipo. Pois vejo as fotografias e vivo outras histórias, menos poetizáveis, até menos narráveis. E é essa minha empatia, rude, descelebratória, que me ocorre. Pois surge-me Sousa, o cidadão presidente, no seu constante "somos os melhores do mundo". E concordo. Pois, dizem-me, somos nós, portugueses, os campeões europeus do divórcio com as mulheres com cancro da mama. Seguimos nº 1 do ranking,  mais de 60% ... Implacáveis seguimos, nisso competentes. Vem o cancro às nossas mulheres? Partimos para outras. Tratamentos? As unhas macilentas, quebradiços os dentes, corpos engordados com os químicos, ancas alargadas, nem um pêlo para amostra, da vagina à cabeça, que aos de abaixo pouco prezamos, olhos baços, e nem falo do medo, quantas vezes até desespero, dos padeceres que nem imagino, dos temores de desacompanhar os filhos, quando os há, tudo isso tão pouco apelativo? E ainda por cima cortam-lhes as nossas tão queridas mamas, a uma ou mesmo às duas? E ainda para mais arrancam-lhes o útero? Nisso tudo durante tempo mulheres sem desejos, vontades? Não foi isto que contratualizámos. Ficou danificada?, vamos para outras. Nisso, nessa mobilidade, nesse verdadeiro empreendedorismo, seguimos "Os melhores da Europa", competentes. E isto vai assim em todos os estratos, "acontece nas melhores famílias". E há bónus, não acaba aqui. Que há quem não se separe, que isto do divórcio empobrece - e de que maneira, como o afiançará quem por ele passa. E assim, conta quem sabe, tantas são as mulheres do cancro da mama, essas durante temporadas menos atreitas ao sexo, menos belas, e, se calhar pior do que tudo, menos airosas como fadas do lar, que às mágoas da doenças juntam as marcas das agressões, as dos "apenas" dichotes e as das verdadeiras pancadas dos extremosos maridos. E isto já não entra para o "ranking".

É esta a minha "empatia". Antipatizando, imenso, com o meu à volta. Compatriota.

*Fotografados / Textos: Telma Feio / Samuel Úria; Susana Neto / Fernando Ribeiro (Moonspell); Susana Cunha / The Legendary Tigerman; Sandra Gil / João Gil; Rute Vieira /  Rita Redshoes; Lourdes Pereira / Ricardo Ramos, Beatriz Rodrigues (The Dirty Coal Train); Paula Pereira / Jorge Benvinda, Nuno Figueiredo (Virgem Suta); Maria Maria / Olavo Bilac; Lucinda Maria Almeida / Jorge Palma; Ivete Oliveira / José Cid; Cristina Filipe Nogueira / António Bizarro; Carla Sofia Henriques / Alice Vieira; Ana Bee / Suzi Silva; Joana Barros / Ana Isabel Pereira; Agostinho Branco / Lena d'Água

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Perceber Tancos (II)

por Diogo Noivo, em 03.10.19

21573169_bdfLD[1].jpg

 

A trama não se adensa muito, mas a lista de alucinados que vê no caso de Tancos uma encenação criada para prejudicar a geringonça e o PS não pára de crescer: Vasco Lourenço perpetrou mais um artigo de opinião e Pedro Abrunhosa – isto não se inventa – veio a terreiro afirmar que Tancos apenas serve para salvar a direita.

Naturalmente, sobre os crimes em apreço, sobre as declarações indecorosas de titulares de cargos públicos e sobre o fracasso do aparelho de segurança e defesa do Estado Lourenço e Abrunhosa nada têm a dizer.

 

ADENDA: Porque o absurdo do caso não conhece limites, esta semana soubemos que Azeredo Lopes não fazia ideia do que era um paiol quando assumiu funções de Ministro da Defesa Nacional. Portanto, não será exagerado assumir que, para o ex-Ministro, G3 seria a designação dada a um ponto erógeno.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Perceber Tancos

por Diogo Noivo, em 01.10.19

21570255_V7zPf[1].jpg

 

O caso de Tancos resiste a qualquer esforço taxonómico. Tem um lado ridículo, de ópera bufa, demasiado absurdo para ser verdade. Tem ainda um outro lado, de total ausência de responsabilidade institucional, excessivamente gravoso para que tenha ocorrido num Estado de Direito democrático.

Olhamos para os factos demonstrados e custa a acreditar. Vemos a facilidade com que se entra clandestinamente em instalações militares para roubar armas e explosivos, facto ao qual se junta a pièce de résistance cómica: o material militar foi transportado num carrinho de mão por indivíduos com apodos artísticos como “O Fechaduras”, “O Pisca” e “O Caveirinha”. Nenhuma obra de ficção se atreveria a algo tão patético.

Percebemos também que houve uma operação de encobrimento do crime, o que sugere sofisticação e destreza típicas de um livro de Graham Greene, mas que na verdade foi de um amadorismo confrangedor.

Percebemos ainda que houve um ministro da Defesa mitómano e com sintomas de deslumbramento pelo poder que muito provavelmente deu cobertura activa ao espetáculo de vaudeville.

Percebemos agora que o deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro, um apparatchik que nunca leu Orwell, estava ao corrente da situação. Optou por participar tacitamente no encobrimento, mas não se cobriu de vergonha quando o facto se tornou público: apresenta-se outra vez como candidato à Assembleia da República.

Por fim, estamos à espera de perceber se o Primeiro Ministro foi conivente, ou se simplesmente é possível que um esquema desta dimensão ocorra sem que o chefe do Governo se aperceba. Tanto a hipótese A como a B deveriam ter consequências sérias.

Como se tudo isto não bastasse, há um rol de alucinados, onde pontificam José Sócrates, Vasco Lourenço e uma parte do Partido Socialista, que no meio de tanta falta de decoro – para não falar na montanha de crimes – encontra em Tancos uma urdidura tecida para prejudicar a geringonça e o PS.

Isto não se inventa. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Senhor, falta cumprir-se Portugal

por Paulo Sousa, em 26.09.19

Nestes dias o principal assunto nos Emirados Árabes Unidos é a chegada de Hazza Al Mansouri, o primeiro astronauta emiradense (ou emirático) à Estação Espacial Internacional.

Chegou hoje pela manhã e de acordo com a Wikipédia é o seu 228º visitante, representando a 19ª nacionalidade a fazer-se presente neste veículo que se pode definir sem metáforas como sendo uma das fronteiras do conhecimento.

Além das bandeiras mais habituais nestas paranças, já por lá andaram um belga, um sueco, um dinamarquês, um cazaque, um sul-africano, um malaio e um espanhol.

Não consigo ficar indiferente quando olho isto e de seguida para aquilo que fomos e somos.

A importância que o nosso país, uma nação antiga, no contributo da descoberta das costas do mundo inteiro e na recolha de informação para que se pudessem desenhar os mapas e assim conhecer o globo onde vivemos esgotou-se há muito.

O tempo passou e no sec XXI a nossa mais recente conquista foi conseguir trocar défice financeiro por défice nos serviços públicos.

Tentamos esquecer que o quadro de pessoal do império português, na sua versão mais extensa do Brasil ao Japão, não ultrapassava 6000 pessoas, clérigos incluídos. Hoje temos mais de meio milhão de servidores públicos mas, ao contrário do que aconteceu no passado, vivemos obcecados com o próprio umbigo.

Nos tempos em que desbravamos o desconhecimento e vivemos na fronteira de ciência aportamos em muitas latitudes e também no desértico e desinteressante território onde Hazza Al Mansouri nasceu. Hoje o país dele ambiciona em sentar-se a bordo da ISS enquanto que no país dos outrora descobridores se discute quem é que sabia o quê e quem que é que anda a mentir.

Neste tempo sobressaltado de eleições gostava que pelo menos um dos candidatos se propusesse a nos levar pela mão e nos transmitisse a ambição de regressarmos às franjas do conhecimento, onde já fomos felizes para que então, como nos disse Pessoa, se cumprisse Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O incorrectismo

por jpt, em 09.09.19

005.JPG

Vivemos uma época de combate aos preconceitos apoucadores. Alguns movimentos sociais, e nisso também alguns intelectuais, têm vindo a traçar rumos, tentando expurgar as culturas dominantes de estereótipos discriminatórios e nisso transformar as práticas sociais com estes articuladas. Mas há sempre quem resista, constituindo aquilo a que em tempos de chamou "forças de bloqueio". Muitas destas surgem sonoras no campo da comunicação social e seus adjacentes. Mas talvez as mais empedernidas habitem no mundo económico, controladas por um empresariado voraz na busca de lucros, suportado por esse meio letrado, semi-intelectual, constituído por profissionais da comercialização (dita "marketing", em estrangeiro para adquirir prestígio) e da publicidade. 

Deparei-me agora com este ataque aos homossexuais masculinos. É certo que na actualidade já alguns dos mais prestigiados intelectuais portugueses os defendem, lutando contra preconceitos que ainda os desvalorizam, até compondo e aderindo a uma muito justa teoria antropológica que - finalmente - estipula os quatro grupos existentes na História da Humanidade. De facto, sabe-se agora que existem três grupos vítimas da violência radical, devastadora, escravizadora e assassina: Crianças, Mulheres, "Gays, Queers e Outros Assim" (sigo a conceptualização do consagrado Frederico Lourenço). E um grupo agente da tal malevolência, assassina, escravizadora, estupradora: os Outros. Estes são os Homens Heterossexuais, cujas malevolências contínuas são puro reflexo da sua  masculinidade tóxica, da qual seguem escravos militantes. 

Mas ainda assim é nesta actualidade, na qual o conhecimento histórico e antropológico já nos permite assumir esta compreensão da evolução humana, que uma empresa, na sua insana demanda de lucro fácil, continua a produzir este tipo de insultos, jocosos e ridicularizadores, àquela parte boa da Humanidade.

Mas não vai sozinha neste cruel e alienante rumo. Ao lado daquele insensível produtor alcoólico encontro este outro, desrespeitando os cidadãos séniores, tanto na imagem decadente que deles apresenta, como utilizando epítetos apoucadores, até vis, como se lhes retirando a integridade - no sentido amplo e assim ainda mais perverso, o da redução da sua totalidade e da sua dignidade. 

Urge olhar para estas práticas e alterá-las. O caminho será difícil e longo. Mas necessário.

007.JPG

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Boris para o fim-de-semana

por jpt, em 30.08.19

boris.jpg

(Texto longo, muito mais com o registo de conversa para blog individual mas já que o botei aqui o replico, até porque vamos para o fim-de-semana)
 
Não tenho grandes vínculos com o John Bull. Algum, broken, conhecimento da sua língua. E poucos britânicos contemporâneos realmente me marcaram - Berlin, Leach, Naipaul, Page, Popper, Richards, nenhum deles, e por diferentes razões, um verdadeiro arquétipo appointed by Her Majesty, com a óbvia excepção de Sir Edmund (esta agora foi à João Carlos Espada ...). Mas atrevo-me a opinar, e justifico-o: há mais de uma década que lá tenho família mui próxima queridos amigos, daqui a semanas a minha adolescente filha ali irá cursar a universidade.
 
O que se passará não será uma desgraça para a Grã-Bretanha, e daqui a uns tempos nem se lembrarão das angústias havidas. Mas esta finta ao parlamentarismo é politicamente significante, demonstrativa do processo europeu actual, sinal que vivemos "tempos interessantes". E é ainda mais significante que tal não aconteça na Grécia, Espanha ou Portugal, recentes democracias, ou nas ainda mais recentes das ex-(quase)colónias do Urso Soviético, algumas um bocado trapalhonas. Brota exactamente no cerne histórico da democracia parlamentar. Sinto que isto terá muito mais impacto do que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. "Tempos (ainda mais) interessantes" aí vêm.
 
Para enfrentar este aparente futuro muito haverá para pensar, e definir. Primeiro do que tudo, perceber quais são os problemas. Entre estes estão as formas de recrutamento dos colectivos das lideranças políticas. Num momento em que as capacidades de influenciar o rumo das sociedades se esvaem, em que a soberania efectiva se esgarça, devido à economia mundial e não aos projectos políticos agregadores, quem surge na política? Para simplicar, o problema não é Boris Johnson, nem o "mágico" Steve Bannon. O problema é o tipo David Cameron (quem?). Estes pequenos projectistas de cabotagem  que são recrutados, ascendem, influenciam, e se impõem, gente às vezes sans foi ni loi (como diriam os normandos) mas sempre sem rumo. Grassam, por todo o lado. E não por uma qualquer "crise" de valores, mas devido ao funcionamento do espaço político.
 
Por cá leio vários a defender o gambito de Boris Johnson. Dizem, pressurosos, que é uma acção positiva, tendente ao respeito pelo voto, o resultado do referendo. Correcto. Mas o parlamento também foi votado, donde este argumento é uma óbvia contradição, um pensamento a la carte. É legal, aplaudem. É. Mas não parece nada legítimo. E os ilustres doutos deveriam saber a diferença nada ténue entre os termos. Não haja dúvidas, o encanto com que esta medida de Boris Johnson é acolhida mostra, grita, uma coisa: os seus apoiantes (lusos e não só) não gostam de parlamentos.
 
E o júbilo diante desta versão boreal da Jangada de Pedra do comunista Saramago mostra bem que os seus apoiantes não gostam da União Europeia, querem-lhe a pele. Não a querem melhorar (intensificar ou aligeirar, redireccionar ou estancar), querem-na finda. Nunca percebi qual a razão de portugueses defensores da economia de mercado e da democracia parlamentar tanto detestarem a União Europeia. Talvez tenha sido aquela legislação adversa aos galheteiros públicos. Ou talvez seja a questão da (i)migração. É sempre interessante, no sentido de espantoso, ver doutos portugueses insurgirem-se contra os direitos dos emigrantes. Pois mostra bem que não vêm para além da ponta da respectiva pilinha, perorando que vão num país de emigrantes. Mas não deve ser por causa desta temática da (i)migração. Pois se o fosse discutir-se-iam mudanças nas regulamentações europeias: o livre-trânsito interno, a apetência por mão-de-obra exógena, etc. Mas esse não é o motivo, é apenas o pretexto. 
 
Desde o anúncio da trivela Johnsoniana li vários locutores lusos aplaudindo-a. Insisto, é gente que, de facto, não gosta do parlamentarismo e não gosta da União Europeia. Um destes dias estarão a perorar contra a NATO - de facto já o fizeram quando Trump chegou ao poder e polemizou sobre a organização. Pode-se sorrir e dizer que têm uma agenda política parecida com a do BE e a do PCP! Ou podemos ser um pouco mais analíticos, na senda das teorias da conspiração, e pensar que são teclados putinescos.
 
Mas de facto não são nada disso. São apenas uns ultramontanos "à antiga", uns reaccionários do piorio. Lendo-os - nas redes sociais - vê-se que muitos defendem novas alternativas políticas, como a Iniciativa Liberal, o partido do comentador Ventura, o Aliança (do agora desnorteado Santana Lopes, a fazer tristes figuras de "ocupa"). Eu não estou a dizer que o Iniciativa Liberal (no qual se calhar votarei) ou o Aliança (no qual teria votado se estivesse em Portugal nas últimas eleições) defendem estas posições. Estou a dizer que no seu interior têm estes núcleos, que poderão ser pequenos mas são audíveis - doutos num país de "doutores".
 
Assim, no registo de conversa que é o deste postal (e, a bem verdade, o de todos os postais), o que é necessário é recrutar boas lideranças políticas nos partidos democráticos, gente com algum tino e cuja ambição não seja apenas voluptuosa. E que tenham algum tipo de projecto, nacional e internacional. Um "desígnio", para usar um termo que os seguidores do pensamento de Inês Pedrosa abominam. Seja nos partidos democráticos tradicionais, seja nestes novos. Que não venham Camerons. E cameronzinhos. Que se defenda a democracia parlamentar dos gambitos, trivelas e fintas adversários. E que se defenda a União Europeia, modificando-a, intensificando-a, aligeirando-a, imigrando-a ou não.
 
O que significa, também, refutar, pontapear, o comunismo identitarista, sempre empenhado na demonização da tradição democrática europeia, invectivando o "ocidente", propondo-se a "rever conteúdos culturais", querendo traumatizar para, de facto, apoucar, nisso desfazendo.
 
No nosso país o primeiro passo para isto é simples: arranjar alguém para liderar o PSD, que anda aí aos caídos, decerto que muito devido à tralha militante. Já agora, convém que seja alguém que não surja, a um mês e picos das eleições, em abraços sorridentes ao sucessor de José Sócrates. E em começando por aí continue-se, despertando o CDS da sua condição hospitalar. Ou, porque não?, desliguem-no da máquina. 
 
Pois o estertor dos partidos democráticos, que até pode ter piada para quem ande cansado dos tropeções e aleivosias correntes na política, só terá um desfecho. Piores partidos, piores gentes, piores soluções.
 
Vamos seguir o caso britânico. Ou, como já muitos anunciam, vamos ver o caso inglês. Wait and see ...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ausências

por Rui Rocha, em 29.08.19

Ontem, quando confrontado por cidadãos com temas concretos, Costa patinou. Na parte conduzida por jornalistas mais interessados na intrigazinha política, passou entre os pingos da chuva. Falta realidade e assertividade na interpelação do poder. A culpa não é só da oposição.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Say "Cheese"

por Maria Dulce Fernandes, em 27.08.19

21541373_CENQh[1].jpg

Tenho os meus petiscos de eleição. Gosto de doces bem confeccionados, mas perco-me por queijo. Qualquer queijo. Todo o queijo. 

O meu pai era de Castelo Branco. Lá em casa havia sempre queijo. Queijo tipo rabaçal de boca cheia, queijo picante (o famigerado queijo chulé), queijo conservado em azeite aveludado e suave, queijo tipo Nisa, mais seco e fantástico, e queijo tipo Serra para comer à colherada, simplesmente fabuloso . 

Para mim, desde que haja queijo, está-se bem.

Ou pelo menos estava-se 

Não me lembro de não ter queijo para comer sempre que me apetecesse. 

E apetecer, apetece sempre, mas diz que não. 

Com o avançar da idade tornamo-nos mais serenos, mais calmos, mais ricos em saber e em saber que ganhámos candura, temperança,  conhecimento e peso. 

O peso não é apenas o dos anos, é mais o do que o esqueleto suporta e comporta e toda uma série de óbices que traz por acréscimo. 

HDL, LDL, VLDL, TOTAL... totalmente   dessincronizados... 

Drogas, chás e dietas... eu... a... fazer... dieta !!!! 

Tudo light e com moderação... pois sim. 

Alguém já provou queijo Limiano light? Daquele que não se sabe bem se estamos a comer o queijo ou a embalagem de plástico? Não? Então provem e digam de sua justiça. 

Alguém já provou qualquer queijo digno do nome em versão light que não soubesse a PVC fatiado? 

E leite magro? Parece a aguada de cal com que a minha avó caiava a chaminé. Não tem sabor nem odor... é tudo menos leite. 

A Grande Mudança chegou no ano passado. Deixei de ser uma cinquentona enxuta e passei humildemente à condição de sexagenária. 

Estranhamente, a Grande Mudança deu-se sem qualquer alteração, fosse pela efeméride, tampouco pelas gordurices.  

Não vou comer coisas light nem PVCs ou esferovites. 

 

Para tudo é preciso moderação e eu, que sempre soube quando parar, vou deixar as alfaces para os grilos e as sementes para os passarinhos: tenho um queijo de Azeitão à minha espera que é um mimo. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Todos os cuidados são poucos

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.08.19

"The mainland’s public security administration regulations cover a wide range of minor offences, from disturbing public order to infringing property rights. Under mainland law, police can hold individuals suspected of minor offences under administrative detention for up to 15 days, but families must be notified in writing within 24 hours of detention."

Dizia alguém, há dias, que era melhor ter um acordo (mau) de entrega de infractores em fuga entre Portugal e Macau do que não ter nenhum e entregar quem fosse pedido sem qualquer documento. Ou ficar à espera que os viessem buscar.

Para além de já se ter demonstrado que os vêm (vão, no caso de HK) buscar quando querem, como sucedeu anteriormente no caso dos livreiros, o que aconteceu com o funcionário consular inglês de Hong Kong, detido no passado dia 8 de Agosto, em Shenzhen, no decurso de uma viagem de trabalho, é a prova de que para a RPC os acordos nesta matéria servem para muito pouco.

Embora as autoridades chinesas tivessem a obrigação de informar por escrito as autoridades de HK, no prazo de 24 horas após a detenção de Simon Cheng, nada disseram. Isto não pode ser ignorado.

O homem foi detido, posto a cumprir pena, sem assistência de qualquer advogado, e a família só teve conhecimento de que estava a acontecer, e que ele estava do lado de lá e preso, no dia 21 de Agosto. Isto é, só 13 dias depois de preso e posto a cumprir pena, para a qual nunca havia sido antes previamente julgado e condenado, é que foi prestada informação sobre o paradeiro de Simon Cheng. No entanto, as autoridades do outro lado da fronteira sempre dirão que se tratava de um cidadão chinês de HK e que tudo foi feito de acordo com a lei, pois claro.

O que aconteceu é a prova de que todos os cuidados são poucos, e de que o acordo recentemente celebrado entre Portugal e a RAEM em matéria de entrega de infractores deverá ser analisado com toda a atenção pela Assembleia da República e o Presidente da República. A haver algum compromisso sobre a matéria, aquele deverá ser claro, coisa que o actual não é, e conferir certeza e segurança jurídica em qualquer momento, não se correndo o risco de haver "arranjos" entre a RAEM e a RPC que escapem ao nosso controlo.

Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. E em matéria de direitos humanos todos os cuidados são poucos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Postais de Coimbra

por Pedro Correia, em 15.08.19

thumbnail_20190813_183634-1[1].jpg

Aqueduto de São Sebastião

 

thumbnail_20190813_183832(0)[1].jpg

Jardim Botânico

 

thumbnail_20190813_192423-1-1[2].jpg

Sé Velha

 

thumbnail_20190813_181852[1].jpg

Jardim da Sereia

 

thumbnail_20190812_210149_Richtone(HDR)[2].jpg

Igreja de S. Tiago

 

thumbnail_20190812_213258-1[1].jpg

Chanfana no Cantinho dos Reis

 

thumbnail_20190815_133533-1[1].jpg

Leitão à Bairrada (meia dose) no Joaquim dos Leitões

 

thumbnail_20190815_112017[1].jpg

Vista geral da cidade, a partir do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

 

thumbnail_20190812_203646-1[1].jpg

Vista da Alta coimbrã

 

thumbnail_20190815_125044-1[1].jpg

Mondego azul (sem um barco em pleno Agosto...)

Autoria e outros dados (tags, etc)

A via portuguesa [pub]

por Diogo Noivo, em 08.08.19

Captura de ecrã 2019-08-08, às 10.34.40.png

 

Portugal faz as primeiras páginas em Espanha. A “vía portuguesa” – vulgo “geringonça” – é apontada por muitos como a solução ideal para resolver o impasse governativo no país vizinho. No jornal digital The Objective, um periódico espanhol feito por gente notável e desempoeirada que lê muito e bem (e escreve melhor ainda), assino um artigo de opinião onde analiso os limites da via portuguesa como salva-vidas político. O texto pode ser lido aqui.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

117.JPG

Avenida Dailly, Schaerbeek, Bruxelas, de onde partimos no último sábado, eu em verdadeiro torna-viagem, quiçá o meu último, quem sabe se apenas o deste agora. Decidido o regresso automobilizado logo os patrícios ali vizinhos me aconselharam os cuidados necessários ao trabalhoso caminho: que ultrapassássemos Paris durante a noite, para evitar o seu demoníaco trânsito. Assim o fiz, largando a de facto bela e aprazível Bruxelas ao fim da tarde, de molde a cruzar aquele horroroso remoinho durante a meia-noite dominical, ainda assim atarefadíssima. Mas o conselho mais fundamental foi o dedicado ao combustível: que atestasse à saída do país, cerca de Mons. Que reabastecesse o mínimo possível em França, que tão mais cara por lá servem a gasolina – tanto que até terá provocado aquilo dos “coletes amarelos” que andaram nas bocas nestes últimos tempos, principalmente aquelas mais ditas eurocépticas. Assim o fiz, carregando a meio do franco trecho, e reforçando o pouco necessário já no País Basco gascão. E que atestasse no início do reino nosso irmão e de novo no seu término, ali nas imediações da antes mítica Vilar Formoso. Pois, disseram-me, e não só acreditei como o comprovei, a gasolina é tão mais cara em França do que na Bélgica e em Espanha. E é isso a verdade, como qualquer viajante mais atento o pode comprovar.

Mas o que mais me surpreendeu foi já conduzindo na Pátria Amada, apesar desta tantas vezes dita "Gasta", e assim o ir parecendo. Pois, autoestrada adiante fui vendo os anúncios dos preços do combustível. E bem fidedignos o são, pois mostram que a gasolina comum é mais cara em Portugal do em Espanha. E do que na Bélgica - onde as pessoas ganham, grosso modo, cerca de três vezes mais. E até do que na França - a tal terra dos furiosos "coletes amarelos", onde os rendimentos ainda são maiores. Não o acredita o prezado e almejado leitor do blog? Dirá que este bloguista é um "lusotropicalista"? Um "neoliberal"? Um "(filo)fascista"? Um "ressabiado/ressentido/invejoso"? Ou mesmo um "populista"? Ou até, como agora sói dizer-se, um mero "padeiro dos Olivais"? Não acredita mesmo? Então confirme aqui.

Lisboa alcançada. Malas amontoadas em casa. E vou às compras, à grande superfície fronteira, um estabelecimento Pingo Doce. O equivalente, por assim dizer, ao Colruyt de Schaerbeek onde abastecia parcelas do rancho até há tão pouco. Venho com os preços bruxelenses, essa Brasília da Europa, bem frescos na memória. E fico estupefacto: não só tantos dos vegetais são mais caros, os espinafres (especializei-me, entretanto, num saboroso esparregado, lembrando-me da saudosa matapa), os espargos, os cogumelos, as berinjelas, as abobrinhas (sempre galicamente ditas courgettes), com preços mais acima. E etc. Mas, e notai bem, até o pão é mais caro. O pão. Vou repetir, sem isso acompanhar com alguma praga, até o pão é mais caro.

Parcas compras feitas e vou até ao Arcadas, desde há décadas o meu café de bairro, saudoso que venho da bela imperial da casa, sem igual, vos garanto, e dos seus apreciáveis salgados. Para além do convívio, este talvez o produto mais refinado da casa. Saudações feitas o patrão logo me mostra, comentando-a, como é uso entre nós, a capa do diário - e ainda não sabia eu ter este sido visitado pela inspecção das finanças e como tal, dada a alguma mácula vasculhada, convocado a adoçar as suas relações com o poder governamental, características da nossa política que os intelectuais e teclistas avençados juraram menosprezar. A capa do diário? Meia dúzia de VIPs socialistas não foram apresentados a tribunal há uns meses, como se esperaria se seguindo as leis. E o tal PS, o partido da dupla funcional Sócrates & Costa, voa nas sondagens para a maioria absoluta.

A gasolina é mais cara do que em França, o pão mais caro do que em Bruxelas. E a malta segue trepidante, "no comboio descendente," vão todos "à gargalhada, uns por verem rir os outros, e os outros sem ser por nada", vão "todos à janela, uns calados para os outros, e os outros a dar-lhes trela, mas que grande reinação! Uns dormindo, outros com sono, e os outros nem sim nem não".

"Populista", dirão alguns intelectuais comentadeiros. "Masculino tóxico", dirão teclistas adamados e não só. Serei, isso e até pior e menos. Mas que fique claro neste meu regresso à gasta e amada Pátria: não é só a gasolina, até o pão é mais caro do que "lá fora". Acreditem, que sobre esse assunto este Padeiro olivalense segue atento.

E a malta gosta disto. Que fazer? Torre-se o pão velho. Ou açorde-se-lo, se para isso houver arte.

E que se lixe, que isto, qu'esta gente, não tem arranjo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Retratos de falência

por Diogo Noivo, em 24.07.19

tejo.jpg

 

Longe dos corredores do poder, de algumas tribunas periodísticas, e do 'circuito da mão-fria' – os simpáticos e elegantes eventos onde um copo on the rocks arrefece a mão de quem o segura –, há um país que se move como pode.

Os transportes públicos são, a um só tempo, um espaço de desespero e de privilégio. De desespero para quem os usa, porque os atrasos, as supressões e a degradação do chamado “material circulante” pintam uma paisagem magrebina. Em bem mais de uma década como passageiro da CP nunca assisti a um estado tão calamitoso de serviço prestado. Contudo, e apesar do quadro de miséria, ser passageiro é também um privilégio, uma vez que as redes de transportes públicos são um exclusivo de três ou quatro centros urbanos.

Perante a ineficiência do serviço prestado, os passageiros que dispõem de rendimentos para ter carro próprio têm alternativa. Os restantes submetem-se ao não-há-nada-a-fazer, chegando tarde ao seu local de trabalho, perdendo consultas e vagas para exames médicos, problemas resumidos num longo e penoso etcétera. Os serviços públicos deveriam mitigar as desigualdades, mas, no caso em apreço, servem para as agravar.

Um texto publicado hoje no Observador revela um lado mais dramático do caos instalado: pessoas que perdem o emprego e que são preteridas em entrevistas de trabalho por residirem na margem sul do Tejo. A explicação não reside em preconceito, mas sim no temor dos empregadores a contratar alguém que depende dos barcos da Soflusa para cruzar o rio. A posição dos empregadores é compreensível, mas a penalização sobre os residentes na margem sul tem tanto de inaceitável como de terceiro-mundista.

Os preços do imobiliário na capital empurraram famílias para a periferia, o que tem um custo horário nos movimentos pendulares quotidianos entre casa e local de trabalho. A esse custo acresce agora uma penalização laboral, única e exclusivamente por ineficiência dos serviços de transporte.

Este quadro inenarrável de penalização de quem menos tem, que agrava de sobremaneira a desigualdade social, suscita várias dúvidas. Por exemplo, saber o paradeiro daqueles que no passado recente se especializaram em ‘grandoladas’. Ou perceber o que aconteceu aos arautos do ‘povo’ e dos mais pobres. Ou, ainda, perguntar à oposição – assumindo que existe – o que tem a dizer sobre o assunto. Suspeito que são perguntas sem resposta.

O discurso do 'nós vs. eles', do 'povo vs. elites', é perigoso e inútil. A melhor forma de o combater é garantir que não tem adesão à realidade diária de quem vota.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Linhas tortas

por Maria Dulce Fernandes, em 13.07.19

LINHAS_TORTAS_1.jpg.554x318_q85_crop.jpg

 
Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta sim o que poderás fazer pelo teu país e obterás resposta igual para ambas as perguntas: nada.
Não esperes nada do teu País pois ele já nada tem para te dar.
Deu-te um berço, uma língua, uma identidade, a noção de pertença a algo grandioso que transcende éticas individuais. Deu-te a vã glória de integrares a história e as histórias daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando. Deu-te liberdade e democracia. Deu-te valor.
 
E tu retribuíste, com o teu percurso de inclusão social, com a tua aprendizagem, com o teu estudo, a tua qualificação, o teu trabalho, com o teu suor, até com as tuas lágrimas. É chavão, é cliché, é legítimo.
 
Poderia dizer-se que se igualaram no dar e no receber, não fora a oligarquia que se impôs para te guiar e formular as leis que regem cada minuto do teu dia, ditar cada vez mais e o ditado ser cada vez mais draconiano e os mandos dos ditantes cada vez mais retorcidos de favores aos favorecidos.
 
Olhas em volta e, num hemiciclo de eleitos, não encontras um rosto que exprima rectidão, experiência, solução... tampouco honestidade cívica. Cada palavra é subliminar, repleta de sinónimos que são  hiperónimos, hipónimos que são parónimos, antónimos que são homónimos. Cada frase é uma charada conotada com as máscaras da tragédia, onde com um sorriso te apetece chorar.
 
E tu olhas mas não vês, escutas mas não ouves, tocas mas não agarras, falas e nada dizes, porque te perdeste dos sentidos e já não consegues sentir mais nada. Até o desespero ou a raiva já se conformaram e segues com o rebanho, sem pastor nem pastagem, sem bússola nem compasso, indiferente aos pontos cardeais, porque afinal o que és tu senão mais um ponto colateral perdido nestas linhas tortas que ninguém sabe endireitar?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ser saloio

por Diogo Noivo, em 08.07.19

Em miúdo sempre me fez confusão ouvir o meu pai dizer que era saloio. Ainda para mais porque o dizia com algum orgulho. Referia-se, percebi anos mais tarde, ao facto de ser natural de Santa Iria da Azóia. Recordei o significado benigno da palavra a propósito de um texto que Ferreira Fernandes publicou hoje no Diário de Notícias.

Comecemos pelo princípio. A historiadora Maria de Fátima Bonifácio publicou um artigo de opinião com laivos de racismo no jornal Público este fim-de-semana. Igualmente grave, pelo menos na óptica de um espaço de opinião, escreveu um texto cujos argumentos são francamente débeis e desadequados para sustentar uma opinião perfeitamente atendível – a saber, a oposição à criação de quotas para minorias étnicas. Não gostei do texto. Não o subscrevo.

Hoje, no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes enfatiza o racismo do texto de Bonifácio. Mais, Ferreira Fernandes recorre ao seu percurso de vida para evidenciar a fragilidade dos argumentos da historiadora. Defende, contudo, o jornal onde a opinião foi publicada, lembrando os leitores que sem o Público seríamos “uns saloios”. Avocando a minha costela saloia, é aqui que a porca torce o rabo.

Não me custa nada admitir que a leitura do Público foi parte importante dos meus anos formativos. Acontece, porém, que o Público dos meus tempos de faculdade desapareceu. A secção de Internacional forte, bem informada e bem escrita mirrou, desinformou-se e é actualmente quase um pro forma nas páginas do jornal. As ‘causas’ e o cosmopolitismo do Público, que sempre apreciei, sustinham-se em argumentos, mas hoje sustêm-se em militância. São opções legítimas, mas é um jornal diferente, mais saloio.

Porventura a maior prova dessa diferença é o editorial assinado por Manuel Carvalho. Além de demonstrar arrependimento pela publicação do artigo de Maria de Fátima Bonifácio, Carvalho afirma que “as reacções e episódios associados a esta polémica obrigam-nos a reforçar os critérios de exigência e selectividade”. E aqui reside o verdadeiro problema. Os arrependimentos são legítimos – que atire a primeira pedra quem não os tem –, mas subordinar o rumo do jornal a “reacções” e “episódios” não se coaduna com um periódico que pretende converter saloios em gente informada. É navegação de cabotagem.

Gosto de Manuel Carvalho e ainda mais de Ferreira Fernandes. E de Maria de Fátima Bonifácio também. Leio-os sempre, mesmo quando discordo do que defendem – o que acontece com alguma frequência. Jamais em circunstância alguma, mesmo perante textos escabrosos e tontos, apoiarei qualquer tentativa de censura, sobretudo se fundada em “reacções” e em “episódios”. Penso desta forma por várias razões, entre as quais ter lido o Público nos meus anos de faculdade. Mas esse Público desapareceu e esta polémica com Maria de Fátima Bonifácio é prova disso. O meu pai é saloio, eu tenho uma costela saloia, não nos livramos disso.  O Público é saloio por opção.

 

ADENDA: muito recomendável a leitura do ‘postal’ do José Pimentel Teixeira aqui, no DELITO, sobre o mesmo assunto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O "etno-racialismo"

por jpt, em 08.07.19

Na lusa pátria vai um burburinho por causa deste texto de Maria Fátima Bonifácio sobre quotas "étnico-raciais". Tamanho que até o director do jornal Público veio gemer um editorial, desculpando-se, uma coisa patética:

1. O texto de Bonifácio é uma borregada, monumental. Porque é um bramido de disparates, próximos da demência senil. Ou mesmo já lá. E, fundamentalmente, porque na sua vetusta patetice dá força "àquilo" que quer combater, a turba dos "étnico-racialistas". (Já aí está um texto de uma senhora do PSD, Marta Mucznikmuito actualizada no "quotismo", a mostrar como tudo se vai seguir).

2. Gritam que é um discurso de "ódio", e o tipo do Público até com isso concorda. Se é certo que o texto é uma pantomina do que é a reflexão convirá ter algum cuidado nessa invectiva, que é proto-censura. Se eu, ou outrem, disser que as testemunhas de jeová (que agora alugaram um estádio em Carnide, Lisboa, para o seu congresso) ou os seus primos da IURD são uma mole de supersticiosos ignorantes, que não se integram no racionalismo desejável, estou a fazer um "discurso de ódio"? Não. E com toda a certeza que não serei apedrejado em Lisboa. Mas será exactamente o mesmo tipo de discurso, de menosprezo mas não de "ódio".

3. Bonifácio critica o PS (por via da entrevista de Pena Pires) por causa das quotas "étnico-raciais". Este dirigente daquele partido anuncia que o PS poderá vir a assumir a tal posição "étnico-racialista" na composição das suas listas de deputados. Isso é apenas assunto desse partido, no afã de ganhar votos até à maioria absoluta. Lembro que o PCP tinha (ou tem) quotas nos seus órgãos (a maioria tinha que ser operária) e isso não chocava ninguém. Face a essa possibilidade no PS só tenho uma questão, perfeitamente legítima e empiricamente justificada: será que as lojas maçónicas já têm as tais quotas ou as vão instalar, andam os maçónicos por aí com afã a recrutar ciganos e pretos (perdão, afrodescendentes)? E é essa a questão relevante, não a tralha dos deputados Benetton que vão agitar.

4. Pelo que leio no artigo do Público em que Pena Pires é entrevistado sobre a matéria (que está ligado no texto de Bonifácio, e por essa via a ele chego) o prestigiado sociólogo deixa entender que a visibilidade pública - na tv e na política - reduz a discriminação e impulsiona a mobilidade social. E que a frequência universitária também reduz o racismo. E daí que defenda o "quotizar", tanto nas listas políticas como no acesso à universidade e também na tv - tudo isso me lembra um artigo do Público (jornal muito militante desta tralha) em que uma artista "afrodescendente" dizia ter emigrado por causa da discriminação em Portugal, pois não encontrava negros nos anúncios de shampoo, nem nas telenovelas, o que lhe causava enorme incómodo. O registo intelectual é o mesmo. Ainda que o prestígio intelectual de Pena Pires seja bem superior, e justificadamente, ao dos militantes jornalistas do Público.

5. Para qualquer tipo que queira evitar/confrontar o comunitarismo e respectiva "quotização" da população portuguesa e imigrada, para qualquer democrata republicano, a primeira coisa a fazer é mesmo pontapear a tralha bonifácia. Insalubre. E depois perceber uma coisa: o mundo não é o eixo Largo do Rato - (agora também) Buenos Aires, rua - Bairro Alto. Ou seja, o racismo será a ideologia dominante de XXI. Não se combate com a legitimação das suas falsas categorias. Nem anuíndo ao lumpen-intelectual local.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Portugal-Krimis"

por Cristina Torrão, em 06.07.19

Krimi é a interessante palavra que na Alemanha se usa para livro policial. Portugal-Krimis são policiais portugueses. Estão na moda, aqui no país da Sra. Merkel. Estranho, não é? Não há notícia de livros portugueses com sucesso na Alemanha. Além disso, não se escrevem muitos policiais made in Portugal. Pois é, estes passam-se em Portugal, mas são escritos por… alemães!

São um sucesso editorial e muito recomendados agora para a época de férias. Por acaso, o meu marido já leu um deles: Lost in Fuseta.

Lost in Fuseta.jpg

O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações). Lost in Fuseta é a primeira aventura de Leander Lost por terras algarvias, mas a série já vai, entretanto, no terceiro volume.

Tod in Porto.jpg

Tod in Porto (“Morte no Porto”), é o segundo caso do inspector Fonseca e da sua equipa da Judiciária. O autor é um alemão que vive há vários anos em Portugal e usa o pseudónimo Mario Lima (na Alemanha não se põem acentos).

Mord auf Portugiesich.jpg

Mord auf Portugiesich (“Assassínio em Português”) passa-se numa pequena aldeia no Norte de Portugal (junto à costa) e tem a assinatura da jornalista alemã free-lancer Heidi van Elderen.

Fado Fatal.jpg

Fado Fatal (dispensa tradução), outro policial situado no Porto, de Hanne Holms. Esta autora já publicou um Krimi passado na Toscana e outro em Maiorca. Agora, pelos vistos, foi a vez de Portugal.

Letzte Spur Algarve.jpg

Letzte Spur Algarve (“Última pista: Algarve”), de Carolina Conrad, conta a aventura de uma jornalista alemã, filha de portugueses, chamada Anabela Silva, que resolveu mudar-se para a aldeia de origem dos seus pais (no interior algarvio). Trata-se de uma jornalista muito curiosa e logo se vê envolvida numa investigação policial comandada pelo comissário João Almeida. Parece que o enredo é apimentado com um caso amoroso entre os dois.

Portugiesisches Blut.jpg

Portugiesisches Blut (“Sangue Português“ - assinalado como "Lissabon-Krimi), de Luis Sellano, é a quarta aventura de um alemão, Henrik Falkner, que vive em Lisboa. Luis Sellano é (já adivinharam; e sem acento) o pseudónimo do autor alemão.

Madeirasturm.jpg

Madeirasturm (“Tempestade na Madeira”, ou "Tempestade madeirense") tem autoria de Joyce Summer, o pseudónimo de uma autora de Hamburgo. Criou o comissário madeirense Ávila e este é o seu segundo caso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Descobrir o passado

por Diogo Noivo, em 25.06.19

21490650_a7IEo.jpeg

 

Begoña Urroz tinha 22 meses de idade quando morreu queimada na sequência de um atentado bombista. Foi a 27 de Junho de 1960 na estação ferroviária de Amara, em San Sebastian, no País Basco. Durante décadas o atentado foi atribuído à ETA. Begoña seria, aliás, a primeira vítima mortal do terrorismo basco. Em 2010, a data do atentado foi instituída pelo parlamento espanhol como o dia de homenagem às vítimas do terrorismo.

Um estudo publicado hoje pelos investigadores Gaizka Fernández Soldevilla e Manuel Aguilar Gutiérrez desmente essa tese, provando que a acção foi da responsabilidade do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL), um grupo armado luso-espanhol composto por militantes anti-salazaristas e anti-franquistas. Na sua ala portuguesa, o DRIL contou, entre outros, com Humberto Delgado, Henrique Galvão, Camilo Mortágua e Victor Cunha Rego.

 

21490651_VbbEN.jpeg

 

Muerte em Amara: La violencia del DRIL a la luz de Begoña Urroz”, uma edição do Centro Memorial de las Víctimas del Terrorismo, resgata um pedaço de História contemporânea do canto obscuro onde esteve esquecido. O estudo é fruto de um trabalho de investigação notável assente em muita documentação inédita. E permite vislumbrar o que foi a participação portuguesa em actos de violência política além fronteiras. Só por isso merece atenção por cá. Os interessados podem descarregar a versão em pdf de forma gratuita aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Aprender Mar, aprender Portugal

por Maria Dulce Fernandes, em 10.06.19

Quando eu era pequenina, a Avó ninava a canção do Barquinho e eu choramingava: Pobre barquinho, que fez chape!!  no mar… 

 Mal damos pelo tempo passar e já estamos a aprender. Aprendemos a sorrir, a comer, a gatinhar, a falar... 

Num ápice, estamos a juntar números e letras, a aprender o B + A = BA e o 1 + 1 = 2.  

Aprendemos sobre Portugal, sobre os Primitivos, os Bárbaros, os Gregos, os Romanos, os Arabes e o al Andalus, osCristãos, o Condado Portucalense e a Reconquista

Aprendemos que do tempo das trevas nasceu uma luz imensa. 

Aprendemos principalmente sobre o mar e os marinheiros que montados em cascas de noz com mastros com as velas da Cruz de Cristo, cavalgavam as ondas por esses mares fora, sem medo do desconhecido, rasgando horizontes, enfrentando tempestades, colhendo para Portugal os frutos da imortalidade histórica. Aprendemos que não há vento que nos desvie nem onda que nos afunde. Aprendemos que o homem do leme nos levaria sempre a bom porto, enfrentando intrepidamente todos os mostrengos que lhe quisessem obstruir passagem:.

Não sei se é por estar a ficar (mais) velha, que me sinto nostálgica e derrotista, mas tem dias que estou a ver as notícias, sempre más, só tristezas, crimes, desgraças e corrupção e me pergunto por onde andará o Homem do Leme, um Homem do Leme. 

Temos andado á deriva por tanto tempo e não há ninguém com vontade e pulso firme para conduzir este barco através deste negrume de incontrolável turbulência, através deste mar de despudor e ignomínia.  

O Homem do Leme tornou-se no D.Sebastião da era moderna e voltará talvez numa manhã de nevoeiro. Só espero que ainda tenha visibilidade e visão para poder encontrar Portugal, mas tenho em mim que destas trevas não sairá qualquer faúlha, desde que a imoralidade a desvergonha e a incorrecção  se tornaram parte integrante da cultura moderna  

"... 

Dar-te-ei a nau Catrineta 

Para nela navegar. 

Não quero a nau Catrineta 

Que a não sei governar. 

Que queres tu, meu gajeiro, 

Que alvíssaras te hei-de dar? 

"Capitão, quero a tua alma 

Para comigo a levar 

...". 

 

Bom Dia de Potugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D