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Delito de Opinião

Pela Europa

Cristina Torrão, 28.12.25

Faço hoje uma pausa nas Rapidinhas de História, voltarão no próximo ano. E aproveito para pôr aqui outro vídeo: "Da Alemanha até Portugal, em três minutos". Uma viagem pela Europa sem fronteiras. Para quem gosta de liberdade.

Trump e Putin são psicopatas invejosos. O seu discurso anti-Europa é apenas mais um, entre os disparates que debitam, todos os dias. Esperam desmoralizar-nos. E não podemos deixar que isso aconteça.

Faço viagens entre a Alemanha e Portugal, maioritariamente de carro, há trinta e três anos. Sinto-me bem-vinda em qualquer local, sou uma europeísta convicta. Não sei de outro lugar do mundo, onde se viva melhor, com mais liberdade.

Mensagem de resistência para 2026:

VIVA A EUROPA!

 

Dois países neste país

Pedro Correia, 12.12.25

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Dia de ontem. Percorri a cidade.

Restaurantes abertos. E não só. Também cafés e pastelarias e tabacarias e quiosques e livrarias e cabeleireiras e barbeiros e padeiros e cozinheiros e sapateiros e cuidadores e clínicas e farmácias e oculistas e taxistas e agências bancárias e mercearias e charcutarias e talhos e supermercados e centros comerciais e lavandarias e oficinas e até funerárias - tudo a bulir.

À noite, nas televisões, espreito as notícias. Falam-me num Portugal paralisado. "Tudo fechou", diz um repórter.

E volto a pensar: existem dois países neste país.

Um herói português em Hamburgo

Cristina Torrão, 02.12.25

“Fábio Vieira põe os adeptos do Hamburger SV em êxtase”, ouvi ontem no rádio, ao pequeno-almoço.

Fábio Vieira provoca explosão de emoções no estádio

O golo tardio de Fábio Vieira provoca um “terramoto”

Loucura no último minuto

São as manchetes que encontro na internet.

Realmente, a situação não podia ser mais emocionante.

Fábio Vieira HSV.jpg

Imagem tirada deste vídeo

 

Mas comecemos pelo início. Fábio Vieira, de 25 anos, nascido em Santa Maria da Feira, jogava no F.C. Porto, quando foi comprado pelo Arsenal. Desde Setembro passado, é jogador emprestado ao Hamburger SV.

A história recente deste clube alemão tem sido dramática.

Hamburgo é a segunda maior cidade alemã (1.852 milhões de habitantes), à frente de Munique, Colónia e Frankfurt. O Volksparkstadion, um dos maiores estádios da Alemanha, tem capacidade para 57.000 pessoas. No seu palmarés, o Hamburger SV conta com uma Taça dos Campeões, uma Taça das Taças e seis campeonatos alemães. E, no entanto, de 2018, até à época passada, jogava da 2ª divisão!

Volksparkstadion.jpgVolksparkstadion, em Hamburgo

 

De há doze anos para cá, os adeptos do Hamburger SV vêm precisando de nervos de aço. O clube esteve quase a descer de divisão, em 2014, mas assegurou a sua permanência no play-off por uma unha negra. Depois deste susto, anunciaram-se medidas drásticas para tirar o clube da crise, incluindo a dissolução de todo o management.

Mas as “medidas drásticas” não conseguiram tirar o Hamburger SV do último terço da tabela e, em 2018, acabou mesmo por descer. Começou uma odisseia macabra. O HSV ficou três vezes no quarto lugar e outras tantas no terceiro, sendo que este lugar permite o play-off, com o último classificado da Bundesliga. E dessas três vezes falhou.

Na época passada, porém, conseguiu, com um 2º lugar, regressar finalmente à Bundesliga. Não tem, contudo, brilhado, pelo contrário.

No fim-de-semana passado, uma vitória permitiu-lhe ascender ao 13º lugar (entre 18 equipas). Uma vitória sobre o VfB Stuttgart, sexto clasificado! E em desvantagem numérica, depois de um dos seus jogadores ter visto o cartão vermelho (minuto 81). Nesta altura, o jogo estava empatado 1-1.

Já nos descontos, último minuto da partida: Fábio Vieira faz o segundo golo para o Hamburger SV. O estádio explodiu. Ouçam, neste vídeo, a histeria dos relatadores:

 

 

 

Curiosidade: Fábio Vieira esteve quase a jogar pelo VfB Stuttgart, antes de ir para Hamburgo, precisamente o clube que, devido ao seu golo, perdeu dramaticamente este jogo.

 

Outra curiosidade: o guarda-redes do Hamburger SV é, desde 2019, Daniel Heuer Fernandes, um luso-alemão, nascido em Bochum (pai português e mãe alemã). Fez, aliás, parte do plantel português para o Campeonato Europeu Sub-21 de 2015, na República Checa.

 

Manuel Heuer Fernandes.jpg

 

Adenda: Peço desculpa. O guarda-redes não se chama Manuel, mas sim Daniel Heuer Fernandes.

Para lá do Marão... (2)

Cristina Torrão, 11.11.25
Continuando a saga da "língua tcharra", transcrevo aqui um esplêndido diálogo, criado por Rui Rendeiro Sousa. Esta série também serve para mostrar aos portugueses sem raízes transmontanas que não há apenas uma "pronúncia do Norte". O falar do Nordeste transmontano nada tem a ver com o do litoral, nomeadamente, do Porto e da província do Minho.
 
Uma dica: ler alto ajuda a perceber.
 
 
(Advertência: O diálogo que a seguir será apresentado, é ficcional, porém baseado em memórias guardadas. É um retrato, o mais fiel possível, da forma de falar da minha Avó Maria, oriunda de uma aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros. Forma de falar que, quando à aldeia ia, absorvia e procurava imitar. Trata-se, apenas, de uma transcrição respeitando a original pronúncia, com todos os fenómenos fonológicos à mesma associada, onde entram paragoges, africadas, betacismos, apócopes, e demais designações estranhas. Em simultâneo respeitando a quase inexistência de vogais átonas, o que conduz, p.e., à recorrente substituição de [o] por [u]... Não se trata de nenhuma forma «científica», sempre tendo em conta que há variações regionais, quer no léxico, quer na pronúncia. Apenas para precaver eventuais protestos...)
 
- Ó mou filhu’e, já tchigaste?
- Ó bó, bote cá um beiju’e! E um tchi-curaçãu dus sous, mim arrotchadinhu’e!
- Fizeste boa biaige? Já te fiz’u café nu pote, q’és ua malga dele? Já te bou pur um cibu de persuntu’e. Abonda di um pão da arca, que já te cort’um carólu’e. Assenta-te aí, mou filhu’e, trai u môtchu’e.
- Ó bó, deixe stare. Só bim pr’á bere.
- Ai u diatchu du raparigu’e! Daqui num sais sim m’rendares, bô! Q’inda te tchegu a roup’ó pêlu’e, pur’i, q’inda sou capaze! Bá, sabes q’stou a mangare, que da tu’ábó nunca alombaste. Stás um home, mas tens d’aparare essas repas’e. Bá, bota lá, q’és ua nabalha, ou trou’xeste a tua?
- Um home que bai pr’ó mare, prupara-s’im terra, num é assim que dize?
- Ó depeis fais um fabore à tu’ábó? Bais ó s’queiru’e, e trais ua gabela de guiçus’e, e de caminhu’e, trai um tóru p’ró depeis serbire de strafugueiru’e. Q’habemus de fazere um magostu’e, que já apanhei ua man’tchêa de caz’tanhas’e. Bá, trai um manhuçu de bides, mas das que já stão amanhadas co baraçu’e, oubiste!
 
A minha avó, naquele seu peculiar estilo de viúva sozinha, de muitos anos, que o meu avô já não conheci, gostava de emitir ordens. Não me incomodavam, afinal era a “nh’ábó Maria”, a única que conheci. E lá fui ao sequeiro, não sem antes passar a cumprimentar a “Marela e á Ruça”, companheiras de aventuras tantas. Um dia, que por vezes também era “atraganadu’e”, para que uma delas andasse, “tchiz’quei-le” num qualquer local que não apreciou, e levei com um “pinote”. Mas ficámos sempre amigos.
 
- Inda stibeste a talhar’us guiçus’e? Bem tempu te lubou’e. Bai à’dega, e trai u assadore, que stá lá imbarradu’e. E si’u q’és, trai binhu’e, mas inda num é du nóbu’e.
...
- Trai daí us lumes’s, ou assopra-le co fole. Num le botes as caz’tanhas sim le fazer um corte, olha que stourum, c’um catanu’e! Bá, rebir-ás, q’és um rudilhu’e, pra num te queimares, pur’i? Ó caralhitchas’e, aban’ó assadore, assim’e, p’ra tráse e p’ra diante. Bai ali pur’ua saca, pr’ás abafare! Ó depeis inda lebas uns bilhós’e.
 
É com alguma emoção de permeio, porém com imenso orgulho, que me recordo dos longos diálogos com a “nh’ábó”. À custa deles e de, um dia, dois colegas «alfacinhas» me terem perguntado que idioma falava a minha avó, questionando-me, por exemplo, o que era “butare as carabunhas pr’ó lume”, hoje me aturam aqueles que paciência têm para ler estas “tchabaz’quices”. É, também, uma forma de honrar e prestar uma sentida homenagem a todas as “Abós Maria” destas magníficas terras.
 
“C’ua lágrima nu cantu du ólhu’e”... “Bá, bou-me lá, c’os deseijus d’um bô f’riadu’e!”… Assim o diria a minha Avó Maria…
 

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Nota: O Rui Rendeiro Sousa deseja "bom feriado" porque publicou este post no passado dia 31 de Outubro. Resolvi assim deixar por igualmente estar escrito em "língua tcharra".

Feriado nacional

Pedro Correia, 05.10.25

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Não pode haver melhor data do que esta para um feriado verdadeiramente nacional - aquele em que se alicerça e fundamenta a nossa História. 

A emancipação de Portugal ficou garantida em 5 de Outubro de 1143 num tratado firmado em Zamora por D. Afonso Henriques e D. Afonso VII, rei de Leão e Castela. O nosso primeiro monarca recusou prestar vassalagem ao vizinho, seu primo. O reino português deixava de ser condado, emergindo como nação livre e soberana.

Há quase 900 anos. Poucos países podem orgulhar-se de ter uma história tão longa, fronteiras tão estáveis e uma língua tão difundida pelo globo, embora maltratada no rectângulo europeu. 

Celebremos, pois.

Cá no nosso jardinzinho

Cristina Torrão, 03.09.25

Hino, Camões, 10 de Junho

Pedro Correia, 10.06.25

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Penso há muito que o Hino Nacional devia ter versos de Luís de Camões. Sendo o Dia de Portugal assinalado a 10 de Junho, em evocação da data da morte do nosso maior poeta, faz todo o sentido.

Não desfazendo, claro, no vate Lopes de Mendonça, autor da letra do presente hino. Mas entre Camões e Mendonça, prefiro o primeiro.

A música de Alfredo Keil, naturalmente, deve manter-se.

A vida breve e trágica de vários reis

Pedro Correia, 24.05.25

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D. Afonso Henriques: só ele e mais dois monarcas portugueses ultrapassaram os 70 anos de idade

 

Fiz há dias uma investigação sumária, por mera curiosidade, sobre os 34 monarcas que reinaram durante quase nove séculos em Portugal e cheguei a uma conclusão inesperada: só oito morreram mais velhos do que a minha actual idade.

A morte prematura foi uma constante no trono português, em qualquer das dinastias. E a esperança média de vida, em vez de aumentar, foi diminuindo. Basta anotar que o nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques, foi também um dos que viveram mais tempo - faleceu em 1185, aos 76 anos. Enquanto o último, D. Manuel II, morreu com apenas 42, em 1932.

Destas cabeças coroadas, apenas uma chegou a octogenária: D. Maria I, falecida aos 81 anos. De pouco lhe valeu a longevidade física: passou o último quarto de século de vida como doente mental.

Septuagenários, apenas três. Além do fundador do Reino de Portugal, já mencionado, D. João I chegou aos 76 anos e Filipe I (luso-espanhol e o primeiro de três que durante seis décadas ocuparam simultaneamente os tronos em Madrid e Lisboa) morreu aos 71. Ninguém mais.

 

Ser monarca, na História de Portugal, parece ter implicado quase sempre falta de saúde. Até reis sexagenários, tivemos poucos. Eis o registo, por ordem cronológica: D. Afonso III (falecido aos 68 anos), D. Afonso IV (66), D. Henrique (68), Filipe III (60), D. João V (60), D. José (62) e D. Miguel (64).

Os nove monarcas da Dinastia Afonsina, entre 1143 e 1383, viveram em média 54 anos. A Dinastia de Avis, entre 1385 e 1580, teve oito reis, com 51 anos como idade média. Seguiu-se o domínio filipino, de 1580 a 1640: três cabeças coroadas, 58 anos anos de longevidade média. Superior à da Dinastia de Bragança, que se estendeu de 1640 a 1910: 14 monarcas, sem ultrapassar os 50 anos como idade média.

 

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Não faltaram óbitos abaixo dos quarenta. Segue a lista, pela mesma ordem a contar do início: D. Afonso II (37 anos), D. Sancho II (38), D. Fernando I (37), D. Sebastião (24), D. Pedro IV (35), D. Maria II (34) e D. Pedro V (24).

Por causas muito variadas: D. Afonso II morreu com lepra, D. Duarte (46 anos) e D. Manuel I (52 anos) com peste. D. Afonso VI (40 anos) e D. Pedro IV foram vitimados pela tuberculose. D. João III (55 anos) e D. José sucumbiram a tromboses. D. Maria II (retratada na imagem ao lado) morreu de parto e seu primogénito, o malogrado D. Pedro V, enlutou os súbditos ao desaparecer muito jovem, com febre tifóide. Tinha a mesma idade do infeliz D. Sebastião, um dos dois reis portugueses que sofreram morte violenta, tendo perecido na batalha de Álcacer-Quibir (1578). Já no século XX (1908), D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço. Tinha 44 anos.

Há fortes suspeitas de que pelo menos três acabaram envenenados: D. Fernando I em 1383, D. João II em 1495 (40 anos) e D. João VI em 1826 (58 anos). 

Vidas breves, em grande parte. Vidas trágicas, em vários casos. Quase todas davam séries ou filmes de pendor dramático.

 

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D. Manuel II, último Rei português, faleceu em 1932 com apenas 42 anos

Pausa de 24 horas para meditar

Pedro Correia, 17.05.25

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- Portugal tem a oitava maior carga fiscal da OCDE.

- Em Portugal a despesa pública ronda os 45% do PIB e cresceu 28 mil milhões de euros entre 2015 e 2023: mais 32,3% em oito anos.

- 80% do investimento público em Portugal provém de fundos comunitários, não de verbas inscritas no Orçamento do Estado.

- 12,4% dos portugueses estão sujeitos a despesas de saúde superiores a 10% do rendimento.

- Portugal é o terceiro país da OCDE onde as despesas directas em saúde têm mais peso nos gastos dos cidadãos.

- Em Junho de 2024, o Estado empregava 749.678 pessoas, o número mais alto desde 1991.

- Hoje 61% da população adulta portuguesa depende directa ou indirectamente do Estado (funcionários públicos, pensionistas, beneficiários de prestações sociais e trabalhadores com salário mínimo fixado pelo Governo). Em 1980 essa percentagem era apenas 34%.

- 25% da população vive hoje apenas em dez dos 308 concelhos do país.

- 20% da população nascida em Portugal vive fora do país. Na Europa, esta taxa é apenas ultrapassada por Croácia, Bulgária, Lituânia e Roménia.

- Em 2022 o PIB per capita da Área Metropolitana de Lisboa era cerca de 30% superior à média nacional.

- Lisboa é a terceira cidade da Europa onde são inaugurados mais hotéis. Em Agosto de 2024 foram anunciadas 36 novas unidades hoteleiras, com um total de 4425 quartos.

- Há mais de 700 mil casas vazias em Portugal, 240 mil só nas áreas metropolitanas.

- Mais de um milhão de pessoas vivem sós e, destas, 55% são idosas. Esta percentagem põe Portugal em quarto lugar na UE.

- Portugal é o quarto país da OCDE com a taxa máxima do IRC mais elevada. Em 2023 era o que tinha a taxa máxima mais elevada dos países europeus da OCDE. Mais do que em Espanha, França e Reino Unido. 

- 5% das nossas empresas são responsáveis por 65% da receita do IRC.

- Segundo o Índice de Competitividade Fiscal Internacional 2024, Portugal estava em 35.º entre 38 lugares da Competitividade Fiscal Geral. A nossa pior classificação: penúltimo lugar da lista em matéria de fiscalidade das empresas.

- Importamos dois terços do peixe que comemos: o nosso consumo anual per capita é de 59,9 kg - mais do dobro da média europeia.

- Portugal é o segundo país da União Europeia com mais eleições em sete anos.

Nem no 13 de Maio se safam

Sérgio de Almeida Correia, 13.05.25

1600px-Caravaggio_(Michelangelo_Merisi)_-_The_CardCaravaggio, 1594, I bari (Os trapaceiros)

O resultado da sondagem do Barómetro DN/Aximage não engana. E mostra a consistência do juízo que os portugueses fazem dos seus dirigentes políticos. "[N]ão há um líder partidário com saldo positivo".

Estão ali, em São Bento ou na Gomes Teixeira, como podiam estar ao balcão de um banco, a receber formulários numa repartição qualquer, a tirar cafés ou a servir imperiais na tasca do pai.

São consistentemente maus aos olhos dos seus concidadãos para as funções que querem desempenhar. Mas estão convencidos de que nasceram para aquilo. Até tratarem da vidinha.

Incapazes de melhorarem a sua imagem, de apresentarem desempenhos decentes ou de suscitarem algum aplauso.

Os seus discursos vão permanentemente do irado ao monocórdico. São repetitivos, repletos de banalidades, desligados da realidade e das verdadeiras preocupações dos portugueses, recheados de frases feitas e lugares-comuns.

A grande pobreza vocabular das suas intervenções, o nível da linguagem, espelham a sua insuficiência formativa, o afastamento da realidade nacional, a falta de talento para a direcção política, a total ausência de carisma e de capacidade mobilizadora.

Nunca políticos carreiristas, semi-ignorantes, cábulas e com espírito de funcionário poderão alguma vez mobilizar um país, erguê-lo da mediocridade em que medra de eleição em eleição.

Ainda que a população fosse exclusivamente composta por bimbos com "sonhos de menino", o desencanto seria sempre o mesmo.

E isto já não é sina. É uma escolha consciente.

Porque até as crianças se recusam a nascer. E mesmo os mais capazes se conformam para não terem chatices e não se incompatibilizarem com os vizinhos.

Assim vamos seguindo, sem chama, sem apelo, sem horizonte, empurrando com a barriga, escovando os fatos, mudando a naftalina, seguindo atrás de uma elite de moribundos alegres.

Tivéssemos nós um Rimbaud e teria desertado para Java. Como um foi para a Índia e o outro para Macau. Para não terem de nos aturar. 

Cumprem obrigações como quem vai à missa dominical, virando as folhas do calendário, celebrando os aniversários, respeitando veneradamente as efemérides, sabendo que a seguir à Primavera virá o Verão, depois o Outono, antes de chegar o Inverno, enquanto se ensaia a ladainha seguinte e se cumpre a promessa ao longo da berma das estradas.

E no final dar-se-á a volta para que tudo se repita de novo. Com os mesmos e nos mesmos dias para que não se perturbe a paz dos mortos e a conformação dos vivos.

Venha então de lá o Dez de Junho.

25 de Abril de 2025

jpt, 26.04.25

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No telejornal ouço breves declarações do secretário-geral do PCP, ripostando certeiramente às esparvoadas declarações de um ministro (esta gente não tem quem lhes escreva textos?) sobre o 25 de Abril. Dizia Raimundo "isto não é uma festa, é uma celebração!" ("e as celebrações não se adiam", concluia. Pois podem-se suspender, claro. Mas não adiar).
 
Eu gosto de festas (se recatadas, que me falta energia para festivais e festarolas). De manhã um simpático vizinho convidou-me para me juntar aos dele (que me são algo simpáticos) no desfile. Recusei, grato, explicando-lhe (até lhe enviando um texto que li há dois anos num 25 de Abril) que nunca vou a este desfile. Pois não celebro (a democracia, ainda por cima) com comunistas - versões brejnevistas, enverhoxistas, polpotistas, maoístas, guevaristas, etc.
 
Nada oponho a festejar conjunto uma qualquer efeméride ou vitória sportinguista. Mas "celebrar" a democracia com os seus adversários? É bom para o folclore, para a mimalhice. E será também para a afirmação partidária (louvável o estômago dos da IL em marchar ali depois do PCP - donos do desfile - os ter impedido de participar). Mas não sou de "folclores".
 
Depois um grande amigo, fotógrafo, telefonou-me: "vou fotografar, queres vir?", e isso seria diferente, vestiria o colete de observador não-participante, "se calhar escrevemos um texto juntos" (para blog, que ninguém nos paga...). Mas desisti, sem energias pois acabrunhadíssimo com episódio que sofri há dois dias.
 
Percebendo-me desasado uma querida amiga passou por minha casa e levou-me ao café local. Ela avançou na sua amêndoa amarga, eu amornando uma parca imperial, logo unidos por outra amiga, minha "mana", esta optando pela sua Sagres. Escorremos umas horas. Na televisão, frenética, incessante, a cobertura da arruaça na baixa lisboeta, cometida por umas dezenas de histéricos. Nesse entretanto viu-se (centenas de vezes, sem exagero) a detenção de um antigo juiz. Mais uns sopapos e meia dúzia de bastonadas. Repetidas, vezes sem conta.
 
Ali ao lado, a avenida da Liberdade estava cheia - sim, da gente folclórica que mitografa que os democratas são os socialistas e os comunistas e que nós outros somos "faxistas", ainda hoje, em pleno 2025 o dizem (mas eles ou os seus filhos emigram ou vão estudar para os países governados pelos "faxistas", coisas do arco da velha).
 
Mas não é isso que me interessa aqui. O relevante é terem as televisões passado horas a propagandear aquela minudência holiganesca. (Com menos porrada do que em qualquer derbi Braga-Guimarães, já agora). No 25 de Abril os mariolas colonizaram a televisão... E os "jornalistas"? Adoraram.

Fake-Indie?

jpt, 25.04.25

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"Indie", no rock ou no cinema e até mais longe, significava algo independente, "rebel, rebel", escapando-se aos ditames dos mercados, económicos e até ideológicos. Às vezes, diante de obras assim anunciadas percebe-se que o termo também se tornou um "pin", mera publicidade para nichos, assim ordinário, quinquilharia de loja de recuerdos, dessas máscaras do tráfico de neo-coolies. Outras vezes nada disso, surge gente a "rasgar", alguma depois alcochoando-se no mainstream, outra mais arisca, seguindo os seus rumos. E também aos seus protectores - os públicos, mais do que tudo; patrocinadores/mecenas; produtores - se presume alguma "rebeldia", um incómodo não confrontacional que seja, diante dos constrangimentos das dominantes tendências, o mercado mainstream.
 
Estava eu no comboio, em viagem pitoresca. E recebi uma mensagem de confrade bloguista, que me julgava conhecedor do trabalho referido - o filme Balane 3, que o realizador Ico Costa fez em Inhambane, Moçambique. Mas desconheço, o realizador e o seu trabalho, parcialmente feito naquele país.  Informava-me da suspensão da apresentação do filme no festival Indie Lisboa. Devido a num sítio da internet ter sido publicada uma carta aberta anónima, denunciando-o como culpado de violência doméstica.
 
Não faço a mínima ideia se isso é verdade. Quem vê filmes não vê corações tal como quem vê caras não os vê. E eu nem sequer aos filmes ou à cara de Carreira vi. Mas há uma denúncia? Investigue-se. Julgue-se, se houver suspeitas fundamentadas. E sentencie-se, consoante as conclusões obtidas. Mas um festival aprestar-se a retirar os seus filmes devido a isto?
 
Se um escritor for acusado de plágio é curial retirar-se o(s) livro(s) de circulação, até se aquilatar da veracidade do caso. Mas se for acusado de bater no vizinho ou caluniar alguém? Vai-se às livrarias e recolhem-se os livros? Se uma loja vende produtos falsificados ou roubados será normal ser encerrada. Mas se o seu dono é acusado de não pagar impostos ou pontapear um polícia, encerra-se-lhe o estabelecimento? Se um empresário atropela um transeunte numa passadeira deverá ser detido, julgado (e condenado!!!). Mas ainda o pobre peão está nas "Urgências" a tratar das (espero que apenas) escoriações e já está uma brigada a fechar a empresa, "até ordens em contrário"?
 
E um festival que se diz "indie" faz uma aleivosia destas? Os seus organizadores não sabem apartar as coisas, tantos as jurídicas como - e o que é ainda mais inadmissível - as relativas à liberdade criativa? Gentes arvoradas em "indie" que se comportam até pior do que os organizadores das quermesses das paróquias, aflitos com o "parece mal"? Subjugadas aos itens de uma agenda "correcta" - "interseccional", dirão os teóricos da tanga -, que sobrevaloriza, sublinha, histeriza, determinadas questões (género e sexualidade; identidade - e concomitante dita racialização) diante de outras?
 
Sem rodeios, basta entrar numa reunião "indie" de "lisboa" para perceber a mole sociológica e sua mundividência mainstream. "Bem-pensantes" de "boas-causas", já encanecidos imaginam-se como de "esquerda" - e hoje, 25.4, irão "à Avenida". E vêem-se como se "indie" fossem mas tratam-se apenas de meros índios de reserva, acobertados com os restos deste casino que é o Estado. Amodorrados em constante powwow, qu'entre eles é que se sabe das coisas, desalienados julgam-se, sendo os "outros" vis exploradores "extractivistas" ou coisa parecida.
 
Mostra-se assim o festival um fake-indie, amarrado ao mainstream político do "correctismo". E, deste modo paradoxal, é de contestar qualquer subsídio ou facilidade estatal que se lhe dê. E apupar as fundações - algumas também bem entrelaçadas com o tal Estado - que lhes dão uns trocos ou favores para irem andando. A troco do "respeitinho". Que fazer, repito? Ser indie, contra estes servis.