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Palavras dos leitores

por Pedro Correia, em 11.06.20

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Sobre a minha proposta aqui expressa ontem, de alteração da letra do Hino Nacional, substituindo os versos de Lopes de Mendonça por um poema de Camões, houve quem concordasse e discordasse.

Fica um resumo.

 

«Nos dias que correm, o que faria sentido seriam versos de Bocage.»

Sampy

«Não sei se há textos de Camões cujo ritmo e métrica acertem com o ritmo e métrica da música de Alfredo Keil. Os textos de Camões já musicados, de Os Lusíadas ou quaisquer outros, não tiveram muita sorte quanto a música...»

JAB

«Excelente sugestão. Tudo o que nos livrasse desta cópia bera da Marselhesa (a música também não é a ideal, mas a coisa de "marchar contra os canhões" é bem pior).»

JPT

«Seria também pertinente e justo conter passagens de Pessoa... e, premiando a justiça da coisa, de Saramago. Poderá alguém achar que estarei a desprestigiar o poeta [Camões], mas acho que estou a elevá-lo, colocando-o com uma importância semelhante àqueles dois personagens das artes e de valor incomensurável.»

El Profesor

«Assim em abstracto, sem uma proposta concreta de quais os versos a utilizar, e a que passo da música, o pensamento do Pedro Correia de nada vale. Mais valera não o exprimir.»

Luís Lavoura

Hino, Camões, 10 de Junho

por Pedro Correia, em 10.06.20

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Penso há muito que o Hino Nacional devia ter versos de Camões. Sendo o Dia de Portugal assinalado a 10 de Junho, em evocação da data da morte do nosso maior poeta, faz todo o sentido.

Não desfazendo, claro, no vate Lopes de Mendonça, autor da letra do presente hino. Mas entre Camões e Mendonça, prefiro o primeiro.

A música de Alfredo Keil, naturalmente, deve manter-se.

Os hostels e o covid-19

por jpt, em 03.06.20

Hostel evacuado em Lisboa. 169 estrangeiros já foram transferidos ...

(testes de despistagem do covid-19 em albergue lisboeta, Abril de 2020)

No final da era confinada li várias notícias sobre testes de despistagem de covid-19 em "hostels" lisboetas com estrangeiros. Sempre desconfio quando vejo usar termos em língua estrangeiras em vez do português, não por nacionalismo bacoco mas porque é sempre forma de enganar o cidadão, forma-mor de aldrabismo (exemplo extremo será a generalização de "spread", cujos efeitos ainda estamos a pagar, e muito ...).

Na altura não compreendi bem o fenómeno. Ainda que tenha aflorado a assunto num texto longo sobre esta era, P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19", uma inutilidade pois não lido, mas que me serviu como catarse. 

Não os percebi pois julguei-os albergues (que é como se diz "hostels" quando não se é tonto) privados e dedicados a uma clientela de imigrantes pobres (legais ou não é indiferente). Assim uma versão "moderna", pois desligada dos empregadores, dos "compoundes", como se diz em Moçambique, celebrizados pelo tétrico alojamento de mineiros migrantes ali na vizinha África do Sul. Ou versão urbana dos contentores que as herdades alentejanas agora usam para alojar os nepaleses que ali aportam como mão-de-obra barata e ... calada. E também os presumi merecedores de visita de alguma ASAE da hotelaria ...

Mas afinal os tais "compoundes" não são exactamente (só) isso. Pois neles vivem, em condições pérfidas, imigrantes que requereram asilo e lá são colocados pelo Estado.

Este texto publicado no Público é muito interessante. Até pela linguagem, de relatório ("nós vimos que ...."), rara na imprensa portuguesa onde vigora a retórica "opinativa" ("eu acho que ..."). E é letal para os serviços estatais e autárquicos. Não apontando os seus mandantes, governantes e autarcas (viés típico do tal nosso "eu acho que ..."). Mas desnudando os sectores intermédios e baixos do funcionalismo público (pois ... "nós vimos que").

O que se passa no feixe dos organismos estatais envolvidos nesta questão é uma total vergonha - até contrária às intenções superiores. E é um problema dos serviços. Como dizem as autoras: "as diferentes instituições responsáveis pelo “sistema de asilo” continuaram a adotar hábitos endémicos de inoperância e sobranceria".

Será conveniente lembrar que essa "cultura" do funcionalismo público é transversal. Não universal. Mas recorrente. E é uma inimiga, vil. Não só dos desprotegidos estrangeiros. Mas de todos nós, do nosso desenvolvimento.

Do Minnesota a Portugal

por jpt, em 02.06.20

Como João Campos e Maria Dulce Fernandes abordaram o caso do cidadão americano assassinado pela polícia reproduzo aqui um postal sobre o assunto que coloquei no meu mural de FB, num registo mais solto e coloquial do que o blogal, até porque lhe integro nacos do que fui colocando em comentários (dada a porrada que fui levando). Mas junto-lhe a grande canção "American Skin" de Bruce Springsteen, que se não diz tudo tudo sente sobre este acontecimento americano. E que aqui fica também para que alguns irredutíveis não resmunguem que eu estou a apoucar o inapoucável:

Leio no FB emotivas partilhas do fait-divers de que uma jornalista da TVI se comoveu ao apresentar a notícia do assassinato de George Floyd, morto por um polícia após 8 minutos a sufocar, tendo sido incapaz de a concluir. A notícia vem com fotografia e percebo-lhe o fenotipo, presumo-a mestiça ("mulata" como se diz em Moçambique, sem preocupações etimológicas) ou será negra, não posso precisar nem essa destrinça me é relevante.  Vejo também aqui vários amigos reais, e imensas ligações-FB, até académicos, mesmo antropólogos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, a partilharem insurgências próprias e lamentos contra este horror acontecido em Minneapolis, no estado do Minnesota, EUA.

Eu tenho duas questões: 1) será que a jornalista da TVI se comoveu até à inacção quando apresentou a notícia do assassinato de um eslavo (lembrai-vos do nome dele? Ihor Homeniuk) cometido por um grupo de agentes do SEF no aeroporto da Portela, na cidade de Lisboa, distrito de Lisboa, Portugal? E, para pormenores aduzo que o tal eslavo - e, já agora, sabeis da ligação etimológica entre "eslavo" e "escravo", e do que isso deixa deduzir sobre as categorias antropológicas negativamente discriminatórias? principalmente diante de um candidato a imigrante ...-, Ihor Homeniuk, não foi asfixiado durante horrorosos oito minutos mas seviciado durante horrorosas não sei quantas horas. Será que a dita jornalista se comoveu tanto que interrompeu a locução do acontecido ali à Encarnação, antes de Sacavém? A menos de 5 euros de taxi da minha casa? E será que estes cândidos, mesmo académicos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis eslavófilos? Será que alguém se lembra que Ialta, o apogeu do "compromisso histórico" que obrigou a rasurar tanta da historia de XX, foi há 77 anos? Mas que o 20º congresso do PCUS foi há 64 anos e o fim da URSS há 29. E que com isso não é necessário manter o silêncio, a "dessignificação" da História. Lembrando, por exemplo, que a URSS, avatar da Rússia, e a nossa actual grande aliada Alemanha, mataram mais ucranianos, a deles alteridade, do que todos os mortos, directos e indirectos provocados pelos colonialismos europeus em África durante XX? E nem falo do passado, tão complexo naquela região, como em quase todas as outras. E aduzo, entre não-lágrimas alheias, que nenhum jogador da bola se ajoelhou em homenagem a Homeniuk, nenhum intelectual português usou ícones a propósito de Homeniuk, assassinado, repito, ali à Rotunda do Aeroporto, a 10 minutos do mercado de Alvalade, onde há um bom restaurante de peixe. E mais junto, isto da minha certeza de que um qualquer sueco, alemão ou britânico, também presumivelmente louro, não seria morto ali nos escritórios a cinco minutos da Praça Franciso Sá Carneiro, a sempre Areeiro. Se Homeniuk fosse um sírio, seria uma gritaria a propósito da morte de um "refugiado de guerra". Mas como era ucraniano, provavelmente louro, pouca foi a ira. Se fosse um magrebino, tentando passar a imigrante "indocumentado", seria uma desgraça, mas como era ucraniano, provavelmente louro, nenhuma corrente indignista brotou. Se viesse daquela "África Negra" de antanho seria uma onda de repúdio, mas vindo da eslavónia pouco conta entre os bem-pensantes nacionais. Apesar, não sei se já disse, de ter sido morto a meia dúzia de estações de metro do El Corte Ingles da pequena-burguesia lisboeta.

2) Há um mês dois polícias espancaram até à morte um homem na cidade da Beira, capital de Sofala, Moçambique, cidade celebrizada pela calamidade de 2019. "Os dois polícias interromperam um jogo de futebol de adolescentes em cumprimento das recomendações do estado de emergência devido à covid-19, e depois começaram a jogar, o que levou Abdul Razak, que se encontrava no local, a ameaçar filmá-los.". Não vi quaisquer imagens, só posso presumir os fenotipos dos dois polícias e do cidadão Abdul Razak (e presumo-o cidadão moçambicano pois se não o fosse muito provavelmente não teria criticado a polícia e teria sido identificado pela imprensa como estrangeiro). Mas a notícia informa que ele morreu não após oito minutos de horrorosa asfixia mas após 3 horas de horrorosas sevícias na esquadra da Munhava.

A minha questão é a mesma. Será que a jornalista da tvi se emocionou até à inacção ao ler a notícia da morte de Abdul Razak? E os indignados do FB, mesmo académicos até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis moçambicanófilos? (Sim, eu sei, a notícia nem correu no rincão ...).

Não se trata de discutir a dimensão de um crime, ou a realidade de um qualquer país. Trata-se da pertinência de importar essa realidade, e os seus critérios classificatórios, para entender o resto do mundo. Para direccionar a atenção sobre o resto do mundo. Para balizar e animar os sentimentos, tão bem intencionados, da como a pobre jornalista da tvi. E dos não tão bem intencionados funcionários públicos ou privados pagos para pensarem a realidade. Utilizando este falsário molde sentimentalão para perseguir objectivos próprios em casa própria.

Tá tudo bem

por Paulo Sousa, em 22.05.20

A indiferença com que o país lidou com a recente atribuição de subsídios à comunicação social é uma das características do povo do nosso país. Foi exactamente essa indiferença que explica os 48 anos de ditadura passados sem grandes sobressaltos públicos, assim como a falta de comoção gerada por muitos outros acontecimentos bem mais recentes. Cá é assim, mas podia ser bem pior. Vamos andando, como é vulgar responder a quem nos pergunta se está tudo bem. Como se alguma vez fosse possível estar tudo bem. Claro que nunca está tudo bem, mas por automatismo anuímos dizendo que cá vamos andando, devagarinho, com a cabeça entre as orelhas. Ser português é também ir andando, mesmo sem saber bem para onde.

São estas águas mornas que propiciam os equilíbrios mornos, aqueles em que mais facilmente se limam as esquinas do que se vergam hábitos. Mesmo que as esquinas sejam as dos princípios nobres da república e das democracias liberais. Não há impossíveis, como bem resumiu António Costa. Tudo é negociável, e por isso tudo tem um preço, até a imprensa.

Pouco a pouco, orçamento após orçamento, ano após ano, pagamento de favor após pagamento de favor, vamos baixando a fasquia da já débil decência do nosso regime.

A forma como estes pagamentos de favores foram apresentados, a sua falta de clareza e de critério assumido, representa apenas mais um degrau que se desceu. Sem qualquer sobressalto ou comoção pública. E isto, embora triste, é normal.

Taça Covid-19?

por jpt, em 02.05.20

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Acaba hoje o mês e meio de "estado de emergência" proclamado pelo presidente Sousa. O qual foi decidido sem pedido governamental e mesmo com o relativo desacordo do PM, que implicitou a sua desnecessidade. Convém recordar que Sousa tomou essa iniciativa para "recuperar terreno" na popularidade, depois da sua patética clausura, durante a qual se entreteve no "gozo fininho" da lida doméstica. Veio depois para o "gozo grosso" de exagerar a suspensão de direitos, num querer mostrar-se. E este inaceitável final, culminado ontem, mostra bem o vácuo que (des)anima esta presidência.

Belém, para adornar o seu percurso, gaba-se agora de um telefonema laudatório de Trump. E reina por aí uma saudável descompressão, pois "isto" não correu tão mal como o tememos. Até já se foi para a Alameda, ainda que sem patrocínio da Sagres. Mas convirá lembrar algo que acabo de ler: somos o 12º país com mais de meio milhão de habitantes com mais mortos; somos o 10º país da UE com mais mortos per capita. Ou seja, por meneios que queiram fazer convém lembrar: a taça Covid-19 que nos querem fazer crer ser nossa? Nada disso. Muito infelizmente.

É certo que muitos quererão gozar com o exemplo, por pobres razões clubísticas, por politiquice ou, aqui no DO, por lavourismo. Mas dou-vos um exemplo, para ilustrar o que realmente se passou: no dia 5 de Março o Sporting contratou o treinador do Braga pagando para isso uma quantia milionária, algo que foi motivo de grande polémica (ainda se falava em tais coisas, na imprensa e entre o público). A Itália estava já devastada, a Espanha começara o seu purgatório. Mas o Estado português calava-se, de tal maneira que os grandes agentes económicos seguiam como se nada fosse, a imprensa falava da "bola" e o povo assistia. Insisto, pode-se pegar neste exemplo e gozar com o clube, seus dirigentes, etc. Mas se se deixar esse rasteiro estatuto, se se ascender a cidadão? Então lembra-nos-emos que o Estado (e o seu palrador presidente) estava calado sobre a matéria, atarantado. Não foi capaz de sinalizar os cidadãos e os grandes grupos económicos do que se aproximava - e este exemplo, tão mediático, da excêntrica e polémica contratação de Amorim é grande mostrador disso mesmo. 

A memória é curta, e está a sê-lo. Estou confinado numa quinta, num grupo de famílias amigas. Eles encerraram-se a 6 de Março, no dia seguinte ao anúncio de Amorim no Sporting. Eu vim depois pois esperava a minha filha, que estuda em Inglaterra. Ou seja, estes meus amigos encerraram-se - apenas abrindo portas para nos acolher, o que nunca esquecerei, ainda para mais por ter sido naquela época tão angustiante - exactamente no dia em que Espanha fechou os lares de terceira idade e a nossa directora geral da saúde nos aconselhou a "ser solidários" e a visitar esses mesmos lares. Lembrai-vos disso? Se sim eu pergunto: quem morreu e onde vivia?

Assim, Taça Covid-19? Trump telefonou? Deixemo-nos de coisas, estes tipos estiveram a dormir na forma. Poupem-nos aos auto-elogios.

(E espero mesmo que a comentadora "Graça" aqui regresse para me chamar "energúmeno" de novo. E eu desta vez responder-lhe-ei. Num mero "quem morreu? onde?") 

 

As "celebrações" do 1º de Maio

por jpt, em 01.05.20

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Hoje, 1º de Maio e manifestações por aí. Tal como houve celebrações "em sala grande" e sem "mascaradas" no 25 de Abril. Então é dia para recordar esta postura de Mattarella, o presidente italiano, celebrando nesse mesmo 25 de Abril o 75º ano (número ainda mais simbólico) sobre a libertação italiana na II Guerra Mundial. Ou seja, o dia da liberdade, da democracia, do fim do jugo nazi-fascista. E da paz. Fazendo-o de modo tão mais simbólico, tão mais solidário, tão mais cidadão, tão mais democrata. Tão mais respeitador. E tão mais inteligente. Do que este paupérrimo duo Rodrigues-Sousa na festa chocha de São Bento e nas arruadas de hoje.

Porque precisa esta "esquerda" instalada, cinquentona, sexagenária, septuagenária, destas festividades? É um potlatch de incúria intelectual. Revivem um panteão risível, entre louvores aos múltiplos itens do "movimento comunista" e aquilo a que se chamava "terceiro-mundismo", agora dito "pensamento abissal". Utilizando como matéria-prima um grupo seleccionado, pouco orgânico, de militares apolitizados na sua maioria, e que pensaram consoante as suas circunstâncias de época. Disso amputando outros, que não correspondem aos desejos desta gente de agora, já apenas afectivos pois, de facto, mera disfunção ideária. É um ritual que serve para reforçar a "amnésia organizada" sobre a revolta de Abril e a revolução que se lhe seguiu. Manobra que lhes permite dizer, nas outras 51 semanas, todos os que não se revêm nesse vetusto imaginário de radicalismo marxista como "fascistas", "inimigos da democracia", "salazaristas". Não há outra razão para a parvoíce cerimonial desta semana. 

Assim a "vacinada" e "desmascarada" boçalidade de Rodrigues, acolhida pelo pusilânime Sousa, não só se contrapõe a esta simbólica grandeza de Mattarella, ali só a celebrar a queda final de Mussolini/Hitler. De facto, as patéticas manifestações (ditas, hipocritamente, celebrações) de hoje e a cerimónia de 25 de Abril servem para nos dizer, aos imunes ou convalescidos do apego totalitário, como "fascistas". A fronteira é fluída, mas cruza ali ao PS, puxada à "esquerda". 

Este ritual, falsificador da vida portuguesa, sobrevive nos dislates. Sempre desculpados pelo "afecto memorialista" com a "liberdade", com a (nossa) "juventude". Todos os anos se revive essa parvoíce. Nem falo da absurda capa de hoje do "Público", que é onde leva a patetice misturada com uma inenarrável candura, e a querer-se interventiva ...  Agora um bom e antigo amigo enviou-me um filme associando o novo líder do partido demo-cristão, um puto de 30 anos, com o salazarismo. Respondi-lhe, entre homens, invocando genitálias e "imoralidades" sexuais. Uma querida amiga chamou "Sua Excelência" ao abjecto terrorista assassino Carvalho, fui suave na reacção (e nem falei na piroseira) mas presumo-a ofendida. E pelas redes sociais abundam os dislates louvaminheiros do mesmo tipo. E não só cá: no mural de um intelectual moçambicano que, recorrendo a codiciosas demagogias textuais, entende dever ensinar-nos como viver,  um demo-cristão português é invectivado de fascista, neo-nazi, homossexual, (voz de) colono. E, para abrilhantar a festa, de branco. E comunistas portugueses - brancos, já agora, - vão lá aplaudir. Tal como o dono da casa o faz, ainda que muito democrata, como por cá o consideram os libertários. 

Celebrar o 25 de Abril é celebrar a Paz (que todos esquecem pois julgam secundária) e a Liberdade. E o 1º de Maio é celebrar os direitos laborais. Não é mistificar a história, falsificar o presente. E impensar. 

Assim sendo, com a imagem de Mattarella, vai daqui de Nenhures a minha saudação à UGT e aos sindicalistas do BE, que decidiram celebrar o dia dos trabalhadores como, neste momento, manda a ética de cidadania. E sei que muitos deles, ali na rapaziada bloquista, queimam incenso e mirra a uns totens execráveis. Mas portaram-se muito bem neste dia. Ao invés de outros, com mais responsabilidades institucionais. E de outros, profissionais intelectuais com obrigações analíticas.

Da importância das lombadas

por Pedro Correia, em 14.04.20

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Vejo na Netflix uma série islandesa de que estou a gostar muito: Os Crimes de Valhalla. Numa cena do terceiro episódio, um investigador da polícia entra na casa deserta de uma mulher de classe média que foi assassinada. Uma das primeiras coisas que vê - e nós com ele - é uma estante cheia de livros ocupando quase por inteiro uma das paredes da sala. 

Para quem esteja atento, os cenários aparentemente irrelevantes nas séries de qualidade podem dizer-nos muito sobre as características de um país. Esta diz-nos, desde logo, que existem hábitos de leitura na Islândia muito superiores aos nossos. Em que série, filme ou telenovela veríamos "adereço" semelhante numa casa portuguesa de classe média? Façam o teste e verão. As estatísticas confirmam o que a experiência empírica nos sugere: mais de dois terços dos nossos compatriotas passa um ano inteiro sem ler um livro: 67%. Lideramos o triste pódio europeu nesta matéria, superando Grécia (54%) e Espanha (53%). Em proporção inversa ao que ocorre na Suécia (28%), Finlândia (35%) ou Reino Unido (37%).

 

Talvez para marcar o contraste com esta idiossincrasia nacional, por estes dias não faltam políticos, comentadores e simples bitaiteiros que persistem em prestar depoimentos televisivos recolhidos em casa, escolhendo lombadas de livros a servir-lhes de moldura. São tantos os casos que não pode tratar-se de mera coincidência: entre nós, o livro continua a servir de elemento acrescido de autoridade natural a quem produz opinião, o que não deixa de ser irónico numa sociedade onde a norma é não ler.

Não vou presumir sobre os genuínos hábitos de leitura das personalidades que, devido à pandemia, nos vão desvendando ínfimos recantos dos seus lares. Mas aproveito para deixar a sugestão aos meus amigos editores - Francisco José Viegas, Guilherme Valente, Hugo Xavier, Inês Pedrosa, Manuel S. Fonseca e Rui Couceiro, entre outros - para transformarem estas imagens que começam a tornar-se familiares entre nós numa vasta campanha publicitária de promoção da leitura. Com a chancela institucional do Ministério da Cultura e parte da choruda verba que não chegou a ser gasta no abortado TV Fest. Faz sentido, numa altura em que o sector vai de mal a pior: a venda de livros caiu 83%, com milhares de pessoas em lay-off ou sem trabalho.

Deixo aqui algumas sugestões de figuras que poderiam figurar nessa campanha de promoção do livro. Com certeza os visados aprovariam. 

 

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As contas no seu contexto

por Pedro Correia, em 13.04.20

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Duas faces do mesmo país

por Pedro Correia, em 10.04.20

 

1. Há 4098 novos desempregados por dia em Portugal. Despedimentos colectivos disparam em Abril. Lay-off já abrange 40 mil empresas.

 

2. UGT admite rever aumentos salariais na função pública, CGTP não.

 

Os dez mais infectados

por Pedro Correia, em 04.04.20

Este é o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Detalhado e tão fiável quanto possível, na medida em que as estatísticas oficiais oriundas de grande parte destes locais do globo são rudimentares ou marteladas por governos autoritários, que interditam testes ou proíbem a difusão dos verdadeiros números.

Chamo especial atenção para a proporção entre o número de infectados e cada milhão de habitantes dos países que constam deste quadro (a Coreia do Norte, por exemplo, está ausente).

Um registo que nos leva a ordenar hoje os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo microestados e países com menos de um milhão de habitantes:

Espanha: 2.549 casos por milhão de habitantes

Suíça: 2.276

Itália: 1.982

Bélgica: 1.447

Áustria: 1.282

França: 1.259

Alemanha: 1.088

Noruega: 991

Portugal: 970

Holanda: 918

 

Destaco igualmente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes:

Itália: 243

Espanha: 240

França: 100

Bélgica: 99

Holanda: 87

Suíça: 70

Reino Unido: 53

Irão: 39

Suécia: 35

Portugal, Irlanda e Dinamarca: 24

"Isto está a estabilizar", dizem

por Pedro Correia, em 28.03.20

 

Itália: o mais elevado número de mortos por Covid-19 de sempre.

 

Espanha regista o maior número de vítimas mortais num só dia.

 

Portugal: já 100 mortos e 754 profissionais de saúde infectados.

 

Bruno Lage e Portugal

por jpt, em 21.03.20

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(Postal mais pessoal - e menos cuidado - escrito para o meu blog)

O ano passado o Benfica, atrasado no campeonato, mudou de treinador, promovendo Bruno Lage. Então desconhecido, algo jovem (ainda que, de facto,  já quarentão), Lage não só teve enorme sucesso desportivo como colheu generalizado agrado: bom discurso, plácido, elegante. E inteligente. Bem diverso do vigente no mundo do futebol, e também no agreste discurso público português. Na hora do triunfo teve uma saída que foi aclamada como exemplar, ao dizer que "Se vocês se unirem e tiverem a força e a exigência que têm com o futebol nos outros aspetos do nosso Portugal, da nossa economia, da nossa saúde, da nossa educação, vamos ser um país melhor".

Tem razão, os portugueses são muito exigentes com o futebol (qualquer pessoa que tenha vivido no estrangeiro pode, por comparação, perceber como a nossa cultura está futebolizada). O  dos respectivos clubes. E o da selecção, na qual me centro para a analogia que procuro (e que as declarações de Lage alimentaram). Pois longe vão os tempos dos elogios ao "brilharete" dos "magriços" de 1966, que duraram 20 anos, constantes na imprensa portuguesa. Desde há décadas que se exigem triunfos à selecção. Queremos que ela ganhe aos outros. Que seja mais pressionante, mais bem sucedida, mais sortuda, mais estratégica e mais táctica, mais forte e mais artística. Ou seja, que ganhe seja lá como for. Não queremos que Cristiano Ronaldo seja tão bom marcador como Higuaín ou Benzema, mas que marque mais. Que Rui Patrício defenda tantos penalties como Neuer ou De Gea, mas mais um pelo menos. Que Pepe corte tanto como Sérgio Ramos, mas mais. Que Moutinho ou Bernardo sejam tão funcionais como Pogba ou Hazard, mas mais, muito mais. Por isso o engenheiro Santos é tão gostado, pois ganhou não apenas uma mas duas vezes. E por isso Queirós, que sossobrou diante de uma enorme Espanha com um golo fora-de-jogo, anda pelos longínquos e secundários estrangeiros, mal-amado aqui. Tal como Paulo Bento, que perdeu uma meia-final nos penalties.  Pois somos mesmo exigentes com a nossa selecção. 

O troféu que deparamos agora é uma luta terrível contra o Covid-19. Tivemos tempo para nos preparar o melhor possível. Mas preparámo-nos como os nossos parceiros, ao mesmo ritmo que a França de Pogba, a Espanha de Sérgio Ramos, a Bélgica de Courtois, etc. Não fomos mais rápidos, não fomos mais pressionantes, não  fomos mais argutos, não fomos nem mais estratégicos nem mais tácticos. E temos menos meios, menos jogadores, menos campos (o racio de camas hospitalares per capita é muito pior, o serviço de saúde pública é menos capacitado em termos infraestruturais). Mas ainda assim reina a ideia de que o governo (e o Estado) esteve globalmente bem. Apenas porque não somos exigentes com as coisas reais - e até com estas dramáticas - como o somos na "bola".

Diante desta verdadeira crise reina a congregação, entre compatriotas e residentes. E há quem apele ao acriticismo, à suspensão do olhar crítico. Certo, há uma necessidade (executiva mas também espiritual) de coalizão. Mas isso não implica a suspensão do olhar crítico, nem deve convocar a amnésia futura. Algumas coisas poderão ser lembradas, outras avisadas. O aviso que tenho, e é por deformação profissional que me ocorre, é que todas as sociedades convocam bodes expiatórios (e já brinquei com isso). Se o drama for grande, como se anuncia, a comoção convocá-los-á. E sempre de forma injusta, até aleatória. Sejamos racionais, na avaliação futura do que se passou. Mas também, de modo mais comezinho, efectuando  de modo mais plácido essa expiação: o humor sobre os dignitários agora em voga, políticos e funcionários destacados, é por muitos criticado como indigno. Julgo que não, julgo mesmo que é a melhor forma de deixar fluir esse resmungo social. Muito mais justo do que as furibundas piras a posteriori.

Outras coisas poderão ser lembradas, para crises futuras mas, acima de tudo, para avaliação de quem nos governa (nos governos e nos altos postos do funcionalismo) e de como o regime está estruturado, tanto em termos formais como em termos de redes de relações sociais que alimentam o poder. O Presidente esteve péssimo, ainda que possa vir a recuperar o seu fito único, a popularidade. Esteve horrível. E também isso, essa sua deserção intelectual e política, vem valorizando António Costa. Este muito aprendeu com os efeitos da inenarrável postura que teve na dramática crise dos incêndios florestais (e com a pantomina da pequena crise militar com o "affaire Tancos"). E tem discursado bem, dando segurança à população. Para além disso, as medidas tomadas pelo governo são, mais dia menos dia, similares e contemporâneas às dos países nossos vizinhos. O que aparenta legitimar a pertinência do ritmo das decisões estatais.

Mas isso não é suficiente para projectarmos o futuro. Repito, tivemos tempo para nos preparar de modo mais eficiente, mais lesto, do que os nossos vizinhos. Mas temos responsáveis da saúde que despreocuparam a sociedade em relação ao que se passava na saúde pública mundial, que nos isentaram de riscos. E temos uma ministra da agricultura que saudava as hipóteses que a nova gripe abria para nossas exportações. Já a vizinha Itália sofria e os nossos responsáveis pela saúde negavam a gravidade da situação - não se preocupem, nós avisaremos quando houver motivo para isso, dizia a ministra da saúde. Há nisto uma enorme incompetência intelectual, uma incapacidade para prever e planificar que ultrapassa o aceitável. E há também uma mundividência anti-democrática, estapafúrdia no mundo actual hiper-comunicante, o de "evitar o pânico" através do sonegar de informação à população. E que é inadmissível no Portugal democrático actual.

E, num momento em que o auto-confinamento da população era urgentíssimo, houve um verdadeiro desvario.  Na semana anterior ao governo fechar as escolas (de modo já tardio) a directora da saúde protestava com a própria escola das suas netas por ter encerrado as aulas. As universidades públicas, alertadas, começaram a fechar. Mas nem todas: numa universidade pública do centro de Lisboa a reitora não o fez, ao contrário das suas congéneres, por esperar a deliberação da direcção-geral da saúde. Que levou alguns dias. É um mero exemplo do tergiversar, que neste momento é inadmissível. Tal como o foi o patético e descabido atraso do encerramento escolar devido a uma reunião de um absurdo conselho de saúde pública, pejado de dezenas de figuras excêntricas à problemática, após o qual surgiu Jorge Torgal, veterano da cooperação com Moçambique, enfileirado com a directora-geral e a ministra da saúde, a negar a realidade. Como logo se viu. 

Para quem se recuse a reconhecer isto, a incapacidade de céleres decisões de ruptura: a minha filha adolescente tinha viagem marcada para a Jordânia, onde vive sua mãe. No dia 9 de Março esse reino tinha proibido a entrada de viajantes provenientes de Espanha, Itália, França e Alemanha. E a vizinha Israel proibira a entrada de estrangeiros. Ao invés, dois dias depois os passageiros de paquetes turísticos ainda desembarcavam em Lisboa, para a jornada do agora sacrossanto turismo. Por essa altura um deputado e dirigente do BE, que continuará a ser ouvido e influir em assuntos importantes no nosso devir, clamava que o encerramento de fronteiras era projecto da "extrema-direita". Onde está a racionalidade do Estado e dos políticos, diante da inércia e do disparate?

De facto, o que aconteceu foi que foram os próprios cidadãos, múltiplas instituções privadas e mesmo públicas e as famílias, que começaram o processo de recuo, de necessário resguardo. Adiantando-se ao Estado, e seu governo, e a estes compelindo à acção. Foi a sociedade - os tais indivíduos que os governantes temiam que entrassem em pânico - que se foram adiantando a um Estado moroso, inábil. Todos olhamos e criticamos as "festas Coronas" e as idas à praia dos alunos universitários. Mas estas aconteceram por falta de uma avisada política de informação - e mesmo de propaganda [os "influencers" do youtube que Marcelo corteja, os campeões de futebol, as figuras da TV e etc, foram agora chamados para apelar ao recuo da população? Nada, nem uma acção dessas, nem a norte nem a sul do Sado, diante do silêncio e inaptidão da ministra da cultura] - e são menos significantes do que todos os esforços pessoais e familiares feitos em relativa autonomia do Estado.

Ou seja, muito podemos falar sobre o desinvestimento estrutural no SNS. E elaborar sobre as causas disso - que mais do que o maquiavélico projecto das iniciativas privadas é o da incapacidade de diferenciar os processos internos ao Estado e seu alto funcionalismo -, que é um processo de regime, não deste governo. Mas, num outro âmbito, mais imediato temos que encarar que a forma como esta crise anunciada, este "crónica das mortes anunciadas", não foi suficientemente abordada. E que não são boas conferências de imprensa, entrevistas ou discursos do político António Costa que o poderá elidir. Esperemos que os resultados não sejam excessivamente dolorosos. 

Quer este postal resmungar e pedir a cabeça de Costa e do PS? Não. Julgo, sinceramente, que após esta crise - e até porque compatível com o calendário eleitoral - um homem como Rebelo de Sousa tem que abandonar o posto para o qual, em má-hora, o elegeram. Mas nas questões do poder legislativo e executivo são bem diferentes as conclusões que se podem perspectivar. Temos que ter melhores pessoas nos postos importantes (tem sido um rosário de desajustes ministeriais) e isso implica outros funcionamentos partidários. E temos que enfrentar a confusão "regimental", aligeirar a democracia - o caso do tal conselho de saúde etc. e tal é demasiadamente pungente para poder ser esquecido.  E, francamente, governar menos por "consenso" e mais com "rupturas". Porque foi, muito, essa apologia do "consenso" que conduziu ao rame-rame.

Em suma, se formos tão exigentes com a sociedade e sua política como somos com o futebol, deveremos agora obedecer às regras e às instruções estatais. Mas não nos podem pedir que aplaudamos quem não ganhou. Podemos respeitar o esforço, reconhecer o empenho. Mas devemos procurar um  melhor plantel, exigir um competente "scouting". Mesmo que mantendo o treinador. (Mas nunca o presidente, repito-me, exasperado).

Em louvor da sociedade

por Pedro Correia, em 21.03.20

Tenho ouvido, por estes dias, loas imensas ao Estado. O mesmo Estado, convém salientar, de que faz parte a directora-geral da Saúde, que a 15 de Janeiro declarava com todas as letras: «Não há uma grande probabilidade de um vírus deste chegar a Portugal.»

O mesmo Estado, convém não esquecer, de que faz parte uma ministra da Agricultura entretanto desaparecida em combate e que a 5 de Fevereiro - quando já havia 490 mortos e mais de 24.500 infectados na China - se ufanava perante a hipótese de o coronavírus poder vir a ter «consequências bastante positivas» para as exportações portuguesas.

 

Julgo ser tempo de elogiar não o Estado mas a sociedade. A que não precisou dos ditames estatais - incluindo a inédita declaração do estado de emergência a nível nacional, com a suspensão de direitos fundamentais - para se organizar e reagir à doença galopante.

Às empresas, aos clubes, aos ginásios, às colectividades, às igrejas (incluindo a supressão de missas e outras celebrações de culto).

Aos responsáveis da rede escolar privada que foram encerrando antes de um patético Conselho Nacional de Saúde, que ninguém conhecia, ter vindo a público, já no dia 11 de Março, recomendar que os estabelecimentos de ensino e os museu permanecessem abertos - precisamente na véspera de a Organização Mundial de Saúde proclamar o coronavírus como pandemia e de o Governo ordenar o encerramento de todas as escolas, mostrando a inutilidade daquele órgão de consulta criado sabe-se lá para quê.

 

Apetece-me, portanto, elogiar a sociedade. Onde se integram agricultores, assistentes de bordo, auxiliares de saúde, bancários, bioquímicos, bombeiros, caixas de supermercado, camionistas, carteiros, cientistas, comerciantes, controladores aéreos, cozinheiras, cuidadoras, distribuidores, educadoras de infância, empregadas de limpeza, enfermeiras, estivadores, farmacêuticas, ferroviários, informáticos, jornalistas, maquinistas, médicos, merceeiros, motoristas, operadores de máquinas, operários, padeiros, pastores, pescadores, pilotos, professores, psicólogos, revendedores, seguranças, taxistas, técnicos de informática, veterinárias, vigilantes, voluntários.

Gente que trabalha por vezes sem rede, sem horário, sem "direitos adquiridos", sem pedir nada em troca, sem a perspectiva de poder ter emprego no mês seguinte.

Gente como vós, gente como qualquer de nós. 

Os dias que vivemos são únicos. Esta poderia ser uma observação banal aplicável a qualquer dia da nossa vida. Mas de facto este fenómeno que nos entrou pelo dia-a-dia a dentro já assumiu contornos que o fará ser lembrado daqui a muitos anos.

Gostei do discurso do deputado Ricardo Baptista Leite. A mensagem foi colocada a um nível bem superior do que tinha sido dito até então. Colocou o foco onde ele deve estar, não em apontar culpas mas em unir esforços.

Portugal está em estado de guerra! Nunca tinha ouvido esta mensagem durante os meus dias de vida. Mas efectivamente vivemos um momento em que todos temos de aceitar uma mudança radical nas nossas rotinas de forma a minimizar as baixas.

Por muito menos que isto já forrámos as janelas e os automóveis com bandeiras. Desta vez é a vida de milhares de portugueses que está em risco, e isso é algo por que vale a pena lutar.

Se todos re-colocássemos na varanda aquela bandeira que temos na arrecadação, guardada desde uma qualquer competição desportiva, mostraríamos que estamos disponíveis para este combate e que aceitamos as consequências de cumprir as medidas necessárias. A coragem não é mais do que isso e ficar no sofá é muito menos do que foi pedido a muitos outros, sem os quais não seríamos o que somos.

Desde hoje à tarde, a minha bandeira regressou à janela.

Está na hora de cerrar fileiras

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.03.20

5e6b52f154f25c38de16a352.jpeg(créditos: Tyrone Siu, Reuters)

Quando no início de Fevereiro estive em Portugal, a situação na China e em Hong Kong era muito grave. Macau já tinha os seus casos e haviam sido decretadas medidas de excepção, desde o final de Janeiro, visando evitar a disseminação do novo coronavírus, hoje COVID-19, e assim proteger as pessoas.

A velocidade da propagação do vírus e o cenário trágico que se desenhava a isso aconselhavam, razão pela qual o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, que acabara de tomar posse em 20 de Dezembro de 2019, acompanhado por uma Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura que já dera provas de ser tão discreta quanto competente enquanto directora dos Serviços de Identificação de Macau, determinou o cancelamento das populares paradas e manifestações de boas-vindas ao novo Ano Lunar, que começou em 25 de Janeiro pp..

No entanto, em Portugal e na Europa continuava tudo displicentemente a funcionar, sem que houvesse qualquer controlo, pelo menos visível, nos aeroportos. Podia-se chegar da China ou de qualquer outro lado e entrar no país sem preocupações.

Em 9 de Fevereiro voltei a embarcar de regresso à Ásia e era como se nada estivesse a acontecer. Ainda em Janeiro ouvi gente responsável a dizer que o COVID-19 não era mais do que uma gripe e que se estava a exagerar. O Presidente dos Estados Unidos e o seu homólogo do Brasil, do alto da sua cultivada e pesporrente ignorância, a que agora se associou o primeiro-ministro do Reino Unido, desvalorizaram a situação, chegando a dizer que o novo coronavírus não era problema algum e que tudo não passava de “fake news” e de uma maquinação dos media. 

Em Portugal não foi diferente, bastando para tal recordar as declarações feitas em Janeiro pela Directora Geral da Saúde e por alguns clínicos em programas de grande audiência. A displicência na forma como se lidou com a situação e a ignorância revelada sobre o que estava a acontecer, e que entretanto se tinha alastrado ao Irão, ao Japão e à Coreia, e a rapidez de progressão eram tais que uma conhecida apresentadora de televisão chegava a perguntar, no seu estilo de pregoeira de lota, porque é que o vírus só atacava os chineses. Vê-se agora que não ataca por etnias ou nacionalidades e que os primeiros a cair são por sinal os ignorantes. 

Eu aproveitei o facto de ter estado em Portugal para comprar máscaras cirúrgicas, na altura indisponíveis de imediato nalgumas farmácias, mas que era possível encomendar e receber alguns dias depois, como efectivamente aconteceu, embora por preços exorbitantes.

A Organização Mundial de Saúde, daquele senhor que terá ficado a dever a sua eleição à China, foi adiando enquanto pôde a declaração de pandemia, quando todos os sinais e a velocidade a que surgiam novos casos e em vários continentes há muito aconselhavam.

Quando a situação começou a ser conhecida na Alemanha, em Itália e em Espanha foram muitos os que continuaram a circular com pouco ou nenhum controlo. Uma tragédia a somar à tragédia maior.

Já não bastava o atraso na tomada de medidas na China, provocado pela estreiteza de vistas do Partido Comunista Chinês e seus dirigentes, que protelaram a divulgação da situação real, silenciando quem teve o mérito de alertar os seus semelhantes para o que aí vinha e que pagou com a vida a coragem profissional e cívica que demonstrou. O resultado da desgraçada gestão da crise e a dificuldade em serem tomadas, desde o início, medidas drásticas, ainda que social e economicamente com facturas pesadíssimas, está à vista, muitos milhares de mortos e de infectados depois, obrigando o inenarrável Trump a dar o dito por não dito em 48 horas. 

Quando há dias vi um vídeo e fotos da praia de Carcavelos cheia, de miradouros lisboetas apinhados de gente a curtir o pôr-do-sol, de garotada a divertir-se nos bares do Cais do Sodré, deu para perceber que uma boa parte da "geração mais bem preparada de sempre" não passava de um bando de ignorantes e que muita coisa correu mal. E não apenas por causa das infelicíssimas declarações da ministra da Agricultura, que via numa pandemia uma janela de oportunidade para as exportações dos nossos agricultores. Já todos se esqueceram que houve um ministro que em tempos foi despedido por causa de uma anedota, outro por fazer corninhos no parlamento, e ainda mais um por se ter descuidado e ter dito que ainda enfiava uns tabefes num palerma qualquer, tudo coisas muito menos graves do que o que foi dito pela senhora ministra que ainda lá está. Não fossem as esclarecidas declarações de Francisco George e de mais um ou outro, e dir-se-ia que em Portugal não se passava nada.

Empurrado pelos acontecimentos, o Governo acabou por reconhecer, e bem, a gravidade da situação, mas a decisão tomada ficou aquém do que era desejável. Com o exemplo do que tinha acontecido em Itália e do que estava a suceder em Espanha e no resto da Europa, creio que era natural que os portugueses, embrutecidos com as novelas, os “reality shows”, os programas das Cristinas e de discussão do “chuto-na-bola”, como diz com razão um amigo meu, não acatassem com bom tempo e de ânimo leve o aconselhamento a permanecerem em casa e evitarem contactos sociais.

Devia por isso ter sido desde logo declarado o estado de emergência e tomadas medida drásticas, que ainda iremos a tempo de tomar e que deverão passar por um apertadíssimo controlo nas fronteiras e nas ruas das nossas cidades, vilas e aldeias. Mas para isso é preciso ainda mais empenho. Estamos numa guerra pela sobrevivência. Ouça-se o que o médico David Nabarro disse à CNN para se perceber o quão grave e incerta é esta guerra se não formos capazes de ir mais longe.

A falta de informação e a ignorância das pessoas é aquilo que mais me aflige. Um médico que trabalha numa unidade de cuidados intensivos no Porto escrevia há pouco, numa mensagem pessoal para o irmão, que “as pessoas devem entender que apesar dos idosos e doentes morrerem muito mais, as pessoas novas podem adoecer gravemente e nunca mais ficarem iguais (fragilidade neuro-muscular prolongada, perda neuropsíquica, e fadiga por doença pulmonar, tudo designado por comonsindrome pós doença crítica ou pós-cuidados intensivos”.

Mais, um artigo da Business Insider de ontem (13 de Março) revelava que mesmo as pessoas que recuperam do COVID-19 ficam com sequelas permanentes, incluindo com uma redução substancial da função pulmonar, isto é, de 20 a 30%. E há casos de gente que foi dada como curada e passados dias o vírus voltou a manifestar-se.

Em Macau são permanentes os anúncios na televisão, na rádio, nos jornais, nas ruas, como aconteceu no início, com carros equipados de megafone a mandarem toda a gente para casa e com recomendações em português, chinês e inglês. Desde que a crise começou que há uma barra em permanência a passar na parte inferior dos ecrãs de televisão. Na última que passa agora escreve-se o seguinte: “O Governo da RAEM solicita: vamos todos persistir. Evite a concentração de pessoas, lave as mãos com frequência, use uma máscara adequadamente, declare a sua condição de saúde, reduza as saídas para fora de Macau”.

Pode-se criticar muita coisa mas não se pode dizer que o Governo de Macau e o novo Chefe do Executivo, quando confrontados com uma situação gravíssima, não tivessem decidido atempadamente o que se impunha. Revelaram estar à altura da gravidade da situação e isso foi fundamental para dar confiança às pessoas. Por isso mesmo tivemos dez casos, todos sobreviveram, e nunca mais houve novos. Esperemos que assim continue.

O custo das medidas tomadas é brutal. Não foi preciso esperar para ver, não foi preciso termos dezenas ou centenas de casos ou aguardar pelas recomendações da OMS para se tomarem medidas imediatas. Os sinais estavam lá todos e vinham daqui do lado. Não se podia perder tempo.

A única actividade económica com dimensão, o jogo, parou completamente durante 15 dias. Foram cerca de 800 milhões de patacas por dia (mais de 87 milhões de euros), em média, que deixaram de entrar nos casinos. As escolas fecharam logo, as crianças foram obrigadas a ficar em casa e terem aulas à distância desde o final de Janeiro, e só deverão voltar às escolas depois da Páscoa. O aeroporto está praticamente reduzido a 10% do seu movimento habitual, muitos negócios entraram em colapso, as missas foram logo proibidas, a procissão do Senhor dos Passos foi cancelada e o meu próprio escritório, como muitos outros, não teve movimento praticamente nenhum durante todo o mês de Fevereiro, embora os salários fossem todos pagos na íntegra e sem que se tivesse pedido a ninguém para ir para casa até a crise passar metendo dias de férias.

Não sei como irei sair disto. Nenhum de nós sabe. Nem sabemos quando iremos recuperar tudo o que se perdeu. Continua tudo a meio gás, ficaremos todos muito mais pobres. Ninguém tem dúvidas disso apesar das medidas que foram tomadas e dos apoios concedidos (e ainda a conceder).

O trabalho que o Governo tem neste momento é o de controlar as entradas, o que tem feito, colocando toda a gente que vem de zonas de risco (a partir de terça-feira também quem vá de Portugal ou do Espaço Schengen) em quarentena. Muitos de nós tiveram de cancelar viagens, fossem de trabalho ou de lazer, em semanas seguidas, e há custos que serão sempre irrecuperáveis. Todavia, salvaram-se vidas humanas. Ninguém olhou para o custo porque em causa estava a saúde de todos. É para ir à faca, então vai-se logo.

O Governo da RAEM investiu, todos ajudámos fazendo a nossa parte, e aos poucos vamos tentando recuperar a vida (e alguns clientes) que perdemos com o COVID-19, ainda com muitas limitações porque o perigo continua à espreita. E se não está cá dentro pode vir de fora a qualquer momento e a situação reverter à estaca zero.

Eu gostaria que o Governo do meu país fosse suficientemente corajoso para ir mais longe, se necessário impondo o uso das tão desagradáveis e incómodas máscaras, e fechando fronteiras, pelo tempo que for necessário, promovendo uma campanha de informação a sério e permanente em todos os canais de televisão e nas rádios, bombardeando sem cessar a ignorância, alertando até à exaustão, apelando à cidadania, à responsabilidade de todos. Motivando as pessoas.

Depois da tragédia acontecer nunca haverá medidas que cheguem. E os custos em vidas humanas e na saúde dos que sobreviverem serão sempre muito superiores e irreversíveis.

Agarrem o touro pelos cornos e acabem com a conversa mole nas televisões. Mobilizem tudo e todos, a começar pelos partidos políticos, pelas autarquias e pelas comunidades das diversas religiões para um combate sem quartel. Não vacilem em nenhum momento. E não hesitem se tiverem que mudar generais a meio do combate. Deixem-se de paninhos quentes e façam-no já, sem demora. Apoio não vos faltará. Temos todos de vencer esta guerra com o menor número possível de baixas.

 

Adenda (15/03/2020): Vejo no FT que a Alemanha decidiu fechar as fronteiras com a França, Áustria e Suíça a partir de amanhã. Outros já o decidiram também fazer. Que relatório espera o Governo português para seguir o exemplo? Será sempre possível assegurar os abastecimentos essenciais, há muitas maneiras de o garantir. Seria bom que não se atrassassem. O tempo voa. O vírus também. 

País real e prioridades legais

por Pedro Correia, em 20.02.20

 

Seis distritos portugueses (Aveiro, Braga, Castelo Branco, Coimbra, Leiria e Vila Real) sem uma só equipa de cuidados palitativos continuados no Serviço Nacional de Saúde. Rede nacional necessita de 400 médicos e dois mil enfermeiros. Falta de profissionais põe em causa a qualidade e o tempo de atendimento aos doentes.

 

Doente com diabetes e hepatite C morreu a 31 de Janeiro numa cadeira de rodas do serviço de urgência do Hospital de Beja após mais de três horas de espera sem ser atendido por um médico. Chegou às 17.30 e morreu cerca das 21 horas, apesar de lhe ter sido atribuída uma pulseira amarela à chegada.

 

Doente pulmonar crónico morreu às 20 horas de 10 de Fevereiro após seis horas de espera sem atendimento no serviço de urgência do Hospital de Lamego, onde chegou com dificuldades respiratórias. À chegada, às 14 horas, recebeu uma pulseira amarela - indicando que deveria ser examinado por um médico no intervalo máximo de uma hora. Responsáveis do centro hospitalar alegam que naquele dia a afluência «foi excepcionalmente alta, quando comparada com os dias anteriores».

 

Assembleia da República debate hoje, pela segunda vez em menos de dois anos,  a legalização da eutanásia em Portugal. Com projectos de lei apresentados por cinco partidos: Bloco de Esquerda, Iniciativa Liberal, PAN, PS e "Verdes".

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Sindika Dokolo apresenta a maior coleção de arte africana no Porto (24 Fevereiro, 2015)

(Memória - até intimista - por causa do que está a acontecer por aí).
 
Quando em 15 voltei a Portugal o que mais me custou não foi o frio, do qual me desabituara. Foi o silêncio. O próprio. Passara 15 anos a leccionar, a co-organizar seminários, a participar noutros, a comentar e debater. Assim a falar, muito. Quando regressei isso acabou. Não podia falar ("não tens doutoramento, não podes falar", é assim mesmo, são as regras, é o mercado laboral). Podia assistir mas não convinha contrapor, discordar, esmiuçar, que reina a cultura do silêncio defronte e da maledicência a posteriori ("ela é histérica", "ele é estúpido", diz-se dos colegas sem qualquer rebuço), associada à ofensa sentida se alguém questiona o que se disse. Eu sei que dizer isto provoca noutros a ideia, aqui habitual, do "este está ressabiado, ressentido". Mas estão errados. É apenas observação participante.
 
Pronto, ficou-me o silêncio próprio. Foi uma espécie de envelhecer (um pouco) avant la lettre. Um gajo é velho e ninguém o ouve, foi isso mesmo. Neste caso ainda com lucidez (presunção e água benta ...) para o perceber, e saber que será assim para a frente. Ultrapassei isso, ganhei o hábito de falar sozinho - falo imenso sozinho. A minha filha preocupa-se com isso, teme ser sintoma de algo mais. É nova demais para perceber que é apenas uma escapatória. Um gajo tem que falar, tem o vício, e se não tem audiência fala sozinho. Mal seria se eu começasse a fazer podcasts ou lá como se diz, e a metê-los no facebook.
 
Bem, vem esta memória a propósito disto: o silêncio não foi total. Nos primeiros anos ainda falei um bocadinho. Almas caridosas convidaram-me para leccionar lá na Invicta Porto, num mestrado ("éh pá, não tenho doutoramento", avisei. "Anda na mesma", magnanimizaram), durante dois anos. Lá fui, falar como Amador (no velho e nobre sentido do termo). De literatura africana. De arte moderna e contemporânea africana. Não sei como terá corrido (ao longo dos anos tive alunos que de mim gostaram, outros aos quais fui indiferente, outros que não gostaram. Haverá piores do que eu, há melhores, há muitos mais ou menos na mesma. É como é). Mas, repito, fui lá à terra do meu pai, à universidade do meu pai - e disso gostei muito -, falar de literatura africana e de arte africana.
 
Foi na época em que o Porto estava todo aperaltado para visitar a exposição - bem boa, digo-vos - da colecção de arte africana contemporânea de Sindika Dokolo, genro de José Eduardo dos Santos. Gostei de visitar, pausadamente. E deu-me muito, imenso, jeito, pois recomendei-a vivamente aos escassíssimos alunos.
 
Então sorri, com o fenómeno. A gente não avalia e frui a arte devido aos mecenas que lhe coube. Mas avalia o fenómeno da recepção. Sorri ao Porto. A Portugal.
 
E falei, sozinho. Continuo a falar sozinho. A Carolina não gosta, teme que seja sintoma de algo. E é, minha querida, é sintoma de ser patrício destes tipos.

 

Angola

por jpt, em 26.01.20

Os-Donos-Angolanos-de-Portugal.jpg

Os que me conhecem, e os que me vão aturando no(s) blog(s), sabem que não simpatizo com o BE - ainda que me tenha ocorrido votar, e também por algumas razões até espúrias, em Marisa Matias (depois ponderei e votei bem à "direita", em Henrique Neto). Não gosto da coligação "guevarista" (et al) acima de tudo porque abomino o "identitarismo" e os requebros que o acompanham. E mais coisas, claro. Por isso tanto gostei do "affaire Robles" a desnudar o horizonte que se vê em Telheiras e no Bairro Alto. E tanto gozei com as patacoadas do prof. Rosas ("as nossas meninas", "a direita já tem o seu gay" - cito apenas de cor), a mostrar o quão plástico chinês é o "politicamente correcto" - já para não falar do célebre "eu tenho filhos, você não tem" (idem) de Louçã a Portas, o Paulo. Enfim, são quem são, esta minha Lisboa ...

Dito tudo isto, como vera auto-justificação, aqui fica a entrevista que Louçã e Teixeira Lopes deram quando lançaram o seu livro "Os Donos Angolanos de Portugal", há já cinco anos a mostrarem as ligações desta nossa elite político-económica com o poder económico (a "Isabel dos Santos") de Luanda.

É bom lembrar, porque parece que agora todos se esquecem.

A Bé

por jpt, em 24.01.20

casino-polana-completo.jpg

(Memória a propósito disto que aconteceu à Bé):

Há alguns anos abriu o casino em Maputo. Depois inauguraram o restaurante (uma espécie de "brasserie", se bem me lembro). Acorreu-se à novidade. Lá fui: resmunguei-o algo caro para a minha bolsa, e barulhento apesar do ambiente frio. Fui e até voltei, duas ou três vezes, coisas de jantares colectivos.

Uma sexta-feira lá isso me aconteceu. Cheguei, só e cansado, sentei-me na mesa dos conhecidos. Ainda não deitara o olho ao cardápio e entrou um patrício, desses muito conhecidos da política, que por lá aportara nas negociações da entrega de Cahora-Bassa e fora ficando, em regime "sanduíche" claro, em conselhos de negócios e coisas dessas. Rosnei para o lado "não janto na mesma sala deste fdp". Levantei-me, enjoado - que era o tempo do Sócrates, cujo fedor chegava a Maputo ainda que aqui os inteligentes, antropólogos, outros académicos e gente bem-informada o sentissem "perfume" -, e fui-me embora, talvez para o Piripiri, talvez para casa, não me lembro.

Os anos passa(ra)m. Eu sou da "direita" (e escrevo coisas que parecem da "extrema-direita", diz-me gente mui amiga). E vim-me embora do Índico. E os tipos como aquele botam agora o quão incomodados estão com aquilo da Bé, cá no Atlântico. Eles são muito de esquerda, estão no governo. Ou perto, seguindo muito apreciadores do simpático presidente que temos. A mim vale-me, pelo menos, que não sou migrante. Ahnn? É isso mesmo. Não sou migrante.


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