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Delito de Opinião

Porto, Portugal, República Portuguesa

Pedro Correia, 17.06.21

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Anteontem escrevi aqui um postal estranhando que toda a gente tenha de repente começado a chamar "Países Baixos" à Holanda - pelos vistos a mais recente palavra interdita do Índex dos novos tempos.

Esta moda inunda todo o discurso mediático, escrito e verbal. Como se dizer Holanda fosse pecado.

 

A minha perplexidade deveu-se a isto: percebi que tal designação se havia tornado proibida quase da noite para a manhã. Ao ouvir transmissões desportivas, com narradores a repetirem "Países Baixos" mais de cem vezes num simples jogo de futebol. Como não há gentílico adequado à nova terminologia e o vocábulo "holandês" está igualmente interdito, todos repetem "Países Baixos" até à náusea. Podia ser uma expressão bonita, mas não. Dificilmente haverá algo tão inadequado para designar um país, à luz do nosso imaginário onomástico.

Pus-me a pensar nesta aparente irrelevância e concluí que vivemos cada vez mais mergulhados em novos interditos e numa rede interminável de microcensuras. A tal ponto que nem damos conta. E quase sempre sem entendermos porquê.

 

Conheço vários holandeses: nunca me apercebi que sentissem o mais leve incómodo por serem designados assim. Dizem-me algumas almas mais zelosas, nesta caixa de comentários, que a mudança se justifica para evitar a confusão entre a Holanda - que é apenas uma parcela do reino neerlandês - e o Estado que faz fronteira com a Bélgica e a Alemanha.

A explicação confunde mais do que esclarece. Desde logo, o nome oficial desse país é Reino dos Países Baixos. Habitado por... holandeses. Esqueceram-se de inventar um gentílico para adequar uma coisa à outra.

Depois, se a moda pega, resta-nos concluir que andamos todos desactualizados. Pois deixemos também de chamar Suíça à Confederação Helvética - nome oficial desse país. E de chamar Grécia à República Helénica - outro nome com chancela oficial.

Os suíços serão helvéticos, os gregos serão helénicos.

E os holandeses? São... holandeses.

 

Ainda pela mesma lógica, qualquer dia Portugal deixa de se chamar Portugal. Pois deriva de Porto, que é apenas uma pequena parte de Portugal.

Portugal, aliás, não se chama Portugal. Chama-se oficialmente República Portuguesa.

Porque não haveremos então de denominá-la assim na linguagem corrente?

 

 

ADENDA: Uma palavra de merecido elogio ao Luís Freitas Lobo, que hoje, comentando em directo o jogo Holanda-Áustria na Sport TV, utilizou sempre a palavra interdita, rejeitando o Índex. Espero que não seja penalizado por isso.

Fantastárquico

Sérgio de Almeida Correia, 15.06.21

Untitled.jpg(créditos: Mário Cruz/LUSA/Observador)

 

O processo de escolha do candidato do Partido Socialista à Câmara Municipal do Porto tem todos os ingredientes para se escrever um guião de um filme de terror.

A bem dizer, há muitos anos que por aquelas bandas não surge um candidato digno desse nome saído de um processo de escolha democrático sem escolhos, guerras de paróquia, investidas pessoais e amuos de luminárias. O falecido Pedro Baptista dizia que "aquilo é irreformável", e não estava longe da razão. 

Da indicação oficial de Eduardo Pinheiro, que só resistiu vinte e quatro horas, ao nome de José Luís Carneiro, que obviamente não estava disponível para se estatelar ao comprido, passando pelo nome do agora europeu, e já duplo derrotado em anteriores eleições, Manuel Pizarro, até se chegar a Rosário Gamboa, e agora a Tiago Barbosa Ribeiro, ora dentro, ora fora, foi todo um percurso inenarrável, ao qual a direcção do partido não é alheia e de onde não sai incólume. Ainda menos o secretário-geral.

Naturalmente que qualquer que venha a ser o resultado no Porto, a culpa será de todos eles. Nunca dos portuenses que assistiram incrédulos a tudo o que se passou. E não apenas no PS, também convém dizê-lo. 

Há gente com lugar cativo que se continua a não perceber o que anda a fazer na política e nos partidos. Lamentável.

A culpa é do Sporting

Pedro Correia, 02.06.21

Lembram-se de ouvirem as vozes histéricas clamando contra os festejos do título do Sporting a 11 de Maio?

Lembram-se dos adeptos do FC Porto - começando pelo presidente dessa agremiação - a disparar contra a "vergonha" dessas ruas e praças cheia de gente em alegre confraternização?

Lembram-se dos urubus da pantalha - um tal Óscar Felgueiras, um tal Manuel Carmo Gomes - soltando gritinhos de aflição contra o "inevitável aumento de contágios" que esses festejos causariam?

Pois tomem lá esta série de lindos postais da Invicta com milhares de briosos cidadãos cumprindo galhardamente as normas sanitárias - distanciamento físico e máscara - neste fim de semana em que lá se disputou a final da Liga dos Campeões.

No fim de tudo, se os contágios dispararem, não se esqueçam de dizer que a culpa é do Sporting.

 

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Para uma final britânica perfeita

João Pedro Pimenta, 29.05.21

Uma pena que estejamos na situação em que estamos, com o distanciamento, as máscaras e etc, senão, como aperitivo para final da Liga dos Campeões, podíamos ter uns cantares ao desafio entre Mr. Damon Albarn, dos Blur e do Chelsea, e Mr. Noel Gallagher, ex metade dos Oasis e do Manchester City. Não sendo possível, go citizens.

 

 

(Isto é mesmo ficção, porque se não fosse a pandemia a final seria em Istambul).

Gente sem condições

João Pedro Pimenta, 19.05.21

Hoje, depois de se saber que Rui Moreira ia a julgamento por causa do caso Selminho (oportuníssimo ser a cinco meses das eleições, mas adiante), dizia que não faltariam os oportunistas a tentar tirar proveito da situação.

Eles aí estão: Catarina Martins veio logo afirmar que "Rui Moreira não tem condições para continuar na câmara". Isto dito pela líder (ou "coordenadora") de uma formação que em cinco eleições possíveis NUNCA conseguiu elegeu um único vereador para a CM do Porto - talvez pelo Bloco portuense ser exclusivamente composto por sociólogos ou actores, como a própria Catarina - e que noutras autárquicas já apresentou candidatos que estiveram nas FP-25. Um deles apareceu mesmo no outro dia a escrever (entre outros textos com imensos erros) que não se arrependia de nada e que os assassínios cometidos "tinham mesmo de ser", antes de apagar a mensagem

Quem é que não tem condições mesmo?

Rui Moreira

jpt, 28.04.21

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(Postal para o És a Nossa Fé)

São 40 anos disto. O historial das influências manipuladoras dos resultados desportivos nunca será completado, muitas esquecidas na voragem dos tempos, outras silenciadas, por falta de provas e de coragens. Modo de estar amparado por acólitos que tendiam a sovar jornalistas - ainda me recordo da impunidade com que, no Aveiro de 1988, foi agredido o grande jornalista Carlos Pinhão, aos seus 64 anos. E modo de estar catapultado pela inércia judicial e pela cumplicidade política, em particular autárquica - poucos ainda se lembrarão quando o presidente da câmara Fernando Gomes, encavalitado no clube, desceu a Lisboa arvorado em ministro e com sonhos de conquistar não o Jamor mas sim São Bento. Foi-lhe breve o enleio, logo tendo regressado, capachinho entre as pernas, para a administração do F.C. Porto entre outras sinecuras. 

Neste longo consulado de "Jorge Nuno", como o saúdam os apaniguados, o hábito de atiçar jagunços para espancar jornalistas seguiu algo viçoso nas suas duas primeiras décadas. Depois feneceu, pois a sucessão de triunfos internos desestruturou clubes rivais, amainou a competição. Nesse rumo mais favorável impôs-se a procura de respeitabilidade pública. E nisso o culto da "mística" do clube foi apelando cada vez mais a uma qualquer "alma" feita de arreganho desportivo, depurando-se da imagem de corsários em abordagem: a fleuma de Robson e a sua versão lusa, por isso algo mais arisca, em Santos, Jesualdo Ferreira, e mesmo no júnior Villas-Boas, foi-se sedimentando, apesar da alguma irascibilidade bem-sucedida de Pereira ou Mourinho.

É certo que a vigência de uma placidez - democrática - nunca foi absoluta, e que a vertigem provocatória e agressiva nunca desapareceu, com a própria conivência da imprensa. Lembro-me que há alguns anos um conhecido comentador televisivo atreito ao SLB foi "abanado" num restaurante portuense por um famigerado líder de claque portista. Como tantos deixei eco disso no meu mural de FB, lamentando o facto. De imediato recebi um bem-disposto comentário desvalorizando o abanão no sexagenário mediático, algo tipo "foi coisa pouca". Respondi-lhe, indignado, "como é possível que sendo V. o nº 1 da Lusa desvalorize uma situação destas em nome do seu clubismo?". Logo o arauto me insultou e cortou a ligação-FB. Lembro este "fait divers" para sublinhar isso da vontade agressora não residir apenas nos aprendizes de proxeneta medrados na Invicta, pois sempre seguiu robusta naquele mundo de "senhores doutores".

As décadas passaram. O natural ocaso do octogenário "Jorge Nuno" é este, o que agora acontece. O controlo do jogo algo se reduziu, devido à dança de poderes nos meandros nacionais mas também à introdução de tecnologias electrónicas na arbitragem. E nisso, no envelhecimento do prócere e no crescimento do imprevisto futebolístico, voltou-se ao culto do "pancadarismo". O rufia treinador, desde [ante]ontem cognominado "Sérgio Confusão", cujo histrionismo passa incólume, afirma-se como "imagem de marca" do clube ressuscitando a velha ideia da tal "mística" corsária. O que inclui, claro, o espancamento avulso de jornalistas - agora já não por obscuros seguranças de bordéis portuenses mas por "empresários" montados em carros de estatuto, uma óbvia gentrificação da escroqueria portista.

No meio de tudo isto, antigo exaltado porta-voz televisivo das manobras clubísticas e agora eleito figura-maior dos órgãos do clube - apesar da propalada actual renitência do poder político em associar-se aos mariolas do futebol -, qual putativo Delfim, flana Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto. De (quase) tudo soube, de tudo sabe, a tudo anui. E assim ... a tudo conspurca.

S. João eclipsado

João Pedro Pimenta, 25.06.20
Este dia, ou antes, esta noite é esperada todo o ano. No Natal pensa-se que "só/ainda faltam seis meses para o S. João" (segundo a Bíblia, João Baptista nasceu seis meses antes de Jesus, daí o dia). Quando chega Junho, o Santo António já é uma antecipação; aos poucos vão-se vendo cartazes a anunciar a data, descobrindo manjericos à venda, instalam-se palcos, carrosséis e carrinhos de choque na Baixa, Boavista, Foz, Fontainhas e por todo o Porto. E chegada a noite, vêem-se fogareiros a assar sardinhas, famílias ou bairros inteiros a instalar mesas compridas nas ruas e largos, ouvem-se os primeiros martelinhos e começa-se a avistar as luzes dos balões no ar. Assim se inicia a noite mais longa do ano, colada ao solstício, com o epicentro perto do rio, com os bailaricos habituais, da Ribeira até à Foz, passando por Miragaia e Massarelos. No fim, a habitual dificuldade de voltar para casa, sem carro, táxi ou Uber; a solução é mesmo uma caminhada já a ver a alvorada.
Era a noite mais esperada do ano. Agora é igual a todas as outras, nesta época miserável de gente desfigurada nas ruas. Pela primeira vez desde que há registos (e os primeiros vêm de Fernão Lopes, no séc. XIV), não houve festas de S. João no Porto ou em parte alguma. Vi um entristecido Germano Silva a referir que nem o Cerco do Porto, nem as revoltas ou as outras epidemias todas pararam o S. João. O Covid conseguiu-o. Não sei o que se passa de diferente, mas isto impressiona pela sua dimensão. Pensar que pela primeira vez em séculos não haverá S. João (ou outras festas populares) perturba e entristece. Era daquelas coisas que nos fazia viver. E agora nem sabemos quando voltará, neste mundo em que um surto de 40 contagiados na China é imediatamente notícia. Estamos no meio de uma desgraça inédita ou ficamos mais paranóicos?
DGS divulgou hoje as medidas para os festejos de São João. Porto e ...
PS: soube entretanto que o S. João já tinha tido outras paragens, por razões similares, como a peste bubónica de 1899 (não creio muito, porque só a detectaram em Julho) e outras maleitas.
PS2: alguém devia coordenar um pouco melhor os atrasos nos conselhos da DGS; caso contrário arriscavam-se a que as pessoas festejassem o santo porque as "rigorosas recomendações" chegaram depois do tempo.

Pinto da costa e o seu ungido

Pedro Correia, 08.06.20

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Já houve vários presidentes da Câmara de Lisboa sócios do Sporting. Nas últimas três décadas, lembro-me de Jorge Sampaio, Pedro Santana Lopes e António Carmona Rodrigues.

Imaginem a gritaria que não haveria, lá mais para Norte, se o presidente da Câmara de Lisboa, estando no exercício destas funções, aceitasse encabeçar uma lista concorrente a um órgão social do FC Porto. Não faltaria gente a rasgar as vestes, urrando contra a «promiscuidade entre a política e o futebol», exigindo imediata separação de águas.

Pois isso mesmo acaba de acontecer no FC Porto, com o actual alcaide da Invicta a encabeçar a lista para o Conselho Superior da agremiação azul e branca, sem que isso pareça perturbar as boas almas que reclamam linhas divisórias entre bola e política.

Rui Moreira aceitou o encargo, consciente de que isso o coloca na primeira linha dos ungidos, como presumível sucessor de Pinto da Costa, agora reeleito para o 15.º mandato à frente do clube, onde já leva 38 anos como dirigente máximo. Um mandato que, por vontade própria, poderá não levar até ao fim.

O astuto PdC, que nunca dá ponto sem nó, não apenas vence de forma categórica (com mais de dois terços dos votos expressos, 68,7%) a eleição para presidente da Direcção como suplanta a percentagem alcançada por Moreira (65%) na votação para o Conselho Superior. Numa espécie de aviso à navegação interna que evoca os dramas de Shakespeare: convém que o protegido nunca seja mais popular do que o seu mentor.

Cercos do Porto, uma tradição

João Pedro Pimenta, 31.03.20

Batalha da Serra do Pilar durante o cerco do Porto (1832) | Porto ...

Quando se sabe hoje que afinal o Porto tem metade dos contaminados que nos atribuíam ontem, a ideia peregrina de fazer um "cerco sanitário" raia ainda mais o absurdo. Ainda por cima na cidade que mais depressa tomou medidas preventivas, como o fecho da maior parte dos serviços, ainda antes da pandemia ser declarada. Devem pensar que é algum tipo de tradição. Já estamos habituados ao método. De século a século, o Porto apanha sempre com um cerco (os dois últimos foram o célebre Cerco em 1833, na guerra civil entre liberais e absolutistas - e à falta de um Fernão Lopes tivemos Garrett e Herculano a testemunhá-lo - e o também cordão sanitário à peste bubónica em 1899). Mas lá porque já temos experiência não quer dizer que tenhamos de levar mais vezes com esta brincadeira, senhora DGS.

Arte contemporânea africana no Porto

jpt, 26.01.20

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Sindika Dokolo apresenta a maior coleção de arte africana no Porto (24 Fevereiro, 2015)

(Memória - até intimista - por causa do que está a acontecer por aí).
 
Quando em 15 voltei a Portugal o que mais me custou não foi o frio, do qual me desabituara. Foi o silêncio. O próprio. Passara 15 anos a leccionar, a co-organizar seminários, a participar noutros, a comentar e debater. Assim a falar, muito. Quando regressei isso acabou. Não podia falar ("não tens doutoramento, não podes falar", é assim mesmo, são as regras, é o mercado laboral). Podia assistir mas não convinha contrapor, discordar, esmiuçar, que reina a cultura do silêncio defronte e da maledicência a posteriori ("ela é histérica", "ele é estúpido", diz-se dos colegas sem qualquer rebuço), associada à ofensa sentida se alguém questiona o que se disse. Eu sei que dizer isto provoca noutros a ideia, aqui habitual, do "este está ressabiado, ressentido". Mas estão errados. É apenas observação participante.
 
Pronto, ficou-me o silêncio próprio. Foi uma espécie de envelhecer (um pouco) avant la lettre. Um gajo é velho e ninguém o ouve, foi isso mesmo. Neste caso ainda com lucidez (presunção e água benta ...) para o perceber, e saber que será assim para a frente. Ultrapassei isso, ganhei o hábito de falar sozinho - falo imenso sozinho. A minha filha preocupa-se com isso, teme ser sintoma de algo mais. É nova demais para perceber que é apenas uma escapatória. Um gajo tem que falar, tem o vício, e se não tem audiência fala sozinho. Mal seria se eu começasse a fazer podcasts ou lá como se diz, e a metê-los no facebook.
 
Bem, vem esta memória a propósito disto: o silêncio não foi total. Nos primeiros anos ainda falei um bocadinho. Almas caridosas convidaram-me para leccionar lá na Invicta Porto, num mestrado ("éh pá, não tenho doutoramento", avisei. "Anda na mesma", magnanimizaram), durante dois anos. Lá fui, falar como Amador (no velho e nobre sentido do termo). De literatura africana. De arte moderna e contemporânea africana. Não sei como terá corrido (ao longo dos anos tive alunos que de mim gostaram, outros aos quais fui indiferente, outros que não gostaram. Haverá piores do que eu, há melhores, há muitos mais ou menos na mesma. É como é). Mas, repito, fui lá à terra do meu pai, à universidade do meu pai - e disso gostei muito -, falar de literatura africana e de arte africana.
 
Foi na época em que o Porto estava todo aperaltado para visitar a exposição - bem boa, digo-vos - da colecção de arte africana contemporânea de Sindika Dokolo, genro de José Eduardo dos Santos. Gostei de visitar, pausadamente. E deu-me muito, imenso, jeito, pois recomendei-a vivamente aos escassíssimos alunos.
 
Então sorri, com o fenómeno. A gente não avalia e frui a arte devido aos mecenas que lhe coube. Mas avalia o fenómeno da recepção. Sorri ao Porto. A Portugal.
 
E falei, sozinho. Continuo a falar sozinho. A Carolina não gosta, teme que seja sintoma de algo. E é, minha querida, é sintoma de ser patrício destes tipos.

 

Lisboa e Porto

Cristina Torrão, 26.01.20

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Imagem TV Today 18 a 31-01-2020

Ontem, um canal regional alemão, pertencente ao 1.º canal público ARD, mostrou um pequeno programa sobre duas cidades portuguesas. A revista televisiva que costumo comprar, porém, fez uma imensa confusão entre as duas. Traduzindo o texto acima: «Lisboa conta-se entre as "boomtowns" turísticas na Europa. Mais de seis milhões de visitantes anuais - para apenas 500.000 habitantes. A reportagem guia-nos às grandes Praças do Rossio e do Comércio, ao lindíssimo bairro de Alfama e ao Mercado da Ribeira. Depois, segue para o Porto, na margem do Douro».

Presumo que os «500.000 habitantes» deviam pertencer ao Porto. E a legenda da imagem vai ainda mais longe: «Arquitectura imponente: a ponte Dom Luís I em Lisboa»!

Um texto destes é capaz de pôr os cabelos em pé de qualquer português. Para os mais radicais, aqueles que levam a um nível muito pessoal a rivalidade (que se quer saudável) entre as duas maiores cidades do nosso país, um texto destes pode ser mesmo caso para insultos aos responsáveis da revista.

Apesar de também criticar a falta de cuidado com que este pequeno texto foi escrito, aconselho um respirar fundo aos mais indignados. Afinal, se uma revista televisiva portuguesa fizesse uma confusão destas entre Berlim e Hamburgo, não nos merecia mais do que um encolher de ombros (quando muito... e só para quem estivesse em condições de detectar os erros). E eu, que vi o programa, garanto que não se misturaram as duas cidades. Foi uma pequena reportagem interessante, que é bem capaz de atrair ainda mais turistas ao nosso país. Se isso é bom, ou mau, fica ao critério de cada um.

Um mentor de génios

João Pedro Pimenta, 03.01.20

A Foz velha, em tempos separada do Porto, de tal forma que ainda há lá quem diga "vou ao Porto" quando pretende ir ao centro da cidade, é em boa parte atravessada por uma rua estreita, empedrada e de traçado ligeiramente curvado, que liga a ainda mais estreita Rua da Cerca e a Esplanada do Castelo (de S. João Baptista da Foz) até à mais movimentada Diogo Botelho, continuando ainda do outro lado. Nela se podem ver mercearias tradicionais, restaurantes premiados mas de fachada discreta, uma via sacra, a antiga casa da câmara, dos tempos em que S. João da Foz era município, e a velha discoteca Dona Urraca/Pop, que recebeu gerações seguidas de movida. Essa velha artéria, em tempos chamada de Rua Central da Foz, é hoje a Rua do Padre Luís Cabral.

O padre Luis Gonzaga Cabral, nascido na Foz em 1866 e ordenado padre da Companhia de Jesus em 1897, depois de ter estudado filosofia em Espanha e teologia em França, tornar-se-ia professor no Colégio de Campolide (então dos jesuítas - hoje Campus da Universidade Nova de Lisboa) e seu reitor em 1903, numa altura em que a ordem fundada por Santo Inácio de Loyola era um dos alvos preferidos dos republicanos e da Carbonária. Exerceu essas funções precisamente quando um jovem aluno e o seu irmão mais novo, órfãos de mãe e deixados até então pelo pai em casa de tios de Lisboa depois da sua vinda de S. Tomé, ingressaram no colégio e lá permaneceram. O mais novo chamava-se António. O mais velho, que tomava conta do irmão, tinha como nome José Sobral de Almada Negreiros.

Como é sabido, Almada seria talvez o artista português mais genial e prolífico dos cem anos seguintes. E essa genialidade deu-se a descobrir em Campolide. Dotado para a escrita e para o desenho (mas também para o desporto, o que provavelmente lhe seria precioso para os anos vindouros de bailarino, e para a mecânica), com uma imaginação fértil e um espírito endiabrado, teve a felicidade de se encontrar numa instituição conhecida por apostar no talento dos seus instruendos. Reparando naquele imenso talento em bruto, os jesuítas e o seu director arranjaram-lhe um quarto/atelier para que pudesse desenvolver as suas pinturas e desenhos, permitindo-lhe aceder amiúde à biblioteca do colégio, chegando mesmo a dispensá-lo de aulas e de um conjunto de outras obrigações. A genialidade do jovem Almada Negreiros justificava-o. Certo dia, o director, presumivelmente Luís Cabral, apanhou-o em veloz corrida entre as salas do colégio e atirou-lhe a frase que se colaria a Almada a partir daí: "tenho 360 alunos e todos têm olhos na cara, porque é que só tu tens a cara nos olhos"? Resta saber se teria dito isto pelo talento impressionante do aluno ou pelos seus enormes olhos, a que era impossível ficar indiferente e que seriam sempre a sua imagem de marca, a par da sua assinatura.

Em 1910, com a implantação da república, os jesuítas seriam expulsos do país, não sem alguma dose de violência, e as suas instituições encerradas. Luís Cabral, que era então já Provincial da Companhia, teve de fugir apressadamente para Espanha, disfarçado de vendedor de máquinas de escrever. Ao contrário de outros não se instalou em La Guardia, mesmo em frente a Caminha, onde surgiria novo colégio dos jesuítas portugueses, mas seguiria para a Bélgica, onde continuou a dedicar-se ao ensino, até à Grande Guerra o expulsar de novo, desta feita para o Brasil.

Em 1916 começou a leccionar no Colégio António Vieira, em Salvador da Bahia, do qual se tornaria director em 1930. Em solo baiano, destacar-se-ia na fundação de várias instituições culturais. Mas teria novo papel decisivo na formação de alguns alunos.

Em Jorge Amado, Uma Biografia, obra escrita pela jornalista baiana Josélia Aguiar sobre a vida do conhecido escritor brasileiro, editada em Portugal há poucos meses, menciona-se logo a influência que "padre Cabral" teve em Amado, que frequentava o colégio. Aos dez anos, «obedecendo a um pedido do padre Cabral, para quem toda a classe devia preparar uma descrição do mar, colocou no papel a memória da praia verde do Pontal, nos arredores de Ilhéus, aquela em que brincava com a filha do canoeiro. Ao trazer os deveres corrigidos, o professor anunciou com ares de solenidade para todos escutarem:´"este vai ser escritor"». Noutro depoimento do próprio Jorge Amado, sobre o mesmo episódio, lemos o seguinte: "minha vocação literária foi despertada pelas aulas desse jesuíta, aplaudido orador sacro, grande estrela do colégio. A sociedade baiana vinha em peso ouvir seu sermão dominical”. Contou que “em determinado dia, em sala de aula, o mestre deu como atividade a escrita de um texto sobre o mar. O menino Jorge, em vez de tratar, como a maior parte dos seus colegas, dos “mares nunca dantes navegados” de Camões, preferiu escrever sobre o mar de Ilhéus, cidade da região cacaueira onde morou e da qual sentia saudades. O Padre Cabral levou os deveres para corrigir em sua cela. Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela salade aula. Pediu que escutassem com atenção o que ia ler. Tinha certeza, afirmou, que o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido. Não regateou elogios".

Luís Gonzaga Cabral, o "padre Cabral", ficaria na Bahia o resto da sua vida, embora ainda tenha voltado a Portugal. Esteve sempre ligado ao ensino e à escrita e a tentar encontrar, como bom jesuíta que era, o melhor que os seus alunos tinham e o talento que poderiam desenvolver. É possível que outros se tenham destacado graças ao seu empenho. Do que não há dúvida é que tanto Almada Negreiros como Jorge Amado lhe deveram a descoberta das suas vocações e o empurrão necessário para se tornarem nos artistas que a cultura lusófona reconhece e celebra.

 

PS: outra coisa em comum nos dois artistas poderá ser a inspiração do alto Minho. Almada, como é sabido, casou com a vianense Sarah Affonso e passou férias e a lua de mel em Moledo, e Amado era visita da célebre pastelaria Manuel Natário, de viana do Castelo.

Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (4)

Cristina Torrão, 16.06.19

Faz hoje 872 anos que chegou à cidade do Porto a armada de Cruzados que haveria de ajudar D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa.

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Foto © Horst Neumann

Esta minha paixão pela História Medieval leva-me, muitas vezes, a desejar viajar no tempo. E, tendo eu vivido quase duas décadas muito importantes da minha vida (dos 10 aos 27 anos) em Vila Nova de Gaia, perto da Igreja da Serra do Pilar, de onde se tem uma vista extraordinária sobre o rio Douro e a cidade velha do Porto (e de onde foi tirada a fotografia acima), o dia 16 de Junho de 1147 seria um dos meus momentos de eleição. Mas, mesmo sem viajar, não será difícil imaginar a sensação que terá sido a chegada à Ribeira do Porto das 150 a 200 embarcações que constituíam a frota dos Cruzados.

Calcula-se que o contingente contasse cerca de 10.000 homens, distribuídos por várias nacionalidades, não havendo, assim, um líder único. Germânicos e Flamengos rondariam os 5.500 efectivos, capitaneados, respectivamente, pelo conde Arnoldo de Aerschot, um lotaríngio, sobrinho de Godofredo de Bulhão (que fundara o reino de Jerusalém na sequência da Primeira Cruzada) e por Cristiano, senhor de Gistelles, habitualmente apontado como um vassalo do conde Thierry da Flandres. Incluído neste grupo, estariam os contingentes do condado de Boulonge, igualmente vassalo do conde da Flandres.

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Embarcação do tipo coga, característica do Norte da Europa

Os ingleses totalizavam perto de 4.500 homens, divididos em quatro grandes grupos, cada um deles sob o comando de um «condestável». Hervey de Glanville (que teria algum ascendente sobre os outros comandantes) liderava as forças do condado de Norfolk, Simão de Dover liderava os combatentes do Suffolk, André de Londres estava à frente das forças da capital do reino e Saher de Archell liderava um grupo de escoceses e franceses.

A armada transportava ainda vários clérigos, sendo os mais conhecidos Gilberto de Hastings (o inglês que viria a ser escolhido por D. Afonso Henriques para primeiro bispo de Lisboa), o presbítero Raul e os germânicos Winando, Arnulfo e Duodequino de Lahnstein. Os relatos e as cartas destes últimos quatro clérigos constituem as fontes mais importantes sobre o decorrer do cerco de Lisboa.

Não é igualmente de excluir a presença de mulheres, fossem esposas ou companheiras de alguns dos homens, fossem prostitutas, como era habitual nos exércitos medievais.

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Imagem que em tempos usei no meu blogue, sem indicação de origem, mas, como está assinada, resolvi usá-la novamente.

Os representantes dos Cruzados foram recebidos pelo bispo do Porto, D. Pedro de Pitões, que, no dia seguinte, 17 de Junho, fez a sua pregação no terreiro junto à Sé, a fim de os convencer a ajudarem D. Afonso Henriques no seu empreendimento. Nada ficou decidido, mas os estrangeiros anuíram em viajar até Lisboa, a fim de ouvirem o que o rei português tinha para lhes dizer.

A frota partiria a 27 de Junho em direção a Lisboa, ou Lušbuna, mas os Cruzados não foram os únicos a viajar. Na verdade, deve ter-se verificado um verdadeiro êxodo, a partir do Norte do reino. O exército de D. Afonso Henriques contava cerca de 3.000 efectivos, o que, juntando aos 10.000 Cruzados, perfaz 13.000 combatentes. Já vimos, porém, que a frota transportava mais gente. Além disso, calcula-se que, no cerco a Lisboa, se encontravam cerca de 30.000 pessoas, do lado cristão, indiciando que muito povo decidiu rumar a Sul, considerando-se peregrinos em missão de fé. Na verdade, muita gente iria na esperança de uma vida melhor, confiando nas riquezas arrebanhadas aos pagãos e nas terras que D. Afonso Henriques haveria de distribuir, a fim de segurar a conquista.

Penso que este é um momento crucial para a coesão do reino acabado de formar. Estamos efectivamente a falar dos primeiros portugueses da História. D. Afonso Henriques conseguiu mobilizar todo o povo no mesmo objectivo, gente vinda desde a margem esquerda do rio Minho e da região transmontana, passando pelo Porto e pela região duriense até às terras à volta do rio Mondego. Portugal deixava de ser apenas Braga, Guimarães, Porto, Lamego, Viseu e Coimbra, para passar também a ser Leiria, Santarém, Lisboa e Sintra (havia cerca de dez anos que D. Afonso Henriques mandara construir o castelo de Leiria, mas, até 1147, situava-se em pleno território de fronteira indefinida).

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Nota: quem se interessar por este tema, não encontra melhor leitura do que este livro de autoria do Professor Miguel Gomes Martins, do qual tirei muitas das informações publicadas neste texto. 1147 A Conquista de Lisboa - Na Rota da Segunda Cruzada contém tudo o que, até ao momento, é conhecido sobre o Cerco e a Conquista de Lisboa, dando ainda um retrato da situação europeia da época e o papel das conquistas portuguesas nesse contexto.

Mas a candidatura de Lisboa era assim tão espectacular?

João Pedro Pimenta, 23.11.17

Com o risco de ser interpretado como "defensor dos valores tripeiros" ou coisa parecida, tenho de discordar dos meus confrades do Delito na matéria "se Lisboa fosse candidata a receber a EMA teria muito mais hipóteses de ganhar do que o Porto". 

 

Sim, o Porto perdeu, ficou em sétimo e em boa verdade só por muita fé é que se pensaria que podia ganhar. A candidatura tinha alguns aspectos vagos e dificilmente podia ombrear com outros concorrentes. Mas pensar que Lisboa tinha mais hipóteses é outra quimera. Até agora, vi escrito vezes sem conta que Lisboa era uma das preferidas, que tinha muito mais possibilidades de ganhar, etc. Pois bem, não vi um único argumento que me demonstrasse essas tais hipóteses. 

 

 

O Luís refere por exemplo que a Agência só podia ir para uma capital. Ora a cidade que chegou ao fim com mais pontuação foi Milão, só preterida em sorteio posterior a favor de Amsterdão. O Porto ficou a par de Atenas e à frente de capitais como Viena, Helsínquia, Sófia, Bucareste ou Varsóvia. Se ser capital nacional era mesmo um requisito (e isso não aparecia em parte nenhuma, senão não concorreriam cidades que não o são), ou houve distracção por parte das entidades responsáveis ou então era apenas uma condição simbólica. O que só mostra que a candidatura do Porto era melhor do que o que se pensava.

 

O Embaixador Seixas da Costa, também aludido pelo Luís, acha que "Lisboa era a única cidade portuguesa com condições potenciais para albergar" a agência. Mais uma vez não nos são apresentados critérios, excepto o da "visibilidade excepcional que a cidade está a ter por toda a Europa". Se a razão é essa, recordo que a também o Porto tem neste momento uma visibilidade internacional que provavelmente nunca antes tinha conhecido. Não por acaso, foi eleito, por três vezes em seis anos, "melhor destino europeu". Vale o que vale, mas a votação que lhe permitiu o tri-galardão teve sobretudo votos estrangeiros a favor. Não sendo um argumento de enorme peso, demonstra que também a visibilidade portuense está em alta. E não esquecer, evidentemente, a repercussão que a eleição de Rui Moreira teve, com honras de reportagem e entrevista por parte de jornais como o Le Monde e o New York Times.

 

O Diogo recorda-nos que os funcionários da EMA preferiam ir para Lisboa. Podia ser um argumento com algum peso. Simplesmente, diz-nos a notícia, tratou-se de um inquérito interno revelado apenas pelo presidente da Apifarma, e sem que os resultados fossem "publicados ou comunicados aos estados-membros". Ou seja, temos apenas a "revelação" do sr presidente da Apifarma, sem qualquer confirmação. Aliás, ouvimos muitos falsos alarmes ao longo deste processo. Ou não se lembram do favoritismo ser atribuído a Bratislava?

 

De resto, não ouvi quaisquer outros argumentos que atestassem as enormes hipóteses de a candidatura Lisboa ser tão melhor que a do Porto. Pelo contrário, ouvi os habituais desabafos de que "era a capital", a maior cidade", "essas coisas devem ficar onde têm mais representatividade (Sic)", etc. Excepto talvez um: o de que Lisboa teria mais linhas aéreas. É um facto. Mas para além do aeroporto de Pedras Rubras apresentar melhores condições, é bom lembrar que a supressão de várias e importantes linhas aéreas do Porto partiu daquela empresa que não sabemos se é pública ou privada chamada TAP, com explicações frouxas e atabalhoadas.

 

Por outro lado, há um argumento que se não é exclusivo, joga pelo menos com bastante força contra a candidatura de Lisboa: o facto de já lá haver duas agências europeias. Só uma cidade tem mais do que duas: Bruxelas. Tirando a "capital da UE", e na possibilidade remotíssima de ganhar, Lisboa tornar-se-ia a única cidade com três agências, o que seria uma caricatura chapada do centralismo à portuguesa.

 

Assim sendo, explica-se melhor a atitude do governo, que depois de escolher Lisboa, mudou subitamente para a candidatura do Porto: sabia-se que nem uma nem outra teriam quaisquer hipóteses. E tentou-se assim dar uma aura de descentralização de fachada. Mais penoso ainda: viram-se deputados, como Catarina Martins, a retorquir que o facto de outras cidades, como o Porto, Braga e Coimbra não serem também candidatas era um ultraje, depois de eles mesmo terem votado em Lisboa.

 

Mas talvez estas discussões e estas candidaturas tenham trazido algo de bom: tal como aconteceu com o Festival da Eurovisão (que ficou, e muito bem, no Parque das Nações), discutiu-se para que cidade portuguesa determinado organismo/evento internacional viria, embora só depois de se emendar a mão à simples escolha de Lisboa, apenas porque sim, sem mais. É uma atitude saudável que doravante terá de fazer parte das escolhas dos decisores políticos. O resultado final pode perfeitamente ser Lisboa, mas que haja uma avaliação e um debate prévio sobre a matéria em questão. Senão arriscamo-nos a ficar sempre tão centralizados como a Hungria ou a Grécia. Ou talvez nem isso: é que a Grécia conta com três agência europeias e nenhuma delas sequer fica em Atenas. Afinal é bem verdade que Portugal não é a Grécia.

 

Já agora, se me permitem, ficou-se a saber que a desconcentração de serviços é uma tarefa hercúlea. Não sei se a mudança da administração e de parte dos trabalhadores da Apifarma de Lisboa para o Porto se justifica e a que títulos. Também não acho, nem nunca achei, que desconcentrar fosse tirar de Lisboa e colocar no Porto, como se a grande falha não fosse litoral/interior. Mas ao ver os queixumes e as reclamações com o "triste destino" dos trabalhadores, que, horror, podem até ter que ir trabalhar para o Porto, não posso deixar de pensar nos milhares e milhares que ao longo de gerações tiveram que abandonar as suas raízes e as suas famílias e migrar para a capital e para os seus subúrbios crescentemente lotados, sem que nunca ninguém tivesse elevado a voz para os defender nem para contestar a sua migração quase forçada. Talvez agora se comece a pensar nisso.

O prémio de consolação.

Luís Menezes Leitão, 21.11.17

Aqui está o prémio de consolação pela iniciativa falhada de Rui Moreira. Já que o Porto não consegue ganhar a candidatura à Agência Europeia do Medicamento, dá-se-lhe desde já a Agência Portuguesa do Medicamento, ou seja, o Infarmed. Quanto às centenas de funcionários que o Infarmed tem, eles que se preparem para se mudar de armas e bagagens para o Porto ou fazer diariamente 300 km para ir para o trabalho.

Síntese de uma derrota anunciada

Diogo Noivo, 21.11.17

Sobre a candidatura do Porto à Agência Europeia do Medicamento, Rui Moreira disse que o importante era “o Porto demonstrar que faz parte de um núcleo restrito de cidades capazes”. Vaidade, portanto.

O Governo, em vez de fazer o possível para garantir a vitória, cedeu ao umbiguismo de bairro. O percurso da coisa foi bem traçado pelo Pedro Correia através de títulos de notícias que, vistas como um todo, são uma espécie de anatomia de uma derrota auto-infligida.

O que era evidente para muitos foi sempre negado. Principalmente a partir do Porto. Na Invicta, Ricardo Valente, vereador no município, fez o papel de Muhammed Saeed al-Sahaf: “Porto tem melhores condições que a cidade de Lisboa”; o Porto tem “condições únicas”; “estamos muito bem posicionados”. Como escreveu o Luís Menezes Leitão, a Agência Europeia do Medicamento está numa capital europeia e o seu novo destino será também uma capital europeia. Vale o que vale, mas Lisboa era o destino preferido pelos funcionários desta agência.

Para que não se pense que isto são contas de política interna, de opositores do Governo, leia-se o artigo que o Politico dedica ao assunto.

Uma odisseia para lugar nenhum

Pedro Correia, 20.11.17

 

7 de Junho:

Agência do Medicamento: Governo defende candidatura de Lisboa. "É a cidade que oferece mais condições", garante Augusto Santos Silva.

 

8 de Junho:

Rui Moreira exige explicações do Governo sobre exclusão do Porto na candidatura a sede da Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Junho:

Governo escolhe Lisboa para candidatura a Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Junho:

BE critica Governo por candidatar Lisboa para acolher Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Junho:

Petição pública sobre a Agência Europeia de Medicamentos: "Não ao Centralismo!"

 

15 de Junho:

Agência Europeia do Medicamento: Rui Moreira diz que nunca foi contactado.

 

15 de Junho:

"Fonte oficial" revela que Costa defendeu até ao limite candidatura do Porto à Agência Europeia do Medicamento.

 

16 de Junho:

Lisboa em 15.º lugar para acolher a Agência Europeia do Medicamento.

 

29 de Junho:

Governo aprova integração de representantes do Porto na comissão de candidatura para Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Julho:

Governo escolhe Porto para candidatura a Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Julho:

Maioria dos quase 900 funcionários da Agência Europeia do Medicamento preferia Lisboa.

 

31 de Julho:

Agência do Medicamento: troca de Lisboa pelo Porto pode penalizar candidatura.

 

10 de Outubro:

Porto está nos cinco favoritos para acolher Agência Europeia do Medicamento, segundo estudo encomendado pela Associação Comercial do Porto.

 

17 de Novembro:

Porto em vantagem para acolher Agência Europeia do Medicamento, assegura ministro da Saúde.

 

20 de Novembro:

Porto não fica com a Agência Europeia do Medicamento.

 

20 de Novembro:

Agência Europeia do Medicamento fica em Amesterdão.

 

O grande vencedor?

João Pedro Pimenta, 02.10.17

 

Ao ver as capas dos jornais, dir-se-ia que o grande vencedor destas autárquicas é Fernando Medina. Que é o PS no seu conjunto não restam quaisquer dúvidas e só alguém muma dimensão paralela o poderá negar. Que Medina ganhou também não. Mas ser o grande destaque? Medina perdeu a maioria absoluta e 9% em relação a há 4 anos, mas parece que todos se esqueceram disso (e Assunção, sem o PSD, apenas juntando o PPM ao CDS e MPT, teve quase tanto como Fernando Seara em 2013). Além do mais, teve todas as facilidades e mais algumas, entre apoios, divisão dos adversários, boas notícias para o Governo, etc. Entretanto, Rui Moreira não só voltou a ganhar... como subiu até aos 44% e conquistou a maioria absoluta. Teve um caminho muito mais espinhoso, não tinha os meios nem os apoios que Medina teve, em termos de partidos apoiantes só contava com o CDS e o MPT a seu lado, e para mais, até as sondagens lhe foram adversas - as mais favoráveis ficaram aquém do resultado real. No entanto, parece que a única matéria de destaque é o seu discurso. E o PS, que teve um extraordinário resultado no Grande Porto (tirando a perda de Vila do Conde), fica arredado da governação da cidade por culpa do pecado da gula da sua direcção nacional. Ao mesmo tempo, o PSD, que até há 4 anos governou esta cidade com maioria absoluta, teve um resultado irrisório. E diga-se o que se disser das crí­ticas de Moreira, a culpa não cabe só a Álvaro Almeida, que realmente, e para o bem ou para o mal, não tem um perfil muito político. Por outro lado, os partidos mais à esquerda tiveram também fracas percentagens: a CDU por pouco ficava pela primeira vez fora do executivo. Talvez seja a altura de se ir renovando, pese o bom currículo de Ilda Figueiredo. O BE subiu um bocadinho, mas como sempre ficou fora. Pela 4ª vez, Teixeira Lopes ficou à  porta da vereação. Também aqui deviam pensar em fazer algumas mudanças, até porque dá ideia que o Bloco no Porto só tem actores ou sociólogos.

 

Ainda sobre as sondagens e seus erros: trabalhei muitas vezes para as sondagens do CESOP da UCP, de urna às costas ou de computador à  ilharga, por terras remotas e por subúrbios que desconhecia. Conheço os métodos rigorosos que utiliza, e por isso é que as suas previsões são as mais certeiras (foram os únicos a prever o triunfo de Moreira há 4 anos, e também os primeiros a prever a revalidação da maioria cavaquista em 1991). Desta vez, ao dar empate com o PS, falharam redondamente. Prova-se que as crí­ticas de Moreira tinham razão de ser. Espero que tenha sido um percalço sem continuidade e que voltem ao rigor e exigência que sempre tiveram.

 

Foto de João Pedro Pimenta.