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Do politicamente correcto

por jpt, em 10.12.19

'The Fowl Market' (El mercado de las aves), de Frans Snyders.

Este quadro, o "A Venda Avícola" de anónimo do estúdio de Frans Snyders (escola flamenga, de XVII), estava exposto numa cantina da Universidade de Cambridge. Grupos de vegetarianos reclamaram, pois sentiram as suas sensibilidades ofendidas [notícia no El País]. E como tal foi retirado.

Depois há quem diga que o epíteto "politicamente correcto" é mera ficção de "direita". Quem não conseguir articular este desvario com coisa tais quais a ofensa do falecido Krus Abecassis contra o "Je vous salue, Marie" ou a censura ao "Pato com Laranja" - ou o apelo à censura à blasfémia feito pelo padre Boff, nisso "contextualizando" os assassinatos dos membros da "Charlie Hebdo", algo então logo saudado por ene intelectuais ex-PCP -, anda um bocado mal-alimentado.

Quanto a este espírito "progressista" dos "comunitaristas" anglófilos que a "esquerda" lusa, via Brasil, quer importar, dou eco a um pequeno episódio que me contou uma jovem que conheço algo bem: tendo ido  há meses estudar  para uma universidade inglesa foi-lhe perguntado, para inscrição na sua ficha individual (não foi um inquérito anónimo, para conhecer o universo em causa): 1) (resposta facultativa) orientação sexual; 2) (resposta obrigatória) religião [aquilo que a modernidade foi transformando em questão privada]; 3) (idem) origem "etno-racial": à qual tinha como opções mais "próximas" coisas como "galesa", "irlandesa" e outros pormenores tradicionalmente britânicos ou "other white ethnic background" ... Assim mesmo, "white ethnic" ...

Depois, quando um tipo minimamente informado tem frémitos de pontapear esta esquerdalhada trôpega, em particular socioantropólogos/historiadores encartados que teriam obrigação (em particular se funcionários públicos remunerados pelos impostos para funções que têm como ToR a actividade de pensar), de se afastarem deste lixo, é dito "mau-feitio", "ressabiado" ou coisas quejandas. 

Não há paciência para esta gente.

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Quando te digo para não cederes ao politicamente correcto não estou a ser o tal pai apenas velho e reaccionário, que decerto pareço. E não, não estou a ser apenas o tal pai que despreza, visceralmente, a turba de demagogos - quantos deles meu colegas antropólogos ou similares - sequiosos dos financiamentos socratistas ou quejandos, viçosos na estufa do "Choupal até à Lapa", de Telheiras ao Bairro Alto, e tão loquazes na defesa da "tolerância" e no ataque a nós-todos, "brancos" "ocidentais" (excepto eles próprios, porque homossexuais aka gays, guevaristas, "genderistas" ou tralhas semelhantes).

Quando te digo para não cederes ao politicamente correcto é para que possas pensar o mundo, nele actuar ou apoiar. Com sentido crítico. O que implica tino, imenso tino. E independência dos financiadores, burocratas estatais quase sempre.
 
E digo-te isto, comovido e até um pouco aflito - apesar do mim-mesmo que se vê rude pois experimentado, nada atreito a histerismos, mas pai -, ao ler esta notícia, a mostrar como aí nas universidades onde andas também vigora esta mentalidade, do medíocre e torpe "correctismo":
 
 
Minha querida, o problema não é o "Boris", goste-se ou não dele. O verdadeiro problema, horrível, é esta gente, vizinha, colega (até amiga) que faz por incompreender e esconder - por interesse, para ter ganhos económicos e estatutários, nos meneios e trejeitos em que se anima - que "tolerância" é sinónimo de "segurança". Urge afastar-nos deles. Que as polícias, em democracia, cuidem dos escassos guerrilheiros terroristas. E que nós, cidadãos, nos afastemos, combatendo-os, destes colaboracionistas "intelectuais".
 
Um beijo, muitas saudades.

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 25.11.19

 

O castigo de Bernardo Silva e o triunfo dos puritanos (alguém se lembra do tempo em que fomos todos "Charlie"?). De Nuno Amado, na Tribuna Expresso.

 

Inqualificável

por Pedro Correia, em 22.11.19

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Bernardo Silva e Mendy, companheiros e amigos

 

O PS, indo a reboque do Bloco de Esquerda e da deputada do Livre, recusou exprimir solidariedade na Assembleia da República a um dos melhores jogadores portugueses da actualidade, titular absoluto da selecção nacional de futebol, alvo de uma infame acusação de racismo sem o menor fundamento.

Foi um acto de inqualificável cobardia política dos socialistas, talvez com receio de serem apontados a dedo pelos seus companheiros de estrada.

 

Como há dois meses assinalei aqui, Bernardo Silva - que alinha no Manchester City, acaba de ser eleito melhor médio ofensivo do mundo e tem lugar cativo no onze da equipa das quinas com presença garantida no Europeu de futebol - limitou-se a fazer uma piadola no Twitter com um colega de equipa, que é seu grande amigo. Acontece que este colega, o francês Mendy, tem um tom de pele mais escuro do que a do Bernardo: foi quanto bastou para se levantem clamores histéricos contra o internacional português, acusando-o de racismo.

Uma organização denominada Kick It Out apressou-se a exigir a adopção imediata de medidas punitivas contra o «comportamento ofensivo» do nosso compatriota, pressionando a Federação Inglesa de Futebol. E esta cedeu aos clamores da correcção política: Bernardo foi condenado a um jogo de suspensão, ao pagamento de uma multa de quase 60 mil euros e ao cumprimento de um programa comunitário de educação presencial para o descontaminar do putativo vírus racista.

Sublinhe-se que em momento algum Mendy se mostrou ofendido ou apresentou queixa contra o colega.

 

Hoje, no parlamento, PS, BE e Livre cerraram fileiras, recusando o voto de solidariedade com Bernardo proposto pelo CDS. Vários destes parlamentares - sobretudo os socialistas - adoram acotovelar-se nas tribunas dos estádios em aplausos frenéticos à selecção nacional e farão tudo para conseguirem ver in loco os jogos do Europeu, que se disputam em diversas capitais europeias. Alguns, imagine-se, até são comentadores de futebol na rádio e na televisão.

Felizmente para eles, a hipocrisia justifica reparos morais mas ainda não merece censura penal. Ficam assim dispensados de frequentar programas comunitários e de pagar qualquer multa, ao contrário do talentoso futebolista a quem acabam de negar o voto solidário que se impunha. Convicto como estou que nesta matéria pensam inteiramente como eu: é profundamente injusto e vergonhoso rotular Bernardo Silva de racista.

No mundo das novas censuras

por Pedro Correia, em 14.11.19

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1. Censura de imagem. Fotografias de um vulgar e suculento cozido galego - muito semelhante ao nosso, mas com grão - foram banidas do Instagram, por decisão de um anónimo comité censório dessa rede social. Alegação: aquelas imagens de enchidos mesclados com vegetais «infringem as normas comunitárias» pois contêm suposta «violência gráfica e linguagem [visual] que estimula o assédio ou nudez e actividade sexual». Um galego de Vigo, que publicou estas imagens em homenagem ao «primeiro cozido da temporada» em casa da mãe, senhora de aparentes virtudes culinárias, não esconde a perplexidade, alegando ter-se limitado a fotografar os alimentos tal como estavam na travessa. Presume-se que a «violência gráfica» do chouriço e do repolho tenha ferido sensibilidades de alguns devotos das religiões vegetariana e vegana.

 

2. Censura de linguagem. A Air Canada anunciou que deixará de dirigir-se aos passageiros recorrendo ao anacrónico tratamento «senhoras e senhores»: evita assim ferir putativas susceptibilidades de género, designadamente das pessoas de sexualidade «não especificada». Passarão a ser designados, uns e outros, por «toda a gente» em obediência ao novo cânone da absoluta neutralidade de género. Falta saber por quanto tempo, pois esta expressão antropocêntrica promete por sua vez ferir as susceptibilidades de alguns animais.

Gostava de ter escrito isto

por Pedro Correia, em 03.11.19

«Peter Handke ganhou com mérito o Nobel, apesar das suas loas a Milosevic e à turva causa sérvia. Mas, claro, a extravagante exaltação dos genocidas não tem sido esporádica entre os escritores contemporâneos: é quase uma doença profissional, tal como a silicose entre os mineiros. No entanto, se Handke houvesse sido acusado de ter tocado há trinta anos no traseiro da sua secretária sem autorização prévia, ficaria sem o Nobel.»

 

Fernando Savater, no El País (2 de Novembro)

Gostava de ter escrito isto

por Pedro Correia, em 02.11.19

«Aqueles que hoje, em Portugal e no mundo, lutam para culpar os homens, os brancos, os adultos, os ocidentais, os cristãos, os ricos, os heterossexuais, os democratas, os capitalistas e os militares estão evidentemente a tentar criar uma ortodoxia, uma cultura dominante e, sobretudo, a construir um "credo" que permite condenar e proibir, assim como limitar a liberdade de expressão.»

«Por que diabo hei-de perdir perdão aos escravos, aos índios, aos indianos, aos egípcios, aos judeus e aos mouros? É que, se as culpas não foram minhas, são objectivas e históricas.»

 

António Barreto, no Público (27 de Outubro)

Anda tudo doido (2)

por Pedro Correia, em 25.09.19

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«Alguém devia ter caluniado Josef K. porque uma manhã foi detido sem ter feito mal algum.»

Kafka, O Processo

 

Bernardo Silva e Benjamin Mendy são dois grandes jogadores - o primeiro é médio-ala, o segundo é lateral esquerdo. Têm ambos 25 anos. Actuam juntos num dos principais clubes europeus, o Manchester City. Antes haviam sido colegas de equipa no Mónaco.

São não apenas colegas, mas grandes amigos. Como é público e notório.

Acontece que Bernardo, magnífico internacional português de futebol, tem "pele branca" - como se convencionou chamar nestas circunstâncias, com manifesta falta de exactidão - e o francês Mendy tem um tom de pele mais escuro (espero que, escrevendo desta forma, não me caia em cima a fúria justiceira das patrulhas politicamente correctas).

Como é natural entre dois amigos, jovens e bem-humorados, trocam volta e meia umas graçolas nas redes ditas sociais. Acontece que o Bernardo, no Twitter, se lembrou de associar o colega à Conguitos, uma marca de chocolates. O outro respondeu-lhe com aqueles bonequinhos que substituem palavras: três a sorrir, outro a bater palmas - e ainda esta frase, na mesma onda bem-disposta: «1-0 para ti, mas espera.»

 

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Só isto. Mas foi quanto bastou para o jogador português começar a ser inundado de duríssimas críticas nos comentários digitais pelo suposto carácter racista do que havia publicado. Ao ponto de ver-se forçado a apagar tudo. Mas, mesmo assim, sujeita-se a uma investigação do caso pela federação inglesa de futebol, já desencadeada sob pressão de uma organização denominada Kick It Out, que exige a adopção imediata de medidas punitivas. «Os estereótipos racistas nunca são aceitáveis como brincadeira», proclamam estes furibundos diáconos Remédios, assumindo a participação contra o «comportamento ofensivo» de Bernardo Silva junto dos órgãos federativos ingleses.

Passo a passo, dia após dia, vemos cada vez mais condicionada a liberdade de expressão. Com a nova Polícia do Pensamento, acometida de ira castradora, a vigiar as comunicações digitais entre dois companheiros e amigos. De guilhotina já montada e sentença condenatória pronta a exibir, invertendo a presunção da inocência e negando o direito ao contraditório. A presunção é sempre de culpa - sobretudo se o prevaricador for homem, ocidental e de pele "branca". E a gama de temas interditos vai-se ampliando, num afã de guardiães da fé, até aos confins do impensável. Como em tempos ancestrais, a desobediência ao dogma é hoje pior que um crime: é um pecado.

Apetece escrever, parafraseando Álvaro de Campos: come chocolates, Bernardo, come chocolates. Mas nada de Conguitos: só chocolatinho branco. Enquanto a brigada dos bons costumes permitir.

Anda tudo doido

por Pedro Correia, em 22.09.19

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O senhor Trudeau, que era até agora o ai-jesus das moçoilas casadoiras e almas sensíveis de todos os géneros, transformou-se num monstro racista. O que pode até custar-lhe o posto máximo da política no Canadá.

Por ter sido caçado num esquema de corrupção? Por ter fugido ao fisco? Por ter atropelado alguém quando conduzia embriagado? Por ter insultado uma namorada em mil novecentos-e-troca-o-passo? Por ter fumado (inalando) crack num Conselho de Ministros? Não: por ter surgido disfarçado de Aladino numa festa académica do ano lectivo 2000/2001 no estabelecimento universitário privado onde então leccionava, em Vancouver. Era uma festa temática, alusiva às Mil e Uma Noites, e o imberbe Trudeau, então com 29 anos, enfarruscou a cara para parecer mais credível na fatiota de Aladino.

 

Eis o que anda a turvar as águas da política canadiana, em plena campanha eleitoral, provocando palpitações de indignação no agora minguado clube de fãs do fotogénico governante. Não faltam turbas a uivar: Justin Trudeau é acusado de racismo retroactivo por ter enfarruscado o rosto - a prova terá ficado à vista com a divulgação, nas redes ditas sociais, de uma foto comprovativa da sua aparição como Aladino na referida festa. Bem acompanhado, por sinal.

O clamor foi de tal ordem que o chefe do Executivo canadiano já se viu forçado a implorar perdão: «Peço desculpa aos canadianos pelo que fiz. Não devia ter agido assim e assumo a responsabilidade.» Penitente, só lhe falta andar com um cordão de cilícios amarrado à cintura.

Apesar deste humilhante acto de contrição, os seus rivais na campanha eleitoral não lhe perdoam. «Isto [a foto] comprova que ele não tem capacidade para governar o país», disparou o líder do Partido Conservador, Andrew Scheer. Enquanto a candidata do Partido Verde, Elizabeth May, se confessava «profundamente perturbada» por aquela imagem inequivocamente «racista». Ele e ela de olhos postos nas legislativas de 21 de Outubro.

 

Leio as notícias e concluo: anda tudo doido.

A disseminação do rótulo "racista", colando-o a tudo quanto mexe, serve apenas para branquear o verdadeiro racismo. Como, noutros tempos, não faltava quem chamasse "fascista" a quem exprimisse uma opinião contrária, acabando por deixar incólumes os genuínos fascistas. Tal como a equiparação do piropo a uma "agressão sexual", como urravam as papisas mais façanhudas do "Me Too", contribuiu em larga medida para desacreditar este movimento ao confundir estupidamente cortejadores com predadores.

Só estes acabam por beneficiar com tão tonta confusão. 

 

Este vendaval de loucura nada mansa que perpassa aí, em nome dos bons costumes, a multiplicar atestados de excomunhão aos políticos contemporâneos, putativos culpados de supostos pecados alegadamente cometidos noutras décadas ou noutro século, arrisca-se a produzir perigosos tiros de ricochete.

Um gesto, uma palavra, uma fotografia com dez, vinte ou trinta anos basta hoje para ameaçar ou abortar uma carreira governativa, por mais promissora que pareça. Este policiamento obsessivo, em regra, é comandado por patrulheiros órfãos de ideologias totalitárias que mudaram de cartilha mas não de sectarismo e concebem a política como um convento reservado a almas imaculadas. Isto só pode produzir péssimos resultados no dia em que as pessoas comuns se fartarem destas zelotas armadas em virgens pudibundas: aí elegerão o mais politicamente incorrecto que aparecer, seja em tarde de sol seja em manhã de nevoeiro.

Como o futuro próximo demonstrará.

Contra a tentação da carne

por Pedro Correia, em 18.09.19

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Pensava eu que uma universidade era um espaço de liberdade. Afinal não: é um espaço de interdição. Mais de meio século após a proclamação de Maio, que proibia todas as proibições, eis que a reitoria coimbrã, confundindo a academia com uma creche, restabelece a velha ordem com novos rótulos, tratando estudantes adultos como membros de um rebanho pastoreado pelos tele-evangelistas de turno que anunciam pragas bíblicas a quem ceder à tentação da carne.

«Razões ambientais» estarão na origem da decisão de eliminar o consumo da carne de vaca nas 14 cantinas a cargo da academia coimbrã, que se ufana assim de ser a «primeira universidade portuguesa neutra em carbono». Eis ao que chegámos: à universidade "neutra", onde a unicidade impera e os mais recentes dogmas em matéria de pureza alimentar são aceites sem um assomo de rebelião juvenil. «Vivemos um tempo de emergência climática e temos de colocar travão nesta catástrofe ambiental anunciada», anuncia com requintes de terror milenarista o douto reitor, Amílcar Falcão. Não podia ter retórica mais adequada nem apelido mais propício ao aplauso do partido animalista.

Os puritanos norte-americanos na década de 20 impuseram a Lei Seca. Agora os mastigadores de rúcula cá do burgo, com igual fúria proibicionista, pretendem impor com força legal os seus hábitos alimentares invocando - como os prosélitos de qualquer fé - o primado da moral pública, que se quer descontaminada e sã. Nada de novo debaixo do sol. Só me espanta o silêncio resignado - ia a escrever bovino - das associações de estudantes de Coimbra. Comem (algas e tofu) e calam. O que vai seguir-se? Substituição compulsiva da cerveja por água da bica? Imposição de cintos de castidade em material biodegradável? Recolher obrigatório para cumprir as horas de sono que as normas sanitárias recomendam?

Os basbaques erguem hossanas em louvor ao "progresso" contido nas novas tábuas da lei. Muitos totalitarismos começam assim: com caução "científica" e proselitismo higienista em nome de um ideal de pureza, sem um sopro de contraditório. Nunca é de mais recordar que o maior tirano que o mundo conheceu era vegetariano militante, muito amigo dos animais e quis impor o seu padrão alimentar ao mundo inteiro.

O consumo e a leitura de jornais tem caído imenso, como o Pedro Correia tem referido amiúde neste espaço, e não é só o modelo em papel. As redes sociais ocuparam grande parte do seu lugar e ameaçam a imprensa tradicional. É algo preocupante, porque a informação torna-se selectiva, superficial, quando não falsa, reduzindo-se a títulos ou a agit-prop, e mesmo que a imprensa não seja isenta, ao menos sabemos quem escreveu os artigos e quem responsabilizar. O problema é que os jornais também não fazem grande esforço para a sua credibilização e continuam a cavar a sua própria cova.

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Miguel Sousa Tavares escrevia há dias no Expresso, com mira afinada e não pela primeira vez, que o Público se tem tornado numa tribuna por excelência do politicamente correcto. E não é preciso procurar muito para provar até que ponto isso é verdade. O diário fundado por Vicente Jorge Silva, que tão bons trabalhos já proporcionou aos seus leitores, estafa-se em colocar artigos parciais sobre as novas questões fracturantes. O suplemento semanal Y e demais páginas culturais passam o tempo a apresentar os novos valores feministas, trans, negros, etc, vindos em grande parte do Brasil, e "que estão a mudar a face da música", mas quando se quer ver a crítica a um filme acabado de chegar, ou, como procurei em vão, a um festival pop-rock como o de Vilar de Mouros, é o vazio total.

Nos últimos tempos é a defesa da "diversidade de género" que o jornal da SONAE tem empreendido, qual Duarte de Almeida a defender o pendão real em Toro. No dito Y, no dia 30 de Agosto, logo na segunda página, vemos um dos guardiões mais encarniçados destas questões, António Guerreiro, a falar da ideologia "atávica e obscurantista" que condena a ideologia de género (que curiosamente não considera uma ideologia, colocando-a entre aspas). De resto, os inúmeros artigos publicados no jornal sobre o assunto falam sempre dos seus opositores com um tom de mal disfarçado desprezo e dão apenas a palavra à parte contrária, normalmente os prestimosos especialistas em diversidade de género, uma disciplina que parece que tem boas saídas de emprego, além de artigos de opinião semanais de representantes do Observatório de Justiça, do professor Boaventura Sousa Santos, como uma investigadora de seu nome Ana Cristina Santos, que neste exemplo cabal acusa Ricardo Araújo Pereira de "ridicularizar a inclusão social na linguagem", de "defender o pendor autoritário do senso comum", porque "se há pessoas que se sentem excluídas pelo uso do universal masculino... considerandos estéticos deixam de ter cabimento". Ou como alguém, se se sentir incomodada com a língua, esse mero "considerando estético", pode exigir a sua mudança. A autora até ajuda e dá como exemplo o "tod@s" ou "tdxs" como linguagem inclusiva. Ou seja, a "inclusão" não é mais que um uma novilíngua infantil que desvirtua algo que devia ser superiormente protegido, mas que para alguns não passa de "considerandos estéticos". Já se sabe, nada de ideologia.

Nas últimas semanas tem sido um sem fim de artigos que referi em cima. Podia ser uma discussão proveitosa se se colocassem dois pensamentos e dois grupos de argumentos e confronto, mas não. Neste outro artigo lá vem a costumeira reportagem com "os jovens do futuro", em que avulta um rapazinho que critica os professores «que partem do princípio que os alunos são todos homens "cis"», e que "as associações de estudantes deviam representar as lutas sociais dos estudantes negros, comunidade LGBT ou questões feministas... sem qualquer tipo de preconceito ou conservadorismo". O jovem é identificado como militante do Bloco, coisa bastante crível dado o tipo de linguagem e de causas. Mas é pena que o jornal, uma vez que lhe dá voz, não lhe pergunte se as associações não deviam defender todos os estudantes, e não apenas as minorias que o BE estabelece (que podem nem existir em tantas escolas), ou se não percebe a contradição de, achando que não deve haver "conservadorismo", como se não pudesse haver estudantes conservadores, isso ser um preconceito da sua parte.

Por fim, mais uma peça apresentada quase como um estudo, mas mais uma vez apenas com uma parte, sobre a questão "há ou não ideologia de género", a que o jornal generosamente responde que não, recorrendo de novo a uma parte da barricada, que acusa todos os que acham que se trata realmente de uma ideologia de serem "uma sombra... que ameaça direitos das pessoas LGBTI, saúde sexual e reprodutiva das mulheres e estudos de género". Nada de novo, excepto talvez uma maior radicalização da linguagem. Mas aqui expõe-se tremendamente. É que o artigo online é só para assinantes, mas na versão em papel pode-se ler, mesmo no fim, que "as despesas da viagem foram pagas pela ILGA-Europa. 

Sim, isto é um problema. Ao aceitar ser custeado por uma organização que tem todo o interesse que o jornal escreva aquilo só com a "sua" versão, o Público prostitui-se declaradamente. Não está a apresentar um artigo de discussão, ainda que pendendo mais para um lado, mas a sua verdade com a patrocínio de uma entidade externa longe de ser neutra.

Assumir posições políticas inequívocas é não só aceitável como desejável. Os leitores sabem ao que vão. Em Portugal, como é sabido, a maioria dos jornais não assume qualquer posição política, à excepção dos jornais partidários, como o Avante!, ou de uma ou outra publicação, como o extinto Independente. Mesmo o Observador, claramente à direita, é muito ambíguo no seu estatuto editorial. O Público sempre pendeu para uma esquerda moderada. Porque estará tão freneticamente empenhado agora em questões tão ostensivamente fracturantes? Vontade de agradar a um certo público? Seja o que for, só contribui para que se diga que tem uma agenda política mal disfarçada, porque aparentemente tem mesmo - e como é sabido, o termo "agenda" hoje em dia é entendido de forma pejorativa, como uma conspiração maléfica.

Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Os jornais ou se assumem ou então que deixem de ser tão explicitamente implícitos, sobretudo em questões que não são pacíficas. E é por coisas como estas, como diria Manuel Alegre, que aparecem os Bolsonaros. Prontos a apoucar a imprensa e a espalhar sem filtro tudo o que lhes sirva nas redes (as)sociais fora.

Tempos difíceis

por Pedro Correia, em 29.08.19

Vivemos tempos difíceis. A todo o momento temos gente a policiar os nossos gestos, os nossos olhares, as nossas palavras, as nossas expressões de escárnio ou de enfado, os nossos hábitos alimentares.

As patrulhas andam aí. Mais ferozes e autoritárias que nunca. Tratam-nos como se vivêssemos em regime de internato, impondo os dogmas da correcção política com fúria punitiva.

Devemos falar como elas falam, comer o que elas comem, desfraldar as mesmas bandeiras, idolatrar os mesmos ídolos. Só assim receberemos atestados de idoneidade que nos salvaguardam do banimento cívico.

 

Vale-me a prosa iconoclasta e dissolvente de Aquilino Ribeiro, que frequento por estes dias, em elegias constantes à boa mesa e à boa cama.

Em trechos como este:
«Estavam de morrer por mais, os infalíveis bolinhos de bacalhau sobre o vinagre, e digno de D. João VI, grande papa-frangos, o polho de grão assado no espeto. Comeram e untaram a barbela, fazendo-lhes dignas honras um palhetinho alegrete e gajeiro de Leitões, colheita do Corregedor

E este:

«O que mais lisonjeia a mulher de parte dum homem em matéria de finezas é que ele a deseje. Desejada de lábios contra lábios, de braços nos braços, de poros nos poros a comunicarem-se toda a lia de que é feita a atracção universal.»

E mais este:

«Capaz de todas as tontarias, sabia por experiência o perigo que há em esbarrar quer na timidez improdutiva quer na audácia espalha-brasas, situações por igual contraproducentes no plano da sedução. Sempre tivera uma certa confiança em si e na imperiosidade de que se acompanham as leis da natureza. Não é que tudo entre homem e mulher se reduz a sexo?»

 

Parágrafos recolhidos desse magnífico romance que é A Casa Grande de Romarigães, esplendoroso tributo à língua portuguesa.

Se escrevesse hoje, estava mestre Aquilino bem tramado.

Penso rápido (94)

por Pedro Correia, em 13.08.19

Os sintomas são iniludíveis: rumores transformados em factos, diz-que-disse alastrando como vírus ou bactéria, a lenda impressa em vez do facto. Traições, facadas nas costas, hipocrisia a rodos - um estendal de miséria humana. Sempre os melhores fins a justificar os piores meios.

Punir antes de condenar, condenar antes de julgar, julgar antes de acusar, ouvir apenas uma das partes: a negação do que deve ser a justiça. É quanto basta para erguer novos pelourinhos em nome de excelentes causas pervertidas até aos limites da abjecção.

Quem aplaude a caça às bruxas contra Woody Allen, por exemplo, é marioneta pronta a servir de pasto a qualquer totalitarismo.

Hoje, em grande parte do mundo ocidental, há menos liberdade e menos democracia do que existia entre as décadas de 70 e 90. Estamos cercados de novos tabus e proibições de todo o género em nome de dogmas identitários. Como o recente caso da interdição total de cartoons no New York Times - que costumava ser um dos faróis mundiais da liberdade de imprensa - bem demonstra.

Todos de bico calado, para evitar anátemas dos diáconos da correcção política que policiam palavras, gestos e comportamentos. Chamem-lhe o que quiserem para disfarçar, mas isto não é mais do que a ressurreição dos velhos censores. Com a agravante de estes agora nem terem a frontalidade de se assumirem como tal.

Nos dias que se seguiram ao horrível massacre do Sri Lanka, ou Ceilão - acho sempre que certas palavras ficam melhor em português - voltou à baila o assunto das perseguições de que os cristãos têm sido alvo. O Público, por exemplo, debruçou-se sobre o assunto, através de artigos próprios ou dos seus colunistas. Outros órgãos de informação também o fizeram. E de alguma forma está ligada à profanação ou vandalização de inúmeras igrejas na Europa (a que alguns abusivamente quiseram colar o incêndio em Notre Dame, sem quaisquer provas, ou ligá-lo de imediato a muçulmanos quando se sabe que boa parte destes actos tem mão em supremacistas brancos neopagãos). É uma discussão importante e até urgente, mas temo que com o correr dos dia e a sucessão de novos factos comece a ficar novamente para trás. 

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Uma das coisas que me impressionam quando se fala em vítimas e fobias é a quase completa ausência de termos que o definam quando se trata de cristãos. Sobre isso escrevi num dos meus primeiros artigos aqui no Delito, e constato que a palavra "cristofobia" - ou cristianofobia, como quiserem - continua a não ser usada (também não havia de ser por causa do post). Em compensação, usa-se e abusa-se dos termos "islamofobia" e "anti-semitismo", apenas dirigido a actos anti-judeus. Afinal de contas porque é que se fala tão pouco em cristofobia? Continuará a ser por aquela tonta e estafada complexo de culpa ocidental, ao qual o cristianismo é colado? Mas então porque são na sua grande maioria comunidades cristãs antiquíssimas do Próximo Oriente e África a apanhar com as bombas e os estilhaços? E aqueles pobres cristãos do Níger, mortos em retaliação às caricaturas do Charlie Hebdo, que ligação tinha uma coisa com a outra? Poderá a auto-censura que é o politicamente correcto estar a silenciar uma terrível tendência da actualidade?

 

Nem de propósito, voltei aqui também por causa de mais uma imbecilidade do politicamente correcto, por uma vez a proteger Donald Trump. O New York Times tinha publicado um cartoon do bem conhecido (entre nós) caricaturista António, do Expresso, onde retratava Trump, cego e de kipá na cabeça, guiado por um Bibi Netanyahu em corpo de cão e com a estrela de David na coleira, como identificação da personagem, sem pedir autorização nem informar o desenhador. A imagem é pouco subtil e tem o seu quê de patético e de insultuoso, como tantas outras deste autor, mas não é das piores que se tem visto. Pois perante uma coro indignado com o "antisemitismo" da caricatura o conhecido jornal novaiorquino decidiu suprimi-la, pedir desculpas e "lamentar a sua publicação". Ou seja, autocensurou-se com a "indignação" (outra das modas contemporâneas) não assumindo os seus actos. Não sei se o New York Times se juntou áquela encenação do "Je Suis Charlie"; se sim, bem podia voltar a pedir desculpas e "lamentar o acto", já que o sabe fazer tão bem. Mas pergunto-me, caso se tratasse de outro conhecido "trabalho" de António, os estapafúrdios desenhos dos Papas com preservativos,  o New York Times cederia tão rapidamente como aqui? Ou defenderia aqui a liberdade do autor? Tenho as maiores dúvidas que fosse a segunda hipótese, como deveria ser, mesmo achando os desenhos em questão uma mistura de mau-gosto com hipocrisia.

O meu aplauso

por Pedro Correia, em 25.04.19

A estas palavras (e à atitude) da Zélia Parreira. A propósito da retirada do Capuchinho Vermelho e d' A Bela Adormecida do catálogo de obras infantis de várias escolas públicas de Barcelona por alegado conteúdo «sexista»:

«Na Biblioteca Pública de Évora continua a estar disponível. Temos várias versões e exemplares. A liberdade de expressão e de pensamento são valores fundamentais e demasiado preciosos para serem postos em causa desta forma. Ninguém obriga ninguém a ler estas obras, mas, no que depender de mim, jamais permitirei que a sua leitura seja proibida.»

 

Aplauso ainda mais reforçado num dia como o de hoje.

Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 23.12.18

 

É politicamente correcto escrever "politicamente incorreto".

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

Quem não tem cão caça com PAN

por Pedro Correia, em 13.12.18

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O PAN, justamente preocupado com possíveis situações de stress psicológico causadas aos bichinhos pelos ancestrais provérbios populares desde sempre ligados à tradição portuguesa, vem agora recomendar que ponhamos de parte este péssimo hábito e passemos a dizer expressões alternativas, tais como «pegar na flor pelos espinhos» em vez de «pegar no touro pelos cornos».

Não posso estar mais de acordo com esta iniciativa fracturante do partido animalista. Venho, portanto, propor aos leitores do DELITO propostas de provérbios alternativos que não configurem situações de injúria ou difamação dignas de traumatizar os animaizinhos. 

E adianto, desde já, duas alternativas da minha lavra: «Quem não tem cão caça com PAN» e «A PAN dado não se olha o dente».

Façam o favor de deixar aqui as vossas sugestões.

Ab amore Dei

por Pedro Correia, em 26.10.18

Acabo de ouvir a Filomena Cautela dizer "por amor de Deus" no 5 para a Meia Noite, da RTP. Ainda antes da meia-noite, o que torna a coisa mais grave. Àquela hora estavam certamente criancinhas a ouvir. E as criancinhas devem ser poupadas a expressões eventualmente traumáticas como esta.

Bem sei que o programa tem bolinha no canto superior direito do ecrã. Mesmo assim, trata-se de algo inaceitável num Estado laico. Expressões de conteúdo teológico deviam ser rigorosamente interditas no canal público. Que esperam o Conselho de Administração, o Conselho de Opinião e o Conselho Geral Independente da RTP para aprovarem um Index Verbis Prohibitorum que possa prevenir tais despautérios?

Os novos censores andam aí (7)

por Pedro Correia, em 03.04.18

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O feminismo mais radical e misândrico (por militar sem complexos na misandria) anda aí à solta, de asas ao vento, tentando impor os seus dogmas e a sua cartilha proibicionista. Ei-lo aqui bem exposto num  Breve decálogo de ideias para uma escola feminista - elaborado por duas "pedagogas" ligadas às Comissões Operárias, a maior central sindical de Espanha.

 

O que recomendam tão virtuosas senhoras? Proibir o futebol e "outros jogos competitivos" nos recreios escolares. O fim da separação entre lavabos masculinos e femininos nos estabelecimentos de ensino, crivados de "sexismo". E a mudança imediata de nomes dos centros educativos, "eliminando todos os que sejam católicos ou façam referências a militares, políticos ou juristas", substituindo-os por "nomes de mulheres representativas do movimento feminista".

Mas não ficam por aqui: querem também impor a leitura de obras escritas por mulheres, integrando-a numa estratégia para "feminizar a história da arte e da cultura". E destacam as suas autoras de eleição: Virginia Woolf (que elas escrevem "Wolf), María Zambrano, Emily Dickinson, Marta Sanz, Jeannet Winterson, Ali Smith, Clarice Lispector (que elas escrevem "Linspector"), Sarah Waters, Alice Walker, Margaret Atwood e Alice Munro.

Vão mais longe, recomendando que os programas escolares passem a incluir "pelo menos tantas mulheres filósofas como homens filósofos". Exemplos: Marina Garcés, Judith Butler, Donna Haraway, María Zambrano, Hipatia de Alejandría, Mary Wollstonecraft, Hannah Arendt, Chantal Mouffe. 

 

Cereja em cima do bolo: "eliminar livros escritos por autores machistas e misóginos" dos planos de leituras escolares. Proibição total das obras de Arturo Pérez Reverte e Javier Marías, e os Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, de Pablo Neruda, Nobel da Literatura. Além de denunciarem a "faceta misógina" de filósofos como Kant, Nietzsche e Rousseau - "entre outros".

Uma destas "pedagogas" apresenta-se como "artista, investigadora e educadora". A outra é professora da Faculdade de Educação da Universidade Complutense de Madrid. Ambas com férrea vocação censória. Mas estão muito longe de serem vozes isoladas. No dia em que mandarem, proíbem quase tudo - excepto os sanitários mistos.

Confesso-me nada interessado em perceber porquê.

Frases de 2017 (34)

por Pedro Correia, em 30.08.17

«O Boletim de Saúde Infantil e Juvenil sempre foi cor-de-rosa para as meninas e azul para os meninos e nunca ninguém reclamou.»

Mário Cordeiro, pediatra, em entrevista ao Expresso


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