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Sem ética de responsabilidade

por Pedro Correia, em 29.11.18

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Faz hoje dez dias, um troço de cerca de 100 metros de uma estrada confiada à guarda das entidades públicas - neste caso, a Câmara Municipal de Borba, sob a vistoria e supervisão da Direcção-Geral de Energia e Geologia e do Instituto da Mobilidade e dos Transportes - abateu tragicamente, sobre uma ravina de cerca de 80 metros que tinha sido cavada, junto a ambas as bermas, por empresas extractoras de mármore. O acidente - se é que podemos chamar-lhe assim - provocou a morte de cinco pessoas. Por mera sorte, não se registaram mais vítimas mortais: o abatimento ocorreu ainda sob luz solar e num momento de trânsito reduzido nesta via que ligava Borba a Vila Viçosa e onde costumavam circular autocarros escolares, entre muitos outros veículos. Até o cortejo da volta a Portugal em bicicleta ali passara dois meses antes.

Repito: decorreram dez dias. E, uma vez mais, ninguém se demitiu: todos continuam firmes nos seus postos. Apesar de haver sucessivos alertas, que remontam a 2002, de especialistas pertencentes a entidades como o Instituto Superior Técnico ou a Universidade de Évora a alertarem para os graves danos ali gerados por eventuais deslizamentos de terras, potenciados em situações de chuva contínua. Já em 2006 o Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação classificara o local como zona de "alto risco".

Tal como em Pedrógão, quando só outra devastadora série de fogos florestais, quatro meses depois, conseguiu desalojar a ministra Constança. Tal como em Tancos, onde o ministro Azeredo demorou mais de um ano a extrair consequências políticas do furto ali ocorrido e que ainda permanece por esclarecer na totalidade. É um padrão na nossa administração pública: a ética da responsabilidade rumou a parte incerta.

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Leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.08.18

"In politics, you have to wear your choices"

 

"Politicians will often have to choose which of their commitments to prioritise in a given context, and this decision is likely to be conditioned by both the strength of their endorsement and basic strategic considerations. Two key points follow. First, that the refusal to fall victim to wishful thinking about what can be achieved is an epistemic virtue politicians of integrity must display. Second, as the dirty hands literature suggests, good political leaders may often have to act in direct contravention of some of their deepest convictions to avoid serious disasters (Walzer, 2007). Given that political integrity is a matter of balancing the demands of one’s role, and one’s deep commitments, such decisions do not necessarily betray one’s political integrity, because avoiding great disasters is one of the most central role-based obligations at play."

 

Por o tema ser de todos os tempos e não se tratar de um texto muito denso, hoje achei por bem aqui deixar uma pequena sugestão de leitura.

O texto é de Edward Hall, bastante recente, tem por título "Integrity in democratic politics", saiu no The British Journal of Politics and International Relations, 2018, Vol. 20 (2), 395-408, e temos a sorte de o ter disponível em acesso livre. Não sei se assim permanecerá por muito tempo, por isso o melhor é aproveitarem. Os que se interessam pelo tema, obviamente.

Tenho muitas dúvidas sobre as conclusões a que Hall chega, talvez porque eu tenha uma concepção do conceito demasiado antiquada, dirão alguns, ou excessivamente rígida, apostarão outros.

De qualquer modo, serviu para me ajudar a fazer uma reflexão sobre o tema e olhar para hipóteses que nunca me tinham ocorrido. Eventualmente até poderão estar correctas, mas não é isso que por agora importa.

Ler os outros para se aprender e se pensar um pouco melhor é um dos exercícios mais salutares que conheço. E dos mais baratos.  

 

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Os “jogadores” da política

por Alexandre Guerra, em 11.12.17

“Todos os políticos são, em certa medida, jogadores em relação aos acontecimentos. Tentam prever o que vai acontecer para se posicionarem do lado certo da história.” A frase é de Boris Johnson, antigo mayor de Londres e actual ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, que, numa entrevista recente à Fox News, considerou o Presidente americano uma "grande marca mundial" em termos políticos, enaltecendo as capacidades de comunicação de Donald Trump e a eficácia dos seus tweets matinais, por mais “indisciplinados” que possam ser. E se há alguém que percebe de indisciplina enquanto ferramenta de comunicação, é precisamente Boris Johnson, que fez sempre dessa característica um factor poderoso na sua afirmação enquanto político dentro do próprio sistema. Indisciplinado, irreverente, turbulento, Johnson tem feito do choque constante, da provocação permanente, a sua forma de estar na política.

 

Aquele seu cabelo desgrenhado não é um acaso, é um activo comunicacional que “casa” com a imagem que pretende que a opinião pública percepcione dele. Da mesma forma que o charuto de Churchill (de quem Johnson é admirador e a quem dedicou uma excelente biografia de onde foi retirada a citação do início) foi mais um elemento importante na construção da sua imagem enquanto estadista, já que aquele “adereço” representava o espírito do aventureirismo romântico, quase ingénuo, associado aos tempos gloriosos passados na Guerra da Independência de Cuba, em 1895. E à medida que os anos evoluíram, o charuto passou a ser também um símbolo de poder e autoridade. São, aliás, raras as vezes em que o antigo primeiro-ministro aparecia publicamente sem o charuto. A este propósito, algumas histórias que se contam à volta das exigências de Churchill para poder satisfazer o seu vício (também comunicacional) são totalmente disparatadas, mesmo para os tempos da altura. Provavelmente, umas serão mito, outras nem tanto. Seja o charuto de Churchill, o cabelo de Johnson ou as meias de Justin Trudeau (que, intencionalmente, reflectem a jovialidade quase infantil do primeiro-ministro canadiano), são elementos que resultam, em parte, de uma combinação entre aquilo que é genuíno nos políticos e uma dimensão encenada, fazendo parte de uma certa liturgia comunicacional e que parece cativar, cada vez mais, os eleitores.

 

Verdade seja dita que muito antes da ascensão ao estrelato político desta nova vaga de líderes “pop” e populistas, que se enquadram nas novas tendências sociais de um público-alvo cada vez mais urbano e em "rede", já Boris Johnson cultivava a imagem de um político disruptivo na forma de se apresentar, fazendo questão de se fazer transportar em bicicleta pelas ruas de Londres, naquele seu ar de aparente descontração, numa cena tipo hipster, ainda muito antes do revivalismo desta tendência. Quando se tornou mayor da City, há quase dez anos, a sua imagem rompia com tudo aquilo a que estávamos habituados a ver num político de topo. Quase que parecia um ser exótico, para não dizer excêntrico, embora estivesse longe de ter a exposição mediática internacional que alcançaria mais tarde.

 

Se, hoje em dia, o "número" da bicicleta é irrelevante e as meias coloridas de Justine Trudeau já são quase um acontecimento mainstream na comunicação política, há uns anos poucos seriam os políticos que ousariam fugir ao figurino instituído para os chefes de Estado e de Governo. Aliás, até há bem pouco tempo, quem, no seu perfeito juízo, ousaria prognosticar que a França viria a ter um Presidente abaixo dos 40 anos? Ou que a Áustria elegeria o jovem Sebastian Kurz, com apenas 31 anos, para a chefia do Governo, onde, numa imagem de campanha, apareceu sentado em cima de um espalhafatoso todo-o-terreno Hummer numa pose que faria inveja a qualquer rapper de Compton? Ou que Trump, o multimilionário da melena ridícula que apresentava o “The Apprentice”, viria a sentar-se na Sala Oval? Ou que em Portugal um Presidente pudesse vir a ser quase tão popular como Cristiano Ronaldo?

 

São figuras de liderança que, de uma maneira ou de outra, são disruptivas. Não necessariamente na forma de fazer política, mas na maneira de comunicar e “enfeitar” essa política. Nalguns casos, o conteúdo até pode não trazer nada de novo, porém, o “embrulho” em que a mensagem é oferecida à opinião pública é completamente diferente, é apelativo, é vendável (a tal “brand” de que Boris Johnson fala).

 

A experiência diz que parte dessa forma de estar em política tem origem na natureza intrínseca de cada um, mas a outra parte é fruto de um trabalho orientado para determinados fins comunicacionais. Virtuosos ou não. O problema é que quanto melhor é o “jogador” político, mais dificuldades o cidadão terá em perceber o que é genuíno e o que é encenação. Esses dois factores estão sempre presentes e o que as pessoas vêem é um produto final, um personagem político que lhes despertará determinados sentimentos e emoções, porque em comunicação política é a percepção (e não a realidade) o que mais importa.

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Em louvor de Clement Attlee

por Pedro Correia, em 08.09.17

 Attlee com a mulher, Violet, logo após a vitória eleitoral dos trabalhistas em 1945

 

Clement Richard Attlee (1883-1967) era um homem destituído de carisma. Um esforçado militante de esquerda que, superando inúmeras crises nas suas hostes, alcançou em 1935 a liderança do Partido Trabalhista britânico.

Estavam então no poder os conservadores -- primeiro liderados por Stanley Baldwin, depois por Neville Chamberlain. Quando ocorreu a guerra -- a mais devastadora de todas as guerras -- outro conservador, Winston Churchill, ascendeu à chefia do Governo londrino.

Attlee podia ter-se refugiado na trincheira partidária. Mas não: assumiu uma atitude patriótica, aceitando integrar o executivo liderado por Churchill. Sempre na segunda linha, inicialmente apenas como ministro, depois como vice-primeiro-ministro -- posto até aí inexistente, criado especialmente para ele.

Foi de uma lealdade inquebrantável a Churchill durante os cinco penosos anos de guerra. O governo de unidade nacional -- que integrava ainda os liberais, além dos conservadores e dos trabalhistas -- funcionou sempre como um bloco. Sem que a liderança de Churchill fosse alguma vez discutida, sem que a lealdade de Attlee fosse alguma vez posta em causa.

 

Vencida a guerra, em Maio de 1945, a coligação dissolveu-se e realizaram-se eleições. E os mesmos britânicos que aplaudiram a gestão de Churchill durante o conflito que deixou o Reino Unido depauperado, tanto em vidas humanas como nas finanças públicas, disseram nas urnas que era tempo de confiar a outro político os destinos do país.

Ganhou Attlee, com 47,7%, contra 36% de percentagem atribuída aos conservadores: pela primeira vez o Partido Trabalhista dispunha de uma larga maioria na Câmara dos Comuns. E nos anos seguintes, sob a sua liderança, a esquerda britânica assumiu o poder. Governando com tanta eficácia a Grã-Bretanha em tempo de paz como Churchill a governara nos dias incertos da guerra.

Depois de enterrar os mortos, chegara o tempo de cuidar dos vivos -- como ensinou o nosso Marquês de Pombal. Attlee soube cuidar dos vivos: lançou as bases do Serviço Nacional de Saúde britânico, de base universal e gratuita, alargou a segurança social e delineou um ambicioso programa de habitação pública -- marcos modelares daquilo a que por estes dias chamamos "Estado Social". De tal maneira modelares que Churchill manteve-os inalterados quando regressou ao poder, em Outubro de 1951.

 

Attlee, o político sem carisma, é hoje recordado como um dos melhores primeiros-ministros britânicos de todos os tempos. Quando morreu, em Outubro de 1967, o Guardian acertou em cheio ao prever que a passagem do tempo só engrandeceria a sua figura. Assim aconteceu. Uma sondagem realizada pelo Times em 2010 considerou-o o mais qualificado de todos quantos governaram no século XX.

 

Porquê?

Porque soube agir em dois tempos, conforme as circunstâncias exigiam: baixou bandeiras partidárias quando era esse o seu dever patriótico no momento em que a soberania britânica estava em risco e foi recompensado por isso com dois mandatos sucessivos que lhe permitiram enfim aplicar o seu programa de vastas reformas sociais. Deixando o país numa situação de pleno emprego e a crescer ao ritmo de 3% ao ano.

 

Por vezes lembro-me de Attlee ao analisar o percurso de certos políticos contemporâneos. E concluo sempre que o seu exemplo ganharia em ser seguido por todos quantos, manifestamente equivocados, ambicionam o máximo para o momento seguinte. Como se não houvesse amanhã. Como se o decurso do tempo funcionasse como adversário e não como aliado. Como se a política não fosse sobretudo um exercício inteligente e laborioso de persuasão e persistência. Como se os livros de História pesassem menos do que as manchetes da manhã seguinte.

 

Daqui a um mês, a 8 de Outubro, assinalam-se os 50 anos da morte de Attlee

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Ninguém lhes dá uma boleia?

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.08.16

Ainda lá estão todos? De polegar esticado, à beira da estrada? De um lado e do outro? Será que ninguém lhes oferece um bilhete de ida?

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Vocação oculta.

por Luís Menezes Leitão, em 06.06.16

Há uma coisa que se pode dizer dos políticos da nossa terra: Têm todos uma enorme vocação oculta para serem banqueiros ou construtores civis. Vá lá saber-se porquê.

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E se fosse consigo?

por Ana Vidal, em 19.05.16

Acredito, sem ironias, que Catarina Martins tenha mesmo sido apanhada por acaso no programa "E se fosse consigo?". Por que havemos de pensar sempre o pior das pessoas em todas as situações?

Mas, já que as figuras públicas entraram na dança, tenho uma sugestão para a Conceição Lino: inverter os papéis. Num próximo programa, pôr como actores um político e um jornalista conhecidos à chapada num jardim público (assim de repente, lembrei-me de João Soares e Augusto Seabra, ou Sócrates e um jornalista do Correio da Manhã) e ver as reacções dos transeuntes. Tenho genuína curiosidade de saber se alguém iria separá-los, dar-lhes lições de civismo ou... ajudar à festa.

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Os Yes Men.

por Luís Menezes Leitão, em 02.04.16

Dou inteira razão à Teresa neste post. Infelizmente a vida partidária está cheia de yes men, incapazes de ter algum posicionamento crítico e limitando-se a concordar, atentos, veneradores e obrigados, com aquilo que o líder propõe. Podem os próprios sair beneficiados, com cargos atribuídos para recompensar as fidelidades, mas esse é um factor de enorme empobrecimento dos partidos, e no final acaba por prejudicar os próprios líderes.

 

A este propósito recordo-me de uma conversa elucidativa que tive com um professor norte-americano, logo após a eleição de George W. Bush para presidente dos Estados Unidos. Na altura esse professor norte-americano disse-me que estava muito preocupado com as fracas capacidades intelectuais do presidente eleito, claramente visíveis no seu discurso, considerando que isso poderia ser muito prejudicial para o país. Na altura observei que ele se tinha feito rodear de uma excelente equipa, onde pontificavam nomes como Colin Powell e Condoleezza Rice, e que por isso não havia razão para preocupações. A resposta que ele me deu foi elucidativa: "Não concordo que ele tenha uma excelente equipa, mas mesmo que a tivesse, tem que ter a inteligência necessária para saber a quem ouvir. E se todos lhe estiverem a dizer o mesmo, terá seguramente uma péssima equipa".

 

Pensei muitas vezes nessa observação, quando vi os sucessivos desastres a que George W. Bush conduziu os Estados Unidos. De facto o grande problema dele era estar rodeado de yes men, incapazes de lhe chamar a atenção para os erros das suas políticas.

 

 

Não há efectivamente nada pior para um político que rodear-se de uma corte de yes men, que só lhe dizem aquilo que ele quer ouvir. Cedo ou tarde, isso só pode conduzir esse político à derrota. É estranho por isso que os políticos recorram tanto a esse tipo de gente.

 

Razão tinha Samuel Goldwin quando disse: "Não quero yes men à minha volta. Quero pessoas capazes de me dizerem a verdade, mesmo que isso lhes custe o emprego".

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Um homem invulgar

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.15

Em especial nos esquecimentos.

Para quem não tem, nunca teve, um tostão de dívida à sua Caixa de Previdência ou à sua Ordem, mesmo nos meses mais difíceis, não deixa de ser estranho que gente com estes telhados e uma esteira tão obscura - pelos vistos a todos os níveis -  se dedique a gerir a coisa pública e se atreva a falar de ética e de rigor.

Ainda se fosse por receber o salário mínimo nacional ou rendimentos exíguos...

 

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Frases de 2014 (34)

por Pedro Correia, em 22.12.14

«Não somos [os políticos] todos iguais.»

Pedro Passos Coelho

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A "idade" dos políticos

por Helena Sacadura Cabral, em 26.05.14
Quando se fala dos líderes dos partidos do tal arco governamental, penso que seria importante olhar bem o quadro abaixo:


1. Pedro Passos Coelho - 50 anos de idade
    36 anos de política
2. Paulo Portas - 52 anos de idade
    40 anos de política
3. António José Seguro - 52 anos de idade
    25 anos de política 

 

Este quadro impõe reflexão, sobretudo quando se tem em conta o número de anos que é preciso trabalhar para atingir a reforma. Não será, também, a altura de se pensar no que ele pode significar na "degradação" que caracteriza a actual forma de fazer política que referi no post anterior?

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Diário de campanha

por José Gomes André, em 21.05.14

Selfies (ainda por cima falsas, num cartaz que apela a uma "nova confiança"). Os outros que são um vírus. Outros ainda que são nazis. Sócrates, três, quatro, cinco vezes. Os temas que deviam ser europeus e por isso fala-se das pensões e do Governo. E eu que vou acabar com a pobreza. E nós que salvámos o país do apocalipse. E o outro que nunca mais sobe impostos, nem que a vaca tussa. E o surf no Secundário. E umas arruadas sem gente. E umas piadas sem graça. E uns que são muito democráticos e patrióticos, e os outros que são ainda mais democráticos e ainda mais patrióticos. E as sementes, nos tempos de antena, ao lado do tribunal europeu dos direitos dos animais, uma urgência planetária. E uns figurões que dantes eram do Partido X e agora apoiam o Partido Z, e que no futuro serão independentes, ou dependentes, desde que a coisa dê tacho. E uns relógios em contagem decrescente. E o escudo que salvava a malta num ápice. E o protectorado que agora é soberano outra vez (numa campanha para a União Europeia!).

 

Já sabemos que as campanhas eleitorais são poços sem fundo de demagogia e fait-divers. Mas desta vez estão a abusar. Na noite de 25 de Maio, os agentes políticos irão manifestar o seu "enorme pesar pela elevada abstenção". Pena que não estejam a fazer nada para a evitar.

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Para ler e pensar

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.02.14

Este artigo do circunspecto The Guardian pode não contribuir para a regeneração da terceira via ou da imagem de Tony Blair. Mas pelo menos deixa-nos a pensar sobre o perfil dos governantes que queremos. O que vale para os britânicos também vale para nós, portugueses.

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Políticos no divã - 6

por Teresa Ribeiro, em 31.01.14

- Ele anda muito agitado, sr. doutor. Nem de noite sossega.

- Tem o sono agitado?

- Nem imagina. Ontem esteve toda a noite às voltas na cama a falar enquanto dormia.

- Conseguia perceber o que dizia?

- Dizia que a violência está à porta e mais umas coisas em francês, mas sabe como é, com aquela pronúncia que ele tem, eu não consegui perceber nada.

- Pois, estou a ver. Diga-lhe mas é para vir cá falar comigo.

- Já lhe disse, mas ele manda-me meter o Freud na gaveta e até já ameaçou defenestrar-me se insistisse na conversa.

- Defenestrá-la?!

- Sim, diz que é o que se faz aos traidores à Pátria.

- À Pátria?!

- Pois, doutor, às vezes põe-se a falar dele como se fosse a encarnação da Pátria.

- Como se fosse uma espécie de rei sol...

- Não, que esse era absolutista e o meu marido sempre foi um defensor das amplas liberdades.

- Tem razão. Em todo o caso diria que ele se vê como uma figura patriarcal?

- Sim, uma figura tutelar.

- Icónica.

- Isso.

- Por que não o convence a passar uma temporada em Nafarros, a ver se acalma?

- Não quer, diz que primeiro tem que libertar Portugal da austeridade.

- E como é que ele pretende fazer isso?

- Diz que vai agitar o povo, incendiar o país, levar o governo e o presidente à demissão.

(coça a cabeça) - Bem...

(levanta-se, abre um armário de onde retira um pacote que estende à sua interlocutora)

- Se ele piorar muito, pode usar isto.

- O que é?

- Um colete de forças.

 

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Políticos no divã - 4

por Teresa Ribeiro, em 27.01.14

- Mas essas tendências revelaram-se a partir de quando?

- Assim que eu me recorde foi antes de partir para Bruxelas.

- Sabe-se que foi nessa altura que começou a usar a expressão, mas provavelmente o seu fetiche tem uma origem mais remota.

- Refere-se ao meu período maoísta? Não creio. Apesar de esquerdista não era nada espartano, de modo que a tanga como metáfora do meu ideário socio-político de então não era nada que me entusiasmasse.

- Resta-nos nesse caso uma leitura estritamente freudiana dessa sua fixação. Além da Merkel mais alguém o surpreendeu de tanga?

- Que eu saiba só a Manuela Ferreira Leite, no dia em que anunciei que tinha aceite o convite da Comissão Europeia.

- (entredentes) Hum... Merkel e Ferreira Leite, não por acaso duas figuras femininas, maternais...

- Nessa ocasião fiquei tão eufórico que comecei a rasgar a roupa à saída de uma reunião que tivemos os dois, mas a Ferreira Leite, muito aflita, começou logo a tapar-me com a pasta das Finanças e nais ninguém me viu. Mais tarde, por ocasião da Cimeira das Lajes, tive uma recaída e fui surpreendido em trajes menores por dois assessores, junto a um farol. 

(cogitando de si para si) - Farol, um símbolo fálico... Hum... isto anda mesmo tudo ligado. 

- Acha que consigo superar isto antes que se defina o meu futuro, doutor?

- Bom, a ver vamos. Até lá, procure ser discreto, não faça ondas com a Merkel.

- Esteja descansado, doutor, eu com a Merkel nunca faço ondas. Estou decidido a continuar a minha carreira lá fora, mas... (ruboriza-se) confesso que por um lado tenho pena de desistir da corrida para a presidência da República. (remexe-se, nervoso) A ideia de chefiar um país de tanga... EXCITA-ME!!

- Vá, vá, por hoje terminámos. Não se esqueça é de tomar os comprimidos!

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Políticos no divã - 2

por Teresa Ribeiro, em 23.01.14

- Continua a ter dificuldades em dormir?

- Em adormecer, já não tenho. Desde que passei a ler os meus discursos, como o sr doutor recomendou, pego no sono com bastante facilidade. O problema são os pesadelos.

- (cofiando a barba) Então os pesadelos voltaram...

- (com a voz embargada e o queixo a tremer) É verdade, sr. doutor 

- Lembra-se desses sonhos?

- Ultimamente é sempre o mesmo, o que me deixa ainda mais nervoso.

- Descreva-mo sem omitir os detalhes.

- Vejo uma fonte e eu a caminhar descalço, pela verdura. De repente... (alarga o nó da gravata enquanto sente o sangue a latejar-lhe nas frontes) De repente... aparece o António Costa (procura em vão o olhar solidário do terapeuta) muito risonho. Dá-me uma pancadinha nas costas e diz-me algo que nunca se conclui porque a meio eu acordo, todo suado.

- Consegue recordar-se do começo da frase?

- Sim, ele diz "vai formoso e não..." (engole, afina a voz) É nesta parte que eu acordo a transpirar. 

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Políticos no divã - 1

por Teresa Ribeiro, em 21.01.14

- Eu vim porque a Maria insistiu. Realmente não sei o que estou aqui a fazer.

- Faça favor de se deitar.

- Quer que me deite?!

- Sim, aqui no divã, sff.

- Mas isso está fora de questão.

- Costuma ser esse o protocolo com os meus pacientes, mas se para o sr. Prof isso é um tabu...

- Tabu? Se me começa com paleio de jornalista vou-me já embora.

(entre dentes) - Paleio de jornalista? Vê-se bem que não leu o Freud.

- Como disse?

- Nada, nada. Então o sr. Prof não se sente bem deitado. Reminiscências de algum trauma que sofreu no berço?

- Qual trauma! Não vê que deitado é impossível manter pose de Estado?

- Tem dúvidas quanto a isso?

- EU NUNCA TENHO DÚVIDAS!

- No entanto quando entrou neste gabinete começou por dizer que não sabia o que estava aqui a fazer.

- (irritado, ameaçando sair) Sabe que mais? Nem eu nem a minha Maria ganhamos para pagar este tipo de extravagâncias.

- (tentando reter o paciente) Fale-me de extravagâncias. Quais são as suas?

- (desconfiado) Não me vai fazer perguntas acerca da Coelha e da SLN, pois não?

- Relaxe, esqueça por momentos o político que é e fale-me de si.

- EU NÃO SOU UM POLÍTICO!

- Estou a ver.

Olha o relógio, escreve no caderno de apontamentos "forte distúrbio de personalidade" e anuncia:

- Hoje ficamos por aqui.

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Ministros ou negociadores?

por Helena Sacadura Cabral, em 03.12.13
Durante muito tempo acreditei que os ministros existiam para definir políticas na sua área de responsabilidade e que haviam sido escolhidos para a função pela sua competência. Estava errada.
Hoje um ministro é, sobretudo, um negociador sindical. Essa transformou-se na sua principal tarefa, o que lhe restringe para metade, o tempo disponível para pensar, definir, discutir e pôr em prática. 
Então para que serve um ministro a meio gás, receoso e em permanente navegação à vista, avançando dois passos para depois recuar um? Serve para empatar a vida de todos nós!

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Política portuguesa

por jpt, em 23.01.13

 

Não vim para o Delito de Opinião para opinar sobre política portuguesa, matéria que, diz-me a experiência, rapidamente me transforma em delinquente, tamanho o azedume face à "gasta pátria". Mas uma querida amiga real, e blogoleitora, acaba de saudar esta minha transferência blogal. Através da oferta deste "ex-voto", descoberto no seu sótão. Já agora, e abuso eu, a lembrar tempos outros, também de FMIs. A lembrar, que, e ao contrário do que dizem os furiosos assalariados do jornal "Público", também em Portugal - e em tantas outras austrais paragens - o FMI não foi nem quis ser o coveiro da democracia.

 

E para lembrar/ensinar tempos, não muito longínquos, em que os protagonistas, e mesmo que apesar deles-próprios, eram melhores.

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Os pobrezinhos, tão engraçados

por Ana Vidal, em 11.11.12

 

No rescaldo do "caso Jonet" e sem querer reabrir as hostilidades de um debate levado à esquizofrenia nos últimos dias, tudo o que li e ouvi sobre o assunto me conduz a uma conclusão bizarra: aparentemente, todos neste país desejam que a pobreza se mantenha. O argumentário usado por ambas as barricadas políticas - a da esquerda e a da direita - para esgrimir tiradas de grande efeito e destilar os mais atávicos ódios de estimação, assenta, surpreendentemente, na mesmíssima premissa:

- A esquerda acusa a direita de querer manter os pobres sempre pobres, para poder brincar à caridadezinha e assim exorcizar remorsos e culpas da sua própria opulência, mantendo ao mesmo tempo uma posição de supremacia e ainda ganhando, como bónus, o orgasmo místico da gratidão eterna daqueles a quem dá uma côdea.

- A direita acusa a esquerda de querer manter os pobres sempre pobres, para poder semear e cultivar neles a revolta que só um corpo faminto e uma vida de privações mantêm acesa, sabendo que o conforto e a barriga cheia não dão votos aos partidos do povo e são inimigos mortais de qualquer revolução.

 

E enquanto todos estes intelectuais se lambuzam em delírios de auto-satisfação devidamente acompanhados de um caprichado amuse-bouche no Gambrinus ou na Bica do Sapato, conforme o humor do momento, os pobres - essas curiosas criaturinhas que dão um jeitão para as estatísticas e justificam todas as teorias - fazem fila à porta de uma instituição humanitária, agradecendo ao céu da boca que ainda haja quem se deixe de conversa fiada e lhes ponha alguma coisa no prato.

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