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Delito de Opinião

No silêncio, entre cadáveres

Pedro Correia, 06.04.22

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Albert Camus escreveu um dos mais fabulosos textos que conheço para uma alocução proferida em Novembro de 1948, num encontro internacional de escritores.
 
Este texto, intitulado "O Testemunho da Liberdade", tem uma espantosa actualidade perante os vertiginosos acontecimentos que se sucedem no mundo de hoje. É uma reflexão que devia constituir uma espécie de código de conduta para todos os intelectuais contemporâneos.
 
Passo a transcrever alguns trechos*:
 
«Os verdadeiros artistas não dão bons vencedores políticos, pois são incapazes de aceitar levianamente, ah, isso sei eu bem, a morte do adversário! Estão do lado da vida, não da morte. São os testemunhos da carne, não da lei. (...) No mundo da condenação à morte, que é o nosso, os artistas testemunham o que no homem é recusa de morrer. Inimigos de ninguém, a não ser dos carrascos! (...) Um dia virá em que todos o hão-de reconhecer e, respeitadores das nossas diferenças, os mais válidos de nós deixarão então de se dilacerar, como hoje o fazem. Hão-de reconhecer que a sua profunda vocação é a de defender até ao fim o direito dos seus adversários a não terem a mesma opinião que eles. Hão-de proclamar, consoante o seu estado, que mais vale uma pessoa enganar-se, sem assassinar ninguém e permitindo que os outros falem, do que ter razão no meio do silêncio e pilhas de cadáveres.»
 

Hoje, mais que nunca, estas palavras devem merecer-nos profunda meditação.
 

* Tradução (excelente) de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes para a editora Contexto (2001)

Uma voz contra o relativismo bélico em Portugal

João Campos, 25.02.22

Sou insuspeito de nutrir alguma simpatia pelo actual Governo e pelos seus vários elementos - Augusto Santos Silva incluído - mas não posso deixar de aplaudir a sua resposta ontem, no Parlamento, à vergonhosa intervenção do deputado comunista João Oliveira que o Pedro já destacou mais abaixo. Ponderada, eloquente, sem meias-palavras e sem as insuportáveis adversativas que tanta gente usa para tentar "justificar" ou "compreender" a agressão de Putin à Ucrânia. A última frase, lapidar, será sem dúvida um justo e adequadíssimo epitáfio à passagem do ainda líder parlamentar do PCP, não reeleito nas últimas Legislativas, pela Assembleia da República.

(Aliás, nos últimos dias o Governo tem estado especialmente bem, tanto na condenação inequívoca da agressão russa como na solidariedade estendida ao povo ucraniano)

Coisa mais inútil não há

Pedro Correia, 18.02.22

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Esta semana limpei a caixa do correio: já não recolhia correspondência há duas semanas. Lá bem no fundo, encontrei estes folhetos muito coloridos - que foram de imediato arquivados no saco destinado à reciclagem. O da "moda e acessórios", ainda percebo. Mas a papelada política, de maneira alguma. E apetece mesmo perguntar por que raio estes partidos que tanto falam em valores ambientais e consciência ecológica gastam resmas de papel na era digital.

Mal empregadas árvores, derrubadas para isto. Coisa mais inútil não há.

Da estupidez na política

Pedro Correia, 04.02.22

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Foto: Leonardo Negrão / Global Imagens

 

Quem pôs fim à geringonça foi primeiro o BE, ainda em 2019, e depois o PCP, a reboque do anterior.

Ambos chumbaram o Orçamento do Estado para 2022, aliados a todas as direitas. Enquanto diziam demonizar o Chega, juntavam os votos a esse partido.

Sabiam todos, por terem sido avisados, que esse chumbo - inédito na democracia portuguesa - conduziria o País a eleições antecipadas.

Não quiseram saber: embarcaram num voo cego ao abismo.

 

O PS engordou nas urnas - passando da maioria relativa à maioria absoluta.

O Chega multiplicou por 12 o número de deputados.

A bancada do PCP ficou reduzida a metade e perdeu o próprio líder parlamentar, excluído pelos eleitores.

O BE viu partir 79% dos deputados: tinha 19, ficou apenas com cinco.

 

Bloquistas e comunistas estavam à beira do precipício. Deram um passo em frente. Confirmando o aforismo de Einstein: «Duas coisas são infinitas - o universo e a estupidez humana.»

Costa, sorridente, agradece. E Ventura também.

Filmes - «Munique, The Edge Of War» (Munique, À Beira Da Guerra)

beatriz j a, 23.01.22

Este filme gira à volta da controversa assinatura do acordo de paz de Munique, em 1938, entre Chamberlain, primeiro-ministro inglês e Hitler, em vésperas da Segunda Grande Guerra. O filme tem duas histórias paralelas a correr em simultâneo: uma é a da assinatura do acordo e do papel de Chamberlain nesse processo -que o filme defende ter sido positivo pela razão de ter dado um ano de paz à Inglaterra e aos aliados para se preparem para a guerra; outra é uma tentativa de impedir a assinatura do acordo por parte de dois diplomatas, um inglês, secretário de Chamberlain e outro alemão, secretário de Hitler, que se conheciam e eram amigos desde os tempos de Oxford, que ambos tinham frequentado. 

O filme está bem feito. Sabemos a história e, mesmo assim, ficamos presos ao suspense da situação. Somos levados a questionar-nos se, chegado o momento que não tem retorno, o saberíamos reconhecer e, reconhecendo-o, se estaríamos à altura do momento. Esta é uma questão importante no filme. 

É difícil não traçarmos um paralelo com a situação actual, salvas as devidas distâncias, naturalmente, pois Putin não é Hitler, mas a situação geopolítica tem os mesmos contornos. 

Estamos num momento de autoritarismo crescente nos regimes do mundo, de crise económica com muito populismo, muita revolta e temos a Rússia de Putin a exigir que o Ocidente feche os olhos e permita o sacrifício de uma parte grande da Ucrânia e da sua possibilidade de sucesso económico, bem como de outros países da esfera da ex-URSS, a troco de paz. Na altura do acordo de Munique, em 1938, também se estava numa grande crise económica, com autoritarismos crescentes no mundo, populismos e revoltas e com a Alemanha de Hitler a exigir que o Ocidente fechasse os olhos à anexação dos Sudetos da Checoslováquia a troco de paz. 

Tal como na época, também hoje há acordos secretos entre os líderes da minoria separatista e o ditador invasor. Então como hoje, o ditador que faz exigências a troco de paz não é pessoa capaz de honrar compromissos ou acordos e tem a mão leve para o assassinato. Então como hoje o Ocidente tem, acima de tudo, desorientação e medo do ditador.

(publicado também no blog azul)

Debate a nove na RTP

Pedro Correia, 18.01.22

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ANTÓNIO COSTA (PS):

«Só a maioria absoluta garante a estabilidade durante quatro anos.»

«Desde que eu sou primeiro-ministro, pela primeira vez neste século Portugal cresceu acima da média europeia. Aproximámo-nos dos países mais ricos.»

«O PSD quer que o SNS deixe de ser tendencialmente gratuito e deseja que a classe média passe a pagar os cuidados de saúde.»

«Há uma proposta de maioria de governo, que é a do PS, e uma proposta da direita para uma política de desgoverno.»

 

RUI RIO (PSD):

«A probabilidade de haver uma maioria absoluta, seja do PS seja do PSD, é muito próxima de zero.»

«Queremos que os portugueses vivam efectivamente melhor e não criar a ilusão do momento.»

«Não há planeamento, não há organização, não há gestão. O dinheiro que lá está [no Serviço Nacional de Saúde] é muito mal gerido.»

«Nós precisamos de melhores serviços públicos, que foram completamente degradados pelo PS - degradaram as carreiras dos enfermeiros, dos médicos, dos professores, dos investigadores.»

 

CATARINA MARTINS (BE):

«Aqui não há uma escolha para primeiro-ministro. Aqui vota-se para um parlamento e a maioria determinará o que existe no dia seguinte.»

«É muito importante descer o IVA de algo tão fundamental como a electricidade.»

«Nós não podemos ter directores de serviço num hospital público que vão a correr trabalhar para o hospital privado que fica do outro lado da rua.»

«O PS, com a maioria absoluta que pede, quer deixar os problemas agudizarem-se - seja na saúde, seja nos salários, seja no trabalho.»

 

JOÃO OLIVEIRA (PCP):

«A estabilidade de qualquer governo não depende dos acordos nem dos papéis assinados.»

«O aumento geral dos salários, de todos os salários e não apenas do salário mínimo, é a grande solução de fundo.»

«A questão da valorização dos serviços públicos tem de ser uma prioridade em todas as áreas. Mas no SNS é uma questão crítica. É preciso contratar profissionais, é preciso garantir a valorização das carreiras.»

«Há soluções, há meios: eles têm é de ser mobilizados para o desenvolvimento da sociedade.»

 

FRANCISCO RODRIGUES DOS SANTOS (CDS):

«Há um elefante na sala: a possibilidade de um voto no PSD ir parar ao bolso de António Costa.»

«Os anos da geringonça conduziram Portugal a um aumento brutal da carga fiscal, ao aumento da dívida pública para 135% do PIB, à diminuição do rendimento disponível das famílias e ao aumento do índice da pobreza.»

«António Costa prometeu há seis anos médicos de família para todos os portugueses. A palavra dada não foi palavra honrada.»

«O voto no CDS serve para derrotar a maioria de esquerda no parlamento mas também para não fazer acordos com o PAN. Não haverá entendimento com um partido animalista radical que quer destruir o mundo rural.»

 

INÊS DE SOUSA REAL (PAN):

«A maioria absoluta ou um bloco central não servem os interesses do País.»

«Devemos taxar as actividades poluentes, criar uma taxa ambiental e acabar com as borlas fiscais de quem está a ter mais ganhos e ainda por cima polui.»

«Defendemos a reposição dos 25 dias de férias para que as pessoas possam ter mais tempo para a família e o lazer.»

«Quem respeita os animais vai votar PAN nas próximas eleições.»

 

ANDRÉ VENTURA (Chega):

«Os portugueses querem uma direita diferente, que não esteja sempre a tentar colocar-se nos ombros da esquerda.»

«A classe média em Portugal paga 35% de IRS. Isto tem de acabar, isto é um roubo.»

«O Bloco de Esquerda aprovou o Orçamento do Estado suplementar em 2020 que deu 900 milhões de euros para a TAP e 450 milhões para o SNS - ou seja, metade do que foi para a TAP. Muito bonito, da parte do BE...»

«Temos décadas de bandidos a roubar o nosso país. Décadas. É tempo de acabarmos com isso.»

 

JOÃO COTRIM FIGUEIREDO (IL):

«António Costa, com o aumento extraordinário aos pensionistas, está a tentar comprar o seu voto no imediato.»

«Portugal é o país da Europa Ocidental com o salário líquido mais baixo. Se alguém pode estar satisfeito com esta situação, nós não estamos.»

«Apesar de haver um sistema universal e tendencialmente gratuito, Portugal é um dos países da Europa em que as pessoas mais gastam do seu próprio bolso para a saúde: cerca de 34%. Isto não faz sentido e é um indicador de que o SNS não está a dar resposta.»

«António Costa quer salvar a TAP mas vai para Ponta Delgada na Ryanair.»

 

RUI TAVARES (Livre):

«Se houver uma maioria à esquerda, nós seremos parte da solução; se houver uma maioria à direita, nós seremos parte da oposição.»

«O Livre, em vez de prescindir de dois mil milhões de euros em fiscalidade do Estado, quer ir buscar os mais de dez mil milhões de euros que neste momento em evasão fiscal fogem todos os anos e que é possível recuperar.»

«Eu não troco o SNS, que nos deu - com o civismo dos portugueses - as maiores taxas de vacinação do mundo pelo serviço de saúde da Bulgária, que tem as piores taxas de vacinação da Europa.»

«A história impõe-nos uma agenda política cidadã a que a política tem de dar resposta.»

 

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Esta noite, na RTP, com moderação impecável de Carlos Daniel. Foi o melhor debate televisivo desta campanha eleitoral para as legislativas do dia 30. Pudemos ouvir os diferentes líder políticos falarem de vários temas. Com substância, pluralismo garantido e sem peixeiradas.

A importância de falar claro

Pedro Correia, 06.01.22

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«A esquerda atingiu um patamar tal de auto-suficiência que já só trata dos seus temas privativos. Por exemplo, o salário mínimo. O salário mínimo é uma preocupação da esquerda, uma questão nacional importante num país onde infelizmente demasiados dos nossos concidadãos auferem ao fim do mês o salário mínimo. Mas nunca há um momento em que digam: "Porque é que o salário mínimo é este?"

Esta é a questão essencial da vida portuguesa. Estão no atira-culpas sem perguntarem por que o salário mínimo não atingiu valores que a economia portuguesa não pode pagar. Nunca há uma oportunidade para se discutir esta questão. Porque é que temos uma economia que não permite pagar um salário mínimo decente? Porque é que temos uma economia que põe um terço dos trabalhadores a receberem o salário mínimo?

Este tema nunca atravessa o debate. Parece um leilão de bondades. Como se não existisse uma coisa chamada realidade. E como se não existisse uma realidade chamada economia portuguesa. Isto é absolutamente espantoso.

Já no debate [de António Costa] com Rui Tavares era a mesma coisa: "Porque é que não somos a Suécia?" Mas é preciso explicar porque é que não somos a Suécia? Primeiro, porque o modelo dos comunistas, sejam eles do PCP, do Bloco de Esquerda ou do Livre, nunca foi a Suécia social-democrata. Nunca foi. Em segundo lugar porque em Portugal, infelizmente, temos entre metade e um terço da Suécia. Mas nestes debates da esquerda o tema da economia portuguesa, no seu modesto desempenho comparativo, nunca consegue encontrar caminho.»

 

Sérgio Sousa Pinto, deputado do PS, na CNNP (terça-feira)

A antevisão do derby do próximo dia 30

Paulo Sousa, 23.12.21

- Já viram estas subidas de preços? Agora é que vão começar as dores! - Disse o dono da loja, já velhote.

- Isto já não pode piorar mais! Só se começarem aí a matar velhos de empreitada! - Respondeu o cliente que teria a mesma idade e, como o comerciante, usava a máscara por baixo do queixo.

- Estás-te a queixar de quê? Tu é que gostas deles, vai à gaita.

Nesta altura já dava para entender que eram vizinhos e conhecidos de há muito.

- Epá, sempre gostei do PS, o que é que queres? Em minha casa somos todos do Sporting, menos a patroa que é do Benfica. Temos de respeitar.

- Pois, mas gostas tanto deles e estás a dizer que isto está mal. És um palerma! – Respondeu dando um murro no balcão de vidro.

- Sou palerma, mas nunca votei no CDS como tu!

- Votei CDS, mas foi para a Junta, e foi porque o Nabais estava na lista. E tu votaste no Sócrates, homem! – respondeu o comerciante, enquanto levantava as mãos acima dos ombros, como os sacerdotes na eucaristia.

- Mas olha que só voto no Costa se ele me der os vinte euros de reforma que me tiraram.

- Ah, então vendes o teu voto por vinte euros, e dizes que isto já não pode piorar.

Nesta altura entrou em cena um vernáculo estreme de conotações sexuais, que aqui não reproduzirei, e que não ajudou a clarificar a discussão.

Ainda fiquei mais uns momentos, mas como vi que não iam entrar em vias de facto, desejei umas Boas Festas a todos e fui saindo.

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Uma conversa muito próxima desta decorreu hoje numa loja muito antiga no centro histórico de Leiria. Para quem procurar um Walkman da Aiwa, posso dar a morada, porque ainda têm um no inventário.

O fim da geringonça

jpt, 26.10.21

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Parece que a "geringonça" termina. Talvez desabe agora. Ou talvez ainda sobreviva, algo desarranjada, por mais um ano, se o orçamento for aprovado in extremis. Ou, menos provável, se vier a governar sob a entidade "Duodécimos", com navegação de cabotagem feita de bolinas lei-a-lei. Mas, nesse caso, muito provavelmente não sobreviverá mais do que um ano.

Quando em 2015 o poder se estabeleceu nesta "geringonça" muitos clamaram contra, apontando a sua ilegitimidade. Porque não havia sido anunciada, porque o PS não ganhara as eleições. Ora Costa anunciara a sua disponibilidade para tal (dissera nunca aprovar um governo PSD/CDS minoritário, não ter disponibilidade para se coligar com a direita, e propunha-se como governante. Só não percebeu quem não quis. Ou quem é, apesar de ganhar a vida como comentador político, manifestamente incompetente). E, mais do que tudo, as eleições legislativas não são mais do que a constituição de um parlamento do qual deverá emanar um governo, monopartidário ou de coligação. E é até aconselhável que as coligações governamentais não sejam pré-definidas mas que nasçam de um parlamento eleito, com a correlação de forças (de número de deputados e de apoio eleitoral às propostas partidárias) estabelecidas de fresco. Ou seja, esta solução teve todo o cabimento, político e ético. Foi até uma boa lição sobre a democracia, num país onde eleitorado abúlico e imprensa distraída tendiam a pensar as eleições legislativas como um concurso para primeiro-ministro (de preferência entre comentadores televisivos mais bem-falantes e melhor apessoados).

 

 

Treinadores de bancada

Pedro Correia, 31.05.21

De treinadores de bancada, excelentes cérebros de ideias infalíveis para salvar a pátria, está este país tão cheio que se os exportássemos equilibraríamos por muitos e bons anos a nossa balança de pagamentos.

O problema é que tais sumidades, quando têm finalmente a possibilidade de pôr em prática o seu caudal de virtudes, muitas vezes se revelam monumentais fiascos.

Não entenderam nada

Pedro Correia, 25.05.21

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Em 1979, Francisco Sá Carneiro formou listas eleitorais. Alargando o espaço político do PSD ao centro e à direita, firmando uma coligação com o CDS de Freitas do Amaral e o PPM de Ribeiro Telles. Mas era também necessário alargar a influência eleitoral do seu partido à esquerda. O que fazer? Num daqueles lances tácticos que traçam a diferença entre o político mediano e o dirigente de excepção, atraiu para a nova coligação dois homens oriundos da esquerda, que pouco antes se haviam sentado no Conselho de Ministros como representantes da mais jovem geração de talentos do Partido Socialista: António Barreto, ex-titular da pasta da Agricultura, e José Medeiros Ferreira, ex-responsável dos Negócios Estrangeiros, anunciaram o voto na AD em nome do seu Manifesto Renovador, força política de centro-esquerda então lançada, dando o seu aval - como independentes - à nova coligação.

Os treinadores de bancada, que já nessa altura abundavam no PSD (embora em muito menor número do que agora), não tardaram a criticar Sá Carneiro, um político que - bem à portuguesa - só viu os seus méritos largamente reconhecidos após a morte. Acusaram-no de demagogia, de oportunismo, de abrupta viragem à esquerda, de tentar tudo na desesperada caça ao voto. O costume, entre nós: quando alguém tenta mudar alguma coisa, seja o que for, no quadro político português é logo cravejado de críticas pela corporação do comentário político, eternamente avessa a novos nomes e novas siglas, sempre passíveis de baralhar os quadros mentais instalados.

Sá Carneiro ganhou essa eleição de 1979. E com isso fez história: era a primeira vez que a direita chegava ao poder cumprindo as regras do jogo eleitoral. Barreto e Medeiros Ferreira contribuíram para essa maioria, também eles criticadíssimos pelos comentadores de serviço, que já na altura não entendiam nada. Alguns são os mesmos que continuam a não entender nada agora.

Seria uma boa rábula humorística se não fosse verdade

João Campos, 10.05.21

No Público: Governo exige teste para sair de Longueira-Almograve, mas a farmácia está noutra freguesia. Se fosse um sketch do Herman ou do Gato Fedorento, o diálogo entre o morador do Almograve e o GNR no cruzamento da Longueira seria algo assim:

- Posso sair da freguesia?
- Pode, com um teste negativo.
- E onde posso fazer um teste?
- Numa farmácia.
- Mas o Almograve não tem farmácia. Posso sair para ir à farmácia de Milfontes fazer o teste?
- Não, não pode sair do Almograve sem um teste negativo.
- Mas então não posso sair da freguesia.
- Com um teste negativo pode.
- Mas se só posso fazer o teste na freguesia vizinha...
- Isso já não é problema meu. Olhe, pergunte ao Cabrita.

 

(Teste negativo, e não positivo, claro - obrigado à leitora Bea pelo reparo!)

Não de todos: só da maioria

Pedro Correia, 10.03.21

O Presidente da República não tem de ser "de todos os portugueses": esta foi uma fórmula encontrada em 1976 por António Ramalho Eanes, num contexto histórico muito específico, quando o regime democrático estava a definir os seus contornos e o País escapara à tangente de uma guerra civil que só poderia ter consequências devastadoras. Isabel II é que é a soberana de todos os britânicos, Naruhito é que é o imperador de todos os japoneses. Eis uma das diferenças essenciais entre monarquia e república: um Presidente não pode, e em muitas ocasiões não deve, esconder as suas convicções. Em Portugal compete-lhe - isso sim - cumprir e fazer cumprir a Constituição: se necessário, contra uma parte dos portugueses. Só isto. Que é tudo.

Os direitos das mesas

Pedro Correia, 05.02.21

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Manuel Alegre: «É preciso dar um murro na mesa» (Abril de 2013)

António Capucho: «Costa tornou-se líder porque deu um murro na mesa» (Janeiro de 2015)

Vasco Lourenço: «Chegou o tempo de se dar um estrondoso murro na mesa» (Março de 2015)

Carlos Silva: «Não me vou embora sem dar um murro na mesa» (Janeiro de 2020)

António Simões: «Às vezes é preciso dar um murro na mesa» (Dezembro 2020)

Rui Rio: «É preciso dar um murro na mesa» (Janeiro de 2021)

 

Não haverá nenhuma associação defensora dos direitos das mesas? Elas fartam-se de levar murros e sofrem em silêncio, vítimas dos mais vis actos de prepotência e cobardia, em nítido abuso da lei do mais forte. Merecem toda a nossa solidariedade.

Um homem normal na Casa Branca

João Campos, 19.11.20

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O título, claro, alude ao excelente texto que o Pedro Correia publicou ontem sobre Harry Truman. Mas neste caso serve para aludir não ao 33.º mas ao 44.º Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que deu há dias uma entrevista muito interessante a Jeffrey Goldberg para a The Atlantic a propósito do seu novo livro. Ao fim de quatro anos de decreto-via-twitter, de birras ridículas, de gritaria incoerente e com fraco domínio do idioma materno, é refrescante regressar ao discurso articulado, ponderado e frequentemente autocrítico de Obama. Quatro anos de chinfrineira infantil - quase foram suficientes para esquecer que este era o tom normal e expectável num Presidente norte-americano.

Deixo a sugestão para a leitura da entrevista, que vale bem a pena. E destaco duas passagens: a primeira, a propósito da ascensão do populismo de direita nos EUA e de um certo paradoxo (digamos assim) de masculinidade:

Obama: (...) If you think about populists from the past, someone like Huey Long—he wasn’t from the right; he was a classic populist, rooted in the earth; he knows the lives of the people he is rallying; he genuinely understands them. I guess I would not have expected someone who has complete disdain for ordinary people to be able to get attention and then the following from those very same people.

I guess I’m also surprised by, and this is not an original thought on my part—but I think about the classic male hero in American culture when you and I were growing up: the John Waynes, the Gary Coopers, the Jimmy Stewarts, the Clint Eastwoods, for that matter. There was a code. This is something I always emphasize. I may be African American but I’m African and American. This is part of me. The code of masculinity that I grew up with that harkens back to the ’30s and ’40s and before that—there’s a notion that a man is true to his word, that he takes responsibility, that he doesn’t complain, that he isn’t a bully; in fact he defends the vulnerable against bullies. And so even if you are someone who is annoyed by wokeness and political correctness and wants men to be men again and is tired about everyone complaining about the patriarchy, I thought that the model wouldn’t be Richie Rich—the complaining, lying, doesn’t-take-responsibility-for-anything type of figure.

I think that indicates the power of television in the culture that sometimes I miss because I don’t watch a lot of TV. I certainly don’t watch reality shows. And sometimes I’d miss things that were phenomena. But I thought there was a shift there. I write about it to some degree. I actually have great admiration for a lot of those traditions, what were ascribed to be masculine qualities. When you think about the Greatest Generation, you think about sacrifice. (...)

E a segunda, sobre o impacto das redes sociais na democracia:

(...)

Goldberg: Do you hold the companies responsible?

Obama: I don’t hold the tech companies entirely responsible, because this predates social media. It was already there. But social media has turbocharged it. I know most of these folks. I’ve talked to them about it. The degree to which these companies are insisting that they are more like a phone company than they are like The Atlantic, I do not think is tenable. They are making editorial choices, whether they’ve buried them in algorithms or not. The First Amendment doesn’t require private companies to provide a platform for any view that is out there. At the end of the day, we’re going to have to find a combination of government regulations and corporate practices that address this, because it’s going to get worse. If you can perpetrate crazy lies and conspiracy theories just with texts, imagine what you can do when you can make it look like you or me saying anything on video. We’re pretty close to that now.

Goldberg: It’s that famous Steve Bannon strategy: flood the zone with shit.

Obama: If we do not have the capacity to distinguish what’s true from what’s false, then by definition the marketplace of ideas doesn’t work. And by definition our democracy doesn’t work. We are entering into an epistemological crisis. (...)

Para mais contexto, é ler na íntegra.

"Arejar um pouco a malquerença"

Pedro Correia, 26.10.20

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Num dos seus romances, Os Duros não Dançam, Norman Mailer descreve uma cena que faz lembrar toda a série de pequenas querelas políticas desenrolada a propósito do orçamento do Estado para 2021. O romance situa-se numa zona dos EUA que Mailer conhecia muito bem: a faixa litoral do Massachusetts, onde se concentra a maior comunidade luso-descendente da América do Norte, que na sua maioria se dedicava à pesca.

Segue a transcrição da saborosa cena (tradução de Eduardo Saló):

 

250x.jpg«Numa tarde invernal em que o Bergantim se apresentava invulgarmente pouco frequentado, sentava-se ao balcão um pescador português de uns 80 anos. Setenta de trabalho tinham-no deixado tão retorcido e deformado com um cipreste enraizado num penhasco de uma  costa batida pelo vento. Pouco depois, entrou outro pescador, tão artrítico como o primeiro. Em garotos, haviam brincado  juntos, praticado o râguebi, frequentado o liceu, trabalhado em barcos de pesca, tinham-se embebedado e provavelmente ornamentado as frontes um ao outro com as respectivas mulheres e agora, aos 80 anos, quase não conviviam, excepto nas trocas de socos a que se entregavam em particular. Apesar disso, o primeiro pescador deslizou do banco, empertigou-se e, aos uivos, numa voz tão áspera como o vento de Março no alto mar, disse: "Julgava que tinhas morrido." O outro inclinou-se para a frente, dirigiu-lhe um olhar furibundo e, com uma laringe de sons tão agrestes como os das gaivotas, replicou: "Morrido? Antes disso, hei-de ir ao teu funeral." E tomaram uma cerveja juntos. Tratava-se apenas de um exercício para arejar um pouco a malquerença. Os portugueses sabem falar aos ladridos.»

 

Pouco ou nada lisonjeiro, este retrato dos nossos compatriotas da costa leste dos EUA esboçado por Mailer, que aliás também sabia “falar aos ladridos”. Mas há muito de fidedigno na relação amor-ódio entre portugueses simbolizada nesta cena quase anedótica. Isso nota-se também, a um ritmo diário, na nossa vida política. Até que ponto as batalhas verbais em torno do orçamento não servem também apenas para “arejar um pouco a malquerença”, antes de tudo ficar como estava?

Os duros não dançam. Os moles não fazem outra coisa.