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Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 30.09.18

 

Em política, não há bons e maus extremismos. São todos maus.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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O apêndice

por João Campos, em 26.09.18

Segundo o Público, António Costa tenciona manter "todos os membros do Governo", isto a propósito da novela Tancos e do maluquinho de aldeia que passeia pelas imediações do Ministério da Defesa. No que diz respeito a Azeredo Lopes, as declarações de Costa são manifestamente generosas - dado o absurdo da actuação do ministro desde o Verão do ano passado, o homem estará muito longe de ser um membro do Governo, ou de qualquer Governo. Na melhor das hipóteses será um apêndice: é um vestígio sabe-se lá de quê, não tem utilidade prática, volta e meia dá uma valente dor de barriga e removê-lo é uma maçada. 

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Sem rodeios

por Pedro Correia, em 21.09.18

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Joana Marques Vidal foi afastada por ter incomodado os poderosos.

Ponto final.

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Ser de esquerda ou de direita

por Pedro Correia, em 11.09.18

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Não passa um dia sem que leia alegados analistas políticos usando e abusando de rótulos identitários sem um menor esboço de rigor. Incluo nestes rótulos a estafada dicotomia "esquerda/direita". Que tenho cada vez mais dificuldade em aceitar como forma de interpretar o mundo contemporâneo, caracterizado por fracturas de outro género.

O que é ser "de direita"? Quais os requisitos necessários para meter alguém na gaveta da "esquerda"? E quem está habilitado a emitir certidões deste tipo?

 

Estes dísticos têm, desde logo, o defeito de nunca valerem por si: necessitam sempre de uma bengala. Neste caso, uma bengala geográfica. Porque quem se diz de esquerda ou de direita situa-se invariavelmente em função de terceiros: ninguém está à esquerda ou à direita de si próprio.

O que nos conduz ao aparente paradoxo de qualquer de nós poder ser, em simultâneo "de esquerda" e "de direita". A menos que se trate de alguém tão colado a um extremo do espectro político que tenha a leste ou a oeste, conforme o caso, apenas um muro.

Falo por mim: sou de esquerda e de direita. Porque me situo muito mais à esquerda do que o PNR e muito mais à direita do que o MRPP. Seguramente 99% dos meus compatriotas estarão como eu.

 

Os cenários podem multiplicar-se, estreitando as margens da equação mas conduzindo ao mesmo resultado: não faz sentido alguém assumir-se politicamente em função de coordenadas geográficas que dependem sempre do contexto e das circunstâncias.

Tomemos alguns exemplos: Ramalho Eanes, eleito em 1976 como hipotético "candidato da direita" à Presidência da República, seria reeleito quatro anos depois como suposto "candidato da esquerda" - sem nunca ter deixado de ser a mesma pessoa nem abdicado do essencial do seu pensamento político. E o Mário Soares que combateu Álvaro Cunhal em 1975, perante a fúria da "esquerda", não seria estruturalmente o mesmo que colidiu com Cavaco Silva no seu segundo mandato em Belém, escandalizando parte da "direita"?

 

Um ser humano é muito mais do que a soma ou a subtracção de pontos cardeais. Gostaria que os comentadores e os jornalistas que reduzem a vida partidária aos gestos mecânicos de um polícia-sinaleiro se lembrassem mais vezes disto, rejeitando rótulos que podem ser úteis para os amantes da taxidermia mas empobrecem o debate político, reduzindo-o a tosca caricatura. Cada ser humano é demasiado complexo para caber por inteiro numa etiqueta.

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Deve haver algo errado

por Pedro Correia, em 10.09.18

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À minha volta, escuto e leio proclamações de regozijo pelo atentado quase fatal ao candidato presidencial brasileiro Jair Bolsonaro. Indago os motivos de tanto júbilo. Dizem-me que o indivíduo em causa terá feito a apologia da violência e da barbárie. Deve haver algo errado nisto. Mas ainda não percebi bem o quê.

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Pouca terra, e pouca vergonha

por João Campos, em 24.08.18

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Sim, pelos vistos a CP tem um serviço que permite a entidades públicas e privadas fretarem comboios. Sim, é possível que esses comboios tenham prioridade na passagem em relação às composições regulares que percorrem as linhas (não sei se têm ou não, nem julgo que esse seja o ponto pertinente). E não, em circunstâncias normais não seria sequer notícia o facto de o Partido Socialista fretar um comboio para levar os seus militantes em excursão até à festa do partido em Caminha - aliás, seria sem dúvida uma excelente escolha. O problema é que as circunstâncias presentes da CP e do seu serviço ferroviário (passe a generosidade) são tudo menos normais - e não houve uma alma no PS capaz de dizer em voz alta que uma viagem de ida e volta de Lisboa e Pinhal Novo até Caminha num comboio fretado à CP talvez não fosse a melhor ideia quando a CP tem sido notícia pelos atrasos e pelas supressões de comboios, pelas avarias constantes, pela falta de asseio nas composições, pelo ar condicionado avariado em dias de muito calor, pela falta de informações, pelo serviço Intercidades a ser feito por automotoras do serviço Regional, e pela degradação generalizada do serviço que presta de Norte a Sul do país. 

 

Bem vistas as coisas, não admira que tal não tenha ocorrido a ninguém. Abunda muita coisa no PS de António Costa - arrogância, prepotência, incompetência, esperteza saloia, uma profunda ignorância e um ainda mais profundo desprezo pelos cidadãos. Já a vergonha, essa, é mais difícil de apanhar por lá do que um comboio a horas na Linha do Algarve. Parafraseando Elisa Ferreira, "os comboios são da CP, são do PS". 

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E se puder alterar geneticamente o seu futuro filho?

por Alexandre Guerra, em 23.07.18

“Should we or shouldn't we be allowed to modify human DNA in future children?”

 

É com esta pergunta que a BBC News introduzia um artigo publicado há uns dias no seu site sobre as fronteiras morais e éticas ao exercício da engenharia genética na alteração de embriões humanos. No fundo, estamos a falar da edição do genoma humano para condicionar/alterar o ADN de uma futura criança, o que na prática significa que, pela primeira vez na história da Humanidade, um bebé poderia potencialmente nascer com características genéticas que não fossem fruto do livre arbítrio, mas da vontade dos seus progenitores. Ou seja, estaríamos perante um novo mundo, o tal mundo pós-Humano de que Francis Fukuyama e outros autores falaram, dando-se assim início a uma nova História. Uma história pós-Humana.

 

Acredito que esta problemática, com as suas diversas implicações éticas, políticas, sociais, morais e religiosas, será uma das questões mais fracturantes num futuro próximo e, por isso, me debrucei sobre o tema no livro “A Política e o Homem Pós-Humano”[1]. O livro acabou por ser a extensão da minha dissertação de mestrado em Ciência Política, coordenada por um dos mais ilustres sociólogos nacionais e internacionais, o já falecido Hermínio Martins (Maputo, 1934 – Oxford, 2015), que durante décadas se dedicou ao pensamento destas matérias. Praticamente um desconhecido em Portugal, gozava de uma reputação de excelência no estrangeiro, ao ponto de o The Independent escrever no seu obituário o seguinte: “The death of the Portuguese-British sociologist Hermínio Martins will be mourned by social scientists internationally, impressed by his extraordinary erudition and the subtlety of his irony.”

 

Hermínio Martins foi Professor Emérito do St. Anthony’s College, da Universidade de Oxford, onde desenvolveu parte da sua carreira, tendo anteriormente estudado com Karl Popper e Ernest Gellner e mais tarde trabalhado com nomes de referência da sociologia mundial, tais como John Rex, Talcott Parsons, Seymour Martin-Lipset ou David Riesman.

 

Motivado pelo estímulo intelectual do “mais filósofo dos cientistas sociais portugueses”, como escreveu António Guerreiro no PÚBLICO por altura da sua morte, comecei a compreender em toda a plenitude o alcance das repercussões futuras da bioengenharia e da biotecnologia nas sociedades vindouras. “Da reprodução de órgãos geneticamente iguais à possível criação de um ‘super-homem’, a sociedade encontra-se no centro de um debate que, embora ainda tímido nalguns Estados e até ausente noutros, ganha protagonismo na agenda política”.[2] Percebi também que “quando Francis Fukuyama falou no ‘Fim da História e no Último Homem’, apropriando-se de uma concepção determinista recorrente, admitiu mais tarde que a génese da destruição da sua tese se encontrava precisamente nas novas biotecnologias. A possibilidade de um ‘outro eu’, produto do Homem e não do livre arbítrio, faria emergir um mundo pós-humano, dando-se, assim, início a uma nova História”.[3]

 

É um possível cenário futuro sobre o qual devemos reflectir e estar atentos, até porque o passado tem demonstrado o princípio da inevitabilidade do progresso científico, não obstante a tentativa de forças conservadores se baterem pela manutenção do status quo em determinados períodos históricos de ruptura nos modelos de pensamento.

 

A notícia da BBC News aqui citada, que se junta a tantas outras, mas que para já não captam a atenção para os debates mais massificados, vem precisamente reforçar essa ideia, ao citar um estudo divulgado há dias pelo Nuffield Council on Bioethics, uma entidade independente britânica sobre políticas públicas no âmbito das questões éticas em biologia e medicina. Para aquele organismo, não há qualquer razão impeditiva para que a engenharia genética não possa ser aplicada nos embriões humanos, apesar das implicações para a sociedade serem “extensivas, profundas e a longo prazo”. É importante relembrar que no Reino Unido, à semelhança do que acontece noutros países, este tipo de investigação genética só é possível (quando o é) em embriões criados para fertilização in vitro que não foram utilizados, os chamados embriões excedentários. Nesse mesmo texto da BBC News fica evidente o confronto ideológico e ético das várias correntes, com os mais conservadores a criticarem aquilo que chamam de um “abrir portas” aos “designer babies” e os mais progressistas a enaltecerem as virtudes da ciência. É um debate que se tem feito desde há uns anos a esta parte, cada vez com mais intensidade sobretudo nos Estados Unidos.

 

Poderá não ser para um futuro muito próximo, mas “as novas biotecnologias poderão ainda fazer chegar o dia em que nascerá o primeiro ’homem’ feito à medida da vontade de um seu semelhante. Da cor dos olhos e do cabelo, ao valor do QI, passando pelo sexo da criança ou pelo nível de agressividade das suas emoções, tudo será possível manusear como se fosse uma encomenda por catálogo”.[4]

 

Uma problemática que há muitos anos Hermínio Martins explorou nos seus estudos e reflexões no âmbito da “civilização tecnológica e condição humana”, antecipando claramente o futuro ao considerar “que “as biotecnológicas não buscam meramente facultar melhoramentos cosméticos e mais próteses para organismos humanos e não humanos, mas criar novas formas de vida. De todas as tecnologias contemporâneas é talvez a biotecnologia a que tem uma vocação mais decisivamente ontológica. O seu horizonte inclui a criação de novas formas de vida orgânica como resultado de modificações genéticas, englobando transferências genéticas entre espécies e potencialmente o derrubar das fronteiras entre espécies biológicas naturais – enquanto a evolução tanto orgânica como inorgânica tinha sido na generalidade adversa a mesoformas e, na verdade, um princípio geral de instabilidade das mesoformas foi enunciado por muitos filósofos naturais tais como Fraser (1982). As formas de vida artificiais iludem as fronteiras naturais e os limites da evolução biológica ‘normal’”.[5]

 

Pela primeira vez na sua História, o Homem detém tecnologia que poderá ter consequências “na definição e na concepção/adulteração do Homem biológico, tal e qual o conhecemos há milhares de anos, e, consequentemente, na forma de como a Humanidade olhará para ela própria. As novas biotecnologias abrem assim uma imensa porta para admiráveis mundos novos, que permitem vislumbrar sociedades mais próximas da utopia, onde as pessoas podem viver para lá dos 110 anos, auto-regenerando-se com os seus próprios órgãos geneticamente compatíveis, desafiando as leis naturais que têm imperado até hoje: a ausência de qualquer flagelo degenerativo ou a erradicação da dor e da doença. Tal modelo de sociedade será, à primeira vista, o procurado por todas as pessoas de bom senso, sobretudo quando nos dias que correm tantos desafios há a vencer, mas como as utopias positivas e negativas têm revelado através do trabalho intelectual de muitos autores, a busca da perfeição pressupõe quase sempre alterações drásticas de comportamentos sociais e humanos”.[6]

 

A pergunta com que iniciámos este texto deve merecer uma reflexão séria, porque algo de novo se começa a vislumbrar no percurso da Humanidade, já que estão a ser criadas condições para a ruptura entre os mundos Humano e pós-Humano.

 

[1] GUERRA, Alexandre – A Política e o Homem Pós-Humano, com prefácio do Viriato Soromenho-Marques e texto de contra capa de José Manuel Durão Barroso (Lisboa: Alêtheia, Novembro de 2016)

[2] Idem. pág. 16

[3] Idem, ibidem

[4] Idem, pág. 174

[5] MARTINS, Hermínio – Experimentum Humanum (Lisboa: Relógio D’Agua, Maio de 2011), pág.28 págs. 165 e 166

[6] Ob. Cit. – A Política e o Homem Pós-Humano, pág. 173

 

Publicado originalmente no Observador

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A virtude do processo de decisão

por Alexandre Guerra, em 17.07.18

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O primeiro-ministro tailandês, Prayuth Chan-ocha (direita), questiona o governador da província de Chiang Rai e comandante operacional do salvamento, Narongsak Osatanakorn (esquerda), sobre o plano para resgatar do sistema de grutas Tham Luang as doze crianças da equipa de futebol e o jovem treinador/Foto: Thailand Government House/Handout via REUTERS

 

Com as emoções atenuadas e os factos mais apurados, volvidos alguns dias depois do resgate bem-sucedido das doze crianças de uma equipa de futebol e do seu jovem treinador das entranhas do sistema de grutas Tham Luang na província remota de Chiang Rai na Tailândia, talvez seja importante fazer uma análise, não tanto à operação em si mesma, mas ao processo de decisão que esteve na sua origem. Porque, em grande parte, o final feliz desta história tanto se deve à coragem e perícia dos mergulhadores, como à “boa fortuna” e “virtude” dos decisores políticos que, sob pressão imensa, deram luz verde a uma operação quase impossível, numa lógica de mal menor, atendendo aos cenários dramáticos que se apresentavam: um salvamento imediato com riscos imensos para todos em plena época de chuvas; ou se aguardava por um abaixamento do nível da água, que poderia demorar meses, com vários imponderáveis que podiam resvalar facilmente para a tragédia. Embora as autoridades tailandesas nunca o tenham afirmado peremptoriamente, presume-se que esta segunda opção tenha acabado por ser posta de parte (se é que foi verdadeiramente equacionada), já que dificilmente as crianças sobreviveriam muitas mais semanas em ambiente de escassez crescente de oxigénio. Além do mais, havia ainda o risco, caso as chuvas se intensificassem, de, um momento para o outro, o nível da água subir de tal maneira que provocaria a inundação completa da caverna onde as crianças e o jovem treinador se encontravam.

 

Na prática, os decisores políticos, secundados pelo “expertise” militar e pressionados pela urgência da decisão face às previsíveis tréguas que a monção ia dar durante três dias, terão chegado à conclusão de que a escolha da segunda opção seria o mesmo que condenar aquelas treze pessoas à morte. É importante notar que a decisão última numa crise deste género é sempre solitária e, muito provavelmente, coube ao primeiro-ministro tailandês, Prayuth Chan-ocha, dar a aprovação final para que os militares avançassem pelo resgate imediato.

 

Uma decisão destas contém em si uma carga dramática, uma vez que não está isenta de riscos. Pelo contrário, qualquer dos cenários que foi colocado em cima da mesa de Prayuth Chan-ocha não dava garantia alguma de sucesso pleno, com os militares, certamente, a considerarem realisticamente a possibilidade de se verificarem baixas entre os resgatados e os mergulhadores (como, efectivamente, veio a acontecer).

 

É nestes momentos que se exigem decisões firmes aos líderes políticos, decisões que têm de ser tomadas num curto espaço de tempo, sob uma enorme pressão social e mediática, já para não falar na componente humana e emocional que se abate sobre um governante numa altura destas. Assim que a decisão foi tomada, passou a ser a estrutura castrense a liderar todo o processo, tendo o comando operacional do resgate ficado a cargo do também militar, o governador da província de Chiang Rai, Narongsak Osotthanakorn. Assumiu a operacionalização do plano, que contou com 150 militares e civis especializados de vários países do mundo. No terreno, coube aos Thai Navy Seals, sob a liderança do contra-almirante Arpakorn Yuukongkaew, implementarem cirurgicamente o que estava delineado no papel. E convém não esquecer de que estávamos a falar de uma gruta com cerca de três quilómetros de extensão, entre a entrada e o local onde se encontravam os resgatados, em que quase metade estava parcial ou totalmente inundada. Além disso, havia locais onde apenas passava uma pessoa e nada mais, nem mesmo a garrafa de oxigénio.

 

Analisando agora já com algum distanciamento, constata-se que tudo foi decidido e executado com determinação, firmeza e profissionalismo. E ao contrário do que foi dito por muitos, de milagre esta operação nada teve. Pelo contrário, se algo há a retirar de toda esta história, é que o Divino não teve qualquer papel relevante no processo de decisão política nem na operacionalização do plano. Quanto muito, os mais crentes poderão querer atribuir a causas mais místicas a “aberta” de três dias no tempo que permitiu a “janela de oportunidade” para que a operação avançasse.

 

A verdade é que este sucesso resulta de um processo virtuoso de decisão política, apoiado na única estrutura estatal capaz de dar resposta em ambientes particularmente adversos: os militares. O que aqui esteve em causa foi uma assunção cabal e corajosa do Estado na prossecução das suas funções mais elementares na defesa do seu Povo. Infelizmente, nesse aspeto, Portugal tem sido um triste e lamentável exemplo.

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Indignação aposentada

por Pedro Correia, em 01.06.18

Os profissionais da indignação estão todos aposentados.

Se não estão, parecem.

Não se detecta sinais deles no país com maior carga fiscal em 22 anos, e que paga a terceira factura europeia mais pesada em gasolina - mesmo antes de impostos - e a electricidade mais cara da Europa por custo de vida.

Esperava deles ao menos um gritinho. Afinal permanecem todos em silêncio: esgotaram os decibéis no anterior ciclo político.

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A tribo do futebol.

por Luís Menezes Leitão, em 16.05.18

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O antropólogo Desmond Morris publicou uma vez um livro intitulado A tribo do Futebol, defendendo que o comportamento dos adeptos desportivos tem raízes no nosso passado mais primitivo, corresponde a uma forma de competição entre tribos que desde a pré-história faz parte do comportamento humano. E de facto quando os factores identitários tradicionais estão em crise, as pessoas agrupam-se através das suas preferência clubísticas, esquecendo toda e qualquer racionalidade, e seguindo o chefe da tribo em qualquer direcção mesmo que para o abismo.

 

A situação que o Sporting está a atravessar já foi atravessada por outros clubes, como o Benfica no tempo de Vale e Azevedo, mas isso não desculpa a irracionalidade em que aquele clube decidiu cair, num processo autofágico absolutamente destrutivo. Hoje um clube desportivo e uma sociedade desportiva gerem um património de milhões, em passes de jogadores, contratos televisivos, contratos publicitários, etc. É manifesto que esse património não pode ser posto em causa por estados de alma de um presidente. Mas a verdade é que facilmente esse presidente consegue obter votações albanesas dos sócios, mesmo quando qualquer observador sereno vê que a situação está a atingir o descalabro. O que esta história está a demonstrar é que os clubes de futebol não têm uma estrutura com os adequados pesos e contrapesos que o património que possuem e as aspirações dos adeptos exige. Numa qualquer outra sociedade, qualquer presidente que começasse a tomar decisões claramente contrárias aos interesses da empresa seria imediatamente destituído. Nos clubes de futebol limita-se a dizer que está a ser injustamente atacado pelos inimigos do clube e apela à união dos sócios que imediatamente o reconfirmam de olhos fechados, permitindo-lhe continuar a avançar até a situação chegar ao descalabro.

 

Mas o mais triste disto tudo é que os políticos vão pactuando com esta situação, havendo deputados comentadores desportivos e recepções aos clubes desportivos nas câmaras municipais, numa promiscuidade entre a política e o futebol a todos os títulos indesejável. As únicas excepções de que me recordo foram António Guterres, que se recusou sempre a receber Vale e Azevedo, e Rui Rio, que deixou sempre claro a Pinto da Costa quem é que mandava no Porto. Os restantes políticos fazem questão em assumir proximidade aos dirigentes desportivos, até aceitando convites para o futebol. Mas acho que se ultrapassam todos os limites, quando o Presidente da Assembleia da República acha que deve comentar a actuação do presidente de um clube de futebol. É nessa altura que acho que não foi só o Sporting, mas o próprio país que bateu no fundo.

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Os saudosistas da Censura

por Pedro Correia, em 02.02.18

 

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Manchete histórica do Washington Post de 1 de Julho de 1971: vitória da liberdade de informação

 

 

É uma espécie de fatalidade: tal como as andorinhas regressam todos os anos pela Primavera, também as aves canoras que se escandalizam com as "violações do segredo de justiça" voltam à ribalta cada vez que algum poderoso se torna arguido num processo criminal.

A  Operação Lex não constitui excepção. Mal foram tornadas públicas as investigações em curso, com detenções e interrogatórios, logo os do costume correram às televisões. "É justo que uma criatura que é acusada venha nas primeiras páginas dos jornais?", interrogava-se um deles, escandalizado com a "cumplicidade" entre o Ministério Público e os media. "A violação sistemática e impune do segredo de justiça é um gravíssimo atentado contra a honorabilidade das pessoas!", bradava este, de dedo em riste, como Moisés no alto do Monte Sinai. Enquanto outro se insurgia nestes termos, que dispensam qualificativos: "As sucessivas e sistemáticas violações do segredo de justiça são uma vergonha para o Ministério Público, se é que essa magistratura tem vergonha!"

 

Não ocorre a estas santas almas que os jornalistas façam a sua própria investigação autónoma, em muitos casos prévia à investigação judicial - aliás no cumprimento de um dever deontológico dos profissionais da comunicação social, que actuam na descoberta da verdade e têm como último desígnio esclarecer e formar a opinião pública com base em factos.

Proibir a investigação jornalística de casos criminais - ainda que envolvam "figuras distintas da nossa melhor sociedade" - seria, isso sim, um crime gravíssimo e um atentado à democracia e aos nossos valores constitucionais. Algo que não parece perturbar os indignadinhos de turno.

 

A esta gente recomendo um bom filme que está em cartaz e é candidato aos Óscares de Hollywood: The Post, de Steven Spielberg. Esta película centra-se no caso dos documentos do Pentágono que foram tornados públicos em 1971 pelo New York Times e pelo Washington Post - em flagrante violação não apenas do segredo de justiça mas do próprio segredo de Estado, o que configuraria crime de alta traição.

No conflito que se seguiu, entre o poder político e os órgãos de informação, o Supremo Tribunal pronunciou-se em  histórico acórdão pela liberdade de informação. Quase meio século depois, eis-nos deste lado do Atlântico em pleno retrocesso civilizacional, com tantos opinadores supostamente iluminados pelas luzes do progresso funcionando como retardados epígonos de Richard Nixon - o Presidente que quis vergar os órgãos de informação e acabou destituído por investigações jornalísticas.

Os apelos histéricos contra as "capas dos jornais", por estes dias, escondem apenas um secreto desejo de ressurreição da Comissão de Censura. Condenado ao fracasso, felizmente para todos nós.

 

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 Tom Hanks e Meryl Streep no filme The Post, de Steven Spielberg

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A benfiquização do PSD

por Pedro Correia, em 01.02.18

 

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  Luís Filipe Vieira com Fernando Seara

 

Se há matéria em que tenho genuína esperança de alteração de procedimentos no PSD, com a chegada de Rui Rio à liderança, é na relação entre o partido e o futebol. No seu mandato de 12 anos à frente da Câmara Municipal do Porto, Rio fez frente com sucesso aos poderes fácticos do mundo da bola que contaminam os circuitos políticos e transformaram vários dos seus antecessores numa espécie de valetes do FC Porto.

Em Lisboa, o novo presidente social-democrata deverá acautelar-se sobretudo com a tendência para uma inaceitável promiscuidade entre o PSD e o Benfica, fenómeno que ficou bem patente - com manifesto inêxito - nas recentes eleições autárquicas.

 

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 Luís Filipe Vieira e André Ventura

 

Numa tentativa quase desesperada de recuperação da popularidade pela via mais fácil e demagógica, o partido apostou em várias figuras ligadas ao reduto encarnado. Desde logo, candidatando à presidência da Câmara de Lisboa Teresa Leal Coelho, que foi administradora da sociedade anónima desportiva do Benfica no deplorável consulado de Vale e Azevedo.

O PSD apostou também, para a Câmara de Odivelas, em Fernando Seara, que durante anos representou o clube da águia em programas de debate na RTP e na TVI 24, além de ter sido frustrado candidato à presidência da Liga de Clubes.

Para a Câmara de Loures, não encontrou melhor do que André Ventura, um jurista que transitou da direcção de campanha de Luís Filipe Vieira à reeleição no Benfica para o painel de comentadores futebolísticos da CMTV, disparando impropérios contra sportinguistas e portistas com a mesma desenvoltura que o levou a estigmatizar a população cigana deste concelho.

Em Oeiras, designou como seu candidato  Paulo Vistas, ex-braço direito de Isaltino Morais, que em plena campanha eleitoral utilizou desbragadamente o "trunfo" benfiquista numa tentativa infrutífera de caçar votos, ao apresentar um projecto de uma putativa Cidade Desportiva das Modalidades em parceria com o presidente encarnado, Luís Filipe Vieira.

 

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Paulo Vistas com Luís Filipe Vieira

 

Quatro candidatos pelo distrito de Lisboa, quatro pessoas ligadas ao Sport Lisboa e Benfica, quatro casos de estrondoso fracasso nas urnas.

Espero que o sucessor de Passos Coelho ponha cobro a isto. Pelo menos tão má como a futebolização da política, é a benfiquização dos partidos - neste caso do PSD, o que aliás lhe retira toda a autoridade moral para criticar o ministro das Finanças por se instalar de borla na tribuna presidencial do Estádio da Luz, em possível colisão com o código de conduta aprovado pelo próprio Governo.

Se Rui Rio inverter esta tendência, irá na direcção correcta. Mesmo que possa irritar alguns dos seus conselheiros, que encaram o futebol como uma espécie de prolongamento da política. Basta aplicar em Lisboa - e no País - o mesmo distanciamento salutar que pôs em prática no Porto.

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O saber é aquilo que não se esquece

por Alexandre Guerra, em 30.01.18

É com bastante entusiasmo que estou a ler o último livro de Jaime Nogueira Pinto, Bárbaros e Iluminados (D. Quixote). Algumas das passagens relembram-me as aulas dadas pelo autor numa das cadeiras do meu curso de Relações Internacionais, na segunda metade dos anos 90. Ao contrário de muitos dos meus colegas da altura – mais interessados em fazer “ditados” do que era dito –, provavelmente, eu era dos poucos que via naquelas aulas uma fonte de verdadeiro conhecimento, o saber que não esquecemos e que nos ajuda a perceber as forças dinâmicas da História e a antecipar algumas das imprevisibilidades do sistema internacional. Jaime Nogueira Pinto nunca foi do estilo professoral e dizia sempre, para aqueles que estavam mais obcecados em fazer “sebentas”, que datas e conteúdos factuais podiam ser encontrados num qualquer manual. O importante era perceber as motivações dos actores da História e saber interpretar as consequências das suas acções. Neste aspecto, Jaime Nogueira Pinto preferia ter como ponto de partida as histórias e estórias da História para depois lhes dar o devido enquadramento político e ideológico.

 

Foi nestas aulas que comecei a interessar-me seriamente pela relação íntima entre a dimensão literária de Dostoievsky (e outros) e o movimento histórico subsequente. Comecei a entender a obra deste escritor de outra maneira, vendo nela uma amostra sociológica de uma Rússia aburguesada e intelectual asfixiada pelo regime czarista e ansiosa por um admirável mundo novo. Escreve Jaime Nogueira Pinto que “não era de estranhar que as novas gerações intelectuais e técnicas, oriundas das classes médias e da burocracia estatal […]” se atirariam para os “braços dos grupos revolucionários”. Em romances como O Idiota, Os Irmãos Karamazov ou Os Demónios, “Dostoievsky antevira o tipo de pessoas em que [esses burgueses] se transformariam”. Apesar dessa ânsia de mudança, Dostoievsky nunca teve dúvidas quanto aos “riscos do moralismo e do construtivismo utópicos dos intelectuais, fundamentados numa versão optimista da condição humana”. Pelo contrário, toda a literatura de Dostoivesky é marcada pela imperfeição humana, pelo conflito, pela injustiça. O mundo idílico dos utopistas para uma nova Rússia não cabia na visão de Dostoievsky e, para mim, depois daquelas aulas, isso passou a ser tão evidente nos textos daquele escritor.

 

Neste processo revolucionário, Jaime Nogueira Pinto volta ao incontornável Yevgeny Zamyatin, um autor de que ouvi falar pela primeira vez precisamente nas suas aulas. Desde então tornou-se uma espécie de referência bibliográfica em livros ou textos que escrevo. Talvez pela irreverência própria da juventude, Zamyatin tinha o sonho de mudar a sociedade russa, à semelhança de qualquer revolucionário que se prezasse, no entanto, o seu “ímpeto foi decrescendo à medida que crescia a propensão autoritária e controladora do Partido Comunista e a censura das Letras e das Artes”. De eufórico revolucionário, Zamyatin passou a um dos mais críticos do regime de Estaline, tendo sido preso e, mais tarde, com a ajuda dos bons ofícios de Gorky junto de Estaline, conseguiu exilar-se em França. Sem ilusões quanto ao carácter virtuoso da nova sociedade e do “novo homem” soviético, em 1920 publica “a primeira obra utópica, depois da implantação da utopia”. Nós é um livro fascinante, que conta a história, num futuro muito distante, de uma sociedade perfeita, orientada por um Estado único, onde tudo é eficaz e as pessoas vivem felizes. O único problema é que esse poder organizativo é totalitário e tudo assenta numa aparente ilusão e numa “alteração forçada da condição humana”, tal como aconteceu com o bolchevismo nos primeiros anos.

 

Desde as aulas de Jaime Nogueira Pinto, nunca mais esqueci a importância de Zamyatin na tradição literária da “distopia política” do século XX. E, sobretudo, aprendi a olhar para algumas obras, não apenas como ferramentas de enquandramento social e político de fenómenos do sistema internacional, mas também como elementos prospectivos daquilo que possa estar para vir.

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Do calculismo

por Pedro Correia, em 18.01.18

Tenho lido e ouvido justas críticas ao "calculismo" daqueles que, podendo ter avançado agora para a liderança do PSD, optaram por ficar quietos aguardando o que vai seguir-se até ao próximo ciclo eleitoral.

O mais curioso é que estas críticas são formuladas com frequência entre elogios ao "desassombro" de Rui Rio. Esquecendo estes arautos de fraca memória o calculismo do próprio Rio, que levou uma década a tomar balanço para uma candidatura à presidência do PSD. Se o tivesse feito no momento próprio, teria poupado o partido à gestão errática de Luís Filipe Menezes e talvez tivesse poupado o País aos piores dois anos da governação Sócrates, com todo o seu estendal de amargas consequências.

Em política, nunca existem cenários perfeitos. Quem aguarda em excesso arrisca-se a chegar demasiado tarde, vá para onde for.

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Perder por falta de comparência

por Pedro Correia, em 10.01.18

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 Marcelo e Balsemão em 1975

 

Francisco Sá Carneiro tinha 39 anos quando fundou o Partido Popular Democrático, tornando-se seu líder.

Francisco Pinto Balsemão tinha 43 quando lhe sucedeu, já o partido se designava PSD.

Carlos Mota Pinto subiu à liderança com 47 anos.

Aníbal Cavaco Silva tinha 45 anos quando ascendeu à presidência dos sociais-democratas.

Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito líder aos 47 anos.

Durão Barroso assumiu a presidência do partido aos 43.

Pedro Santana Lopes sucedeu-lhe quando tinha 48 anos.

Luís Marques Mendes foi líder aos 47.

Pedro Passos Coelho ascendeu ao cargo máximo no PSD com 45.

 

É evidente, atendendo até a tais precedentes, que o maior partido com representação parlamentar em Portugal está a perder uma excelente oportunidade, nesta mudança de ciclo político, para fazer uma renovação geracional. Contrariando de algum modo a sua matriz genética.

O PSD sempre foi um partido com dirigentes jovens, sabendo interpretar e até antecipar os sinais de mudança da sociedade.

A campanha interna em curso contraria esta tendência. Os dois únicos candidatos ao cadeirão do poder na Rua de São Caetano à Lapa são Rui Rio (60 anos) e o repetente Santana Lopes (61 anos). Por ausência da geração dos 40 anos, que preferiu aguardar melhor maré.

Neste país de treinadores de bancada, sociais-democratas como Jorge Moreira da Silva, José Eduardo Martins, Luís Montenegro, Paulo Rangel e Pedro Duarte privilegiaram o cálculo político, nada consentâneo com a tradição do partido nem com os exemplos de desassombro que mencionei acima. Gostássemos ou não deles, todos aqueles líderes souberam dar o passo em frente no momento próprio, sem se resguardarem na sombra. Conscientes de que, no palco da política, a pior forma de perder é por falta de comparência.

 

Os quarentões actuais estão talvez convictos de que a mesma água passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Mas já os antigos sábios gregos sabiam que não.

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2017 e o futuro radioso

por José António Abreu, em 30.12.17

 

«Sabes qual é o primeiro objectivo de qualquer consultor?»

«Reduzir custos ao cliente?»

«Não sejas ingénuo.»

«Então qual é?»

«Descobrir formas de prolongar o contrato de consultoria.»

 

Ora portanto: em 2017, funcionários públicos e pensionistas continuaram a recuperar rendimentos, mas nas escolas a comida surgiu crua ou com lagartas, nas penitenciárias os almoços e jantares foram diminuindo de tamanho, nos hospitais agravaram-se as condições de salubridade e aumentaram as listas de espera para cirurgias urgentes, nas vilas e aldeias a Protecção Civil não conseguiu evitar a morte de mais de uma centena de cidadãos, nos quartéis os militares foram incapazes de evitar roubos de armas, nas instituições de solidariedade social cometeram-se desvios de fundos públicos sem que, não obstante a existência de denúncias, a tutela se desse ao incómodo de averiguar, e nos bancos continuou a meter-se dinheiro público, ainda que num caso - como os socialistas gostam - por portas travessas.

Também em 2017, categorias variadas de funcionários públicos nada incomodados com as irrelevâncias mencionadas no parágrafo anterior lembraram-se de começar a lutar com o governo por «direitos» (leia-se: dinheiro) que até 2016 o governo parecia achar não apenas justos, mas benéficos para a economia (agora parece só achá-los justos). Patrocinada pelo PCP através da CGTP, a luta deverá continuar em 2018 e ser bastante divertida, mas potencialmente muito cara, para quem está de fora.

Do lado das coisas que não aconteceram em 2017 conta-se, por tradição nacional e para não perturbar Catarinas e Jerónimos, a implementação de reformas que todos (enfim, todos os que ideologicamente se situam fora da extrema esquerda) sabem ser indispensáveis, e que todos (ver parêntesis anterior) também sabem que seriam menos dolorosas de realizar em época de crescimento económico, ainda que esse crescimento ronde os 2%, muito abaixo dos cerca de 3% da vizinha Espanha ou dos valores que seriam de esperar em qualquer economia minimamente equilibrada saindo de uma fase de correcção das contas públicas durante a qual o PIB contraiu 8% (convém ter presente que, neste caso, 2 não chega a uma quarta parte de 8, pelo facto de o denominador ter ficado mais baixo*). E, todavia, as exportações de bens e de serviços mostram-se excelentes, não obstante os recentes e tristes problemas com o pernil de porco destinado a um dos países-modelo do Bloco e do PCP, facto que só pode deixar um indivíduo a ponderar o que diabo travará Portugal. O clima, talvez. O excesso de eucaliptos. A venda de salgadinhos nos hospitais.

Enfim, continuemos, que é forçoso reconhecer um inegável mérito à Geringonça: em 2017, tornou abundantemente claro que o primeiro objectivo do Estado é alimentar o próprio Estado. (A anedota do início perde alguma piada ao chegar aqui, não perde?)

 

E o futuro? Quais as perspectivas para 2018, 2019, 2020, e por aí fora? Numa palavra, sublimes, que Centeno lidera o Eurogrupo, a Alemanha está com governação suspensa e até as agências de notação vêm subindo os ratings da república para níveis de 2010. Há uma nuvenzita negra, uma manchinha no radar, mas poucos a referem, até para evitarem imediatas acusações de «pessimismo» e - pior ainda - de «passismo» (um termo que 2018 poderá não conseguir apagar do léxico nacional). Eu - garanto - vou fazê-lo exclusivamente por motivos de sistematização: o que acontecerá a um país com o nível da dívida pública portuguesa (em queda apenas ligeira) e o nível de encargos do Estado português (entre já assumidos e previsíveis, com tendência para subida), quando a economia mundial abrandar, especialmente se abrandar muito (se houver um crash bolsista, por exemplo)? O que fará um governo com as contas públicas novamente desequilibradas e dificuldades de financiamento externo? Na verdade, é facílimo antever o primeiro passo: subirá ainda mais os impostos, estrangulando ainda mais empresas e cidadãos, e lançando novamente milhares de funcionários do sector privado no desemprego. Mas, porque fazê-lo nem sempre aumenta as receitas e invariavelmente aumenta as despesas do Estado, é capaz de não chegar. Com ou sem programa de assistência internacional, pode ser necessário cortar pensões, bem como salários no sector público, de forma ainda mais brutal do que na última ocasião (a vitória de Pirro que as «devoluções» rápidas e a garantia de «progressões» constituiriam para professores, enfermeiros e demais funcionários do Estado), ou até avançar para despedimentos no sector público (o horror, o horror). Ou então, chegados a esse improvável cenário, talvez possamos ser verdadeiramente criativos e salvaguardar os direitos dos trabalhadores ligados ao Estado libertando os presos, obrigando os alunos a trazerem refeições de casa, equipando os militares com fisgas e encerrando os hospitais.

Vai-se a ver e nessa altura, ainda que com milhentas ressalvas de temporalidade, o Tribunal Constitucional aceitará tudo. E o Bloco de Esquerda, enquanto parceiro de uma coligação governamental maioritária, imitará os parceiros do Syriza e, como ainda agora fez nas alterações à lei do financiamento partidário, aceitará o contrário do que jura defender.

Mas de momento corre tudo bem e, porque outra coisa não merecemos, assim continuará. Um excelente ano de 2018 para todos.

 

* Perdoe-se-me a nota presunçosa, mas a matemática não é o ponto forte nacional, como a generalidade das estatísticas e três bancarrotas em cerca de 30 anos confirmam.

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Já repararam?

por Pedro Correia, em 15.12.17

Após dois anos de "paz social", os problemas laborais só recomeçaram a inundar o espaço mediático após o PCP ter perdido, nas autárquicas de 1 de Outubro, dez das 34 câmaras municipais que controlava.

Não há coincidências.

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Faz-vos lembrar alguém?

por Pedro Correia, em 14.12.17

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Algum destes três raríssimos cidadãos vos faz lembrar alguém?

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Sempre que um português é eleito para um cargo internacional, o establishment político e comentadorístico nacional exulta. O cargo em si e o que ele implica interessam pouco. O que interessa é o «reconhecimento» das «qualidades» de mais um cidadão português por entidades estrangeiras, fazendo das referidas «qualidades» não apenas indiscutíveis como uma extensão das qualidades (sem aspas, que algumas hão-de ter) dos embevecidos políticos e comentadores.

Evidentemente, também há em tudo isto uma componente de hipocrisia. Em Portugal não se criticam portugueses que ascendem a cargos internacionais (ainda que - por exemplo - tenham sido péssimos primeiros-ministros) do mesmo modo que não se critica (pela frente) gente que acabou de ser galardoada com um prémio qualquer ou que acabou de falecer. Parece mal.

É pois entre a parolice do deslumbramento e a cobardia da necessidade de manter aparências que a eleição de Mário Centeno vinha já sendo encarada como uma estrondosa vitória para o país em geral e para o governo em particular. Contudo, uma dose de ilusão permeava - e permeia - igualmente todo o processo. Em arroubos de entusiasmo, António Costa e alguns comentadores mais optimistas não se coibiram de sugerir que instalar Centeno à frente do Eurogrupo constituiria uma lança em África capaz de alterar o curso das políticas orçamentais da Zona Euro. É esquecer vários detalhes: a situação do governo alemão, temporariamente mais preocupado com outros assuntos; o facto de a eleição resultar muito mais de acordos entre famílias políticas europeias (o Partido Popular Europeu já detém as presidências da Comissão e do Conselho) do que de real mérito; o destino de várias figuras  tragicómicas que, nos últimos anos, de Hollande ao par Tsipras-Varoufakis, iam fazer precisamente isso. Mas, acima de tudo, é esquecer que as instituições europeias têm o condão de moldar as pessoas aos cargos e não o contrário. De resto, quando as pessoas são portuguesas, até costuma ser fácil. Pense-se em Durão Barroso ou nessa eminência que chegou a garantir que o euro acabaria com as preocupações orçamentais portuguesas, Vítor Constâncio. À frente do Eurogrupo, Centeno terá que ajudar a fazer cumprir as regras orçamentais europeias, ainda que elas não sejam ideais para a política de eterno adiamento favorecida pelo governo português, e nem deverá experimentar grandes pruridos em fazê-lo. O ofuscante oportunismo que em 2015 lhe permitiu enfiar na gaveta as convicções em relação ao mercado de trabalho permitir-lhe-á certamente colocar os interesses da «Europa» - e de uma carreira internacional - à frente dos de António Costa e respectivos acólitos. O que, a acontecer, Costa só poderá achar natural: o oportunismo é algo que ele entende perfeitamente.

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.12.17

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"One of the most fundamental questions about political life – or political science, as some like to call it, as if it were one – is 'Who are we?' With what pattern of loyalties do we identify? Which narratives, memories and experiences shape our behaviour? Do we always find ourselves caugh in the some threads of that spider's web? Can we move about from one strip of the silky trap to another? All of which raises a preliminary question. 'We' is simply the collection of 'I's'. So who am I? What makes up my identity? Genetics, nature, nurture play a major role. But in addition, as with everyone else, my identity in part reflects choices I make. It is also in part the result of influences over which I have little or no control. 'Know thyself' was Socrates' challenge, a challenge both to personal memory and to honesty. Here, perhaps, is the beginning of a justification for writing in this rather different way about my life." 

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Um PSD que não voa

por Diogo Noivo, em 22.11.17

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Carlos Eduardo Reis é conselheiro nacional do PSD. Assinou ontem um artigo de opinião no Público em jeito de resposta a um texto de Marina Costa Lobo publicado no mesmo jornal. Nunca ouvi falar dele. Mas já ouvi falar (e falar de) Marina Costa Lobo, uma das mais notáveis cientistas políticas do país. E por aqui deve começar o comentário à prosa de Carlos Eduardo Reis.

 

Logo a abrir o segundo parágrafo, escreve este conselheiro nacional de um dos maiores partidos políticos portugueses que “não sabia quem era” Marina Costa Lobo. Perdoada a deselegância, a constatação diz mais sobre ele do que sobre a investigadora e docente universitária.

 

No início do parágrafo seguinte, escreve Carlos Eduardo Reis que, enquanto leitor, não entende como é possível “receber um artigo sobre "o PSD" em vésperas de disputa interna e a alegada analista só referir um candidato”. Olhando para esta frase, não será abusivo concluir que subjacente às dificuldades de entendimento está uma concepção enviesada e curta de liberdade de opinião. Já quando olhamos para o artigo de Marina Costa Lobo percebemos que o conselheiro foi incapaz de entender o que leu.

 

Ainda no terceiro parágrafo, Reis acrescenta que “[e]laborar um diagnóstico de uma força política quando a sua liderança está em vias de ser decidida já seria duvidoso”. Em democracia, aberta e plural, qualquer momento é adequado para diagnósticos partidários, principalmente quando quem os faz não tem vínculos políticos e aborda o tema de um ponto de vista científico. Admito que seja diferente quando um membro de um partido ataca explicitamente a candidatura que apoia em vésperas de um acto eleitoral. Como fez, por exemplo, a número cinco da lista do PSD a Lisboa uns dias antes das últimas autárquicas. Mas, dada a ausência de artigo de opinião sobre o assunto, imagino que tal acto seja para o conselheiro nacional do PSD menos gravoso do que um texto escrito por uma cientista social.

 

Chegados ao quarto parágrafo – não se perde um –, Carlos Eduardo Reis escreve, sem sombra de matizes, que “[e]m política, o contexto é tudo”. Portanto, ideias, valores e projectos políticos anulam-se perante os caprichos do contexto. Governa-se a pensar no momento porque a estratégia pertence ao domínio da ficção. Ficamos esclarecidos. Ainda em relação a esta preponderância absoluta do contexto em política, Reis acrescenta que “[n]ão é preciso ser político ou professora de política para sabê-lo”. Pois não. É sim preciso fazer umas leituras (Tocqueville, Weber e Orwell são prescrição indicada para este tipo de patologia) e dispor de um módico de senso-comum para não escrever inanidades.

 

No quinto parágrafo, o conselheiro nacional do PSD alerta para o facto de “não entender que o carácter excepcional do contexto que se seguiu ao governo de 2005 é irresponsável”. Voltei ao texto de Costa Lobo, que li. E reli. E tornei a ler. E em momento algum o artigo desvaloriza ou branqueia os resultados nefastos da governação socialista de José Sócrates. Delírio ou análise deficiente, este quinto parágrafo sobra.

 

No último parágrafo, Carlos Eduardo Reis agarra-se à primeira pessoa. “Eu”, escreve, “que não sou académico mas sou português” (duas informações que não surpreendem ninguém) “sei que de que lado da História fiquei e que História quero ainda ver mudar”. Muito bem. Mas nós, a generalidade do grande público, não sabemos de que lado da História ficou. Nem temos nisso grande interesse. Já eu, depois de ler o artigo deste conselheiro social-democrata, temo ao pensar sobre o que ele pretende da História ou, pior, sobre o papel que nela venha a desempenhar.

 

Declaração de interesses: antecipando-me a eventuais comentários, não sou nem nunca fui militante do PSD, embora veja nesse partido aquele que melhor traduz as minhas preocupações enquanto cidadão (tendo em conta os candidatos perfilados, a coisa poderá mudar). E porque estamos em Portugal, país onde as críticas reflectem quase sempre motivações ocultas, deixo claro que não conheço pessoalmente Marina Costa Lobo.

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Gestão do curto prazo

por José António Abreu, em 24.10.17

Senão vejamos: quando pegamos nas medidas tomadas pelo governo em 2017 e excluímos as rubricas de “poupanças nas despesas de funcionamento” que nunca são explicadas, e portanto são extremamente genéricas, temos que, sem o efeito da poupança dos juros, o défice estrutural em 2017 manter-se-ia igual a 2016 (cerca de 2%) e não em 1.8% apresentados pelo governo. Com a redução dos juros, o défice estrutural reduz-se em cerca de 0.1 p.p..

[...]

E para 2018? Para 2018 vamos assistir a uma manutenção do défice estrutural em 2%, novamente à custa da redução dos juros. Repetindo o exercício anterior, em 2018 as medidas tomadas fazem a receita cair 100 M€ e a despesa aumentar 460 M€. Isto daria um agravamento do défice estrutural em 0.3 p.p. Contudo, uma poupança de juros na ordem dos 400 M€ permitirá manter o défice estrutural estável (mas não reduzi-lo como o governo afirma).

Note-se, assim, que sem a redução dos juros o défice estrutural em 2018 atingiria um valor próximo de 2.5% (sendo que em 2016 estava em 2%). As medidas tomadas por este governo representam já um agravamento do défice estrutural em mais de mil Milhões de Euros. Por agora não se nota: o crescimento económico permite esconder esta realidade. O problema vai ser quando tivermos de enfrentar uma nova recessão.

Da análise de Joaquim Miranda Sarmento, no Eco.

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Marcelo

por Pedro Correia, em 23.10.17

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O poder - o verdadeiro poder, não o que resulta da fugaz espuma da propaganda - exerce-se com êxito quando o seu titular reúne duas condições de base: autoridade natural e prestígio firmado em palavras e actos.

Marcelo Rebelo de Sousa tem dado provas, nestes dias dramáticos para largos milhares de portugueses, de ser o político mais poderoso do País. Não por inerência automática do cargo que exerce, mas pela pedagogia do exemplo de que dá testemunho prático. Se o exercício da política é um plebiscito quotidiano, ele continua a passar com distinção todos os testes.

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É isto

por José António Abreu, em 19.10.17

[...]

O que se está a passar na nossa vida enquanto comunidade é assustadoramente preocupante. A grande massa de eleitorado urbano satisfaz-se com um bodo aos pobres, na dimensão suficiente para ir fazendo uns fins-de-semana prolongados e uns jantares fora. Dentro desse grupo merecem um tratamento especial os funcionários públicos, pela sua dimensão, e os pensionistas, com especial relevo para os que ganham mais e têm acesso ao espaço público. A estratégia é tão simples e fria quanto a de uma empresa que define um objectivo de mercado. Tudo o resto, como não faz mexer o ponteiro das vitórias eleitorais, não existe.

Os últimos orçamentos do Estado foram pensados nessa lógica. Se o país fosse uma empresa podia dizer-se que na era da troika fomos geridos pelo administrador financeiro e nestes últimos dois anos pelos responsáveis da área comercial e do marketing. Tudo o que não se vê ou que esteja protegido dos olhares externos pode ficar com menos dinheiro. E assim se faz dinheiro para acabar com os cortes dos salários da função pública rapidamente, ao mesmo tempo que se reduz o défice público.

São escolhas políticas apresentadas como uma opção pelas pessoas, pela coesão social, pelo combate à  pobreza e pela promoção da igualdade. Quem o diz assume-se até como tendo o monopólio destes objectivos, como se todos os outros fossem contra valores que são (ou deviam ser) os alicerces da nossa sociedade.

O problema vem ao de cima quando tentamos ver os actos dessas palavras. É enorme a distância entre aquilo que se diz que se faz e aquilo que realmente é concretizado. A coesão social, o combate à pobreza e a promoção da igualdade limitam-se ao segmento do mercado eleitoral urbano que faz mexer o ponteiro dos votos. Os outros ficam ao abandono, como dolorosamente vimos na morte e na vida de quem esteve dentro dos incêndios do fim-de-semana.

[...]

Um texto dolorosamente certeiro de Helena Garrido, no Observador. Convém lê-lo na íntegra

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O «fim» da austeridade, o início das mentiras

por José António Abreu, em 18.10.17

Governo falseou dados das listas de espera para consultas e cirurgias no Serviço Nacional de Saúde. Entre 2014 e 2016, o tempo de espera subiu, o número de cirurgias desceu. Em 2016, 2605 pessoas morreram à espera de cirurgia.

Bem-vindos ao maravilhoso mundo da Geringonça, recuperado dos tempos de Sócrates, no qual tudo é perfeito, ainda que tenha ser à força. Muitos parecem acreditar que António Costa é, no que respeita ao estilo de governação, diferente do homem que teimou numa ilusão até ao instante em que o dinheiro acabou. Infelizmente, é igual. O roubo de Tancos e os incêndios mostraram amplamente a sua incapacidade para assumir erros, a sua indiferença pelos portugueses (que não pela opinião que os portugueses têm dele) e o despudor com que transforma os próprios correligionários em escudo pessoal (por muitos erros que tenha cometido, a Ministra da Administração Interna poderia ter sido poupada à humilhação de, na prática, se ver demitida pelo Presidente da República). Esta notícia - que certamente não irá incomodar os parceiros da Geringonça, outrora tão vocais acerca de situações menos graves - revela a sua disponibilidade para usar absolutamente todos os truques, de forma a manter as ilusões e se agarrar ao poder. E que possa não ter partido dele a indicação concreta para maquilhar os números pouco importa: em ambientes malsãos, pejados de yes men, nos quais as aparências são tudo, as estruturas fazem o que sentem ser necessário fazer.

Enfim, talvez nada disto interesse no país em que Isaltino é eleito e Sócrates ainda recebe aplausos. Talvez até constitua motivo para felicitações. Num país decente, porém, depois da forma vergonhosa como geriu o caso dos incêndios, seria razão bastante para conceder a António Costa o mesmo género de férias forçadas com que ele presenteou Constança Urbano de Sousa. Em Palma de Maiorca, como quando pretendeu escapar à polémica de Tancos, ou noutro lado qualquer.

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Do aproveitamento político

por Pedro Correia, em 17.10.17

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 Imagem da manifestação de ontem em Ourense: fogos mataram quatro pessoas na Galiza

 

Milhares de pessoas manifestaram-se ontem em várias cidades da Galiza reclamando a demissão da junta governativa na sequência dos dramáticos incêndios que provocaram a morte de quatro pessoas naquela região autónoma de Espanha. Na maior manifestação, em Santiago de Compostela, participaram representantes de todos os partidos políticos da oposição. Entre as palavras de ordem, gritou-se: "Um governo que improvisa é um terrorista."

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Impressiona a quantidade de gente que das suas tribunas na televisão, na imprensa, ou nas infames redes sociais continua a não perceber ou a fingir não perceber que o problema político do desastre de Pedrógão Grande em Junho e do novo desastre da zona Centro-Norte em Outubro não foi a meteorologia ou a floresta mas a (des)protecção civil. A meteorologia, como é evidente, não é culpa de nenhum Governo (deixemos a discussão sobre as alterações climáticas para outra ocasião), e a floresta até será responsabilidade (ou irresponsabilidade) parcial de Governos passados, presentes, e futuros; mas a organização actual das estruturas de prevenção a incêndios, a preparação corrente dos meios de combate ao fogo, e a coordenação dos meios de socorro a pessoas e bens são competências da responsabilidade do Governo presente (como foram de Governos passados, e serão de Governos futuros). E nesse campo, tanto em Junho como em Outubro, o Governo presente falhou em toda a linha, demonstrando a cada momento uma impreparação assustadora e uma arrogância desmedida - as declarações proferidas nas últimas 24 horas pelo Secretário de Estado da Administração Interna, pela Ministra da Administração Interna e pelo Primeiro-Ministro são mais do que irresponsáveis e insensíveis; são inaceitáveis. Não, a demissão dos responsáveis políticos do MAI não resolve nada em termos práticos - não recupera o que se perdeu, não resolve problemas estruturais de décadas, nem soluciona agora o que falhou há pouco. Mas perante os colapsos sucessivos a que assistimos, parece-me imperativo  afastar quem demonstrou de forma cabal não só não estar à altura dos cargos que ocupa, como também não ser capaz de fazer o que for necessário fazer daqui para a frente. É uma questão de responsabilidade política, sim, e também de capacidade política. Ou, neste caso, de irresponsabilidade política e de incapacidade política.

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Das questões verdadeiramente importantes

por José António Abreu, em 16.10.17

Já decorre algum estudo para saber se desta vez a popularidade de António Costa é afectada?

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Entre Orwell e Voltaire

por José António Abreu, em 16.10.17

(...) Costa é pragmático: "Nada é perfeito." Mas tendo em conta que "dos 523 fogos deste domingo 400 foram extintos", há que relativizar e "analisar as coisas como elas são".

 

Relativizemos, então. Relativizemos os pelo menos 75 mortos num único ano. Relativizemos o valor excepcionalmente elevado de área ardida por incêndio, sinal de que a resposta às deflagrações está a ser tardia e incompetente. Relativizemos o facto de já em 2016 os dados terem sido negativos. Relativizemos as regras rígidas (o relatório sobre as falhas do SIRESP menciona a não utilização de um helicóptero que se encontrava a 42 km de distância de um incêndio por o limite autorizado ser de 40 km), o centralismo que tolhe a acção de quem está no terreno (veículos e bombeiros ficam nos quartéis à espera da ordem para avançar proveniente de Lisboa), e a incompetência de quem apenas foi nomeado por ter cartão partidário, tudo indícios não apenas da apropriação do Estado por parte do PS mas da austeridade encapotada que vai destruindo os serviços às populações em prol do rendimento de funcionários e apaniguados. E relativizemos ainda a tendência para a desculpabilização de António Costa (isto quando não se entrega a basófias deslocadas), da sua Ministra da Administração Interna (hiper-competente a afastar responsáveis de organismos suficientemente ousados para emitir pareceres técnicos contestando as posições do governo) e dos parceiros de Geringonça (outrora tão lestos a disparar acusações). Já vimos isto com Sócrates, voltamos a vê-lo com o seu mais perfeito acólito: vivemos no melhor dos mundos possíveis e pretender outra coisa só pode constituir desvio psiquiátrico ou má vontade.

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De Sócrates ao futuro

por José António Abreu, em 12.10.17

1. Há o processo criminal. Esse fica para a Justiça.

2. Há o conluio entre o Estado e grupos privados, quase inevitável num país em que os políticos fazem questão de garantir que o primeiro é indispensável para tudo. As tímidas tentativas de Passos Coelho (que não do PSD) para mudar a situação estão hoje anuladas. Tal como o próprio Passos.

3. Há a cegueira dos compagnons de route, entretanto de regresso ao poder. Ou - acreditando eu não estarmos perante almas ingénuas - os interesses próprios que os levaram a fechar os olhos a todos os indícios. Os mesmos interesses, de resto, que se sobrepuseram aos do país após as eleições de 2015 e levaram à constituição da Geringonça.

4. Há os tiques intervencionistas e autoritários, que António Costa, Augusto Santos Silva, Carlos César, Eduardo Ferro Rodrigues, João Galamba et al - de Catarina Martins, das manas Mortágua ou de Jerónimo de Sousa outra coisa não seria de esperar - mantêm vivos e nem tentam esconder.

Pouco importa; a acreditar nas sondagens, os portugueses apreciam gente oportunista e autoritária. Têm-na tido - e continuarão a tê-la - em abundância. Considerando os resultados de Narciso Miranda, Valentim Loureiro e Isaltino Morais nas últimas eleições autárquicas (16,2%, 19,9% e 41,7%, respectivamente), e a insignificância comparativa dos desvios em que estiveram ou poderão ter estado envolvidos, arrisco-me a extrapolar que o próprio Sócrates ainda poderá ser eleito Presidente da República. Em 2026, talvez. Ou, no máximo, em 2031.

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Use já e pague depois (ou nunca)

por Pedro Correia, em 07.09.17

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Anda para aí um enorme alarido sobre viagens de políticos patrocinadas por empresas privadas. Acho muito bem que este assunto seja investigado até à exaustão. Espero, sobretudo no caso dos autarcas, que se siga a pista destas deslocações em matéria de eventuais favorecimentos directos ou indirectos às entidades responsáveis pelos generosos convites. Partindo sempre do princípio que não existem almoços grátis.

Encaro no entanto com alguma ironia esta profusão de virgens ofendidas, agora prontas a rasgar vestes em colunas de jornais e ecrãs televisivos. Porque é um segredo muito mal guardado que os órgãos de informação sempre foram brindados com viagens na modalidade "tudo pago" - das mais diversas proveniências e para os mais variados (e por vezes principescos) destinos. De resto, quanto mais alto se sobe na hierarquia dos jornais e televisões, mais generosos se tornam estes pacotes de viagens.

 

Nem precisamos de recuar muito no tempo. No último mês, e só a título de exemplo nada exaustivo, registei estes "patrocínios" de peças jornalísticas, devidamente identificados em várias publicações.

"A jornalista esteve alojada a convite do Sapientia Boutique Hotel"

"Esta reportagem foi realizada com o apoio de Azores Airlines e SATA"

 "A jornalista esteve alojada a convite do White Exclusive Suites & Villas"

"O jornalista viajou a convite da TAP"

"A jornalista viajou a Kingston [Canadá] a convite da Frulact"

"O repórter viajou a convite do Turismo de Alicante e da Costa Branca"

 "A jornalista viajou a Fez a convite do turismo de Marrocos em colaboração com a Solférias"

"O jornalista viajou a convite da Brisa"

 

Estas viagens à borla ocorreram, em certos casos, nas mesmas publicações que mais têm destacado os passeios dos políticos, por vezes em tom de compreensível indignação.

Haverá quem suponha que os parâmetros éticos de uns não devem aplicar-se a outros. Respeitando as opiniões alheias, naturalmente, permito-me discordar.

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A abundância e monocultura da informação

por João André, em 14.08.17

Quando surgiu a internet (ou, pelo menos, quando a World Wide Web se popularizou e expandiu), não faltou quem argumentasse que um novo iluminismo surgiria, sustentado pelo acesso livre à informação que o novo meio proporcionava. Pessoalmente não tinha opinião e estava na altura mais interessado nas possibilidades de trocas de ficheiros que se me abriam. No entanto sempre me pareceu que tais ideias eram excessivamente optimistas. Não o pensava porque tivesse uma visão do que iria (ou sequer poderia) suceder, mas porque sempre me pareceu que um meio não determina nada. É o uso que a população faz do mesmo que decide o futuro.

 

O que temos hoje é uma riqueza de informação inigualável na história humana. Não só inigualável mas inclusivamente inimaginável apenas há 20-30 anos. Há 100 anos este futuro não seria tanto de sonho mas de pesadelo para quem tinha acesso, mesmo que limitado, à informação. Mesmo os arautos desse e-iluminismo não sonhariam com a expansão que vimos, não imaginariam a existência de Google, Facebook, Twitter, YouTube ou tantos outros.

 

Só que tal acesso ao conhecimento vem com um problema: perante tanta informação, como escolher aquilo que se deseja aprender ou, uma vez feita essa escolha, como decidir qual a informação mais fiável. Em parte este dilema de escolha reflecte aquele o que o consumidor ocidental moderno enfrenta cada vez que entra num supermercado: há tanta escolha de produtos que se torna impossível saber qual a escolha certa. E isto apenas num espaço limitado onde a decisão e a justeza da escolha reflectem apenas e só preferência pessoais.

 

Na internet, quando procurando informação, a escolha torna-se mais complicada, uma vez que em múltiplos casos existe uma escolha correcta (no que á sua exactidão ou conclusões diz respeito), a qual não depende das nossas preferências ou convicções pessoais, por muito que delas estejamos... convictos.

 

Há actualmente dois tipos de situações que sofrem com isto: acontecimentos políticos e factos científicos. Um exemplo claro do primeiro é o fenómeno trump e clivagem esquerda/direita que se vê cada vez mais na sociedade (a dos EUA, como canário na mina de carvão, serve de aviso). A população, na presença de enormes quantidades de informação, vê-se na situação de ter de escolher qual aquela que usa. Nesta decisão cada vez mais vemos que a exactidão da mesma pouca importância tem. Nos EUA os partidários da direita preferem crer num tweet de Trump mais que nas reportagens de jornais e televisões com décadas de reputação de honestidade; enquanto que há muitos na esquerda que ignoram a realidade para crer que Bernie Sanders não só teria trucidado Trump como o fará novamente (ou Elizabeth Warren por ele) se receber a oportunidade.

 

Outros exemplos são as narrativas alternativas que vemos na Polónia, Hungria, Venezuela, Brasil, Portugal, Inglaterra, etc, etc, etc... dependendo de qual o meio de comunicação que seja usado. Para quem queira informação de qualidade, o dilema chega ao ponto de deixar de se acreditar no próprio meio preferido perante o bombardeamento de informação alternativa e contraditória.  Se eu ler o Washington Post estou de facto a ler notícias solidamente construídas e analisadas ou a ver propaganda anti-Trump e anti-GOP? De certa forma, mesmo estando eu contra os argumentos da direita estridente que domina parte dos media americanos, torna-se um caso em que deixo de saber se as minhas referências não começarão a optar pelas mesmas tácticas para combater os opositores. Não é uma mentira repetidas vezes o suficiente para se tornar verdade, mas nesta guerra basta provocar dúvida.

 

O mesmo vemos no segundo caso: factos científicos. Aqui o problema é a liberdade de opinião. A liberdade de opinião não é um direito, ao contrário do que se costuma afirmar. A liberdade de opinião, seja ela qual for e esteja ou não bem ou mal sustentada em factos, é absoluto facto para todos nós. Ninguém é privado da sua opinião, por muito repressiva que uma sociedade seja. Aquilo de que podemos ser privados é da liberdade de expressar essa opinião ou de a criar de forma livre. Há formas repressivas de reduzir o acesso à informação não desejada, mas há também a forma não repressiva: o bombardeamento da informação falsa. E não há campo onde isso seja mais visível que o da ciência.

 

Os cientistas, por treino, são pesosas altamente cépticas, não só do que os rodeia como dos próprios resultados. É quase impossível encontrar um cientista a afirmar que uma determinada teoria está correcta a 100%. Há sempre espaço para a dúvida, para casos especiais, para excepções causadas por variáveis não conhecidas. É por isso que a ciência avança: porque há sempre alguém que tem dúvida que a explicação existente seja suficiente.

 

No entanto a sociedade não funciona assim. A sociedade acredita na democratização da informação, no poder do contaditório. Isso faz com que se dê peso a mais às dúvidas, quais brechas no edifício teórico, e se dê mais tempo a quem expressa as suas ideias de forma categórica e convincente. É por isso que movimentos como o anti-vacinas ou anti-estatinas conseguem enorme destaque. Porque os seus proponentes pegam em pequenas excepções, em dúvidas ou faltas de convicção dos cientistas, bem como na ignorância científica da população e preconceitos da mesma, para fazer avançar as suas agendas motivadas exclusivamente pelo interesse pessoal.

 

O caso mais claro que existe deste problema do acesso à informação boa e má na internet é o da execrável Jenny McCarthy, que afirmou ter obtido o seu grau académico na "universidade do Google", demonstrando perfeitamente como é possível encontrar informação em favor das convicções pessoais, por mais que estejam demonstradas como erradas. O mesmo se poderia referir à mania da comida orgânica, anti-glúten, veganismo radical, anti isto e anti aquilo.

 

No fundo, e voltando ao meu ponto inicial, o problema torna-se o acesso à informação. Esta está democratizada e não hierarquizada em função da sua veracidade ou verificabilidade. A isto acresce a noção, errada, que toda a gente tem direito à sua opinião (confundido opiniões e factos) sem que tenha que a defender ou sustentar de alguma forma. A internet permite que todas as opiniões sejam tratadas da mesma forma, independentemente do seu valor. E, sendo um repositório de todas as opiniões do mundo, resulta que cada vez menos as teremos.

 

De certa forma, após o quase deserto de informação do passado, temos um jardim do Éden da informação a dar lugar a monoculturas da informação. E isto não é bom.

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Old Spice

por João Campos, em 21.07.17

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Curioso, o timing da demissão de Sean Spicer: será apenas uma cortina de fumo para um momento particularmente bizarro (passe o eufemismo) da administração Trump, ou terá Spicer finalmente cedido aos gritos desesperados de socorro da última vértebra da sua espinha dorsal? Por um lado, e por mais tempestuosa que tenha sido a sua relação com a imprensa (passe outro eufemismo), não consigo deixar de sentir alguma simpatia pelo ex-porta-voz da Casa Branca: sempre que o vi na televisão a proferir os disparates mais inusitados fiquei com a sensação de que não acreditava verdadeiramente neles; que, algures no canto mais recôndito da sua mente, ele sabia quão absurdas eram as suas palavras e as suas acções. De resto, o contraste com o fanatismo gelado de Sarah Huckabee Sanders, com a alucinação permanente de Kellyanne Conway, e com o aspecto de Voldemort-de-trazer-por-casa do outro imbecil que emergiu há um par de meses para debitar dois ou três disparates não podia ser mais evidente. Enfim, propaganda por propaganda, prefiro aquela que seja divertida, e as declarações delirantes de Spicer sempre proporcionaram algumas gargalhadas, tanto pelo próprio como pela forma como "alimentou" momentos muito inspirados nos programas de John Oliver, Stephen Colbert, ou Trevor Noah. Enfim, ou muito me engano (e espero enganar-me), ou os norte-americanos ainda irão ter muitas saudades de Sean Spicer. 

 

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Sintomas

por Pedro Correia, em 21.07.17

1. Sair do governo e receber do governo

Menos de um mês depois de ter deixado de ser chefe de gabinete do ministro da Agricultura, Gonçalo Alves criou uma empresa de consultoria e certificação florestal, com mais três sócios. A empresa, constituída em Fevereiro deste ano, celebrou em Junho um contrato por ajuste directo com o Fundo Ambiental, sob alçada do Ministério do Ambiente, para prestação de serviços na área das alterações climáticas.

O contrato de €66 mil para serviços de assessoria e acompanhamento de projectos, disponível no portal Base, foi celebrado a 26 de Junho de 2017. O Ministério do Ambiente lembra que a lei permite ajustes directos até €75 mil e, por isso, não obriga a que haja concurso público. E assegura que “não era do conhecimento” do ministério que um dos sócios da empresa fosse ex-chefe de gabinete do ministro da Agricultura.

(...) O ano em que Gonçalo Alves esteve no gabinete coincide com o período em que o Governo preparou 12 diplomas para a reforma da floresta. Um deles, da responsabilidade da Agricultura, criou o regime de reconhecimento das Entidades de Gestão Florestal (EGF). Um dos critérios para que as entidades sejam reconhecidas como tal — e venham a ter benefícios e incentivos fiscais, ainda em discussão no Parlamento — é a obrigatoriedade de terem certificação florestal.

 

Notícia do Expresso de 15 de Julho. Sublinhados meus

 

2. Ajuste directo em oito dias

A campanha de comunicação da candidatura de Portugal a sede da Agência Europeia do Medicamento custou 74.500 euros mais IVA a 23%, o que dá um total de 91.635 euros. O contrato foi tornado público no portal de contratação do Estado há uma semana e revela que campanha foi adjudicada pelo Infarmed à empresa Lift Consulting, por ajuste directo.

De acordo com a informação publicada pelo Infarmed no portal BASE, o contrato foi celebrado a 29 de Junho, data em já tinha sido colocado online e depois bloqueado o site da candidatura oficial de Lisboa. Porém, os trabalhos da empresa começaram mais cedo, uma vez que o portal emainlisbon.eu – agora desactivado – foi registado por uma empresa do grupo Lift a 18 de Maio, oito dias depois de o parlamento ter votado em unanimidade a candidatura da capital. E mais de um mês antes da data que consta no registo feito no portal BASE.

Entretanto, em Junho, o dossiê sofreu uma reviravolta política que culminou no conselho de ministros da última quinta-feira, quando o governo decidiu avançar com a candidatura do Porto.

A 21 de Junho, quando o site oficial de Lisboa continuava activo não obstante o governo ter reaberto o processo de decisão, o i e o Sol procuraram saber junto do Ministério da Saúde quanto tinha custado o desenho do logótipo da candidatura de Lisboa, a feitura do site e todo o projecto de comunicação do sítio emainlisbon.eu, assim como se haveria duplicação de custos caso a opção final viesse a ser o Porto.

Na altura, as questões não tiveram resposta. A despesa com a comunicação viria a ser pública na passada terça-feira, dia em que o Infarmed publicou no portal BASE o contrato referente à ”contratação de serviços especializados de comunicação no âmbito da candidatura de Portugal à sede da EMA”.

Questionado de novo se a reformulação da campanha - tendo em conta a decisão de candidatar o Porto - terá novos custos, o Infarmed disse apenas que a despesa é relativa à candidatura nacional “em todas as suas vertentes”, não respondendo directamente à pergunta. Já sobre a opção por um ajuste directo tendo o contrato um valor muito próximo do limite para este tipo de contratação por parte do Estado (75 mil euros antes de IVA no caso de aquisições de bens e serviços, a menos que se trate de um caso de urgência imperiosa, se só existir um fornecedor ou quando um concurso anterior tenha ficado deserto), o Infarmed informou que a “aquisição dos serviços fez-se de acordo com as regras aplicáveis às instituições públicas”.

 

Notícia do i de 19 de Julho. Sublinhados meus

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DDO Memória

por João Campos, em 07.07.17

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Não sei se se lembram, mas houve um tempo em que bastava um ministro fazer uns corninhos a um deputado em plena assembleia da república para ser sumariamente demitido. Bons tempos, esses. 

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Ontem, porém, houve luz na escuridão. O provedor da Misericórdia de Pedrogão Grande induziu Passos Coelho num lapso, de que o líder do PSD decidiu pedir desculpa. Foi a alegria do costismo. Era a sorte outra vez. Mas talvez o sarcasmo do regime tenha desta vez ficado demasiado patente: é que tivemos desculpas do líder da oposição por um pequeno comentário, mas nem uma palavra de contrição do governo pela incompetência e descontrole que mataram 64 pessoas e deixaram mais de 200 feridas.

Rui Ramos, no Observador.

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Desafio aos leitores

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Quem poderá ser o Emmanuel Macron português?

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À sombra dos abrigos

por Pedro Correia, em 04.04.17

É um fenómeno que acontece ciclicamente na política, como sucede com as marés ou as estações do ano: volta e meia, surgem umas personalidades envoltas no nevoeiro mediático que logo alguns começam a apontar como novos messias. Não falta mesmo quem assegure que só tais personalidades são capazes de “regenerar o sistema”, aproximar eleitos de eleitores e conferir à vida política portuguesa a respeitabilidade que lhe vem faltando.

Acontece à esquerda e à direita. Gente de fato cinzento e discurso cinzento obtém coloridos aplausos da tribo dos comentadores, sempre pronta a elogiar não quem vai à luta mas quem se resguarda das dificuldades no sossego dos biombos e só aparece quando o vento amaina, as dificuldades diminuem e as hipóteses de mudança de ciclo se tornam muito fortes.

 

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A Reprodução Interdita, de René Magritte

 

É um intrigante hábito político e jornalístico nacional, este de entoar hossanas a quem se cala, a quem cruza os braços, a quem se amedronta nos momentos difíceis, a quem permanece na sombra e se limita a gerir o silêncio entrecortado por umas frases enigmáticas logo transformadas em títulos bombásticos e setas viradas para cima nas colunas dos jornais.

Se o destino de Portugal estivesse dependente do calculismo destas personalidades que optam pela comodidade pessoal no momento em que mais se exigiria delas total empenho nos combates políticos estaríamos certamente condenados a perder todos os desafios do futuro.

Porque os nossos problemas enquanto sociedade só conseguirão ser ultrapassados com protagonistas que não estejam sempre a medir o impacto de cada palavra e as consequências de cada gesto, por mínimos que sejam. Só conseguirão ser superados com determinação e coragem por gente que não vira a cara à luta. Só conseguirão ser vencidos por quem age a pensar nas próximas gerações e não nos títulos dos jornais da manhã seguinte.

 

Não precisamos de políticos de pose esfíngica, que se calam quando deviam falar e falam quando deviam permanecer em silêncio. Não precisamos de políticos que valorizem mais a opinião dos comentadores do que a opinião dos cidadãos. Não precisamos de políticos que só dão nas vistas em tempo de bonança enquanto se eclipsam em dias de tempestade.

Precisamos de políticos que personifiquem as virtudes enunciadas por Sophia de Mello Breyner num dos seus mais célebres poemas: « Porque os outros se compram e se vendem / E os seus gestos dão sempre dividendo. / Porque os outros são hábeis mas tu não. / Porque os outros vão à sombra dos abrigos / E tu vais de mãos dadas com os perigos. / Porque os outros calculam mas tu não.»

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O que é que a União Europeia já fez por nós?

por João Campos, em 28.03.17

(a propósito deste post do Pedro)

 

JERÓNIMO: Sugou-nos até ao tutano, a União Europeia. Tirou-nos tudo, e não só a nós, mas também aos nossos pais, e aos pais dos nossos pais.

CATARINA: E aos pais dos pais dos nossos pais.

JERÓNIMO: Sim.

CATARINA: E aos pais dos pais dos pais dos nossos pais.

JERÓNIMO: Pois, sim, certo, Catarina. Já percebemos. E o que é que a União Europeia nos deu em troca?

ANTÓNIO: O mercado comum?

JERÓNIMO: Hã?

ANTÓNIO: O mercado comum.

JERÓNIMO: Ah, sim, isso. Sim, deram-nos isso. É bem verdade, sim.

MILITANTE #3: E a livre circulação.

CATARINA: Pois é, a livre circulação. Lembras-te da maçada que era viajar para fora do país antes?

JERÓNIMO: Pronto, está bem, admito que o mercado comum e a livre circulação foram duas coisas que a União Europeia nos deu.

JOÃO: E o Euro.

JERÓNIMO: Bom, sim, o Euro é óbvio. Quer dizer, nem é preciso falar nisso, não é? Mas tirando o mercado comum, a livre circulação, e o Euro...

MILITANTE #1: Mais turistas.

ANTÓNIO: Mais investimento.

MILITANTES: Sem dúvida, sem dúvida.

MILITANTE #2: O Programa Erasmus.

MILITANTES: Ah...

JERÓNIMO: Está bem, está bem, já percebi.

MILITANTE #1: E os fundos europeus.

MILITANTES: Ah, pois, os fundos...

JOÃO: Ora aí está uma coisa de que iríamos mesmo sentir falta se a União Europeia acabasse, Reg. Os fundos.

MILITANTE #1: Acesso à justiça comunitária.

CATARINA: E desde que estamos na União Europeia temos mais disciplina nas contas públicas, Reg.

JOÃO: Eles bem tentam que sejamos mais disciplinados nas finanças. Convenhamos que num país destes se não fosse por eles lá em Bruxelas também não nos iríamos maçar muito com isso.

MILITANTES: Eh eh eh eh eh.

JERÓNIMO: Muito bem, mas para além do mercado comum, da livre circulação, do Euro, dos turistas, do investimento, do Programa Erasmus, dos fundos europeus, do acesso à justiça comunitária e do rigor orçamental, o que é que a União Europeia alguma vez fez por nós?

ANTÓNIO: Trouxe paz para a Europa?

JERÓNIMO: Paz para a Europa? Bardamerda para isso!

 

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Trumps nacionais

por José António Abreu, em 27.03.17

Catarina Martins propõe saída do euro.

Evidentemente, e não obstante a demagogia com que abordam estes assuntos ser igualzinha à do presidente norte-americano ou de Marine Le Pen (podiam ou não ser declarações de Catarina Martins?), ninguém os classifica como tal - afinal são simpáticos para os imigrantes e nem chamam terroristas aos terroristas. Por cá, raros se atrevem sequer a afirmar serem precisamente as políticas da Geringonça a empurrar o país para uma situação de insustentabilidade - e os que o fazem são corridos a acusações de ressabiamento e derrotismo. Todos sabem, porém, que ao nível da dívida pública e respectivas taxas de juro o último ano e meio poderia ter sido muito diferente, abrindo perspectivas mais optimistas para um futuro sem (tanta) ajuda por parte do BCE. António Costa, por exemplo, sabe-o perfeitamente. Os pedidos, cada vez menos subtis, para mudanças de política ao nível da União Europeia (o que representa a sanha contra Dijsselbloem senão uma tentativa para facilitar a abordagem de pontos como a mutualização e a renegociação?) constituem reconhecimento cabal de que também ele acha a dívida insustentável - sem que isso o impeça de continuar alegremente a aumentá-la (perdido por cem, dir-se-á...). Talvez um dia fique demonstrado que Costa, a mais frontal Catarina (e o mais «ortodoxo» Jerónimo) estavam certos. Mas quando alguém tem o poder para fazer cumprir uma profecia, e faz quase tudo nesse sentido, não admira que ela se concretize. Infelizmente, esse dia, como é habitual nas vitórias do populismo, não ficará para a história como um dia feliz.

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Em relação ao passado, ele até pode ter razão. Mas, por favor, alguém lhe diga que o Elefante Branco fechou e o Pérola Negra já não é o que era.

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It’s not the economy

por Alexandre Guerra, em 16.03.17

Na campanha presidencial de 1992 contra Bush pai, o staff de Bill Clinton tinha como uma das mensagens-chave a famosa expressão “the economy, stupid”, forjada pelo estratego James Carville (ex-CNN e actual FOX News). Mais tarde, quando esse conceito transbordou para a esfera pública, a frase foi usada e abusada ao longo dos anos na sua versão mundialmente conhecida: “It’s the economy, stupid”. Ainda hoje aquela expressão é utilizada vezes sem conta por comentadores e opinion makers nas suas colunas de jornais e revistas. A questão é que além daquela frase ser completamente datada, o seu conteúdo (que na verdade nunca terá sido bem interiorizado por muitos que ainda hoje a utilizam), pouco ou nenhum sentido faz nos dias que correm se olharmos com atenção para as realidades políticas e eleitorais de alguns países, nomeadamente os Estados Unidos ou o Reino Unido.

 

Na altura, o ainda governador do Arkansas colocou a economia como tema central da campanha, talvez não tanto pela questão do estado real dessa mesma economia americana (que embora não sendo famosa, não era dramática), mas porque, no fundo, Carville sabia que era necessário encontrar um factor de contraste evidente com o mandato de George H. W. Bush que, pela força das circunstâncias, foi dominado pela política espectacular dos grandes acontecimentos mundiais e das grandes cimeiras. Para quem se recordará desses tempos ou tem algum conhecimento das relações internacionais, dificilmente encontrará um período da História recente tão “político”, interessante e entusiasmante como aquele que Bush pai viveu enquanto Presidente entre 1989 e 1993.

 

Foi aquilo a que os especialistas chamam de período de transição sistémica. Hoje é um assunto arrumado de que o século XX acabou ali. Para trás, ficaram décadas de Guerra Fria, onde a economia jamais tinha suplantado a política enquanto tema de campanha ou de topo de agenda mediática. Em quatro anos, e apesar dos problemas da economia dos EUA, o mundo assistia à morte do comunismo, à queda do Muro de Berlim, à implosão da União Soviética, às reformas na China, à primeira Guerra do Golfo, à intervenção americana no Panamá e na Somália, já para não falar na Guerra da Bósnia. Aliás, já antes, Ronald Reagan tinha ficado para a História como o homem que vencera a Guerra Fria.

 

Poder-se-á dizer que os acontecimentos de política externa pouco ou nada interessavam aos americanos perante as dificuldades que enfrentavam no seu dia-a-dia. Pois, mas a questão é que nem os problemas da economia americana eram assim tão dramáticos, como alguns desses acontecimentos internacionais entraram no quotidiano dos americanos de uma forma bastante intensa. Além disso, é preciso notar que a América já tinha vivido períodos bem mais difíceis em termos de economia em décadas anteriores, bastando referir, por exemplo, o processo de desindustrialização nos anos 70 e 80, nomeadamente no sector automóvel, com o surgimento da concorrência asiática.

 

A verdade é que olhando para os tempos de Guerra Fria não havia grande “espaço” para a prevalência da economia sobre a política na condução dos Estados e muito menos para os comentadores económicos e para as análises económicas híper-amplificadas nos media (os canais também eram diminutos, note-se). A política pura e dura dominava e os tempos que se viviam eram deveras muito interessantes. É certo que a partir do início dos anos 90, com o advento da globalização e com as teorias do Fim da História e outras, a política vai perdendo relevância para dar lugar à economia enquanto móbil da História. Os grandes líderes e estadistas foram desaparecendo e surgiram os tecnocratas ou os dirigentes orientados por critérios quantitativos. Começa-se a criar uma ideia (errada) de que a política acabou e as sociedades ocidentais entram num Fim de História, dominadas pelo capitalismo e democracias liberais.

 

A euforia durou até 11 de Setembro de 2001, que foi uma espécie de “wake up call”, mas foram precisos vários anos e muitos acontecimentos geopolíticos para se perceber que, afinal, o mundo está longe de ser “plano” e que a política impera naquilo que é a história dos Estados e as Relações Internacionais. Aliás, olhando para os fenómenos eleitorais mais recentes, com resultados que muitos consideraram de “protesto”, como foram os casos dos EUA, com a eleição de Trump, e do Reino Unido, com o referendo ao Brexit, constata-se que as motivações da maioria do eleitorado pouco ou nada tiveram a ver com economia, pelo menos numa lógica directa, já que ambos os países apresentam índices bastante satisfatórios nestas matérias, quer em crescimento do PIB, quer em taxa de desemprego.

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O livro que não nos deixa mentir

por Pedro Correia, em 16.03.17

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 Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves em 1975

 

A História é feita de grandes e pequenos homens. E também é feita de pequenas e grandes frases. Do "Alea jacta est", de Júlio César, ao "Nunca nos renderemos", de Churchill. Sem esquecer o incentivo que em 1640 D. Luísa de Gusmão terá deixado ao marido, o futuro D. João IV, para se unir aos conjurados: “Melhor morrer reinando do que viver servindo.”

Este livro traz-nos uma sugestiva panorâmica da história recente de Portugal, condensada em cerca de 1500 frases proferidas por protagonistas vários desde 1973 até ao final do ano passado. O título diz logo ao que vem: são “43 anos e seis meses de má política”.

É um título controverso, reconheça-se. Porque no fundo aqui nem tudo é mau. E a todo o momento somos confrontados com este paradoxo: temos excelentes frases de péssimos políticos e medíocres declarações de políticos que se notabilizaram por serem mais aptos a mostrar obra do que a falar.

 

Por opção editorial, o livro começa por recolher declarações registadas nos últimos meses do chamado Estado Novo, em 1973. Foi uma decisão acertada, para que se perceba bem como ao longo dos últimos 43 anos tivemos três países muito diferentes, com reflexos inevitáveis no discurso político.

Refiro-me ao país da ditadura, ao país da revolução e ao país da chamada “normalidade democrática”. Que é – felizmente – aquele em que vivemos agora.

 

O país mais antigo era o da censura oficial e o da supressão das liberdades.

Um país repleto de retórica balofa e vazia, muito adjectivada, cheia de gongorismos e salamaleques.

Um país com um chefe do Governo que chamava “conversa” ao monólogo.

Um país com um Presidente da República que no discurso do Ano Novo de 1974 declarou o seguinte: “Com o galopar incessante do tempo, vai encurtando a distância que separa a Humanidade do século XXI, vai ficando cada vez mais distanciado o século XIX e vão sucessivamente desaparecendo da vida aqueles que nele nasceram.”

La Palice não diria melhor…

 

Seguiu-se o país da erupção da liberdade logo ameaçada pelos delírios revolucionários com a sua linguagem de recorte bélico, cheia de verbos como “lutar”, “esmagar” e até “matar”. Este é um período interessantíssimo – para mim o mais fascinante de toda a obra, e não por acaso preenchendo quase um terço do livro.

Um período que exigiu certamente do organizador, Luís Naves, uma exaustiva investigação para apurar com exactidão e rigor quem disse o quê, à margem do boato que com o passar dos anos tantas vezes se torna lenda.

E, sim, é verdade que Otelo Saraiva de Carvalho disse mesmo que talvez tivesse sido melhor “encostar à parede ou mandar para o Campo Pequeno umas centenas ou uns milhares de contra-revolucionários, eliminando-os à nascença”.

Este Robespierre de trazer por casa, quando afirmou isto em Junho de 1975, era o chefe da mais poderosa força armada em Portugal. Por sinal o mesmo Otelo que em Abril de 2011, tendo o frenesim extremista já só como recordação, declarou alto e bom som: “Se soubesse como o País ia ficar, não fazia a revolução.”

 

Eram tempos irrepetíveis.

Tempos em que a Intersindical – com o Partido Comunista no Governo – espalhava a palavra de ordem “Não à greve pela greve”.

Tempos em que o futuro secretário-geral do PCP, Carlos Carvalhas, então secretário de Estado do Trabalho, considerava “verdadeiramente revolucionário” que os portugueses trabalhassem no feriado do 10 de Junho.

Tempos em que o primeiro-ministro pró-comunista Vasco Gonçalves anunciava a intenção de mandar “uma quantidade de gente para um campo de trabalho”.

 

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Não tenho a menor dúvida: este livro será a partir de agora um precioso auxiliar para quem escreve nos jornais, para quem fala nas televisões e nas rádios. Jornalistas, comentadores e decisores políticos, por exemplo, passarão a tê-lo à cabeceira ou na secretária de trabalho.

Andamos bem carecidos de obras como esta, que nos estimulem e revigorem a memória nestes dias da “pós-verdade”, onde milhares de pseudo-sábios garantem não existir qualquer diferença entre facto e treta.

43 Anos e 6 Meses de Má Política é neste aspecto – e muito bem – um livro que rema contra a corrente. Porque se ancora no facto e despreza a treta. Uma triagem que só se tornou possível graças ao olhar atento de um jornalista experiente, habituado a separar as águas, destacando aquilo que realmente se disse ou se escreveu sem dar guarida a mitos, por mais plausíveis que parecessem.

Um exemplo: a célebre frase “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, atribuída há décadas a Cavaco Silva, afinal é de autor anónimo. Não há registo de que alguma vez Cavaco a tenha proferido.

 

Mas muitas outras aqui desfilam, devidamente comprovadas. Lembrarei algumas, que acabaram por integrar-se na linguagem comum, muito para lá do contexto em que nasceram. "Olhe que não, olhe que não", disse Álvaro Cunhal em 1975. "É só fumaça, o povo é sereno", bradou no mesmo ano Pinheiro de Azevedo, autor de outra frase que tem sido muito citada nas últimas semanas e que talvez por uma questão de decoro não vem incluída nesta antologia.

Esta obra não esquece a “luz ao fundo do túnel” invocada por Mário Soares em 1978 quando solicitou ao FMI o primeiro auxílio de emergência financeira da democracia portuguesa. Nem a necessidade de "apertar o cinto", mencionada também por Soares, em 1984, quando o País estava novamente sob assistência externa. Nem o desbragado optimismo do ministro Braga de Macedo, ministro das Finanças de Cavaco, quando em 1992 anunciou que "Portugal é um oásis".  Ou a platónica garantia dada em inglês pelo recém-empossado primeiro-ministro António Guterres em 1995: "No jobs for the boys." E o que dizer do optimismo socrático do ministro Manuel Pinho ao proclamar urbi et orbi em Outubro de 2006: "A crise acabou"?

 

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Uma segunda edição permitirá certamente colmatar algumas lacunas – poucas – que registei numa leitura atenta.

"Soares é fixe",  que serviu de lema central à vitoriosa campanha presidencial de 1986.

"Esse é um assunto tabu", frase de Cavaco proferida em Outubro de 1994, deixando em aberto o seu futuro como líder do PSD e chefe do Governo. O tabu só seria desfeito só na Primavera seguinte.

Ou a deliciosa rendição de Manuela Ferreira Leite ao diktat de Bruxelas e Berlim: “Quem manda é quem paga.” Isto em Novembro de 2010, quando liderava o PSD e ainda não subscrevia abaixo-assinados para a renegociação da nossa dívida externa, de braço dado com Francisco Louçã.

 

O autor merece parabéns pela quantidade e qualidade do trabalho produzido. Muito mais do que um copioso registo de frases, estamos perante um precioso documento que nos ajuda a perceber melhor quem ao longo de vários ciclos políticos honrou a palavra dada e quem andou a vender gato por lebre.

 

E por falar em previsões, aqui destaco três, igualmente incluídas nestes 43 Anos e 6 Meses de Má Política:

"Vou liderar o PSD nos próximos dez anos", declarou Durão Barroso em Agosto de 1999. Como sabemos, não aguentou sequer metade desse tempo: em Junho de 2002 despediu-se apressadamente da pátria, rumando à presidência da Comissão Europeia sem olhar para trás.

"A minha maior ambição política é não ter ambição nenhuma", assegurou em Outubro de 2003 o actual Presidente da República. Caso para questionarmos onde estaria neste momento o Chefe do Estado se alimentasse alguma ambição…

"Portugal não necessita de nenhuma assistência financeira", afiançou em Janeiro de 2011 o primeiro-ministro José Sócrates. Três meses antes de fazer um apelo quase desesperado às instituições financeiras internacionais para salvarem as nossas contas públicas.

 

Vistas à distância, já quase extinto o calor da polémica, frases como estas ganham um importante carácter documental: deixam de mobilizar o jornalista, passam a interpelar o historiador.

Desde logo porque de previsões falhadas também reza a história. Aqui estão elas, plasmadas neste livro que não nos deixa mentir.

 

Texto que, com pequenas alterações, li ontem na sessão de apresentação do livro, em Lisboa.

 

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43 Anos e 6 Meses de Má Política, de Luís Naves (Contraponto, 2017). 355 páginas.
Classificação: ****

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Nem Soares nem Ronaldo

por Pedro Correia, em 13.03.17

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 Aeroporto do Montijo, futuro complemento da Portela

 

Não sei por que motivo os aeroportos hão-de ser baptizados. Os dois melhores aeroportos que conheço, o de Singapura e o de Amesterdão, são conhecidos pelos seus nomes de origem, Changi e Schiphol respectivamente. O que nada lhes diminui o prestígio, antes pelo contrário. Nem deixam de ser concorridíssimos e prestigiadíssimos por causa disso.

Dar nomes de pessoas a aeroportos colide, além disso, com o princípio da igualdade. Porquê não fazer o mesmo a estações ferroviárias ou fluviais? Porque não chamar Diogo Cão ao Cais da Rocha de Conde de Óbidos ou Fontes Pereira de Melo à gare de Santa Apolónia?

 

Sempre achei de tremendo mau gosto pôr o nome de Francisco Sá Carneiro ao aeroporto de Pedras Rubras – sabendo-se, como sabemos, que o ex-primeiro-ministro morreu a bordo de um avião precisamente quando se dirigia àquele destino.

Considero inqualificável que o aeroporto do Funchal passe a chamar-se Cristiano Ronaldo, alguém que nunca se distinguiu por proezas no domínio da aviação civil ou militar nem consta sequer que tenha brevet. Bem basta ter já, aos 32 anos, uma estátua erguida no Funchal que rivaliza com a do descobridor João Gonçalves Zarco.

E acho lamentável que o Presidente da República se tenha apressado a sugerir o nome de Mário Soares para designar o aeroporto do Montijo na hipótese de ser adaptado a voos civis como apoio ao da Portela, agora denominado Humberto Delgado.

 

Se os decisores políticos pusessem travão à demagogia e pensassem duas vezes antes de falar verificariam que existem duas enormes lacunas nesta matéria. Se a ideia é atribuir nomes de personalidades ilustres aos nossos aeroportos, ninguém tão prioritário do que os mais célebres aviadores portugueses de todos os tempos, protagonistas em 1922 da travessia aérea do Atlântico Sul.

Sim, refiro-me a Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1881-1924). Já serviram para designar ruas e avenidas, e até escolas, mas se quisermos continuar a atribuir nome de gente aos nossos aeroportos há que prestar-lhes esta homenagem. Eles merecem-na, muito antes de qualquer político passado ou presente – de D. Afonso Henriques a Marcelo Rebelo de Sousa.

Quanto aos futebolistas, por mais campeões que sejam, reservem-nos para os estádios: é lá que mostram o que sabem, é lá que merecem ter nomes e estátuas.

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O odor dos animais ferozes

por José António Abreu, em 09.03.17

O que se passou ontem no Parlamento revela muito sobre a incapacidade deste PS debater os assuntos. Quando questionado, ataca, procurando desviar as atenções. Não aceita críticas, venham elas de organismos independentes como o Conselho da Finanças Públicas, venham de deputados cujo mandato inclui precisamente o escrutínio da acção governativa. Nem nos piores momentos da estadia da Troika em Portugal, com a oposição nas ruas, Passos Coelho reagiu como Costa o tem feito.

Mas já vimos este filme. As passagens de Sócrates pela Assembleia seguiam o mesmo guião. E, na verdade, não surpreende que ele continue a ser aplicado: Costa, Galamba, César, Ferro, Nuno Santos foram apoiantes entusiásticos de Sócrates e, como ele, parecem outorgar-se o direito de ocupar um plano acima daquele onde se movimentam todos os outros - e de todas as regras. Enrobustecido pelas necessidades da gerinçonça mas, na verdade, intrínseco, o jacobinismo deste PS é gritante. Adicionem-se-lhe factores como a fragilidade das contas públicas, o «optimismo» comprado com medidas demagógicas, a complacência da União Europeia, e depressa o odor a 2009 se torna indisfarçável.

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As etiquetas partidárias

por Pedro Correia, em 17.02.17

 

Ouço por vezes falar em "ideologias" na política portuguesa. Há até uns sábios que se assumem como guardiães dos respectivos templos.

Mas que ideologias, afinal?

 

O CDS reivindicou-se sempre como partido "do centro". C de centro, aliás. Mas esteve sempre à direita do centro, contrariando aliás a vontade de um restrito núcleo dos seus fundadores.

O PCP só seria comunista se fosse um partido revolucionário. Mas é um partido institucionalista, com base social no funcionalismo público a nível nacional e local. Nada tem de revolucionário.

O PSD nunca foi social-democrata. Foi - e é - um partido liberal, conservador, com matizes populistas nas suas adjacências regionais.

O PS meteu o socialismo na gaveta ainda na década de 70. Teve sempre uma matriz dominante - a da social-democracia clássica, com erupções sociais-cristãs sobretudo no consulado de António Guterres.

O Bloco de Esquerda é vagamente "socialista" mas contemporizador com a UE capitalista, da qual não quer dissociar-se. Burguês até à medula, com representação residual junto dos segmentos mais pobres da sociedade. 

O PEV é tão ecologista como eu sou evangélico, xintoísta ou libertário. Eterna muleta do PCP, sempre foi muito mais vermelho que verde.

 

Esqueçamos portanto as etiquetas. Dizem-nos muito pouco ou quase nada dos partidos portugueses.

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Da arte do possível

por Pedro Correia, em 27.01.17

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«O ainda jovem Mario Vargas Llosa perguntou certa vez a Jorge Luis Borges, numa entrevista para a televisão francesa, o que era para ele a política. O grande escritor argentino deu-lhe uma resposta lapidar: "É uma das formas do tédio." Esta frase reflecte exemplarmente o carácter fastidioso da vida política, que só pode ser protagonizada com eficácia por quem sinta genuína vocação pela condução dos destinos de uma determinada comunidade - a nível de freguesia, município, região ou país - sem temer os choques que o exercício da governação sempre enfrenta.

A política é a arte do possível aplicada num momento muito concreto e numa circunstância muito específica: compete aos intelectuais como Borges, sonhadores e visionários por natureza, imaginar outros mundos, imunes à implacável e entediante lógica dos factos. Não admira que uma das primeiras recomendações que os políticos veteranos costumam dar aos seus jovens colegas é a de ajustar os desejos às realidades: em política, raras vezes compensa ter razão antes do tempo.»

 

Excerto do verbete POLÍTICA, do livro Política de A a Z

(edição Contraponto, 2017)

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'Política de A a Z': sala cheia

por Pedro Correia, em 27.01.17

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Não me lembro, sinceramente, de uma sessão de apresentação de um livro tão concorrida no piso 7 do Corte Inglés, de onde se desfruta um dos panoramas mais belos de Lisboa. Ontem a sala encheu-se na apresentação da Política de A a Z, o dicionário enciclopédico que a editora Contraponto - pertencente ao grupo Bertrand-Círculo - apresenta como "um guia para compreender todos os segredos da política" e considera "altamente recomendado para políticos". Mas também para jornalistas, líderes de opinião, estudantes e cidadãos em geral - permito-me acrescentar, como co-autor desta obra, que tem 333 entradas. De Absolutismo a Zé-Povinho.

Havia deputados, autarcas, escritores, vários jornalistas, muita gente amiga. Tive o gosto de encontrar por lá companheiros de diversas etapas profissionais e quatro colegas de blogue - a Inês Pedrosa, a Teresa Ribeiro, o Diogo Noivo e o Luís Naves. E também leitores do DELITO, que gosto sempre de conhecer nestas ocasiões.

 

Foi igualmente com imenso gosto que vi dois políticos que muito estimo acederem ao meu convite para apresentarem a Política de A a Z: José Ribeiro e Castro, que foi deputado logo na primeira legislatura democrática e presidente do CDS, e António Galamba, ex-secretário nacional do PS, ex-deputado e último governador civil de Lisboa. Dois benfiquistas que merecem o maior respeito do sportinguista que escreve estas linhas. Por pensarem pela própria cabeça e nunca terem hesitado em remar contra a maré dentro dos seus próprios partidos, dando assim genuínas lições de cidadania. Agradeço aqui as palavras lisonjeiras e porventura imerecidas que ontem proferiram, recomendando a leitura deste livro.

O Rodrigo Gonçalves e eu sublinhámos que uma das intenções da obra é colmatar uma lacuna do mercado editorial português num ano em que tanto se falará em política, por cá e lá fora. A propósito da nova administração norte-americana, dos processos eleitorais em França, Holanda e Alemanha, das eleições autárquicas portuguesas e do centenário da Revolução de Outubro na Rússia.

 

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A sessão terminou quase duas horas após as primeiras pessoas terem chegado ao sétimo piso do Corte Inglés. E depois de uma longa sessão de autógrafos, etapa que tanto parece maçar alguns autores mas que protagonizo sempre com muito agrado (este é já o meu quarto livro). Porque me recorda sempre quando estava eu do lado de lá, na fila dos autógrafos, para conseguir a assinatura de alguém que admirava ou estimava.

Hei-de falar disso aqui muito em breve. Para já, fica a minha recomendação para que espreitem esta Política de A a Z. Se me permitem a imodéstia, sou capaz de apostar desde já que vão gostar.

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Trump

por José António Abreu, em 26.01.17

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Alguém já deve ter feito um estudo relacionando o nível de riqueza dos países e o nível de proteccionismo das respectivas economias. Confesso desconhecê-lo. Estou, porém, convencido de que, a prazo, o proteccionismo nunca cria riqueza. Quando muito, é útil para dar algum tempo de adaptação a sectores específicos, de modo a evitar mudanças demasiado bruscas. Nenhum regime fortemente proteccionista é verdadeiramente rico (exemplo-limite: a Coreia do Norte) e, no mundo actual, baseado na tecnologia e no conhecimento, o proteccionismo é uma táctica suicida para economias pequenas e mal desenvolvidas (como a portuguesa).

 

Os Estados Unidos não têm nem o problema da dimensão (o PIB norte-americano representa cerca de 24% do PIB mundial) nem o de constituírem uma economia subdesenvolvida. Na realidade, numa economia tão grande, tão variada, tão baseada no consumo (68% do PIB) e tecnologicamente tão avançada como a norte-americana, é perfeitamente possível que medidas proteccionistas dêem origem a recuperação do emprego e aumento dos salários – durante uns tempos. Depois os preços tenderão a subir, o dólar a valorizar-se (com péssimas consequências para a sustentabilidade das dívidas de vários países periféricos), o consumo a travar, as exportações a diminuir (tanto pelo aumento dos custos de produção como pela imposição de tarifas aos produtos norte-americanos por parte de outros países), a imigração a aumentar (o efeito negativo na economia mexicana será imediato), o nível de inovação a descer, o investimento estrangeiro a hesitar, o mercado de capitais (assente em empresas multinacionais) a ressentir-se. Já para não mencionar o surgimento de dificuldades logísticas ou até mesmo político-logísticas: alguns materiais necessários para fabricar certos produtos obtêm-se apenas em países específicos (a China produz 85% dos metais de terras raras - como o neodímio e o lantânio - essenciais para o fabrico de smartphones e computadores) e uma deterioração das relações internacionais poderá dificultar o acesso a eles. (Vejam-se, por exemplo, as implicações de transferir a produção do iPhone para os Estados Unidos.) Enquanto isto for acontecendo, países mais fracos enfrentarão tremendas dificuldades (o México encontra-se prestes a ficar numa posição similar àquela em que Portugal se encontraria se perdesse o acesso livre ao mercado europeu) e a economia mundial também.

 

Mas Donald Trump está apenas a fazer o que prometeu. Na verdade, está até a fazer o que sempre defendeu. Comprovando a teoria (tão injustamente atacada) de que se pode ler a Playboy pelos artigos, parece que no interior do governo alemão tem andado a circular a edição de Março de 1990. Trump - que, pelos vistos, não gosta apenas de gatinhas (pussies), mas também de coelhinhas - era o entrevistado. E não tinha dúvidas: os problemas da economia norte-americana (no início de uma década de excelente desempenho) tinham origem nas importações de produtos japoneses e alemães, tornados competitivos através de subsídios dos respectivos governos, os quais ganhavam a folga para os pagar devido ao facto de serem os Estados Unidos a assegurar que os dois países não eram «removidos da face da Terra em cerca de 15 minutos». Trump acusava japoneses e alemães de roubarem o amor-próprio dos norte-americanos e terminava dizendo que «os nossos aliados lucram biliões lixando-nos». De então para cá, apenas necessitou de acrescentar China, México e, suponho, Coreia do Sul à lista dos seus ódios de estimação. Para Trump, tudo assenta em análises custo-benefício simplistas, feitas sempre numa perspectiva de curto prazo. Trata-se de uma excelente receita para o desastre. Que ele esteja a posicionar-se para incentivar o desmembramento da União Europeia, de modo a forçar acordos bilaterais a partir de uma posição de força que as condições actuais não lhe providenciam, só pode reforçar os motivos de preocupação.

 

Há um ponto, todavia, em que é necessário elogiá-lo. Um ponto que até ajuda a explicar por que venceu as eleições. Nos primeiros dois dias, Trump reuniu-se com líderes de grupos industriais e com sindicalistas. Nas conferências de imprensa diárias, Sean Spicer, o porta-voz da Casa Branca, fez questão de realçar que vários deles nunca tinham estado na Sala Oval e que alguns nunca haviam sequer entrado na Casa Branca. Para um cidadão desempregado, ou num emprego de baixo rendimento, que via as estrelas de Hollywood descreverem, nos programas de Stephen Colbert ou Jimmy Fallon, as festas e os jantares na Casa Branca em que haviam participado, isto é um tremendo sinal. Os encontros de Trump podem não passar de demagogia ou significar o pontapé de partida para uma crise mundial. Para essas pessoas, contudo, marcam a diferença. Barack e Michelle Obama eram elegantes, politicamente correctos, excelentes oradores e dançarinos - o epítome do cosmopolitismo. Mas Trump está a lutar por eles. Não há piada desdenhosa ou crítica mal fundamentada capaz de vencer esta ideia.

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TSU e o mau da fita

por José António Abreu, em 25.01.17

1. Economia

Em Portugal, ninguém questiona que tudo passe pelo Estado e tudo dependa do Estado. Ao lidar com o sector público mas também com o privado, o governo age como se o dinheiro dos contribuintes fosse inesgotável e a economia de uma resiliência à prova de bala. Daqui nasce um círculo vicioso: a economia cresce pouco, o Estado não obtém os recursos pretendidos, o orçamento público apresenta défices crónicos, os impostos e a dívida aumentam, a economia cresce ainda menos. Tudo isto perante a complacência – quando não o aplauso – das associações patronais, dos sindicatos, da maioria dos comentadores, do Presidente da República. A polémica em torno da TSU constitui mais um exemplo desta lógica. A medida é péssima: apoia-se em dinheiro dos contribuintes, serve de contraponto a um aumento exagerado (porque muito superior aos ganhos de produtividade) do salário mínimo (já demasiado próximo do salário mediano), e, num país onde ele abrange vinte e tal por cento dos trabalhadores, incentiva as empresas a usá-lo ainda mais. Porém, isto não impediu que as associações patronais a sancionassem. Em vez de defenderem medidas que permitam a subida do salário mediano e forcem o Estado a um nível superior de eficiência (descidas de impostos ou simplificação de processos burocráticos, por exemplo), escolheram (escolhem sempre) alinhar numa lógica de subsidiação, apoiada em cada vez mais regras e excepções. Ou seja: em Portugal, as associações patronais são uma parte não apenas activa mas entusiasta no crescimento desmesurado do Estado - e, por conseguinte, no agravamento dos problemas dos seus próprios associados.

 

2. Política

Passos Coelho é um espinho cravado no sistema político nacional. O homem recusa-se a seguir o guião. Parece que, de repente, até decidiu fazer política. Indivíduos mais atentos teriam notado a forma como ele deu a volta a Paulo Portas em 2013; como aguentou críticas ferozes, vaticínios catastrofistas e distorções variadas (que, evidentemente, nada tinham a ver com «pós-verdade» ou «factos alternativos») enquanto foi primeiro-ministro; como, quebrando a tradição nacional de que uma pessoa não se «rebaixa» a um papel menos importante do que outro já desempenhado, assumiu o lugar de deputado após a queda do seu governo às mãos da «geringonça». Na verdade, Passos é um político. Um excelente político. Nas últimas semanas, António Costa – este sim, considerado por todos um político exímio, para além de um negociador imbatível – deu-lhe oportunidade para o demonstrar. Costa fechou um acordo que violava a Constituição (o escândalo mediático que teria surgido há apenas um par de anos...) e para o qual não garantira apoio parlamentar. Para o fazer passar, contava com a passividade do PCP, do Bloco – ou do PSD. Os dois primeiros foram iguais a si mesmos e mostraram que o governo de Portugal não é estável nem credível (quanto a duradouro, veremos). Por seu turno, Passos resolveu finalmente assumir o papel de líder da oposição e cumprir o que prometera aquando da tomada de posse da «geringonça»: forçá-la a governar. Nos dias seguintes, verificou-se que Costa tinha quase toda a gente «importante» com ele: a intelligentsia mediática, os «patrões», a UGT, a facção «bem-pensante» do PSD, o Presidente da República. Só que Passos aguentou muito mais durante os anos da Troika. Não cedeu, e fez bem. Contudo, assumiu um risco: para os poderes instalados (os mesmos que Ricardo Salgado elogiou explícita e implicitamente no artigo que escreveu aquando da morte de Mário Soares), é cada vez mais importante afastá-lo da liderança do PSD.

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