Tique-toque
Uma coisa é correr para rei dos cliques no tique-toque, outra (muito diferente) é concorrer a Presidente da República.
Como se verá.
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Uma coisa é correr para rei dos cliques no tique-toque, outra (muito diferente) é concorrer a Presidente da República.
Como se verá.

A autoconfiança é um atributo fundamental num político. John Kenneth Galbraith notou certa vez que nunca tinha conhecido um homem tão confiante em si próprio como John Fitzgerald Kennedy – o que serve para explicar grande parte do sucesso do 35.º presidente norte-americano, ainda hoje uma das personalidades mais aclamadas do século XX. No fascinante livro The Best and the Brightest, dedicado aos bastidores da presidência Kennedy, David Halberstam mostra-nos outra característica do jovem presidente que acabaria por ser assassinado em Dallas: ele era exactamente como parecia. Ao contrário de outros políticos, que fazem tudo para parecer o que não são, Kennedy tinha uma autenticidade que empolgava os seus adeptos e desarmava os seus adversários.
Há um episódio da disputadíssima campanha eleitoral de 1960 que ilustra bem tudo isto: a certa altura alguém pergunta a Kennedy se não se sente exausto. A resposta, negativa, veio num sorriso. Mas o então senador do Massachusetts que se candidatava à Casa Branca pelo Partido Democrata acrescentou ter a certeza de que o seu antagonista republicano, Richard Nixon, se encontrava à beira da exaustão (o que mais tarde se provaria ser verdade). E como é que Kennedy sabia isto? O futuro presidente esclareceu o seu interlocutor: «Sei bem quem sou e não tenho de me preocupar em adaptar-me ou transformar-me. Tudo quanto tenho de fazer, em cada etapa da campanha, é mostrar-me tal como sou. Mas Nixon não sabe bem quem é. Portanto, cada vez que faz um discurso tem de decidir que face dele próprio irá mostrar, o que deve ser extenuante.»
Este episódio ajuda a demonstrar a importância da autenticidade na política. Um dirigente postiço, plastificado, sempre em pose, acaba cedo ou tarde por ser desmascarado. Perde grande parte da sua capacidade de atracção quando lhe desvendam o verdadeiro rosto. E termina esgotado por ter consumido energias em excesso ao tentar parecer o que não é.
O país tripartido que emergiu das legislativas de Maio volta a bipolarizar-se nas autárquicas, cinco meses depois. As notícias da morte do bipartidarismo eram manifestamente exageradas.
Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana
Quem está na política precisa de ter pele dura. Aqueles que a não tiverem, farão melhor em dedicar-se a outra actividade. À jardinagem, por exemplo.
Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana
Anda por aí quem pretenda "salvar" Portugal. Neste país nunca faltaram salvadores. Temos sofrido, sim, um enorme défice de bons gestores. Ninguém precisa de salvar aquilo que é bem gerido.
Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Freitas do Amaral, Sá Carneiro, Mário Soares e Álvaro Cunhal (Dezembro 1976)
Foto: Inácio Ludgero
É sempre muito subjectivo falar-se em direita e esquerda na política. Conceito fluido, que depende sobretudo do ponto de vista de quem cola as etiquetas.
Sou de um tempo em que o PS chegou a ser rotulado de "partido de direita" e até com erupções de "extrema-direita".
Também sou de um tempo em que o PSD se proclamava de "centro-esquerda" cuja fronteira terminava no centro geométrico (que, em política, é sempre uma abstracção). Aí não havia rotuladores externos: quem assim o definia era Rui Rio, na altura "líder" do partido. Alguém que tinha como alter-ego Pacheco Pereira, hoje espécie de alma gémea de Alexandra Leitão, candidata da "frente de esquerda" em Lisboa.
Como os anos já pesam, sou até de um tempo em que o meu antigo professor de Direito Administrativo, Freitas do Amaral, chegou a ser considerado em editorial de imprensa "o homem mais a direita de Portugal". Para acabar como ministro de Sócrates e parceiro de palco de Francisco Louçã.
Nada é estático na política. Tudo é dinâmico.
Definir essa dinâmica é tarefa de quem sabe observar os fenómenos políticos com atenção.
Começo a apreciar este Governo, embora não esteja a apreciar este Governo. Esta declaração esquizofrénica requer explicação, mas primeiro vou dar uma volta. Com licença:
Suponho que não há quem não seja (tirando eu e um ou outro ocasional maduro) a favor da justiça social e da diminuição das desigualdades.
Deixemos em paz a justiça social, à qual cada um dá o conteúdo que quiser mas sempre se resumindo nisto: Fulano teve ou tem vantagens materiais sobre mim, uma grande injustiça, de modo que devo ser compensado e os meus filhos também no caso de não lhes ter podido dar vantagens sobre os filhos dos outros.
Se a diminuição da desigualdade é um bem, a igualdade é o maior bem que se pode obter. Mas como não há maneira de garantir que, na imensa variabilidade das competências, circunstâncias e interesses, todos atinjam os mesmos resultados materiais, haverá que pilhar os mais bem sucedidos a benefício dos restantes.
Nos bons tempos do marxismo não havia mistério: de cada qual segundo a sua capacidade (isto é, o que produzes não é teu), a cada qual segundo as suas necessidades (isto é, as que podem ser satisfeitas). A coisa ruiu porque implicava pessoas que não existem, aquelas que se esforçam a benefício não de si mesmas e dos seus filhos mas da comunidade. E como as que existem são as que sempre existiram, com o tempo os regimes ficaram igualitários mas com uns cidadãos mais iguais do que os outros; e o processo da criação de riqueza travou. Ainda há quem defenda este modelo falido e, por mim, são pessoas que encaro com ternura: quando ainda tinham poder, e portanto representavam um perigo, eu era novo e agora não sou. O perigo passou mas infelizmente também os anos, e de toda a maneira vejo com uma certa simpatia pessoas com ideias disparatadas; e, se se reclamarem de superioridade moral, acho-as até cómicas.
Quer dizer que a defesa explícita da igualdade absoluta na riqueza desapareceu; mas ficou a retórica e esta tem consequências até mesmo para aquelas pessoas exornadas de intelectos brilhantes e cultura histórica assinalável: a uma ouvi ser um atentado à humanidade a existência de magnatas americanos que têm riquezas superiores às do PIB de muitos países.
Têm sim senhor, e dificilmente teriam se não fossem americanos. O que é surpreendente é que não se ligue uma coisa à outra e não se perceba que é precisamente o culto da diferença e não da igualdade que explica o sucesso do modelo americano, em conjunto é claro com outros factores. Esses trilionários andam agora de faca nos dentes a investir em inteligência artificial sem que ninguém esteja certo de que seja uma aposta de sucesso, e menos ainda de que haja espaço para todos. Enquanto isso, a Europa social-democrata produziu já regulamentações daquela IA e os defensores da legislação, que são legião, e os críticos, que são menos, vão ventilar as suas divergências para as redes sociais… que são americanas porque o génio europeu está ocupado a produzir teorias, revoluções, regulamentações, redistribuições e perdigotos.
Para já, a Europa pode gabar-se da superioridade dos seus SNS, dos seus modelos sociais que se traduzem em férias pagas com muitos mais dias do que as americanas, protecção contra despedimentos e um imenso etc. que a faz olhar com desdém para o modo de vida americano. Excepto que a América, e a China, crescem muito mais do que a Europa, ano após ano, o que fará com que algures num futuro não muito distante o pobre americano seja tão rico como o médio europeu. Quem quer tudo e o seu contrário acaba por ficar mais do lado do contrário.
E então, que tem isto a ver connosco? Tem que nós temos um governo social-democrata, o que seria um mal com remédio, mas um eleitorado que também é, o que é difícil tenha emenda. O ministro da Reforma vai reformar mas sem despedir ninguém, credo; a da Saúde quer acabar com aldrabices no apoio à amamentação para além dos dois anos dos infantes, cai o Carmo e a Trindade (a misturada disto com o necessário apoio à natalidade é um equívoco – quem tem de fazer isso é quem beneficia, isto é, a comunidade, não as empresas, e os apoios necessários devem ir muito além dos que existem); o da Educação quer reformar uma estrutura vetusta, suspeita e provavelmente endogâmica e não só se vê nisso um imenso e atrevido passo como gente de representação apresenta a coisa, sem se rir, como um ataque à ciência. Também quer, o pobre homem, que os organismos que têm por missão dar números sobre Educação deem números fiáveis, um evidente exagero.
Eu destes escândalos recentes do Governo gosto, da dimensãozinha modesta deles não. Voltando ao princípio, que não sou desses que começam por uma ponta e a páginas tantas já não sabem onde estão com a cabeça: estes tímidos começos vão na direcção certa mas de passos grandes não estou à espera.
Sucede porém que o Tribunal Constitucional acaba de dizer (creio, fui ler o Acórdão mas às tantas os olhos lacrimejavam de cansaço e a cabeça estava a começar a zunir por causa de tantos nós cegos que se acumulavam nas meninges, razões pelas quais desisti) que quem cá está manda vir quem diga que é filho e, parece, a mulher com quem estava casado (não apurei se isso também se aplica às outras, no caso de ser casado com várias), além dos pais, tudo provado com documentos dos países de origem, além de uma extensa lista de outras correcções, todas militando no mesmo sentido: o que está está muito bem, na realidade não são precisas alterações nenhumas. Todavia, o TC não entende necessário, ao contrário do que pretendia o Presidente Marcelo, que para alterar as leis que regulam estas matérias fosse necessário ouvir cerca de 17.000 entidades, assim se garantindo a democraticidade e a entrada de mais algumas centenas de milhar antes de acabar a audição. Isto e muito mais, com tanta minúcia e tanta complicação inacreditavelmente prolixa que ninguém vai ler até ao fim, qualquer imigrante que tenha advogado poderá contestar tudo e o seu contrário e a Agência encarregada de regular o assunto fará o que lhe der na cabeça, certa de que encontrará sempre argumentos a favor nos dias ímpares do mês, e contra nos restantes,
Sobre este assunto há muitíssimo mais para dizer, mas o artigo não é sobre imigração mas sim sobre o pendor reformista do Governo. E aqui cabe tirar o chapéu porque comprar uma briga com o Presidente Marcelo, a personificação do consenso dissolvente, do porreirismo e das reformas de faz-de-conta, não é coisa pouca. Existe um problema de imigração, o Governo quer resolvê-lo e Marcelo quer, como sempre quis, a mesmice do atoleiro e uma fotografia com um coraçãozinho em todas as salas de todas as casas do país.
Antes desta parte gaga do Acórdão tinha escrito, para acabar:
É o que temos: A Europa perde lugar no mundo e nós com socialistas perdemos lugar na Europa e, com social-democratas, talvez o mantenhamos. Esta diferença que nos faz originais quer dizer um de centro-direita e outro de centro-esquerda. O centro, como bem sabemos, é o lugar geométrico de coisa nenhuma.
E agora acrescento que Marcelo baralha as contas porque me esqueci dele, que é um resquício dos tempos de Costa: Muita parra e nenhuma uva.

Espero que a redacção do Expresso, daqui a cinco meses, eleja Rui Borges como Figura Nacional de 2025. Pela mesma lógica que a levou em Dezembro último a escolher Ruben Amorim só para não destacar Luís Montenegro. O primeiro venceu o campeonato nacional de futebol, repetindo uma proeza que já alcançara três anos antes. O segundo fez regressar o PSD ao Governo quase uma década depois.
Pela mesma lógica de elevar a bola acima da política, Borges merece em 2025 muito mais do que Amorim há um ano. Os factos comprovam: conquistou o primeiro bicampeonato em 74 anos e a primeira dobradinha (Liga + Taça de Portugal) para o Sporting desde 2002. O antecessor, agora técnico do Manchester United, ficou em 15.º lugar no campeonato inglês e não conseguiu qualificar a equipa para nenhuma competição de âmbito europeu: o Expresso parece ter-lhe dado azar. «O magnetismo do líder sedutor e genuíno» andou ausente em parte incerta e o «gigante United» cumpriu a sua 12.ª temporada consecutiva sem vencer a Premier League. Nem parece gigante.
Sob este prisma, talvez Montenegro até agradeça ficar novamente excluído da escolha final do semanário que há um ano o ignorou: azar é coisa que o primeiro-ministro certamente dispensa. Mesmo tendo também vencido, à sua maneira, um bicampeonato: a AD, com ele ao leme, triunfou pelo segundo ano seguido numa eleição legislativa - desta vez com a «maioria maior» que o presidente do partido laranja pedira aos eleitores. Saindo das urnas, a 18 de Maio, com 31,8% (+ 1,7% do que em 10 de Março de 2024), 91 deputados (+ 11), 2 milhões de votos (+ 200 mil) e mais 9 pontos percentuais do que o segundo classificado (14 meses antes conseguira só +0,9).
Depois de Amorim, avança Borges. Antes assim. Viva o Sporting bicampeão!
Não deixem o homem voltar a assassinar o hino nacional se querem mesmo que ele seja eleito Presidente da República.
Implorem-lhe que fique calado: ninguém é menos patriota se escutar o hino em silêncio. Mau (péssimo) é destroçá-lo nota por nota, numa confirmação viva, quase desesperada, da profunda incultura musical dos portugueses.
Se ele insistir, assegurem-se de que não tem nenhum microfone perto dele. Ou desliguem-no, se for necessário. Os fins justificam os meios.
Quem avisa, amigo é.

Henrique Gouveia e Melo deu uma entrevista à Rádio Renascença em que anuncia o lançamento formal da sua candidatura a Presidente da República para o próximo dia 29. Desatou tudo aos gritos na tribo comentadeira. Porque esse anúncio «perturba a campanha eleitoral» em curso. Gritam até os membros dessa tribo que passam os dias a clamar contra a campanha, brindada com epítetos pejorativos - "vazia", "inútil", "folclórica", "nada esclarecedora", etc.
Ontem nem faltou quem se alarmasse com a data, associando-a ao 28 de Maio de 1926, algo que roça o delírio conspiranóico. Oiço e leio coisas como estas e concluo, cada vez com menos dúvidas cinco anos depois da pandemia: o covid-19 causou sérios transtornos à saúde mental dos compatriotas.
Enquanto rasgam as vestes perante o lacónico anúncio de Gouveia e Melo, não esboçam o menor reparo ao pré-candidato presidencial Marques Mendes por fazer declarações quase diárias sobre a situação política.
Parecem incapazes de reparar na evidente duplicidade de tratamento mediático: chumbo para um, afago para outro.
É tiro que faz ricochete: sem querer, estes comentadores ampliam a popularidade do visado. Enquanto lhe recomendam, com soberba intelectual, que leia a Constituição da República, sobretudo no capítulo dos poderes do Chefe do Estado. Como se ele precisasse.
Iludidos com a espuma dos dias, mostram-se incapazes de vislumbrar o essencial: o quadro contemporâneo, português e mundial, favorece mutações no xadrez político. Se os actuais impasses persistirem, uma candidatura vitoriosa do Almirante propiciará a formação de um partido presidencial a partir do Palácio de Belém.
Não faltam precedentes, nacionais e estrangeiros. Ramalho Eanes fez o mesmo na recta final do seu mandato, na década de 80, entre acusações de bonapartismo que hoje já quase ninguém recorda. Em 2017 Macron protagonizou, com sucesso, algo semelhante em França. A propósito, convém prevenir os mais distraídos: as mudanças no quadro partidário português estão em marcha há uma década. Mais de um quarto dos actuais deputados (27,3%) integram forças políticas de formação recente.
Apertem os cintos de segurança. Pode haver muita turbulência.

Campanha eleitoral para as legislativas. Um líder partidário - Rui Rocha, da Iniciativa Liberal - discursa num comício. De repente sobem ao palco duas pessoas que o interpelam, despejando-lhe pó verde na cara e na roupa.
São «jovens activistas ambientais», apressam-se a escrever os periódicos. Em uníssono. Em tom fofinho.
«Rui Rocha atingido com pó verde por activistas climáticos», titula o Público.
«Rui Rocha atingido com pó verde por a(c)tivistas ambientais», assegura o Jornal de Notícias.
«A(c)tivistas climáticos invadem palco da IL e atiram pó verde a Rui Rocha», diz o Observador.
Nenhum jornal usa o termo adequado: extremistas. Da extrema-esquerda pseudo-ambientalista que perverte a nobre causa ecológica pondo-a ao serviço de cartilhas climáticas ultra-radicais. Mesmo com graves atropelos à vida democrática, que implica a livre expressão de ideias, sem coacção de qualquer espécie.
A defesa do ambiente não pode justificar actos deste género nem atenuá-los no folclore mediático. Enquanto uns encolhem os ombros e outros exibem sorrisos de condescendência. Sem a firme condenação que se impõe.
O primeiro passo para normalizar extremismos é tolerá-los. Sob a capa da juventude. Sob o pretexto do «activismo». Sob a alegação de que agredir e silenciar terceiros se justifica em certas circunstâncias. Com a ilusão de que existem extremismos maus e extremismos bons. Como se nem todos fossem péssimos.




A campanha eleitoral para as legislativas de 18 de Maio quase acabou hoje. A partir de amanhã, e até ao dia 16, será praticamente tudo dominado pelo Papa e pela bola.


Eis uma pequena amostra do que foi espalhado em Portugal há 45 anos visando o presidente do PSD (e depois primeiro-ministro) Francisco Sá Carneiro, acrescidos de inscrições nas paredes em que o insultavam das mais diversas formas - até ao dia da sua trágica morte, a 4 de Dezembro de 1980.
Se quiser adaptá-los a Luís Montenegro, para prosseguir a actual campanha de difamação, André Ventura precisa, porém, de pagar direitos de autor ao Partido Comunista.

Foi injustiçado. Foi vítima de uma acusação infame que liquidou a sua carreira política. Foi alvo de uma investigação sem provas e de uma acusação irresponsável que o destruiu por dentro - e talvez lhe tenha deteriorado a saúde a um ponto que até ele mal pôde avaliar. Tinha sido secretário de Estado, deputado, líder parlamentar. Era um competente ministro da Administração Interna.
Talvez pudesse ter sido presidente do PSD - o seu partido de sempre. Nunca saberemos. Acusado de "prevaricação e tráfico de influências", abandonou de imediato funções públicas e remeteu-se à vida privada. Aconteceu em 2014. Se ocorresse uns anos depois, teria visto provavelmente o seu retrato exposto em obscenos cartazes de propaganda política chamando-lhe "corrupto" - alvo da demagogia mais rasteira para ajustar contas com o regime democrático.
Não se escondeu, não virou a cara, não optou pela litigância de má-fé para estender prazos rumo à prescrição.
Negou todas as acusações, comportando-se com irrepreensível dignidade.
Seis anos depois, ao ser ilibado na sede própria, o tribunal, a notícia não fez manchete: foi varrida para discretos rodapés. Os "justiceiros" da imprensa estavam de folga ou assobiaram para o lado nesse dia.
Recebeu-a com alegria, mas também com amargura: a tardia sentença judicial absolveu-o de qualquer suspeita, mas a sua morte cívica fora decretada muito antes. Mesmo assim, ninguém lhe ouviu uma palavra de azedume. Nem lhe passou pela cabeça "processar o Estado" ou pôr-se aos gritos, declarando guerra ao Ministério Público. Deu, também com isto, um notável exemplo de contenção republicana.
Ressurgiu há um ano, como discreto comentador político longe do chamado "horário nobre": o último foi exibido há escassos dias. Morreu ontem aos 65 anos, vítima de fulminante síncope cardíaca.
A sua voz apagou-se cedo de mais. Faz-nos falta como alerta contra os demagogos de turno que andam por aí sem freio nos dentes, mais assanhados que nunca. Agitando o espantalho da insegurança para apertarem o torniquete à liberdade.
A minha respeitosa homenagem a Miguel Bento Martins da Costa de Macedo e Silva, que agora nos deixa, para dolorosa surpresa geral.
A Assembleia da República prestou-lhe merecido e justo tributo póstumo, como se impunha. É triste que só a morte sirva para convergirmos no essencial. Conscientes de que a democracia política é tão frágil como a vida humana: pode apagar-se com demasiada facilidade se não cuidarmos bem dela em cada dia que passa.

Eis já posta em prática a lei das consequências não intencionais a que aludo aqui. Com a dissolução da legislatura que o Presidente da República se prepara para anunciar ao País esta semana, após o chumbo de ontem à moção de confiança apresentada pelo Governo no hemiciclo de São Bento, superamos agora a turbulência eleitoral registada na segunda metade da I República, de má memória.
Nesse período foram convocadas quatro "eleições gerais" para preencher assentos parlamentares: em Maio de 1919, Julho de 1921, Janeiro de 1922 e Novembro de 1925. Quatro actos eleitorais em seis anos e seis meses.
Apesar de tudo, num intervalo mais dilatado do que a alucinante série de recentes eleições legislativas: Outubro de 2019, Janeiro de 2022, Março de 2024 e as que vão seguir-se, provavelmente a 11 de Maio. Cinco anos e sete meses.
Há cem anos, nada de substancial ia sendo solucionado com as sucessivas chamadas às urnas. Pelo contrário, cada toque a rebate eleitoral deixava o quadro político e governativo sempre mais convulso.
Os políticos dos nossos dias, sejam de que quadrante forem, deviam assimilar as lições da História. Antes, porém, é indispensável conhecê-la.

Cometemos o erro de procurar interpretar sempre os acontecimentos políticos à luz da estrita racionalidade. E assim falhamos o alvo. Porque a política obedece demasiadas vezes àquilo que Henry Kissinger designava, com sapiência irónica, «a lei das consequências não intencionais». Alguns actos produzem determinadas efeitos que nunca chegaram a ser previstos e estavam longe de ser desejados.
Vem isto a propósito da alucinante cascata de acontecimentos que está prestes a gerar nova dissolução de uma legislatura e as terceiras eleições parlamentares em três anos no nosso país. Depois de ruir um governo com maioria absoluta, o actual executivo - empossado há escassos 11 meses - prepara-se para cair. Mesmo após superar duas moções de censura no hemiciclo - a primeira só com 50 votos favoráveis em 230 deputados, a segunda tendo recolhido apenas 14 votos de apoio. Nenhuma dessas moções foi sequer apresentada pelo principal partido da oposição, que aliás inviabilizou ambas no hemiciclo. O que torna tudo ainda mais anómalo.
Impôs-se, portanto, a lei das consequências não intencionais: a aparente estabilidade de anteontem degenerou em toada de montanha russa para o caos do momento que só favorece o mais desbragado populismo político. Sem que nenhum dos protagonistas, aparentemente, o tivesse desejado. Sem indícios de mudança substancial de opinião entre os portugueses que foram às urnas a 10 de Março de 2024. Sem a menor garantia de que o próximo acto eleitoral produza uma solução governativa mais estável. Conduzindo o País a um ciclo de três eleições em oito meses (legislativas, autárquicas, presidenciais) quando a actual situação na Europa e no mundo é a mais explosiva em muitas décadas.
«Há quase um sentimento de I República», observou ontem Carlos Moedas, em entrevista à SIC Notícias. Frase certeira. Lembremos esse período nada recomendável do nosso século XX: em menos de 16 anos houve sete legislaturas, oito presidentes, 45 governos e uma junta revolucionária. Num quadro de convulsões sociais, instabilidade económica e violência política que desembocou em meio século de ditadura.
A história pode sempre repetir-se: basta certos actos impensados produzirem determinadas consequências não previstas.
Alguém devia alertar os aprendizes de feiticeiro para evitarem brincar com o fogo.

Ursula Von Der Leyen, presidente da Comissão Europeia

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu

Kaja Kallas, chefe da política externa da UE

Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu

Giorgia Meloni, primeira-ministra de Itália

Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca

Evika Silina, primeira-ministra da Letónia

Ingrida Simonyté, primeira-ministra da Lituânia

As mulheres continuam a ser elementos decorativos na República Portuguesa. Nem me refiro a velhos partidos que nunca tiveram lideranças femininas, como o PCP (fundado em 1921) ou o PS (fundado em 1973). Refiro-me ao próprio Estado. Em meio século de sistema democrático assente no sufrágio universal a Presidência da República só foi preenchida por homens. Nisto, apesar da retórica em contrário, a democracia actual pouco se distingue dos dois regimes das décadas precedentes.
Desde 1976 tivemos dez escrutínios presidenciais. Com 54 candidatos - 49 presenças masculinas e apenas cinco femininas. Em sete desses escrutínios só concorreram homens: elas permaneceram à margem.
Chocante disparidade.
O cerco misógino rompeu-se fugazmente em 1986, com a candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo. Seguiram-se 30 anos de estrito monopólio masculino enquanto Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva se sucediam no Palácio de Belém.
Em 2016 houve algo inédito: duas candidatas. Marisa Matias e Maria de Belém Roseira ousaram avançar. Cinco anos depois, a deputada bloquista tornou-se única mulher repetente numa corrida à suprema magistratura da nação. Num escrutínio em que também Ana Gomes marcou presença.
Com que resultados? Ana Gomes foi a que até hoje teve mais sucesso: obteve 13% dos votos, ficando em segundo lugar - largamente ultrapassada pelo vencedor, Marcelo Rebelo de Sousa (60,7%). O segundo melhor resultado de uma mulher em candidaturas presidenciais foi o de Marisa: 10,1% em 2016, o que lhe valeu um terceiro lugar (o vencedor Marcelo recolheu 52% e Sampaio da Nóvoa ficou em segundo, com 22,9%). Cinco anos depois, recandidata, baixou drasticamente a percentagem, ficando só com 4%. Um pouco menos do que os 4,2% de Maria de Belém em 2016.
A estreante Pintasilgo tombou para quinto e último na corrida presidencial de 1986: conseguiu apenas 7,4%. A igualdade de oportunidades, que tanto se apregoa na cartilha republicana, mal ultrapassa o patamar da propaganda.

Mariana Leitão rompe o cerco, candidatando-se a Presidente da República
Para 2026, prepara-se um cenário muito semelhante. Quase todos os nomes de que se tem falado ao longo dos últimos meses, com razão ou sem ela, são masculinos: Gouveia e Melo, Marques Mendes, António Vitorino, António José Seguro, André Ventura, Mário Centeno, Augusto Santos Silva, Aguiar-Branco, Passos Coelho, Paulo Portas, Durão Barroso, Santana Lopes, Sampaio da Nóvoa, Aristides Teixeira, André Pestana.
Daí a minha enorme satisfação por ver Mariana Leitão, líder parlamentar da Iniciativa Liberal, avançar com uma candidatura a Belém, naturalmente apoiada pelo partido. Conheço-a, gosto muito dela, sei que terá um bom resultado. E, desde já, abre uma fenda na muralha da misoginia dominante. Um trunfo a favor desta jogadora federada de bridge. De certeza que não se perturba por parecer carta fora do baralho: até sentirá um gosto muito especial nisso.

Imagem da The Economist.
Ainda a segunda presidência Trump vai no adro e já estou farto das histórias. É como ver um enorme acidente rodoviário em câmara lenta. Estou horrorizado mas não consigo deixar de olhar. E no final vai haver muita gente a sofrer. Por isso escrevo agora com o desejo de não abordar Trump durante muito tempo (senão en passant porque o tema não o pode evitar, como quando possa escrever sobre as alterações climáticas).
Escrevi acima "segunda presidência de Trump" mas há já quem fale em primeira presidência de Musk. É obviamente exagerado - Musk não quer gastar tempo em gerir o país, isso é chato e ele nem saberia o que fazer - mas aponta uma direcção para o país: a oligarquia. Isto foi óbvio com a presença dos tech bros na inauguração e na enorme presença de Musk. Contribuíram financeiramente mas mais ainda contribuirão com a sua colaboração futura. Bezos domou o Washington Post, a Meta já anunciou o fim das verificações de factualidade e outras empresas (tech ou não) também anunciaram que estariam dispostas a trabalhar com Trump. Assim mesmo, «dispostas a trabalhar com Trump», num tom que indicaria subserviência. Só que não o será, pelo menos não exactamente. As empresas estão interessadas, acima de tudo, nos lucros e para tal farão aquilo que precisam de fazer. Os lucros, especialmente para os seus donos e CEOs, vêm na forma de cotação bolsista e acções detidas. Quanto mais estas sobem, mais as empresas valem, mais dinheiro podem ter disponível, mais dinheiro podem pedir e a lucros mais baixos, e mais poder acumulam. Foi assim que Musk, com um investimento de 43 mil milhões no Twitter e uns 220 milhões na campanha, conseguiu já aumentar em alguns 170 mil milhões a sua fortuna após a vitória de Trump. Entretanto, Trump anunciou já que irá investir 500 mil milhões em Inteligência Artificial, tendo ao seu lado uma das pessoas mais ricas do mundo - Larry Ellison, o líder de um dos maiores fundos de investimento do mundo - Masayoshi Son, e o "guru" da IA e líder da OpenAI Empresa apoiada pela Microsoft) - Sam Altman (que entretanto é também já um bilionário). Se lá tivesse também Jensen Huang (presidente da Nvidia e outro centibilionário) faria bingo. Teria também o perfeito grupo de gestores que não precisam de dinheiro do estado. Mas vão recebê-lo, à ordem de 125 mil milhões por ano.
Estes são os primeiros exemplos. A promessa de enviar americanos a Marte, quando ao lado de Musk, deve ter aumentado em mais uns 50% a valorização da SpaceX. O drill, babz drill, deve deixar os mercados bolsistas de acções de empresas de petróleo mais descansados, mesmo que isso não tenha importância porque os EUA já são o maior produtor mundial de petróleo e gás (deste também o maior exportador) e não há muito espaço para aumentar esses valores. Os cortes de impostos irão provavelmente ser feitos permanentes e não serão os últimos. O ridículo departamento de eficiência governamental foi entregue aos magnatas para partir o estado aos bocadinhos e dividir a pequena rede social que existia. As estúpidas tarifas irão aumentar os preços de tudo, mas irão provavelmente também reduzir o volume de importações, o que provocará um aumento da produção interna. Quem pagará? O consumidor comum. Quem beneficiará? Os magnatas, como é habitual. E ainda veremos as mudanças de regulamentações para reduzir a necessidade de conformidade por parte das grandes empresas. Regulamentos ambientais? Fora. Água limpa? Para quê? Litigação contra as grandes empresas? Provavelmente será reduzida ao mínimo.
E nem entramos no encher o aparelo executivo de lealistas que farão tudo o que ele mandar e perseguirão quem ele quiser. Olhar para algumas escolhas é criar a pergunta: qual destes é o membro do governo mais incompetente de todos os tempos? Será Hegseth? Patel? Kennedy? Ao menos Bondi e McMahon têm experiência nas suas áreas e em gerir organizações maiores que uma banca de limonadas. Vale no entanto a pena falar naquilo que este gabinete trará: um declínio futuro do país. A educação está entregue a alguém que pouco fará por ela. A ciência está ausente, foi outsourced a Elon Musk (que também pouco percebe dela). O investimento no Green New Deal e que seria usado para actualizar a infraestrutura do país desaparecerá. Não só irá o dinheiro para os bilionários que dele não precisam (mas que o aceitarão e nem dirão muito obrigado) como não será investido em assegurar o futuro do país, assegurando que está preparado para a transição energética que é cada vez mais inevitável. Ao mesmo tempo, as emissões de CO2 irão provavelmente disparar (se isso não acontecer será apenas e só porque há empresas que não são míopes e percebem a importância de investir agora na transição energética) o que fará com que algumas das áreas de principal apoio para os republicanos sejam afectadas: Florida irá afundando, o sudeste do país sofrerá cada vez mais furacões, or tornados no centro do país aumentarão de frequência e intensidade, etc. Suponho que desde que a Califórnia continue a arder, isso não os incomode.
E finalmente chegamos aos custos humanos. Milhões irão sofrer. Pessoas, seres humanos, cujo único crime foi fazer o que os antepassados de milhões de americanos fizeram: fugir em busca de uma vida melhor. Também muitos outros que não poderão pagar os custos com a saúde. E depois todos os outros de quem os republicanos não gostarem e que perseguirão sem piedade.
E o aparelho judicial não ajudará. No Supremo Tribunal imagino que Thomas e Alito se retirem para dar lugar a juízes semelhantes mas mais jovens. Sottomayor talvez aguente a sua saúde mas daí talvez não. Pode ser que no final da sua segunda presidência Trump tenha 7 juízes. E há que depois encher os restantes lugares de juízes federais com mais uns quantos lealistas (como Aileen Cannon) que o ajudarão no que puderem. E provavelmente apioarão medidas para restringir o voto de (em) adversários políticos, para cumprimir a promessa a um grupo de cristãos na campanha que não precisariam de voltar a votar. Claro que tudo isto poderá levar a reacções de protesto, por isso ajuda ter alguém como Hegseth à frente do Pentágono e que não hesitará (entre garrafas de vodka) em despedir qualquer militar que não cumpra ordens, inclusivamente de disparar sobre protestantes.
Internacionalmente ele irá provavelmente tentar de facto acabar com a guerra na Ucrânia sem pressionar excessivamente Zelenski, mas como Putin não quer saber, não consigo imaginar um cenário em que Putin não tenha o essencial daquilo que quer. Verdade seja dita que isso não será particularmente por culpa de Putin: se Biden queria de facto ajudar a Ucrânia devia tê-lo feito a tempo e horas. Neste momento o país já só quer sobreviver. Só que o acordo final irá provavelmente reforçar Putin, que verá muitas sanções desaparecerem aos poucos e acabará numa posição de força. Do outro lado da Ásia, os sul-coreanos e japoneses verão provavelmente Trump dizer-lhes que terão que se desenrascar sozinhos, o que os levará a desenvolver capacidade nuclear. Taiwan poderá ser invadida antes do final da década, dependendo daquilo que Trump faça (isso é mais provável hoje que em qualquer momento nos últimos 30 anos). Netanyahu irá possivelmente arranjar mais uns conflitos para se manter no poder e justificar atacar mais uns vizinhos (como já está a fazer na Cisjordânia, agora que tem uma trégua com o Hamas) e manter a temperatura no Médio Oriente elevada. Só não sabemos se irá atacar o Irão ou o Irão irá decidir meter todos os ovos no cesto de uma ofensiva antes que fique mais fraco. Mas é um facto que, pelo menos neste aspecto, Trump na Casa Branca reduz a possibilidade de um conflito (embora aumente a possibilidade que seja nuclear).
E, claro, as ordens mundiais foram às urtigas. Neste mundo futuro, em que os EUA irão declinar, a China continuará a crescer porque conseguiu - pelo menos até ver - a quadratura do círculo: compensar o declínio e envelhecimento populacional (inevitáveis depois de decadas de políticas de restrição da natalidade) com o outsourcing (esta palavra outra vez) de muitos dos recursos e mão de obra a outras partes do mundo.
A Europa? Bom, antes de mais tem que se armar e aprender que precisa de um exército europeu. depois precisa de compreender que só a tecnologia a safará. E finalmente necessita de entender que o seu período de dominância foi apenas umcurto período na História Humana e consequênica de uma colonização que sugou os recursos às partes do mundo que os tinham. A Europa é uma região com poucos recursos naturais e se não souber utilizar os seus recursos humanos (e absorver alguns novos) não avançará. A única coisa que se pode dizer é que, pelo menos por agora, ainda sabe que o caminho para o futuro é verde, até pelas tecnologias que está a abrir. Mas terá que aceitar que no jogo da corda entre EUA e China, e ameaçado por potências nucleares essencialmente nazis como a Rússia, terá que se submeter a um papel de subordinado pelo menos por ums décadas.
Sou um pessimista, sei-o. Espero que este post ainda aqui esteja daqui a uns 20 anos para me mostrarem a parvoíce, para eu mostrar aos meus filhos que a idade não confere necessariamente sabedoria, antes confere maus fígados. Mas...
É uma imagem desoladora? Sim, é, mas é a imagem que Trump está a dar.

Maria João Avillez em 1975, ano trepidante no jornalismo português
A minha vénia a Maria João Avillez, na sabedoria dos seus lúcidos e joviais 79 anos.
«A qualidade da democracia está muito baixa. Eu vi (noutros tempos) outra compostura e outras boas maneiras, por exemplo no parlamento, que não excluíam discussões acesas. Não havia inimigos, mas adversários.» Palavras dela, em entrevista à SIC que foi transmitida no sábado.
Sabe muito bem do que fala. É a mais experiente jornalista portuguesa ainda em actividade, tem uma memória prodigiosa e acompanhou de perto tudo quanto houve de mais relevante no último meio século em Portugal.
Se alguém pode comparar os políticos de agora com os do passado, é precisamente ela. Ainda bem que o faz.