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No centenário de Sena

por Pedro Correia, em 07.11.19

jorge-de-sena[1].jpg

(Novembro de 1919 - Junho de 1978)

 

DESTA VERGONHA DE EXISTIR OUVINDO

 

Desta vergonha de existir ouvindo,

amordaçado, as vãs palavras belas,

por repetidas quanto mais traindo

tornadas vácuas da beleza delas;

 

desta vergonha de viver mentindo

só porque escuto o que dizeis com elas;

desta vergonha de assistir medindo

por elas as injúrias por trás delas

 

ao mesmo sangue com que foram feitas,

ao suor e ao sémen por que são eleitas

e à simples morte de chegar-se ao fim;

 

desta vergonha inominável grito

a própria vida com que às coisas fito:

Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

 

Jorge de Sena (As Evidências, 1955)

Imperdível

por Pedro Correia, em 25.07.18

 

A entrevista que o poeta António Barahona, sempre tão distante dos holofotes, concedeu ao jornal i. Insurgindo-se, nomeadamente, contra a «burrocracia» do desacordo ortográfico.

Bom jornalismo é fazer, editar e publicar entrevistas como esta.

Ontem voltei a ver o meu poeta preferido

por Marta Spínola, em 10.06.18

Foi a segunda vez que vi Chico Buarque ao vivo. Doze anos separaram uma vez de outra, mas ambas valeram cada segundo. 

Gosto de Chico Buarque há muitos anos, na família materna sempre se ouviu MPB, posso dizer que cresci a ouvir génios como Jobim, Vinicius, Toquinho, Chico ou Caetano, para mencionar apenas alguns. Das vozes às letras há uma serenidade, e uma quase ingenuidade, que sempre me comoveu. Sempre me foram passados como temas engraçados, simpáticos, numa língua que nos era muito (literalmente) familiar. 

Tenho pena que não cante alguns dos êxitos mais antigos, os que me levam à infância, aos discos em capas de papelão, tenho pena que a versão de "Partido Alto" partilhada com Caetano Veloso nunca se ouça, mas é uma pena egoísta. Ouvir Chico vale sempre a pena. 

A minha relação com as letras de Chico Buarque é um caso de amor. Os sambas, os desamores, as felicidades ao luar, os boleros, os amantes, os fait divers cantados numa voz grave e tão calma (na voz tranquila só Jobim o bate), são talvez o happy place em que nunca penso quando alguém fala nisso. Quis guardar a sua voz na memória mais uma vez, o que, mesmo sabendo as letras, me fez ficar em silêncio só para o ouvir cantar. 

É seguro dizer: "Foi bonita a festa, pá, fiquei contente."

Um poeta com os pés na terra

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.04.16

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Dos melões costuma-se dizer que só se sabe se são bons depois de abertos. De um cidadão, de um funcionário, de um servidor do Estado conhecem-se as suas atitudes, os seus comportamentos públicos, o mérito ou demérito das suas acções. Da escrita de um poeta é, por vezes, possível conhecer a sua intimidade, o seu modo de pensar, nem sempre a sua circunstância. Mas de um ministro só será possível analisar a sua acção no fim, embora se possa sempre dizer que não raro na política há males que vêm por bem. Em todo o caso, não posso deixar de pensar que a chamada de Luís Filipe Castro Mendes ao Ministério da Cultura me parece uma decisão sensata e acertada. A entrevista que deu à RTP revela antes de mais a ponderação e a serenidade do escolhido, uma abertura de espírito e uma predisposição para o exercício do cargo pouco habituais na nossa vida pública. E ideias.

Um discurso directo, claro, frontal, eminentemente livre e bem articulado, revelador de uma capacidade de análise e de abertura para a aprendizagem indispensáveis a um bom exercício do cargo. Longe dos excessos verbais, do umbiguismo, da má educação e indisfarçável pesporrência de que padeciam alguns dos seus antecessores, capaz de olhar o seu interlocutor nos olhos sem fugir às questões, Castro Mendes apresenta-se à partida como o homem certo para o lugar no momento adequado.

Sem pressas, genuíno, consciente da sua missão, caloroso q.b., a sua primeira entrevista serviu, para já, para nos apresentar o homem. E elevar a fasquia. Muito. Oxalá tenha sorte, e que não nos desiluda, porque quanto ao resto não me parece que lhe falte alguma coisa para o exercício do cargo.

Ninguém lhe pede que transforme um país de versejadores natos e humoristas de vão de escada numa terra onde os Camões, os Pessoa, os Cardoso Pires ou os Lobo Antunes se reproduzam aos pontapés. Ou que dê novos fados ao nosso Fado. Nem mesmo que ensine regras básicas de civilidade e princípios de cidadania aos muitos que ainda os não têm. Mas apesar de tudo, e sem que eu saiba qual a atitude que adoptará em relação ao novo Acordo Ortográfico de 1990, é reconfortante pensar – e este é um bom princípio –, que na Cultura está um homem de cultura. Um homem civilizado. Um poeta com os pés na terra.

É preciso ter calma

por Rui Rocha, em 15.04.16

Ser ou não ser embaixador é irrelevante para o exercício da função de Ministro da Cultura. Grave seria se lhe tivessem cancelado a licença de poeta.

Bocage

por Patrícia Reis, em 15.09.15

José Maria Barbosa du Bocage nasceu há 250 anos, em Setúbal, a 15 de Setembro de 1765. Viajou muito, fez tremer corações. O seu pai foi mandado prender por Pomba, mais tarde Bocage foi preso por Pina Manique. a acusação era quase a mesma, a desordem, o atentado aos costumes. Extraordinário, com aventuras dignas de qualquer romance do século XVIII, Bocage é hoje recordado na terra que o viu nascer e pouco mais. Sobre ele, escreveu, no seu jeito, Ary dos Santos:

Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.

Lisboa é uma sarjeta. É um vazio.

E é raro o poeta que entre nós faz escola.

Mastigam ruminando o desafio.

São uns merdosos que nos pedem esmola.

Aos vinte anos cheiram a bafio

têm joanetes culturais na tola.

Que diria Camões nosso padrinho

ou o Primo Fernando que acarinho

como Pessoa viva à cabeceira?

O que me vale é que não estou sozinho

ainda se encontram alguns pés de linho

crescendo não sei como na estrume
!

 

Estou certa de que o poeta teria agradecido com uma vénia, teria rido e quem sabe? nasceria uma bela amizade, se o tempo não os tivesse separado. Deixo-vos - roubado indecentemente ao mural do FB de uma grande amiga, Helena Vasconcelos - uma fábula do aniversariante, na esperança de que o recordem, na esperança de que mais se escreva sobre a sua vida e obra.

 


O Leão e o Porco
O rei dos animais, o rugidor leão,
Com o porco engraçou, não sei por que razão.
Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,
Poder de despachar os brutos pretendentes,
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,
E a sua ocupação dormir, comer, fossar.
Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria,
Soltavam contra ele injúria sobre injúria
Os outros animais, dizendo-lhe com ira:
«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!»
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!
Dos filhos para o génio olhai com madureza;
Não há poder algum que mude a natureza:
Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.

Bocage, in 'Fábulas'

Mário de Sá-Carneiro, 124 anos

por José Navarro de Andrade, em 19.05.14

Eu não sou eu nem sou o outro, Sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o Outro. Lisboa, Fevereiro de 1914

Vasco Graça Moura

por Patrícia Reis, em 27.04.14

As meninas
as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,
a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:

entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.

a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.

e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

 in "Antologia dos Sessenta Anos"

You ask me why I spend my life writing?

por Patrícia Reis, em 22.08.13


You ask me why I spend my life writing?
Do I find entertainment?
Is it worthwhile?
Above all, does it pay?
If not, then, is there a reason?…
I write only because
There is a voice within me
That will not be still.


Sylvia Plath

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Os poetas.

por Gui Abreu de Lima, em 04.08.13


Os poetas. Fogem da dor como o diabo da cruz e a dor que sentem é quando a ilusão fracassa, porque do caminho fez atalho. É essa a dor que o poeta sente, a pena própria que resolve à pena, à Língua, criando mais e mais ilusões, por entre queixumes ocres e violentas.

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Ítacas

por Ana Vidal, em 29.04.13

A cada um a sua Ítaca. A de Kavafis, que nos fala de todas elas com admirável sabedoria, é um poema belíssimo.

 

O grego Konstantinos Petrou Kavafis (Κωνσταντίνος Π. Καβάφης) nasceu e morreu em Alexandria no mesmo dia 29 de Abril (1863 –1933). Foi jornalista e funcionário público. Publicou apenas 154 poemas, mas não precisa de mais obra para que o seu nome fique gravado para sempre na história da poesia. Um clássico impõe-se pela qualidade, não pela quantidade. 

 

 

O caminho para Ítaca


Se partires um dia rumo a Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posídon te intimidem!
No teu caminho jamais os encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se subtil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posídon hás-de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás-de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egipto peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor será muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te punhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu.

Se a achas pobre

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

(Tradução de José Paulo Paes)

 

"(...) Guerra Junqueiro, que vem óptimo da Suíça:

(...) As constituintes não foram o que eu sonhava mas fizeram muitíssimo. E a propósito devo dizer-lhe que um jornal de Berna, que o secretário da legação portuguesa me enviou, publica a tradução dos primeiros trinta e dois artigos da Constituição portuguesa, encimados por esta honrosa declaração: "A Constituição portuguesa devia ser o código político de todas as nações da Europa." Em seguida coteja-a com vários artigos da Constituição suíça, achando alguns da portuguesa superiores. (...)"

 

Raul Brandão, Memórias

Volume I, Tomo II

Relógio d'Água


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