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Para o José N.

por Pedro Correia, em 08.01.20

39952hd[1].jpg

 

 

Solo la Muerte

 

Hay cementerios solos,
tumbas llenas de huesos sin sonido,
el corazón pasando un túnel
oscuro, oscuro, oscuro,
como un naufragio hacia adentro nos morimos,
como ahogarnos en el corazón,
como irnos cayendo desde la piel al alma.

 

Hay cadáveres,
hay pies de pegajosa losa fría,
hay la muerte en los huesos,
como un sonido puro,
como un ladrido sin perro,
saliendo de ciertas campanas, de ciertas tumbas,
creciendo en la humedad como el llanto o la lluvia.

 

Yo veo, solo, a veces,
ataúdes a vela
zarpar con difuntos pálidos, con mujeres de trenzas muertas,
con panaderos blancos como ángeles,
con niñas pensativas casadas con notarios,
ataúdes subiendo el río vertical de los muertos,
el río morado,
hacia arriba, con las velas hinchadas por el sonido
de la muerte,
hinchadas por el sonido silencioso de la muerte.

 

A lo sonoro llega la muerte
como un zapato sin pie, como un traje sin hombre,
llega a golpear con un anillo sin piedras y sin dedo,
llega a gritar sin boca, sin lengua,
sin garganta.
Sin embargo sus pasos suenan
y su vestido suena, callado como un árbol.

 

Yo no sé, yo conozco poco, yo apenas veo,
pero creo que su canto tiene color de violetas húmedas,
de violetas acostumbradas a la tierra,
porque la cara de la muerte es verde,
y la mirada de la muerte es verde,
con la aguda humedad de una hoja de violeta
y su grave color de invierno exasperado.

 

Pero la muerte va también por el mundo vestida de escoba,
lame el suelo buscando difuntos,
la muerte está en la escoba,
es la lengua de la muerte buscando muertos,
es la aguja de la muerte buscando hilo.

 

La muerte está en los catres:
en los colchones lentos, en las frazadas negras
vive tendida, y de repente sopla:
sopla un sonido oscuro que hincha sábanas,
y hay camas navegando a un puerto
en donde está esperando, vestida de almirante.

 

Pablo Neruda, Residencia en la Tierra (1933)

No centenário de Sophia

por Pedro Correia, em 08.11.19

758791[1].jpg

(Novembro de 1919 - Julho de 2004)

 

ESTA GENTE

 

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

 

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

 

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Geografia, 1967)

No centenário de Sena

por Pedro Correia, em 07.11.19

jorge-de-sena[1].jpg

(Novembro de 1919 - Junho de 1978)

 

DESTA VERGONHA DE EXISTIR OUVINDO

 

Desta vergonha de existir ouvindo,

amordaçado, as vãs palavras belas,

por repetidas quanto mais traindo

tornadas vácuas da beleza delas;

 

desta vergonha de viver mentindo

só porque escuto o que dizeis com elas;

desta vergonha de assistir medindo

por elas as injúrias por trás delas

 

ao mesmo sangue com que foram feitas,

ao suor e ao sémen por que são eleitas

e à simples morte de chegar-se ao fim;

 

desta vergonha inominável grito

a própria vida com que às coisas fito:

Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

 

Jorge de Sena (As Evidências, 1955)

Para o Sérgio

por Pedro Correia, em 06.11.19

falling-leaves-in-black-and-white-peter-austin[1].

 

 

PARA SEMPRE

 

Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba,

veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

— mistério profundo

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.

 

 

Carlos Drummond de Andrade, Lição de Coisas

Poetisa, pitonisa

por Pedro Correia, em 20.03.19

thumbnail_20190319_120259-1.jpg

 

Eis-me em Lagos. E a caminho da Meia Praia, num final de Inverno que mais parece início de Verão, deparo com esta placa. Homenageando justamente uma das maiores escritoras portuguesas de todos os tempos. E também justamente aqui, pois Sophia está profundamente ligada a Lagos, onde compôs alguns dos seus mais belos poemas.

Gosto desta homenagem. E gosto também que a placa toponímica a designe por "poetisa", reabilitando assim este belo substantivo feminino agora escorraçado do discurso cultural dominante, que designa homens e mulheres pela palavra poeta, na reiterada tentativa - que em certos casos deriva para obsessão ideológica - de esbater diferenças de género. 

Há palavras que me tocam muito. Uma delas é precisamente poetisa - que rima com pitonisa. Agrada-me vê-la exposta a quem passa, nesta Rua Sophia de Mello Breyner Andresen, em Lagos. Onde hoje vejo «a luz mais que pura sobre a terra seca», como a autora do Livro Sexto escreveu, aqui bem perto, há mais de meio século. 

In Memoriam

por Fernando Sousa, em 11.11.18

Ergueu-se Abraão, rachou a lenha e partiu

E consigo levou a chama e um cutelo.

E quando juntos se quedaram ambos,

Isaac, filho primeiro, assim falou: `Meu Pai

Tudo está preparado, o ferro e o fogo

Mas qual é o cordeiro a imolar nas chamas?`

E Abraão prendeu o jovem com cinturões, correias,

Em redor construiu trincheiras, parapeitos

E empunhou o cutelo para matar seu filho.

Dos céus um Anjo lhe bradou então

E disse: `Não levantes a mão contra esse jovem

Nada tentes contra ele que é teu filho.

Vê! Um cordeiro preso está ali naquela sarça.

De orgulho oferece um sacrifício em vez do jovem.`

Mas por não querer assim, matou o velho o filho

E um por um também metade dos filhos da Europa. 

 

Parábola do Jovem e do Ancião, de Wilfred Owen, poeta inglês morto nas trincheiras uma semana antes da assinatura, há cem anos, do Armistício da Guerra de 1914-18, in Elegias.

Convidados: TIAGO NENÉ

por Pedro Correia, em 19.09.17

 

Três poemas

  

 

O que tenta ensaiar esta beleza

na sua violência prematura, nas linhas do seu submundo.

Observo-a como um guarda nocturno

numa fábrica de relógios, procuro-a

com uma fome que me isola de mim. E os vidros e as vidas

desta fábrica tornam-se um sequestro da mesma realidade

que entre o futuro e o futuro do futuro

espreita o cruzamento de todo o tempo.

 

Sob a estrela cadente o céu atravessa todos os nomes,

não sei se faz vento interior ou sobram átomos

de matérias que procuram a inutilidade das coisas.

Escuto uma lua de açúcar pela garganta das nuvens,

não estou do lado de fora da memorização da espera

e do eco soterrado de um pó evanescente.

 

Que membros húmidos recebem o hálito do caminho,

que vertigens sobre o torpor das janelas.

Sinto a eficácia mecânica das emoções,

cada sintonizador absorvendo os limites

de uma fissura de luz.

 

 ....................................................

 

O que se descreve é como cotovelos no parapeito,

pode ser tão sombrio

quanto uma interrogação em círculo,

tão viril quanto este caminho mau,

tão minucioso quanto esta perspectiva não infinita.

E onde começa o esquecimento

termina o que a ilha de sono denuncia,

o que o intervalo do vento alcança

quando descende do infindável

onde tudo é calmo e sereno.

E então, que te administrem menos memória,

a ti cujos olhos abrangem

um botão que te desperta do que pensas ver em voz alta,

do que se transforma como um eco

exactamente igual a ti.

 

 ....................................................

 

Talvez tenha faltado ao meu próprio encontro,

e na dor que persiste sinto naturalmente

os últimos suspiros do crepúsculo nos primeiros arrepios da madrugada,

um cutelo na memória, a porta que bate com estrondo,

um relógio com tentáculos,

por vezes estranhas figuras que nascem e desaparecem,

deixando as metamorfoses da sua ilusão e realidade.

 

Pois nesta dor que persiste sinto naturalmente

todos os cheiros do céu e dos astros, o canto de um galo,

apertos de mão numa fogueira extinta,

eixos de uma dúvida incapacitante.

 

Mas não me coibo de pensar o que seria de mim

se não tivesse faltado ao meu próprio encontro,

se não seria agora uma retórica feliz na praia,

uma estrela em movimento sobre o mar,

os pulmões de milhões de seres,

um rio escondido na extensão dos cabelos.

 

 

Tiago Nené

(autor do livro ESTE OBSCURO OBJECTO DO DESEJO)

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 13.06.16

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Livro dez: Bairro Ocidental

Edição D. Quixote, 2015

55 páginas

 

Acompanho com interesse o que se vai escrevendo de poesia em Portugal. Não faltam vozes talentosas, que dominam bem a carpintaria do idioma e exprimem uma paleta larga de emoções poéticas – umas vezes num imediatismo espontâneo quase comovente, noutras vezes num minucioso rendilhado nunca isento de erudição.

Mas não cesso de me espantar com a persistente ausência nesta poesia de um olhar disponível para o mundo contemporâneo. Aqui não me refiro aos chamados versos de intervenção, que confundiam arte literária com propaganda política, mas ao escritor enquanto sujeito de uma oração que exige verbo e complemento directo. A produção poética actual transborda de sujeitos em transe solipsista. Como se esbracejassem no vácuo. Como se a realidade circundante pudesse conspurcar o círculo imaculado mas restrito do seu imaginário.

 

Por vezes penso que falta um Manuel Alegre pronto a sacudir o marasmo desta poesia tão incapaz de interpretar os sinais do vento como de captar os ruídos da rua. Mas não falta. Porque Alegre, com  80 anos enérgicos recém-completados, continua a escrever e a publicar poesia. O seu mais recente título, Bairro Ocidental, estabelece aliás uma curiosa rima interna com os dois iniciais, Praça da Canção e O Canto e as Armas.

Não há amores como os primeiros: meio século depois, o poeta revisita um território afectivo que tão bem conhece. É um território partilhado, a que ele chama pátria sem pedir licença aos patrulheiros de turno.

Indigna-se em ‘Variações sobre o desconcerto do mundo’: “Está tudo inverso: o longe o perto o certo o incerto / no grande desconcerto tudo aberto / direito avesso um verso onde tropeço / e um som disperso um tom onde me perco / horizonte encoberto.”

Magoa-o a ‘Hora inversa’: “Como chegar onde ninguém responde? / Sombra de sombra um rosto vem e foge / não há tempo no tempo não há onde. / Harpas do vento trazem-me o arpejo / de um desejo a morrer na praia extrema.”

Sente-se habitante de um amargo ‘Bairro Ocidental’: “Na Eurolândia tudo é permitido / bruxela-se um país berlina-se outro / um dia ao acordares estás eurodido / e o teu país efemizado é só um couto.”

E canta a ‘Libertação’: “Contra as palavras que não são de aqui / contra o cifrão contra a agiotagem / contra o défice nosso de cada dia.”

 

É uma poesia que se intromete no quotidiano e se compromete com a cidadania sem se submeter a cartilhas de feira ideológica: “A História entrou pelas meias pelas botas / entrou até pelo fato camuflado. / Entrou na pele e ficou lá. Como ser / neutro inespacial intransitivo?”

O melhor Alegre de volta. O melhor Alegre que nunca deixou de estar no local de sempre.

Álvaro de Campos Revisited

por Francisca Prieto, em 30.01.16

Álvaro de Campos revisited.JPG

 

Lamechices Colesterólicas

por Francisca Prieto, em 21.12.15

saltitavam de mão dada

melosos

que nem cubo de marmelada

beijinho aqui,

beijinho ali

miminho

saltinho

abracinho

segredinho

coceguinhas

repenicadas

e ele:

és uma boneca

das que se compram em Badajoz

 e ela envergonhada:

 não me fales em Badajoz

que me fazes lembrar caramelos

minha gema de rubi em ovo estrelado

meu molotoff almofadado

com fios de ovos enrodiscados

em cafuné de açucar pilé”

que bonito,

aletria da minha alegria

meu arroz adocicado

tigeladazinha coalhada

agora fiquei enjoada

senta-te ao meu colo

pronto, pronto, já passou

toma lá uns sais de frutos

 e mais

beijinho aqui,

beijinho ali

miminho

saltinho

abracinho

segredinho

e

coceguinhas

repenicadas.

 

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Declaração Amigável

por Francisca Prieto, em 19.12.15

as companhias de seguros

ao invés de nos impingirem papelada

com declarações amigáveis

deviam arranjar formulários

onde se pudessem escrever cartas de amor

 

de cada vez que (bummm)

dois carros chocassem de frente

os condutores em vez de reclamarem

podiam beijar-se ao relento

 

depois preenchiam os dados

com cuidado

nas perguntas indiscretas

em vez de cruzes

podiam escolher corações

e escreveriam palavras doces

nas notas adicionais

 

no verso, porque é verso,

deixariam poemas de amor

e no fim, só no fim,

escreveriam em letra miudinha

um número de telefone

não se fosse dar o caso

de terem provocado danos irreparáveis

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Praia de Ipanema

por Francisca Prieto, em 18.12.15

Na praia de Ipanema

Passa Luísa no embalo da brisa

Passa José queimando o pé

Lá vai Juracema com carga pequena

Segue serena como Milena.

O sol abrasa na beira da esteira

Uns carregam a vida

Outros vão de bobeira.

 

Canta-se o mate, empadinha ou pastel

Agora de queijo, depois de mel.

Rostos curtidos por vezes aflitos

Vendem biquinis ou panos bonitos

Tatuam imagens, vendem massagens

Praia imensa, festa de Babel.

 

Horácio pensou e logo inventou

Que sem mercadoria p’ra desfilar

E precisando de grana para o jantar

Lhe sobrava somente o violão.

Dedilhou três acordes, soltou vozeirão

Juntou três versos de afeição

E numa fome de poesia ou alento

Gritou sua alma p’ra ganhar seu sustento

 

Madame Olívia, granfina astuta

Mandou chamar o pobre trovador

Pediu que cantasse canções de amor

E Horácio coitado, rezou ao Senhor

P’ra camuflar seu dissabor.

Por qualquer inspiração divina

Abriu em nota cristalina

E em todo o posto se fez esplendor.

 

Para casa levou uns trocados

No bolso velho já em retalhos

Madame Olívia, por sua vez

Logo esqueceu a actuação

Pegou suas tralhas num saco dourado

Deixou pela areia aquela canção

 

É assim a praia de Ipanema

Uns vão levando a vida

Outros carregam problema

 

Bukowski

por Francisca Prieto, em 17.12.15

bukoswski.jpg

 

Andar à volta da poesia e ir de encontro a um poema de Bukowski que meu Deus.
(como é que o homem é tão javardo e contudo tão sensível, caramba)
 

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Desaforismos

por Francisca Prieto, em 09.12.15

A poesia do Natal é entrar numa pastelaria e pedir um sonho.

W. B. Yeats, 1865 - 1939

por Patrícia Reis, em 23.07.15

An Irish Airman Foresees His Death I know that I shall meet my fate Somewhere among the clouds above; Those that I fight I do not hate Those that I guard I do not love; My country is Kiltartan Cross, My countrymen Kiltartan’s poor, No likely end could bring them loss Or leave them happier than before. Nor law, nor duty bade me fight, Nor public man, nor cheering crowds, A lonely impulse of delight Drove to this tumult in the clouds; I balanced all, brought all to mind, The years to come seemed waste of breath, A waste of breath the years behind In balance with this life, this death.

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manos.png

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

metiam-me na ordem

e encaixavam-me

na bagageira da bicicleta

estrada fora

em curvas rápidas

de cem à hora

(menos a Gui

que nunca aprendeu

a andar de bicicleta)

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

riam-se da minha meminice

e troçavam da tontice

às vezes

mandavam-me calar

e eu fechava o bico

para não dar chatice

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

tinham segredos

de crescidos

que eu não podia saber

mas faziam corridas

comigo às cavalitas

davam-me gelados

e levavam-me

sempre atrelada.

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

são agora

do meu tamanho

e às vezes

pedem-me ajuda

Dia Mundial da Poesia

por Joana Nave, em 23.03.15

O Dia Mundial da Poesia já passou, foi no dia 21 de Março, um dia meio cinzento, pouco primaveril, mas que teve outros encantos. Um dia que começou com uma caminhada junto ao rio, com o vento a bater na cara e a levar para longe as palavras da boa conversa que preencheu este hiato de tempo. O dia seguiu o seu rumo, entre risos e leituras, entre devaneios e tormentos, e chegou ao fim com o desejo insistente de ir à pequena Feira do Livro da Poesia. Meia dúzia de barraquinhas de madeira, edificadas num dos vértices do jardim do bairro e onde, pousando o olhar sobre vários títulos e autores, haveria eu de escolher o que me traria as memórias quentes dos poemas lidos num Agosto longínquo, era eu então uma adolescente fervorosa e ávida de grandes romances, daqueles que causam dor pela profundidade que alcançam.

 

Deixa-me ser tua amiga, Amor,

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor,

A mais triste de todas as mulheres.

 

Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!

 

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

 

Beija-mas bem!... Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos,

Os beijos que sonhei prà minha boca!...

 

in Sonetos, Florbela Espanca

Cem anos depois no dia delas

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.03.15

Facto

 

Tenho aprendido muito convosco, ó amigos homens,

a gostar de aventuras e, sobretudo,

mulheres ao alto, ao lado, ao fundo

e, adormecido, sonhar fora do mundo.

 

(Ruy Cinatti, 08/03/1915 -12/10/1986)

Luísa Dacosta

por Patrícia Reis, em 16.02.15


Chamamento

Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

UM POEMA DE LUÍSA DACOSTA(Via Maria José Ramôa) ChamamentoDa margem do sonho  e do outro lado do mar alguém me estremece sem me alcançar.Um bafo de desejo chega, vago, até mim. Perfume delido de impossível jasmim.É ele que me sonha? Sou eu a sonhar? Sabê-lo seria  desfazer, no vento, tranças de luar.Nuvens, barcos, espumas desmancham-se na noite.E a vida lateja, longe, num outro lugar.

Texte trouvé dans une église de Baltimore (1692)

por Helena Sacadura Cabral, em 16.11.14
Allez tranquillement parmi le vacarme et la hâte et souvenez-vous de la paix qui peut exister dans le silence.
Sans aliénation, vivez, autant que possible en bons termes avec toutes les personnes.
Dites doucement et clairement votre vérité.
Écoutez les autres, même les simples d'esprit et les ignorants, ils ont eux aussi leur histoire.
Évitez les individus bruyants et agressifs, ils sont une vexation pour l'esprit.
Ne vous comparez avec personne : il y a toujours plus grands et plus petits que vous.
Jouissez de vos projets aussi bien que de vos accomplissements.
Ne soyez pas aveugle en ce qui concerne la vertu qui existe.
Soyez vous-même.
Surtout, n'affectez pas l'amitié.
Non plus ne soyez pas cynique en amour car, il est, en face de tout désenchantement, aussi éternel que l'herbe.
Prenez avec bonté le conseil des années en renonçant avec grâce à votre jeunesse.
Fortifiez une puissance d'esprit pour vous protéger en cas de malheur soudain.
Mais ne vous chagrinez pas avec vos chimères.
De nombreuses peurs naissent de la fatigue et de la solitude.
Au delà d'une discipline saine, soyez doux avec vous-même.
Vous êtes un enfant de l'univers, pas moins que les arbres et les étoiles.
Vous avez le droit d'être ici.
Et, qu'il vous soit clair ou non, l'univers se déroule sans doute comme il le devait.
Quels que soient vos travaux et vos rêves, gardez dans le désarroi bruyant de la vie, la paix de votre cour.
Avec toutes ses perfidies et ses rêves brisés, le monde est pourtant beau.

Tachez d'être heureux.

 

Este texto, que me foi enviado por uma amiga, é uma verdadeira conversa/meditação de cada um consigo mesmo. Mas pode, igualmente, ser uma lindíssima oração. De uma qualquer crença ou religião que acredita na natureza humana.

 

Nota: O poema foi atribuído a Max Ehrmann, que o terá escrito em 1927, com o título Desiderata. A ser verdade a tradução aqui apresentada é tão bela quanto o original em inglês que um comentador teve a gentileza de dar a conhecer.

 

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