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No centenário de Sophia

por Pedro Correia, em 08.11.19

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(Novembro de 1919 - Julho de 2004)

 

ESTA GENTE

 

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

 

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

 

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Geografia, 1967)

No centenário de Sena

por Pedro Correia, em 07.11.19

jorge-de-sena[1].jpg

(Novembro de 1919 - Junho de 1978)

 

DESTA VERGONHA DE EXISTIR OUVINDO

 

Desta vergonha de existir ouvindo,

amordaçado, as vãs palavras belas,

por repetidas quanto mais traindo

tornadas vácuas da beleza delas;

 

desta vergonha de viver mentindo

só porque escuto o que dizeis com elas;

desta vergonha de assistir medindo

por elas as injúrias por trás delas

 

ao mesmo sangue com que foram feitas,

ao suor e ao sémen por que são eleitas

e à simples morte de chegar-se ao fim;

 

desta vergonha inominável grito

a própria vida com que às coisas fito:

Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

 

Jorge de Sena (As Evidências, 1955)

Para o Sérgio

por Pedro Correia, em 06.11.19

falling-leaves-in-black-and-white-peter-austin[1].

 

 

PARA SEMPRE

 

Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba,

veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

— mistério profundo

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.

 

 

Carlos Drummond de Andrade, Lição de Coisas

Poetisa, pitonisa

por Pedro Correia, em 20.03.19

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Eis-me em Lagos. E a caminho da Meia Praia, num final de Inverno que mais parece início de Verão, deparo com esta placa. Homenageando justamente uma das maiores escritoras portuguesas de todos os tempos. E também justamente aqui, pois Sophia está profundamente ligada a Lagos, onde compôs alguns dos seus mais belos poemas.

Gosto desta homenagem. E gosto também que a placa toponímica a designe por "poetisa", reabilitando assim este belo substantivo feminino agora escorraçado do discurso cultural dominante, que designa homens e mulheres pela palavra poeta, na reiterada tentativa - que em certos casos deriva para obsessão ideológica - de esbater diferenças de género. 

Há palavras que me tocam muito. Uma delas é precisamente poetisa - que rima com pitonisa. Agrada-me vê-la exposta a quem passa, nesta Rua Sophia de Mello Breyner Andresen, em Lagos. Onde hoje vejo «a luz mais que pura sobre a terra seca», como a autora do Livro Sexto escreveu, aqui bem perto, há mais de meio século. 

In Memoriam

por Fernando Sousa, em 11.11.18

Ergueu-se Abraão, rachou a lenha e partiu

E consigo levou a chama e um cutelo.

E quando juntos se quedaram ambos,

Isaac, filho primeiro, assim falou: `Meu Pai

Tudo está preparado, o ferro e o fogo

Mas qual é o cordeiro a imolar nas chamas?`

E Abraão prendeu o jovem com cinturões, correias,

Em redor construiu trincheiras, parapeitos

E empunhou o cutelo para matar seu filho.

Dos céus um Anjo lhe bradou então

E disse: `Não levantes a mão contra esse jovem

Nada tentes contra ele que é teu filho.

Vê! Um cordeiro preso está ali naquela sarça.

De orgulho oferece um sacrifício em vez do jovem.`

Mas por não querer assim, matou o velho o filho

E um por um também metade dos filhos da Europa. 

 

Parábola do Jovem e do Ancião, de Wilfred Owen, poeta inglês morto nas trincheiras uma semana antes da assinatura, há cem anos, do Armistício da Guerra de 1914-18, in Elegias.

Convidados: TIAGO NENÉ

por Pedro Correia, em 19.09.17

 

Três poemas

  

 

O que tenta ensaiar esta beleza

na sua violência prematura, nas linhas do seu submundo.

Observo-a como um guarda nocturno

numa fábrica de relógios, procuro-a

com uma fome que me isola de mim. E os vidros e as vidas

desta fábrica tornam-se um sequestro da mesma realidade

que entre o futuro e o futuro do futuro

espreita o cruzamento de todo o tempo.

 

Sob a estrela cadente o céu atravessa todos os nomes,

não sei se faz vento interior ou sobram átomos

de matérias que procuram a inutilidade das coisas.

Escuto uma lua de açúcar pela garganta das nuvens,

não estou do lado de fora da memorização da espera

e do eco soterrado de um pó evanescente.

 

Que membros húmidos recebem o hálito do caminho,

que vertigens sobre o torpor das janelas.

Sinto a eficácia mecânica das emoções,

cada sintonizador absorvendo os limites

de uma fissura de luz.

 

 ....................................................

 

O que se descreve é como cotovelos no parapeito,

pode ser tão sombrio

quanto uma interrogação em círculo,

tão viril quanto este caminho mau,

tão minucioso quanto esta perspectiva não infinita.

E onde começa o esquecimento

termina o que a ilha de sono denuncia,

o que o intervalo do vento alcança

quando descende do infindável

onde tudo é calmo e sereno.

E então, que te administrem menos memória,

a ti cujos olhos abrangem

um botão que te desperta do que pensas ver em voz alta,

do que se transforma como um eco

exactamente igual a ti.

 

 ....................................................

 

Talvez tenha faltado ao meu próprio encontro,

e na dor que persiste sinto naturalmente

os últimos suspiros do crepúsculo nos primeiros arrepios da madrugada,

um cutelo na memória, a porta que bate com estrondo,

um relógio com tentáculos,

por vezes estranhas figuras que nascem e desaparecem,

deixando as metamorfoses da sua ilusão e realidade.

 

Pois nesta dor que persiste sinto naturalmente

todos os cheiros do céu e dos astros, o canto de um galo,

apertos de mão numa fogueira extinta,

eixos de uma dúvida incapacitante.

 

Mas não me coibo de pensar o que seria de mim

se não tivesse faltado ao meu próprio encontro,

se não seria agora uma retórica feliz na praia,

uma estrela em movimento sobre o mar,

os pulmões de milhões de seres,

um rio escondido na extensão dos cabelos.

 

 

Tiago Nené

(autor do livro ESTE OBSCURO OBJECTO DO DESEJO)

Ladaínha dos Póstumos Natais

por Isabel Mouzinho, em 25.12.16

Há-de vir um Natal e será o primeiro 

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

 

                                                David Mourão-Ferreira

 

Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 13.06.16

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Livro dez: Bairro Ocidental

Edição D. Quixote, 2015

55 páginas

 

Acompanho com interesse o que se vai escrevendo de poesia em Portugal. Não faltam vozes talentosas, que dominam bem a carpintaria do idioma e exprimem uma paleta larga de emoções poéticas – umas vezes num imediatismo espontâneo quase comovente, noutras vezes num minucioso rendilhado nunca isento de erudição.

Mas não cesso de me espantar com a persistente ausência nesta poesia de um olhar disponível para o mundo contemporâneo. Aqui não me refiro aos chamados versos de intervenção, que confundiam arte literária com propaganda política, mas ao escritor enquanto sujeito de uma oração que exige verbo e complemento directo. A produção poética actual transborda de sujeitos em transe solipsista. Como se esbracejassem no vácuo. Como se a realidade circundante pudesse conspurcar o círculo imaculado mas restrito do seu imaginário.

 

Por vezes penso que falta um Manuel Alegre pronto a sacudir o marasmo desta poesia tão incapaz de interpretar os sinais do vento como de captar os ruídos da rua. Mas não falta. Porque Alegre, com  80 anos enérgicos recém-completados, continua a escrever e a publicar poesia. O seu mais recente título, Bairro Ocidental, estabelece aliás uma curiosa rima interna com os dois iniciais, Praça da Canção e O Canto e as Armas.

Não há amores como os primeiros: meio século depois, o poeta revisita um território afectivo que tão bem conhece. É um território partilhado, a que ele chama pátria sem pedir licença aos patrulheiros de turno.

Indigna-se em ‘Variações sobre o desconcerto do mundo’: “Está tudo inverso: o longe o perto o certo o incerto / no grande desconcerto tudo aberto / direito avesso um verso onde tropeço / e um som disperso um tom onde me perco / horizonte encoberto.”

Magoa-o a ‘Hora inversa’: “Como chegar onde ninguém responde? / Sombra de sombra um rosto vem e foge / não há tempo no tempo não há onde. / Harpas do vento trazem-me o arpejo / de um desejo a morrer na praia extrema.”

Sente-se habitante de um amargo ‘Bairro Ocidental’: “Na Eurolândia tudo é permitido / bruxela-se um país berlina-se outro / um dia ao acordares estás eurodido / e o teu país efemizado é só um couto.”

E canta a ‘Libertação’: “Contra as palavras que não são de aqui / contra o cifrão contra a agiotagem / contra o défice nosso de cada dia.”

 

É uma poesia que se intromete no quotidiano e se compromete com a cidadania sem se submeter a cartilhas de feira ideológica: “A História entrou pelas meias pelas botas / entrou até pelo fato camuflado. / Entrou na pele e ficou lá. Como ser / neutro inespacial intransitivo?”

O melhor Alegre de volta. O melhor Alegre que nunca deixou de estar no local de sempre.

Dois anos sem o Vasco

por Isabel Mouzinho, em 27.04.16

O Acordo é uma barbaridade, feita inconsiderada e precipitadamente, mantida por obstinação e teimosia, e conducente a um resultado exactamente oposto ao pretendido.

 

(Entrevista ao Expresso. 26.05.2012)

 

Foi neste dia, há dois anos, que o "Príncipe das Letras", como tão justamente lhe chamaram, nos deixou. É sempre cedo demais para ver partir aqueles de quem gostamos, porque mesmo que nos fiquem as palavras e as lembranças, sobra a saudade e um grande buraco vazio que não pode preencher-se.

Hoje, fará muita falta à sua família e amigos mais chegados, naturalmente, mas também ao país e ao mundo; e, acima de tudo, faz falta à língua portuguesa, que tanto e tão bem defendeu, e cuja luta é agora quase só ausência e esquecimento, encolher de ombros, deixar andar.

Ah, a falta que o Vasco (nos) faz...

 

O suporte da música pode ser  a relação

entre um homem e uma mulher, a pauta

dos seus gestos tocando-se, ou dos seus

olhares encontrando-se, ou das suas


vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,

ou dos seus obscuros sinais de entendimento,

crescendo como trepadeiras entre eles.

O suporte da música pode ser uma apetência


dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se

ramifica entre os timbres, os perfumes,

mas é também um ritmo interior, uma parcela

do cosmos, e eles sabem-no, perpassando


por uns frágeis momentos, concentrando

num ponto minúsculo, intensamente luminoso,

que a música, desvendando-se, desdobra,

entre conhecimento e cúmplice harmonia.

 

                                                                 (Vasco Graça Moura)

 

Boas iniciativas

por Isabel Mouzinho, em 23.03.16

Já foi há dois dias, mas a iniciativa pareceu-me interessante e original. Para comemorar o Dia Mundial da Poesia, alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais prepararam uma surpresa aos passageiros do comboio da linha, percorrendo as carruagens do comboio da manhã, ou permanecendo nas estações, a declamar poemas, a distribuir livros gratuitamente e, acima de tudo, a divulgar a poesia de autores portugueses, tantas vezes tão injustamente esquecida. E chamaram-lhe "O comboio da poesia", que é também um bonito nome.

 

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Álvaro de Campos Revisited

por Francisca Prieto, em 30.01.16

Álvaro de Campos revisited.JPG

 

Lamechices Colesterólicas

por Francisca Prieto, em 21.12.15

saltitavam de mão dada

melosos

que nem cubo de marmelada

beijinho aqui,

beijinho ali

miminho

saltinho

abracinho

segredinho

coceguinhas

repenicadas

e ele:

és uma boneca

das que se compram em Badajoz

 e ela envergonhada:

 não me fales em Badajoz

que me fazes lembrar caramelos

minha gema de rubi em ovo estrelado

meu molotoff almofadado

com fios de ovos enrodiscados

em cafuné de açucar pilé”

que bonito,

aletria da minha alegria

meu arroz adocicado

tigeladazinha coalhada

agora fiquei enjoada

senta-te ao meu colo

pronto, pronto, já passou

toma lá uns sais de frutos

 e mais

beijinho aqui,

beijinho ali

miminho

saltinho

abracinho

segredinho

e

coceguinhas

repenicadas.

 

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Declaração Amigável

por Francisca Prieto, em 19.12.15

as companhias de seguros

ao invés de nos impingirem papelada

com declarações amigáveis

deviam arranjar formulários

onde se pudessem escrever cartas de amor

 

de cada vez que (bummm)

dois carros chocassem de frente

os condutores em vez de reclamarem

podiam beijar-se ao relento

 

depois preenchiam os dados

com cuidado

nas perguntas indiscretas

em vez de cruzes

podiam escolher corações

e escreveriam palavras doces

nas notas adicionais

 

no verso, porque é verso,

deixariam poemas de amor

e no fim, só no fim,

escreveriam em letra miudinha

um número de telefone

não se fosse dar o caso

de terem provocado danos irreparáveis

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Praia de Ipanema

por Francisca Prieto, em 18.12.15

Na praia de Ipanema

Passa Luísa no embalo da brisa

Passa José queimando o pé

Lá vai Juracema com carga pequena

Segue serena como Milena.

O sol abrasa na beira da esteira

Uns carregam a vida

Outros vão de bobeira.

 

Canta-se o mate, empadinha ou pastel

Agora de queijo, depois de mel.

Rostos curtidos por vezes aflitos

Vendem biquinis ou panos bonitos

Tatuam imagens, vendem massagens

Praia imensa, festa de Babel.

 

Horácio pensou e logo inventou

Que sem mercadoria p’ra desfilar

E precisando de grana para o jantar

Lhe sobrava somente o violão.

Dedilhou três acordes, soltou vozeirão

Juntou três versos de afeição

E numa fome de poesia ou alento

Gritou sua alma p’ra ganhar seu sustento

 

Madame Olívia, granfina astuta

Mandou chamar o pobre trovador

Pediu que cantasse canções de amor

E Horácio coitado, rezou ao Senhor

P’ra camuflar seu dissabor.

Por qualquer inspiração divina

Abriu em nota cristalina

E em todo o posto se fez esplendor.

 

Para casa levou uns trocados

No bolso velho já em retalhos

Madame Olívia, por sua vez

Logo esqueceu a actuação

Pegou suas tralhas num saco dourado

Deixou pela areia aquela canção

 

É assim a praia de Ipanema

Uns vão levando a vida

Outros carregam problema

 

Bukowski

por Francisca Prieto, em 17.12.15

bukoswski.jpg

 

Andar à volta da poesia e ir de encontro a um poema de Bukowski que meu Deus.
(como é que o homem é tão javardo e contudo tão sensível, caramba)
 

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Desaforismos

por Francisca Prieto, em 09.12.15

A poesia do Natal é entrar numa pastelaria e pedir um sonho.

Ana Hatherly

por Isabel Mouzinho, em 05.08.15

 

Carta de Amor Informático

 

Penetraste no meu coração

Como um virus no meu processador

 

Vindo de lado nenhum

 Ofereces-me agora

O vazio da não opção

 

Estragaste-me o real

Obrigaste-me a reinventá-lo:

Para quê?

 

Agora estás

No meu cemitério de textos

Já não te posso reencaminhar

 

Arquivei-te no lixo da memória

Do meu Pentium IV

Que aliás já vendi

 

Troquei-o por um lap top

Mais leve

Mais portátil

Mais facilmente descartável

 

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W. B. Yeats, 1865 - 1939

por Patrícia Reis, em 23.07.15

An Irish Airman Foresees His Death I know that I shall meet my fate Somewhere among the clouds above; Those that I fight I do not hate Those that I guard I do not love; My country is Kiltartan Cross, My countrymen Kiltartan’s poor, No likely end could bring them loss Or leave them happier than before. Nor law, nor duty bade me fight, Nor public man, nor cheering crowds, A lonely impulse of delight Drove to this tumult in the clouds; I balanced all, brought all to mind, The years to come seemed waste of breath, A waste of breath the years behind In balance with this life, this death.

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manos.png

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

metiam-me na ordem

e encaixavam-me

na bagageira da bicicleta

estrada fora

em curvas rápidas

de cem à hora

(menos a Gui

que nunca aprendeu

a andar de bicicleta)

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

riam-se da minha meminice

e troçavam da tontice

às vezes

mandavam-me calar

e eu fechava o bico

para não dar chatice

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

tinham segredos

de crescidos

que eu não podia saber

mas faziam corridas

comigo às cavalitas

davam-me gelados

e levavam-me

sempre atrelada.

 

Gui, Zé, Cácá, Lili,

são agora

do meu tamanho

e às vezes

pedem-me ajuda

Dia Mundial da Poesia

por Joana Nave, em 23.03.15

O Dia Mundial da Poesia já passou, foi no dia 21 de Março, um dia meio cinzento, pouco primaveril, mas que teve outros encantos. Um dia que começou com uma caminhada junto ao rio, com o vento a bater na cara e a levar para longe as palavras da boa conversa que preencheu este hiato de tempo. O dia seguiu o seu rumo, entre risos e leituras, entre devaneios e tormentos, e chegou ao fim com o desejo insistente de ir à pequena Feira do Livro da Poesia. Meia dúzia de barraquinhas de madeira, edificadas num dos vértices do jardim do bairro e onde, pousando o olhar sobre vários títulos e autores, haveria eu de escolher o que me traria as memórias quentes dos poemas lidos num Agosto longínquo, era eu então uma adolescente fervorosa e ávida de grandes romances, daqueles que causam dor pela profundidade que alcançam.

 

Deixa-me ser tua amiga, Amor,

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor,

A mais triste de todas as mulheres.

 

Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!

 

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

 

Beija-mas bem!... Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos,

Os beijos que sonhei prà minha boca!...

 

in Sonetos, Florbela Espanca


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