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Delito de Opinião

ISTO

Poema de Jorge de Sena (1958)

Pedro Correia, 01.02.26

 

Não queiras, não perguntes, não esperes.

Isto que passa como vida e tu

medes em dias, horas e minutos,

ou como tempo passa e vais medindo

em rugas e lembranças e em sombrias

e plácidas visões de coisa alguma,

às vezes sorridentes, mas sombrias;

sim: isto, a que dás nomes, que separas

do resto em que surgiu, de que surgiu;

isto, que já não queres, não interrogas,

de que já nada esperas, mas que queres,

porque perguntas sempre, e por que esperas;

isto, que já não és tu, nem vai contigo,

nem fica quando vais; em que não pensas,

porque ao medir apenas medes e

nada mais fazes que medir — só isto,

apenas isto, isto unicamente:

não queiras, não perguntes, não esperes,

que o pouco ou muito é tudo o que te resta.

Natal

Poema de Reinaldo Ferreira

Pedro Correia, 23.12.25

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Neste caminho cortado
Entre pureza e pecado
Que chamo vida,
Nesta vertigem de altura
Que me absolve e depura
De tanta queda caída,
É que Tu nasces ainda
Como nasceste
Do ventre de Tua mãe.
Bendita a Tua candura.
Bendita a minha também.

 

Mas se me perco e Te perco,
Quando me afogo no esterco
Do meu destino cumprido,
À hora em que eu Te rejeito
E sangra e dói no Teu peito
A chaga de eu ter esquecido,

 

É que Tu jazes por mim
Como jazeste
No colo da Tua mãe.
Bendita a Tua amargura.
Bendita a minha também.

Um ano com D. Dinis (32)

Flores do Verde Pino

Cristina Torrão, 28.05.25

Não se verificando hoje nenhuma efeméride especial relacionada com o reinado de D. Dinis, aproveito para relembrar a sua Cantiga de Amigo mais conhecida. Ignoro porque se terá destacado tanto, talvez devido ao ritmo. Estes poemas eram escritos para serem musicados e cantados, o próprio D. Dinis compunha melodias. Infelizmente, quase nada chegou aos nossos dias.

Tendo isto em conta, criei, no meu romance, a seguinte cena (fictícia) à volta destes versos:

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Num serão de Março, os cálices de vinho esvaziavam-se facilmente e o rei encarregou os trovadores João Anes Redondo e Pêro Anes Coelho de entoarem a sua nova cantiga. Começava com um lamento dirigido à natureza, uma donzela pedia às flores notícias do amigo que tardava em aparecer, receando que ele lhe houvesse mentido. O refrão consistia precisamente na pergunta: "Ai Deus, e onde está?"

 

                        Ai flores, ai flores do verde pino

                        se sabedes novas do meu amigo!

                        Ai Deus, e u é?

 

                        Ai flores, ai flores do verde ramo,

                        se sabedes novas do meu amado!

                        Ai Deus, e u é?

 

                        Se sabedes novas do meu amigo,

                        aquel que mentiu do que pôs comigo?

                        Ai Deus, e u é?

 

                        Se sabedes novas do meu amado,

                        aquel que mentiu do que m’ há jurado,

                        Ai Deus, e u é?

 

A natureza interpelada punha fim à angústia da donzela, dizendo-lhe que o amigo estava vivo e sano e viria ter com ela dentro do prazo prometido. A simplicidade e o ritmo harmónico da cantiga pôs os convivas a cantar o refrão «Ai Deus, e u é?» em coro.

 

                        Vós me perguntades polo voss’ amigo?

                        e eu bem vos digo que é san’ e vivo.

                        Ai Deus, e u é?

 

                        Vós me perguntades polo voss’ amado?

                        e eu bem vos digo que é viv’ e sano.

                        Ai Deus, e u é?

 

                       E eu bem vos digo que é san’ e vivo,

                        e será vosc’ ant’ o prazo saído.

                        Ai Deus e u é?

 

                        E eu bem vos digo que é viv’ e sano,

                        e será vosc’ ant’ o prazo passado.

                        Ai Deus, e u é?

 

Se o fervor dos aplausos surpreendeu Dinis, maior foi o seu espanto, quando se exigiu a repetição da cantiga. Os versos não custavam a fixar, todos faziam coro com os trovadores, erguendo os seus cálices na altura do refrão:

 

                        Ai Deus, e u é?

 

Gerara-se uma rara descontracção e, assim que a cantiga chegou ao fim, foi exigida uma terceira vez! Aquela noite parecia diferente das outras, havia algo de especial no ar morno, convidativo ao deleite.

 

Notação Musical.jpgNotação musical original de D. Dinis ©Arquivo Nacional Torre do Tombo

Um ano com D. Dinis (28)

Cantiga de Escárnio

Cristina Torrão, 12.05.25

D. Dinis é sobretudo conhecido pelas suas Cantigas de Amor e de Amigo. Mas ele compôs também algumas Cantigas de Escárnio. Aproveito para lembrar uma passagem do meu romance, onde enquadrei uma dessas cantigas:

Serão na Corte 2.jpg

Serão na corte, por H. Vanez

 

Assim se viu Dinis rodeado de fidalgos pomposos a disputar-lhe a atenção, tentando impressioná-lo com as suas proezas, sem sequer haver uma sessão musical para o distrair. O Paço episcopal não era o local indicado para fazer a corte às senhoras com cantigas trovadorescas, para já não falar de uma ou outra dança.
Dinis recordou uma sua Cantiga de Escárnio sobre um fidalgo de província, por ele apelidado de Dom Foam, que falava intermitentemente, sem se aperceber do cansaço e do tédio que causava ao seu soberano.

U noutro dia seve Dom Foam,
a mi começou gram noj’ a crecer
de muitas cousas que lh’ oí dizer.
Diss’ el: - «Ir-m’ ei ca já se deitaram»;
e dix’ eu: - «Boa ventura hajades
porque vos ides e me leixades».

E muit’ enfadado do seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiava estes olhos meus.
E quand’ el disse: - «Ir-me quer’ eu deitar»
e dix’ eu: - «Bõa ventura hajades
porque vos ides e me leixades».

El seve muit’ e diss’ e porfiou,
e a mim creceu gram nojo por em,
e nom soub’ el se x’ era mal se bem.
E quand’ el disse: - «Já m’ eu deitar vou»
e dix’ eu: - «Bõa ventura hajades
porque vos ides e me leixades».

 

Nota: apesar de Dom Foam continuadas vezes alegar ir deitar-se, não pára de conversar, indiferente ao alívio, expresso pelo soberano, que a sua partida proporcionaria.

Um ano com D. Dinis (15)

Cantiga de Amigo de D. Dinis

Cristina Torrão, 20.03.25

(Excerto do meu romance "Dom Dinis - a quem chamaram O Lavrador")

 

Ao som dos alaúdes, Pêro Anes Coelho entoou os primeiros versos da cantiga de autoria de Dinis. A amada era informada de que seu amigo andava tão triste, que já quase não podia falar:
        
    O voss’ amig’, amiga, vi andar
    tam coitado que nunca lhi vi par,
    que adur mi podia já falar,

Os outros dois trovadores juntaram-se-lhe no refrão. O apaixonado suplicava que fossem rogar à amada que tivesse mercê dele:

    pero quando me viu disse-m’ assi:
    «Ai, senhor, id’ a mia senhor rogar
    por Deus que haja mercee de mi.»

Era um poema em jeito de recado. A corte e os convidados seguiam encantados como Pêro Anes Coelho anunciava o coitado haver perdido o juízo e o ânimo:

    El andava trist’ e mui sem sabor,
    como quem é tam coitado d’ amor
    e perdudo o sem e a color,

E, de novo, se lhe juntaram os outros no refrão:

    pero quando me viu disse-m’ assi:
    «Ai, senhor, id’ a mia senhor rogar
    por Deus que haja mercee de mi.»

Embora descrevesse um sofrimento, a cantiga possuía uma melodia leve e muito ritmo, na mudança entre o solista e o refrão.

    El, amiga, achei eu andar tal
    como morto, ca é descomunal
    o mal que sofr’ e a coita mortal,
    pero quando me viu disse-m’ assi:
    «Ai, senhor, id’ a mia senhor rogar
    por Deus que haja mercee de mi.»

 

Nota: Todas as Cantigas de Amigo transcritas no meu romance são originais de D. Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas. 

Um ano com D. Dinis (6)

Cantiga de Amor de D. Dinis*

Cristina Torrão, 19.02.25

Manesse P 3.jpg

Codex Manesse

 

Como justificareis a minha morte perante Deus? Pois que me matastes a mim, cujo único mal é o grande amor que vos tenho, que não há amor maior, e por vós morrerei. Essa será a única razão que Lhe podeis dar da minha morte, não O podereis enganar, que Ele bem sabe quanto vos amo e que nunca mereci que de vós me adviesse a morte. Por tal injustiça, nunca d’ Ele obtereis perdão, pelo que sereis condenada, quando todos formos diante d’ Ele.

Que razom cuidades vós, mia senhor,
dar a Deus, quand’ ant’ El fordes, por mi
que matades, que vos nom mereci
outro mal senom que vos hei amor
aquel maior que vo-l’ eu poss’ haver,
ou que salva lhi cuidades fazer
da mia morte, pois por vós morto for?

Ca na mia morte nom há razom
bona que ant’ El possades mostrar,
desi nom o er podedes enganar,
ca El sabe bem quam de coraçom
vos eu am’ e nunca vos errei;
e por em quem tal feito faz bem sei
que em Deus nunca pod’ achar perdom.

Ca de pram Deus nom vos perdoará
a mia morte, ca El sabe mui bem
ca sempre foi meu saber e meu sem
en vos servir. Er sabe mui bem
que nunca vos mereci por que tal
morte por vós houvesse, por em mal
vos será quand’ ant’ El formos alá.

 

*Não está ligada à data de hoje (penso não se saber quando foi criada), mas irei aleatoriamente publicando poesia de D. Dinis.

Ó Portugal, se fosses só três sílabas

Paulo Sousa, 10.06.24

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .

 

1965, Alexandre O’Neill

Sessenta anos sem Daniel Filipe

Nascido em Cabo Verde (1.2.1925) e falecido em Lisboa (6.4.1964)

Pedro Correia, 06.04.24

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(fragmento)

Neste ano de 1962
não como Hazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamente
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

 

Neste ano de 1962
encostado a uma esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

 

Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude
e de enjoo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

 

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
eu
neste ano de 1962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria

 

Do livro Pátria, Lugar de Exílio (1963)

Poema a Cristo crucificado

Pedro Correia, 07.04.23

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Tú me ofreces la vida con tu muerte
y esa vida sin Ti yo no la quiero;
porque lo que yo espero, y desespero,
es otra vida en la que pueda verte.

Tú crees en mí. Yo a Ti, para creerte,
tendría que morirme lo primero;
morir en Ti, porque si en Ti no muero
no podría encontrarme sin perderte.

Que de tanto temer que te he perdido,
al cabo, ya no sé qué estoy temiendo:
porque de Ti y de mí me siento huido.

Mas con tanto dolor, que estoy sintiendo,
por ese amor con el que me has herido,
que vivo en Ti cuando me estoy muriendo.

 

José  Bergamín

 

Quadro: O Cristo de São João da Cruz, de Salvador Dalí (1951)

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 21.03.23

Como "não há fome que não dê em fartura", aqui vai.

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Hoje assinala-se O Dia Mundial da Árvore 

«Neste dia decorrem várias acções de arborização e reflorestação, em diversos locais do mundo.

O objectivo da comemoração do Dia Mundial da Árvore é sensibilizar a população para a importância da preservação das árvores, quer ao nível do equilíbrio ambiental e ecológico, como da própria qualidade de vida dos cidadãos.

Estima-se que mil árvores adultas absorvam cerca de 6000 kg de dióxido de carbono.

Trinta por cento da superfície terrestre está coberta por florestas, que em conjunto com as algas marinhas são apelidadas "pulmões do mundo".

A celebração do Dia Mundial da Árvore ou da Floresta começou a 10 de Abril de 1872, no estado norte-americano do Nebraska. Em Portugal, a 1.ª Festa da Árvore comemorou-se a 9 de Março de 1913 e o 1.º Dia Mundial da Floresta a 21 de Março de 1972. »

 

Em pulmão verde não somos abastados nas zonas das grandes cidades. Em Lisboa temos o Monsanto e pouco mais, apesar de os arredores serem mais frondosos. Há projectos de arborização viáveis, mas que creio que irão complicar o caos de trânsito diário na cidade. É por uma boa causa, claro, mas tapar a cabeça e deixar os pés de fora nunca foi solução para coisa alguma.

 

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A 21 de Março celebra-se O Dia Mundial da Poesia

«A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO, em 1999. O Dia Mundial da Poesia comemora a diversidade do diálogo e a livre criação de ideias através das palavras, da criatividade e da inovação.

Portugal tem vários poetas cuja obra é internacionalmente conhecida. Luís de Camões, Fernando Pessoa, António Nobre, Florbela Espanca, José Régio, Natália Correia, Eugénio de Andrade, Cesário Verde, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner Andresen, são alguns dos mais conhecidos.»

 

Existe poesia em tudo. Se os sentidos a encontra e o espírito a traduz, os dia cinzentos ganham a cor inesperada da alegria, que pode transmutar pequenos e grandes vazios.

"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro".

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Hoje é O Dia Mundial da Marioneta

«Este dia surgiu por iniciativa do teatro iraniano Dzhivada Zolfagariho que a sugeriu em 2000 no XVIII Congresso da União Internacional da Marioneta, na Alemanha. A efeméride foi comemorada pela primeira vez em 2003. Neste dia as marionetas estão em destaque nos teatros, museus e noutros espaços culturais do mundo. Portugal não é excepção.

Mesmo em casa podemos assinalar este dia, vendo filmes com marionetas, como os famosos "Marretas".»

 

A mais famosa marioneta do mundo é o Pinóquio. Creio que muito pouca gente não tenha lido sobre o menino de madeira cujo construtor pediu um desejo a uma estrela, para que ele se tornasse um menino de verdade. Pessoalmente gosto muito dos filmes de marionetas em sto-motion. Creio que o mais famoso é o Nightmare Before Christmas de Tim Burton, mas o Pinóquio de Guillermo Del Toro é um filme espectacular. Os britânicos têm Punch and Judy, um espectáculo ambulante geralmente apresentado em estâncias balneares. Não sei até quando poderá durar essa tradição porque tem cenas de bullying e violência doméstica à mistura, mas creio que ainda é uma referência na história mundial das marionetas artesanais. 

 

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Hoje é O Dia Internacional das Florestas

«Este dia foi instituído pela ONU em 2012. O tema para 2023 é "Florestas e Saúde". Objectivo: assinalar a importância das florestas ao nível da saúde.

As florestas purificam a água e o ar, capturam carbono, produzem comida e medicamentos que salvam vidas, melhoram o nosso bem-estar.  Depende de todos nós proteger este recurso natural tão precioso.

Dados sobre as florestas na UE:

  • 45% das terras da UE - cerca de 182 milhões de hectares - são florestas;
  • Destes, 131 milhões de hectares estão disponíveis para fornecimento de madeira;
  • As florestas estão a crescer - de 1990 a 2015 foi florestada uma área do tamanho da Grécia;
  • As florestas são um dos maiores recursos renováveis ​​da Europa.»

 

Preservar a biodiversidade sempre! Por cá, normalmente até Junho, somos sempre preservativos. Portugal já está a arder é o mote para o resto do tempo estival. É muito triste.

 

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Este é O Dia Internacional da Síndrome de Down

«Esta data é oficialmente reconhecida pelas ONU desde 2012. 

A Síndrome de Down (SD) é uma alteração genética presente na espécie humana desde sua origem. É a primeira causa conhecida de discapacidade intelectual, representando aproximadamente 25% de todos os casos de atraso intelectual, traço presente em todas as pessoas com a síndrome. 

A SD não é uma doença, mas uma condição genética. Porém, está associada a questões de saúde que devem ser observadas desde o nascimento da criança.

Não há relação entre as características físicas e um maior ou menor comprometimento intelectual – o desenvolvimento dos indivíduos está intimamente relacionado aos estímulos e aos incentivos que recebem, sobretudo nos primeiros anos de vida, e a carga genética herdada dos pais.»

 

Dependendo da intensidade da condição genética que origina a Síndrome, determina-se a capacidade ou descapacidade de integração dos indivíduos portadores da condição na sociedade. Apesar de se falar sempre muito de inclusão,  o estigma permanece, mas há pessoas completamente integradas e funcionais.

 

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Hoje é O Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial

«Este dia foi estabelecido em 1966 pela ONU. A 21 de Março de 1960, na África do Sul, a polícia abriu fogo e matou 69 pessoas numa manifestação pacífica em Sharpeville, contra leis que aprofundavam o apartheid.

Objectivo desta data: mobilizar a sociedade civil na luta contra a discriminação racial.

Em 2023, 75 anos após a adopção da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH), o tema é dedicado à urgência do combate ao racismo e à discriminação racial. A DUDH afirma que todos têm direitos e liberdades, sem distinção de raça ou cor,. No entanto, o racismo não desapareceu.»

 

Apenas deixará de haver racismo quando a discriminação for uma realidade de parte a parte. As vítimas não se medem pela cor da pele.

 

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Hoje é O Dia Internacional do Perfume

«A História do perfume pode dar testemunho do desenvolvimento de toda uma civilização, assim como a história da música. 

Os primeiros usos de perfumes estavam associados a ritos religiosos, que acrescentavam o uso de vegetais cujas propriedades naturais continham essências e fragrâncias especiais. No Egipto antigo, os perfumes também eram usados no processo de embalsamamento das múmias, que demandava uma grande quantidade de óleos aromáticos.

A arte da perfumaria sempre exigiu um grande conhecimento de botânica e de variadas técnicas de extração de odores.

A obra do romancista alemão Patrick Süskind, O Perfume (Das Parfum, no original, em alemão), publicada em 1985, exemplifica o aparecimento das casas de perfumaria na Europa do século XVIII, sobretudo em França. Em trechos como este:

“Não só precisava saber destilar, também se precisava ao mesmo tempo ser um produtor de pomadas e um manipulador de drogas, um alquimista e artesão, comerciante, humanista e hortelão. Era preciso saber distinguir entre sebo de rins de carneiro e sebo de bezerro, e entre uma violeta Vitória e uma violeta de Parma. Era preciso dominar o latim. Era preciso saber quando o heliotrópio deve ser colhido e quando o gerânio floresce e saber que a flor do jasmim pedre o seu perfume com o sol nascente.” 

Percebe-se, com o texto, o tamanho da complexidade envolvida na criação de perfumes. A palavra perfume provém do latim per fumum, cujo significado é “por meio do fumo”.»

 

Uso uns borrifos do mesmo perfume há uma data de anos. É levezinho e não enjoa. O Livro de Patrick Süskind e a adaptação são de repetição. Eu, pessoa nariguda, só tenho ideia de ouvir enaltecer "o nariz" da Cleópatra e no livro e no filme sobre o perfume, mesmo apesar de pouco olfactiva, fico emocionada por finalmente " o nariz" ter um papel principal.

 

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Hoje é O Dia Europeu da Criatividade Artística 

«Como não existem regras para a criatividade, o Dia Europeu da Criatividade Artística pode ser assinalado de diversas formas. Desde dançar a ler poemas, a pintar, ou a filmar, o leque de opções é vasto. No site do Dia Europeu da Criatividade Artística encontra-se disponível uma lista de actividades a desenvolver neste dia

 

Durante "aquele mês" em que todos nos resumimos às quatro paredes protectoras do que andava lá fora, eu e o meu marido procurámos entreter os nossos netos fazendo "quadros" de filmes e séries de TV, primeiro com o que tínhamos à mão e por último, numa fase de "discos  pedidos", com o que arranjávamos online e nos deixavam no elevador. Foi muito engraçado pensar, escrever o "guião" fazer o guarda-roupa, o cenário, fotografar, fazer a montagem, etc. Os mais exigentes saíram mais trapalhões, porque não havia volta a dar lhes, mas outros ficaram muito bons. Tenho alguma nostalgia daquele passatempo que fez o tempo passar num ápice.

( Imagens Google)

Guernica ontem, Ucrânia hoje

Descrição da Guerra em Guernica, de Carlos de Oliveira (dois trechos)

Pedro Correia, 09.03.23

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Irpin em ruínas (Ucrânia, 2022)

 

IX

Casas desidratadas

no alto forno; e olhando-as,

momentos antes de ruírem,

o anjo desolado

pensa: entre detritos

sem nenhum cerne ou água,

como anunciar

outra vez o milagre das salas;

dos quartos; crescendo cisco

a cisco, filho a filho?

as máquinas estranhas,

os motores com sede, nem sequer

o espírito das minhas casas;

evaporaram-no apenas.

 

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Butcha em escombros (Ucrânia, 2022)

 

X

O incêndio desce;

do canto superior direito;

sobre os sótãos,

os degraus das escadas

a oscilar;

hélices, vibrações, percutem os alicerces;

e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona

toda a arquitectura;

as paredes áridas desabam

mas o seu desenho

sobrevive no ar; sustém-no

a terceira mulher; a última; com os braços

erguidos; com o suor da estrela

tatuada na testa.

Poesia

Maria Dulce Fernandes, 27.10.22

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Nas palavras da ínclita Florbela Espanca, ser poeta é ser mais alto, é ser maior. Ler poesia é acariciar a alma, é ter a percepção duma realidade doce e sofrida, negra e tantas vezes trágica. É tomar como nossa a sensibilidade daquele que segura a pena e apoderarmo-nos dos seus sentimentos e, nem que seja por breves instantes, entrar-lhe na pele, sentir-lhe o amargo da boca ou a doçura dos lábios. É viver naquele momento a ilusão daquela vida.
Tendo as nove musas a mesma filiação, dissociar a poesia da música é como amputar um membro, até porque todo o ritmo da poesia é musical. A música tem o dom de elevar a vida. Tudo o que respira reage e se rege pelo som.
Quantas vezes por dia, sem um livro na mão, conseguimos declamar um poema maravilhoso dum poeta maior, apenas em cantando uma canção? 
Homens e mulheres mais altos, maiores, esses quase desconhecidos que escreveram e escrevem palavras mágicas, que soberbamente musicadas são hinos inesquecíveis, homens e mulheres que escrevem poesia admiravelmente e que raramente são cantados como poetas.
Há-os aos milhares, brilhantes, geniais, mas sempre, sempre num plano secundário, porque além da máquina social que nos vende a ideia do músico e da sua obra, a poderosa audição transmite-nos os acordes mais intensamente do que as palavras, muito embora sejam as palavras que movem o mundo.
 
(Imagens Google)

Dia de Bocage

jpt, 15.09.22

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Como adenda à tão simpática série, verdadeiro almanaque, que Maria Dulce Fernandes vem aqui animando quotidianamente, aqui deixo informação que me chega da vizinha e ciosa capital sadina: hoje é o dia de Bocage, pois o do seu nascimento, e nisso feriado setubalense. 

Leigo que sou nessas coisas literárias ainda assim me parece que o poeta segue destratado. Nem tanto esquecido, pois é ícone dos brejeiros literatos. Será mais poeta reduzido, espartilhado pelo tom pícaro das memórias que se lhe dedicam. Enfim, não serei eu a fazer-lhe justiça, deixo apenas dois dos seus poemas de que muito gosto:

 

O Ciúme

Entre as tartáreas forjas, sempre acesas,

Jaz aos pés do tremendo, estígio nume,

O carrancudo, o rábido Ciúme,

Ensanguentadas as corruptas presas.

 

Traçando o plano de cruéis empresas,

Fervendo em ondas de sulfúreo lume,

Vibra das fauces o letal cardume

De hórridos males, de hórridas tristezas.

 

Pelas terríveis Fúrias instigado,

Lá sai do Inferno, e para mim se avança

O negro monstro, de áspides toucado.

 

Olhos em brasa de revés me lança;

Oh dor! Oh raiva! Oh morte!... Ei-lo a meu lado

Ferrando as garras na vipérea trança.

 

******


Vós, crédulos mortais, alucinados
de sonhos, de quimeras, de aparências
colheis por uso erradas consequências
dos acontecimentos desastrados.

Se à perdição correis precipitados
por cegas, por fogosas, impaciências,
indo a cair, gritais que são violências
de inexoráveis céus, de negros fados.

Se um celeste poder tirano e duro
às vezes extorquisse as liberdades,
que prestava, ó Razão, teu lume puro?

Não forçam corações as divindades,
fado amigo não há nem fado escuro:
fados são as paixões, são as vontades.

Poetisa, pitonisa

Pedro Correia, 13.08.22

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Concordo em absoluto com o que aqui assinala Francisco Seixas da Costa: «A propósito da morte da escritora Ana Luísa Amaral, notou-se o cuidado da imprensa em qualificá-la de “poeta” e não de “poetisa”. Acho, em absoluto, ridícula esta tendência recente de fugir ao uso da palavra “poetisa”, como se ela pudesse ofender a qualidade literária de uma mulher que escreve poemas.»

Em evidente sintonia, recordo o que escrevi em 2019 no DELITO: «Indigno-me com este absurdo banimento da palavra poetisa - sempre a associei a pitonisa - que alguns adoptaram, correndo desenfreados atrás da norma brasileira.»

Indignação hoje mais reforçada. Pela notória perseguição a este «belo substantivo feminino agora escorraçado do discurso cultural dominante, que designa homens e mulheres pela palavra poeta, na reiterada tentativa - que em certos casos deriva para obsessão ideológica - de esbater diferenças de género» (perdoem-me outra autocitação, mas vem mesmo a propósito). 

Uma ideia para o dia mundial da poesia

Paulo Sousa, 21.03.22

Uma vez imaginei um campeonato nacional de poesia. Teria uma divisão principal nacional e uma segunda divisão, que seria disputada a distrito a distrito.

Na base da pirâmide estariam as escolas secundárias, mas existiria também uma categoria aberta aos não inscritos na Federação Nacional de Poesia.

Em todas as divisões existiriam duas competições separadas, a "declamação e divulgação" e a "poesia na voz de quem a faz".

É só uma ideia.

Um dia mortos

Pedro Correia, 31.12.21

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Um dia mortos, gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar (1947)

«Não na distância. Aqui, no meio de nós. Brilha»

Pedro Correia, 21.09.21

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É preciso morrer um Presidente da República para ouvirmos Mozart e recitação da melhor poesia nos nossos canais de notícias. Aconteceu domingo passado, no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, perante os restos mortais de Jorge Sampaio. Cerimónia sóbria e digna, que enobrece o Estado português: mal vai o país que seja incapaz de honrar aqueles que bem o servem.

Foi um momento admirável, a vários títulos. E as televisões estavam lá para mostrar. Por instantes alheadas das doses infindáveis de música pimba e das intermináveis tricas em torno da equipa do Benfica que preenchem horas e horas e horas de emissão.

Vera e André Sampaio, que muitos de nós recordamos adolescentes, quando o pai desempenhava funções como secretário-geral do PS e presidente da Câmara de Lisboa antes de ser eleito Chefe do Estado, tiveram intervenções comovidas e comoventes. Agradecendo a presença das personalidades ali reunidas, com destaque para o Rei de Espanha, e as expressivas mensagens de Timor-Leste recebidas em vídeo.

Sampaio, que em vida dividiu águas no seu próprio partido, ergueu-se post mortem como traço de união entre portugueses de diversos matizes. Foi o seu último serviço prestado à República que jurou servir.

Lá estava, a confirmá-lo, o actual inquilino do Palácio de Belém. Marcelo Rebelo de Sousa – que teve o primeiro grande combate político da sua vida numa corrida autárquica em Lisboa em que foi derrotado por Sampaio, já lá vão 32 anos – mostrou-se à altura da circunstância com outra notável peça oratória. Na linha da que já pronunciara no 25 de Abril.

«Para Jorge Sampaio, Portugal nunca foi uma abstracção. Nunca foi uma fortaleza fechada, egoísta e distante. Para Jorge Sampaio, foram – um a um – os milhões de portugueses», declarou o católico Marcelo neste vibrante elogio fúnebre ao ateu Sampaio, enterradas as contendas do passado.

É nestas ocasiões que os melhores repórteres, atentos e cultos, fazem a diferença. «Atrevo-me a destacar, nesta cerimónia, as intervenções dos filhos, porque herdaram claramente do pai a eloquência e a capacidade de, num dos dias mais difíceis das suas vidas, falarem ao coração do país», observou Débora Henriques, destacada pela SIC para a cobertura das exéquias nos Jerónimos. Com palavras precisas e sentidas, bem pronunciadas e que fogem à vulgaridade.

Palavras adequadas naquela manhã de luto marcada por outros momentos carregados de simbolismo. A recente viúva Maria José Ritta já no cemitério do Alto de São João, beijando a bandeira nacional que o Estado português lhe entregou das mãos de Marcelo. A maestrina Joana Carneiro dirigindo a Orquestra Sinfónica Portuguesa em trechos que certamente emocionariam o melómano Sampaio. Maria do Céu Guerra recitando tão bem o magnífico poema de Jorge de Sena, autêntico hino à transcendência perante a fragilidade humana: «Uma pequenina luz bruxuleante e muda / Como a exactidão, como a firmeza, como a justiça, / Apenas como elas, / Mas brilha. / Não na distância. Aqui, / No meio de nós. / Brilha.»

 

Texto publicado no semanário Novo

Leituras

Paulo Sousa, 12.05.21

AS CRIANÇAS

E uma mulher que trazia um menino ao colo disse:
- Fala-nos das Crianças.

E ele respondeu:
- Os vossos filhos não são vossos filhos,
são filhos e filhas da própria Vida.

Vêm por vosso meio, mas não de vós;
e apesar de estarem convosco, não vos pertencem.
Podeis dar-lhes o vosso amor; mas não os vossos pensamentos
porque eles têm os seus.

Podeis acolher os seus corpos
mas não as suas almas:
porque as suas almas habitam a casa do futuro
que vós não podeis visitar nem em sonhos. 

Deveis esforçar-vos por ser como eles,
mas não tenteis que sejam como vós.
Pois a vida não anda para trás,
nem se detêm no passado.

Sois os arcos e os vossos filhos
as setas vivas projectadas.

O Arqueiro vê o alvo no caminho infinito
e retém-vos com o seu poder
para que as setas possam voar depressa para longe

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro,
seja a da Alegria.

Porque assim como Ele gosta da seta que voa,
também gosta do arco que fica.

 

Khalil Gibran

Adeus, 2020

Pedro Correia, 01.01.21

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PASSAGEM DO ANO

 

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

 

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

 

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

 

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

 

Surge a manhã de um novo ano.

 

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

Carlos Drummond de Andrade