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Delito de Opinião

Pensamento da semana

Ana CB, 17.01.22

Gosto de arrumar. Dobrar, endireitar, empilhar são gestos que me acalmam. Uma gaveta arrumada dá-me satisfação, uma secretária organizada dá-me a sensação de dever cumprido, espaços desimpedidos dão-me liberdade. A desarrumação desconcentra-me. Saber sempre (ou quase sempre…) onde está o que quero poupa-me tempo e preocupação – a vida é demasiado curta para a desperdiçar com ansiedades inúteis.

Pensamento da Semana

Marta Spínola, 16.01.22

Dia 30 há eleições. Entre programas de cada partido e debates, lá chegaremos. 
Entre eleitores há de tudo: o informado, o que tenta acompanhar ainda que sem grande entusiasmo, o simpatizante que tem referências com 30 anos, mesmo que já tenham mudado, o ministro de bancada.

O desinteressado pode nem aparecer, mas não vamos falar na abstenção. Ou devemos? É geral o desinteresse, desde cedo. É comum o "não me interesso por política" em tenra idade, que se prolonga vida fora. Por não ser próximo? Imediato? Por, simplesmente, não ser emocionante? Por nunca se chegar a acreditar "nos políticos"? Não tenho respostas certas, levanto apenas a questão. Creio que a abstenção vai sempre mais longe que "era dia de praia", ou outras justificações que tentamos encontrar. O desinteresse é geral, não julgo.
Da minha parte, faço o que devo. Desde que fiz 18 anos, não faltei a umas eleições, referendos incluídos. Não sou melhor nem pior, mas quero lá estar sempre, mesmo que com um voto nulo. Não quero que decidam por mim, nem reclamar quando não tive uma palavra a dizer.

Dia 30 há eleições. Faltam 257 debates, lá chegaremos.

 

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Pensamento da semana

beatriz j a, 09.01.22

Seria bom que os políticos, os psicólogos e os comentadores da comunicação social mudassem a sua linguagem ao falarem da saúde mental dos adolescentes e deixassem de usar termos como «catástrofe» ou expressões como «sequelas para a vida». Os diagnósticos de depressão catastrófica generalizada são uma constante nos meios de comunicação social e como os adolescentes são muito impressionáveis e amplificam tudo o que ouvem, interiorizam a ideia de que o seu sofrimento é uma doença que os danificou para a vida. Essa interiorização reforça o sentimento de desesperança, dramatiza as dificuldades e o próprio sofrimento. 

Os médicos são educados para verem os problemas através da lupa da doença, mas a medicalização generalizada do sofrimento humano leva à perda de significado das vivências próprias da idade. A maioria dos adolescentes vive em casas pequenas, sem grande privacidade e a convivência por períodos longos, forçada pelos confinamentos, fez aumentar os conflitos familiares, já de si naturais, dado que estão numa fase da vida de construção da identidade, ainda sem grande capacidade de regular emoções: ficam tensos, irritados, emocionalmente desequilibrados, angustiados. Falta-lhes a socialização que permite a expansão emocional e vivencial, aprender a regular as emoções, a relativizar os momentos de sofrimento através dos momentos de alegria, a construir a auto-confiança. A maioria dos adolescentes não é doente, está apenas num momento de desequilíbrio.

Em vez de assustarem os adolescentes e os pais com discursos catastrofistas e de desesperança, melhorem as condições de vida das pessoas, contratem psicólogos para as escolas, melhorem a educação. 

Enquanto estamos vivos, estamos sempre a respirar e a qualidade do ar que respiramos influencia a saúde. Da mesma maneira, enquanto somos vivos estamos sempre a respirar o ar cultural que nos rodeia e a qualidade do ar cultural que respiramos influencia as possibilidades de vida - que se escolham e construam as possibilidades positivas.

(também publicado no blog azul)

 

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Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 02.01.22

Sempre desconfiei da “felicidade que se constrói”, embora reconheça que há pessoas que são felizes por uma questão de sobrevivência. Falo de  casos em que os motivos de infelicidade são tão avassaladores, que se fossem assimilados, tornar-se-iam incapacitantes. Mas esses são exemplos extremos e em todo o caso não estamos a falar de verdadeira felicidade, mas de terapia de choque. Acredito que a regra é as pessoas realmente felizes serem-no por circunstâncias que não controlam: como terem níveis elevados de serotonina no cérebro ou simplicidade de espírito, factores que as predispõem para ver a vida sob o melhor ângulo.

Aquela emoção a que chamamos felicidade, aquela que depende da satisfação de desejos, é sempre fonte da angústia residual que consiste no medo da perda, no medo que se cumpra o destino transitório de tudo. Portanto na prática, a felicidade em estado puro não existe. E muito menos se constrói, como se fosse um lego. Isso é fantasia inventada pela Psicologia Positiva para vender livros de auto-ajuda.

 

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Pensamento da Semana

jpt, 26.12.21

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O Dr. Ba ganhou. Já! E não há como rodear isso. Sabe-se que desde 1878 há iluminação eléctrica naquele Chiado. Desde então que por ali calcorrearam os que vieram a ser "vencidos da vida", vigiaram-se monárquicos e republicanos só depois insurrectos, os exasperados com o Ultimatum, e terá gingado a "geração dos centuriões" conquistadores d'África, tão de facto proto-fascistas alguns o foram, os inflamados camonianos, e decerto que depois se acotovelaram carbonários e maçónicos e epígonos de Paiva Couceiro, correligionários do dr. Afonso Costa e seus opositores, todos sempre urdindo, e logo os adeptos do presidente-rei e as deste viúvas, os parcos leitores da (insuportável, há que dizê-lo) "Mensagem" pessoana, seu autor e restantes modernistas, cadetes de Maio já graduados, admiradores do governador Norton de Matos, amanuenses e funcionários do Estado Novo, afadigados no entre Terreiro do Paço e São Bento, mais os que viravam à António Maria Cardoso, entreolhando-se com os do "reviralho", neo-realistas alguns, surrealistas outros, e mais os dignos doutores, sem falar dos crentes no tão dúbio general sem medo, e logo heróis de Abril, socialistas prontos-a-vestir, o dr. Mário Soares no seu barbeiro, excrecências m-l e rudes brejnevistas, gongóricos maçons a sonharem a "comunidade lusófona" de Salazar por naus ortográficas, terceiro-mundistas ainda não "abissais" e europeístas convictos, e até que enfim a boémia europeizada, essa que ao absinto chamou coca e ao velho "delitro" tratou de Vodka-Vodka Gin Vómito, tudo desembocando nisto do agora dos cultores do franchising e da fancaria de tapas e recuerdos ditos pátrios. Amálgama de camadas e crostas, todas, e cada uma delas à sua atrapalhada maneira, louvando execrando resmungando abominando enfatuando enfatizando chorando exultando um país, içando-o catapultando-o de um passado compósito e veemente, cru e cruel, tantas vezes desatinado tantas outras desenrascado, "humano demasiado humano" talvez, e assim fingindo-o, numa olaria mitógrafa pão para a boca. E todas elas sentindo, mesmo se não o tivessem cantado, que para tal terão faltado poetas apesar destes sempre em excesso para tanta outra coisa, como totem alumiador a vigorosa e letal "caravela portuguesa", aquela portuguese man-of-war como até outros lhe chamam. Mas neste agora?, tendo sido já tão repetido sermos apenas corolário de séculos de medíocres e incessantes vilanias, disso triste epílogo, nisso acabrunhados, desvalidos, que fazemos ao Chiado? Alumiamo-lo, iluminamo-nos, com alforrecas, como alforrecas. Não há qualquer dúvida, o dr. Ba ganhou. Já.

 

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Pensamento da semana

Sérgio de Almeida Correia, 19.12.21

Em 4 de Dezembro pp., o Conselho de Estado da República Popular da China divulgou um documento intitulado "China: Democracy that Works", o qual vem, aliás, na linha de um outro livro branco publicado em 2005, cujo título foi então "Building a Political Democracy in China". Quando este foi lançado era Hu Jintao o Presidente da China e Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês.

O lançamento deste livro branco no início de Dezembro ocorreu como resposta e dias antes da "Summit for Democracy" (Cimeira para a Democracia) promovida por Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos da América.

Trata-se de um documento extenso no qual, logo a abrir, se refere que “a democracia é um valor comum da humanidade e um ideal que sempre foi acarinhado pelo Partido Comunista Chinês e o povo chinês”. Se alguém duvidava tem ali a resposta. E depois continua no mesmo registo, de tal forma que no final qualquer leitor menos crente estará seguramente convertido à “democracia chinesa”.

E de tal modo assim é que sendo o estado chinês definido como uma “ditadura democrática popular”, os autores do documento logo se apressam a esclarecer que aquilo que poderia à partida parecer uma contradição nos seus próprios termos, afinal não o é, porque a “democracia e a ditadura garantem que seja o povo o senhor do país", havendo uma pequena minoria que é “sancionada no interesse da grande maioria”, de tal forma que a “ditadura” (com aspas no texto original) “serve a democracia” (esta sem aspas).

Eu confesso que estou um tanto ou quanto baralhado com este livro branco.

Se em 2005, com Hu Jintao, a “democracia” chinesa estava em construção, hoje, por este novo livro, percebe-se que em 2021, com o Presidente Xi, essa “democracia” já está construída. E, mais do que isso, até funciona, coisa que, de acordo com tal documento, não acontece com outras democracias, mormente com a dos EUA, país cuja democracia teve direito a um relatório sobre o seu próprio estado (The State of Democracy in United States), apresentado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, em Pequim, no passado dia 5 de Dezembro, e elaborado com base em “factos e na opinião de peritos”.

Em qualquer um desses dois documentos se esclarece que a democracia é um valor universal, que não é o exclusivo de um país ou de um povo, pois que o simples facto de haver quem queira definir a democracia é em si anti-democrático. Cada cada povo é que diz se o seu sistema é democrático ou não. 

Esta última parte, confesso que não percebi, porque sendo a RPC um país que não interfere nos assuntos internos de outros países, que partilha dos valores da Carta das Nações Unidas, apresentar um relatório sobre um outro país para discutir a democracia que por lá se pratica parece-me um pouco incoerente e contraditório, mas a contradição também aqui deverá ser apenas aparente. Como a incoerência. 

Não há nenhum preso, talvez com excepção de João Rendeiro, que não considere um estabelecimento prisional como um anexo do Hotel George V desde que, é certo, a água do cano seja servida em flûtes à champagne. Problemas de terminologia, nada mais, penso eu.

Dias depois da saída do livro branco começou a tal “Cimeira para a Democracia”, em relação à qual, num inenarrável erro protocolar, se esqueceram de convidar a China e a Rússia, e onde um dos oradores foi o Secretário-Geral da ONU, o nosso conhecido António Guterres.

Ora, este fulano, além de ter sido apoiado pela RPC para chegar a Secretário-Geral, e depois de ter o mandato renovado, fez uma intervenção em que foi dizer, entre outras coisas, que “vemos pessoas a afastar-se dos valores da democracia”, que “a irracionalidade está a ganhar terreno”, e que estava “seriamente preocupado” com o avanço de regimes totalitários e com “com as consequências negativas da transição digital, que através da desinformação mobiliza as pessoas para valores radicalizados”, dizendo-nos de forma veemente que “está na hora altura de reafirmarmos os valores partilhados e de salientarmos a resiliência da democracia”. Não há na China, admito, quem não concorde com ele.

Nas aulas sobre o Estado e os sistemas e regimes políticos, costumava (até há dias) apresentar aos meus alunos uma ideia de democracia, ou várias, das mais consensuais, com a qual pudessem trabalhar e para perceberem o conceito. Não obstante, sempre lhes chamei a atenção para a multiplicidade de modelos existentes. De caminho procedíamos a descobrir as diferenças entre regimes democráticos e autocráticos, nestes incluindo os regimes totalitários e os autoritários. Procurava dar-lhes as ferramentas a que poderiam recorrer para pensar, analisar, discutir, confiando que no final cada um tiraria as suas próprias conclusões.

Numa penada ficou tudo ultrapassado. Estava eu convencido de que a linguagem entre os humanos era o resultado de uma convenção, de um sistema que nos permitia através de sinais, símbolos, gestos, sons e regras, mais ou menos aceites por todos, comunicarmos uns com os outros. Agora estou com muitas dúvidas sobre tudo isso. Já não bastava os académicos não se entenderem e darem muitas vezes nomes diferentes às mesmas realidades. Entrámos neste momento na fase de dar o mesmo nome a diferentes realidades. 

O livro branco sobre a democracia na China teve o mérito de eliminar as autocracias. No mundo só existem regimes democráticos. E os regimes da China, da Rússia, da Coreia do Norte, dos Estados Unidos da América, de Portugal, do Reino Unido, da Venezuela, de Cuba ou do Mianmar são todos igualmente “democráticos”. A diferença essencial é que há alguns regimes “democráticos” que funcionam, e outros não.

Todavia, também ficámos a saber que a democracia chinesa é muito melhor do que todas as outras. Isto é, é muito mais democrática do que as chamadas democracias liberais ocidentais. E muito mais segura, acrescento eu. A estabilidade é permanente, não há crises de regime, a informação é tão fidedigna que até é filtrada — como a água que se quer cristalina  e livre de impurezas —, para não ser conspurcada pelos media ocidentais, de tal modo que o povo sabe que o acesso às redes sociais, aos portais na Internet de meios de comunicação social ocidentais ou a canais de televisão como a CNN, a BBC, a Deutsche Welle ou o France 24 têm de ser restringidos para que a democracia, agora que foi atingida, e no seguimento da reforma constitucional de 2018, possa funcionar.  

O sistema de “multicooperação partidária e consulta política instituído sob a liderança do Partido Comunista Chinês” é um “modelo de democracia nascido do solo chinês”, que aprendeu com as experiências de outros países e “absorveu os frutos das suas conquistas políticas”. Só os bons frutos, evidentemente. Nisso estamos todos de acordo.

Porém, porque este texto para pensamento da semana já vai longo, enquanto não chegam os próximos livros sobre o pensamento do Presidente Xi e sobre a democracia chinesa, não gostaria de terminar estas linhas sem salientar a rapidez com que tudo isto evoluiu. Bastaram 100 anos de história, de 1921 a 2021, para serem atirados para o caixote do lixo séculos de obscurantismo e ignorância. Da Grécia a Roma, de Aristóteles a Max Weber, de Tocqueville a Popper, Held, Habermas ou Bobbio.  

Apelo por isso à tolerância e compreensão dos leitores para o que os próximos cem anos nos poderão reservar. Está a caminho um maremoto democrático sob a batuta do PCC.

Penso que nenhum de nós estará cá para ver, embora depois da redefinição da democracia seja natural que daqui em diante se possa começar a falar no advento da democracia hitleriana, de um novo fôlego da social-democracia mussoliniana, da aurora do liberalismo radical estalinista, da democracia-cristã de raiz maoista ou da tradição democrática da família Kim.

Para já demo-nos por felizes por podermos viver na era da democracia chinesa do século XXI. O nosso Tirreno, o nosso Mediterrâneo é agora o mar do Sul da China, este sim o verdadeiro Mare Nostrum.

A linguagem não existe. A ciência é uma falácia. A tradicional democracia representativa é coisa de burgueses ociosos, não é uma construção patriótica legítima que funcione. As únicas ditaduras que hoje existem são afinal verdadeiras democracias. E gozam por isso mesmo de uma legitimidade popular acrescida. O socialismo, pelo menos desde Mao, apesar de eu próprio estar agora convencido que isso já vem de Confúcio, tem características inequivocamente chinesas. A democracia, pelo que se sabe desde há dias com acrescida certeza, também tem. Consolidou-se a partir do XIX Congresso do PCC e está finalmente plasmada no livro branco da democracia na China. Tal como a separação de poderes, os direitos humanos. Tudo o que é universal e livre está ali.

E mesmo que não seja verdade que alguma vez Zhou Enlai se tenha referido ao impacto da revolução francesa de 1789, que importa isso para um filósofo, pensador ou historiador de vanguarda? Na era da democracia que funciona, a nossa, uma mentira só será mentira se isso vier escarrapachado no Global Times ou no China Daily.

Devemos, pois, começar a analisar e avaliar as características da democracia chinesa e os sucessos alcançados. E devemos fazê-lo de imediato.

Precisamos que a democracia chinesa melhore, se fortaleça cada vez mais à medida que se expande, e até por razões de segurança interna. Temos de nos despachar quanto antes para que se consiga impor uma democracia à escala universal.

Uma democracia, sim, mas ditatorial popular. Isto é, à medida de cada país. Uma democracia “que funcione”. Porque as únicas democracias que funcionam são as escolhidas pela vanguarda do partido e pelo seu líder. Se for vitalício ainda melhor. Mais estável será a democracia, madura dizem na Venezuela, pois é o líder que a todos nos representa. Aos verdadeiros talibãs. Quer dizer, aos democratas. Aos ursos. Aos matumbos. Pensem nisso.

Quem é que quer saber do resto? É tudo uma questão de nomes.

O Dr. Cunhal sempre teve razão. No Olimpo onde ultimamente se reúne com os camaradas, sentado entre Marx e Estaline, deve estar a sorrir. Depois de um partido com paredes de vidro, coisa pequena para consumo nacional, temos finalmente uma democracia com paredes de cristal. E quarentenas globais para manterem a sua pureza até à eternidade.

 

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Pensamento da semana

João Sousa, 05.12.21

Quando vejo os gestores políticos da pandemia manifestarem intenções que vão contra o defendido por especialistas e, pouco depois, comissões técnicas apresentarem relatórios que avalizam essas mesmas intenções, não consigo evitar a dúvida: afinal temos políticos a decidirem com base na ciência de técnicos, ou técnicos a aplicarem um verniz de ciência às decisões de políticos?

 

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Pensamento da semana

Paulo Sousa, 28.11.21

As empresas privadas geridas de forma anacrónica por empresários com a 4ª classe, descrição recorrente e simplista feita pelas forças conservadoras do país, estão entre as entidades que beneficiam da reduzida atractividade da nossa economia.

A barreira fiscal, a espessa burocracia dos serviços, a disfuncionalidade da justiça, são incapazes de atrair o investimento estrangeiro, que introduziria competitividade ao nosso mercado. Assim, estas limitações acabam por ser o maior seguro de vida que se possa dar aos que já esgotaram o seu potencial.

Sem reformas na fiscalidade e no funcionamento dos serviços públicos, o marasmo das últimas duas décadas irá mesmo perdurar.

 

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José Meireles Graça, 21.11.21

Dia 30 de Janeiro há eleições e lá estarei. O meu voto nunca contou para nada e este também não contará. Muita gente que acha, como eu, que cada voto não conta para nada ficará em casa. A democracia, porém, que é uma planta frágil, só funciona com humildade: se cada molécula de água reivindicar o direito de ser importante e não se incomodar a planta morre.

 

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Pensamento da semana

Alexandre Guerra, 07.11.21

Os líderes têm sido pródigos em anunciar metas irrealistas em matéria climática. E isso conduz a políticas pífias imediatistas sem consequência para o objectivo final. Ao contrário do que tem sido a tónica generalizada, este é o momento de sermos menos ambiciosos e sonhadores, para dar lugar ao racionalismo e à efectiva negociação. Há compromissos que têm de ser feitos, cedências acordadas e incentivos atribuídos. E isso não se faz com quase 200 nações sentadas à mesa, até porque a maioria delas tem pouco para oferecer em termos de capacidade de resposta na mudança de hábitos no seu tecido social e na transformação técnica do seu complexo industrial.

Não vem mal ao mundo que as vozes nas ruas se continuem a expressar entusiasticamente, mesmo que, muitas vezes, esse discurso esteja impregnado de hipocrisia e populismo. O importante para o futuro da Humanidade é que, para lá desses movimentos de massas, surjam uns quantos “wise men" com visão e capacidade de negociar acordos para serem cumpridos a curto e médio prazo. Conhecimento científico já o têm e tecnologia também. Faltam as decisões inteligentes e práticas.

 

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Pensamento da semana

Cristina Torrão, 24.10.21

«Poupa o teu latim, que eu não te levo a sério!»

Quando dizemos que não levamos uma certa pessoa a sério, estamos a dizer que ela é uma idiota. Então, porque fica bem dizer que não nos levamos a sério? Pior ainda é dizer «não me levo demasiado a sério». Ou seja: podemos levar-nos a sério, mas só um bocadinho?

Pode ser uma expressão idiomática, mas é bem idiota. Não a levo a sério.

 

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Pensamento da Semana

jpt, 17.10.21

O léxico é importante. Importantíssimo. Desde que na semana passada foi atribuído o Nobel da Literatura a Abdulrazak Gurnah que vai por aqui e acolá uma acesa discussão. Escritores e proto-escritores, literatos e candidatos a tal estrado, e até jornalistas, botam sobre a "condição" "identitária" do premiado, questão que consideram sumamente importante. Nessa já polémica duas características partilham os opinadores: nada leram do autor; confundem "representante" com "representativo". Insisto, o léxico é importante. Importantíssimo. E mais o deveria ser para estes núcleos de "identidade" laboral.

ADENDA: (meu pensamento do ano) Sobre este assunto a Lusa (agência noticiosa estatal) noticiou que Gurnah é o primeiro escritor africano a receber o Nobel nos últimos 30 anos, saudando que ele "quebrou o "jejum", depois do nigeriano Wole Soyinka ter sido laureado em 1986". O facto de que em 2003 o prémio tenha sido atribuído a Coetzee - um daqueles raros casos em que é curial afirmar ter o Nobel sido galardoado com o Prémio Coetzee - é apagado. Não se trata de um erro, até porque o escritor é muito conhecido e bastante traduzido em português. E porque também apagam os anteriores Mafhouz (1988) e Gordimer (1991). É mesmo uma proclamação, a invectiva ao "branco" - a usual e lamurienta auto-invectiva, neste caso da agência estatal portuguesa. E é essa a sede desta pobre polémica de aparência literária: do que toda esta gente anda a falar é de "raça". Cada um com os seus dislates. A quererem-se assertivos. A assertividade da vacuidade.

 

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Maria Dulce Fernandes, 03.10.21

"As máscaras vão manter-se obrigatórias em locais concretos, como sejam os transportes públicos, os hospitais e lares, ou as grandes superfícies comerciais. Nas lojas do comércio local deixam também de ser obrigatórias."

Finalmente podemos tirar as máscaras! Mas devemos ou queremos até pô-las longe das nossas vidas?

Pessoalmente, não vou deixar de usar a máscara no meu local de trabalho. Não sinto que as condições de segurança, no que concerne à saúde pública, sejam as ideais para começar a embandeirar em arco.

 

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João Pedro Pimenta, 26.09.21

Para supostamente defender as melhores causas já se cometeram as piores atrocidades. Em nome de Deus, da Justiça, da Igualdade, da Fraternidade e do Paraíso Terrestre muitas vidas humanas foram sacrificadas. Também a Liberdade já implicou muitas vítimas, recordando aquela frase, ao que parece datada dos tempos da 1ª República: quando ouço gritar "viva a liberdade" vou logo ver quem está a ser preso. A última boa causa é a não descriminação em função da raça, género, sexo, credo, etc. Para já não tem implicado muitas vidas humanas, mas já levou à queima de livros, que, como o passado indica, leva muitas vezes a que as fogueiras sejam destinadas a pessoas. Esperemos que se fiquem por aqui e que não contribuam para a pesada história dos crimes em defesa das boas causa e da sua pureza.

 

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Pedro Correia, 19.09.21

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Alice nas Cidades, fascinante película de Wim Wenders estreada em 1974, inclui uma cena no alto do Empire State Building. Alice, a miúda mencionada no título, espreita Nova Iorque por uma lente de longo alcance. Recortando-se na linha do horizonte, as malogradas Torres Gémeas.

Basta esta cena para inserir o filme num patamar histórico: remete-nos para um mundo que já não existe. Wenders parece tê-lo rodado com esta premonição - tanto assim que optou pelo preto-e-branco, à época já anacrónico. Alice nas Cidades pertence ao século XX, que terminou a 11 de Setembro de 2001. E no entanto existe ali algo do nosso tempo: a errância, o desenraizamento, a desagregação dos núcleos familiares. Uma certa solidão existencial ditada pela fragilidade dos impérios e das ideologias. Revemos aqueles edifícios construídos para assaltar os céus, domínio dos deuses: vieram abaixo num par de horas. Como eles, tantas certezas inabaláveis cederam lugar à dúvida. 

O essencial permanece invisível ao nosso olhar. Não há binóculo que o desvende.

 

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João Campos, 12.09.21

“The saddest aspect of life right now is that science gathers knowledge faster than society gathers wisdom.” (Isaac Asimov)

Apesar de tudo, Asimov, falecido no já distante ano de 1992, era um optimista. Nos dias que correm pode-se duvidar com legitimidade de que a sociedade no seu todo esteja a ganhar algum tipo de sabedoria, sensatez, discernimento, juízo - há várias possibilidades de tradução de wisdom, mas no final vai dar ao mesmo.

 

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Pensamento da Semana

Paulo Sousa, 05.09.21

“Enrolou o mapa, pensativo. Era difícil saber a melhor maneira de lidar com uma pessoa como a João, que sabendo tão pouco sobre algumas coisas, sabia tanto sobre outras.

 - Ela sabe bem qual é o caminho, - afirmou a Joana, enquanto lavava uma panela.  – essa gente é como os cães. Sabem sempre o caminho e nunca se perdem. Conhecem pelo cheiro as estradas que procuram.”

Os cinco e a ciganita de Enid Blyton

 

É certo que se o pudessem fazer, e por afronta a uma minoria étnica, uma imensidão de gente quereria queimar imediatamente e em público todas as cópias das Aventuras dos Cinco.

A única salvação dessas obras, que encantaram gerações, passaria pelo desagravo dos animalistas que argumentariam que comparar uma pessoa com um cão é um garboso elogio.

 

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