Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Pensamento da Semana

jpt, 25.07.21

Sigo encadeado pelo ocaso do regime, semicerrando os já gastos olhos devido a esta Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital, a Lei 27/2021. É certo que a falsificação da realidade através de todo o tipo de prédicas e induções, usando tudo o que de púlpitos e estrados existe, é a mais velha profissão do mundo, e apenas às vezes vai tão escandalosa que força a que um insurrecto grite "o gajo vai nu". Na imprensa sempre proliferaram propagandistas e publicistas, especializados no aldrabismo mais ou menos ordinário - para evidente desespero de seus colegas mais atreitos ao decapar das linhas tortas que moldam o real. Mas neste agora entrámos num outro mundo de lérias, o das falsidades robotizadas, as Admiráveis Fake News. Entenda-se, aos poderes corrompidos já não basta pagar a grupos de académicos do IST e ISCTE, agregados a activistas de organizações proto-governamentais (ong's) e aos palmas cavalões actuais, para que componham avulsas "narrativas" de contra-informação. Pois há agora uma miríade de "novas oportunidades" para disseminar patranhas rizomáticas através dos automatismos digitais.

Em assim sendo, e muito por influência internacional, criou-se esta lei, a qual passou incólume na Assembleia da República apesar do seu famigerado art. 6º. Cujo efectivo ideário e trôpega formulação abrem caminho a suspeitas da sua futura má utilização, com derivas persecutórias e excessiva tutela estatal da interacção dos cidadãos. A apatia, distraída e incompetente, com que a lei foi sufragada no parlamento é o sinal do tal ocaso do regime: não tanto o encolher de ombros dos três partidos ligados, ideológica e afectivamente, aos dois espectros que assombraram a Europa, o fascismo e o comunismo. Nem as posições dos dois grandes omnívoros estatistas, sempre centrados no silenciamento em defesa das suas redes clientelares. Nem a do democrata-cristão, pois este internado com diagnóstico muito reservado. O descoroçoante é o que bocejo foi também das recentes alternativas: a ecologista, da qual se esperaria alguma desconfiança face à pressão desbragada de poderes industrialistas, e a liberal, mais atreita às liberdades individuais e descrente nas virtudes estatizadoras. De facto,  a discussão sobre o art. 6º adveio de um (raro) sobressalto cívico, em defesa de princípios democráticos basilares, o qual obrigou alguns parlamentares a repegar no assunto.

Mas para quem duvide como esta questão denota o quão agonizante segue o regime, é importante ver a votação de ontem da proposta de erradicação do tal problemático artigo, a qual poderia confirmar consensos muito abrangentes na defesa da liberdade de informação (a partir dos 5'20''). Um parlamento presidido por um poder atrapalhado, incapaz das suas mais comezinhas funções, nisso arrogante, irritadiço, incomodando-se com as oposições. E, acima de tudo, desvalorizador - até incumprindo práticas regimentais - das liberdades e diferenças individuais. Quem veja este destratamento da elite política à mera diferença de opinião, mesmo advinda do seu próprio partido, não poderá deixar de presumir como é ameaçadora a formulação desta lei que tão arreigadamente defende. Pejada de afã estatista e de espírito de controleiro. E, repito, de atrapalhação.

 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

José Meireles Graça, 18.07.21

Há mais de dois anos que andamos a “ouvir a ciência”, e a Graça, e a Marta, e agora a Mariana, sobre o rapa/tira/põe/deixa das medidas. E agora que um tipo de camuflado fez a única coisa que as pessoas realmente entendem e que merece respeito, que era vacinar a eito, é que ficamos com a cabeça tão completamente desnorteada que aceitamos que para saber onde podemos ir, e quando, e para quê, é necessário um manual de instruções actualizado há menos de oito dias.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

João Sousa, 11.07.21

Hoje em dia, qualquer obra artística que não cumpra determinadas quotas ou que não siga determinadas narrativas arrisca-se a ser considerada qualquercoisaógina, qualquercoisaista ou qualquercoisafóbica. Há quem consiga ver racismo no Pulp Fiction, misoginia nos Kill Bill e transfobia no Silêncio dos Inocentes. Estive há poucos dias a rever alguns episódios de Coupling, uma série britânica de humor que segue a vida amorosa e sexual de seis amigos: os seus protagonistas, três homens e três mulheres, são todos brancos e heterossexuais. Vinte anos depois da sua exibição, quantas produtoras arriscariam produzir algo semelhante sem a exigência, à laia de caderno de encargos, de alguma diversidade?

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 04.07.21

Tenho pena que quando se fala de racismo se feche o ângulo sobre a história que envergonha os brancos e não se diga tudo: que o racismo também grassa entre as outras raças e que hoje ainda há escravatura, exercida de negros sobre negros, em África. Seria uma abordagem mais honesta e transparente. Teria a vantagem de não cavar trincheiras, com vítimas sempre da mesma cor de um lado e verdugos sempre da mesma cor do outro, algo que potencia o ódio de parte a parte. Melhor ainda, interpelaria cada um de nós, independentemente da raça, sobre o papel que queremos desempenhar neste combate, que deve ser da humanidade contra um dos seus atavismos, o preconceito racial.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

João Pedro Pimenta, 27.06.21

Já ouvi um ou outro comentário, e também nas caixas do Delito, a dizer que mesmo depois da pandemia se deviam usar máscaras no Inverno para impedir constipações. Se puder optar, venham todas as constipações. Pretender continuar com mascaras pós-pandemia equivale a alguém estar preso, receber a ordem de soltura e preferir ficar na prisão porque lá fora há muitos drogados.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

Paulo Sousa, 20.06.21

Sendo governados por uma fauna que, regular e consistentemente, tem descredibilizado o regime, que se prepara para malbaratar em pouco tempo os milhares de milhões da bazuca, que pelas dívidas já contraídas comprometeu as escolhas das próximas gerações, que se prepara para fazer da regionalização – chumbada por referendo – mais uma prateleira para tachos destinados aos jotas e jotinhas, depois de olhar para as sondagens e sabendo que apenas pouco mais de um terço dos portugueses se recusaria a ser governado por um líder autoritário, a pergunta impõe-se:

Que destino de emigração recomendariam a um jovem que não tenha medo de trabalhar?

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

Pedro Belo Moraes, 30.05.21

No discurso da vida toda a contradição é recomendável. Numa contradição meramente aparente, digo-vos, a contradição é mesmo o caminho mais verdadeiro. Só convictamente acreditando numa coisa, experimentando-a e vivendo-a, teremos sobre ela propriedade, ao ponto de mais tarde e maduramente para o seu contrário mudarmos. Vimos, sentimos, estivemos, conhecemos. A contradição é mãe da mudança, essa filha da liberdade. Em tanto da nossa vida só assim verdadeiramente chegaremos à nossa verdade.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

João Campos, 16.05.21

Hoje em dia não falta quem se esqueça de que a liberdade de expressão não inclui dever de assistência ou mesmo de palco. Dito de outra forma: temos o direito de nos exprimirmos, mas ninguém tem o dever de nos ouvir, ou de nos dar espaço (físico ou virtual) para dizermos o que nos passa pela cabeça. Não deixa de ser curioso que tantos auto-intitulados defensores da liberdade de expressão pareçam ignorar este detalhe. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

Alexandre Guerra, 09.05.21

Os comentadores e politólogos que se movimentam e opinam em circuito fechado continuam a abordar o fenómeno do populismo na sociedade portuguesa exclusivamente a partir do sistema político e nunca a partir do tecido social. Enquanto não tentarem perceber o que move e o que pensam muitos dos cidadãos normais, nunca conseguirão encontrar respostas sustentadas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamento da semana

Zélia Parreira, 04.04.21

"Pensar que há árvores que morrem para isto" é um pensamento que me ocorre com demasiada frequência, quase sempre acompanhado por um longo e desalentado suspiro. 

A escrita (literatura é outra coisa) de má qualidade é uma dupla ameaça ao planeta: pelos recursos que consome e pela estupidificação que promove.

(Voltarei a este assunto no final desta semana  de reflexão.)

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Pensar que há árvores que morrem para isto

Zélia Parreira, 03.04.21

https://scontent.flis5-3.fna.fbcdn.net/v/t1.6435-0/p526x296/41645150_2149038825129434_5036733325117489152_n.jpg?_nc_cat=103&ccb=1-3&_nc_sid=84a396&_nc_ohc=vAeYm-UEuloAX8DkitN&_nc_ht=scontent.flis5-3.fna&tp=6&oh=f25988d6650dd3b23807ca6389f0884c&oe=608EB4CB

 

Estivesse eu numa Biblioteca que escolhe os livros que compra e esta questão nunca me atormentaria. Mas a Biblioteca onde trabalho é uma das dez instituições que recebe um exemplar de tudo o que é publicado em Portugal, graças à Lei do Depósito Legal.

 

Importa dizer que este privilégio me deixa – e aos meus leitores, certamente – muito feliz. Conseguimos disponibilizar conhecimento, informação, literatura a todos os que residem na nossa área de influência. No caso da Biblioteca de Évora, esta área abrange todo o país que se estende para cá do Tejo, uma vez que é a única biblioteca de depósito legal nesta região.

 

Como não há rosas sem espinhos, com o depósito legal vem uma série de livros que, sejamos francos e directos, nunca deveriam ter visto a cor da tinta. São, sobretudo, livros de autor, mas agora elevados a um patamar mais profissional. Em vez da boa e velha edição de autor, impressa na Gráfica local, os projectos editoriais são entregues a empresas de edição. Não confundir, por favor, com editoras, essas sim, empenhadas em fazer uma distinção qualitativa, embora mais frequentemente movidas por interesses económicos (se não for bom, não vende) do que para salvar a Humanidade do delírio de uma vida sem literatura. Também as há, e o caro Leitor seguramente conhecerá algumas, que privilegiam a qualidade e o orgulho no seu catálogo, mesmo que para isso seja preciso sacrificar o rendimento económico. Mas estas estão num patamar tão elevado em relação ao que nos traz aqui hoje, que vou deixá-las fora da conversa.

 

Foquemo-nos então nas empresas de edição. Comercializam um serviço, requerido pelo presumido Autor. Entre histórias de vida sofridas (ou talvez não) e produtos delirantes da imaginação, são propostas para edição. A empresa responde sempre que o livro tem potencial e envia um orçamento. Tudo é editável, desde que seja pago. Número mínimo de exemplares, com custo unitário de X, a que acresce custo de revisão, se o Autor o pretender; custo do desenho de capa, se o Autor preferir uma capa profissional; custo adicional do papel, se o Autor não quiser imprimir o livro de uma vida em papel reciclado de má qualidade. O Autor não quer. Já paga o que pode e o que não pode, para imprimir o livro, quando, ingenuamente, esperava obter receita da sua venda.

 

A propósito de venda, embora seja prometida a colocação em redes de livrarias e grandes cadeias como a FNAC ou a Bertrand, isso nunca chega a suceder. Na Fnac, na Bertrand e nas redes de livrarias já toda a gente conhece estas empresas e a qualidade habitualmente associada à sua “chancela”. De modo que o Autor acaba a vender os 500 exemplares que pagou para imprimir ao telefone, em mensagens privadas para todos os amigos e família. “Olha lá, sabias que publiquei um livro? Gostava que o lesses” e o livro aparece na semana seguinte na casa da vítima em segundo grau, precedido de um aviso de envio à cobrança.

 

Não, não é de gosto que vos falo. É de erros ortográficos, de todos os “á”, sem excepção, com acento agudo, de frases sem significado, de vírgulas entre o sujeito e o predicado, de um papel miserável e de capas feitas com fotografias retiradas da internet, de tipos de letra insuportáveis. É mau. É mau, mau, mau.

 

Na Biblioteca onde trabalho, e nas outras 10 em iguais circunstâncias, temos que receber estes livros, catalogá-los, etiquetá-los, arrumá-los em depósito para todo o sempre. Custos de tempo, de espaço e armazenamento. Só aqui, nesta Biblioteca, e descontando o que foi editado nos últimos 3 anos (devido às obras no edifício, suspendemos a recepção de depósito legal e só agora estamos a retomar) temos já 5890 títulos de uma destas empresas de edição. Se cada um destes títulos tiver 150 páginas (média calculada por baixo), temos quase 500 mil folhas de papel. E pensar que há arvores que morrem para isto.