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Delito de Opinião

Pensamento da Semana

José Meireles Graça, 06.02.23

Dizem os entendidos que o PM Costa está cansado e que o governo se esboroa. Mas não: um político de 62 anos, se tiver saúde, não pode estar cansado; e seria uma surpreendente conjugação astral se só este governo, e não os anteriores com pessoal das mesmas proveniências, tivesse casos e casinhos. De modo que, lentamente, a vacuidade do projecto político vai ficando evidente; e a tampa que a geringonça pôs nas denúncias foi levantada.

 

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Pensamento da semana

Cristina Torrão, 22.01.23

«Portugal detesta corrupção, mas os portugueses adoram "cunhas" (...) O amigo polícia que safou a multa, (...) o emprego que se conseguiu na função pública naquele concurso arranjado (...) Alguém duvida que o indivíduo que usa o amigo das Finanças para não pagar a multa por entregar o IRS fora de prazo, seria um corrupto da pior espécie se tivesse condições para isso?»

Gonçalo Galvão Gomes, cronista do PT-Post (jornal português na Alemanha), no n.º 342, Dezembro 2022

Da pior espécie, não sei. Mas, corruptos, quase de certeza.

 

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Pensamento da semana

Sérgio de Almeida Correia, 08.01.23

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"Qualquer que seja a opinião ou a fé professada pelos homens, aquilo que os distingue é sobretudo a presença ou a ausência, no seu pensamento e na sua pessoa, deste além, o seu sentimento de habitarem um mundo acabado e que se esgota em si próprio, ou antes incompleto e aberto sobre um outro lado. (...)

[N]ósa língua em que escrevo é pobre, a sua gramática não conhece o dual necessário para conjugar e declinar sem equívocos a substância contínua da vida – ficámos um pouco para trás." – Claudio Magris, Danúbio

 

O ano que findou mostrou que o maior desafio de uma cidadania activa é o de ser capaz de se despir de modas e preconceitos e de fazer um exercício de auto-análise, de introspecção objectiva e subjectiva, em todo e cada um dos momentos em que se exija um juízo crítico da acção política e da intenção subjacente à intervenção e à decisão.  

Os sistemas de pesos e contrapesos não existem nas autocracias; são uma pura farsa destinada a iludir os ignorantes e a confortar os vermes. Nos regimes democráticos esses sistemas estão a funcionar cada vez mais deficientemente.

Mas ainda assim, mesmo naquelas, esse juízo crítico, não obstante ser muitas vezes ofuscado, desvalorizado e gozado acaba por existir. Olhe-se para a forma como no seguimento da reafirmação da política de tolerância zero no XX Congresso do PCC, em poucas semanas a China mudou radicalmente a sua política em relação ao controlo e combate à pandemia. Porquê? Simplesmente porque morreu gente em consequência dessa política. Mortes que se poderiam ter evitado. A isso juntou-se o cansaço generalizado, o desastre económico e social que mostrou o falhanço do modelo, para quem ainda tivesse dúvidas, e a mentira e vacuidade do discurso político. Com dezenas de cidades em ebulição, com centenas de milhares nas ruas, ou se reeditava o 4 de Junho de 1989, à escala nacional, ou se fazia marcha-atrás para salvar a face e o regime.

Em situações de crise, com dificuldades crescentes a nível interno e internacional, com mais e melhor informação, que se propaga à velocidade da luz, nenhum regime político sobrevive sem escrutínio, seja ele qual for.

Numa democracia cada vez mais fragilizada, com um Estado refém dos egoísmos político-partidários, da crescente imbecilização de elites políticas deficientemente educadas, culturalmente impreparadas, eticamente destituídas de princípios e moralmente amorfas, onde qualquer fedayin ou camaleão carreirista saído das juventudes partidárias e politicamente promovido é visto como um estadista consistente, só uma intervenção cívica corajosa, altruísta e despojada de mercenarismo é capaz de obrigar à reforma do regime e à reestruturação do sistema de valores, de prioridades e de escrutínio.

Talvez, por isso mesmo, valha a pena começar pelo último.

Todo os processos relevantes das últimas décadas, ocorridos em Portugal, qualquer que seja a sua natureza – BES, Banco de Portugal, BANIF, CGD, TAP, EFACEC, CP,  GNR, Ministério da Defesa, Millennium-BCP, BPN/SLN, Sócrates, PPP, corrupção nos meios judiciais, futebol, arbitragem, utilização de fundos europeus, fundações, empreitadas de obras públicas em geral, autarquias, empresas ligadas a estas, investigações e decisões judiciais aberrantes, para só referir alguns e sem esquecer os problemas nas universidades que empurram muitos dos melhores para o estrangeiro e um ostracismo sem retorno – onde o país enterrou, e enterra diariamente, a esperança, energias e milhões de euros devidos às próximas gerações, mostra que a ausência de escrutínio atempado, de transparência na vida pública e de sancionamento adequado à opacidade, conduzem-nos à moscambilha, à tragédia, à revolta, e a um sentimento aviltante de humilhação pública e regular que nos retira inteligência, tolerância e humanidade. Os custos têm sido astronómicos em tempo e recursos.

Depois, continuamos a não saber verdadeiramente quais são as nossas prioridades. Elites acomodadas e cafrealizadas hesitam entre a defesa dos direitos humanos ou o apoio à selecção nacional de futebol, entre o respeito pela autonomia da instituição religiosa e a defesa das vítimas da insânia, entre o combate à corrupção sem quartel e a condescendência com o segredo de justiça e a defesa do in dubio pro reo, como se essas fossem realidades comparáveis, auto-suficientes e estanques numa sociedade moderna e civilizada.

E há, ainda, a opção pelos valores.

Há que decidir entre o redescobrimento ético e a persistência na aviltação e no acanalhamento, entre o rigor e o abandalhamento, entre a solidariedade nacional e o amiguismo carreirista, entre a integridade e a acomodação, entre a lealdade e a fidelidade, entre a educação e a chico-espertice, entre a cultura e a superficialidade pavorosa, entre o jornalismo e o rumor, entre a seriedade e a frivolidade, entre a água limpa que nos refresca o rosto e o charco barrento onde as mãos se perdem, entre a verdade e a mentira. Enfim, há que optar entre partidos desfigurados e a nação, entre o indivíduo e a comunidade.

Um organismo tomado pelos fungos não sobreviverá. Um regime político que convive com os fungos, e os acarinha, está destinado a humilhar-se e a desaparecer. 

Na aurora de 2023, a única opção viável é a da sobrevivência com dignidade, é investir num combate sem quartel aos fungos e às moléstias que nos enfraquecem a mente e a personalidade colectiva. Em casa, no trabalho, nas empresas, nos partidos, na banca, nas entidades de supervisão, nas instituições de solidariedade social, nas polícias, nas autarquias, em todos os órgãos de soberania. Enfim, mais importante, na nossa consciência cívica.

Esta é uma escolha como qualquer outra que nos coloca perante nós e o outro. Precisamos de uma escolha que nos faça olhar para a responsabilidade que se posiciona à nossa frente e sem claudicar nos obrigue a reagir e decidir. Sem vacilar, cientes de que cada um de nós existe, onde quer que esteja, e será capaz na sua humanidade de distinguir claramente a noite do dia, a obscuridade da luminosidade, a opacidade fluída da transparência, a saúde da enfermidade.

Não há, não conheço, não concebo, outra maneira de ser livre sem me atraiçoar. Sem respeitar os outros e a minha consciência. De ser humano e português, mantendo a universalidade em tempos de nacionalismo serôdio, hipocrisia, soberba e cinismo. Sem com isso confundir o amor ao próximo com a amizade, a emergência climática e ambiental com o fanatismo degradante, a procura pela igualdade de género e o respeito pelas minorias com a insensatez, a gratidão por quem nos faz bem com o respeito pela crítica, a tolerância com a decência integral, a complacência com algumas fraquezas menores com a fragilidade do carácter. 

É preciso resistir. É preciso escolher. É preciso estar à altura do futuro. E ver para além dele com olhos de ver.

 

Boa semana para vós que tendes a paciência de me ler. Não vos maço mais. Bom Ano.

 

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Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 01.01.23

Banho-me nas mensagens, ainda mais exuberantes que o habitual, que nesta quadra se trocam nas redes sobre o amor universal e gestos de solidariedade e etc e lembro-me daquela frase bíblica, que não sei reproduzir, mas que nos aconselha a dar com uma mão sem que a outra o saiba. Depois, perdoem-me o cinismo, não consigo impedir de me perguntar sobre quantos de nós seriam generosos, sensíveis e solidários se ninguém estivesse a ver...

 

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Pensamento da semana

João Campos, 18.12.22

Agora que acabou a bola, a malta cá no rectângulo há-de reparar que se tem andado a discutir a eutanásia, mais uma vez e espero que pela última vez. Sem surpresa, nesta discussão sobre "direitos fundamentais" ou "causas fracturantes" (a designação depende do ponto de vista) a posição "conservadora" esquece-se de um detalhe: aqui, como na questão do aborto, o que está em causa não é o direito à eutanásia para a população, mas sim para a população desfavorecida. Quem tem "meios", poderá sempre fazer o que bem entender (independentemente daquilo que defende em público). Quem não tem, ou toma o assunto nas próprias mãos enquanto pode, como tantos homens no Outono da vida fizeram na minha terra há vinte ou trinta anos, ou ficam à mercê do sofrimento.

Sobre o tema, um último contributo: o documentário de 2011 da BBC2 com Terry Pratchett, um dos maiores e mais populares escritores ingleses dos últimos cinquenta anos, que deu voz ao direito à morte assistida após o diagnóstico de uma forma rara e precoce de Alzheimer que o levou demasiado cedo. Fica o link.

 

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Pensamento da semana

Cristina Torrão, 11.12.22

Li algures que o nosso instinto primitivo de sobrevivência e defesa, pondo-nos de sobreaviso ao que nos pareça estranho, estaria na origem do preconceito. No entanto, depois de milénios de civilização, o preconceito continua a existir com tanto vigor como nos primórdios da humanidade. A necessidade de diminuir e marginalizar outras pessoas, para nos sentirmos superiores, é mais forte do que qualquer outro sentimento, instinto, ou explicação racional.

 

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Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 20.11.22

Olho para os miúdos que se manifestam nas escolas, exigindo que os adultos lhes salvem o planeta, e penso em como é difícil ao ser humano mudar a sua natureza. Ser capaz de mobilizar-se pelo bem comum. Ser consequente quando está em causa a viabilidade do seu único habitat. Os donos do mundo também têm filhos e netos mas nem assim. A mesquinhez leva sempre a melhor.

 

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Pensamento da Semana

José Meireles Graça, 13.11.22

O Principado de Andorra não tem história, disse, salvo erro, Eça. Portugal tem muita, mas nenhuma já há algum tempo: adormecido debaixo de um tempo ameno, aguardando pacientemente as ordens e a infalível esmola da União Europeia enquanto desliza para os últimos lugares do desenvolvimento. Há consenso – talvez seja o que Salazar designava como “viver habitualmente”.

 

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Pensamento da semana

Maria Dulce Fernandes, 06.11.22

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Foi recentemente divulgado que a pintura New York City I, de Piet Mondrian, que está há 77 anos exposta, se encontra pendurada de cabeça para baixo. Esta interessante descoberta foi levada a cabo por uma historiadora de arte, Susanne Meyer-Büser, nascida 18 anos após a obra do pintor holandês, datada de 1941, ter a sua primeira exibição ao público em 1945 no MOMA, em Nova York. Foi também divulgado que a pintura tem marcado presença em várias exposições em diversos museus por todo o mundo ao longo dos anos, sempre pendurada de cabeça para baixo. Sabendo nós que a imagem dos objectos que vemos fica invertida na retina de nossos olhos, é pertinente pensar se todas as pessoas que admiraram o quadro terão problemas de visão, ou que haverá, como é costume, alguém que se destaca e cuja visão consegue alcançar mais longe do que a de todos os outros. 

 

(Imagem Google)

 

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Pensamento da semana

Paulo Sousa, 30.10.22

“Perceber, através da Pordata, que Portugal tem 4,4 milhões de pobres e que esse número reduz para 1,9 milhões após as transferências sociais, permite concluir quatro coisas: que há um enorme número de portugueses pobres; que as transferências do Estado têm um efeito positivo brutal; que, mesmo com apoio, 20% dos portugueses continuam em patamares inaceitáveis de pobreza; que tudo isto demorará muitos anos a alterar e que isso dependerá do crescimento da economia portuguesa.

(…)

A emigração já entrou noutra fase, daquelas em que as políticas públicas quase não têm efeito.

(…)

Neste momento, um quinto dos bebés portugueses nasce no estrangeiro; um valor incrível, mas natural, já que um quinto dos portugueses entre os 15 e os 39 anos vive fora de Portugal. Salvo os países em guerra ou Estados falhados, Portugal é de onde mais se emigra.”

Ricardo Costa
Expresso
21 Out 2022

 

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Pensamento da semana

Teresa Ribeiro, 23.10.22

Fala-se muito de misoginia, mas quase nada de misandria. Durante décadas na verdade não a sentia como algo fácil de identificar. Mas de imediato pensava que era natural que assim fosse, pois sempre vivemos numa sociedade machista e não o contrário. Ultimamente detecto manifestações de misandria aqui e ali, com uma exuberância que me deixa pasmada. E penso que vamos de mal a pior, porque agora a balança do ressentimento e do ódio está equilibrada e muitas mulheres pensam que isso é uma boa evolução.

 

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