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Vanitas vanitatum

por José Meireles Graça, em 15.01.20

Sobre a poluição instalada numa praia de Leça da Palmeira escrevi há dias o que convinha.

O espaço onde está é público; na minha terra, como na generalidade das outras, prolifera o esterco soi-disant artístico dos Pedros Cabritas Reis (que só não são legião porque nem todos dominam a arte da promoção, da propaganda e das influências no meio, não porque haja escassez de candidatos a aldrabões); e sou contribuinte (da variedade que não está isenta de IRS, o que, não me dando mais direitos, também não dá menos), isto é, pago estas coisas.

Tenho, como cidadão e contribuinte, uma palavra a dizer, e podendo ela, a palavra, estar errada, é ainda assim duplamente legítima – em nome da liberdade de expressão e do uso que é dado ao meu dinheiro.

Pedro acha que também tem uma palavra a dizer, e que não apenas o direito dele é igual ao meu como é ainda superior.

Mas não é igual: eu pago e ele recebe, ou seja, eu compro e ele vende, e só uma inversão ostensiva das coisas, e uma entorse à lógica e ao senso, é que pode autorizar a que se diga que ele, o produtor, é que decide o que eu devo comprar.

“A comunidade não o pode ser sem os artistas”, diz o iluminado, com razão, e eu acrescento que também não sem padeiros e escritores, ainda que, surpreendentemente, uns não exigem que se lhes compre o pão, se maçudo, e os outros que se lhes leia a obra, se for chata. Maçudo e chata na minha opinião, homem de Deus, não na deles, ainda que pelo menos no que toca aos escribas haja fortes probabilidades de que se imaginem génios, como milhares de autores esquecidos antes deles.

E mesmo que Cabrita se ache infinitamente superior ao padeiro, que é um mero artesão, não leva, suponho, a vaidade ao ponto de acreditar que nos mais de 60 anos que conta de vida não terá havido um escritor, unzinho, ou um pintor, unzinho, que nunca vendeu nada que se visse e a quem a posteridade reconhecerá o génio que ele, não sabemos se apenas com a inconsciência que talvez tenha, se com a lata que efectivamente tem, se atribui.

“Os artistas determinam o que é ou não é passível de ser considerado como obra de arte”. Portanto, Cabrita, que é um artista, na opinião dele, decide o que é, e não é, Arte, e eu, que na opinião dele e na minha, não sou um artista, não tenho nada a dizer. Não tenho eu mas têm os senhores edis porquê? Acaso o voto dá, em matéria artística, uma clarividência ao eleito que cruelmente falta ao eleitor?

De resto, se é unicamente o artista que faz também de crítico, que impede que todos os que se declarem artistas reivindiquem que os poderes públicos os sustentem, comprando-lhes as obras? E, já agora, o preço, quem o fixa? O artista ou o mercado das autarquias? Porque, se forem estas, temos um bando de leigos a decidir em matéria do foro reservado dos artistas, uma ofensa à hierarquia cabritiana; e, se forem aqueles, receio que não se entendam quanto ao mérito respectivo das obras e acabem à estalada.

Isto deveria bastar para arrumar o palavreado pueril e ingenuamente pedante deste fenómeno. Mas não resisto a comentar algumas deliciosas frases do texto para que acima remeto, no Público: Cabrita, a escrever, tem um lado cómico que falta às suas instalações.

“A realização da obra começa no momento da sua concepção. Imaginar a obra, pensá-la, é já fazer”. A sério, Pedrinho? Temos então que, de futuro, os corpos municipais bem podem, quando quiserem ornar uma rotunda com um trambolho delirante qualquer, ir pensando em fazer adiantamentos por conta. Bem lembrado, ainda que o Tribunal de Contas pudesse colocar algumas reservas à prática, tendo em conta que os senhores juízes, presumivelmente, não terão uma excessiva inclinação para as artes.

“A Linha do Mar, para profundo desagrado de alguns, é uma obra de arte. Afirmo-o eu, Pedro Cabrita Reis, seu autor, sem qualquer pudor ou arrogância, mas porque sim, porque tenho de o fazer, porque o devo fazer e porque o posso fazer”.

Lá pudor, pudor, realmente, não se encontra aqui muito. Mas a afirmação não será um tanto… suspeita? É que o nosso povo, para casos destes, sancionou há muito a expressão “elogio em boca própria é vitupério”. Ora, a voz do povo não será talvez a voz de Deus, mas mesmo assim faz-se ouvir nas eleições locais. Pelo que, ao povo, conviria talvez, já que paga, afagar com carinho o lombo, para dar a impressão que por ele não se tem um grande desprezo.

“… e já que temos de falar em dinheiro, é que a arte não tem preço. Uma obra de arte nunca será nem cara nem barata”.

Confesso: tenho simpatias por alguns, poucos, artistas, tanto que não desdenharia comprar um quadro de Tito Roboredo, que tenho aliás debaixo de olho. E esta ideia inspirou-me: vou pagar com um cheque sem cobertura, e ao pamonha do marchand é isso mesmo que vou dizer – não tem preço.

O artigo termina, no ponto 4, com um arrojado voo retórico que, descontado o exagero lírico e ribombante, prova que Pedro Cabrita Reis tem talvez mais jeito para redigir que para instalar coisas. Duvido porém que o Público lhe tenha pago pelo esforço: não vive, que se saiba, à custa do contribuinte.

Destarte vos engano

por José Meireles Graça, em 02.01.20

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Já contei algures, mas conto outra vez, a história daquele aluno que, a seguir ao vinte e cinco do quatro, chumbou num exame de escultura – quando quase ninguém chumbava.

Tinha um impecável aspecto de extrema-esquerda, com guedelha, roupa sebenta e coçada, calças por dentro da bota de meio-cano, e um ar geralmente porco.

Os coleguinhas examinandos iam ao sucateiro, soldavam uns ferranchos, juntavam-lhes umas pedras toscas e uma memória descritiva em que a classe operária levantava o facho do progresso social contra o facho propriamente dito, tudo embrulhado em muito palavreado artístico e pouca gramática, e em geral bastava. Se o conjunto fizesse lembrar vagamente alguma forma humana, melhor. D. Quixote, esgrimindo a espada da revolução contra os moinhos do falso discurso democrático-burguês, era um sucesso garantido.

O meu herói fez porém um armário cheio de escaninhos e em cada um pôs um frasco, devidamente etiquetado com a descrição do conteúdo: compota de pregos, de punaises, de anilhas, de outros materiais ainda, e um de dejectos, com inteiro rigor descrito como compota de merda.

Ao trabalho chamou “O compotador”, mas infelizmente ninguém descortinou no empreendimento uma jornada de luta contra o imperialismo ou as classes possidentes, nem muito menos era possível ver-lhe uma simbologia qualquer que autorizasse a interpretação de a “escultura” se inserir no necessário movimento para partir os dentes à reacção.

Tempos infelizes. Hoje, a obra de arte não está a favor da revolução, nem da democracia, nem de ideologias, e pouco contra as alterações climáticas ou a indústria de plásticos, mas ao serviço de si mesma: o passante é convidado a ver na instalação não o que lá está mas o que o artista com ela quis dizer. E como o objecto é enigmático precisa de um intérprete, que é o próprio artista, o qual explica, em palavras definitivas que os entendidos coonestam, ou, cúmulo do requinte, em palavreado pedante significando nada, o que devemos ver.

As vigas grotescas que desfeiam uma praia de Matosinhos, e que custaram ao contribuinte mais de 300.000 euros, são descritas como “apresentando uma nova perspetiva sobre a linha de horizonte do mar e sugerindo diversas interpretações através da forma e geometria e da sua sobreposição com o oceano”. Isto não quer dizer absolutamente nada, e é a moeda corrente no discurso artístico – aplica-se a tudo, que é apenas mais uma maneira de não se aplicar a nada.

Os mecanismos de adjudicação por trás deste e doutros trabalhos semelhantes, quem ganha com eles, quem os paga, tem-se Telmo Azevedo Fernandes dado ao trabalho de explicar, no Blasfémias e no seu mural no Facebook, com algum detalhe – histórias de amiguismo e de gestão local, a tal que, segundo alguns ingénuos, se distingue da central pelos benefícios da proximidade. E histórias também do que vale o Polígrafo. Telmo faz serviço público, é provável que seja pago em inimigos.

A mim interessar-me-ia compreender por que razão boa parte das artes plásticas contemporâneas é a tal ponto não-arte que os espectadores só as reconhecem como tais se disso informados; se é razoável desejar que os poderes públicos adquiram obras de arte para decorar espaços públicos; e a que critérios devem obedecer tais compras.

Dou a minha tentativa de resposta, a traço muito grosso, por partes.

A arte moderna, que durou desde fins do séc. XIX até ao fim dos anos 60, reagiu contra a representação aparentemente realista dos corpos, dos interiores e das paisagens, por esgotamento dos movimentos artísticos que a precederam e pela evolução tecnológica (fotografia e cinema, entre outras invenções) que lhe retiraram parte da utilidade prática. Os artistas passaram a interpretar a realidade com as luzes da sua intuição, as profundidades da sua alma e as inovações técnicas da sua imaginação, mais do que da sua perícia. Num certo sentido, a arte moderna representa o sucesso tardio e duradouro do romantismo, que endeusou o artista.

As artes plásticas contemporâneas levaram estas tendências ao paroxismo. E, ao fazê-lo, abriram a porta a uma infindável quantidade de trafulhas que para pintar não acham necessário saber desenhar, e para esculpir dispensam o longo aprendizado, e o duro trabalho, de transformar os materiais tradicionais.

Daí a treta, e daí as redes de cumplicidades: se a obra de arte não é reconhecida como tal é preciso expô-la em lugares adequados, para a promover, e imprescindível que beneficie da recomendação do especialista, com frequência albardado de uma cátedra numa escola da especialidade, que utiliza um jargão obscuro. O cidadão, que a detesta, é vítima de chantagem: não gosta, diz o entendido, porque é ignorante; e como ignorante quase ninguém reconhece ser ou, pior, reconhece, curva a cabeça perante a autoridade, e, como contribuinte, paga.

Pergunta-se: as nossas cidades estariam pior ou melhor se nunca os poderes públicos (ou patronos) as tivessem decorado com obras de arte? A minha resposta é que estariam pior, e nem me dou ao trabalho de tentar fazer a demonstração.

Se era assim no passado justifica-se que seja assim no presente. Não posso dizer que o critério deva ser o gosto popular porque a imagem de Nossa Senhora de Fátima não é um bom exemplo de estatuária, nem o Menino da Lágrima um de pintura. E como os senhores edis são geralmente da mesma massa que os eleitores, não lhes recomendo que se guiem pelo seu gosto.

Na realidade, o grande mestre, que é o tempo, fará a devida selecção, mas não tem assento nos elencos municipais. Pelo que recomendaria às autarquias três coisas:

Publicitem nos boletins municipais e nos jornais das terras, em vez dos discursos ocos do Mirabeau local, dados sobre as finanças do município, os custos dos investimentos em arte (incluindo instalações e manutenções) e os critérios pelos quais se regeram as adjudicações;

Desconfiem militantemente dos experts: são parentes ou sócios de quem, que ligações têm ao artista, de onde lhes vem a autoridade?

Exercitem o senso comum: o artista é um tipo com um discurso abstruso quando descreve o seu trabalho, as obras parecem sucata ou restos de obras, ninguém em seu juízo as compraria para as oferecer à sua cidade, mesmo que tivesse meios, há ligações partidárias suspeitas? T’arrenego.


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