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Vão sempre buscar o mesmo

por Pedro Correia, em 12.09.20

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Em 2013, João Ferreira foi o candidato do PCP à presidência da Câmara de Lisboa. Quatro anos depois, voltou a encabeçar a lista à principal autarquia do País.

 

Em 2014, João Ferreira foi candidato do PCP ao Parlamento Europeu, onde já tinha assento desde 2009, liderando nesse ano a lista comunista. Em 2019, voltou a figurar no topo da lista à eurocâmara apresentada pelo partido da foice e do martelo.

 

Em Janeiro de 2021, João Ferreira - já eurodeputado e vereador além de membro do Comité Central - será o candidato do PCP à Presidência da República, como acaba de ser anunciado pelo secretário-geral do partido.

 

Não custa perceber que estas sucessivas candidaturas a três instituições políticas muito diferentes são etapas de um tirocínio partidário: João Ferreira prepara-se para substituir Jerónimo de Sousa no posto de comando da Rua Soeiro Pereira Gomes, a confirmar no próximo ano.

 

Um homem que vai a todas. Numa confirmação implícita de que o PCP sofre uma grave crise de recrutamento e uma notória incapacidade de renovação de quadros: seja para o que for, vão sempre buscar o mesmo. Apesar de não perderem uma oportunidade de gritar «contra os monopólios».

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(Festa do Avante, 2020: ninguém para lhe dizer "ó camarada!, toma lá uma T-shirt que não parece bem estares assim vestido ...")

 

O comentador Pacheco Pereira, conhecido do "grande público" pela participação num programa televisivo de comentário político reinstalado após pressão do secretário-geral do PS, no qual agora ombreia com a adjunta deste, apresentado numa estação propriedade de um conjunto de empresas portuguesas (e de figuras gradas dos espectáculos populares, como Cristina Ferreira, Pedro Abrunhosa e Tony Carreira), publicou em 5.9.2020, no "Público", jornal propriedade do grupo SONAE, este naco: "Mas a fúria actual com a Festa do Avante! é tudo menos inocente. Tem uma clara motivação política, longe de qualquer preocupação com a pandemia ( ...) 

No recinto [da Festa] são comuns formas de reconhecimento tribal entre “camaradas”, quer através das bancas de comida, objectos, artesanato local, quer inclusive com as delegações estrangeiras de outros partidos comunistas e movimentos revolucionários. A Festa é ao mesmo tempo provinciana e cosmopolita, e transmite aos que a visitam esse sentimento de que fazem parte de uma comunidade nacional e de um movimento internacional, com amigos e inimigos. (...) 

[A raiva contra a Festa do Avante] insere-se numa clara deslocação para um radicalismo de direita que se tem vindo a acentuar em várias áreas da sociedade portuguesa, e de que o Chega é apenas a ala populista mais visível, e as redes sociais o viveiro do ódio, mas que encontra expressão numa elite que está órfã do poder, apoiada em think tanks, subsidiados por grupos empresariais, com um peso crescente na comunicação social. Repetirei de novo que uma parte importante desta deriva vem da impotência, mas com o tempo essa impotência transforma-se em raiva. A vida política portuguesa vai ser crescentemente perigosa, num caminho que encontra em Trump um inspirador não nomeado por vergonha, mas real.  ( ...)".

Há três décadas o comentador foi meu professor, e muito bom nisso. Há uma dúzia de anos esteve em Maputo, onde, gratuitamente e apenas por respeito, fiz o possível por ajudar a organização que ali o levara a enquadrá-lo o melhor possível. Espero agora nunca mais me cruzar com o traste que lhe ocupou o corpo. E a mente.

 

Adenda: há meses um holigão fez a saudação fascista num comício do prof. Ventura (sobre isso escrevi isto). Mas não apreciar os javardos que se passeiam com o Estaline na pança já é ser adepto do Trump, jpp dixit ... 

 

Festejar o quê?

por Pedro Correia, em 04.09.20

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Há dois meses, perdi um bom amigo que conhecia desde 1983. Há um mês, perdi uma pessoa de família muito próxima.

Nem num caso nem no outro pude comparecer nos respectivos velórios e funerais: o numerus clausus imposto pelas autoridades sanitárias é de tal modo apertado que nos impede, quase sempre, de marcar presença nestas tristes despedidas.

 

Liga-me um amigo residente em Viseu. Diz-me que o cancelamento da Feira de São Mateus, o maior cartaz turístico anual da cidade, causou prejuízos incomensuráveis a um sem-número de micro, pequenos e médios empresários de toda a região que costumavam aproveitar aquele certame para escoarem produtos, muitas vezes confeccionados por eles próprios, e conseguirem novos clientes.

Todas as feiras e romarias portuguesas - algumas com tradição plurissecular - foram anuladas este Verão, tal como a esmagadora maioria dos festivais musicais de Verão. O que bastou para colocar milhares de postos de trabalho directos e indirectos em risco imediato de extinção. Na melhor das hipóteses, remetendo as pessoas para o lay-off, espécie de antecâmara do desemprego. Com nome "amaricano", para suavizar a coisa.

 

O futebol prepara-se para recomeçar como terminou há dois meses: sem público nas bancadas. Com o Governo a encolher os ombros e a chutar para canto.

Sabendo, como sabe, que futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas - e as receitas de lugares nas bancadas, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de todas as agremiações desportivas.

Sabendo, como sabe, que da sobrevivência dos clubes depende a sobrevivência do desporto. E que uma sociedade sem desporto é uma sociedade doente.

 

É neste pano de fundo que ocorre hoje a abertura da "Festa" do Avante! Na zona do País onde se tem registado maior progressão de casos de contaminação com Covid-19 e depois de o PCP ter andado semanas aos gritos, queixando-se de estar a ser «discriminado». Como se a discriminação não fosse em sentido contrário: com a conivência pusilânime do Governo, que necessita dos votos comunistas para viabilizar o próximo Orçamento do Estado, o partido da foice e do martelo usufrui do privilégio de realizar o seu festival partidário. Com chocante indiferença perante o sofrimento de tantos portugueses, como se houvesse alguma coisa para celebrar neste macabro ano de 2020.

Basta vermos a sorridente e festiva capa do jornal Avante! de ontem, totalmente divorciada da realidade, para sentirmos isto. No mesmo dia em que houve 406 novos casos de infecção e mais quatro mortos - todos estes óbitos e 194 dos novos infectados com Covid-19 registados na região da Grande Lisboa, onde vai desenrolar-se o "piquenicão" do PCP.

 

Alegam os comunistas que a comparação com os malogrados festivais musicais de Verão anulados por imperativo categórico da Direcção-Geral da Saúde não faz sentido. 

Talvez não faça, mas num sentido diferente: há mais músicos e bandas a participar nesta "Festa" do Avante! do que haveria na esmagadora maioria dos espectáculos que ficaram por concretizar. 

Basta passar em revista quem actuará entre hoje e domingo na Quinta da Atalaia. Deixo aqui (por ordem alfabética) a lista dos participantes convidados pelo PCP: Albert Fish, Aldina Duarte, Ana Laíns, Ana Sofia Varela, Anastácia Carvalho, Blasted, Camané, Capicua, Cidália Moreira, Costa Neto, Dead Combo, Dino d' Santiago, El Sur, Galo Gordo, Gerson Mata, Lena d' Água, Luís Caeiro, Luta Livre, Mão Morta, Maria Alice, Mário Laginha, Marta Ren, Model Mother Tongue, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal, Peste & Sida, PTA Slowmo, Rogério Charraz, Scurú Fitchádu, Stereossauro, Uxu Kalhus, Vénus Matina, Xutos & Pontapés, Zebra Libra.

 

E de novo pergunto: vão festejar o que?

Penso rápido (97)

por Pedro Correia, em 12.08.20

O PCP resiste como "muralha d'aço" a esta enorme contradição: em território português, defende a "justa luta" dos trabalhadores. Nos países onde vigoram as ditaduras dos partidos-irmãos, de Cuba à Coreia, passando pela China, defende os regimes tirânicos, que esmagam os trabalhadores.

Enquanto mantiver esta duplicidade jamais poderá ser levado a sério, por mais generosos que sejam muitos dos seus militantes, genuinamente apostados em construir uma sociedade mais justa.

PCP "festeja" em tempo de luto

por Pedro Correia, em 26.07.20

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O PCP decalcou a sua badalada Festa do Avante! da Fête de l' Humanité, aludindo ao jornal L' Humanité, órgão central do Partido Comunista Francês (PCF). A tal ponto que até copiou o título, embora este resulte bem melhor em francês (Festa da Humanidade) do que em português.

O festival comunista por terras de França é uma tradição bastante mais enraizada: a edição inaugural do evento ocorreu em 1930, muito antes de Jerónimo de Sousa ter nascido e quando o próprio Álvaro Cunhal - líder histórico do PCP - contava apenas 16 primaveras.

 

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Apesar disso, o PCF não hesitou: acaba de anunciar o cancelamento da 85.ª edição da sua "Festa da Humanidade", invocando o que qualquer pessoa ou qualquer organização partidária responsável têm a obrigação de reconhecer em nome do mais elementar bom senso: o «contexto sanitário actual». Isto apesar de, no momento actual, França registar menos casos de infecção pelo novo coronavírus por milhão de habitantes do que o nosso país: 2.765 lá, 4.900 casos cá.

Sabendo-se ainda por cima que o festival dos comunistas portugueses se realiza na Área Metropolitana de Lisboa, precisamente a que tem sido mais fustigada por novos surtos da pandemia, é cada vez mais incompreensível a obstinação dos dirigentes do PCP, que teimam em levar a sua avante. À revelia de todas as recomendações sanitárias e da solidariedade que é devida não apenas aos familiares das vítimas mas aos profissionais da saúde que se mantêm firmes no duro combate à doença.

É caso, além do mais, para questionar o PCP: o que haverá para "festejar" num país onde todos os dias surgem novas famílias enlutadas pelo Covid-19 e numa sociedade tolhida pelo medo crescente de novas infecções?

Amarga lição para o Bloco

por Pedro Correia, em 14.07.20

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Pablo Iglesias: «derrota sem paliativos» na Galiza e no País Basco

 

Sabe-se hoje que o Bloco de Esquerda esteve a um passo de integrar um Governo de coligação com os socialistas, em Novembro de 2015. Naquela altura António Costa estava disposto a tudo para ascender ao poder na sequência imediata da derrota aritmética sofrida nas legislativas, meses após ter defenestrado o seu camarada António José Seguro por averbar uma vitória eleitoral nas europeias que lhe soube a "poucochinho".

Durante alguns dias, diversos cenários foram equacionados. Só a intransigente recusa do PCP em participar no Executivo fez recuar o BE. O partido da foice e do martelo vive permanentemente assombrado com o fantasma de 1981, quando François Mitterrand integrou quatro ministros comunistas num Executivo de coligação dominado pelos socialistas em Paris: foi o primeiro passo para a irremediável decadência do Partido Comunista, que chegou a ser o mais votado em França e hoje está quase extinto.

O BE não quis deixar o PCP à solta na oposição de esquerda a Costa: os dois partidos detestam-se e vigiam-se mutuamente, monitorizando cada passo. Assim nasceu a chamada "geringonça" - solução esdrúxula em que todos se uniam pela negativa, rejeitando novo Executivo PSD/CDS, mas sem acordo de legislatura além de umas linhas rabiscadas à sucapa num gabinete parlamentar com os jornalistas mantidos à distância e nem uma câmara de televisão a registar o acontecimento. Como se tivessem vergonha uns dos outros.

 

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Um papel rabiscado à pressa: assim nascia a "geringonça"

 

A verdade é que, desta forma, Costa conseguiu o melhor de dois mundos: a troco de cedências mínimas, viu todos os Orçamentos do Estado aprovados sem o ónus de trabalhar com ministros filiados noutras forças partidárias. Vocacionado para exercer como força de protesto, cada vez mais simbólico e residual, o PCP fez um enorme favor ao primeiro-ministro. 

Mas também acabou por fazer um favor ao Bloco. Repare-se no que acaba de suceder em Espanha: em duas importantes eleições de âmbito regional - as primeiras ali realizadas desde a formação da aliança governativa entre PSOE e Unidas Podemos (UP), marca similar ao BE no país vizinho - a grande derrotada foi precisamente a esquerda radical, hoje com cinco representantes no Conselho de Ministros. Incluindo uma das vice-presidências do Governo: a da área social, confiada a Pablo Iglesias.

É o primeiro Governo de coligação em Espanha desde 1936. E é também a primeira vez desde a precária "Frente Popular" formada nesse ano que a esquerda de matriz marxista-leninista ascende ali a postos governativos. Seis meses depois, já com graves consequências para os seus desígnios: a formação liderada por Iglesias acaba de sofrer duas vergastadas nas eleições autonómicas disputadas em terrenos emblemáticos. Fica sem representação no parlamento da Galiza, onde há quatro anos fora a segunda força mais votada, com 14 deputados e 19% dos votos (agora só conseguiu 4%), e perde quase metade do seu elenco parlamentar no País Basco, onde cai para o quarto posto, recuando de 11 para seis deputados e baixando de 15% para 8%.

«Uma derrota sem paliativos», como a descreveu o próprio Iglesias numa mensagem do Twitter - única reacção de um dirigente nacional da UP na noite eleitoral de domingo, dominada pelas vitórias do Partido Popular na Galiza e do Partido Nacionalista (conservador moderado) no País Basco. A chamada "verdadeira esquerda", que ascendeu ao poder nas circunstâncias mais adversas (após ter registado um claro recuo nas urnas a nível nacional e escassas semanas antes do início da crise pandémica) paga agora o preço da erosão governativa. E também das suas fracturas internas: na Galiza, Iglesias impôs um fiel à revelia das estruturas locais, desmobilizando as bases; no País Basco, a marca UP - que congrega várias forças à esquerda do PSOE - teve quatro líderes em cinco anos. 

 

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Catarina e Costa: antes ser Sísifo do que Fausto

 

Catarina Martins olha para estes catastróficos resultados do seu camarada Iglesias e certamente já terá agradecido intimamente ao PCP o favor de ter contribuído para manter o Bloco fora do Governo, mesmo com os socialistas sem maioria. Porque a derrocada dos "podemistas" em Espanha ilustra bem o dilema insolúvel das forças políticas situadas à esquerda do PS em Portugal: o poder, para elas, situa-se sempre numa dimensão utópica. Optam por Sísifo em vez de Fausto: estão condenadas a reclamá-lo em permanência sem jamais cederem à tentação de o experimentar. Só assim evitam um rápido declínio e a imparável extinção.

Eis uma amarga lição para todos aqueles que, no interior do Bloco, ainda sonham com um lugar no Conselho de Ministros. É a vida, como dizia o outro.

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Na sequência da notícia da nomeação de Rita Rato Fonseca, antiga deputada comunista (PCP), para directora do Museu do Aljube, escolhida por um concurso, Alexandre Pomar deixou no seu mural de facebook um texto que diz tudo o que é necessário. Aqui o reproduzo:

"Esta é mesmo uma questão fracturante e há que ir ao âmago da questão. É mesmo por ser do PC e ter sido deputada desse partido durante 10 anos, até 2019, sem ter saído por dissidência, que a Rita Rato não tem idoneidade para dirigir o Museu do Aljube. Nem credibilidade, perfil, curriculum, como quiserem. Não se trata de exigir credenciais académicas ou museológicas, conforme algumas críticas de eficácia lateral, mais ou menos hipócritas, mas por fundamentação política.

Quem conhece a história da oposição ao Estado Novo e ao salazarismo (e a memória vai-se esbatendo para as gerações mais recentes que a não viveram), sabe que o PC foi vítima e algoz, censurado e censor, perseguido e perseguidor, tanto face a outras tendências e movimentos oposicionistas (anarquistas, trotskistas, sociais-democratas, marxistas-leninistas-maoistas, autogestionários, liberais, etc) como face a muitos dos seus próprios dirigentes e militantes (desviantes, fraccionistas, dissidentes, críticos, e ex-militantes em geral).

O PC propõe, pratica e defende uma versão partidária da história, a sua e a do país, que tanto inclui a sua dependência perante a União Soviética e a sua repressão política, interna e externa, perante as suas organizaçoes internacionais (Komintern, 1919-1943, e Kominform, 1947-1956) e os seus estados satélites, como a ocultação e manipulação da sua história própria, bem como dos seus arquivos e documentos. O PC impõe a sua história oficial, com uma prática militante e sectária continuada através das décadas, das mudanças do mundo e das suas sucessivas derrotas. Uma história que exclui, em especial, o reconhecimento da Oposição anti-comunista, que foi tendo dificilmente direito de existência.

Tudo isto desqualifica a sra para dirigir um museu dedicado à resistência anti-fascista, que deve ilustrar a sua diversidade e as suas tensões e contradições internas, a história controversa das Oposições, que serviu ela mesma a longevidade do regime, combatendo-o e combatendo-se.

Poderia ser vereadora se existisse um pacto político PS-PC publicamente validado em eleições, poderia dirigir uma galeria ou um parque da CML, uma cantina para sem abrigo. por exemplo. Mas não pode dirigir o Museu da Resistência."

Nota: entretanto Pomar colocou o texto no seu blog, com uma adenda signicativa.

Adenda: sobre este assunto é recomendável ler o devastador "Aqui há rato" de João Pedro George, na revista "Sábado".

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Ao que consta a antiga deputada comunista (PCP) Rita Rato Fonseca será nomeada directora do Museu do Aljube - Resistência e Liberdade. Sobre a (in)qualificável decisão é necessário ler este texto no Malomil. Letal.

Adenda: bem lembra o Pedro Correia que a atrevida ignorância histórica da então deputada Fonseca foi referida aqui no Delito de Opinião, aquando dos "dislates" proferidos: "Gulag? Nunca ouvi falar", entre outras indecências ...

Despedir ou não despedir

por José Meireles Graça, em 02.05.20

Pergunta-se: pode um funcionário superior de um partido político executar fielmente as instruções da direcção quando delas discorde por achar que ofendem na essência a identidade partidária?

E pode a direcção confiar num funcionário sabendo que ele entende não servir ela, a direcção, os melhores interesses do partido, e portanto do povo (os partidos políticos existem para agregar pessoas com pontos de vista semelhantes sobre a melhor gestão da coisa pública), em matérias relevantes?

A resposta à primeira pergunta é sim, dependendo do perfil psicológico do funcionário; e à segunda é não porque os responsáveis pelo sucesso ou insucesso partidário devem poder rodear-se de pessoal de confiança – a porta do sucesso é estreita e a competição feroz, era o que mais faltava se no leque das preocupações se tiver de incluir a disciplina funcional interna.

Portanto, o PCP tem razão e Casanova não. Mas já duas instâncias judiciais disseram que o funcionário tem de ser reintegrado. E o partido reagiu, afirmando ser "inaceitável que alguém queira impor ao PCP como quadro político a tempo inteiro uma qualquer pessoa que se oponha ao PCP ou esteja comprometida com outro projeto político, como decorreria da interpretação dos critérios que serviram de base a esta decisão".

Nesta notícia diz-se que "o que a sentença se limitou a fazer foi apenas aplicar a lei dos partidos no seu artigo 1º que diz que ‘as relações laborais entre os partidos políticos e os seus funcionários estão sujeitas às leis gerais do trabalho".

O artº 1º da Lei dos Partidos não diz nada disso, mas não vale a pena procurar a sentença, que certamente não contém o asneirol jornalístico, porque é claro que o trabalhador injustamente despedido tem direito à reintegração, seja nos partidos seja nas empresas, donde os tribunais não poderiam decidir de outro modo.

As leis do trabalho obrigam à reintegração mas não deviam. Porque uma relação laboral em que o trabalhador, com razão ou sem ela, foi objecto de despedimento, encontra-se ferida de morte, e não é a reintegração que a vai ressuscitar. Se a injustiça é um dano, a maneira de o corrigir é a indemnização, não a ideia de que uma empresa pode funcionar como um serviço público, onde cabem sempre todos porque o problema da sobrevivência, e portanto dos poderes que a chefia deve ter, inexiste.

Dir-se-á que regimes diferentes para funcionários públicos e privados ferem o princípio da igualdade. Mas o princípio da igualdade só pode ser ofendido em igualdade de circunstâncias. Sucede que o Estado não é uma empresa mas um partido político, para este efeito, é: nasce, quer sucesso no mercado, pode crescer, pode estiolar e pode morrer.

Donde, há nesta história uma justiça poética: o PCP tem razão em achar que é inconcebível ser obrigado a acolher um inimigo no seu seio; mas odeia os patrões, que nunca têm razão por nem sequer deverem existir.

A realidade, como de costume, teve a última palavra.

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Manifestação do 1º de Maio

por jpt, em 18.04.20

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É uma questão de racionalidade, só. Manifestações do 1º de Maio são desrespeito por quem está confinado. É também uma indução para que todos saiamos de casa o mais depressa que nos apetecer (já hoje de manhã). E acima de tudo, "caramba", é um perigo. É um perigo naquele dia - por mais que invoquem as loas das "regras de segurança".. E é um perigo porque dá sinal para nos juntemos em massa a partir daí. Os tipos do regime perderam a cabeça - e não percebo como não encontro gente da dita "esquerda" a dizer esta coisa simples: não é o momento para manifestações. Nem sanitário, nem político. Esta ligeireza, esta cabotagem, é demencial. Vivemos a maior crise da nossa vida e esta gente dá esta pontapé no próprio regime? Urge reencontrar algum tino:

Marcelo não o tem, ocupado no "gozo fininho" de flanar, na patética homoerotização do poder. A Costa terá acontecido algo, exaustão talvez, para se meter nisto (e aquela ministra Vieira da Silva, dizendo que a proibição de presença nos funerais é "por acontecimentos que aconteceram no mundo" e que é diferente de permitir manifestações porque foi uma decisão anterior, ultrapassa tudo o que se tenha visto em governos). Rio é o que é, em volta de si mesmo - o que poderia ser bom, caso fosse pintor ou músico, mas o homem é político. A IL é muito pequena e o CDS, enfim, é uma memória, e agora uma irrelevância júnior e inculta. E o BE é óbvio que adere a um COVID Parade, para celebrar a vitória sobre o vírus com as gentes festivas.

Resta o PCP. Goste-se ou não sempre teve uma racionalidade. Dizem-no monolítico e repetitivo muito porque tem a sua racionalidade e as suas razões. E o 1º de Maio é palco da CGTP. Quer o quê, fazer uma "jornada de luta" na exacta conclusão do confinamento, a este afirmar/celebrar como feito "dos trabalhadores"? Ok (de facto até concordo com essa versão). Mas faça-o de outra forma. É o PCP que deveria ser o primeiro a dizer "não é o momento". A data é importante? Os símbolos são importantes? Sim. Mas são-no pelo que significam, não como bonecos do menino jesus ou santinhos de loiça. Proponham a troca de data. E mostrem a "nave de loucos" em que estes tipos se tornaram. Ou então vão, também, na onda. Troquem uma manifestação por esta "parade". Sejam como os outros, descabidos e irrelevantes.

O gesto é tudo

por Pedro Correia, em 09.04.20

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Mesmo com câmaras à frente, as figuras públicas - ou equiparadas - continuam a revelar comportamentos dignos de reparo crítico em tempo de pandemia. É o caso deste senhor que vemos na imagem de cima, um responsável do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que reagiu como a foto documenta quando o catarro o incomodou durante uma entrevista televisiva.

Já o líder parlamentar do PCP, confrontado com o mesmo incómodo, reagiu de forma irrepreensível, colocando a dobra do cotovelo a amparar-lhe a tosse. A disciplina comunista ajuda muito nestas ocasiões. O deputado João Oliveira, com este irrepreensível civismo, há-de ir longe. Talvez a secretário-geral do partido, não tarda muito.

Solidários com os milionários

por Pedro Correia, em 27.01.20

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Pode ter sido distracção minha, mas até ao momento ainda não ouvi uma palavra oriunda do PCP sobre o que está a ocorrer em Angola - nomeadamente, as mais recentes notícias acerca das «lucros fabulosos» (expressão muito cara a Jerónimo de Sousa) acumulados pela filha do antigo Presidente da República que ali se perpetuou durante quatro décadas no poder - e foi amealhando também uns cobres muito razoáveis, ao que rezam as crónicas.

A repugnância dos comunistas perante fortunas pessoais - neste caso em contraste com as situações de extrema pobreza que afligem grande parte da população angolana - dissolve-se quando os milionários pertencem ao MPLA, "partido irmão" do PCP?

Não haverá, nas fileiras comunistas, vozes críticas capazes de se insurgirem contra esta chocante conivência? Pode ser que existam, mas andam emudecidas. Porque daquelas bandas nem um sussurro se tem escutado.

 

A verdade é que, ao longo de todos estes anos, o PCP alinhou sempre com José Eduardo dos Santos, a sua próspera família e o partido que tem gerido Angola em sistema monopolista. Com indecorosas atitudes de subserviência perante o poder angolano, agora deposto. Basta lembrar a censura ao livro Diário de um Preso Político Angolano, de Luaty Beirão, na Festa do Avante! de 2018, e o chumbo comunista de um voto parlamentar contra as penas de prisão aplicadas a 17 activistas angolanos, em 31 de Março de 2016 - aqui em jubilosa parceria com o PSD e o CDS.

Sem um reparo que fosse, sem o mais ligeiro tremor de perturbação. Pelo contrário, o exercício da crítica, por parte dos comunistas portugueses, visou sempre aqueles que ousavam contestar a autocracia angolana, inserindo-os em maquiavélicas conspirações orquestradas por Washington - numa patética recriação da linguagem soviética dos tempos da Guerra Fria.

 

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Aqui ficam alguns exemplos, com sublinhados meus:

 

Avante!, 22 de Outubro de 2015:

«Portugal não deve ser instrumento e servir de plataforma para a promoção da ingerência contra um Estado soberano, designadamente ao serviço daqueles que, envolvendo e mobilizando cidadãos angolanos partindo de reais problemas, contradições, fenómenos negativos e legítimos anseios, de facto agem com o intuito de os instrumentalizar para desestabilizar e concretizar a denominada «transição» ou «mudança» de regime em Angola. (...) Existem interesses externos e sectores da sociedade angolana que consideram criadas as condições e chegado o momento de fomentar a desestabilização neste país. (...) Não seremos instrumento para fazer de Angola uma nova Líbia com o seu rasto de destruição, sofrimento, devastação e morte.»

 

Declaração de voto parlamentar, 31 de Março de 2016:

«O PCP não acompanha campanhas que, procurando envolver cidadãos angolanos em nome de uma legítima intervenção cívica e política, visam efectivamente pôr em causa o normal funcionamento das instituições angolanas e desestabilizar de novo a República de Angola. (...) O PCP não acompanha os votos apresentados na sequência da decisão do Tribunal Provincial de Luanda, adoptada em 28 de Março, que condenou 17 cidadãos angolanos a penas de prisão pelos crimes que o Tribunal considerou como de actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores. (...) A rejeição do presente voto por parte do PCP emana da defesa da soberania da República de Angola e da objecção da tentativa de retirar do foro judicial uma questão que a ele compete esclarecer e levar até ao fim.»

 

Avante!, 7 de Abril de 2016:

«Usam ora Rafael Marques ora Luaty Beirão para se guindarem a educadores do povo angolano, ditando aos angolanos o que o seu país é e o que dele devem fazer. (...) Será que ninguém estranha que as posições assumidas por BE e PS nos votos que apresentaram sobre Angola sejam convergentes com aquelas que foram assumidas pelo Departamento de Estado norte-americano e pela União Europeia? (...) O PCP nunca será instrumento ao serviço das operações que querem fazer de Angola mais uma vítima, que queiram fazer de Angola uma nova Líbia

 

Avante!, 14 de Abril de 2016:

«Interesses externos e sectores da sociedade angolana que, não deixando de utilizar uma qualquer oportunidade para envolver cidadãos angolanos a partir de reais problemas e legítimos anseios, de facto agem com o intuito de os instrumentalizar para promover a desestabilização de Angola e, se possível, concretizar a sua tão almejada mudança de regime. (...) Os significativos e genuínos laços históricos e afectivos que unem o povo português ao povo angolano e Portugal a Angola não devem ser instrumentalizados por intensas e hipócritas campanhas mediáticas que, objectivamente, contribuem para "legitimar" obscuras operações contra Angola e os interesses e aspirações do seu povo.»

O camarada secretário-geral

por jpt, em 17.01.20

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Quando eu era puto não fazia ideia disso. Depois cresci e tudo passava tão rápido, era tudo tão rico, tão cheio, que nem pensei no assunto. Entretanto fiquei quarentão e um dia o meu pai morreu. Talvez tenha sido um bocado antes que tomei consciência. E logo depois percebi-o mesmo, aquilo de que ele era a pessoa mais importante na minha vida. Já lá vai quase uma década e faz-me falta (quase) todos os dias.
 
Hoje chegaria a casa, sentar-me-ia, ufano, "então pai, o camarada secretário-geral foi ao "Cristina"!?", e ele abanaria a cabeça, semicerrando os olhos, eu iria ao bar, beberíamos um pequeno rum (o meu algo maior) ou uma genebra (a minha dupla), e elaboraríamos sobre o "ao que isto chegou!". Eu cheio de razões e verve. Ele cheio de razão. Já plácida. Depois ele iria deitar-se. E eu beberia um uísque.

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O Parlamento Europeu aprovou recentemente a resolução sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa, por ocasião do 80º aniversário do início da Segunda Guerra Mundial.

Além de outros detalhes o documento dá enfoque i) aos massacres, ao genocídio, às deportações, aos crimes contra a humanidade e violações em massa dos direitos humanos perpetrados pelos regimes nazi e comunista, ii) ao facto de os crimes do regime nazi terem sido julgados e punidos nos julgamentos de Nuremberga e o mesmo nunca ter sido feito relativamente aos crimes do Estalinismo, iii) ao trágico passado da Europa que deve continuar a servir de inspiração moral e política.

O PS enquanto partido humanista e responsável membro do PSE votou favoravelmente o documento em Estrasburgo. Mas entretanto, quando o mesmo foi colocado à votação na Assembleia da República, mudou de posição. Estas incoerências estão incluídas nas demais que fazem de António Costa um político hábil. Em política a maleabilidade é uma habilidade. Já sabíamos isso há muito mas neste caso específico podemos avaliar mais um caso em que se consegue trocar princípios por fins. Sabemos que não quer irritar os seus ex-futuros parceiros. Para que algo idêntico fosse aprovado no nosso Parlamento foi necessário retirar a palavra comunismo do documento.

A expressiva votação do Parlamento Europeu de 535 contra 66, com 52 abstenções, foi possível com forte apoio dos deputados dos Estados Membros que pertenceram ao lado de lá da Cortina de Ferro. Eles conheceram os regimes nazi e comunista, sofreram os seus crimes contra a Humanidade e por eles foram privados da sua liberdade. Recordam-se disso e não terão duvidado em escolher de que lado queriam estar nesta simbólica tomada de posição.

Os comunistas estão convencidos que pelo combate que deram aos nazis acumularam karma points suficientes para os ilibar dos mais de 100 milhões vitimas que causaram. No fundo a tomada de posição do Parlamento Europeu anula exactamente esse argumento desrespeitoso da memória das suas próprias vítimas.

Sem nos surpreender, os comunistas tugas, e demais partidos radicais, irritaram-se com tudo isto.

Não podemos negar que o PCP dá um toque vintage ao espectro político português. Foices e martelos nos parlamentos europeus são uma antiguidade e em toda a Europa nenhuma loja de ferragens razoavelmente séria se arrisca a inclui-los na mesma família de produtos. Martelos estão nas ferramentas e as foices nas alfaias. Mistura-las na mesma prateleira ou corredor dá má fama à casa.

Pelo exotismo, o nosso PCP bem podia ser transformado em mais uma atração turística do nosso país. Um bocado como os golfinhos no Jardim Zoológico embora com menos cor e alegria.

Conhecendo a imensidão de crimes que foram cometidos pelos comunistas, e depois olhando para o nosso PCP a definhar, temos de acabar por ser portuguesmente condescendentes para com eles. Se tivessem cometido uma fracção dos crimes que motivaram a referida votação já teriam sido varridos da nossa vida política. Existem por puro conservadorismo dos seus eleitores o que não deixa de ter graça para um partido que se diz revolucionário.

Fora da caixa (28)

por Pedro Correia, em 10.10.19

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«O PEV definiu um conjunto de prioridades que corresponde também a um conjunto de prioridades do PS.»

António Costa, ontem, na sede dos "Verdes"

 

De eleição em eleição, o Partido Comunista Português vai recuando. Já foi maioritário em largas parcelas do território nacional, que nas manhãs seguintes a cada escrutínio surgiam pintadas a vermelho nas páginas dos jornais. Hoje, em 308 concelhos, os comunistas estão confinados a dois: Avis e Mora, por sinal dos mais desertificados do País.

Tiveram os piores resultados de sempre nas presidenciais de 2016, nas autárquicas de 2017 e nas europeias de 2019. Acabam de registar novo recorde mínimo, desta vez em eleições legislativas: em quatro anos perderam 115 mil votos. Têm agora apenas cerca de 330 mil, correspondentes a uma percentagem de 6,5%. Se compararmos estes números com os que obtiveram no seu ponto máximo, em 1979, verificamos que os comunistas recuaram 150% em percentagem eleitoral e ficaram circunscritos a um quarto dos parlamentares então eleitos. Eram 47 em 250, agora são só 12 em 230. Há 40 anos, o PCP recolheu 1.129.322 boletins de voto, o que lhes proporcionou uma percentagem de 15,7%.

Tempos irrepetíveis.

 

Tudo se vai reconfigurando no reduto comunista, cada vez mais exíguo e acantonado.

Tudo? Tudo, não. Neste depauperado cenário eleitoral - que deixa de fora deputados como Carla Cruz, Bruno Dias, Rita Rato e Jorge Machado, além de Paulo Sá, que já não figurava na lista, e do reaparecido Miguel Tiago, remetido para um distrito de eleição impossível só para picar o ponto - há um partido que jamais recua. É o mesmo que nunca se submeteu a um teste eleitoral sem ser como muleta dos comunistas - essa fraude política chamada "Partido Ecologista Os Verdes", existente desde 1982. Mantém dois deputados, chova ou faça sol. Desta vez, por obscuros motivos que escaparam ao escrutínio jornalístico, a gerência comunista decidiu excluir da eleição a "verde" Heloísa Apolónia, que passara metade da sua vida como deputada profissional - também ela remetida a um distrito de eleição impossível.

 

Vai iniciar-se outra legislatura. Lá surge de novo esta fraude política em todo o esplendor, funcionando como duplicação do tempo de intervenção dos comunistas no hemiciclo de São Bento, em organismos estatais como a Comissão Nacional de Eleições e o Conselho Nacional de Educação - e também no jornalismo burocrático que hoje predomina em vários circuitos informativos.

Foi o que voltou a suceder ontem, com a delegação socialista presidida por António Costa a visitar a sede do PEV, a manter "negociações" com os inquilinos daquela casa e alguém (não a desaparecida Heloísa, presumível dissidente) a falar em nome do partido-satélite do PCP, como se este tivesse um milímetro de autonomia estratégica. Um filme de ficção transmitido à hora dos telejornais.

Observo este lamentável teatro de sombras, caucionado por Costa, e questiono-me até quando a lei eleitoral portuguesa permitirá que uma agremiação partidária funcione durante mais de 35 anos sem nunca concorrer isolada às urnas. É uma pergunta que devia ser feita com insistência aos responsáveis políticos. Mas fica sempre por fazer. Infelizmente, também muitos jornalistas colaboram nesta farsa, fingindo levar a sério um partido que não existe.

Notas breves sobre a noite eleitoral

por Diogo Noivo, em 07.10.19

1. Ao contrário do que foi dito por António Costa, os portugueses não gostam da geringonça. Os portugueses gostam do PS. Os socialistas reforçaram o seu respaldo eleitoral, mas o Bloco de Esquerda perdeu mais de 57.000 votos e a CDU mais de 115.000 (um desaire colossal). Ver nestes resultados um triunfo da geringonça é um delírio.

Captura de ecrã 2019-10-07, às 10.26.33.png

fonte: SGMAI

 

2. O resultado do PSD é inenarrável. Pior só mesmo o discurso de Rui Rio. O Pedro Correia já aqui disse o essencial sobre o assunto.

 

3. Mais do que um mau resultado, o CDS pode ter iniciado o princípio do fim. A próxima liderança será determinante.

 

4. Dos pequenos partidos que entram o parlamento, o mais votado foi o Chega, ainda que por margem diminuta. É favor abrir os olhos. A culpa não é dos eleitores, frequentemente acusados de incultura quando partidos desta natureza chegam aos parlamentos (aliás, olhando para a votação por grau de escolaridade, o campeão junto daqueles que menos formação têm será o PS). Os eleitores têm sempre razões atendíveis e importa compreendê-las.

 

5. A Tunísia também foi às urnas ontem. Tem cerca de 11 milhões de habitantes e 7 milhões de eleitores. Portugal tem mais ou menos a mesma população e mais de 10 milhões de eleitores. Um destes países tem um Ministério para a modernização administrativa.

Fora da caixa (27)

por Pedro Correia, em 07.10.19

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«O Bloco de Esquerda cresceu em tantos distritos deste país..

Catarina Martins, ontem à noite

 

Politicamente, a "geringonça" só foi um bom negócio para o PS. O Bloco de Esquerda recuou nas urnas e o PCP teve o pior resultado eleitoral de sempre em eleições legislativas.

Os números aí estão, para demonstrar.

 

Após quatro anos de acordo político entre o PS e os dois parceiros à esquerda, que viabilizaram todos os orçamentos concebidos por António Costa e Mário Centeno, o PCP recua de 8,3% para 6,5%. Perde cinco deputados (tinha 17, agora tem 12, dois dos quais cedidos ao partido-satélite PEV) e vê fugir mais de cem mil votos (em 2015 recolheu 445.900 boletins nas urnas e desta vez não chega aos 330 mil).

Para o BE, estranhamente eufórico na noite de ontem, este escrutínio também evidencia um recuo. Não em número de deputados (mantém os 19 representantes que já tinha), mas em percentagem (perde 0,5%, recuando de 10,2% para 9,7%) e sobretudo em número de eleitores (vê fugirem cerca de 60 mil, baixando dos 550.892 em 2015 para os actuais 492.487).

Só o PS cresce. Em percentagem (mais 4,4%), em número de votos (mais cerca de 120 mil) e sobretudo em deputados (para já são mais vinte, subindo de 86 para 106 ainda antes do apuramento dos círculos da emigração, que atribuem quatro lugares no hemiciclo).

 

Quando derrotou Freitas do Amaral na duríssima campanha presidencial de 1986, Mário Soares deu-se ao luxo de enviar no dia seguinte um enorme ramo de flores à esposa do seu antagonista. Um gesto galante que bem poderia ser agora imitado por António Costa: Catarina Martins não merece menos que isto. E Jerónimo de Sousa justifica pelo menos um generoso cabaz de frutos secos.

Fora da caixa (21)

por Pedro Correia, em 03.10.19

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«Quero levar os portugueses a viver habitualmente.»

Salazar (1938) 

 

Não sei se mais alguém pensou como eu. Mas achei refrescante a intervenção da candidata do MRPP no debate organizado pela RTP com os representes dos pequenos partidos. Não pelas ideias, claro: são mais antigas do que o animatógrafo, a grafonola, o hidroavião e o zepelim. Mas pela sinceridade: vê-la defender abertamente o «modo de produção comunista» revela-nos, por contraste, até que ponto o PCP se tornou um partido reformista, longe de qualquer ideal revolucionário. Há quanto tempo não ouvimos Jerónimo de Sousa advogar os dogmas do marxismo-leninismo? É possível um partido verdadeiramente comunista votar quatro orçamentos de Estado em estrita obediência às normas do pacto de estabilidade e aplaudir a maior contracção do investimento público de que há memória na democracia portuguesa?

Há muito que o PCP deixou de amedrontar as "classes dominantes": tornou-se um partido fofo, respeitador da moral burguesa e dos bons costumes. Isto explica-se, em parte, por já não ser acossado pela defunta "esquerda radical" que se acoitava sob a bandeira do BE: Catarina Martins deu uma guinada ao Bloco, tornando-o um movimento "eco-socialista", quase pós-ideológico, new age. Por muito que isso incomode o professor Fernando Rosas, a "renegociação da dívida" e a saída de Portugal do sistema monetário europeu deixaram de figurar entre as proclamações bloquistas, agora mais embaladas por jazz de hotel do que pelos estridentes acordes d' A Internacional.

Música para os ouvidos de António Costa, que nestes quatro anos reduziu os partidos à sua esquerda a caricaturas de si próprios. Enquanto se encarregava de seduzir largas parcelas da classe média com duas percepções dominantes: contas certas e ordem nas ruas.

Esquerda radical neutralizada e direita sociológica despojada das principais bandeiras: eis o balanço político de quatro anos de "geringonça", eis o contributo de António Costa para sedimentar o regime instaurado com a Constituição de 1976, alterando-lhe o eixo dominante ao leme de um partido socialista que há muito deixou de o ser.

Os antigos pregoeiros da revolução andam hoje mais preocupados com a extinção das focas do que com a extinção da classe operária. E quem ainda sonhar com a revolução comunista pode sempre votar no MRPP.

 

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Fora da caixa (18)

por Pedro Correia, em 30.09.19

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«Se houver um problema interno, é no plano interno que deve ser discutido.»

Jerónimo de Sousa (9 de Abril) 

 

Dos cinco principais partidos portugueses, o PCP é aquele que tem uma expressão eleitoral cada vez mais diminuta - como demonstraram as recentes eleições autárquicas (desceu dos 552.690 votos em 2013 aos 489.189 em 2017), europeias (passou de 416.446 votos em 2014 para 228.156 em 2019) e regionais da Madeira (baixou de 7.060 votos em 2015 para 2.577 em 2019).

E, no entanto, é também aquele que aparece menos no espaço mediático. Deu-se ao luxo, por exemplo, de recusar a participação nos debates a dois promovidos pelos canais de televisão por cabo - evitando assim o confronto com Catarina Martins e Assunção Cristas sem ninguém ousar aludir a misoginia. E vetou a participação de Jerónimo de Sousa no programa de Ricardo Araújo Pereira - que tem sido, de longe, o mais divertido palco político destas legislativas. Neste caso, ao que parece, trata-se de ajustar contas antigas: lá na Rua Soeiro Pereira Gomes não perdoam o acutilante humor deste seu antigo militante, que se atreveu a declarar coisas como esta: «Precisamos do PCP para defender os trabalhadores do PCP.» Parafraseando um antigo dirigente de outro partido, quem se mete com o PCP leva...

Talvez por isto, os comunistas são, entre as cinco principais forças partidárias, aqueles que mais se furtam ao escrutínio público. Nunca são tratados em termos jornalísticos como os restantes. No PCP não existe oposição interna - há "dissidentes", como sucedia na defunta União Soviética. Nunca há divergências públicas - a "unidade" é uma regra inabalável e o menor sopro de contestação fica abafado entre os espessos muros do estado-maior vermelho.

 

Jerónimo de Sousa é o rosto visível deste partido que ainda se comporta, em larga medida, como se vivesse na clandestinidade. Falta saber quase tudo o resto.

Quem são os membros do Secretariado e da Comissão Política, os dois órgãos decisórios da cúpula comunista? Alguém sabe os seus nomes fora da bolha partidária? Que currículo profissional têm? Quantos anos de exercício como funcionários do partido acumulam? Por que motivo ninguém os conhece fora do círculo interno e jamais concedem uma entrevista à imprensa "burguesa"? Quem controla as finanças do partido - que é reconhecidamente o mais rico, com depósitos bancários acima dos três milhões de euros - e o seu valiosíssimo património imobiliário? Ninguém imagina que a chave do cofre esteja na algibeira de Jerónimo, o mais antigo deputado português (ocupa um lugar em São Bento desde a Assembleia Constituinte, em 1975).

 

Saberíamos um pouco mais se os órgãos de informação atribuíssem o mesmo tratamento ao PCP que reservam aos restantes partidos. Mas, com raríssimas excepções, isso não acontece: os comunistas beneficiam de uma complacência generalizada de jornais e televisões, por motivos compreensíveis: dá muito mais trabalho investigar o que lá se passa e trazer à luz do dia o que ocorre naqueles corredores cheios de segredos.

A oposição interna à "geringonça", por exemplo, é tão vasta que dava para narrar num livro. Ou dois.

Fora da caixa (8)

por Pedro Correia, em 15.09.19

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«António Costa teve sempre um papel de procura da solução e não do problema.»

Jerónimo de Sousa, em entrevista à Lusa (24 de Agosto)

 

Com a mesma cadência a que regressam as andorinhas em cada Primavera, quando surge uma campanha eleitoral logo se erguem vozes a questionar a "ideologia" de alguns partidos.

Tudo normal. Estranho apenas nunca ouvir tais vozes começarem por suscitar dúvidas sobe a "ideologia" do Partido Comunista.

Se obedecesse ao ideário marxista-leninista, aplicado em vários países com os brilhantes resultados que sabemos, o PCP seria um partido de raiz revolucionária, adversário consequente da "democracia burguesa" e dos "interesses de classe" a ela associados. Mas tornou-se afinal um partido reformista, companheiro de estrada da social-democracia que noutros tempos costumava diabolizar com a sua inflamada retórica.

Nestes quatro anos, o partido da foice e do martelo viabilizou as "políticas de direita do governo PS" plasmadas em quatro orçamentos do Estado sujeitos à disciplina orçamental ditada por Bruxelas e ao menor investimento público de sempre na democracia portuguesa. Orçamentos que o PCP aprovou sem pestanejar: nunca mais lhe ouvimos um sussurro contra o malfadado "pacto de agressão" nem a firme exigência de "renegociação da dívida".

Insolitamente, ninguém questiona os dirigentes comunistas sobre os defuntos princípios sepultados numa esconsa gaveta dum obscuro gabinete na Rua Soeiro Pereira Gomes. Sinal dos tempos: hoje, no PCP, só a "paciência" é revolucionária.


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