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Delito de Opinião

Sempre, sempre ao lado dos amigos

Sérgio de Almeida Correia, 24.09.21

Okamura-Le-Pen-Wilders-800x450.jpg(Martin Divisek/EPA/EFE)

Em 16 de Setembro pp., a comunicação social deu conta da aprovação pelo Parlamento Europeu de uma resolução sobre a nova estratégia União Europeia-China.

A referida resolução tece um conjunto de considerandos visando a actuação recente da RPC, com especial referência ao que se passa nas Regiões Administrativas Especiais de Hong Kong e Macau. Aí se recomenda que o Vice-Presidente da Comissão/Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança (VP/AR) e o Conselho "elaborem uma estratégia UE China mais assertiva, abrangente e coerente que una todos os Estados Membros e defina as relações com a China no interesse da UE no seu conjunto”.

Para o Parlamento Europeu, a defesa dos nossos valores e da promoção de uma "ordem multilateral assente em regras” deverá ser fundamental, acrescentando-se que sendo a China “um parceiro de cooperação e de negociação para a UE, mas também um concorrente económico e um rival sistémico num número crescente de domínios”, tal “estratégia precisa de ter em conta a natureza multifacetada da relação da UE com a China” e assentar em seis pilares, a saber:
1) Diálogo aberto e cooperação;
2) Empenho reforçado em relação aos valores universais, às normas internacionais e aos direitos humanos;
3) Análise e identificação dos riscos, das vulnerabilidades e dos desafios;
4) Estabelecimento de parcerias com parceiros que partilhem as mesmas ideias;
5) Fomento da autonomia estratégica aberta, inclusive nas relações comerciais e de investimento;
6) Defesa e promoção dos principais interesses e valores europeus mediante a transformação da UE num interveniente geopolítico mais eficaz.

Numa primeira leitura, aparentemente, não há lá nada que se afigure inadequado aos objectivos da União Europeia e de Portugal.

Depois, no desenvolvimento desse primeiro enunciado verifica-se que há referências aos direitos humanos, aproveitando-se para se instar “a China a autorizar um inquérito independente e transparente sobre as origens e propagação do vírus SARS‑COV‑2”; convidam-se “os Estados Membros da UE a acompanharem melhor o impacto da interferência do Governo chinês na liberdade académica” e condena-se com “a maior veemência possível as sanções infundadas e arbitrárias impostas pelas autoridades chinesas”, não se deixando de sublinhar que “a apreciação e o processo de ratificação do Acordo Global de Investimento UE China não poderão começar até que sejam levantadas as sanções chinesas contra deputados ao Parlamento Europeu e instituições da UE”.

Há, igualmente, todo um conjunto de outras apreciações sobre múltiplos assuntos, destacando-se, em especial, a condenação às violações das Declarações Sino-Britânica de 1984 e Luso-Chinesa de 1987, quanto ao futuro, respectivamente, de Hong Kong e Macau.

A resolução é extensa e mereceu imediato repúdio por parte das autoridades chinesas, o que não será de admirar tendo presente a forma como a RPC encara o direito internacional, as relações entre Estados soberanos e os mecanismos de cooperação internacional, os quais só são importantes, digo eu, quando sirvam os seus próprios interesses e de acordo com a leitura que em cada momento seja feita pelas suas autoridades.

É isso que explica, por exemplo, que a RPC rejeite sistematicamente quaisquer críticas que lhe sejam feitas pela comunidade internacional, alegando sempre que se tratam de intromissões nos seus assuntos internos.

Mas, ao mesmo tempo, não faltam as manifestações de solidariedade com os regimes venezuelano, sírio, cubano ou norte-coreano de cada vez que estes são objecto de condenação internacional; como se essas manifestações de solidariedade não fossem elas próprias interferências nos assuntos internos de terceiros estados. Apoiar política, militar e economicamente regimes opressores também é uma forma de interferência nos assuntos internos de outros países.

De igual modo, é essa postura dúbia e interesseira que justificou a recepção em Xangai de uma delegação taliban de alto nível, cerca de um mês antes da queda de Cabul, sabendo-se que esse movimento representava a oposição interna daquele que era ainda ao tempo o governo legítimo do Afeganistão. Não obstante, até agora, a RPC não reconheceu oficialmente o novo governo islâmico afegão, embora tenha dado sinais de poder vir a fazê-lo em breve.

Todavia, esse posicionamento, podendo ser criticável, não nos diz directamente respeito. Bem ao contrário do que acontece com a actuação dos deputados portugueses no Parlamento Europeu. E quanto a estes, no que à aludida resolução diz respeito, nem todos estiveram de acordo com o seu teor.

O resultado da votação revelou que a resolução, em cuja versão final tiveram papel destacado os deputados Isabel dos Santos e Pedro Marques, foi aprovada com 571 votos a favor, 61 contra e 40 abstenções. Quanto a este ponto o que aqui deverá ser a todos os títulos salientado é que os únicos portugueses que votaram contra a resolução foram dois deputados do PCP: Sandra Pereira e José Pimenta Lopes.

Conhecendo-se as posições passadas do PCP, de inequívoco apoio aos regimes ditatoriais e às violações de direitos humanos cometidas na Venezuela, em Cuba, na Coreia do Norte, na Síria ou na Rússia, do mesmo modo que ontem subscreviam os atentados aos direitos humanos na União Soviética, em Angola, na Etiópia ou nos defuntos países do Leste europeu, deverá ser registada a firmeza e coerência desses dois parlamentares comunistas portugueses no Parlamento Europeu.

A deles, é verdade, mas também a de todos aqueles ao lado de quem os comunistas portugueses votaram. Entre esses inclui-se um grupo de parlamentares da extrema-direita europeia onde pontuam os representantes alemães da Alternative für Deutschland, do Rassemblement Nationale de Marine Le Pen, dos nacionalistas flamengos do Vlaams Belang, dos extremistas checos e do PVV holandês.

Aos comunistas portugueses não chegava absterem-se na votação dessa resolução para tentarem passar despercebidos. Para o PCP era importante mostrar que votavam ao lado da extrema-direita europeia. Em defesa dos interesses de grupo e das negociatas que à sombra dos atropelos aos direitos humanos, e a pretexto do combate ideológico, se vão cometendo por esse mundo fora.

Para um partido que se reclama campeão do antifascismo, das “conquistas de Abril” e “dos direitos dos trabalhadores”, não deixa de ser significativo que quando estão em causa os direitos humanos e as liberdades se predisponha a votar ao lado dos radicais da extrema-direita europeia. Nem a Lega per Salvini, antiga Lega Nord, se atreveu a tanto, já que Adinolfi Matteo, Baldassarre, Bizzotto e os outros votaram a favor da resolução.

Felizmente, coerência é coisa que aos comunistas portugueses não falta. E amigos ao lado de quem possam votar também não. 

É bom lembrá-lo neste momento quando se está à porta de mais um acto eleitoral e os extremos se tocam.

Lisboa

Pedro Correia, 06.09.21

O debate na SIC da passada quinta-feira em Lisboa demonstrou que há três corridas na corrida à autarquia da capital. A propriamente dita, a de Fernando Medina para liderar o PS e a de Carlos Moedas para suceder a Rui Rio no PSD.

João Ferreira, no PCP, nem precisa de correr: já está ungido pelo Comité Central. Nestas coisas os comunistas têm muito sentido prático.

“Abajo los perros comunistas”

Paulo Sousa, 12.07.21

Decorrem em Cuba as maiores manifestações de sempre contra o regime comunista.

Da mesma forma que terá sido a subida dos preços dos cereais a desencadear a chamada Primavera Árabe, poderá ser a pandemia que irá desencadear o fim o regime castrista?

Será desta que os cubanos poderão vir a ter uma democracia burguesa, tão burguesa como aquela em que o PCP se passeia? Se for essa a vontade dos cubanos, o que dirá o PCP? Aceitará que eles “descem” a um “martírio” como aquele que os comunistas portugueses têm de suportar?

O monopolista

Pedro Correia, 31.03.21

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O PCP, que se proclama partido "antimonopólios", apresenta sempre o mesmo candidato a todas as eleições. Sejam autárquicas, sejam europeias, sejam presidenciais. É o delfim de Jerónimo de Sousa, que anda há tantos anos a fazer rodagem para a sucessão que qualquer dia já chega lá vencido pelo cansaço e com um longo currículo de derrotas eleitorais, tantas são as provações a que a velha guarda da rua Soeiro Pereira Gomes o submete.

Chega a ser ridículo. 

 

Em 2013, João Ferreira foi o candidato do PCP à presidência da Câmara de Lisboa. Quatro anos depois, voltou a encabeçar a lista à mais emblemática autarquia do País.

Em 2014, foi o candidato do PCP ao Parlamento Europeu, onde já tinha assento desde 2009, liderando nesse ano a lista comunista. Em 2019, voltou a figurar no topo da lista à eurocâmara.

Em Janeiro deste ano, João Ferreira - já eurodeputado e vereador, além de membro do Comité Central - candidatou-se com o patrocínio do PCP a Presidente da República, com um resultado certamente decepcionante para quem o lançou: conseguiu apenas 4,3%, correspondendo a escassos 180 mil votos recolhidos nas urnas.

 

Agora, sem surpresa para ninguém, volta a representar os comunistas na eleição para a presidência da Câmara de Lisboa. Como se não houvesse mais ninguém lá no partido que possa concorrer seja para o que for.

Vão sempre buscar o mesmo, como aqui escrevi em Setembro de 2020.

O monopolista. Eterno estagiário para secretário-geral do PCP.

Eleições autárquicas em Lisboa

jpt, 29.03.21

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Está ao rubro a corrida para o município de Lisboa: o futuro PM Medina recandidatar-se-á, PSD/CDS reuniram-se em torno do antigo Comissário Europeu Moedas, o Chega já se chegou à frente com um coriáceo que quer matar quase tudo e quase todos, a IL na pressa até se enganou no candidato e depois lá arranjou outro, o BE  seguiu o parecer de Fernando Rosas, sempre crente nas "nossas meninas", e aproveitou para se vingar do atarantado Rui Tavares jogando, fulminante, a "carta étnica" (como agora está na moda dizer). E, finalmente, o PCP apresenta como candidato o príncipe Charles, o qual continua bem apessoado. 

Vai ser interessante.

 

O centenário do PCP

jpt, 09.03.21
 

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O meu pai foi militante comunista até morrer, inabalável nisso. Há nove anos, na cama do hospital, a última coisa que nos disse foi uma resposta a uma das minhas sobrinhas, que ele adorava. Ela, carinhosa, quis animá-lo num "avô, hoje estás com melhor aspecto, mais rosadinho". E ele, ali tão pequeno de mirrado, quase translúcido, murmurou a sua última ironia: "rosa por fora mas vermelho por dentro". Morreu horas depois.
 
Cresci a discutir política com ele. Um dia, ainda na minha adolescência, o debate terá aquecido em demasia. Logo a minha avó materna - que tinha memória adolescente do 6 de Outubro de 1910 em Bragança, e que detestava Mário Soares pois considerava-o igualzinho a Afonso Costa, recordo-o para a enquadrar ideologicamente - chamou-me de parte para me dizer "Zé, o teu pai é comunista. Mas é muito bom homem". E tinha ela toda a razão. De facto, o camarada Pimentel foi um bom homem. Tanto que um dia, bem mais tarde, lhe perguntei porque tinha ele chegado até ali: "Esqueces-te que cresci na guerra de Espanha! E depois veio a segunda guerra mundial", na qual a URSS foi determinante e Estaline "pai dos povos" foi símbolo. Mas mais do que isso, mais do que o crescer, foi o viver depois décadas no medíocre e tétrico Portugal salazarento. Vi-o chorar apenas uma vez na vida: no 25 de Abril. Só aos 51 anos se viu livre daquela abjecção! E se me irrito eu, e de que maneira, com estes Sócrates e seus bajuladores - dos Galambas do Jugular aos Fernandes da "Super-Marta" de agora mesmo - bem que posso imaginar o desesperante daquela época, tão pior que era.
 
Mas sobre os comunistas há algo mais do que esta compreensão contextual, tornada simpatia, alargando-a do meu pai até aos seus correligionários contemporâneos. E nisso também podendo entender a adesão comunista entre operários rurais e urbanos explorados de modo indecoroso no Portugal dos Pequenitos CUF, Champallimaud e belas herdades - e continuo a pensar que o episódio mais belo do pós-25 de Abril foi quando comeram o cavalo de João Núncio, uma equideofagia ritual bem apropriada ao fim de uma malvada era.
 
Pois o relevante é que essas gerações de comunistas acreditavam mesmo na bondade da URSS e seus aliados (protectorados, de facto), assumindo-a irrefutável. Até um homem viajado e lido como o meu pai cria, genuinamente, que as críticas e denúncias daqueles regimes eram mera propaganda americana. No caso dele, um verdadeiro "ortodoxo" como então se dizia, não era falta de informação: bem antes de 1974 estudara e viajava no estrangeiro, de onde vinha com revistas e livros - para a minha formação foi interessante crescer entre estantes com os Basil Davidson, Mondlane, Cabral, etc. em livros de bolso ingleses, e é um carinho tê-los herdado. E também Marx, Engels, Lenine e o resto do panteão - agora encaixados em segundas filas atrás das canónicas "Obras Escolhidas" da Avante -, até mesmo Mao, a maioria em versões francesas, bem como os (algo dúbios) franceses, desde o primeiro Garaudy e tantos outros até já Hue. Mas sempre notei que, ainda que bem vasculhadas essas prateleiras, nada ali estava do que desde há décadas na Europa Ocidental se ia desvendando do terror comunista.
 
Depois do 25 de Abril nenhuma dúvida sobre a justeza comunista era aceite, tudo isso era convictamente reduzido a manobras do capitalismo. Portugueses antigos militantes como Silva Marques, Chico da CUF, Cândida Ventura eram ditos traidores, "comprados". E, com óbvias diferenças, também grassava o desconforto com gente como Berlinguer e Carrillo, e até mesmo com Marchais. Internamente também assim era, sopro de suspeição de mero "eurocomunismo" que fosse em qualquer "camarada ou amigo" era razão para imediata desconfiança. E já bem dentro dos anos 1980s era muito mal visto que algum comunista escrevesse na "imprensa burguesa" - mesmo que fosse para apresentar as posições oficiais do PCP de Cunhal. A URSS era o bem, o caminho correcto, o socialismo virtuoso - pois bondoso mas, acima de tudo, com as potencialidades (aquilo da "aretê") devidas à construção do comunismo. O socialismo era já uma realidade histórica benéfica e o comunismo, a tal "sociedade de lazer" - concepção pouco apelativa para o meu pai, frugal e industrialista que era, e que a remetia para uma mera retórica "filosófica" do teórico - viria como normal continuidade do rumo soviético. O XX Congresso apenas enunciara desmandos causados pelos efeitos internos das agressões imperialistas, na Guerra Civil pós-1918 e na II Guerra Mundial. Dores de parto, por assim dizer. E tudo isso era realçado através de inúmeras publicações, desde a patusca (e deliciosa, afianço) "Vida Soviética" - assinada por deveres de militância mas que lá em casa só eu é que (entre)lia, para recortes iconoclastas -, até aos livros de intelectuais "do partido", Urbano Rodrigues, Tavares Rodrigues, Alexandre Babo (nomeio-os de memória, pois estou longe das estantes), etc. que narravam, em reportagens e livros, os esplendores do mundo socialista. Nisso refutando as mentiras da "Voice of America" e quejandos.
 
Com o descalabro da URSS vingou, em particular nas páginas do "Diário" da "verdade a que temos direito", a peculiar teoria explicativa daquele processo, a dos "erros e desvios". E nisso nenhuma autocrítica sistémica nem, muito menos, sombra de dúvida sobre a correcção do ideário. Nessa altura, já adulto e com o "meu Marx", resmungava-lhe que convocar "erros e desvios" não era uma leitura marxista do processo histórico. Mas pouco interessou isso. Foi uma estrondosa derrota histórica, e alguma coisa tinha que ser dita às "massas" para explicar o acontecido. E restou a crença num reinício a breve prazo, algo muito segurado pela espantosa robustez da personalidade de Cunhal. 
 
Nas duas décadas seguintes decerto que houve alguma reconfiguração do PCP, e também dos seus imãs simbólicos. Mas isso pouco acompanhei. Nem em leituras. E as conversas com o meu pai foram muito mudando de temas, dada a vida, a minha emigração, e as tantas coisas que iam acontecendo. Mas também o não querer eu "mexer na ferida". Mas nunca o ouvi, nem disso registo bibliográfico restou em casa, professar qualquer apagamento da cisão advinda do velho conflito sino-soviético. Como tal algo me surpreendi quando, já neste milénio, lá de Moçambique ia percebendo a junção da retórica do "Partido" aos interesses chineses. Quando o Dalai Lama veio a Portugal o PCP botou um texto violentíssimo, com uma verve qual anos 1930s ou similar, nisso sufragando a ocupação colonial do Tibete. Foi o último texto do velho dirigente Aboim Inglez, que morreria pouco depois. Eu viria a resmungar com o meu pai sobre isso e ele encolheu os ombros, num indito "é o que nos resta", mas não secundou a vil arenga. E quando o então jovem Bernardino Soares meteu os pés pelas mãos por causa da Coreia do Norte, nem sequer me respondeu ao remoque. A adesão, por algo distante que pareça, do PCP às ditaduras orientais - avatares modernos do velho "modo de produção asiático", atirava-lhe eu há 30 e tal anos - era-lhe desconfortável. Intelectualmente desconfortável. Mesmo para um "ortodoxo", pois nunca o deixou de ser.
 
O meu pai morreu. O PCP continuou no mesmo rumo simbólico e ideológico. Em 2014 votou contra uma condenação dos crimes do inenarrável regime norte-coreano. Em 2019 o seu secretário-geral tornou a negar uma denúncia da Coreia do Norte, explicitando a sua diferente concepção do que é "democracia" - em termos que seriam escandalosos se tudo aquilo não tivesse decorrido no medíocre, de culturalmente atávico, Portugal geringôncico. Nestes vinte anos de acelerada extroversão do imperalismo chinês nem uma vez o PCP expressou distâncias. Enfim, durante décadas, desde o 25 de Abril, nunca o PCP sinalizou qualquer afastamento às concepções e práticas que comandaram o regime soviético. E persegue agora num patético seguidismo às remanescentes ditaduras do antigo espectro comunista - ainda que a China tenha uma organização económica capitalista o PCP atrai-se pela aparente "superestrutura" política. 
 
Não se trata de acreditar eu que os militantes comunistas actuais queiram tornar Lisboa numa Pyongyang atlântica. Ou de exterminar pela fome as famílias dos bloguistas menos "amigos" e nada "camaradas". Trata-se sim de ter consciência de duas coisas: a primeira é relativa aos comunistas, que seguem neste magma simbólico e ideológico. A sua visão do mundo é, acima de tudo, meramente anti-americana (no que não vão sozinhos..., basta ir até à universidade do Mondego para lhes encontrar congéneres). E ainda que se afirmem defensores dos "direitos" e "liberdades" não têm vínculo, moral ou de ideário, e acima de tudo afectivo, com a liberdade, individual e colectiva. Dela são inimigos, porque a entendem avessa ao futuro que almejam. E ao exercício político do presente. E comprazem-se na memória, e no sonho projectivo, de contextos históricos de atroz esmagamento dessas liberdades. 
 
A segunda questão é-lhes externa. Pois a forma como se entende o PCP é demonstrativa da forma como se entende e actua face ao social. Que muitos locutores auto-percepcionados como de "esquerda" (e até "centristas") surjam agora louvando o PCP será mais do domínio do tacticismo de Costa, que anima este ambiente. Mas há algo de mais profundo, de sociológico. E que melhor exemplo disso do que o do jornalismo de "referência"? Nos últimos anos o jornal "Público" desencadeou uma campanha pelo revisionismo da história portuguesa, muito decalcada de correntes norte-americanas, contando para isso com apoio de alguns académicos portugueses (e, ocasionalmente, de "lusófonos" bem integrados). O "Público" de Manuel Carvalho, e o feixe de académicos e jornalistas que isso vai animando, dizem-nos constantemente que temos de abjurar do respeito por personagens como Diogo Cão ou Duarte Barbosa, devido às formas como pensavam e actuavam. Que temos de nos expurgar desses legados, os quais serão mitos poluentes, factores da construção de uma errónea "identidade" nacional. Da admiração por esses vultos dever-nos-emos autocriticar, desculpabilizar, pois o que os de antanho fizeram - ou escreveram, como António Vieira e Eça de Queirós - moldam-nos as injustas formas de pensar e actuar. E devido a estarmos impregnados de tanto preconceito anterior estamos atreitos a reproduzir, ou a refractar, as injustiças quinhentistas, setecentistas, oitocentistas...
 
E depois, no intervalo desses paleios de activistas missionárias e de intelectuais esfuziantes, o mesmo "Público" faz um número quase-dedicado ao centenário comunista. E dizendo-os - aos nossos compatriotas contemporâneos, agentes políticos empenhados, produtores de textos actuais, influenciadores das práticas e concepções -, como se cândidos utópicos fossem, "em busca de uma sociedade que ainda não existiu". Ou seja, estes comunistas não têm categorias intelectuais ou preconceitos herdados de que se precisem depurar. Apenas procuram o bem. Trata-se do Padroado, por assim dizer. 
 
Se o meu pai fosse vivo no passado domingo eu teria atravessado as fronteiras concelhias para o ir saudar no centenário do "Partido". Teríamos bebido rum - cubano, claro -, ele ter-me-ia dito "calma, bebe mais devagar". Provavelmente teria resmungado mais uma vez "está na altura de deixares de fumar" - ainda que o tenha deixado de fazer apenas aos 77 anos. E eu ter-me-ia defendido agitando o "Público" do dia e resmungando-lhe isto que acabei de botar. E ele ter-me-ia sumarizado: "esses tipos são uns pantomineiros". E eu servir-me-ia de mais um rum.

A gravidez e o gato de Schrödinger

Diogo Noivo, 07.03.21

No nosso vizinho Estado Sentido, o Samuel de Paiva Pires assina um interessante 'postal' sobre a relação tortuosa de parte da direita nacional com o Partido Comunista Português. Muitas das razões aduzidas parecem-me acertadas, desde logo porque bem fundamentadas.

Contudo, creio que o argumento coxeia quando argui que o respeito dos comunistas pelas regras do jogo demoliberal basta como credencial democrática. Discordo: no quadro de um Estado de Direito, a aceitação das normas e procedimentos democráticos constitui um mínimo olímpico. De resto, os partidos e movimentos que os rejeitam são normalmente proibidos por disposições constitucionais.   

As democracias não se distinguem dos demais regimes por força dos procedimentos que adoptam, mas por via dos valores e princípios nos quais se sustentam. Dito de outro modo, o voto e os parlamentos não são exclusivos de regimes democráticos, mas os direitos, liberdades e garantias sim. Acresce que as convicções democráticas, tal como a gravidez, operam numa lógica binária: ou existem, ou não existem. Não dá para estar mais ou menos grávido.

O que nos leva de volta ao PCP. É evidente que os comunistas portugueses aceitam com zelo e escrúpulo os termos do jogo demoliberal, embora a forma como se pronunciam sobre violações gravosas de Direitos Humanos noutras latitudes nos faça duvidar da sua adesão aos valores e princípios nos quais se fundam as democracias. De facto, do comunismo português sobrevém o paradoxo de ser democrático dentro de portas e manifestamente autoritário noutras paragens. É o nosso gato de Schrödinger.

Tem razão o Samuel quando escreve que parte da direita portuguesa ainda não percebeu que o muro caiu. Porém, o “Fim da História” não foi exactamente o prometido. As democracias europeias estão sob acosso à esquerda e à direita, donde importa defender a adesão aos valores democráticos, pois a aceitação dos procedimentos resume-se muitas vezes a lip service. Há, de facto, muita gente que não percebeu 1989, mas não estão todos na direita.

Presidenciais (13)

Pedro Correia, 22.01.21

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Puro marketing político: João Ferreira tem andado a distribuir exemplares da lei fundamental portuguesa a criancinhas e jovens, martelando até ao limite a palavra "Constituição" nas suas intervenções públicas. 

Que eu tivesse reparado, nenhum dos jornalistas que acompanham a exígua caravana deste candidato se lembrou de anotar este dado factual: a Constituição tão exaltada por João Ferreira, na sua versão actual, é muito diferente do texto original de 1976 - único que o PCP aprovou no hemiciclo de São Bento. Depois disso houve sete revisões constitucionais que contaram sempre com a assumida objecção do partido da foice e do martelo. 

O texto agora celebrado pelo representante comunista nas presidenciais é, portanto, aquele a que o PCP se opôs nas sucessivas alterações. Introduzidas em 1982 (diminuição da carga ideológica da Constituição, fim do Conselho da Revolução, criação do Tribunal Constitucional), 1989 (abertura do sistema económico, fim das nacionalizações "irreversíveis"), 1992 (incorporação do Tratado de Maastricht, adesão ao euro), 1997 (reforço dos poderes do parlamento e do Tribunal Constitucional, luz verde a candidaturas independentes nas autarquias), 2001 (ratificação do Tribunal Penal Internacional), 2004 (reforço da autonomia regional, limite dos mandatos dos titulares de cargos políticos executivos) e 2005 (luz verde ao referendo do tratado constitucional europeu). Votando contra as seis primeiras e abstendo-se na mais recente.

O auto-proclamado "candidato da Constituição" apregoa, portanto, aquilo que o seu partido rejeitou. O que não deixa de ter graça, sem diminuir o mérito da sua iniciativa pedagógica: mais vale distribuir exemplares da Constituição do que exemplares do Avante!, um jornal onde nunca faltou quem escrevesse que «as políticas de Estaline terão sido as mais correctas e as únicas que podiam garantir a construção do socialismo e defender as conquistas revolucionárias» .

Caso perdido

Sérgio de Almeida Correia, 01.12.20

PÚBLICO -

O PCP realizou o seu XXI Congresso. Como todos os congressos anteriores, foi um êxito retumbante. Eu atrever-me-ia mesmo a dizer que não há congresso, qualquer que seja o partido político português, que não seja um êxito. Mas os do PCP normalmente ainda são mais extraordinários. 

Muitas foram já as análises efectuadas. Da preparação ao evento, sem esquecer as intervenções de dirigentes e militantes, numa reafirmação da sua cada vez mais desfocada visão do mundo.

Aqui quero apenas salientar um aspecto que continua a acentuar-se, mas que nem por isso leva o PCP a procurar encontrar as razões e, eventualmente, a mudar. Trata-se da contínua quebra do número dos seus militantes, no que são acompanhados por outros partidos nacionais que recusam ou não conseguem renovar-se tal a forma como estão agrilhoados à sua própria mediocridade.

Na análise que ontem publicou, o Público salienta a descida do número de militantes nos últimos oito anos, isto é, de 60 484, em 2012, para 54 280, em 2016, até aos 49 960 de 2020. Ou seja, uma queda de 17,4%.

Se recuarmos um pouco mais verificamos que em 1983 o PCP tinha 200 753 militantes; em 1996 eram 140 000; e em 2006 esse número atingia 80 000. Entre 2006 e 2012 o PCP perdeu quase 20 mil militantes.

Nas Teses apresentadas ao XXI Congresso continua-se a sublinhar que "[o] Partido, para agir e desempenhar o seu papel de vanguarda na concretização dos seus objectivos, precisa de uma organização forte, estruturada e ligada às massas", esclarecendo-se que o número actual de militantes resulta de "uma redução ligada ao facto do número de recrutamentos não ter compensado o número de camaradas que deixaram de contar como membros do Partido", o que parece ser uma evidência lapalissiana, mas acrescenta-se que tal é devido "principalmente em consequência de falecimentos".

Durante anos procurei averiguar as razões para essa quebra, como fiz em relação a outros partidos, não me ficando pelo "principalmente". Até hoje o PCP não esclareceu, nem quer esclarecer, quantos dos que deixaram de constar como militantes saíram das suas listas por terem falecido, por descontentamento com a linha ideológica, por não concordarem com as práticas internas do partido ou por qualquer outra razão que os levasse a abandonar a militância.

Dizer apenas que a maior parte dos que saem representam "principalmente" falecimentos é o mesmo que não dizer nada. E o facto de 49% dos militantes do PCP terem mais de 64 anos, e apenas 11,4% terem menos de 40 anos, também não ajuda muito, porque não só não consta que nos outros partidos "morram" tantos militantes como no PCP, como se sabe que nos outros há quem não fique à espera da hora da morte para ser abatido nos cadernos de militantes.

Escrevia o Pedro Correia que depois da derrocada eleitoral nos Açores o PCP irá continuar a aprender à sua própria custa com as eleições que hão-de vir.

Não comungo desse optimismo. Aprender à sua própria custa ainda seria uma forma de aprender. Não me parece que possa vir a ser esse o caso.

Porém, olhando para a evolução dos números dos militantes do PCP ao longo das últimas décadas, para as teses do último e de todos os outros congressos que o antecederam, ouvindo os discursos e vendo a forma como vai diminuindo a influência política e social do partido, dir-se-ia que não querem aprender nada. Recusam-se a aprender, como também rejeitam mudar as lentes que usam, por mais riscadas e picadas que estejam, tentando convencer os outros de que aquelas é que são boas porque não partem de cada vez que caem ao chão. Ouvir alguns dos seus dirigentes hoje ou há quarenta anos é exactamente a mesma coisa.

O mundo mudou. O PCP e os seus dirigentes ainda não se aperceberam disso. E dos militantes que se aperceberam o PCP diz que só se libertam na hora da morte. 

Sem mudar de lentes e a manter-se a constância de "falecimentos" dos seus militantes, com mais alguns congressos, o PCP arrisca transformar-se definitivamente num fantasma que andará pelo meio de quatro paredes à procura da sua sombra.

Enquanto lá fora a luta continuará. Sem o PCP. E com andrés e venturinhas descendo a Avenida da Liberdade.

Aprenderão à custa deles

Pedro Correia, 30.11.20

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Como aqui antecipei na sexta-feira, nada de relevante foi debatido no XXI Congresso do PCP, que bem poderia - e deveria - ter sido adiado. Jerónimo de Sousa foi reeleito para um quinto mandato como secretário-geral, função que ocupa há 16 anos, e a resolução política foi aprovada por unanimidade, algo bem revelador do monolitismo comunista. O Comité Central mereceu a aprovação de 98,5% dos congressistas, em votação digna da defunta Albânia vermelha, e o candidato vai-a-todas João Ferreira tomou assento na Comissão Política, sério indício de que é o delfim ungido pela velha guarda.

Não havia pressa nem necessidade de nada disto ter ocorrido no momento em que ocorreu. Invocar a lei de 1986, jamais concebida a pensar numa pandemia, para insistir na realização em 2020 de um congresso partidário em estado de emergência num concelho classificado de alto risco sanitário e em que a própria população local está submetida a recolher obrigatório, é mais do que cinismo ou sonsice: é pura estupidez, que só contribuirá para aumentar ainda mais os índices de rejeição do PCP junto dos portugueses.

 

Os comunistas, entrincheirados numa bolha endogâmica, invocam com sofisma essa lei, que em caso algum os impediria de adiar a reunião magna (como fizeram PS, BE e PSD-Madeira) ou realizá-la por via digital (como fez há duas semanas a Iniciativa Liberal).

Em qualquer dos casos, estaria salvaguardado não apenas o respeito pela letra mas também pelo espírito do diploma de 1986.

 

O problema é que o PCP tenta moldar a realidade às suas teses em vez de proceder em sentido contrário, como seria sensato e curial. Tendo votado contra o estado de emergência, procede como se ele não existisse (privilégio negado ao cidadão comum). Ao insistir em chamar "epidemia" à pandemia, como se o novo coronavírus fosse sarna ou sarampo, faz vibrar de júbilo algum negacionismo militante mas não consegue alterar os factos. Que são teimosos, como ensinava Lenine.

Pelos vistos a recente derrocada eleitoral nos Açores, onde o partido foi riscado da Assembleia Legislativa Regional, não ensinou nada aos comunistas. Acabarão por aprender de maneira ainda mais dolorosa, à sua custa, em todas as eleições que hão-de vir.

Toma lá, dá cá

Pedro Correia, 27.11.20

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1

Raras vezes uma barganha política ficou tão evidente na mercearia interpartidária: o PCP inaugura hoje o seu XXI Congresso, em Loures, após ter viabilizado ontem as contas públicas para 2021 propostas pelo Governo minoritário do PS naquele que foi o último suspiro da "geringonça", nascida em Novembro de 2015 e falecida neste ano da desgraça de 2020.

É algo que, ao nível da linguagem popular, se traduz na expressão "toma lá, dá cá". Neste caso - e na perspectiva do Governo - toma lá congresso, dá cá voto parlamentar. E nem foi necessário ser um voto favorável: para aprovar o Orçamento do Estado bastou a abstenção do partido vermelho e do seu vitalício apêndice verde.

Não custa vaticinar que foi a última vez que tal aconteceu. A tentação de romper já com o PS, a exemplo do que fez o Bloco de Esquerda, era grande entre os comunistas. Também não custa perceber que a aprovação da Direcção-Geral de Saúde ao conclave partidário num dos derradeiros bastiões autárquicos do PCP funcionou como moeda de troca. Apesar de Loures ser um concelho de alto risco sanitário e o congresso implicar a mobilização de centenas de militantes oriundos das mais diversas partes do País em pleno estado de emergência.

Tudo à semelhança do que já sucedera noutros actos litúrgicos a que o clero comunista atribui prioridade absoluta nos seus rituais de culto: o 1.º de Maio, este ano celebrado com a CGTP a violar a interdição governamental de circulação entre concelhos, e a Festa do Avante!, no primeiro fim de semana de Setembro, quando a segunda vaga da pandemia já galopava no Seixal, outro concelho de elevado risco. Dias depois, quando a progressão do vírus se tornara iniludível, o Governo declarou todo o território nacional continental em "situação de contingência".

 

2

Cumpre assinalar que nada de relevante será debatido neste congresso. No PCP, que tem metade do Comité Central composto por funcionários do próprio partido, sem efectiva ligação ao mundo do trabalho real, todo o processo de decisão ocorre à porta fechada, nas impenetráveis reuniões do Secretariado (oito homens, duas mulheres) e da Comissão Política (18 homens, três mulheres), nunca sujeitas ao menor escrutínio jornalístico.

O conclave será um mero desfile de monótonos discursos formalmente "anti-sistema", proferidos sempre no mesmo estilo, no mesmo tom e na mesma langue de bois repleta de chavões forjados num partido ainda "revolucionário" de fachada mas rendido ao reformismo burguês. E que usufrui hoje de chocantes privilégios negados ao cidadão comum: enquanto a população se vê forçada a encerrar-se em casa, no próprio concelho de Loures, os congressistas usufruem ali de livre-trânsito em aberto desafio ao recolher obrigatório.

Tudo isto para no domingo reconduzirem como figura máxima o mesmo secretário-geral que ocupa o cargo há 16 anos. Homem, claro: nunca o PCP foi liderado por uma mulher ou teve sequer uma mulher à frente da sua bancada parlamentar. E alguém que é funcionário do partido há largas décadas, como acontece com tantos outros dirigentes, intitulados "operários" sem o serem de facto.

 

3

Toma lá o último apoio parlamentar; dá cá congresso e três dias de tempo de antena, a meses das autárquicas, com chancela das autoridades sanitárias: eis o recado de Jerónimo de Sousa a António Costa. O primeiro-ministro, que se prepara para votar Marcelo Rebelo de Sousa na eleição presidencial de 24 de Janeiro, deixa de ter amparo à esquerda.

Longe vão os tempos das manchetes festivas, em que as trombetas da propaganda governamental enalteciam o ilusório "milagre sanitário" português. Mais longínquos ainda, os dias em que Costa fazia graçolas com uma frase que terá sido proferida por Passos Coelho ao advertir que "vinha aí o diabo".

Pois o diabo chegou, em forma de vírus. Já estilhaçou a "geringonça" e já retirou o PS do Governo dos Açores ao fim de 24 anos de poder absoluto. Na crescente solidão do seu gabinete, Costa estará hoje cem vezes arrependido das farpas que lançou a Passos. Enquanto ganha ânimo para anunciar aos portugueses que este ano não haverá Natal.

O vírus é reaccionário

Pedro Correia, 16.11.20

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O recente fracasso nos Açores, onde foi excluído da Assembleia Legislativa Regional por decisão dos eleitores, parece não ter ensinado nada ao PCP: os comunistas teimam em marchar em sentido oposto às medidas de elementar precaução sanitária.

Cegos perante as evidências e surdos ao apelo quase lancinante do primeiro-ministro: «A regra é simples: temos de ficar em casa.»

 

O Governo tem sido justamente criticado pela caótica gestão da comunicação em tempo de pandemia: estabelece a regra e contemporiza com toda a espécie de excepções, incentivando assim os portugueses a contornar a norma - exercício em que somos exímios.

Nada contribuiu tanto para isso como o comportamento refractário do PCP, acolitado pelo seu braço sindical, a CGTP. Furou o dever geral de confinamento com a "celebração" do 1.º de Maio na Alameda, em pleno estado de emergência. Insistiu em promover a Festa do Avante! (ao contrário do que fez o Partido Comunista Francês, que anulou de imediato a sua quase centenária Festa do L' Humanité), quando as estatísticas sobre novas infecções já eram alarmantes. E persiste agora em manter o congresso, com uma chocante indiferença pelas vítimas da pandemia, quando ultrapassámos os 500 óbitos por semana.

Ao contrário do que fez o PS, que adiou sine die o congresso nacional previsto para Maio. Ao contrário do que fez o PSD, que cancelou todas as festas partidárias - mesmo as mais emblemáticas, como as do Pontal e do Chão da Lagoa. Ao contrário do que fez o Bloco de Esquerda, que adiou para a Primavera de 2021 a XII Convenção Nacional do partido e desmarcou o seu acampamento de Verão.

O PCP, ao invés, persiste em moldar a realidade aos seus desejos. Com idêntica obstinação, chama "epidemia" à pandemia. Num afã negacionista, similar ao que todos os anos, na Assembleia da República, leva os comunistas a opor-se aos voto de congratulação pela queda do tenebroso Muro de Berlim, como há dias voltou a acontecer. Quatro décadas depois, mostram-se incapazes de aprender elementares lições da História.

 

O Presidente da República já advertiu: «Aquilo que for decidido para o estado de emergência, no futuro, será igual para todos.» Mas António Costa precisa dos votos do PCP - e do seu apêndice verde - para ver aprovado o Orçamento do Estado de 2021. Cederá, portanto, a qualquer capricho dos comunistas. Mesmo que o Governo faça uma breve pausa no estado de emergência para que o partido da foice e do martelo reúna tranquilamente no conclave de Loures, entre 27 e 29 de Novembro, e retome o confinamento geral na segunda-feira, dia 30. 

Que isto acabe por engrossar a maré dos protestos colectivos, cada vez mais inflamados, é o preço que Costa paga para obter o aval de Jerónimo de Sousa às suas contas, tornando-se refém político dos comunistas. As consequências deste abraço de urso a um Governo em queda de popularidade ficarão à vista nas autárquicas de 2021, para uns e outros. 

No fim acabarão todos por culpar o vírus, chamando-lhe reaccionário.

O apêndice

Pedro Correia, 27.10.20

Durante dois dias, imperou o suspense: como iriam votar "os verdes" na proposta de Orçamento do Estado para 2021?

Os meios de comunicação social alimentaram esta cantilena como se não soubessem que o chamado Partido Ecologista Os Verdes não existe: é mero apêndice verde do partido vermelho que lhe serve de barriga de aluguer. Nem tentam disfarçar: criados em 1982, nunca até hoje concorreram isolados a uma só eleição. Legislativa, regional, local, europeia. Nem uma para amostra.

Hoje, veio a confirmação: o apêndice vai abster-se na generalidade, viabilizando o OE 2021. Seguindo o exemplo de quem sempre lhe serviu de farol e guia.

Tanto barulho para quê?

 

Leitura complementar: "Arejar um pouco a malquerença"

Vão sempre buscar o mesmo

Pedro Correia, 12.09.20

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Em 2013, João Ferreira foi o candidato do PCP à presidência da Câmara de Lisboa. Quatro anos depois, voltou a encabeçar a lista à principal autarquia do País.

 

Em 2014, João Ferreira foi candidato do PCP ao Parlamento Europeu, onde já tinha assento desde 2009, liderando nesse ano a lista comunista. Em 2019, voltou a figurar no topo da lista à eurocâmara apresentada pelo partido da foice e do martelo.

 

Em Janeiro de 2021, João Ferreira - já eurodeputado e vereador além de membro do Comité Central - será o candidato do PCP à Presidência da República, como acaba de ser anunciado pelo secretário-geral do partido.

 

Não custa perceber que estas sucessivas candidaturas a três instituições políticas muito diferentes são etapas de um tirocínio partidário: João Ferreira prepara-se para substituir Jerónimo de Sousa no posto de comando da Rua Soeiro Pereira Gomes, a confirmar no próximo ano.

 

Um homem que vai a todas. Numa confirmação implícita de que o PCP sofre uma grave crise de recrutamento e uma notória incapacidade de renovação de quadros: seja para o que for, vão sempre buscar o mesmo. Apesar de não perderem uma oportunidade de gritar «contra os monopólios».

A degenerescência de Pacheco Pereira

jpt, 06.09.20

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(Festa do Avante, 2020: ninguém para lhe dizer "ó camarada!, toma lá uma T-shirt que não parece bem estares assim vestido ...")

 

O comentador Pacheco Pereira, conhecido do "grande público" pela participação num programa televisivo de comentário político reinstalado após pressão do secretário-geral do PS, no qual agora ombreia com a adjunta deste, apresentado numa estação propriedade de um conjunto de empresas portuguesas (e de figuras gradas dos espectáculos populares, como Cristina Ferreira, Pedro Abrunhosa e Tony Carreira), publicou em 5.9.2020, no "Público", jornal propriedade do grupo SONAE, este naco: "Mas a fúria actual com a Festa do Avante! é tudo menos inocente. Tem uma clara motivação política, longe de qualquer preocupação com a pandemia ( ...) 

No recinto [da Festa] são comuns formas de reconhecimento tribal entre “camaradas”, quer através das bancas de comida, objectos, artesanato local, quer inclusive com as delegações estrangeiras de outros partidos comunistas e movimentos revolucionários. A Festa é ao mesmo tempo provinciana e cosmopolita, e transmite aos que a visitam esse sentimento de que fazem parte de uma comunidade nacional e de um movimento internacional, com amigos e inimigos. (...) 

[A raiva contra a Festa do Avante] insere-se numa clara deslocação para um radicalismo de direita que se tem vindo a acentuar em várias áreas da sociedade portuguesa, e de que o Chega é apenas a ala populista mais visível, e as redes sociais o viveiro do ódio, mas que encontra expressão numa elite que está órfã do poder, apoiada em think tanks, subsidiados por grupos empresariais, com um peso crescente na comunicação social. Repetirei de novo que uma parte importante desta deriva vem da impotência, mas com o tempo essa impotência transforma-se em raiva. A vida política portuguesa vai ser crescentemente perigosa, num caminho que encontra em Trump um inspirador não nomeado por vergonha, mas real.  ( ...)".

Há três décadas o comentador foi meu professor, e muito bom nisso. Há uma dúzia de anos esteve em Maputo, onde, gratuitamente e apenas por respeito, fiz o possível por ajudar a organização que ali o levara a enquadrá-lo o melhor possível. Espero agora nunca mais me cruzar com o traste que lhe ocupou o corpo. E a mente.

 

Adenda: há meses um holigão fez a saudação fascista num comício do prof. Ventura (sobre isso escrevi isto). Mas não apreciar os javardos que se passeiam com o Estaline na pança já é ser adepto do Trump, jpp dixit ... 

 

Festejar o quê?

Pedro Correia, 04.09.20

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Há dois meses, perdi um bom amigo que conhecia desde 1983. Há um mês, perdi uma pessoa de família muito próxima.

Nem num caso nem no outro pude comparecer nos respectivos velórios e funerais: o numerus clausus imposto pelas autoridades sanitárias é de tal modo apertado que nos impede, quase sempre, de marcar presença nestas tristes despedidas.

 

Liga-me um amigo residente em Viseu. Diz-me que o cancelamento da Feira de São Mateus, o maior cartaz turístico anual da cidade, causou prejuízos incomensuráveis a um sem-número de micro, pequenos e médios empresários de toda a região que costumavam aproveitar aquele certame para escoarem produtos, muitas vezes confeccionados por eles próprios, e conseguirem novos clientes.

Todas as feiras e romarias portuguesas - algumas com tradição plurissecular - foram anuladas este Verão, tal como a esmagadora maioria dos festivais musicais de Verão. O que bastou para colocar milhares de postos de trabalho directos e indirectos em risco imediato de extinção. Na melhor das hipóteses, remetendo as pessoas para o lay-off, espécie de antecâmara do desemprego. Com nome "amaricano", para suavizar a coisa.

 

O futebol prepara-se para recomeçar como terminou há dois meses: sem público nas bancadas. Com o Governo a encolher os ombros e a chutar para canto.

Sabendo, como sabe, que futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas - e as receitas de lugares nas bancadas, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de todas as agremiações desportivas.

Sabendo, como sabe, que da sobrevivência dos clubes depende a sobrevivência do desporto. E que uma sociedade sem desporto é uma sociedade doente.

 

É neste pano de fundo que ocorre hoje a abertura da "Festa" do Avante! Na zona do País onde se tem registado maior progressão de casos de contaminação com Covid-19 e depois de o PCP ter andado semanas aos gritos, queixando-se de estar a ser «discriminado». Como se a discriminação não fosse em sentido contrário: com a conivência pusilânime do Governo, que necessita dos votos comunistas para viabilizar o próximo Orçamento do Estado, o partido da foice e do martelo usufrui do privilégio de realizar o seu festival partidário. Com chocante indiferença perante o sofrimento de tantos portugueses, como se houvesse alguma coisa para celebrar neste macabro ano de 2020.

Basta vermos a sorridente e festiva capa do jornal Avante! de ontem, totalmente divorciada da realidade, para sentirmos isto. No mesmo dia em que houve 406 novos casos de infecção e mais quatro mortos - todos estes óbitos e 194 dos novos infectados com Covid-19 registados na região da Grande Lisboa, onde vai desenrolar-se o "piquenicão" do PCP.

 

Alegam os comunistas que a comparação com os malogrados festivais musicais de Verão anulados por imperativo categórico da Direcção-Geral da Saúde não faz sentido. 

Talvez não faça, mas num sentido diferente: há mais músicos e bandas a participar nesta "Festa" do Avante! do que haveria na esmagadora maioria dos espectáculos que ficaram por concretizar. 

Basta passar em revista quem actuará entre hoje e domingo na Quinta da Atalaia. Deixo aqui (por ordem alfabética) a lista dos participantes convidados pelo PCP: Albert Fish, Aldina Duarte, Ana Laíns, Ana Sofia Varela, Anastácia Carvalho, Blasted, Camané, Capicua, Cidália Moreira, Costa Neto, Dead Combo, Dino d' Santiago, El Sur, Galo Gordo, Gerson Mata, Lena d' Água, Luís Caeiro, Luta Livre, Mão Morta, Maria Alice, Mário Laginha, Marta Ren, Model Mother Tongue, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal, Peste & Sida, PTA Slowmo, Rogério Charraz, Scurú Fitchádu, Stereossauro, Uxu Kalhus, Vénus Matina, Xutos & Pontapés, Zebra Libra.

 

E de novo pergunto: vão festejar o que?

Penso rápido (97)

Pedro Correia, 12.08.20

O PCP resiste como "muralha d'aço" a esta enorme contradição: em território português, defende a "justa luta" dos trabalhadores. Nos países onde vigoram as ditaduras dos partidos-irmãos, de Cuba à Coreia, passando pela China, defende os regimes tirânicos, que esmagam os trabalhadores.

Enquanto mantiver esta duplicidade jamais poderá ser levado a sério, por mais generosos que sejam muitos dos seus militantes, genuinamente apostados em construir uma sociedade mais justa.

PCP "festeja" em tempo de luto

Pedro Correia, 26.07.20

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O PCP decalcou a sua badalada Festa do Avante! da Fête de l' Humanité, aludindo ao jornal L' Humanité, órgão central do Partido Comunista Francês (PCF). A tal ponto que até copiou o título, embora este resulte bem melhor em francês (Festa da Humanidade) do que em português.

O festival comunista por terras de França é uma tradição bastante mais enraizada: a edição inaugural do evento ocorreu em 1930, muito antes de Jerónimo de Sousa ter nascido e quando o próprio Álvaro Cunhal - líder histórico do PCP - contava apenas 16 primaveras.

 

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Apesar disso, o PCF não hesitou: acaba de anunciar o cancelamento da 85.ª edição da sua "Festa da Humanidade", invocando o que qualquer pessoa ou qualquer organização partidária responsável têm a obrigação de reconhecer em nome do mais elementar bom senso: o «contexto sanitário actual». Isto apesar de, no momento actual, França registar menos casos de infecção pelo novo coronavírus por milhão de habitantes do que o nosso país: 2.765 lá, 4.900 casos cá.

Sabendo-se ainda por cima que o festival dos comunistas portugueses se realiza na Área Metropolitana de Lisboa, precisamente a que tem sido mais fustigada por novos surtos da pandemia, é cada vez mais incompreensível a obstinação dos dirigentes do PCP, que teimam em levar a sua avante. À revelia de todas as recomendações sanitárias e da solidariedade que é devida não apenas aos familiares das vítimas mas aos profissionais da saúde que se mantêm firmes no duro combate à doença.

É caso, além do mais, para questionar o PCP: o que haverá para "festejar" num país onde todos os dias surgem novas famílias enlutadas pelo Covid-19 e numa sociedade tolhida pelo medo crescente de novas infecções?