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Delito de Opinião

Promete «fazer cumprir» o que rejeitou

Pedro Correia, 09.01.26

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O candidato do Comité Central do PCP ao Palácio de Belém inclui com insistência monótona e mecânica a palavra "Constituição" nas suas intervenções públicas. «A Constituição portuguesa tem de ser cumprida», acentua uma vez e outra. Como se fosse fiel guardião da lei fundamental.

Que eu tivesse reparado, nenhum jornalista que acompanha a exígua caravana deste candidato se lembrou de anotar este dado factual: a Constituição tão exaltada por António Filipe, na sua versão actual, é muito diferente do texto original de 1976 - único que o PCP aprovou no hemiciclo de São Bento. Depois houve sete revisões constitucionais que contaram sempre com a frontal objecção do partido da foice e do martelo. 

O texto agora celebrado pelo representante comunista nas presidenciais é, portanto, aquele a que o PCP se opôs nas sucessivas alterações. Introduzidas em 1982 (diminuição da carga ideológica da Constituição, fim do Conselho da Revolução, criação do Tribunal Constitucional), 1989 (abertura do sistema económico, fim das nacionalizações "irreversíveis"), 1992 (incorporação do Tratado de Maastricht, adesão ao euro), 1997 (reforço dos poderes do parlamento e do Tribunal Constitucional, luz verde a candidaturas independentes nas autarquias), 2001 (ratificação do Tribunal Penal Internacional), 2004 (reforço da autonomia regional, limite dos mandatos dos titulares de cargos políticos executivos) e 2005 (luz verde ao referendo do tratado constitucional europeu). Votando contra as seis primeiras e abstendo-se na mais recente.

O auto-proclamado «candidato da Constituição» enaltece, portanto, aquilo que o seu partido rejeitou. O que não deixa de ter graça, sem diminuir o mérito da sua iniciativa pedagógica: mais vale transportar edições de bolso da lei fundamental do que exemplares do Avante!, um jornal onde nunca faltou quem escrevesse que «as políticas de Estaline terão sido as mais correctas e as únicas que podiam garantir a construção do socialismo e defender as conquistas revolucionárias» .

Este homem ri de quê?

Pedro Correia, 15.10.25

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Paulo Raimundo em conferência de imprensa na noite de domingo, 12 de Outubro, após o Partido Comunista Português ter sido copiosamente derrotado nas duas últimas capitais de distrito que ainda dominava - Évora, onde foi terceiro, e Setúbal, onde ficou em quarto - e ter perdido o último bastião autárquico a norte do Tejo (Sobral de Monte Agraço). Viu fugir mais de um terço das autarquias vermelhas, já muito escassas: Alcácer do Sal, Benavente, Grândola, Monforte, Santiago do Cacém, Serpa, Viana do Alentejo e Vidigueira - além das antes mencionadas.

Assim se vê a decadência do PC.

E no entanto, ele vai rindo. E os camaradas também. Falta saber de quê.

A candidatura presidencial do PCP

jpt, 01.07.25

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O PCP anunciou o seu candidato presidencial, o seu antigo assessor parlamentar António Filipe, personalidade cuja simpatia já vi sublinhada por amigos meus, os quais mesmo não sendo comunistas estarão agora algo agradados pela ascensão de pessoa de tão bom trato.

Eu não conheço o indivíduo. Só isto, que notei em postal de 7.6.2022: "O sempre muito elogiado, pelo seu gentil trato e cordialidade democrática, António Filipe (...) não "vai à bola" com as razões ucranianas. Quando, na sequência da "operação militar especial" russa, o presidente daquele país discursou no parlamento, logo o assessor parlamentar aventou que se convidasse o neonazi Mário Machado. E agora (...) volta ao sarcasmo sobre o líder do devastado país, botando na sua conta no Twitter (na qual se desdobra em dislates, até surpreendentes): "Havia o penalty à Panenka. Agora há o auto-golo à Zelenski".

É este o lixo que o PCP tem. E é por este lixo "cordial" que alguns amigos têm simpatia...

Um favor ao Governo

Pedro Correia, 18.06.25

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Um micropartido político, o PCP, acaba de fazer um inestimável favor ao Governo recém-empossado. Concedendo-lhe expressiva vitória no parlamento. A moção de rejeição apresentada pela residual bancada rubra só obteve dez votos favoráveis - os três do grupo proponente, os seis do Livre e a deputada única Mariana Mortágua, legítima herdeira da velha UDP, que nas primeiras legislaturas ocupava o solitário assento da extrema-esquerda. O PAN, tão solitário como o BE, absteve-se. Toda a restante câmara legislativa chumbou a anémica moção comunista: PSD, Chega, PS, IL, CDS e JPP. Ou seja, 219 em 230 deputados. Difícil haver maioria mais ampla do que esta.

Luís Montenegro deve enviar um cartãozinho de agradecimento ao Comité Central. Cortesia quase obrigatória, atendendo ao que hoje aconteceu no hemiciclo.

Misoginia comunista e socialista

Pedro Correia, 12.06.25

Oiço gente próxima do PS e do PCP criticar o novo Governo por ter «menos mulheres em pastas ministeriais». Curiosas, estas críticas. Vindas de militantes ou simpatizantes de dois partidos que nunca tiveram lideranças femininas.

Vale a pena lembrar que o PCP existe há 104 anos e o PS já tem 52 anos. Tempo mais do que suficiente, em qualquer dos casos, para se aliviarem da ganga misógina que continua a dominá-los.

Em velocidade acelerada contra a parede

Pedro Correia, 23.05.25

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O PCP, após mais uma duríssima derrota eleitoral em que se viu ultrapassado até pelo Livre, apressou-se a anunciar ao País que irá apresentar uma moção de rejeição ao Governo. Novidade nenhuma: é o que faz sempre, em reflexo condicionado.

Mas a que Governo? Não há Governo. Ainda se desconhece quem integrará o próximo Executivo, qual será a sua estrutura orgânica e o seu programa.

Não há sequer data para a tomada de posse. Nem para a entrada em funcionamento da nova legislatura. Decorrem audiências entre o Presidente da República e os representantes dos partidos políticos.

Pormenores irrelevantes: para os comunistas, nada disso importa.

O anarquista da anedota anunciava: «Hay Gobierno? Soy contra.»

Os que restam da velha tribo vermelha fazem pior: proclamam-se contra ainda antes de existir Governo. Batem no peito à Tarzan, fazendo lembrar outra anedota - desta vez a da formiga e do elefante.

Enquanto os netos votam no Chega.

 

É patética, esta atracção suicidária do partido da foice e do martelo supondo que assim constrói mais depressa a "sociedade socialista". Sem perceber ainda, contra todas as evidências, que cada escrutínio lhe vai diminuindo sucessivas parcelas do seu grupo parlamentar.

Recapitulemos o que aconteceu ao PCP nos últimos dez anos, em que houve cinco eleições legislativas - à média de uma por biénio.

Em 2015 recolheu 445 mil votos, elegendo 17 deputados.

Em 2019 recebeu 332 mil votos, elegendo 12 deputados.

Em 2022 baixou para 238 mil votos, elegendo apenas seis deputados. Ficou com a bancada reduzida a metade.

Em 2024 não conseguiu melhor do que 205 mil votos, perdendo um terço dos parlamentares. Passaram a ser só quatro.

A 18 de Maio superou nova fasquia negativa ao receber apenas 180 mil votos. Perdeu 25% do grupo parlamentar, baixando de quatro para três deputados. Com o histórico António Filipe fora do hemiciclo.

 

Vale a pena recordar: este é o mesmo partido que em 1979, na segunda eleição para a Assembleia da República, obteve mais de 1,1 milhões de votos, correspondentes a 47 lugares no Parlamento.

Desde então viu fugir quase um milhão de eleitores, foi incapaz de se renovar, perdeu o contacto com as gerações mais jovens, tornou-se irreconhecível.

Resta-lhe brincar às moções de rejeição e censura imaginando sempre, como fantasia suprema, uma revolução em marcha. Sem perceber que essa estrada onde circula tão veloz em marcha-atrás irá terminar abruptamente. Numa parede.

Sugestões de novos cartazes ao Chega

Pedro Correia, 02.04.25

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Eis uma pequena amostra do que foi espalhado em Portugal há 45 anos visando o presidente do PSD (e depois primeiro-ministro) Francisco Sá Carneiro, acrescidos de inscrições nas paredes em que o insultavam das mais diversas formas - até ao dia da sua trágica morte, a 4 de Dezembro de 1980.

Se quiser adaptá-los a Luís Montenegro, para prosseguir a actual campanha de difamação, André Ventura precisa, porém, de pagar direitos de autor ao Partido Comunista.

Sempre com Moscovo, nunca com Kiev

Pedro Correia, 20.03.25

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A bancada do PCP rompeu ontem uma praxe parlamentar recusando aplaudir uma delegação de deputados da Ucrânia em visita a Lisboa, acompanhada da embaixadora de Kiev no nosso país, Maryna Mykhailenko. Enquanto os representantes dos restantes partidos se levantaram para o habitual gesto de cortesia aos visitantes na galeria dos convidados da Assembleia da República, Alfredo Maia, António Filipe e Paula Santos permaneceram nos seus lugares, indiferentes à presença daqueles deputados, todos membros do Grupo de Amizade Portugal-Ucrânia.

Atitude miserável, mas nada surpreendente.

A 24 de Fevereiro, o PCP esteve igualmente isolado ao recusar participar num minuto de silêncio no hemiciclo em memória das vítimas da guerra, no terceiro aniversário da invasão da Ucrânia pelas forças bélicas da Federação Russa.

A 28 de Fevereiro, rejeitou associar-se a um voto de solidariedade com o povo ucraniano apresentado na sala de sessões do parlamento pelo próprio presidente deste órgão. O documento redigido por Aguiar-Branco exprimia «o compromisso de Portugal para com a construção de uma paz justa, que preserve a ordem internacional baseada em regras, proteja a soberania e a integridade territorial dos Estados e assegure o respeito pelos direitos humanos, pela liberdade e pela democracia».

No final da votação, todos os deputados aplaudiram de pé. Todos? Todos não: os comunistas permaneceram sentados. Solidários com Moscovo, jamais com Kiev.

Comportam-se como vassalos de Putin, comungando da devoção beata de Álvaro Cunhal pela Rússia, que o histórico dirigente comunista venerava como «o sol da Terra».

 

P. S. - Alguns membros do PCP, nas redes sociais, acusam Zelenski de «ter ilegalizado» o PC ucraniano. Aldrabice, que o Polígrafo já desmascarou.

 

Leitura complementar: A "linguagem de rua" no blog

A "linguagem de rua" no blog

jpt, 19.03.25

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Há uns dias o Pedro Correia deixou aqui um postal referindo que uma simpática leitora do DO lhe confidenciara o seu desagrado pela utilização de palavrões neste blog. Acontece que por vezes eu me liberto da tenaz que a minha irmã e a minha filha constituem e deixo correr a "linguagem de rua" - serei o único a pecar entre os prezados (e educadíssimos) co-bloguistas, talvez haja algum comentador (mais ou menos anónimo) que me acompanhe nesse rumo de franqueza popular, assim também maculando o belo blog.

Ainda que ateu, penitencio-me por esses erros, advindos de graves falhas de personalidade. Pois quando vejo coisas como estas, isto dos deputados do PCP António Filipe, Paula Santos e Alfredo Maia (este último um tipo que foi durante uma década presidente do Sindicato de Jornalistas, o que imenso diz da "classe") não só recusando acolher com aplausos os visitantes parlamentares ucranianos mas, mais do que isso, dando-lhes as costas - não se trata apenas de uma recusa simbólica de aplauso, uma posição política, é mais do que isso - ocorrem-me alguns termos desagradáveis às simpáticas leitoras do DO.

E ocorrem-me outras coisas, neste perigoso registo de associação de ideias: um presidente da república estrangeiro, o ucraniano, é convidado a discursar na Assembleia da República. E um funcionário parlamentar deixa-se em dislates públicos apoucando o convidado e a situação. E nisso afrontando o órgão de soberania no qual trabalha. "O que é isto, então agora o pessoal menor tem estas atitudes?" dirá, curialmente, qualquer simpática leitora do DO. Eu, desse António Filipe, disse e digo outras coisas... E lembro-me do escritor comunista Mário Carvalho ("ai que belo escritor", dirão logo as educadas leitoras do DO) a clamar que os tipos das redes sociais (eu e outros) que associavam o PCP a posições pró-russas eram pagos para isso. E a filha dele, também escritora, choramingando junto ao Boaventura, ao Soromenho Marques e outros que tais, que eram "perseguidos", "censurados" e até "criminalizados" por serem inteligentes, iluminados e, nisso, ditos algo russófilos.  Ou seja, o Mário Carvalho pode dizer que eu sou uma puta, perdão, prostituta, e alguns outros também. Mas é a linguagem de rua que ofende, não o putinismo abjecto desta gente. E portanto eu não direi palavrões, não digo o que penso desse António Filipe, dessa Paula Santos, mais desse outro qualquer. E do Mário Carvalho e da sua velha pirralha. Para não ofender as senhoras...

Como também não digo o que penso dos democratas-cristãos, esses do zombie CDS, que muito apreciam Putin porque sabe distinguir homens de mulheres. Porque, como se sabe, os gajos do CDS são muito avessos a essas coisas da homossexualidade. Estes "gajos" (enfim, autocensuro-me assim...) não têm vergonha na cara.

Pois o problema, real, é o da "linguagem de rua". Não este lixo humano.

Dignidade

Pedro Correia, 10.01.25

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Ontem acompanhei a transmissão das exéquias fúnebres de Jimmy Carter, falecido a 29 de Dezembro, aos 100 anos. Foi uma exemplar lição de dignidade. Estavam presentes todos os sucessores do 39.º presidente norte-americano ainda vivos - de Bill Clinton até ao actual, Joe Biden. Simbolizando ali, na catedral nacional de Washington, 32 anos ininterruptos de vida política norte-americana.

Mas os momentos mais comoventes vieram de duas vozes além-túmulo: do antigo presidente Gerald Ford (falecido em 2006) e do antigo vice-presidente Walter Mondale (falecido em 2021). Mensagens lidas por filhos de ambos: Steven Ford, primeiro, e Ted Mondale, depois.

Há muito tempo que não via Steven, filho mais novo do republicano Gerald Ford. Creio que desde o filme When Harry Met Sally, em que intervém como actor, num papel importante. Mas lembro-me bem dele e sobretudo da sua irmã Susan, que "conheci" quando ela era uma bela adolescente, sob os holofotes mediáticos. 

Na catedral estava outra figura que me era familiar: Amy, a única filha do falecido presidente (tem três irmãos mais velhos). Muito fotografada naquela década de 70 por ser a primeira criança que vivia nos aposentos presidenciais da Casa Branca desde a administração John Kennedy: tinha apenas nove anos quando Jimmy foi eleito.

Steven partilhou com o auditório pormenores sobre a sólida amizade que o pai e Carter desenvolveram desde a década de 80, já enterrado o forte antagonismo que os levou a enfrentarem-se na campanha eleitoral de 1976, ganha pelo democrata Carter. As diferenças políticas e as clivagens ideológicas passaram para segundo plano. A tal ponto que combinaram ambos fazer o elogio fúnebre um do outro.

Carter cumpriu, chegou agora a vez de Ford pela voz do filho. Amy, ao ouvi-lo, estava visivelmente comovida

 

Notável também o depoimento post mortem de Mondale, vice-presidente dos EUA durante o quadriénio Carter e em 1984 candidato democrata à Casa Branca, derrotado por Ronald Reagan. Ao contrário do que tantas vezes acontece na política, designadamente entre gente do mesmo partido, nunca houve notícia do menor desentendimento entre eles. O que ficou bem evidente no testemunho lido por Ted.

Consciente das lacunas e das imperfeições daqueles anos da parceria com Carter à frente do Executivo norte-americano, Mondale pôde apesar disso proclamar com orgulho pela voz do filho: «We told the truth, we obeyed the law and we kept the peace.» Palavras que hoje servem de lema ao prestigiado Centro Carter.

Dignidade.

 

O patético reverso desta medalha aconteceu ao fim da manhã de hoje, no plenário da Assembleia da República. Quando apenas o grupo parlamentar comunista recusou subscrever um voto de pesar pelo falecimento de Jimmy Carter que o próprio presidente do parlamento propôs.

Gestos como este confirmam como o PCP congelou no tempo. Vive ancorado na Guerra Fria do século XX. Daí o apoio incondicional que devota ao Kremlin: olha hoje para Putin e imagina que é ainda Brejnev quem lá está.

Moçambique: assim se vê a força do PC

jpt, 28.11.24

Eurodeputados portugueses sobre Moçambique

jpt, 27.11.24

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(Maputo, Av. Eduardo Mondlane, Fotografia de Luísa Nhamtumbo/LUSA)
 
 
De Maputo um amigo moçambicano avisa-me que ontem houve uma sessão no Parlamento Europeu, e deixa-me ligação para esta resenha das intervenções dos eurodeputados portugueses. Chama-me também a atenção para a posição do PCP, enfatizando a justeza das eleições de Outubro e atacando a oposição, bem como a "ingerência externa". (o comunicado daquele partido).
 
E nisso, de imediato, lembro-me do Camarada Pimentel, meu pai. Comunista "ortodoxo", sempre implacável com os "desvios de direita", tipo aqueles "eurocomunismos". Militante até à morte - já contei a história mas repito-a: muito doente, tão mirrado, no hospital, eu no fundo da cama, a minha sobrinha - sua neta querida - junto a ele, e antes de sairmos, hora de visita terminada, disse-lhe "avô, hoje estás com muito melhor aspecto, muito rosadinho". E ele, com um fio de voz, murmurou "rosa por fora, mas vermelho por dentro..." Morreu nessa noite, a última coisa que lhe ouvimos foi essa ironia, até cáustica...
 
Cresci a conversar com o Camarada Pimentel. E continuo nisso, num diálogo que me é intelectualmente profíquo. E moralmente penoso, pois ele, preocupando-se, não me desculpa o desarrumo seguido. E agora mesmo, quando - após ter visto vários filmes de hoje, com a polícia atropelar manifestantes com carros de assalto na Eduardo Mondlane, com soldados ruandeses nesta avenida, de cadáveres assassinados pela polícia no meio da rua em Nampula, etc. - lhe disse a posição do "Partido" sobre a situação de Moçambique, ele - como tantas vezes nas últimas décadas - semicerrou os olhos, meneou a cabeça. E lamentou "a falta de quadros no partido".
 
Eu, como já passa do meio-dia, servi-lhe um cálice de rum, carregado de carinho. E a mim também.

Palminhas do PCP à ditadura chinesa

Pedro Correia, 01.10.24

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Xi Jinping, o ditador de Pequim, promete fazer a China «grande outra vez»

 

A República Popular da China é governada desde 1 de Outubro de 1949, com mão de ferro, pelo partido único. 

Imaginemos Portugal ser governado nestes últimos 75 anos pela União Nacional, fundada por Salazar.

Em 1949, precisamente, Salazar governava Portugal. E a UN/ANP geriu o país durante mais 25 anos. Até 1974.

Somados a estes, outro meio século desde o 25 de Abril.

Imaginemos 75 anos de ditadura contínua em Portugal durante todo este tempo.

Pois os chineses continentais suportam a ditadura comunista - hoje comunocapitalista - há precisamente três quartos de século.

 

As frases que se seguem caracterizam a tirania de Pequim, sob o signo da foice e do martelo.

Partidos proibidos.

Eleições proibidas.

Imprensa livre proibida.

Sindicatos livres proibidos.

Greves proibidas.

Manifestações proibidas.

Trabalho escravo autorizado.

Trabalho infantil autorizado.

Liberdades amordaçadas - desde logo em Hong Kong, onde foram traídas as promessas feitas à população do território que em 1997 reverteu do Reino Unido para a soberania de Pequim.

 

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Movimento democrático esmagado em Hong Kong: promessas de liberdade foram traídas

 

Perante tudo isto, como reage o PCP? Bate palminhas ao comunocapitalismo selvagem chinês.

Basta ler o artigo do histórico Albano Nunes publicado na última edição do Avante!, sob o título "No 75.º aniversário da revolução chinesa".

Alguns excertos (com sublinhados meus):

«O PCP tem para Por­tugal a sua pró­pria con­cepção de so­ci­a­lismo, mas pro­cura aprender com a ex­pe­ri­ência de ou­tros par­tidos e é com o maior in­te­resse e es­pí­rito so­li­dário que acom­panha um em­pre­en­di­mento cujo su­cesso é da maior im­por­tância para as forças do pro­gresso so­cial, da paz e do so­ci­a­lismo.»

«"Servir o povo" foi e con­tinua a ser o lema que guiou o PCC à vi­tória no longo per­curso que passou por grandes lutas da classe ope­rária de Xangai, Cantão e ou­tras ci­dades.»

«O que glo­bal­mente ca­rac­te­riza a evo­lução da Re­pú­blica Po­pular da China, mesmo re­co­nhe­cendo de­sa­fios, pro­blemas e con­tra­di­ções que é ne­ces­sário vencer e su­perar, são os seus ex­tra­or­di­ná­rios avanços e re­a­li­za­ções

«Um sis­tema que, pas­sando por di­fe­rentes fases, co­nheceu um ex­tra­or­di­nário de­sen­vol­vi­mento das forças pro­du­tivas e está hoje na di­an­teira em nu­me­rosos ramos ci­en­tí­ficos e tec­no­ló­gicos, o que in­quieta so­bre­ma­neira o im­pe­ri­a­lismo.»

«O PCP acom­panha com o maior in­te­resse e es­pí­rito so­li­dário a acção dos ca­ma­radas chi­neses para a con­cre­ti­zação dos ele­vados ideais da sua re­vo­lução li­ber­ta­dora e a sua con­tri­buição para a causa do pro­gresso so­cial, da paz e do so­ci­a­lismo.»

 

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Brutal repressão durante a "Revolução Cultural" provocou mais de um milhão de mortos

 

Conclusão: os comunistas portugueses adoram ditaduras.

Entoam-lhes hossanas e loas sem a mais remota dúvida, sem o menor sobressalto de consciência.

Está tudo bem, desde que sejam as ditaduras do bando deles.

A verruga cabeluda no nariz da velha, e o sonso

Paulo Sousa, 31.07.24

O Partido Comunista da Venezuela, não sendo o partido de Chaves nem de Maduro, apoiou durante anos o regime chavista e madurista. Após a fraude eleitoral que decorreu no domingo passado, o PCV já veio a público apelar “às forças genuinamente democráticas, populares e patrióticas a unirem forças para defender a vontade do povo venezuelano que foi expressa neste domingo, 28 de Julho, com um clara intenção de mudança política no país”. A declaração completa pode ser lida aqui.

Em contra-mão com a vontade popular estão os regimes facínoras da Rússia, China, Cuba, Síria, Nicarágua, Irão e Coreia do Norte, que já felicitaram o ditador Maduro pela sua “vitória”. Sobre estes não há novidade nem surpresas. O alinhamento do PCP com ditaduras sanguinárias nunca causou nenhum bruaá, mas não deixa de ser curiosa esta fractura entre dois Partidos Comunistas ortodoxos.

Ou até o PC venezuelano já se vendeu ao imperialismo gringo, que ali pretende levar a cabo um "golpe de estado fascista”, ou o PCP é cada vez mais a verruga cabeluda no nariz da velha.

Por cá, assistimos ao sonso do Rui Tavares a tentar formar uma plataforma alargada de esquerda (onde pretende incluir a verruga cabeluda no nariz da velha) para governar o nosso país.

Poderá Tavares privilegiar as suas origens bloquistas e assim defender-se deste eventual incómodo? É possível, mas vamos então ver as vénias e as companhias europeias da recém-eleita Catarina Martins.

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Perante tudo isto, pelo menos no Twitter, Rui Tavares continua em silêncio.

Partido Comunista da Venezuela denuncia fraude eleitoral e repressão em curso

PCP esqueceu-se de ouvir os camaradas de Caracas antes de apoiar Maduro

Pedro Correia, 31.07.24

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Comunicado do Partido Comunista Português de segunda-feira, 29 de Julho:

«As eleições presidenciais na República Bolivariana da Venezuela constituíram uma importante jornada democrática, em que participaram milhões de venezuelanos e cujos resultados reafirmaram o apoio popular ao processo bolivariano. (...)

O PCP saúda a eleição de Nicolás Maduro como Presidente da República Bolivariana da Venezuela, bem como o conjunto das forças progressistas, democráticas e patriotas venezuelanas que alcançam mais uma importante vitória com esta eleição, derrotando o projecto reaccionário, antidemocrático e de abdicação nacional.»

 

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Comunicado do Partido Comunista da Venezuela de terça-feira, 30 de Julho:

«A Comissão Política do Comité Central do Partido Comunista da Venezuela (PCV) apela às forças genuinamente democráticas, populares e patrióticas para unirem forças para defender a vontade do povo venezuelano expressa neste domingo, 28 de Julho, com a clara intenção de promover a mudança política no país.

Alertamos a opinião pública internacional: o Governo de Nicolás Maduro, que já despojou o povo venezuelano dos seus direitos sociais e económicos, pretende agora privá-lo dos seus direitos democráticos.

Exigimos à Comissão Nacional Eleitoral a publicação da totalidade das actas de votação - tal como estabelece o regulamento eleitoral - assim como a máxima transparência no apuramento dos resultados. (...)

Neste momento decorrem espontâneas mobilizações populares em diferentes pontos do país. No PCV não apenas apoiamos o clamor de respeito pela vontade popular, mas apelamos também às forças militares e policiais para não reprimirem o povo.»

 

Descubram as diferenças. Não é difícil.

Em Lisboa, o PCP apoia com chocante servilismo o que em Caracas o partido homólogo rejeita com desassombro, na sequência da brutal repressão exercida contra sindicalistas, vários dos quais estão detidos em presídios militares, enquanto outros foram despedidos ou aposentados à força.

Paulo Raimundo esqueceu-se de ouvir os camaradas venezuelanos antes de dobrar a cerviz perante Nicolás Maduro, o caudilho mais corrupto, incompetente e desacreditado da América do Sul.

A bem da nação bolivariana

Pedro Correia, 30.07.24

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Nicolás Américo Thomaz Maduro venceu, por expressiva maioria, a eleição presidencial na Venezuela. Derrotando o candidato da oposição, o antipatriota Edmundo Humberto Delgado González, apoiado por forças estrangeiras que tudo fizeram para conspirar contra o Governo a pretexto do processo eleitoral. Ao ponto do venerando candidato da União Nacional Bolivariana ter alertado para o risco de haver «um banho de sangue» caso o povo votasse de forma errada.

Felizmente as forças armadas, funcionando como guarda pretoriana do regime que em 1999 instituiu um Estado Novo na Venezuela, asseguram a estabilidade institucional, conferidos já os resultados pela Comissão Nacional Eleitoral em estrita obediência às instruções do Governo que a tutela. As actas eleitorais estão salvaguardas em lugar recatado, longe dos olhares indiscretos das forças subversivas que tentam minar a revolução nacional, iniciada na madrugada libertadora de 28 de Maio pelo major-general Hugo Óscar Carmona Chávez, de saudosa memória. 

A bem da nação.

 

ADENDA:

Sua Excelência já recebeu calorosas congratulações de países e partidos amigos. Nomeadamente a República Popular da China, a República Islâmica do Irão, o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, e o Partido Comunista Português.

Vão ter o que merecem

Pedro Correia, 07.06.24

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Estes são os dois deputados que o PCP tinha até agora no Parlamento Europeu. Sandra Pereira desde 2019, João Pimenta Lopes desde 2021

Deputados que alinharam com a Rússia na violação da soberania ucraniana - por vezes em coro afinado com a mais rançosa franja extremista da direita

A 1 de Março de 2022, apenas cinco dias após o início da invasão da Ucrânia pela clique moscovita, o Parlamento Europeu aprovou - por esmagadora maioria - um voto de condenação dessa agressão que violentou grosseiramente o direito internacional. Houve 637 votos a favor, 26 abstenções e apenas 13 votos contra. Pereira e Lopes integraram essa minoria absoluta pró-Moscovo.

Como vassalos de Putin, um e outro.

Vão ter - e o partido deles - o que merecem no escrutínio deste domingo.