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Muito bem

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.06.17

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"A Europa é nessa matéria [refugiados] uma vergonha. Dito isto por parte de uma pessoa que faz parte de uma nação como é Portugal, que já teve emigrantes, que já teve imigrantes, andou pelos cinco continentes e todas as partes do mundo. A mim faz-me muita confusão. Eu vi, praticamente, o sistema de decisão da Europa colapsar por causa de um milhão de refugiados. Esse um milhão de refugiados de que se fala foram recebidos pela Alemanha. Do que estamos a falar é do resto. E do resto, a mim faz-me muita confusão que haja países da União Europeia que não tenham acolhido nem um refugiado. Estão muito esquecidos de há uns tempos atrás, de umas décadas atrás, em que se não fosse a solidariedade do mundo teriam ficado a sobreviver debaixo da pata do comunismo. Houve países do Leste da Europa que não receberam um refugiado. E isto envergonha-nos a todos."

Tirando uma pequena grande gafe, esteve muito bem neste aspecto. E foi bom que tivesse dito o que disse sobre os refugiados por ocasião de mais um Dez de Junho. Há valores que não são nem da direita nem da esquerda, são de todos nós. E é nisso que enquanto Portugueses devemos estar unidos.

A marcha da desinformação na TV

por Pedro Correia, em 27.06.16

Ontem à noite todos os telediários portugueses - mesmo com correspondentes e enviados a Madrid - caíram na esparrela das sondagens, que em Espanha falham por sistema. Confundindo projecções com números reais, sem um sobressalto de dúvida, foram desinformando os portugueses sobre o resultado da eleição para o novo Parlamento espanhol.

Foi preciso que um par de comentadores, sem carteira de jornalista, repusesse a verdade dos factos. O que, reconheçamos, não abona nada a favor dos profissionais da informação.

Eis o filme dos acontecimentos:

 

RTP, 19.02: «Deu-se o sorpasso, essa expressão italiana que dominou esta campanha. Esta coligação de Pablo Iglesias, unido aos comunistas, consegue ultrapassar o Partido Socialista.»

RTP, 19.03: «O PP de Mariano Rajoy desce pelo menos dois lugares no Congresso em termos de deputados. Este é um terramoto político. É um abalo sem precedentes em Espanha.»

TVI, 19.57: «A principal mudança no sufrágio de hoje foi a passagem do Podemos para segundo lugar, ultrapassando o PSOE.»

SIC, 19.59: «O Unidos Podemos acaba por ser o grande vencedor da noite e é nesta coligação que pode estar a chave para o futuro governo espanhol.»

TVI, 21.02: «O Podemos deve ultrapassar o PSOE como segunda força política. Em termos de deputados, há a possibilidade de uma maioria de esquerda.»

SIC, 21.13: «A grande surpresa aqui é o segundo lugar do Unidos Podemos.»

 

Este, repito, foi o discurso jornalístico. Que se prolongou por mais de duas horas nas pantalhas lusas.

Felizmente havia comentadores - um em estúdio, outro em Madrid - a recomendar moderação, mais atentos aos factos do que à espuma.

O primeiro foi Paulo Portas, recém-contratado como comentador de temas internacionais da TVI. Eram 21.03 quando ele alertou, falando em directo da capital espanhola: «O resultado dos votos contados aponta para um sentido completamente diferente das sondagens.»

Dez minutos mais tarde, na SIC, Luís Marques Mendes também deitava água na fervura: «Aquilo que foram as sondagens à boca das urnas não está a confirmar-se na contagem dos votos.»

Tinham ambos razão. Os jornalistas é que andavam distraídos: foram os últimos a saber.

O melhor político

por Isabel Mouzinho, em 10.11.15

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Por mim, só tenho a agradecer-lhe: o excelente trabalho destes quatro anos, o contributo para a boa imagem de Portugal, o patriotismo, a educação, a classe.

O que em mim é virtude no Costa é defeito

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.10.15

"Para o líder do CDS, não é importante na formação do próximo Governo se o PS tem mais votos: se a direita tiver maioria absoluta, governará."

"[O] importante é que haja governo de maioria (à direita) - "é isso que o Presidente quer" - Paulo Portas, DN, 13 de Maio de 2011

 

Em tempo: Como já tive oportunidade de escrever, não estou de acordo com o que está a acontecer, mas isso não invalida que vá reparando nestas coisas de que alguns andam esquecidos, porque agora não lhes dá jeito, para atacarem os adversários políticos.

Legislativas (12)

por Pedro Correia, em 18.09.15

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DEBATE HELOÍSA APOLÓNIA-PAULO PORTAS

 

Heloísa Apolónia é líder de um partido fundado em 1982 denominado Partido Ecologista Os Verdes. Um partido que nunca foi a votos autonomamente: funcionou sempre na órbita do Partido Comunista. Beneficia de uma clara omissão da Lei Eleitoral portuguesa, que autoriza a perpetuação de um partido político dispensado de se submeter a testes eleitorais periódicos com a própria sigla.

Graças a este artifício, o PCP tem duplicado há três décadas o seu tempo de intervenção parlamentar. Heloísa é recompensada: estreou-se em São Bento na legislatura iniciada em 1995, com apenas 26 anos.

Está há 20 anos na Assembleia da República e bem pode declarar que a sua profissão é ser deputada.

Mesmo assim, presume falar em nome do povo.

 

Escutei-a há pouco, na TVI 24, num frente-a-frente com Paulo Portas. Em boa verdade, mal chegou a ser um debate: Heloísa foi arrasada em directo a propósito de questões estruturais do programa da CDU - nomeadamente quando defendeu a saída de Portugal do euro e um amplo programa de nacionalizações. "Retomarmos a nossa moeda [o escudo] podia servir-nos de outra forma em termos de dinamização de uma política orçamental, uma política cambial e uma política fiscal diferente", adiantou.

"Acha que a saída do euro não tem custos?", questionou Portas de imediato. Pergunta retórica: sabia de antemão que não teria resposta. "Eu não estou a dizer que não tem custos", hesitou a líder do PEV, mantendo um vocabulário tão vago quanto possível, incapaz de descer ao detalhe. O presidente do CDS aproveitou para responder por ela: "As pensões, os salários e as poupanças das pessoas caíam vertiginosamente. De repente, quem tivesse 100 no banco passava a ter 50. Quem tivesse 50 passava a ter 25."

 

Repetindo o que Jerónimo de Sousa tem dito nesta pré-campanha para as legislativas de 4 de Outubro, a nº 2 da Coligação Democrática Unitária fez igualmente a apologia das nacionalizações, referindo-se implicitamente à Galp, à REN e à EDP: "Há determinados sectores estratégicos que os senhores privatizaram, designamente no sector energético. É um imperativo nacional que voltem para as mãos do Estado."

Portas não tardou a dar-lhe réplica: "Essas nacionalizações têm um custo. E é possível fazer as contas sobre esse custo. O que significa nacionalizar os sectores estratégicos? Nada menos do que um custo de 28 mil milhões de euros. É um ano inteiro de IVA e de IRS todo dedicado a uma opção puramente ideológica. E a própria Constituição da República, no artigo 62º, diz com toda a clareza que não há nacionalizações nem expropriações sem a justa indemnização."

Heloísa Apolónia, pelos vistos, foi apanhada de surpresa: nem uma palavra lhe saiu para contestar as cifras do antagonista ou para especificar onde iria o depauperado Estado português conseguir tal verba. "Faça as contas, senhora deputada", disse-lhe ainda o líder do CDS.

 

José Alberto de Carvalho, o moderador do debate, quis ainda saber "qual é o modelo de sociedade e de Estado" do Partido Ecologista Os Verdes "e com que país ou regime se identifica".

A resposta saiu assim, textualmente:

"O nosso modelo económico tem como eixo central as pessoas. A partir deste ponto central aquilo que é fundamental é gerar uma estratégia de crescimento que sustente o desenvolvimento das micro, pequenas e médias empresas e que tenha em conta uma valorização salarial para ter uma redinamização da economia de que nós precisamos."

Ficou tudo dito.

Legislativas (4)

por Pedro Correia, em 08.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-PAULO PORTAS

 

Desta vez houve mesmo debate e não apenas um simulacro, como aconteceu há uma semana. Ana Lourenço, a jornalista que arbitrou o frente-a-frente desta noite na SIC Notícias, teve a intuição de perceber que haveria vantagem em deixar falar os antagonistas sem pretender impor-lhes um cardápio de questões. Fez bem. Porque o telespectadores ganharam ao ver Catarina Martins e Paulo Portas em diálogos que pediam pouca moderação.

Pela segunda vez consecutiva, a porta-voz do Bloco de Esquerda mostrou-se em boa forma. Surgiu perante as câmaras com ar menos crispado do que costuma revelar no Parlamento, soube escutar, demonstrou capacidade de argumentação e destreza verbal, sem se deixar atemorizar pela arguta raposa da política que tinha à sua frente.

O presidente do CDS, em representação da coligação governamental que procura renovar o mandato a 4 de Outubro, estava constipado e mal ocultava algum cansaço. Mesmo assim conseguiu conduzir o debate para o terreno que lhe interessava, puxando-o logo de início para o caso grego - numa antecipação daquilo que Passos Coelho não deixará de fazer no frente-a-frente de amanhã com António Costa.

"Até há um mês o Bloco de Esquerda tinha um modelo: chamava-se Grécia, Tsipras e Syriza. Reestruturação da dívida grega: onde é que ela está? O Syriza dizia que nunca mais pediria um resgate: acabou de pedir um terceiro. Dizia que a austeridade ia acabar: aceitou a austeridade em dobro. Dizia que a Europa ia mudar: quem mudou foi Tsipras", declarou Portas, com ar vagamente enfastiado.

O assunto incomoda os bloquistas. Mas Catarina, por sua vez, soube pôr Portas em sentido ao salientar que "o programa da coligação não apresenta um único número" aos portugueses enquanto o Governo se compromete em Bruxelas a cortar 600 milhões de euros na segurança social.

"Não aceitamos ser um protectorado da Alemanha", esclareceu a porta-voz do BE, piscando o olho aos eleitores mais moderados ao mencionar Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite entre os portugueses que já advogaram uma reestruturação da dívida portuguesa. Algo impensável há quatro anos.

A verdade é que nem o Bloco tem a pretensão de pescar votos junto dos habituais eleitores do CDS nem os democratas-cristão aspiram a seduzir votantes situados à esquerda do PS, o que explica em boa parte o tom cordato deste debate, que não deixou de ter acutilância e algum fogo cruzado digno de registo. Com Catarina a apontar o dedo acusador: "Este é o governo recordista dos ajustes directos." E Portas a replicar: "O Bloco de Esquerda nunca governou nenhuma entidade em Portugal excepto a Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, que em 2009 fez um ajuste directo para os transportes urbanos, entregando-os à [empresa privada] Barraqueiro."

Cada qual, à sua maneira, comprovou que o traquejo parlamentar é muito útil nestas ocasiões. Mas, no confronto das expectativas com a prestação concreta, a líder bloquista destacou-se ligeiramente.

Como aperitivo não esteve mal. O prato forte será servido amanhã à noite, com outros protagonistas, nos três canais em sinal aberto.

 

...................................................................

 

FRASES

Catarina - «Não é possível governar quase sistematicamente contra a Constituição. O actual Governo não foi capaz de fazer um único orçamento dentro da Constituição: essa é a maior instabilidade que o País pode ter em termos políticos.»

Portas - «A política não é a arte do impossível. A senhora tem um discurso de utopias coladas umas às outras, sem adesão à realidade.»

Catarina - «Não há estado social sem solidariedade entre as gerações.»

Portas - «Não há estado social com o Estado falido.»

Catarina - «O doutor Paulo Portas é um belíssimo ilusionista da política.»

Portas - «Não trate os outros por ilusionistas. Ilusionismo foi o que aconteceu na Grécia.»

Quanto menos debates, menos gosto de ti

por Rui Rocha, em 23.08.15

Vamos cá ver: ninguém obrigou o PSD e o PP a coligarem-se. Agora, se o fizeram, devem assumir as consequências. E essas são basicamente, para não perdermos muito tempo, que Passos Coelho é o líder da proposta política que a PaF, ou lá como se chama, tem para apresentar e que o PP tem uma posição de absoluta subalternidade. Vai daí, o normal é que a PaF, ou lá o que é, seja representada nos debates por Passos Coelho. E ponto final. A recusa de participação em debates em que o PP não esteja representado é, por isso, uma péssima decisão. Como já ninguém acredita que políticos que não conseguem explicar a embrulhada da Tecnoforma e que apresentam Miguel Relvas e Marco António Costa como parceiros de viagem se movam por princípios ou ideais, os eleitores concluirão, naturalmente, que Passos Coelho se move pelo mais puro tacticismo. Que teme, vá la saber-se porquê, que o debate lhe seja desfavorável. É, portanto, e repito, uma péssima decisão. Se debatesse, ganharia ou não. Não debatendo, já perdeu. Discutir, esclarecer, sujeitar-se ao escrutínio e ao contraditório são a essência da democracia. Quem invoca argumentos de secretaria para furtar-se a um debate não pode ter a aprovação daqueles que valorizam a democracia. Aliás, só existiriam vantagens em que Passos Coelho participasse sozinho. Tendo em conta acontecimentos que não estão assim tão distantes, bem poderia suceder que Passos Coelho e Paulo Portas se desentendessem em pleno debate.

Némesis

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.08.15

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 (Global Imagens)

Só em quatro de Outubro é que a deusa se manifestará, dando a uns o que merecem e castigando os que tiraram partido da fortuna para se arruinarem e arruinarem os seus. Assim que passe o Verão estaremos lá. Nessa altura se saberá qual a medida da punição, que a acreditar nos sinais não serão benevolentes.

Aceitar a integração do CDS/PP nas listas do PSD foi uma decisão politicamente acertada e susceptível de acautelar perdas eleitorais substanciais com inequívoco reflexo no número de deputados do CDS na composição da próxima Assembleia da República. Fazer figura de Heloísa Apolónia e ir abrilhantar a festa do Pontal, como se o CDS/PP fosse uma espécie de Verdes alaranjados, é que não me pareceu uma decisão inteligente. Com o Pontal deste ano só houve uma pessoa a ganhar: Ribeiro e Castro.

A coligação

por Rui Rocha, em 05.05.15

 

A vingança serve-se fria.

por Luís Menezes Leitão, em 05.05.15

Sempre achei que era útil para o PSD uma coligação com o CDS, a qual no curto prazo é também boa para o CDS, que teria dificuldade em justificar ao seu eleitorado não só a quebra das suas promessas tradicionais, mas especialmente o que Portas tinha feito no Verão de 2013. A longo prazo, no entanto, essa coligação é apenas boa para o PSD, sendo péssima para o CDS. Este vai perder um eleitorado próprio, diluindo-se no PSD, e em breve não será mais do que um simples PEV da direita, que só será conservado enquanto tiver utilidade.

 

Parece, porém, que Passos Coelho, habitualmente tão cerebral, quer antecipar-se a esse desfecho.  Achou que chegou a hora de ajustar contas com Paulo Portas e decidiu servir-lhe a frio a vingança que acha que ainda lhe deve desde 2013, quando foi obrigado a sacrificar Vítor Gaspar e a dar a Portas o título de Vice Primeiro-Ministro. É assim que na sua biografia autorizada vai surgir um rol de queixas contra Portas, fazendo parecer ainda mais ao eleitorado como mero favor do PSD o acordo de coligação.

 

A única dúvida que tenho é se Paulo Portas se vai ficar. Nos velhos tempos, perante uma manobra semelhante de Marcelo Rebelo de Sousa, foi à televisão e partiu a loiça toda. Mas os tempos são outros, pelo que provavelmente lá iremos assistir a um constante engolir de sapos por parte do CDS. Tudo depende da quantidade de biografias autorizadas que ainda venha a surgir até às eleições.

Estamos quase de acordo

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.09.14

Sim, nesse ponto estamos de acordo. Com espírito de missão e de preferência recebendo o salário mínimo nacional. O ajustamento poderia ser feito no final, em função dos resultados. Como em qualquer empresa que tenha sede na Holanda e trabalhadores nacionais.

Profetas da nossa terra (12)

por Pedro Correia, em 02.05.14

«Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.»

Paulo Portas, 2 de Julho de 2013

Frase nacional de 2013

por Pedro Correia, em 19.01.14

 

«Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.»

Paulo Portas

 

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

Ficamos todos mais descansados

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.01.14

"O tempo da demagogia, do reino dos demagogos, terminou";

"Acabou o tempo de ganhar eleições a sacrificar as próximas gerações"

Paulo Portas, XXV Congresso do CDS

 

Nem aquele rapaz de que falava o Rui Rocha, o Zezito, seria capaz de dizê-lo com tanta convicção. O país agradece.

Facto nacional de 2013

por Pedro Correia, em 09.01.14

CRISE POLÍTICA DE JULHO

O Governo não chegou a cair, mas abanou muito. E não voltou a ser o mesmo. Aconteceu em Julho: a crise alastrou da esfera económica para a área governativa e abalou as bolsas europeias. Com dois protagonistas: Vítor Gaspar e Paulo Portas. O primeiro partiu, o segundo ameaçou fazer o mesmo mas acabou por ficar. Numa posição aparentemente reforçada.

Foi a semana mais turbulenta do ano político, que o DELITO DE OPINIÃO elegeu em votação interna - por estreita margem - o facto de 2013 em Portugal.

Inesperadamente, Passos Coelho perdeu aquele que considerava o seu número dois: o ministro de Estado e das Finanças. Vítor Gaspar bateu com a porta, tornando pública a carta de demissão.

"O nível de desemprego e desemprego jovem são muito graves [sic]. Requerem uma resposta efectiva e urgente a nível europeu e nacional. (...) Esta evolução exige credibilidade e confiança. Contributos que, infelizmente, não me encontro em condições de assegurar. O sucesso do programa de ajustamento exige que cada um assuma as suas responsabilidades. Não tenho, pois, alternativa senão assumir plenamente as responsabilidades que me cabem", escreveu o ministro demissionário nesta carta, datada de 1 de Julho.

O primeiro-ministro não tardou a designar Maria Luís Albuquerque para o lugar de Vítor Gaspar. Mas, subitamente, Paulo Portas demitiu-se. Com carácter "irrevogável", como acentuou a 2 de Julho. Seguiram-se dias de forte tensão na coligação governativa e o espectro das eleições antecipadas chegou a pairar em São Bento. Até que Portas recuou. E Passos elevou-o a vice-primeiro-ministro, no âmbito de uma remodelação governamental.

 

Num segundo lugar muito próximo, entre os factos nacionais de 2013, situou-se a enorme corrente migratória: cerca de 120 mil portugueses emigraram no ano que terminou. As vitórias eleitorais de independentes nas autárquicas de Setembro e a manifestação de polícias nas escadarias de São Bento, em Novembro, também foram votadas, havendo ainda um voto na frustrada tentativa de cantar a Grândola feita pelo ex-ministro Miguel Relvas.

Em 2010 elegemos como facto nacional do ano a crise financeira e em 2011 a chegada da troika a Portugal.

Foto Daniel Rocha/Público

Frases de 2013 (28)

por Pedro Correia, em 04.11.13

«Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.»

Paulo Portas

 

1. É possível cantar vitória mesmo perdendo 37 mil votos, baixando 0,1% desde as últimas autárquicas e recuando 5,7% em relação às eleições legislativas de 2011? É. O CDS foi apontado como um dos vencedores desta mais recente noite eleitoral tendo por base as fraquíssimas expectativas quanto ao seu desempenho nas urnas. E, claro, também graças à conquista de cinco câmaras, juntando quatro ao antigo bastião de Ponte de Lima: Albergaria-a-Velha (Aveiro), Vale de Cambra (Aveiro), Velas (Açores) e Santana (Madeira). Fraco pecúlio para um partido que já governou as câmaras de Lisboa e Aveiro, entre várias outras. Portas, com o seu reconhecido talento para sound bites, apressou-se a falar no "penta" centrista. Mas a verdade é que o partido recua no terreno eleitoral. Um sinal de alarme deve acender-se no Largo do Caldas já a pensar nas futuras legislativas. Que podem tardar menos do que alguns imaginam.

Primeiro desafio: como travar o declínio eleitoral do CDS?

 

2. Os parceiros menores das coligações costumam ser os mais prejudicados. Assim tem sido no Reino Unido, onde muitos liberais-democratas já se questionam se fizeram bem em coligar-se com os conservadores, e assim aconteceu na Alemanha, onde a CDU de Angela Merkel corroeu dois parceiros sucessivos: primeiro os sociais-democratas, entre 2005 e 2009, e agora os liberais. Os primeiros ainda não se recompuseram, os segundos acabam de ser riscados do mapa eleitoral. Este é um risco que Portas corre ao manter-se na coligação, sobretudo em tempo de grave crise económica e o país sob intervenção externa no plano financeiro. A sua margem de manobra é muito estreita: se move um pé para a esquerda, pode ser acusado de deslealdade a Passos Coelho; se move um pé para a direita, perde a autonomia partidária. No fim da estrada, arrisca-se a não agradar a gregos nem a troianos.

Segundo desafio: como manter a autonomia do parceiro menor da coligação governamental?

 

3. Do ponto de vista estratégico, a prazo, interessa ao CDS manter uma posição quase equidistante entre as duas principais forças políticas, recuperando e actualizando uma antiga tese de Freitas do Amaral quando liderava o partido. Um PSD forte, como chegou a suceder no tempo de Cavaco Silva, sentirá sempre a tentação de engolir o CDS, considerando o eleitorado deste partido uma espécie de prolongamento natural do seu. Por outras palavras: o PS, para governar, precisará amanhã tanto do apoio parlamentar dos centristas como hoje necessita o PSD. Um primeiro teste real a esse cenário vai ocorrer na Câmara Municipal do Porto, agora presidida por Rui Moreira, que para ser eleito contou com os votos do CDS. Portas não dirá nem fará nada, daqui para a frente, que inviabilize uma futura coligação governamental PS-CDS, evitando ao mesmo tempo que essa atitude lhe suscite o ódio das hostes de Passos Coelho. Desafio difícil, a pôr à prova os dotes de equilibrista do vice-primeiro-ministro.

Terceiro desafio: como estender pontes para o PS sem perturbar as relações com o PSD?

 

4. Portas é o líder partidário há mais tempo em funções no País: dirige o CDS desde 1998, exceptuando o curto interregno protagonizado por Ribeiro e Castro no biénio 2005-2006. Cabe-lhe lançar os alicerces para um novo ciclo de vida no partido, distribuindo responsabilidades por dirigentes mais jovens. Um ciclo cuja existência depende menos da sua dimensão eleitoral (neste momento é a terceira força política mais representada no hemiciclo de São Bento) do que da sua capacidade de continuar a influenciar a acção governativa. Para tanto, há que superar um antigo problema interno de falta de quadros e a natural desmobilização das gerações mais jovens para a vida política.

Quarto desafio: como renovar o partido, tornando apelativa a sua mensagem política?

 

5. Tal como o actual primeiro-ministro, o líder do CDS está refém dos resultados da política económica do Governo. E precisa inequivocamente que os mínimos sinais de melhoria sejam evidenciados aos portugueses em tempo útil para determinar o voto. De nada valerá tentar separar as águas reclamando uma responsabiilidade menor do CDS quando destacados dirigentes deste partido ocupam as pastas da Economia e da Segurança Social, já para não falar da promoção do próprio Portas a vice-primeiro-ministro ocorrida na remodelação governamental de Julho e que amarrou ainda mais os democratas-cristãos ao destino do executivo.

Quinto desafio: até que ponto poderá a situação do País ameaçar o futuro do CDS?

A cessão de exploração.

por Luís Menezes Leitão, em 09.07.13

 

Se há alguma coisa que me espanta é a absoluta irrelevância do Presidente da República no nosso sistema político, desde que Ramalho Eanes deixou a presidência. Tal já tinha ficado demonstrado quando Durão Barroso efectuou um verdadeiro trespasse do Governo do país a Santana Lopes, negócio que a maioria dos comentadores imediatamente avalizou, ignorando completamente o Presidente Sampaio. Este sentindo-se posto em causa, resolveu fazer uma série de audições, chamando este mundo e o outro a Belém para dar a entender que ainda mandava alguma coisa, mas acabou resignadamente por nomear Santana Lopes. E mesmo depois de tudo o que se passou no seu Governo não o demitiu, tendo antes optado por dissolver a Assembleia da República.

 

Pedro Passos Coelho não fez um trespasse do Governo, já que se mantém formalmente como Primeiro-Ministro, mas efectuou uma verdadeira cessão de exploração a Portas, uma vez que, como expliquei aqui, é ele que passa de facto a gerir o Governo. Cavaco Silva, no entanto, adopta exactamente a mesma estratégia de Sampaio, chamando os partidos e os parceiros sociais para umas irrelevantes audições, quando toda a gente na Europa e no mundo já percebeu que a nova configuração do Governo não pode deixar de ser aceite. Assistimos assim ao ridículo de o Presidente andar em audições aos partidos enquanto que a Alemanha se congratula oficialmente com a nova solução de Governo.

 

Não penso que este apagamento da função presidencial seja benéfico para o País. Cavaco Silva teve durante estes dias uma oportunidade de ouro para reforçar o papel do Presidente na política nacional. Lamentavelmente só soube recorrer a formalismos. Em primeiro lugar, fez precipitadamente declarações de apoio ao Governo, ignorando que Portas se tinha demitido. Em segundo lugar, depois de saber dessa demissão, aceitou realizar a tomada de posse de novos membros de um Governo em colapso. Finalmente, multiplicou-se em audiências quando a crise política já estava resolvida. A ideia que passou para a opinião pública foi a de que o Presidente andou sempre atrás dos acontecimentos, indo agora outorgar esta cessão de exploração como se de um notário se tratasse. O problema é que, como toda a gente verificou, este negócio já foi publicamente reconhecido sem necessidade de qualquer intervenção notarial.

Assistimos, na passada semana, a um triste espectáculo político em que Passos e Portas fizeram tudo errado. Do primeiro-ministro fica a ideia de uma total falta de capacidade de liderança. Essa é a conclusão que se pode tirar da carta de demissão de Gaspar. Isso é o que resulta de toda a trapalhada que veio a público a propósito da demissão de Portas. Que tipo de líder permitiria que uma situação desta natureza derrapasse para a opinião pública como sucedeu nesta crise? Já no que diz respeito a Portas, o que fica são as ruínas de toda a credibilidade que pudesse ter. A partir daqui, é praticamente impossível construir qualquer proposta política sobre uma reputação tão arruinada. Todavia, o jogo político tem particularidades verdadeiramente surpreendentes. Numa espécie de tacada às três tabelas, a verdade é que António José Seguro acaba por ser um dos mais prejudicados pela tempestade. Vejamos. Se  há coisa que ficou clara para os portugueses, é que a instabilidade política pode trazer consequências desastrosas. Bolsa a afundar, juros da dívida a dispararem e ameaça de descida dos respectivos ratings pelas agências de notação. Durante a crise, Seguro apostou na irreversibilidade da queda do governo e cavalgou estes sinais. Sabe-se agora que foi um tremendo tiro no pé. Se, como tudo indica, a situação política estabilizar nos próximos tempos, os mercados recuperarão, num claro sinal de que é preferível o mau conhecido do que o bom por conhecer. Neste contexto, com que cara continuará Seguro a forçar o cenário de eleições antecipadas, situação que trará evidentemente uma ameaça de instabilidade, até porque não é claro que do acto eleitoral resulte um cenário de clarificação? É óbvio que Passos Coelho e Portas serão duramente punidos em próximas eleições. Mas é também certo que a percepção generalizada é agora a de que é preferível que prolonguem tanto quanto possível o governo que detém o mandato para a actual legislatura. É neste contexto que Passos se assemelha cada vez mais a um Forrest Gump da política portuguesa. Sem qualidades que permitissem prever qualquer tipo de sucesso, lá vai andando. Quanto a Seguro, fica cada vez mais claro que é alguém a quem os portugueses só recorrerão por absoluta falta de alternativa e como solução de último recurso. Para quem esteve tão perto de chegar ao poder durante a passada semana, a lição política que fica pode ser resumida numa célebre frase do próprio Forrest Gump: a vida é uma caixa de bombons e nunca se sabe o que está lá dentro.

A fórmula da estabilidade.

por Luís Menezes Leitão, em 05.07.13

 

Passos Coelho diz que acabou de descobrir uma "fórmula" que vai assegurar a estabilidade da coligação. Isto parece a estória infantil do aprendiz de feiticeiro. Depois de os dois líderes da coligação terem atirado o país para o desastre ainda acham que vão inventar uma qualquer fórmula mágica que permitirá reverter o processo. Essa fórmula apagará naturalmente tudo o que se passou nos últimos dias: a demissão de Gaspar, a nomeação de Maria Luís Albuquerque, a demissão de Portas, o discurso de Passos Coelho, o crash da bolsa, a subida dos juros, e tudo o mais que se lembrarem. Valha-nos a fórmula.

 

Mas essa fórmula mágica afinal parece ter conseguido efectivamente um prodígio. Fez Cavaco despertar do estado de letargia em que tinha mergulhado a sua presidência. Imagine-se que, em vez de repetir pela enésima vez que a confiança no Governo é da competência do Parlamento, já veio dizer que não aceita um Governo sem Paulo Portas. De facto, como já escrevi aqui, experiências anteriores mostram que um Governo desses não tem as mínimas garantias de estabilidade e seria só para inglês ver (neste caso os mercados). O problema é que eles não são estúpidos e já fugiram da dívida portuguesa como o diabo da cruz.

 

Já houve, no entanto, alguém que pôs o dedo na ferida, Manuela Ferreira Leite, ao avisar que a situação do país é muito pior do que o que nos qurem fazer supor. De facto, só isso explica a debandada de Gaspar antes de se iniciar a oitava avaliação da troika, e a fuga de Portas, precisamente quando era suposto entregar um projecto de reforma do Estado. Custa de facto a crer que seja apenas uma birra em torno da nova Ministra das Finanças o que desancadeou esta tempestade. E se de facto a situação é tão séria que desencadeia a fuga dos dois Ministros de Estado, é bom que ela comece a ser imediatamente explicada ao país. Com factos, dados, e números, e não com discursos vagos em torno de fórmulas vazias.


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