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Delito de Opinião

Para lá do Marão... (7)

Cristina Torrão, 13.12.25
 
Os Bragançãos eram uma estirpe à parte. Mantinham a sua preponderância por «Terras de Bragança» desde que Afonso VI de Leão assim o determinou. E dessa forma prosseguiria durante o reinado da filha do «Imperador», a célebre Rainha D. Urraca. Dominando num «condado» encravado entre dois reinos, ora eram aliciados por um lado, ora o eram pelo outro. Porém, o que se percebe através da leitura de toda a documentação da época, bem como a partir da análise de eminentes historiadores dos actuais dois países peninsulares, é que os Bragançãos mantiveram sempre a umbilical ligação ao lado Leonês.
 
Facto bem visível nos dois mosteiros beneditinos Leoneses que tanta influência exerceriam por «Terras de Bragança», os de «San Martín de Castañeda», por «Terras de Senabria» situado, e o de «Santa Maria de Moreruela», em «Terras de Zamora». Ambos obtiveram imensas benesses por parte dos Bragançãos, ou das famílias com estes aparentadas, passando a deter um considerável património em bragançanas terras, especialmente nos concelhos de Vinhais, Bragança, Vimioso, Miranda do Douro e Macedo de Cavaleiros. Posteriormente, os Bragançãos também teriam o seu próprio mosteiro, que filiado esteve ao referido de «San Martín de Castañeda»: o nosso Mosteiro de Castro de Avelãs. Mosteiro ao qual D. Afonso Henriques também fez umas doações, “p’ra bêre s’amansab’ós Bragançãus’e”. Os três mosteiros, de filiação Leonesa, tiveram uma inimaginável preponderância, quer na detenção de património, quer no povoamento do território, quer na educação das gentes. Sempre mantendo a sua própria língua, o Leonês. E uma arquitectura ímpar, o mudéjar Leonês, ainda hoje bem visível na cabeceira no Mosteiro de Castro de Avelãs.
 
Língua essa que também falavam outras ordens religoso-militares bafejadas com vastas doações pelos Bragançãos. Como, por exemplo, os… Templários de Alcanices. “Ah peis é”!… E lá iam os Bragançãos distribuindo benesses pelos seus apaniguados, fossem os mosteiros Leoneses, fossem os cavaleiros Leoneses. Era a fórmula encontrada para a manutenção do poder por estas terras. Embora D. Sancho I, já detentor da «vila» de Bragança, que havia sido integrada no domínio régio através do casamento entre Fernão Mendes de Bragança e a infanta Sancha Henriques, por não terem tido descendência, lhe tenha outorgado foral em 1187, determinando que deveriam ser povoadas as «Terras de Bragança e Lampaças», tomando-as como suas. Porém, as terras tinham «dono»… Sendo inúmeros os relatos em que os «homens de Bragança» que tentavam povoar essas terras eram enxotados pelos seus proprietários, fossem ordens religiosas, fossem ordens militares, fossem outros cavaleiros.
 
Esta situação é bem visível já no reinado de D. Afonso II, quando outro grande Braganção, Fernando Fernandes de Bragança, tão rapidamente foi Mordomo-mor de Afonso II de Portugal, como se passou para o outro lado, para exercer idêntica função na corte de Afonso IX de Leão. “Stãu a bêre”?… Isto eram umas terras do “catantchu’e”! Curioso sendo que, quando se disponibiliza tempo para consultar documentação do «outro lado», que há mais informação por lá sobre estas terras, do que por cá, nos deparemos com uma perfeita distinção entre o que eram os «portugalenses» e os «bragançanos», vendo-nos os «espanhóis», de forma clarividente, como duas entidades distintas… Estas eram, de facto, terras de filiação Leonesa, não «Portugalense». Onde se falava… Leonês!
 
Assim tendo permanecido, com maior ou menos vigor, até finais do século XIII, período no qual finaria o «último Braganção» com poder. Só com a morte de D. Nuno Martins de Chacim, trineto de Fernão Mendes de Bragança «o Bravo», Aio e Mordomo-mor de D. Dinis, estas terras perderiam, definitivamente, a sua «independência». Porque D. Dinis, a partir da morte do «último Braganção», tomou, em definitivo, as rédeas destas terras, afrontando todos os poderes que nelas estavam constituídos. Não tendo deixado, porém, de se falar Leonês por estas bandas.
 
A integração definitiva no Reino de Portugal, acarretaria a consecutiva redução progressiva do universo de falantes do Leonês. Bem como uma natural retracção na sua área geográfica. Todavia, a Língua Portuguesa, do ramo do Galego-Português, apenas estava acessível às classes privilegiadas ou aos que para aqui vinham, por nomeação régia, para exercer cargos públicos. A esmagadora maioria do Povo, que não sabia ler nem escrever, persistiu nas suas raízes Ástures, posteriormente Ásturo-Leonesas, falando idiomas que lhes eram transmitidos, oralmente, pelos seus pais e avós. Há 140 anos, em pleno século XIX, Leite de Vasconcellos o constataria. Seria já no século XX, com o incremento das políticas de alfabetização, feitas em Português, que os originais idiomas Ásturo-Leoneses, até pelo estigma criado pelo «falar mal Português», entraram em declínio, até ao estado moribundo em que hoje se encontram.
 
Urge resgatá-los, à semelhança do que aconteceu com o Mirandés, ou com o Catalão, o Galego ou o Basco, do «lado de lá». É a nossa verdadeira essência, tal como o são os Caretos ou os Pauliteiros (por mera curiosidade, desafio-vos a perceberem a região onde ambos são exclusivos, e sobreponham-na aos «falares Ásturo-Leoneses»…). É com esse intuito que por aqui venho trazendo, recorrentemente, uma forma estranha de escrita, representativa do modo como, felizmente, ainda ouvi muita gente falar. Um modo no qual ainda falo, especialmente quando faço incursões a ambientes mais rurais. E, contrariamente ao que foi sendo divulgado, não, não «falamos mal Português»! Ou, noutra perspectiva visto, «falamos tão mal Português», como um Lisboeta, quando se exprime em Português, «fala mal Mirandés». A diferença abissal é que nós somos bilingues, coisa que um Lisboeta não é. Se dúvidas tiverem, este que vos «massacra» com estes escritos, tem tanto orgulho em falar e escrever, escorreitamente, em Português, a “língua fidalga”, como o tem em falar e escrever em “língua tcharra”. Venha de lá alguém que me diga que «falo mal Português»…
 
Pelos motivos históricos expostos, bem como por razões etnográficas e etnológicas, sou da «terra das duas línguas», e tenho imenso orgulho nisso! Uma terra com uma História bem diferente daquela que nos «vendem» nos manuais escolares… Espero conseguir contagiar alguns, “ó menus’e”, com esse indisfarçável orgulho. E não, como já fui acusado, não sou «separatista». Também tenho imenso orgulho em ser Português! Não sendo isso impeditivo de ter “ua proa du catantchu’e” na minha/nossa verdadeira essência.
 
A minha Avó Maria não falava mal Português! Simplesmente, nunca aprendeu a falar Português… Falava “ua galdrumada” de Ásturo-Leonês, grato lhe ficando pelo tanto que com ela aprendi, bem como o ficando com todos os «Avô Manuel» e todas as «Avó Maria» com quem tive o privilégio de aprender (e ainda aprendo) um idioma e um dialecto únicos que não são do ramo “fidalgo” do Galego-Português. São do ramo da nossa génese “tcharra”, o Ásturo-Leonês!
 
Muito obrigado aos que paciência tiveram para “tchigare” até aqui!
 

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Para lá do Marão... (6)

Cristina Torrão, 06.12.25
 
“Inda tem pacência p’ra mais um tantinhu’e? Astrebe-se a querere sabere a bredade que num nus contum nus librus da scola? Peis atãu’e, butemus-mus a zcubrire c’mu as cousas se passarum e pur’u q’é que falemus d’ua forma ztranha? Fica um home spritadu’e… E ua mulhere tamém’e...”
 
Toda a gente já ouviu falar de Mouros e de tantas lendas associadas aos mesmos. Porém, por estas terras, não restam vestígios da sua passagem, nem nas suas próprias crónicas. E, “bredade, bredadinha”, se por aqui andaram, como dizia recentemente numa exposição, “quaije que num tiberum tempu’e pra butare ua mijinha nu Sábôre ou nu Azibu’e”… A verdade é que, constituído o Reino das Astúrias, e no que respeita a Trás-os-Montes, já no século IX surgem as primeiras notícias acerca da presúria de Chaves, ordenada por Afonso III... das Astúrias!
 
E aqui trago Chaves, fora do âmbito territorial bragançano, porque por lá aparece, como governador, o primeiro antecessor dos Bragançãos efectivamente documentado. Por mandato de Afonso VI de Leão, surge-nos como «princeps» designado, no século XI, Fernão Mendes «o Velho», avô do neto homónimo, este sim, o primeiro detentor do apelido «de Bragança», Fernão Mendes «o Bravo».
 
Época essa na qual as «Terras de Bragança» faziam parte da Diocese de… Astorga, a antiga «Asturica Augusta» que já tinha sido a nossa capital no tempo dos Romanos! Num processo rocambolesco, “cousas” de poderes episcopais, no início do século XII as «Terras de Bragança» voltariam ao poder eclesiástico de Braga. Mas sem nunca perderem o seu vínculo a Leonesas terras. Vínculo esse que já vinha, como assinalado, desde Fernão Mendes «o Velho», não apenas pelas ligações próximas ao «Imperador» Afonso VI, ou às suas filhas, D. Urraca de um lado, e a «nossa» D. Teresa, mais o seu marido, D. Henrique, do outro, mas também porque, para lá de Chaves, também era governador de terras em «Espanha», como Toro ou Zamora! Ligação que permaneceria com os filhos, o mais velho ao serviço do «Imperador», em nome do qual exerceu a tenência de Bragança; o mais novo casado com uma filha do «Imperador», irmã da «nossa» D. Teresa, em simultâneo próximo do «nosso» Conde D. Henrique, mas também de D. Urraca. As coisas que não nos contam nos manuais escolares! Como, por exemplo…
 
Que, à custa desse contexto, nunca fizemos parte do Condado Portucalense! Condado esse que se situava na região de «Entre Tejo e Minho», daí estando excluído o nosso actual distrito. Que estas terras eram (mesmo!) um universo à parte! Porém, através de conceitos provindos da balofa historiografia do Estado Novo, mais a sua noção de «pátria una e indivisível», lá “amanharum forma d’amarfanhare” estas terras para um Condado ao qual nunca pertenceram! Para os que dúvidas tiverem, aconselho a consulta a toda a documentação saída da «corte condal» de D. Henrique e D. Teresa… Ou à proveniente das «chancelarias» de Afonso VI e da filha D. Urraca… “Dá trabalhinhu ó’j’ólhus’e”, mas vale bem a pena! Por isso, o referido Fernão Mendes de Bragança permaneceu com a tenência de Bragança e como efectivo Senhor destas terras, com extensão até Chaves e Montenegro, de um lado, ou até às terras de Riba-Côa, do outro. Terras nas quais era um verdadeiro «conde», atribuindo forais, fazendo doações, nomeadamente as que fez aos Templários, que nos dizem nos manuais que foi D. Afonso Henriques que as “fezu”. “Ma nãu’e”! O tal de primeiro «Rei de Portugal», que o foi, destas terras não o era! “Querim bêre”?…
 
Apenas para citar uns exemplos, quando D. Afonso Henriques outorgou o Foral a Freixo de Espada à Cinta, foi com autorização de Fernão Mendes de Bragança! Ou quando quis doar um couto à Sé de Braga, na região de Chaves, só o fez com autorização... do dito Braganção! Ou, ainda, quando se deu a célebre Batalha de S. Mamede, o Braganção alheou-se completamente do que respeito não lhe dizia, ou seja, as terras do Condado Portucalense. Mas já esteve, com os seus irmãos, na Batalha de Ourique… As «Terras de Bragança» eram um universo à parte, um universo Leonês! Por isso o «nosso» primeiro rei, “guitchu’e”, tratou de convencer o Braganção a casar-se com a irmã, a infanta Sancha Henriques. “P’ra bêre si u cumbencia a birar-se pr’ó ladu dus «portugalenses»”. E também chamaria o filho do Braganção para seu «primeiro-ministro», elevando-o ao cargo de Mordomo-mor. Todavia, os Bragançãos, “s’nhôs du sou narize”, e destas terras, não estavam para brincadeiras, e “se le tchigab’á muz’tard’ó ditu narize”, rapidamente viravam as agulhas para o outro reino, assim tendo acontecido com o filho do Braganção, colocando-se ao serviço de Afonso IX de Leão. Mas há mais, muito mais, para explicar a autonomia destas terras nos primeiros tempos da «nacionalidade»! E para explicar a tal de «terra das duas línguas»…
 
“Peis, lá tânhu de bire cá outra bêze, pr’ós que quijerim sabere pur’u q’é que nunca deixemus de butare ua faladura ztranha”...
 
(Foto: Valter Cavaleiro)

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Para lá do Marão... (5)

Cristina Torrão, 29.11.25
 
Uma das coisas que sempre me causou imensa confusão, relaciona-se com a quase omissão destas terras nos manuais de História. Como se aqui nunca nada se tivesse passado, ou ninguém daqui originário tivesse contribuído para os grandes acontecimentos que... sempre aconteceram muito longe daqui! Isto é, estudam-se conceitos com nomes raros, como Paleolítico ou Neolítico, Idades dos Metais ou Romanização, «Invasões Germânicas» e outros que tal, «Reconquista» e afins… Mas desenrolou-se tudo muito longe!
 
Desconheço se a responsabilidade é nossa, ou dos nossos sucessivos governantes locais e regionais, que, talvez por desconhecimento, nunca parecem ter estado vocacionados para essa vertente. Ou se será, mesmo, de um qualquer conluio que centralizou toda a nossa história no eixo litoral. Com um qualquer paralelo objectivo de nos remeter a uma insignificância baseada no estigma do «falam mal Português, por isso estejam lá caladinhos»…
 
Porém, também temos Paleolítico. E Neolítico... E todas as outras “cousas ztranhas’e”. E até temos uma genética distinta (mas isso é um “catchicu’e” complicado demais para trazer aqui)… Estranhamente, os tais de Romanos, que parecem só ter andado por Conímbriga, por Bracara Augusta, ou por Olissipo, também andaram por aqui. E deixaram-nos imensos registos da sua passagem. Um dos mais importantes, para o caso em apreço, é que «descobriram» que não tínhamos “bentas de Lusitanus’e”… Esses, ficavam, maioritariamente, abaixo do Douro. E nós estávamos acima, e da Lusitânia nunca fizemos parte. Os Romanos eram uns grandes «descobridores»! Por isso, também «descobriram» que, maioritariamente, éramos Ástures! “Bai daí’e, butarum-mus n’ua prubíncia que se tchamaba”… «Conventus Asturicensis»! Ou seja, em “língua fidalga”, Convento Asturicense, uma das três entidades administrativas da «Gallaecia» (as restantes eram a Bracarense e a Lucense). E a nossa capital não era a «Emerita Augusta» da Lusitânia; era a «Asturica Augusta» dos… Ástures! “Impecemus bem, or sim’e?”…
 
Tudo isto porque, dizem os entendidos da época, éramos «Zoelae», os célebres Zelas, uma das 22 tribos dos Ástures. Não dos Lusitanos que nos tentam impingir, mas dos Ástures! “Stãu a bêre c’mu impeçou a cousa e c’mós aldrúbias nus indrominum co a stória dus Lusitanus’e”? De facto, para quem se dedique a entender quem eram esses nossos antepassados, percebe claramente que eram diferentes… Muito diferentes! Mas não vou aqui atazanar ninguém com as características que distinguiam os tais de Zelas. “Ó depeis’e, dixu-m’u Ti Zé Moucu’e, bierum uas cousas a que tchamum Imbasões Bárbaras’e”. As quais foram mais um tácito acordo, do que invasões…
 
Toda a gente já deve ter ouvido falar de Suevos e de Visigodos. Os quais, à semelhança de tudo o resto, também andaram muito longe daqui… Mesmo que já constássemos na primeira divisão administrativo-eclesiástica que se conhece, de época Sueva. Ou os posteriores «donos» destas terras, os Visigodos, por aqui tenham tido centros de cunhagem da sua moeda. Todavia, antes de os Visigodos terem «arrumado» com o Reino Suevo, tiveram, anteriormente, de «arrumar» com um outro reino, um enclave que por aqui existia, a que os documentos designam por «Sabaria», onde vivia um povo ao qual chamavam «Sappos». Dizem os entendidos que poderão ter tomado o seu nome a partir do nosso rio Sabor. Rio esse que já muitos se terão questionado por que motivo se pronuncia “Sábor”, ou “Sábôre”, se “faxabôre”. Hum?… Porque, em tempos antigos, que superam a nossa vivência, era o «Salavor». Designação original que, por um processo fonológico de supressão, designado como síncope, perderia a consoante intervocálica [l], ficando «Saavor». Posteriormente, haveria de perder o [a] que lhe dá a sílaba tónica e, por efeito do betacismo, o [v] mudaria para [b]. “Bô”, onde isto já nos levou...
 
Com «Conventus Asturicensis», «Asturica Augusta», «Zoelae», «Sabaria», «Sappos» e demais evidências, estarão, seguramente, os caros leitores a vislumbrar os motivos para sermos tão diferentes e «falarmos mal Português»… O resto, que já mete «presúrias», feitas por Ásturo-Leoneses, mosteiros Leoneses, arquitectura mudéjar Leonesa, ordens religioso-militares Leonesas, uma Diocese Leonesa, e até Bragançãos Leoneses, já cá virá na «Parte III»… “Q’ez’tas cousas têim de sere um catchicu de cada bêze. P’ra bêre se fiquemus intchadus de proa, e intendêmus pur’u q’é que nunca ninguém nus dixu q’a nh’ábó Maria num falaba male u… «Pertués»”...
 
[Fotos: Capela de Nª Sra. do Campo (Lamas - Macedo de Cavaleiros), o mais ocidental exemplar de arquitectura mudéjar... Leonesa! Localiza-se num sítio soberbo, num Geossítio do Geopark Terras de Cavaleiros. “Adonde já butei uas faladuras’e, tchêinhu de proa”!
Porque Lamas também é a «Minha» terra, por ser a terra da… “nh’Ábó Maria”!… E da “nha Mãe, e adonde nacerum us mous Tius e às nhas Tias’e”, com os quais aprendi um idioma a que os eruditos chamam de «falar mal Português».]
 

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Para lá do Marão... (4)

Cristina Torrão, 22.11.25

Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias e outras coisas... BRAGANÇA:

 

As efectivas razões para sermos «a terra das duas línguas», ou para dizerem que «falamos mal Português» (Parte I)

Vou partilhando por aqui, com todo o prazer, umas “tchabaz’quices’e” com os meus conterrâneos (...) as quais, naturalmente, uns apreciam mais do que outros. Recebi, ontem, dois contactos. No primeiro, não fiquei surpreendido pelo entusiasmo, do outro lado transbordando uma alegria contagiante pelo tão diferentes que somos. Já quanto ao segundo… A «coisa» não correu tão bem, acusado tendo sido, inclusive, de «separatista», como se fosse um «terrorista» qualquer. Obviamente, as observações que me foram feitas, basearam-se na «cartilha» da historiografia «vendida» pelo Estado Novo, na qual entravam conceitos como «pátria» ou «heróis», período durante o qual só poderia ler-se ou escrever-se aquilo a que a «doutrina oficial» permissão dava. Entretanto, “dize” que aconteceu “ua cousa a que tchamarum R’buluçãu dus Crabus’e”, parecendo ter aí terminado a formatação do pensamento, das leituras e da escrita…

Essa «doutrina oficial» foi-nos vendendo, a propósito dos tais conceitos de «pátria» e «heróis», um chorrilho de inverdades, no qual se incluem «Lusitanos», «Mouros», «Reconquista», «Condado Portucalense»*, entre muitos outros, os quais representavam, subrepticiamente, e particularmente para a região de Bragança, um «comei e calai-vos». Nesse «comei e calai-vos», à semelhança do que aconteceu com o Franquismo em Espanha, tudo o que pudesse representar uma ameaça à «unidade nacional», nomeadamente no que respeitava à exclusiva Língua Oficial, toda a gente sabe como era tratado… E assim recrudesceu o conceito, nascido com os neo-clássicos do século XVI, de que «falávamos mal Português». “E bota lá á’mandar’u Mirandês’e e ó dialectu pr’ó poulu’e”...
 
Dessa forma, à semelhança do que quase ia acontecendo em Espanha com os idiomas regionais ou minoritários, os ancestrais dialectos que por aqui se falavam, quase iam morrendo. Todavia, nestes últimos 50 anos têm surgido novas abordagens à compreensão das realidades histórica, etnográfica, linguística, etnológica, destas magníficas terras. As quais, ainda assim, permanecem muito pouco estudadas. Todavia, o que já se avançou, permite construir uma visão completamente distinta da emanada pela «cartilha» em cujos resquícios ainda fiz a Escola Primária… E ai de mim que exclamasse “bô”, ou dissesse que precisava do “tchuço”, porque estava a “tchubere”. Logo vinha a reprimenda da minha excelsa e saudosa Professora, que «tínhamos de aprender a falar Português de forma escorreita».
 
Hoje, tem-se outra noção, já conseguindo justificar-se porque “esta ye a tierra de las dues lhénguas”, em Mirandés escrito; ou “esta ye la tierra de les dos llingües”, noutro idioma Ásturo-Leonês, o Asturianu, nosso familiar directo. Ou ainda, transcrevendo a genuína forma como a Avó Maria o pronunciaria: “ez’ta ié a terra daz’ duas línguas’e”. Não conseguindo retratar, fielmente, o sistema de sibilantes que ela utilizava, no que respeita à perfeita distinção fonológica entre [s], [z], [ç] ou, inclusive, [x]. Ou seja, tomando como exemplo a forma verbal «trouxeste», que em Português se pronuncia «trousseste», a Avó Maria pronunciava como “trou xeste”, mantendo o som [x]. Ou a clara distinção entre «massa» e «maça», que, em Português, são homófonas, ou seja, se pronunciam da mesma forma. Porém, a Avó Maria, distinguia-as perfeitamente. E se «maça» era pronunciado como em Português, a «massa» saía com um som aproximado a ”maxa”… E a pronúncia de «coser» era completamente distinta da de «cozer»…
 
Já cá virei, numa próxima oportunidade, e “pr’ós q’intresse tiberim”, para tentar expor as razões históricas que bem fundamentam o facto de sermos essa tal de «terra das duas línguas»… Sem «separatista» ser, que muito gosto de ser Português, muito respeitando a também minha Língua Portuguesa.
 
Porém, poderia ter nascido noutro local qualquer, mas, “azare du caralhitchas’e, habia de ter nacidu’e n’ua terra adonde se falaba male. E boto-le miúda proa nissu’e!”…
 

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* As Terras de Bragança eram uma zona de fronteira indefinida, não se pode dizer que pertencessem ao Condado Portucalense. No Nordeste transmontano, não há o mínimo vestígio de permanência de "mouros" (embora haja lendas de "mouros" e "mouras"). Por isso, nunca lá houve Reconquista. Também não foi terra de Lusitanos.

Para lá do Marão... (3)

Cristina Torrão, 15.11.25
 
(mais um texto de Rui Rendeiro Sousa, partilhado no grupo Memórias...e outras coisas - BRAGANÇA)

 

A minha Avó Maria nasceu em 1913. Nunca frequentou a escola, por isso constando do imenso número de analfabetos que foram imagem de marca de Portugal. Como tal, e de facto, NUNCA aprendeu Português. A língua que ela falava tinha-a aprendido através da transmissão oral dos seus pais, os meus bisavós que não conheci. Suponho que esses meus bisavós também nunca tenham frequentado a escola. Especialmente no século XIX, no qual as taxas de analfabetismo, no Portugal rural trasmontano, rondavam os 80% no sexo masculino, subindo essa percentagem acima dos 90% para o sexo feminino.
 
Presumo, portanto, que esses meus bisavós se incluíssem no vasto grupo populacional que Leite de Vasconcellos identificou como falando «Mirandês», ou uma sua variante dialectal. Ou seja, a minha Avó Maria falava uma variante do Ásturo-Leonês que tinha aprendido, oralmente, com os seus pais. Por isso, os meus colegas «alfacinhas», que apenas se comunicavam na “língua fidalga”, a norma-padrão, o Português, me perguntaram que língua falava a minha Avó...
 
Subitamente, recuei aos meus tempos de «estudantezeco» em Lisboa. E recordei-me que tinha por lá um grande amigo, de Macedo, tal como eu. Embora estudantes na mesma universidade, éramos de cursos diferentes. Mas raro era o fim-de-semana no qual não nos encontrássemos, ou indo eu para as «tainadas» com os colegas dele, ou o inverso, vinha ele para a «copofonia» com os meus. Naquilo que julgávamos ser uma mera brincadeira, quando pretendíamos que ninguém nos entendesse, ou queríamos troçar com os restantes, malvadez de jovens, falávamos “à Macedu’e”, como lhe chamávamos.
 
Vulgar sendo, no meio de um jantar, sair, com pronúncia carregada, um “abonda d’i um carólu’e”, ou um “bota lá mais um catchu de pinga”, ou um “tchega aí u caçoulu da tchitcha”. Ou passávamos a utilizar os pronomes “ou, mou, tou”, ou os derivados de «ele» no plural, “eis, deis, aqueis, daqueis”, entre tantas outras coisas, onde também entravam “tchítcharus’e”, “érbançus’e” ou ”coubes-trontchas’e”. Recorrentemente fazíamos uso do “bô”, do “bem m’ou fintu’e”, do “c’mu quera”, sem “sequera” ponderarmos que, de facto, estávamos a comunicar-nos num idioma distinto do Português. Por isso não nos entendiam...
 
Mais nos divertíamos a fazer contas em “me’ réis”. Bem ao género de, dividida a conta, dar “binte deis me’ réis” a cada um. Atónitos ficavam os comensais perante a moeda que utilizávamos. Hoje, enquanto pensava sobre esses episódios, fui assolado pela expressão que tantas vezes usámos, o “bota a bubere uas cerbeijas”. Inevitavelmente, lembrei-me do «Mirandés»… E pensei para com os meus botões: “Rais’parta! Pois, em Mirandés, «beber umas cervejas», escreve-se «buber uas cerbeijas»!”… Estão a entender?… Nessas paródias, nós não falávamos deturpando o Português! Nós falávamos, mesmo (!), noutro idioma!!!
 
E, creiam, só hoje me apercebi, com clarividência, desse facto. Em simultâneo me apercebendo por que entendia, ao mesmo tempo, a minha Avó Maria, que NÃO falava Português, e os meus colegas «alfacinhas», que Português falavam. Reparado tendo que a “nh’ábó” não intervinha muito quando a conversa decorria em “língua fidalga”, agindo de forma semelhante àquela que acontecia quando alguns dos membros da família, também filhos e netos da emigração, desatavam a «parler en français», demonstrando um alheamento que só os “belhotes’e” sabem fazer. “Ele hai cousas du catantchu’e”!…
 
E, de facto, as minhas conversas com a Avó Maria só eram consequentes e profícuas, quando falávamos em “língua tcharra”, a variante do Ásturo-Leonês que era a sua língua materna! Variante essa que, sem consciência ter, também eu tinha aprendido, quer nos contactos com ela, quer naqueles que mantinha quando fazia as minhas incursões à aldeia. E deixava de dizer «a minha avó», passando para “a nh’ábó”, ou «o meu tio», transformando-o em “u mou tiu’e”. Ou a «chuva» passava a “tchuba”, a «água» a “auga”, o «descer» para “decere”, as «escadas» para “scaleiras’e”, o «descalço» para “zcalçu’e”, ou o «nu» para “couratchu’e”…
 

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Para lá do Marão... (2)

Cristina Torrão, 11.11.25
Continuando a saga da "língua tcharra", transcrevo aqui um esplêndido diálogo, criado por Rui Rendeiro Sousa. Esta série também serve para mostrar aos portugueses sem raízes transmontanas que não há apenas uma "pronúncia do Norte". O falar do Nordeste transmontano nada tem a ver com o do litoral, nomeadamente, do Porto e da província do Minho.
 
Uma dica: ler alto ajuda a perceber.
 
 
(Advertência: O diálogo que a seguir será apresentado, é ficcional, porém baseado em memórias guardadas. É um retrato, o mais fiel possível, da forma de falar da minha Avó Maria, oriunda de uma aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros. Forma de falar que, quando à aldeia ia, absorvia e procurava imitar. Trata-se, apenas, de uma transcrição respeitando a original pronúncia, com todos os fenómenos fonológicos à mesma associada, onde entram paragoges, africadas, betacismos, apócopes, e demais designações estranhas. Em simultâneo respeitando a quase inexistência de vogais átonas, o que conduz, p.e., à recorrente substituição de [o] por [u]... Não se trata de nenhuma forma «científica», sempre tendo em conta que há variações regionais, quer no léxico, quer na pronúncia. Apenas para precaver eventuais protestos...)
 
- Ó mou filhu’e, já tchigaste?
- Ó bó, bote cá um beiju’e! E um tchi-curaçãu dus sous, mim arrotchadinhu’e!
- Fizeste boa biaige? Já te fiz’u café nu pote, q’és ua malga dele? Já te bou pur um cibu de persuntu’e. Abonda di um pão da arca, que já te cort’um carólu’e. Assenta-te aí, mou filhu’e, trai u môtchu’e.
- Ó bó, deixe stare. Só bim pr’á bere.
- Ai u diatchu du raparigu’e! Daqui num sais sim m’rendares, bô! Q’inda te tchegu a roup’ó pêlu’e, pur’i, q’inda sou capaze! Bá, sabes q’stou a mangare, que da tu’ábó nunca alombaste. Stás um home, mas tens d’aparare essas repas’e. Bá, bota lá, q’és ua nabalha, ou trou’xeste a tua?
- Um home que bai pr’ó mare, prupara-s’im terra, num é assim que dize?
- Ó depeis fais um fabore à tu’ábó? Bais ó s’queiru’e, e trais ua gabela de guiçus’e, e de caminhu’e, trai um tóru p’ró depeis serbire de strafugueiru’e. Q’habemus de fazere um magostu’e, que já apanhei ua man’tchêa de caz’tanhas’e. Bá, trai um manhuçu de bides, mas das que já stão amanhadas co baraçu’e, oubiste!
 
A minha avó, naquele seu peculiar estilo de viúva sozinha, de muitos anos, que o meu avô já não conheci, gostava de emitir ordens. Não me incomodavam, afinal era a “nh’ábó Maria”, a única que conheci. E lá fui ao sequeiro, não sem antes passar a cumprimentar a “Marela e á Ruça”, companheiras de aventuras tantas. Um dia, que por vezes também era “atraganadu’e”, para que uma delas andasse, “tchiz’quei-le” num qualquer local que não apreciou, e levei com um “pinote”. Mas ficámos sempre amigos.
 
- Inda stibeste a talhar’us guiçus’e? Bem tempu te lubou’e. Bai à’dega, e trai u assadore, que stá lá imbarradu’e. E si’u q’és, trai binhu’e, mas inda num é du nóbu’e.
...
- Trai daí us lumes’s, ou assopra-le co fole. Num le botes as caz’tanhas sim le fazer um corte, olha que stourum, c’um catanu’e! Bá, rebir-ás, q’és um rudilhu’e, pra num te queimares, pur’i? Ó caralhitchas’e, aban’ó assadore, assim’e, p’ra tráse e p’ra diante. Bai ali pur’ua saca, pr’ás abafare! Ó depeis inda lebas uns bilhós’e.
 
É com alguma emoção de permeio, porém com imenso orgulho, que me recordo dos longos diálogos com a “nh’ábó”. À custa deles e de, um dia, dois colegas «alfacinhas» me terem perguntado que idioma falava a minha avó, questionando-me, por exemplo, o que era “butare as carabunhas pr’ó lume”, hoje me aturam aqueles que paciência têm para ler estas “tchabaz’quices”. É, também, uma forma de honrar e prestar uma sentida homenagem a todas as “Abós Maria” destas magníficas terras.
 
“C’ua lágrima nu cantu du ólhu’e”... “Bá, bou-me lá, c’os deseijus d’um bô f’riadu’e!”… Assim o diria a minha Avó Maria…
 

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Nota: O Rui Rendeiro Sousa deseja "bom feriado" porque publicou este post no passado dia 31 de Outubro. Resolvi assim deixar por igualmente estar escrito em "língua tcharra".

Para lá do Marão... (1)

... mandam os que lá estão. E durante muito tempo, foi mesmo assim.

Cristina Torrão, 08.11.25
Na verdade, no Nordeste transmontano, terras de Bragança, até há cerca de cem anos, não se falava Português, no dia-a-dia das aldeias. E, ainda nos anos 1970, os dialectos transmontanos eram de muito difícil compreensão para os compatriotas de outras paragens. Eu própria só comecei a entender a minha avó transmontana, a partir dos sete anos. Antes disso, não lhe entendia palavra, embora ela insistisse em me contar histórias e lengalengas. Também a minha mãe tinha sérias dificuldades em compreender os parentes e restantes habitantes da aldeia-natal do homem com quem casou. Hoje, já se tornou raridade encontrar alguém que fale "à moda antiga".
 
Todos nós sabemos que existe uma outra língua, em Portugal: o Mirandês. O que quase ninguém sabe, pois muitos estudiosos só actualmente têm chegado a essa conclusão, é que, em tempos, esse Mirandês não se confinava à região de Miranda do Douro, pois seria falado em quase todo o distrito de Bragança.
 
Um desses estudiosos é o Rui Rendeiro Sousa, natural de Macedo de Cavaleiros (o concelho onde nasceu o meu pai). No grupo Memórias e outras coisas... Bragança, do Facebook, ele tem publicado textos sobre essa "língua tcharra", que me enchem de nostalgia. E de pena. De nunca ter gravado esse falar, enquanto era quotidiano, na freguesia do Lombo, onde ia visitar a minha avó Ludovina Amélia Rodrigues. E, com a devida autorização do autor, decidi trazer alguns desses textos para aqui.
 
Não sei se os leitores e comentadores do Delito irão apreciar. Mas não posso deixar de o fazer. Não só porque estes textos me dizem muito. Também por fazerem parte de uma realidade portuguesa praticamente desconhecida em Portugal, nomeadamente, para quem não tem raízes transmontanas.
 
 
Ou um comentário que me “spritou’e”… E, outra “bêze”, a “língua tcharra e á proa”
 
Surpreendido vou ficando por, ao optar por escrever em modo “parolo”, assim bem ao género de “ua galdrumada”, parecer despertar um orgulho que supunha adormecido. Confesso que fico de olhos arregalados, boquiaberto, os meus genes trasmontanos ficando “spritadus’e” com tais inexpectáveis reacções.
 
Por entre todos os valiosos e gratificantes comentários, um houve que me “arrascanhou’e” este profundo orgulho, vaidade até, que sinto nestas terras, que não são melhores nem piores do que outras, todavia sendo MUITO diferentes. Já tive a oportunidade de deixar uma resposta no referido comentário, não apenas o agradecendo, mas informando que já me tinha dado o mote para “butare mais uas palabras’e”.
 
Para os curiosos, tratou-se do seguinte: «De quando em vez aparece um "visconde" que se diz transmontano que diz que em Trás-os-Montes não se fala/nunca se falou assim». “Ah peis é, tamém já nus apanhei’e, ós biz’condes e às biz’condessas’e”… Um apreço especial tendo por apanhá-los. Apenas e tão só porque, em simultâneo, com eles consigo falar na sua “língua fidalga” e na minha/nossa “língua tcharra”. O que representa “ua bantaige”…
 
Por “bantaige” ter mencionado, por vezes é preciso ter “curaige” para escrever assim, fazendo estas literárias “biaiges” por uma terra onde se “debagum nas baiges”. Terra essa onde parece não ter chegado, entre muitas outras coisas, o sufixo [-agem]. Por “bias” disso, ouvia dizer que éramos uns “selbaiges” que corrompíamos e falávamos mal a Língua Portuguesa. Acrescia, a essa observação, que essa forma de falar era de pessoas analfabetas, e que era muito semelhante ao Galego. O que a paradoxal me soava, porque fui, orgulhosamente, “paridu e criadu’e” nestas terras, e não era analfabeto. Mas também gostava de falar a “língua tcharra”…
 
Um dia, contingências da vida, resolvi aprender o tal de Galego. E até descobri que havia duas versões, o Galego-Português, seguido pelos mais puristas, e o Galego-Castelhano, adoptado pelos aculturados. Confusão me tendo feito que, essencialmente o Galego-Português, tivesse muito mais semelhanças com o Português propriamente dito, do que com a tal de “língua tcharra”. Mais tarde, tive o raro privilégio de, nestas andanças linguísticas, conhecer e privar com o meu saudoso amigo Amadeu Ferreira, um dos grandes instigadores e defensores da Língua Mirandesa. E lá me convenceu a aprender «Mirandés». Espanto meu, a “língua tcharra” da minha Avó Maria era “quaije” que igual ao tal de «Mirandés»! Até na ausência e transformação do [-agem] era «igualzinha»...
 
Idioma esse que também tem mais [u] que a Língua Portuguesa, como são bons exemplos «cumprar, cumbersa, frunteira, buber». Ou no qual sucede um processo fonológico de apócope, «comendo-se» a letra final em, por exemplo, «home» ou «onte», tal qual como a Avó Maria dizia. Tal como dizia “trasdonte”, por «anteontem», como consta do «Mirandés». Idioma no qual «depois de amanhã» é «passado manhana», expressão que a Avó Maria dizia «passado manhã». Coincidências… Mais havendo, como o «disse», que em «Mirandés» é «dixe», e a Avó Maria «dixu» pronunciava. Ou «fez», «fizo» em «Mirandés», «fezu» na pronúncia da Avó Maria. Senhora minha que não utilizava os [v], letra que, viria a saber, nem sequer consta do Alfabeto Mirandês. São incontáveis os exemplos das afinidades…
 
Nesta insanidade por perceber que não falávamos mal Português, «cada maluco com a sua panca», passei a estudar os mais eminentes Linguistas, portugueses, espanhóis e de nacionalidades outras. Entre os quais, o inevitável e insuspeito Leite de Vasconcellos. Personalidade que, instigado pelo seu grande amigo, o «nosso» Mogadourense Trindade Coelho, por estas terras andou, há sensivelmente 140 anos, para entender uma tal de «língua estranha» que por aqui se falava. Esclarecedores sendo os valiosos testemunhos que nos deixou, seguidos que seriam por outros eminentes Linguistas. E imaginem lá que idiomas falavam, na esmagadora maioria das terras do distrito, essencialmente nas da chamada Terra Fria, os nossos bisavós/trisavós? “Peis é!”… Ou aquilo a que ele designou por «Mirandês», que seria incluído no ramo das línguas Ásturo-Leonesas, ou dialectos daí derivados, alguns que até ganhariam nome específico, como o Riodonorês, o Guadramilês ou o Sendinês.
 
Posteriormente, outros desenvolvimentos surgiriam, que concluiriam que o tal de «Mirandés» já tinha tido uma extensão muito maior do que aquela a que hoje está confinado. Conclusões que advieram, não apenas do aturado estudo de processos fonológicos, mas também da permanência, na toponímia, de vocábulos de filiação «Mirandesa», sendo o exemplo maior as «Urretas» ou «Orretas» que abundam no cadastro toponímico das nossas freguesias. Ou palavras como «cochino» ou «cachico», tipicamente «Mirandesas».
 
Conclusão: NUNCA falámos mal Português! Falávamos, sim, idiomas de um ramo distinto do Galego-Português, idiomas que até o antecederam, do ramo do Ásturo-Leonês. O que me conduziu a aprender «Asturianu», e com isso melhor ainda percebendo que… NUNCA FALÁMOS MAL PORTUGUÊS! Como tal, para os “biz’condes e pr’ás biz’condessas’e”, cujos bisavós/trisavós até falavam em “língua tcharra”, este “rapaze ou raparigu’e, c’mu le quijerim tchamare”, como muitos outros iguais a ele, “paridus e criadus’e” nestas terras “selbaiges”, tem “ua bantaige” em relação aos “fidalgus’e”: é poliglota! E tão rapidamente fala e escreve, escorreitamente, em Português, a “língua fidalga”, como o faz em versões “língua tcharra”, as derivadas do Ásturo-Leonês.
 
Alguém me perguntava, recentemente, qual a minha nacionalidade. Respondi-lhe, a sorrir, que tinha dupla nacionalidade: Galego-Português por adopção, Ásturo-Leonês por essência.
 

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