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A normalidade continuará dentro de momentos

por Paulo Sousa, em 25.10.20

No início da pandemia escrevi aqui que, a que então começava seria a mais longa primavera das nossas vidas.

Não sabíamos o que estava para vir. Olhando para trás é óbvio que continuamos, mais do que tudo o resto, com dúvidas. Não sabemos a dimensão do que ainda falta passar até que regressemos às rotinas despreocupadas com as partículas em suspensão na atmosfera que nos rodeia.

Vendo um filme, as fotos de recordação de há um ano atrás sugeridas pelo facebook, um jogo de futebol do ano passado ou as melhores jogadas do Mundial de Rugby de 2019, dou por mim a reparar que faltam ali máscaras e como é que aquela gente pode estar tão indiferentemente despreocupada estando tão próxima. Como é que se pode fazer uma formação ordenada sem pensar na expiração dos restantes jogadores?

Nestes meses que passaram já mudamos, e foi por dentro. Um dia no futuro voltaremos a cumprimentar-nos com beijos nos rosto e com abraços sentidos e despreocupados, mas isso ainda vai demorar. Até lá, a preocupação em manter a distância física, em desinfectar as mãos, em filtrar o ar que respiramos vai ganhando raízes e vai-se acumulando como por camadas, ameaçando tornar-se numa memória muscular.

O choque perante os hábitos antigos, de apenas há ano, é muito mais perceptível ao ver um filme do que ao ler um livro. Os olhos desviam-se da acção e de relance procuram os irresponsáveis que não cumprem as regras, enquanto que num livro somos levados pela mão de quem o escreveu e só vemos o que nos é revelado. Vou por isso tentar ver mais filmes e ler menos. Não me quero esquecer do mundo onde vivíamos enquanto espero que termine este longo intervalo. Isto é apenas um desagradável intervalo.

Os meios e os fins

por Pedro Correia, em 22.10.20

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O pior da sociedade portuguesa começa a vir à superfície neste oitavo mês de pandemia: refiro-me ao inaceitável clima de delação, a pretexto do combate às infecções, que ameaça deteriorar as relações humanas, enquanto cada qual se encerra no seu casulo, desconfiando de tudo e todos. E nem a malha familiar está livre disto, quando já tivemos o Presidente da República advertindo contra os habituais reencontros natalícios, enquanto milhares de velhos vivem em efectiva reclusão dentro de supostos "lares" que se tornam antecâmaras de morte. Com os entes queridos mantidos à distância, como ontem o JPT nos relatava aqui, em texto de leitura obrigatória.

Inverte-se o ónus da prova, transforma-se em letra morta a garantia constitucional: todos somos culpados até prova em contrário. 

 

O que sucedeu há dias a um professor universitário comprova isto. Este docente da Faculdade de Arquitectura, em Lisboa, foi abordado à saída de uma aula, em pleno estabelecimento de ensino, por agentes da PSP, que lhe impuseram uma coima de cem euros por não ter usado máscara durante parte da sua exposição aos alunos, em que permanecera sentado. Apesar de só haver 20 estudantes na sala, cada um estar separado dos restantes por uma distância mínima de cinco metros e todos se encontrarem afastados do professor. Apesar de este só não ter usado máscara durante a primeira das quatro horas de duração da aula.

Denúncia anónima e cobarde. Incentivo à bufaria, vício de péssima memória na sociedade portuguesa. Inaceitável intromissão da PSP em instalações universitárias para punir comportamentos de professores ou alunos. Tudo isto devia causar indignação. Mas, a pretexto do respeitinho absoluto pelas normas sanitárias, que aliás vão mudando ao sabor das circunstâncias, acabamos por tolerar todas as prepotências, todas as arbitrariedades, toda a desproporção de meios sempre justificados pelos fins.

Começam assim, com casos isolados e em pequena escala. Mas sabemos muito bem onde podem desembocar. 

A vizinha de António Costa

por Pedro Correia, em 19.10.20

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«Noutro dia uma vizinha minha vinha de máscara e disse-me: "Então o senhor primeiro-ministro não anda de máscara?!" Eu disse: não é obrigatório. Ela disse: "Não é mas devia usar." E eu fiquei a pensar nisso.»

 

Com esta risonha declaração aos jornalistas, António Costa desvendou o segredo do processo de decisão política no seu governo. Nomeadamente na recente intenção de tornar obrigatório o uso de máscara na generalidade dos espaços públicos ao ar livre.

A sagaz vizinha de Costa funciona como conselheira. É quanto basta. Para quê ouvir epidemologistas, virologistas e especialistas em saúde pública - entre outras sumidades da medicina - em chatíssimas  reuniões tantas vezes inconclusivas, se é possível beber sabedoria num simples encontro de vão de escada?

They Live

por João Sousa, em 18.10.20

Portugal 2020

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Fotograma de They Live (1988)

Ler os outros (sobre a pandemia)

por Pedro Correia, em 17.10.20

Rodrigo Adão da Fonseca, O Insurgente:

«É importante monitorar a evolução da doença, e rastrear é fundamental; sou totalmente a favor da testagem massiva. Os testes são uma componente essencial da gestão duma pandemia. Agora, estar diariamente a endeusar estes números e a difundi-los de forma alarmista e até à náusea, sem os interpretar à luz de outros dados bem mais relevantes – como o número de mortos, a sua faixa etária, morbilidade, internados, internados em UCI – é próprio de uma sociedade masoquista dominada pelo pânico.»

 

Eduardo Louro, Quinta Emenda:

«A ideia de obrigar a instalar um determinado software no telemóvel de cada um não lembraria a ninguém. A não ser nos regimes totalitários da China ou da Coreia do Norte. Uma coisa é fazer uma campanha, como o primeiro-ministro de resto já tinha feito, para convencer as pessoas a usarem uma aplicação – uma app, como se diz – de livre vontade. Outra é fazer uma lei a obrigar ao seu uso! Isto não é um abanão. É um empurrão para o escuro. E é, do ponto de vista da democracia e da liberdade, o absurdo.»

 

Sofia Loureiro dos Santos, Defender o Quadrado:

«Não podemos continuar a condenar a sociedade a uma crise sanitária gravíssima no que diz respeito a todas as outras patologias não COVID-19, à continuação de uma crise económica gravíssima de cujas consequências ainda não nos apercebemos bem, a um desmantelamento das redes sociais e familiares que são a essência da vivência dos seres humanos. Não é possível manter as comunidades transidas de medo, procurando afincadamente notícias de alarme.»

 

Helena Araújo, 2 Dedos de Conversa:

«Há dias li um comentário sobre uma jovem berlinense que participou numa festa rave dizendo que para ela era uma questão essencial de selfcare. Os jovens estão fartos da disciplina, dizem os jornais, e os resultados estão à vista: em Berlim, cerca de 60% dos infectados com covid têm idade entre os 10 e os 40 anos. Berlim deixou de receber turistas, os berlinenses não podem viajar livremente pelo resto do país, e a cidade está a um passo de novo lockdown: 3,7 milhões de pessoas obrigadas a regime de confinamento. Era bom que trocássemos umas ideias sobre a questão da liberdade individual.»

 

João Mendes, Aventar:

«Faz-me imensa confusão, esta comparação disparatada entre a possibilidade do governo nos enfiar uma app telefone adentro, transformando agentes de segurança em monitorizadores de telemóveis, e os dados que entregamos voluntariamente aos Facebooques da vida. Será assim tão difícil de perceber a diferença entre uma imposição coerciva e uma decisão pessoal e voluntária? Sejamos sérios: se eu, ou qualquer um de vocês, decide entregar informação pessoal a uma plataforma digital, bem ou mal, é de uma escolha livre que se trata. Uma escolha que pode ser revertida a qualquer momento. Se um governo decide impor uma aplicação, fazendo uso de multas e de patrulhamento policial, é o espírito da democracia que está a ser posto em causa.»

 

Vital Moreira, Causa Nossa:

«Como é que seria? A polícia teria o poder de exigir às pessoas a exibição dos seus aparelhos e a prova de instalação da app? E teria também o poder de consultar as listas de infectados e exigir-lhes a prova de que registaram a infeção na app? E a fiscalização policial seria feita na rua, nos cafés e noutros lugares públicos? Poderia entrar nas escolas e locais de trabalho para esse efeito? E quantos efectivos seriam precisos para uma fiscalização razoavelmente ampla?»

 

Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória:

«Se a obrigação de usar a tal app, para a qual não foi possível sequer inventar um nome em português, vier a se chumbada na AR (como espero e julgo que acabará por acontecer), Costa bem pode comprar alguns sapatinhos novos porque o tiro no pé vai furar alguns.»

 

Helena Matos, Blasfémias:

«Nesta história da obrigatoriedade da aplicação, a que ao menos podiam ter dado um nome em português, há um detalhe básico: desde quando são os portugueses obrigados a ter telemóvel? Por mim, preparo-me para regressar ao velho Nokia. E se for necessário às cabines telefónicas. Aplicação Stayaway Covid? “Jamé” como dizia o outro!»

Líder da oposição

por Pedro Correia, em 16.10.20

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O Governo, denotando um autoritarismo galopante que o leva a remover personalidades incómodas, como a anterior Procuradora Geral da República e o cessante presidente do Tribunal de Contas, quer agora pôr as polícias a invadir a intimidade das nossas comunicações móveis.

Com o ar expedito que já adoptou para insultar médicos e apoiar a recandidatura do presidente do Benfica, António Costa anunciou o uso obrigatório, em contexto estudantil e laboral (começando pelos trabalhadores da administração pública), de uma aplicação com nome "amaricano" que coloca cada cidadão sob escrutínio permanente das autoridades sanitárias, fornecendo metadados aos gigantes da tecnologia digital Apple (iOS) e Google (Android). Em nome da "geolocalização de infectados" - empestados e leprosos do século XXI.

Esta medida, inexistente na União Europeia, foi instituída pela ditadura chinesa. Cenário distópico - digno das páginas do 1984, de Orwell - tornado realidade a pretexto do combate à pandemia. A mesma ditadura que impõe testes clínicos a todos os súbditos numa cidade com 9,4 milhões de habitantes em apenas cinco dias, apenas porque ali surgiram seis casos de infecção com o novo coronavírus. Quem recusar, fica sob a alçada imediata da "polícia de vigilância e defesa do Estado".

 

Acontece que não vivemos em ditadura: a polícia portuguesa não existe para violar a privacidade de cidadãos pacíficos. Aliás o Tribunal Constitucional já chumbou a utilização dos metadados de telecomunicações pelos serviços de informações para prevenir actos de terrorismo. Nada autoriza o primeiro-ministro a assinar decretos por capricho autoritário, vulnerando direitos fundamentais: o Governo tem de submeter-se ao império da lei.

Felizmente a nossa democracia conta com uma oposição activa e enérgica. «É inconstitucional tornar obrigatória a app #StayAwayCovid: além da violação da privacidade num país em que a Comissão Nacional de Protecção de Dados não tem dentes, da ineficácia e da análise custo-benefício, equivaleria a consagrar a discriminação contra pobres e idosos mais vulneráveis. Espero que a AR chumbe o projecto-lei», apressou-se a opinar a líder da oposição.

Sem papas na língua, como sempre.

Frases de 2020 (31)

por Pedro Correia, em 15.10.20

 

«Eu não gosto destas soluções.»

António Costa, referindo-se às medidas autoritárias do seu Governo, que quer impor o uso permanente da geolocalização a cada português, a pretexto do combate à pandemia

O pregador recém-convertido

por Pedro Correia, em 15.10.20

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O primeiro-ministro que permitiu um 25 de Abril sem máscaras na Assembleia da República (dispensáveis por a cerimónia oficial decorrer num «edifício grande», na assombrosa definição da doutora Graça Freitas), a celebração ritual do 1.º de Maio pela CGTP em pleno estado de emergência e a Festa do Avante!, entre muitos outros "eventos", vira agora pregador evangélico dizendo aos portugueses que «temos o dever de nos proteger e de proteger os outros».

Convém não sermos ludibriados por esta pose de recém-convertido aos rigores sanitários, entre ameaças de coimas pesadíssimas e da tentativa de imposição obrigatória (obviamente inconstitucional), em contexto laboral, de uma aplicação digital gerida por multinacionais da recolha de dados. Trata-se do mesmo chefe da mesma equipa governativa que, pela voz da directora-geral da Saúde, antecipava em Janeiro que «não há grande probabilidade de chegar um vírus destes a Portugal» e em Março desaconselhava o uso de máscaras por incutirem «falsa sensação de segurança». É o mesmo que em Junho "vibrava" entre duas mil pessoas que assistiram a um concorrido show humorístico no Campo Pequeno.

Soaram entretanto as doze badaladas da meia-noite e eis-nos imersos em nova quarentena social. Decretada por um governo que carece em absoluto de autoridade moral para o efeito. Fazem-se desde já prognósticos sobre as próximas excepções às novas regras - e a cor política que terão.

Crescimento exponencial.

por Luís Menezes Leitão, em 13.10.20

Recentemente li um livro onde é dado um curioso exemplo do que significa um crescimento exponencial. Imagine-se uma gota de água a cair num grande estádio de futebol, mas que vai duplicando o seu número a cada segundo. Com esse crescimento exponencial do número de gotas de água, o estádio ficaria completamente inundado até ao seu topo em apenas 49 segundos. No entanto, até ao segundo 45, o estádio teria apenas 7% da sua área inundada da água, pelo que os espectadores veriam apenas a relva alagada. Só nos últimos 4 segundos é que surge a quantidade de água necessária para produzir a inundação total do estádio.

O mesmo exemplo pode aplicar-se à pandemia Covid-19 e ao número de infecções que está a gerar. Se o RT fosse de 2, como neste exemplo do estádio, assistiríamos em poucos meses a uma multiplicidade incontrolável de infecções. Felizmente que a média é apenas de 1,09, sendo na região Norte de 1.18, no Centro de 1.14, em Lisboa e Vale do Tejo de 1.02, na região do Alentejo de 0.86 e no Algarve de 1.15. Mas estes valores não devem fazer esquecer que qualquer RT acima de 1 gera sempre um crescimento exponencial da pandemia, ainda que com menor velocidade.

Quando as infecções começam a chegar a governantes, políticos, jogadores de futebol e artistas, percebemos a forma como a epidemia está a alastrar no nosso país. Por isso, e por muito que isso nos desagrade, têm de ser tomadas medidas mais eficazes para o seu controlo.

Repensar o Natal

por Rui Rocha, em 12.10.20

No Natal, o Marcelo quer que se organizem turnos. Uns almoçam a 24, outros jantam, outros almoçam ou jantam a 25. Estamos agora a fazer o sorteio. A minha sogra é cabeça de série. O meu cunhado calhou no grupo dela. Se saírem para o mesmo grupo os tios solteiros que estão nos potes 3 e 4, será o chamado grupo da morte.

Os 35 mais infectados

por Pedro Correia, em 12.10.20

Um mês depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora 1,1 milhões de mortos e 37,8 milhões de infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos. Neste período, o número de óbitos aumentou cerca de 20%, enquanto os novos casos entretanto detectados subiram por volta de 30%.

Um registo que me leva a ordenar os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

Catar: 45.582 casos por milhão de habitantes

Barém: 44.028

Israel: 31.729

Panamá: 27.763

Koweit: 25.913

Peru: 25.661

Chile: 25.121

EUA: 24.105

Brasil: 23.922

Omã: 20.727

Argentina: 19.735

Arménia: 15.291

Espanha: 19.041

Colômbia: 17.857

Costa Rica: 17.121

Moldóvia: 15.417

Bélgica: 13.987

Bolívia: 11.827

África do Sul: 11.635

França: 11.253

República Checa: 10.930

República Dominicana: 10.891

Emirados Árabes Unidos: 10.705

Holanda: 10.186

Iraque: 9.942

Singapura: 9.872

Suécia: 9.731

Arábia Saudita: 9.703

Bósnia-Herzegovina: 9.358

Rússia: 8.991

Reino Unido: 8.880

Bielorrússia: 8.841

Irlanda: 8.586

PORTUGAL: 8.506

Honduras: 8.452

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior: a pandemia mantém-se em ritmo muito elevado no continente americano e no Médio Oriente - com destaque, neste caso, para o alarmante caso de Israel, que num mês duplicou a cifra oficial de contágios, passando a ocupar o terceiro posto deste pódio. Em Setembro era o décimo país com maior número de infecções.

Subidas muito acentuadas também em países europeus. Espanha persiste em liderar as estatísticas negativas no nosso continente, tendo quase duplicado o número de casos detectados durante este período e agora troca de posições com a Colômbia. Más notícias também na Bélgica (ocupava o 25.º posto há um mês, é 17.º agora), em França (estava em 35.º lugar em Setembro e regressa aos vinte mais infectados), Holanda (ausente dos 35 que encimavam a lista anterior e hoje na 23.ª posição) e Reino Unido (sobe de 37.º para 31.º).

Em sentido inverso, a Suécia: baixa do 23.º ao 26.º posto, apesar de continuar a ser o país europeu onde menos se fazem sentir as medidas restritivas ou de confinamento. Um caso que merece ser seguido com atenção.

E Portugal? A boa notícia é que recuamos um lugar, relativamente a Setembro. A má notícia é que continuamos entre os Estados membros da União Europeia com mais contágios registados por cada milhão de habitantes. 

Em termos comparativos, à mesma escala, temos o dobro dos infectados por Covid-19 em países como Eslovénia, Marrocos, Hungria, Sérvia e Turquia. Triplicamos os números da Noruega, Estónia e Tunísia. Registamos cinco vezes mais casos do que na Grécia ou na Finlândia. E oito vezes mais do que no Egipto ou na Austrália.

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Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes. Seleccionando desta vez 31 para incluir a estatística portuguesa:

 

Peru: 1006

Bélgica: 878

Bolívia: 709

Brasil: 707

Espanha: 704

Chile: 695

Equador: 688

EUA: 663

México: 648

Reino Unido: 630

Itália: 598

Suécia: 583

Panamá: 575

Colômbia: 545

Argentina: 527

França: 500

Holanda: 384

Irlanda: 369

Moldóvia: 362

Arménia: 346

Irão: 339

África do Sul: 299

Roménia: 285

Bósnia-Herzegovina: 283

Canadá: 254

Honduras: 253

Iraque: 243

Suíça: 241

Israel: 216

Costa Rica: 211

PORTUGAL: 204

 

O destaque continua a ser ocupado, em níveis cada vez mais intensos, por nações do continente americano. Permanecendo o Peru no topo desta lista negra. Subidas acentuadas de países como a Bolívia (há um mês era sexto, agora é terceiro), o Brasil (sobe do oitavo ao quarto lugar), México (em Setembro estava no 12.º posto, entra hoje nos dez mais) e Argentina (com o maior salto proporcional, do 23.º ao 15.º).

Cifras negras também na Europa: a Bélgica mantém-se como segundo país do mundo com mais óbitos por milhão de habitantes e a Espanha figura ainda entre os cinco primeiros (embora desça da terceira posição registada em Setembro). Descida também do Reino Unido (era o quarto com mais mortos, proporcionalmente, agora é o décimo). 

A Itália - que já esteve em primeiro - situa-se hoje na 11.ª posição: há três meses surgia em quarto. Destaque igualmente para a Suécia, que entre Julho e Outubro baixou do 5.º para o 12.º lugar. 

Portugal sai pela primeira vez da lista dos 30 países com mais mortos por milhão de habitantes. Confirma-se assim a tendência para a descida já verificada em Julho, quando estávamos em 21.º. Em cinco meses, caímos 19 lugares: convém recordar que no início de Maio ocupávamos a 12.ª posição. 

Infelizmente ainda figuramos entre os dez países da União Europeia neste quadro nada invejável. Com o dobro dos óbitos por Covid ocorridos na Dinamarca, Hungria e Áustria. Triplicando o registo da Finlândia. E com cerca de cinco vezes mais vítimas mortais do que a Grécia.

A liberdade e os outros

por Teresa Ribeiro, em 07.10.20

Sofia foi este fim de semana a um casamento onde estiveram 200 convidados. Eu não conheço a Sofia, mas por causa dela durante 14 dias vou evitar algumas pessoas e reforçar os cuidados no convívio com aqueles que tenho de contactar diariamente. Custa-me condicionar assim a minha vida, mas não quero ser um risco para ninguém. Mal sabe a Sofia, que nunca vi, mas que está todos os dias em contacto com a minha filha - que vive comigo - o trabalho e preocupação que o seu programa de fim de semana me está a dar. Podia agir como se nada fosse? Podia. Mas dei cálculo de probabilidades na escola e uma festa para 200 pessoas, onde se come e se dança durante horas, é um risco. Se apanhar o bicho através da minha filha, ao menos sei que fiz o possível para o não transmitir a ninguém.

Haverá quem considere isto excesso de zelo, ou até mesmo histeria. A questão é que não tenho bola de cristal. As estatísticas que alguns gostam de brandir, revelam que o novo coronavírus faz poucas baixas e afecta seriamente pouca gente, mas nunca poderei saber, em antecipação, se todas as pessoas que pertencem ao meu inner circle vão reagir bem a uma investida do bicho. Daí as minhas cautelas e caldos de galinha. Daí ter também dificuldade em perceber aqueles que fazem questão de continuar na sua vidinha de sempre, reivindicando o direito a viver como querem e lhes apetece.

Ao fazê-lo, ao desprezar as normas de segurança sanitária, todos os dias atentam contra a liberdade dos outros, pois  expõem-se e, pior,  impõem-se a terceiros. Incluindo familiares, colegas e amigos. Mas esta é a parte da liberdade individual que não lhes interessa discutir: a que afeta os outros. 

 

Sem cinema nem futebol

por Pedro Correia, em 07.10.20

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Jeanne Moreau em La Baie des Anges, de Jacques Demy

 

O nosso João Campos deu-me uma boa notícia: o cinema sem pipocas vai resistindo como pode no circuito de exibição em Lisboa, mesmo em tempo de pandemia.

Eu há sete meses que não o frequento.

Desde o ciclo Carta Branca 2020 a Jorge Silva Melo, na Cinemateca, no início de Março.

 

Ainda o aproveitei como pude.

No dia 2, revi a fabulosa Carmen Jones (1954), de Otto Preminger.

No dia 5, vi pela primeira vez um interessantíssimo filme de Carol Reed passado em Belfast, com o conflito anglo-irlandês em fundo: Odd Man Out (de 1947, com James Mason), já com muitos elementos estéticos que prenunciavam o magnífico O Terceiro Homem, rodado em Viena dois anos depois.

Vi ainda La Baie des Anges (1963), de Jacques Demy, com a magnética presença de Jeanne Moreau. Extraordinária actriz que sempre me fascinou.

 

Foi a 9 de Março, uma segunda-feira. Na véspera, tinha ido ao futebol, no estádio do meu clube, ver o Sporting-Aves - estreia do treinador Rúben Amorim em Alvalade.

 

As escolhas de Silva Melo pareciam excelentes, o ciclo prometia muito: infelizmente, ficou amputado pela pandemia.

Deixei de frequentar salas de cinema, até agora. E continuo impedido de frequentar estádios de futebol.

 

Tanta coisa tem mudado nas nossas vidas desde então. Também isto. Parecem detalhes, mas não são.

Frases de 2020 (29)

por Pedro Correia, em 07.10.20

 

«É altura de deixarmos de pôr o país nas bocas do mundo, dizendo que a informação não é boa. Isso até nem é patriótico.»

Graça Freitas, directora-geral da Saúde, na Assembleia da República

Lindo

por Pedro Correia, em 01.10.20

Eis o País a braços com uma crise pandémica de consequências imprevisíveis e já mergulhado na maior recessão económica dos últimos cem anos. O que faz o Governo? Há por lá quem se entretenha a brincar aos repastos eleitorais: dois ministros irritadinhos e amuadinhos, cada qual a enviar farpas ao parceiro em declarações que prometem uma escalada de agressividade verbal até ao escrutínio presidencial de Janeiro. 

Lindo exemplo de irresponsabilidade política, este que Augusto Santos Silva e Pedro Nuno Santos proporcionam aos portugueses, protagonizando jogos florais na praça pública. Como se não fizessem parte do mesmo partido e não se sentassem a poucos metros de distância um do outro no Conselho de Ministros. Como se nada mais tivessem de fazer senão oposição a si próprios. 

Não pode haver mais expressivo retrato da falta de autoridade efectiva do primeiro-ministro na hora que passa. Precisamente quando o País mais precisaria dela. 

Eutanásia social

por Pedro Correia, em 29.09.20

Está em curso uma autêntica eutanásia social. O morticínio que tem acontecido nos chamados "lares de idosos" - muitos dos quais clandestinos, perante a criminosa indiferença de tantas autoridades autárquicas, de norte a sul do País - é algo que devia chocar todos os portugueses. Das quase duas mil vítimas mortais por Covid-19 oficialmente já registadas, cerca de 40% ocorreram naqueles antros. Vitimando gente indefesa, que na grande maioria dos casos nem pode sair daquelas instalações, onde na prática vigora um regime de reclusão forçada desde que foi declarada a pandemia.

Só em Reguengos de Monsaraz, como num filme de terror, morreram 18. Nunca a bela palavra lar foi tão conspurcada e pervertida.

Infelizmente este assunto, como se tornou hábito, vem sendo tratado apenas enquanto dado estatístico na generalidade dos órgãos de informação. E siga para bingo, pois tristezas não pagam dívidas e há que continuar a promover "spots da moda" e inserir publirreportagens nos telediários recomendando "passeios inesquecíveis" (com gel e máscara).

E colar mais um arco-íris na janela com a frase "vai ficar tudo bem". Num país em que mais de 12 milhões de consultas e cirurgias permanecem por fazer.

Não quero médicos a mandar

por Pedro Correia, em 23.09.20

Há por aí alguns responsáveis autárquicos a exorbitar das funções que lhes são atribuídas, torcendo as normas legais: a pretexto da epidemia em curso, querem impor o uso obrigatório da máscara aos munícipes em todos os espaços públicos, incluindo ao ar livre. Algo que as autoridades centrais nunca decretaram - nem sequer quando o País se encontrava sob estado de emergência, com números de infecções e mortes mais preocupantes do que os actuais. Por um motivo muito simples: nada no nosso ordenamento constitucional autoriza tal medida.

Este excesso de zelo autárquico - e refiro-me concretamente, pelo menos, aos presidentes das câmaras municipais de Guimarães, Arruda dos VinhosCastro Marim e Vila Real de Santo António - é aplaudido por alguns talibãs do sistema sanitário que percorrem os telejornais, serão após serão, em defesa aberta de tal medida. Acontece que estes clínicos não foram eleitos para tomar decisões em nome do interesse público. É para isso que existem os governantes, sujeitos à legalidade democrática. No dia em que os médicos tomassem o poder e os políticos exercessem medicina estaríamos todos bem pior.

A pandemia dentro da pandemia

por Pedro Correia, em 22.09.20

Durante o recente estado de emergência em Espanha, 59 cadáveres ficaram por reclamar em Madrid. Imagino que terão sido pessoas como qualquer de nós: riram, choraram, conviveram, sonharam, amaram. Foram a «palha pensante» de que falava Pascal, aludindo à fragilidade da condição humana.

Na nudez absoluta da morgue, ninguém as procurou: incineradas ou depositadas na vala comum sem um lamento fúnebre, tornaram-se mero dado estatístico para discussões à hora do jantar. 

Esta é uma pandemia dentro da pandemia: a de que menos se fala mas a que mais devia preocupar-nos, pois comprova como se tornaram inóspitas as sociedades que criámos, gerando desenfreadas correrias que conduzem a lugar nenhum. Quantos dramas humanos se ocultam sob as luzes citadinas? Quanta dor silenciada na perpétua vigília de quem é incapaz de adormecer? Quanta solidão povoada de fantasmas assombrando noites que nunca verão nascer o sol?

Para memória futura

por Paulo Sousa, em 17.09.20

Jovem do futuro,

Escrevo-te este texto no mês de setembro do ano 2020. Poderia dizer que te escrevo a partir do ano da pandemia, tal como se estivesse em 1939 te poderia dizer que te escrevia do ano da guerra, mas como esta durou até 1945, e por não te querer faltar à verdade, digo-te apenas que te escrevo do ano em que a pandemia foi declarada.

Olhando para o que vivemos desde o início da passada primavera, posso contar-te que tudo começou do outro lado do mundo, lá no extremo oriente onde as doenças respiratórias são frequentes. Mas na Europa desde há cem anos, desde a Gripe Espanhola, que nada desde género cá chegava. Os sofisticados níveis sanitários desta ponta da Eurásia explicavam a nossa falta de comparência nessas ninharias que só afligiam os países do terceiro mundo. Apesar dos primeiros casos terem já sido registados no final de 2019, a nossa surpresa foi total.

Este vírus, um Corona, apresentou-se com um leque de características que abalaram o mundo em que vivíamos.

Se consultares os dados de mortalidade desta época poderás achar que estou a exagerar. Escrevo-te no início do que será a segunda vaga da pandemia, mas de facto até agora a mortandade não é comparável a outras pestes e pragas. Mas não te esqueças que noutros tempos estes fenómenos, por não terem explicação racional, acabavam por serem justificados como sendo castigos transcendentais. Como nos dias de hoje a ciência já praticamente expulsou o transcendental da esfera de cada indivíduo, ficamos sem saber bem o que pensar.

Importa lembrar que a pandemia anterior deixou o nosso país numa quase guerra civil, a que se seguiu uma longa ditadura. A actual democracia é já uma quarentona que apesar de ser democraticamente jovem já tem rugas, vista cansada, pernas pesadas, triceps flácidos e no cabeleireiro manda disfarçar os cabelos brancos. Mesmo sem ter com que pagar o serviço insiste em deixar gorjeta. Três falências financeiras já ninguém lhas tira do curriculum.

Ainda antes da pandemia, um quinto dos portugueses vivia na pobreza. Os pobres são os esquecidos do regime, passam frio de inverno, têm ratos a passear à porta da cozinha e não têm férias para gozar. Os valores humanistas apregoados pela esquerda que governa contrastam com esta realidade que persiste.

Uma vez por ano celebra-se a liberdade e finge-se que os pobres são livres. O que não é verdade, pois estão aprisionados pelos impostos que incidem sobre os seus contratos de trabalho e que, de tão pesados, afastam possíveis alternativas de emprego ou o emprego em si mesmo. Os governos garantem que se conseguirem cobrar mais impostos irão resolver o problema e assim vivemos num eterno ciclo de impostos altos e de pobreza duradoura que se autoalimenta.

Os partidos mudaram mas para pior. Trocaram os operários por minorias identitárias escolhidas a dedo. Outros preferem os animais às pessoas. Mas nenhum representa os pobres, que não sendo poucos, são uma minoria demasiado grande para ter importância. A abstenção é coisa de gente deplorável e os jornais estão tão falidos quanto a classe dominante podia desejar.

As falências de bancos dos últimos anos foram somente parte de uma imensa destruição de riqueza que apenas teve consequências nas algibeiras dos contribuintes que através do Orçamento de Estado tiveram de assumir os seus custos infinitos. A acompanhar este empobrecimento colectivo, os serviços públicos degradaram-se.

Quem tiver dinheiro para isso, paga para ter assistência médica prestada por privados. Os servidores públicos têm um sistema autónomo de saúde que lhes garante serem assistidos pelos mesmos privados. A restante população sujeita-se a listas de espera inexplicáveis e até a morrer enquanto aguarda por uma cirurgia que não será feita a tempo.

A justiça inverteu o ónus da prova na cobrança de impostos e é vergonhosamente impotente perante os bem identificados criminosos que nos roubaram a todos.

Por sorte calhou-nos este canteiro no fim do mapa, quase sempre fora das rotas dos impérios continentais e que permitiu que sejamos uma nação antiga. A geografia arredou-nos assim do centro das disputas de poder e também fez do nosso país um Estado-Membro da União Europeia. É em resultado da geografia, e não por qualquer mérito próprio, que recebemos milhões de metros cúbicos de impostos cobrados nos países ricos do norte e do centro da UE. Enquanto o fluxo de dinheiro europeu não for interrompido o regime irá aguentar-se. De resto lidamos bem com a mediocridade de quem aceita as esmolas como modo de vida.

Foi neste cenário de total dependência económica e de marasmo moral que entrámos nesta pandemia.

No início sabíamos apenas que o vírus era, e continua a ser, muito contagioso. Pode ter até duas semanas de incubação e mesmo antes de a pessoa infectada sentir qualquer sintoma pode estar já a contaminar quem o rodeia. Qualquer amigo, apenas conhecido ou até desconhecido que não apresente qualquer sintoma, pode ainda assim estar infectado e contagiar-nos. Sabendo isso é normal que desconfiemos de todos. Por isso, por medo, banimos o contacto físico, deixamos de dar apertos de mão, beijos no rosto e também de dar abraços. Quer dizer, não totalmente, pois por vezes transportamos o vigor com que queríamos esmurrar esta doença e convertemos esse impulso num abraço inteiro e apertado a alguém que nos é querido. Há coisas e momentos pelos quais continua a valer a pena correr riscos.

Será que, depois de terminada esta provação, nos voltaremos a cumprimentar como antes?

O medo do contágio, e as primeiras imagens chegadas da região de Milão com camiões militares cheios de caixões, levou a um auto-confinamento tão rápido que antecedeu até a declaração do estado de emergência pelo governo. A brusca mudança de hábitos retirou os clientes dos restaurantes, cafés, bares, salas de cinema, discotecas, espaços de espectáculo e de cultura, levou ao cancelamento de festas populares, de festivais de verão, de viagens aéreas e de estadias turísticas. O tráfego aéreo foi reduzido em mais de 90% e os aviões ficaram estacionados nos aeroportos. A quebra de riqueza que resultou desta paragem brusca foi imediata e ainda não sabemos ao que nos irá levar.

Quem por razões profissionais e ou financeiras o pôde fazer, ficou em casa. As famílias passaram muito mais tempo juntas. Essa mudança fez com que algumas ficassem mais unidas, mas outras, e pelo mesmo motivo, desfizeram-se.

Os profissionais de saúde foram os primeiros a lidar directamente com o pesadelo. O norte de Itália foi o primeiro grande foco europeu. Os médicos e enfermeiros que estiveram na linha da frente tiveram de recorrer aos protocolos da medicina de guerra, em que por falta de equipamentos suficientes tiveram de definir critérios de escolha para prestar socorro a um jovem saudável deixando de lado um velho, ou até um jovem não saudável. Os ventiladores tornaram-se no aparelho mais desejado. Em resposta a isso e em poucos dias milhares de engenheiros colaboraram on-line para desenvolver novos modelos de fácil produção e de menor custo. Excluindo egoísmos pontuais, respirou-se um sentimento de partilha e de união perante este este inimigo invisível.

As escolas passaram a funcionar à distância através da internet, algo impensável há poucos anos atrás. Mas as queixas desta solução foram muitas. Demasiados alunos não tinham forma de assistir e, como sempre, os mais pobres ficaram em desvantagem. Excluindo egoísmos pontuais, os professores mostraram espírito de missão. Deram o seu melhor para não deixar os seus alunos sem aulas. As aulas não presenciais exigiram-lhes muito mais horas do que seria necessário no mundo pré-covid. Os alunos adaptaram-se igualmente. As redes sociais colmataram parte da ausência forçada, mas demasiadas coisas no mundo escolar foram interrompidas.

Durante o confinamento, as varandas dos prédios urbanos ganharam uma nova vida. Dali se aplaudiu em reconhecimento os sacrifícios dos profissionais de saúde, dali se cantou em coro com desconhecidos e dali se fizeram incríveis concertos para os vizinhos igualmente aprisionados. Quando nos emocionámos perante os vídeos incríveis de eventos avulsos que chegaram até nós pelos ecrãs dos telefones e dos computadores, descobrimos que se conseguimos colaborar em manifestações que não são mais do que arte espontânea e colectiva, se conseguirmos sorrir enquanto este pesadelo nos agride, então ainda há motivo para ter esperança.

Houve também uma outra casta de heróis quase esquecida. Os supermercados continuaram a funcionar, as suas prateleiras continuaram a ser abastecidas com verduras produzidas pelos agricultores e transportadas pelos camionistas. Estas foram as humildes obreiras que para continuar a abastecer a colmeia não se puderam dar ao luxo de se fechar em casa nem de ir cantar para a varanda. Sabe Deus o medo com que tiveram de lidar para que os circuitos de abastecimento não fossem interrompidos. E assim evitaram o caos. Se alguém lhes perguntar o que fizeram ou porque o fizeram, dirão apenas que fizeram o que tinha de ser feito, e isso para mim é a definição de coragem.

Pouco tempo depois, entendemos que o confinamento nos poupava da doença, mas em contrapartida arrastaria multidões para o desemprego e para a fome. Perante isso digerimos o risco e seguimos em frente. As máscaras de protecção tornaram-se omnipresentes e passaram a esconder os dentes careados e falhos dos pobres assim como os lábios das mulheres bonitas. Com elas postas, com os seus elásticos nas orelhas, aprendemos a sorrir com os olhos.

Triste foi ver os nossos governantes a fingir que sabiam o que fazer. É claro que não sabiam, nem podiam saber. Ninguém nunca poderia estar preparado para uma pandemia como esta. Mas como o fingimento é o seu modo de estar na vida e como só sabem representar, acabaram por dizer coisas completamente opostas com poucas horas de diferença, sempre com o mesmo ar confiante.

Felizmente em grande parte da Europa, é-nos permitido gozar com os políticos. Os políticos portugueses, em particular, são incansáveis em ridicularizar-se a si próprios, assim como ao regime de que fazem parte e que representam. Às vezes são tão risíveis que parecem estar apenas apostados em nos entreter pelas gargalhadas que provocam. Acabam até por nos aliviar da pressão causada pela incerteza. Se se assumissem como palhaços, que é o que são, perderiam a graça.

Gostava de saber como são os líderes do teu tempo. Nunca li nenhuma história de ficção científica em que se vivesse em democracia. Será que os tiranos conseguirão triunfar?

Enquanto isso, e indiferente a tudo isto, a natureza manteve o seu curso. Os pássaros continuaram a nascer nos ninhos, e a cantar nas árvores. Os ratos e os corruptos continuam longe da extinção. Os golfinhos continuam a deslizar pelas águas do mar onde os microplásticos são cada vez mais. E os bebés continuam a nascer. Como eles irão querer melhorar o mundo que receberam, continuamos com motivos para ter esperança.

Eu, continuo a questionar-me se a beleza se esgota nos olhos de quem a contempla e nos ouvidos de quem a escuta ou, pelo contrário, reside nas mais pequenas partículas das coisas belas. Se o nosso código genético é 98% idêntico ao dos macacos, em que escala atómica é possível definir uns olhos bonitos?

O pôr do sol, esse, continua a ocorrer a oeste. Ao longo da maior parte da linha da costa continental do nosso território, isso faz com que o sol desapareça no mar. Poder assistir a esse momento fugaz continua a ser um privilégio, desperdiçado com indiferença.

De improviso em improviso

por Pedro Correia, em 11.09.20

image.jpgFoto: Tiago Petinga / Lusa

 

Para não variar, a directora-geral da Saúde voltou a fazer uma declaração inaceitável. Em que, uma vez mais, menospreza e subalterniza o desporto. Como se uma sociedade em que a prática desportiva organizada, promovida por agremiações clubísticas, não fosse parte iniludível da saúde, tanto na componente individual como colectiva.

 

A mesma responsável que autorizou viagens aéreas em voos lotados, o regresso dos concertos, das sessões de cinema, dos espectáculos teatrais, dos circos e das touradas, a mesma alta funcionária governamental que deu luz verde às manifestações e concentrações de rua promovidas por forças partidárias, movimentos cívicos ou grupos espontâneos de cidadãos, a mesma senhora que permitiu eventos tão diversos como a Festa do Avante no Seixal ou a realização do Grande Prémio de Fórmula 1 em Portimão continua a vetar o regresso do público aos recintos desportivos.

Com argumentos sem pés nem cabeça, confundindo aquilo que não deve ser confundido e até fazendo alusões demagógicas ao início do ano escolar, como se isso tivesse alguma coisa a ver com as modalidades colectivas em geral e o futebol em particular.

 

«Público nos estádios e reabertura das discotecas não será certamente nos próximos tempos. Temos de ver esta grande experiência que é o retorno às aulas e qual será o seu impacto nos números», afirmou anteontem Graça Freitas. Equiparando assim as bancadas de um estádio - onde os lugares estão marcados, é muito fácil estabelecer limite máximo de entradas e o espectáculo decorre ao ar livre - ao interior de uma discoteca, onde o espaço é fechado, as pessoas estão sempre em trânsito e não há possibilidade de assegurar distanciamento físico.

Pior: ao englobar na mesma frase bancadas de estádios e discotecas nocturnas, Graça Freitas confirma ter absurdos preconceitos contra o futebol e não fazer a menor ideia sobre a importância do desporto no "desconfinamento" cada vez mais urgente da sociedade.

Como aqui assinalei, futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas - e as receitas de lugares nas bancadas ou camarotes, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de agremiações desportivas que põem centenas de milhares de portugueses a fazer exercício físico. Porque uma sociedade onde não se pratica desporto é uma sociedade doente.

Não compreender isto é nada compreender de essencial.

 

Noutras circunstâncias, eu recomendaria que Graça Freitas se aconselhasse com o secretário de Estado do Desporto. Mas não o faço porque João Paulo Rebelo já demonstrou ser tão insensível e tão ignorante na matéria como ela. Só isso explica que, numa recente entrevista, este governante tenha desvalorizado o facto de largos milhares de jovens continuarem impedidos de treinar ou competir sem restrições, dando-se até ao luxo de fazer uma graçola com a brutal quebra de receitas das agremiações desportivas: «Não temos conhecimento de nenhum clube que tenha fechado portas.»

Seria simplesmente ridículo se não fosse grave.

 

Uma directora-geral que mete estádios e discotecas no mesmo saco, um secretário de Estado totalmente alheado do dramático quotidiano do sector confiado à sua tutela: assim vamos, seis meses após a declaração da pandemia.

De improviso em improviso, de disparate em disparate.


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