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Delito de Opinião

"Impedidos de beber café ao balcão"

Pedro Correia, 05.04.21

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Vivemos no tempo das lamúrias e das queixinhas. Que, mesmo quando não existem, são inventadas para efeitos jornalísticos.

Leio no Expresso (destaque de páginas centrais, na última edição) que alguns chineses residentes em Portugal se sentem melindrados ao ouvirem designar por "vírus chinês" esta pandemia que já provocou mais de 16 mil vítimas mortais no nosso país - o presidente da Câmara de Viseu, ontem falecido aos 59 anos, foi uma das mais recentes. 

Não entendo esta queixa. Se o vírus que tem feito paralisar o mundo - com um rasto de quase três milhões de mortos e mais de 130 milhões de infectados à escala global - começou na China, denominá-lo pela origem geográfica não é matéria de opinião: é questão de facto. Estigmatizados devem sentir-se os espanhóis, ao verem ainda baptizada de "gripe espanhola", mais de um século depois, a pneumónica que causou dezenas de milhões de vítimas entre 1918 e 1920, sem que a sua origem nada se relacionasse com Espanha.

 

Chegamos ao ridículo de ouvir contínuas alusões à "estirpe inglesa" do coronavírus, ou à "variante sul-africana", ou à "variante do Brasil", sem que isto suscite acusações de "discriminação" ou "xenofobia", enquanto se silencia o ponto geográfico inicial da Covid-19 para cumprir a etiqueta politicamente correcta. 

E ainda assim alguns chineses se queixam.

Mas queixam-se afinal de quê? E queixar-se-ão mesmo?

 

Recorro ao Expresso. "Há casos de imigrantes chineses impedidos de beber o café ao balcão, por receio de contágio dos empregados", destaca o jornal em maiúsculas. Deixando-me mais perplexo.

Então não temos estado todos impedidos de "beber café ao balcão", durante estes 14 estados de emergência?

Então os imigrantes chineses, oriundos do país que mais produz e consome chá no mundo, desatam a beber bicas ou cimbalinos mal chegam a Portugal?

E são eles que receiam ser contagiados pelos empregados, como esta "escrita automática" dá a entender, ou o contrário?

 

O semanário cita, como fonte identificada, o director de "um jornal chinês em Portugal, o Europe Weekly" (curioso nome "amaricano" para um jornal publicado por chineses no nosso país), que só admite haver "um ou dois episódios esporádicos" de alegada xenofobia. O empresário Y Ping Chow, líder da comunidade chinesa aqui radicada, assegura nunca ter havido agressões. Ao vigilante SOS Racismo "não chegou nenhuma denúncia por parte de membros desta comunidade".

Mesmo assim, o Expresso reserva duas páginas ao tema, sob o título bombástico "Pandemia desperta racismo contra chineses". E transforma um caso isolado, de um suposto estudante chinês que terá sido atingido "com excrementos na cabeça" (!), sabe-se lá por que motivo, num plural em antetítulo sob a cabeça "discriminação", também em caixa alta.

 

Viesse isto noutro periódico e estariam alguns a gritar contra o jornalismo tablóide. Mas como surge estampado nas centrais do Expresso, deve ser um louvável exemplo de "jornalismo de referência". Seja lá o que isso for.

Abuso da autoridade e redução de direitos

14 estados de emergência em 13 meses

Pedro Correia, 01.04.21

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Entramos hoje no 14.º estado de emergência imposto nos últimos 13 meses - com drástica restrição de vários direitos constitucionais e o prolongamento do "dever geral de recolhimento" que nos força a reclusão domiciliária, excepto para trabalhar. Este Presidente da República, este Parlamento, este Governo encaram o cidadão português como mero homo faber - excepto os desempregados, cuja cifra real já ultrapassa meio milhão

Neste quadro, o homo ludens é severamente reprimido. Excepto se for estrangeiro ou não residente habitual em território português: para esses não há dever de recolhimento. Pelo contrário, têm direito à livre circulação em território nacional, como admitiu a secretária de Estado do Turismo, sem sequer reparar que lesava outro princípio básico do nosso texto constitucional: o direito à igualdade.

Autoriza-se liberalmente a uns o que se nega severamente a outros. Que o diga o cidadão de Torres Novas multado pela PSP por estar a comer uma sanduíche no interior do seu automóvel: este "gesto transgressor" custou-lhe 200 euros. Que o diga o jovem da Lousã multado pela GNR por ter comprado gomas numa máquina de venda automática: esta "violação da lei" levou o guarda, em manifesto excesso de zelo, a a privá-lo também de 200 euros. O doce ficou-lhe amargo.

 

Notórios abusos da autoridade, que noutros tempos suscitariam severas críticas públicas. Hoje, porém, a opinião colectiva parece anestesiada. São incontáveis as pessoas que até justificam e aplaudem estes abusos enquanto espiam colegas e vizinhos, assegurando que usam máscara em qualquer circunstância na via pública (algo que nenhuma lei prevê), saem excessivamente à rua (como se fosse crime de lesa-Estado) e mantêm "distâncias de segurança" (que alguns imaginam ser no mínimo de dez metros). 

Tudo num quadro de saúde mental que se deteriora a olhos vistos. Só não vê quem não quer. Gostaria que os nossos telediários debitassem menos estatísticas oficiais sobre a pandemia e dedicassem mais espaço ao alarmante incremento das situações de ansiedade, depressão e pulsões suicidas na população portuguesa - tema que está muito longe de merecer a atenção que merece, tanto das entidades oficiais como dos órgãos de informação. 

O desemprego, a cascata de dívidas, as falências em série, a brutal quebra de rendimentos, a solidão forçada, as expectativas traídas, a ausência de perspectivas de futuro - tudo isto potencia um quadro de empobrecimento geral, também na dimensão psicológica. Num país onde comprar gomas ou mastigar um bocado de pão se tornaram actos ilícitos.

Não alimentem ilusões: só pode acabar mal.

Negar o negacionismo

Pedro Correia, 26.03.21

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Sobreviventes de Auschwitz, um dos campos da morte nazis

 

Uma das características do nosso tempo é a contínua deturpação ou imprecisão da linguagem. Tenho pensado nisto a propósito da vulgarização da palavra negacionista. Abrangendo desde aqueles que classificam de mera epidemia os efeitos globais do novo coronavírus até aos que exprimem sérias dúvidas sobre as reiteradas restrições aos direitos, liberdades e garantias como os que experimentamos desde há um ano em Portugal, onde ontem o estado de emergência voltou a ser alargado, desta vez até 15 de Abril. Abrangendo desde aqueles que, por questão de princípio, recusam as vacinas até aos que advogam o direito de resistência - previsto na Constituição da Repúlica - a medidas tão diversas como o uso obrigatório de máscaras na via pública, a circulação entre concelhos vizinhos com índices de transmissão do vírus abaixo dos padrões de risco ou até a prática de pesca desportiva, que deve ser uma das actividades mais solitárias do mundo, como ontem lembrava José Gomes Ferreira na SIC.

 

Todos quantos fogem ao padrão dominante são hoje "negacionistas". O termo banalizou-se de tal maneira - e eu próprio, mea culpa, também já o utilizei aqui - que acaba por perverter o seu significado original, até no plano jurídico: o daqueles que negam expressamente o Holocausto, provocado pela barbárie nazi ou qualquer outro extermínio sistemático de populações inteiras. Por declarações negacionistas, Jean Marie Le Pen - pai de Marine Le Pen - foi condenado há cinco anos num tribunal de Paris. A negação do genocídio cometido pelo regime nacional-socialista está proibida na Alemanha, implicando sanções penais até aos cinco anos de prisão

Por cá, qualquer um é hoje apontado como "negacionista", até em títulos de jornal, por contestar a «existência de um facto documentado» ou propor «interpretações não fundamentadas de fenómenos históricos já estudados», como assinala o impreciso dicionário da Porto Editora, sempre pronto a acolher a última moda lexical.

A desconfiguração do significado genuíno da palavra produz um péssimo efeito: a proliferação de "negacionistas", conduzindo à negação do negacionismo. 

 

Por casualidade, ando a ler um excelente livro da escritora romeno-germânica Herta Müller, galardoada em 2009 com o Nobel da Literatura. Recorda ela, nestas páginas d'O Rei Faz Vénia e Mata (Texto Editora, 2011), que muitos presos políticos na Roménia de Ceausescu eram executados pela sinistra Securitate e atirados ao rio em simulação de afogamento. Em conversa com um amigo estrangeiro, já no exílio, ele questionou, aludindo ao idioma romeno: «Mas que língua é essa que nem tem uma palavra para cadáver de pessoa afogada?»

É este também o tempo de inventarmos novas palavras para novas situações. E de recusarmos com firmeza a perversão de outras, desviando-as do seu sentido original.

A clareza habitual

Paulo Sousa, 24.03.21

Com a Páscoa à porta, o governo antecipou-se e preparou um conjunto de regras claras para que tudo seja mais fácil de controlar.

 

A circulação entre concelhos continuará interdita. “A Páscoa não é um momento de deslocações e de encontro, mas, pelo contrário, mais um momento de recolhimento”, clarificou António Costa.

- Então é possível ir ao estrangeiro?

- Sim, ao estrangeiro é possível ir! Claro, é a Páscoa!

- Mas como é possível ir ao estrangeiro sem sair do concelho?

- Talvez isso seja só para quem viva nos concelhos junto à fronteira. Pode-se sair, mas só em deslocação ao estrangeiro. Talvez seja isso que o PM queria dizer.

- Mas a fronteira com Espanha estará encerrada até dia 5 de Abril.

- Sim, mas Espanha é a excepção à regra que permite viajar até ao estrangeiro.

- Ah ok! Mas então como é que podemos ir ao estrangeiro se não podemos ir a Espanha?

- Eh pá! A proibição de deslocações para fora do território continental foi levantada, seja por via rodoviária, ferroviária, aérea, fluvial ou marítima.

- Ah, ok! Então se é permitido deslocar-me por via fluvial posso ir até onde?

- A Espanha já sabemos que não é permitido ir.

- E então de avião posso ir ao estrangeiro, desde que não seja a Espanha?

- Claro! Até está bem visto.

- Mas se eu não posso circular entre concelhos como é que posso apanhar um avião?

- Então para ir do Palácio de São Bento até ao aeroporto, é lá preciso por acaso sair do concelho, ou quê? Tu com as tuas perguntas gostas é de complicar, pá!

O país numa imagem

Paulo Sousa, 16.03.21

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O que no olhar de um controleiro poderia ser um acto de desobediência civil, será apenas um mero “quero lá saber”.

O acto de desobediência civil encerra uma vertente de desafio à autoridade, enquanto que num “quero lá saber” existe apenas um misto de apatia e de indiferença. O “quero lá saber” revela um desencontro de sintonia entre o emissor e o receptor, neste caso a autoridade e o cidadão. É como se falassem línguas diferentes, pelo que não é desobediência mas apenas desacerto.

Como o sol finalmente abriu, como a pedra está morna, e estando morna ainda será mais agradável do que o ripado do banco, então o “quero lá saber” é a melhor forma de responder ao impulso do repouso, enquanto se descansam os anos e se observa quem passa. Quero lá saber!

Locais infectos

Pedro Correia, 16.03.21

Desde Março de 2020, estivemos cerca de seis meses submetidos a "estado de emergência" - algo inédito em Portugal fora de situações de guerra, impondo drásticas restrições aos direitos, liberdades e garantias consagrados no texto constitucional de 1976.

Sempre em nome do combate à pandemia. Desde o tempo em que ninguém podia comparecer "mascarado" à sala de sessões do Parlamento por ordem expressa de Ferro Rodrigues, em que havia municípios a regar as ruas com desinfectante para afugentar o vírus e em que a directora-geral de Saúde, com manifesto receio, abria garrafas de água munida de lenços de papel nas conferência de imprensa em que comparecia a um metro da ministra, estando ambas sem máscara.

 

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Houve decisões acertadas, outras erradas e muitas absurdas. Ou simplesmente ridículas.

Para mim, nenhuma tão disparatada como aquela que proibia alguém de sentar-se num mero banco de jardim. O mesmo Governo e as mesmas autarquias que nos impunham o dever coercivo de permanência entre quatro paredes domésticas, indiferentes aos brutais custos em saúde mental de tais medidas, interditavam-nos algo tão inócuo como permanecer uns minutos num banco, isoladamente, em repouso ou contemplação da paisagem. 

Entre as boas notícias que o tímido "desconfinamento" de ontem nos trouxe, destaco esta: Suas Excelências devolveram o exercício da cidadania aos bancos de jardim, deixando de considerá-los infectos, potenciais transmissores de vírus. Aquelas fitinhas que pretendiam selá-los, como se fossem cenários de crime, podem ser rasgadas.

Falta saber se permanecem noutros locais, públicos ou privados, como este que a imagem de baixo documenta. Esperemos por novas mensagens de Suas Excelências para ficarmos esclarecidos.

 

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Para memória futura, continuação

Paulo Sousa, 15.03.21

Jovem do futuro,

Já te falei sobre termos sido durante umas semanas o pior sítio do mundo. Em cada dois minutos um português morria com covid. Esta tragédia fez do nosso país notícia em todo o mundo. Ao contrário do que ocorreu nas primeiras semanas da pandemia, desta vez a solidariedade europeia manifestou-se.

A força aérea alemã, a Luftwaffe que no passado espalhou o terror, desta vez enviou para Portugal médicos, enfermeiros e ventiladores. Traziam também uma mensagem do governo alemão: “É para isto que servem os amigos”. Os nossos governantes, que estavam preocupados apenas com os seus jogos de poder imediatistas, não conseguiram esconder o embaraço. A chegada de ajuda internacional era a confirmação do que já sabíamos, de que estávamos em mãos incapazes e arrogantes. Responderam que aceitavam a ajuda e que era apenas simbólica, e sem entendermos porquê não os deixaram entrar nos hospitais públicos. Quem sofria ao ver tantos de nós a tombar, sentiu vergonha pela soberba dos indigentes e aprendeu em silêncio a dizer Vielen Danke Deutschland.

Os nossos governantes que estavam apenas serodiamente preparados para passear o rótulo das tutelas que lhes distribuíram, e que nunca pensaram que alguma vez teriam de tomar decisões, andaram perdidos. Também já te falei disso. Desataram a levantar proibições e tomaram-lhe o gosto. Entusiasmaram-se com o super-poder que o vírus lhes trouxe e, sem explicação nem propósito, proibiram a venda de livros. As bibliotecas e as livrarias foram forçadas a fechar as portas.

Quem estava infectado perdeu o olfacto mas mesmo quem não estava deixou de poder sentir o aroma dos livros das livrarias. Eu gosto de cheirar os livros, e quem gosta de livros sabe bem do que estou a falar.

Desde há uns anos os livros começaram a ser vendidos entre as batatas e as garrafas de vinho nos hipermercados. Alguns eruditos ficaram incomodados com esta banalização, mas eu fiquei encantado por achar que era ali, entre os bens de primeira necessidade que eles deviam estar. Nunca antes os livros tinham estado tão perto de tanta gente.

Com estas interdições, levantadas por aparente espasmo muscular, o acesso aos livros foi vedado por uma fita plástica colorida. Quando, nos hipermercados entre as frutas e as bolachas, vimos fitas plásticas a interditar os livros, entendemos que estávamos perante a cena de um crime. Não de um crime em investigação, mas de um crime em curso. E foi assim, de olhos embaciados, de ombros descaídos, com os braços pendurados e sem saber onde pôr as mãos, que ficamos à volta das fitas plásticas que impediam o acesso aos livros. Ficamos só a olhar para eles. Sem sequer os poder cheirar.

Para assinalar as diarreias mentais dos nossos governantes, alguns supermercados retiraram os livros das prateleiras e preencheram-nas com rolos de papel higiénico.

O confinamento forçado, além de impedir a venda de livros, impediu a circulação de pessoas para fora do respectivo concelho de residência. Os cafés e os restaurantes foram também proibidos de nos alegrar os dias. Alguns barbeiros e gabinetes de estética passaram a trabalhar na clandestinidade. Em nome da saúde pública ficaram privados dos seus rendimentos. Este foi um sacrifício pelo qual nem os profissionais de saúde tiveram de passar.

O clamor de fundo ainda é pouco mais que inaudível, mas sem poder trabalhar, alguns lembrarão um adágio dos tempos difíceis do Estado Novo, em que Salazar terá dito que tinha livrado o país da guerra, mas não o livraria da fome. Os socialistas no poder não evitaram que nesta pandemia estivéssemos entre os piores e, não fosse a União Europeia, não nos livrariam da fome. Para muitos, nem os milhões despejados pela União Europeia impediram a privação alimentar.

Noutros países o estado apoiou as actividades que mais sofreram com o confinamento, como forma de os compensar do esforço feito pela segurança de todos. Cá não existe dinheiro para isso. Preferiu-se apostar tudo na salvação da TAP que está parada há meses. Se for cumprido o actual plano, o estado gastará com a TAP mais do dobro do que a NASA gastou para colocar um robô em Marte, mas como com eles as contas derrapam sempre, daqui a uns anos veremos a que planeta teríamos conseguido chegar com dinheiro ali consumido. Todos os regimes têm o seu Convento de Mafra.

Ao mesmo tempo, começaram a chegar as vacinas. O ritmo a que chegavam era muito inferior às nossas expectativas e necessidades. Os mais vulneráveis, os velhos e os doentes, foram os primeiros a serem vacinados. Mas desde o início que as filas começaram a ser furadas por penetras armados em chico-espertos. No teu tempo ainda se usa a expressão chico-esperto? Mesmo que já não se use, de certeza que se me estiveres a ler em Portugal, existe um perto de ti. O chico-esperto é egoísta, despreza o colectivo e, dê por onde der, acaba sempre por arranjar uma maneira de passar à frente dos outros e de se safar. Quando exposto e desmascarado arranja uma interpretação criativa das regras e, se tal for necessário, será suficientemente criativa para conseguir exactamente o contrário daquilo que se pretendia quando estas foram estabelecidas. O chico-esperto é um perito em sobrevivência. Mesmo que tenha de enganar e sacrificar uma aldeia ou um bairro cheio de gente decente, ou até uma geração inteira, ele irá safar-se. É uma habilidade socialmente perversa.

Portugal comporta-se na UE como um chico-esperto, mas no nosso caso também se pode designar por toino-habilidoso. Somos governados por um toino-habilidoso que é uma versão pós-moderna de um chico-esperto. Assim, alguns chico-espertos, protegidos pelo toino-habilidoso, furaram as filas dos prioritários e receberam a tão esperada picadela nos seus espertos e habilidosos tríceps, muito antes da vez que lhes competia.

Quando esses abusos começaram a ser conhecidos, justificaram-se chico-espertamente dizendo que como o frasco da vacina continha cinco doses, havia por vezes sobras e para não serem desperdiçadas acabaram por as desviar para si, ou para os seus amigos, ou até para os donos das pastelarias que frequentavam. E assim, com a maior desfaçatez, tentaram convencer o país que as vacinas, que sabíamos serem tão raras, afinal sobravam abundantemente todos os dias.

Com o passar das semanas, e como resultado natural do confinamento, os números da pandemia lá foram baixando. O ritmo de novas infecções foi seguido, com algumas semanas de atraso, pelos números dos internamentos e dos óbitos. Quando as novas infecções sobem, já sabemos que poucos dias mais tarde os hospitais entrarão em ruptura e, ainda antes dos hospitais começarem a vagar, conseguimos saber que o ritmo de infecções já baixou.

As escolas vão reabrir, pouco a pouco, começando pelos mais novos. Vamos ver se o natural aumento de casos, que se seguirá, será comportável pela capacidade hospitalar.

Depois de um inverno muito rigoroso e inesquecivelmente difícil, todos ansiamos que o renascimento que a Primavera traz à natureza seja alargado à situação que estamos a atravessar.

Já entendemos que isto é uma corrida de fundo, que cada dia é como mais um passo dado, e por isso estamos cada vez mais perto do fim de tudo isto. Não sabemos é quanto tempo ainda falta, nem em que estado é que lá chegaremos, nem como ficará o mundo depois deste tormento.

Os 25 mais infectados

Pedro Correia, 11.03.21

Um mês depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus no planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora quase 2,6 milhões de mortos e 118,7 milhões de infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos. 

Um registo que me leva a ordenar os países com registo oficial de infecções da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

República Checa: 127.367 casos por milhão de habitantes

Eslovénia: 94.931

EUA: 89.854

Israel: 88.229

PORTUGAL: 79.790

Panamá: 79.401

Lituânia: 75.668

Barém: 73.734

Suécia: 69.202

Geórgia: 68.789

Bélgica: 68.356

Espanha: 67.963

Holanda: 66.049

Suíça: 65.289

Reino Unido: 62.158

Estónia: 60.979

Eslováquia: 60.711

Croácia: 60.685

França: 60.624

Catar: 59.962

Líbano: 59.581

Arménia: 59.414

Sérvia: 57.236

Áustria: 53.630

Brasil: 52.462

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior:

A pandemia reforça a tendência para se consolidar na Europa: 68% dos 25 países onde se registam mais casos acumulados estão situados neste continente. Nos vinte com maior número de infecções pelo novo coronavírus não constam Estados do Extremo Oriente, de África e da América do Sul. 

Portugal mantém um desonroso quinto posto nesta preocupante estatística. Sendo o terceiro país da União Europeia onde o Covid-19 mais tem progredido, per capita, ao longo deste ano. Pior que nós, só a República Checa, ainda no topo, e a Eslovénia, que em Fevereiro já ocupava o segundo lugar. 

Destaque, também pela negativa, para os EUA, incapazes de abandonar este pódio nada invejável.

As variações entretanto decorridas são mínimas. Merecem registo apenas a progressão da Suécia, que salta quatro lugares, do 13.º para o nono posto. E a regressão de Espanha, que abandona enfim a lista dos dez mais, recuando do nono para o 12.º lugar.

Em Novembro, Portugal era o 25.º país na proporção entre o número de contágios por Covid-19 e o número de habitantes - muito abaixo, portanto, do lugar que agora ocupa. E em Outubro estávamos em 34.º.

O Brasil vem recuando. Em Novembro era o 16.º com mais infecções per capita, em Janeiro havia descido para 21.º e acaba de cair mais quatro lugares, para o fundo deste quadro dos 25 Estados com maior registo acumulado de novos casos. Descida considerável também da Argentina, que era 13.ª em Novembro e hoje se situa num já distante 31.º posto.

Em termos comparativos, à mesma escala, Portugal regista o dobro dos infectados por Covid-19 existente em países como Peru, Costa Rica, Albânia, Dinamarca e Bulgária. Triplicamos os números de Omã, Paraguai e África do Sul. Registamos quatro vezes mais casos do que Grécia, Turquia, Irão e Paraguai. E dez vezes mais infectados do que a Índia.

 

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Deixo também novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes, destacando os 20 países com mais mortos:

 

República Checa: 2110

Bélgica: 1922

Eslovénia: 1880

Reino Unido: 1834

Hungria: 1711

Itália: 1699

Bósnia-Herzegovina: 1648

PORTUGAL: 1633

EUA: 1631

Bulgária: 1591

Espanha: 1539

Eslováquia: 1509

México: 1482

Peru: 1452

Croácia: 1376

França: 1370

Panamá: 1366

Suécia: 1290

Brasil: 1268

Lituânia: 1247

 

Na relação entre os óbitos por Covid-19 e o número de habitantes, torna-se ainda mais claro o predomínio do Velho Continente. Entre os dez países com mais mortos, em termos proporcionais, nove estão na Europa. Um quadro bem diferente em comparação com o de Novembro, quando sete destes dez se situavam no continente americano.

A República Checa ascende em Março ao topo da lista, sucedendo à Bélgica neste cenário macabro: algo inimaginável há uns meses, quando era apontada como uma das nações mais bem sucedidas no combate ao coronavírus. Esta subida dos checos do quarto ao primeiro posto é o facto mais relevante no quadro de óbitos deste mês.

Subida também da Hungria, que em Fevereiro figurava na nona posição e agora se encontra no quinto lugar. Outro antigo exemplo de sucesso que redundou em fracasso.

Algo semelhante pode ser dito de Portugal, ausente em Outubro da lista dos 30 com mais óbitos por milhão de habitantes. Regressámos em Novembro, em 28.º, e agora estamos em oitavo - na mesma posição do mês anterior. Pior ainda do que em Maio, quando ocupámos o 12.ª lugar.

De Fevereiro para Março, fomos ultrapassados pela Hungria mas vimos os EUA baixarem dois lugares, do sétimo para o nono, o que nos leva a manter o oitavo posto.

Subida ligeira do Brasil, que há um mês era o 21.º com mais óbitos na proporção com o número de habitantes e hoje figura em 19.º.

Nenhum país de África ou Ásia consta deste quadro.

Infelizmente as estatísticas demonstram que, em termos proporcionais, temos em Portugal o dobro dos óbitos por Covid-19 ocorridos em países como Malta e Líbano. Quadruplicamos o registo da Dinamarca e da Guatemala. E acumulamos cerca de dez vezes mais vítimas mortais do que a Jamaica e a Arábia Saudita.

À atenção do Diácono Remédios

Pedro Correia, 05.03.21

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A jornalista Liliana Valente assinou, no Expresso da semana passada, a melhor reportagem que já li sobre a angústia e até o pânico que a pandemia provocou nos bastidores do Governo. Contou, para o efeito, com a colaboração de vários membros do Executivo naquilo que deve ter sido um laborioso e paciente exercício de jornalismo desdobrado por vários meses.

Merece ser felicitada por este trabalho, sob o título "Um ano a governar em aflição", inserido em quatro páginas do caderno principal. Pode haver quem imagine ser fácil, mas garanto que não é. 

 

Esta reportagem suscita reflexões de diverso tipo. Desde logo porque, entre os depoimentos recolhidos, há quem assuma a existência no Governo de uma "ala mais sanitarista", composta até por "hipocondríacos que não deviam estar ao leme" em situação de pandemia. Isto estimula a curiosidade dos leitores: quem serão os membros desta ala?

Mas o depoimento mais interessante - e, este sim, identificado - surge da boca de Tiago Antunes, secretário de Estado adjunto de António Costa, que a dado momento declara o seguinte: "Muitas vezes foi preciso assustar as pessoas e explicar que as coisas estavam piores do que se imaginava, muitas vezes foi preciso antecipar a opinião pública e influir na psicologia colectiva."

 

Destaco as expressões "assustar as pessoas" e "influir na psicologia colectiva". Sugerindo evidente manipulação da opinião pública.

Apetece-me perguntar ao Diácono Remédios, que na sua recente carta aberta no Público veio em socorro do Governo Costa e a vergastar os jornalistas que ousam perturbar o sossego de Suas Excelências, se não vai escrever outra cartinha, agora a propósito deste assunto. Fico a aguardar.

Capas que fazem tremer diáconos

Pedro Correia, 04.03.21

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Vejo as capas de ontem dos dois mais prestigiados diários brasileiros, aqui reproduzidas, e questiono-me o que dirão delas os diáconos de lá ao depararem com manchetes dedicadas à tragédia do Covid-19: «No maior salto da pandemia, país perde 1.726 em 24 horas», titula bombasticamente a respeitável Folha de S. Paulo. «País tem recorde de mortos e SP [São Paulo] deve entrar em fase vermelha», escreve com estrondo o conspícuo O Estado de S. Paulo

Como os diáconos costumam alinhar pelas mesmas cartilhas, dirão certamente algo muito semelhante ao que já afirmou o nosso Diácono Remédios em recente carta aberta no Público. Coisas como esta: «Não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo.» Ou esta: «Não podemos aceitar a ladainha dos números de infetados [sic] e mortos que acaba por os banalizar.»

A propósito disto, aproveitei para me actualizar consultando os dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde referentes a Estados com mais de um milhão de habitantes. Portugal, infelizmente, é o quinto com mais casos do novo coronavírus e o sexto com mais óbitos à escala planetária. O Brasil surge em 25.º na primeira estatística e em 22.º na segunda. Por mal que eles estejam, e estão, em termos proporcionais estamos pior. Porque a população do Brasil é 20 vezes superior à portuguesa.

Razão suficiente - e acrescida - para continuarmos a fazer cá o que a Folha e o Estadão fazem, com a competência que lhes é reconhecida.

Uma viagem ao outro lado

Paulo Sousa, 26.02.21

Hoje fiz uma viagem ao mundo das substâncias proibidas. Andava realmente necessitado de uma trip à antiga.

Para não me comprometer nem ao dealer a quem recorri, usei palavras codificadas.

- Orientas aí uma castanha? Ia bem com um cilindro mágico...

O tipo, com um ar mal estimado, olhou-me de cima a baixo, e com maus modos grunhiu:

- Sabes bem que não há material!

- Como é que não há? Tens o tapete no último degrau, meu! Eu conheço o sinal.

- Qual sinal, crxxxxlo? - Quase que ladrou. Anda tudo nervoso.

- Eu conheço o sinal. Sou amigo do gajo que espetou um prego no pé. - Tinham-me garantido que dizer isto era suficiente. Pelo encarquilhar e insuflar da máscara deu para ver que ele estava quase a hiperventilar.

- Mostra o papel!

Meio a tremer e já com grossas gotas de transpiração a correr pela testa mostrei-lhe a nota. Fui novamente avaliado com desprezo.

- Então querias uma castanha e um cilindro? Um speedball, hãa?

- Ya! - pareceu-me uma resposta que um entendido daria.

- Não há garrafas de água. Ficas-te com uma bica e não digas que vais daqui.

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Os 20 mais infectados

Pedro Correia, 12.02.21

Três meses depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus no planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora quase 2,4 milhões de mortos (cifra que praticamente duplicou neste período) e 108,4 milhões de infectados (mais do dobro em relação ao registo anterior) por Covid-19, oficialmente reconhecidos. 

Um registo que me leva a ordenar os países com registo oficial de infecções da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

República Checa: 100.172 casos por milhão de habitantes

Eslovénia: 85.200

EUA: 84.294

Israel: 77.916

PORTUGAL: 76.473

Panamá: 75.768

Lituânia: 70.281

Geórgia: 66.425

Espanha: 65.036

Barém: 65.553

Bélgica: 63.086

Suíça: 62.054

Suécia: 59.634

Holanda: 59.289

Reino Unido: 58.712

Croácia: 57.881

Arménia: 56.909

Catar: 55.524

França: 55.120

Eslováquia: 50.154

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior

A pandemia reforça a tendência para se consolidar na Europa: 70% dos países onde se registam mais infecções estão situados neste continente. E é aqui que se verificam também os aumentos mais preocupantes, evidenciados neste intervalo de três meses. Com destaque pela negativa para Portugal, que salta do 25.º posto registado em Novembro para o quinto lugar actual. Quadruplicando os números anteriores.

É uma tendência ocorrida noutros países europeus. A Eslovénia sobe 16 lugares neste quadro: em Novembro figurava em 18.º O salto da Geórgia acompanha o português, ao passar de 28.º para oitavo. E a Lituânia, agora em sétimo, não figurava sequer entre os 30 países com mais infecções há três meses.

À frente de Portugal, além da Eslovénia, estão apenas a República Checa (sobe de quarto para primeiro), os EUA (antes oitavo, agora terceiro) e Israel (dois lugares acima do que estava em Novembro). Mas há subidas igualmente sombrias na Suécia (que estava fora do anterior quadro dos 30 países com mais casos acumulados e figura agora em 13.º lugar), Reino Unido (de 26.º para 15.º), Croácia (de 27.º para 16.º) e Itália (de 29.º para o 22.º posto actual). A Holanda, onde têm ocorrido protestos violentos contra o recolher obrigatório, cresce ligeiramente (de 17.º para 14.º).

Espanha e Suíça mantêm as posições. No continente europeu, só há recuos significativos na Bélgica (anterior terceiro, agora em 11.º lugar) e França (baixa de 11.º para vigésimo).

Fora da Europa, destaque para os recuos no Brasil (de 16.º para o 21.º posto actual) e na Argentina (que desce dez posições, de 13.º para 23.º).

Recordo que Portugal figurava em 34.º lugar no quadro de Outubro, quando éramos o nono país da União Europeia na proporção entre o número de contágios por Covid-19 e o número de habitantes. Em Novembro estávamos em sétimo. Agora subimos a este pódio que ninguém inveja.

Em termos comparativos, à mesma escala, temos em Portugal o dobro dos infectados por Covid-19 existente em países como Roménia, Estónia ou Dinamarca. Triplicamos os números de Chipre e Alemanha. Registamos quatro vezes mais casos do que Bolívia, Paraguai e Tunísia. E dez vezes mais infectados do que a Índia ou a Malásia.

 

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Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes:

 

Bélgica: 1855

Eslovénia: 1769

Reino Unido: 1696

República Checa: 1670

Itália: 1535

Bósnia-Herzegovina: 1490

EUA: 1466

PORTUGAL: 1462

Hungria: 1404

Bulgária: 1382

Espanha: 1373

México: 1320

Peru: 1294

Croácia: 1287

Panamá: 1279

França: 1236

Suécia: 1220

Lituânia: 1126

Suíça: 1119

Colômbia: 1113

 

Na relação entre os óbitos por Covid-19 e o número de habitantes, torna-se ainda mais claro o predomínio do Velho Continente. Entre os dez países com mais mortos, em termos proporcionais, nove estão na Europa. Um quadro bem diferente em comparação com o de Novembro, quando sete destes dez se situavam no continente americano.

A Bélgica mantém-se no topo da lista. No segundo posto está agora a Eslovénia, que há três meses figurava num discreto 27.º lugar. Tendência ascendente acompanhada pela República Checa (era 18.ª, agora está em quarto), Itália (sobe de 12.º para quinto) e Bósnia-Herzegovina (de 19.º para sexto).

O mesmo sucede em Portugal, ausente em Outubro da lista dos 30 com mais óbitos por milhão de habitantes. Regressámos em Novembro, no 28.º posto, e agora estamos em oitavo. Um dos aumentos mais significativos - e nada lisonjeiros - não apenas no quadro da União Europeia, onde somos hoje o quinto país mais enlutado, em termos proporcionais, mas à própria escala mundial. Pior ainda do que em Maio, quando ocupámos a 12.ª posição.

Em tendência inversa estão Espanha (terceiro com mais óbitos em Novembro, agora em 11.º) e França (baixa de 13.º para 16.º). O mesmo ocorre em vários países americanos: Brasil (cai de quarto para 21.º), Argentina (outra queda abrupta, de quinto para 22.º), México (antes oitavo, agora 12.º), Peru (era segundo em Novembro) e Colômbia (baixa de 14.º para 20.º). 

Nenhum país de África ou Ásia figura neste quadro.

Infelizmente as estatísticas demonstram que, em termos proporcionais, temos em Portugal o dobro dos óbitos por Covid-19 ocorridos em países como Alemanha, Irlanda, Letónia ou Irão. Quadruplicamos o registo da Estónia ou da Dinamarca. E acumulamos cerca de dez vezes mais vítimas mortais do que Chipre, Uruguai ou Finlândia.

O frio e a culpa

Paulo Sousa, 10.02.21

O que é que de diferente ocorreu entre a vaga inicial da pandemia e as últimas semanas, que explique a enorme diferença das estatísticas da covid?

Sem precisar de recorrer aos registos meteorológicos, basta recordar como tem corrido o tempo, para concluir que o primeiro confinamento coincidiu com o início da Primavera, e por isso com temperaturas mais amenas. Pelo contrário a elevada taxa de infecções e de mortalidade ocorreu durante as semanas mais frias e húmidas do ano.

Não é bruxedo, pois a ciência explica com clareza que “como consequência das situações de frio intenso, são produzidas alterações no organismo que facilitam o aparecimento de doenças como a gripe e outras infecções respiratórias (pneumonia, bronquite, entre outras) bem como o agravamento das doenças crónicas". Esta citação foi retirada do site da DGS.

E como é que os portugueses vivem e lidam com o frio durante o inverno?

De acordo com esta reportagem da RTP, 24% dos portugueses vive em casas húmidas e com infiltrações, e esta percentagem é o dobro da média europeia. Como se não chegasse, dois milhões de portugueses não conseguem manter a sua casa quente, e neste indicador somos o quarto pior país europeu. A proximidade desta percentagem com a cifra dos cerca de 20% de portugueses que vive na pobreza não será coincidência.

Se a isto juntarmos o quarto mais alto custo da energia da UE, podemos com facilidade traçar uma linha que parte do enfraquecimento do organismo causado pelo frio e humidade, que passa pelas habitações fracamente isoladas, pelo custo incomportável para muitos em aquecê-las e que termina num cocktail mortífero que fez disparar a mortalidade a níveis nunca vistos desde há cem anos.

Este governo, que está ligado à nossa estagnação económica dos últimos 20 anos e por isso à pobreza de um quinto dos portugueses, assim como aos negócios nunca explicados por detrás da nossa excêntrica factura energética, tenta, qual junkie inimputável, sacudir as responsabilidades e diz que a culpa de nos termos tornado no pior sítio do mundo é dos portugueses.

Para memória futura, continuação

Paulo Sousa, 28.01.21

Jovem do futuro,

Olá de novo, quero continuar a contar-te o que tem acontecido nestes dias da pandemia. Estamos agora no final de Janeiro de 2021.

Voltei a ler o que te escrevi em Setembro do ano passado e já sinto saudades daquele fim de Verão em que, mesmo indo de máscara para todo o lado, conseguimos ter alguma normalidade. Nessa altura ainda havia sol para ir à praia e chegamos a ir a restaurantes.

Quem teve dinheiro e tempo para isso, no Verão gozou férias. Muita gente, com receio de voltar a andar de avião, redescobriu Portugal. O turismo interno animou-se com turistas nacionais. Foi como um acto de introspecção dos portugueses, que redescobriram as suas próprias paisagens. Quando regressaram a casa, entenderam melhor o encanto que os estrangeiros sentem pelo nosso país. Sem este vírus aberrante isso não teria acontecido. E tão bonito que é o nosso território. Se fosse habitado por outro povo, não seria igual. Se somos parte do chão que pisamos, este chão também é o que é por causa daquilo que somos.

Houve dias de sol com brisas agradáveis. Quase que nem nos rimos quando os nossos governantes se vangloriaram pelo milagre e pela sorte de sermos governados por gente experiente. Graças a eles, disseram, e com o nosso apego à ordem, tudo tinha sido menos gravoso que noutras paragens.

Enquanto se bajulavam, inchados sob os holofotes, os virologistas alertavam que o pior estava ainda para vir. Enquanto noutros países se delineavam planos para o inverno, cá afirmava-se, insistia-se e repetia-se o desprezo oficial pelas estruturas privadas de saúde.

Depois das celebrações religiosas e festas populares terem sido proibidas, a festa dos comunistas na Atalaia reuniu várias dezenas de milhares de pessoas. Para lá chegarem os participantes atravessaram ruas e avenidas onde todo o comércio estava impedido de abrir a porta, para que a pandemia fosse travada. Os comunistas podiam ter aproveitado o ascendente de que gozavam sobre o governo para melhorar a vida dos portugueses, mas gastaram todo o capital político nesta exibição arrogante de poder.

O governo engoliu esta insolência com a tolerância de quem está na posição mais fraca. Este episódio mostrou para quem quis ver, como o destino do nosso país depende nestes dias dos caprichos dos marxistas.

Da última vez que os socialistas saíram do poder precisamos de uma troika, mas da próxima, precisaremos de uma perestroika.

A escola arrancou como sempre no final do Verão. A apreensão era geral. Ao contrário dos seus alunos, muitos professores pertenciam ao chamado grupo de risco. Como é que iriam coexistir estes dois grupos com tamanhas diferenças perante a ameaça? O primeiro período correu exemplarmente. Durante algum tempo tentaram recuperar as falhas do ano anterior, quase todo leccionado à distância, e seguiram em frente.

Os professores só faltaram quando, na dúvida, lhes era recomendado o isolamento profiláctico ou quando testaram positivo. Logo após cumprida a quarentena obrigatória, regressaram às salas de aula, mostrando-se assim, e mais uma vez, à altura das responsabilidades.

Os alunos também se adaptaram. Andaram sempre de máscara que só tiravam durante as refeições. Nos intervalos juntaram-se nos habituais grupos de amizades que raramente coincidem com a disposição da sala de aula. Entre eles falaram, com a voz abafada pela máscara, do que é normal que falem, do mundo que descobriam e trocaram perguntas sobre a vida, recorrendo às formas de expressão normais para a sua idade.

Quando as temperaturas começaram a descer, o número de infectados começou a subir, e número de mortos não demorou também a aumentar. A segunda vaga chegou acompanhada com várias semanas de chuva, seguida de frio e gelo. E novamente de mais chuva. Os pobres sofrem sempre mais no tempo frio e este está a ser um inverno particularmente forte, especialmente forte para com os mais fracos.

Pelo menos, depois de alguns meses de folga nas infecções, já não seríamos apanhados de surpresa. Houve quem acreditasse nisso.

Ainda a maré estava a começar a subir e já os nossos governantes começaram a falar em salvar o Natal, criando de imediato a ideia que nessa altura iria haver uma maior tolerância nas deslocações e nos ajuntamentos familiares. Fizeram isso ignorando as recomendações científicas, pois talvez tenham acreditado que o vírus também parava durante as nossas festividades.

Claro que foi agradável ouvir isso. Pelo menos teríamos um Natal em condições junto dos nossos idosos que viviam isolados há tantos meses. Quem é que se podia opor a notícias tão boas?

Ao mesmo tempo começaram a ser administradas as primeiras vacinas. Só de nos imaginar a todos vacinados … até nos permitimos a inspirar um profundo folgo de esperança.

O Pai Natal este ano iria trazer as vacinas. No Natal celebrou-se o que sempre se celebra, uma nova vida, um novo alento. Umas mais do que outras, as mesas encheram-se, e à volta delas celebrou-se e brindou-se. Como foi bom poder fazer uma trégua a meio da batalha.

Enquanto isso, nos países europeus que deram ouvidos à ciência, o confinamento foi mais apertado do que nunca e as festividades foram proibidas.

Ainda havia umas fatias de bolo-rei por comer e logo começou a haver notícias sobre as mutações do vírus. Registou-se uma nova estirpe no Reino Unido, pouco depois surgiu uma mutação brasileira e também uma sul-africana. Quantas mais iriam ainda aparecer? Será que o vírus se iria tornar mais ou menos agressivo? E será que as vacinas, ainda antes de serem distribuídas, já estariam obsoletas?

Enquanto tentávamos entender o que se estava a passar, os números dos infectados dispararam. De 1.500 infecções diárias, chegamos às 15.000, em menos de um mês. Como cerca de um por cento dos infectados necessitam de assistência hospitalar, todos os dias chegam mais de 150 doentes em risco de vida aos hospitais. Em poucos dias as ambulâncias começaram a esperar cada vez mais tempo nas filas para conseguirem entregar os doentes nas urgências. Por vezes, cada vez com maior frequência, começaram a seguir dessas filas para a morgue. O número de óbitos disparou. Neste momento morrem com Covid mais de 10 portugueses por hora e já foram registados mais mortos pelo vírus, do que na Grande Guerra e na Guerra do Ultramar juntos.

Alguns hospitais tiveram de adquirir câmaras frigoríficas para conseguir gerir a tenebrosa logística de tantos cadáveres. As estruturas privadas de saúde afinal revelaram-se necessárias, mas o apego à ideologia e a recusa, até à última, em recorrer a elas, custou a vida a demasiados portugueses. Já te falei da força que os marxistas hoje ainda têm, não foi?

As estatísticas internacionais desta pandemia dizem-nos que Portugal é nestes dias o pior sítio do mundo.

Quem morre infectado é despachado, sem vestes dentro de um saco de plástico. Os cangalheiros, em vez do habitual fato preto, envergam agora fatos brancos de protecção biológica, com máscara, óculos especiais e botas de borracha. As cerimónias fúnebres estão limitados a um número muito restrito de pessoas, definido por cada autarquia.

O que seria de nós sem os cangalheiros? O que será de nós se os coveiros sucumbirem?

Quem sofre ataques cardíacos, acidentes ou outras complicações graves de saúde, tem medo de ir para o hospital e demasiada gente, que em tempos normais teria sido salva, acabou por falecer em casa. Para os condutores e assistentes das ambulâncias de emergência médica, tornou-se normal transportarem apenas cadáveres. Ninguém ficará surpreendido com futuras sequelas de choque pós-traumático entre os profissionais de saúde.

Foi neste ambiente que se realizaram as eleições. O governo lembra-nos diariamente do nosso dever de ficar em casa para evitar mais contágios, para no minuto seguinte nos lembrar que votar é um dever cívico. Desde que a pandemia foi declarada, mais de 75 actos eleitorais foram adiados pelo mundo fora, mas cá as decisões importantes demoram a ser tomadas, e se forem mesmo muito importantes, o mais provável é que não sejam tomadas de todo.

Um dos candidatos que se apresentou a votos, irrita bastante os nossos governantes, assim como as pessoas normais. Diz palermices e é agressivo. Mesmo assim, não pelo que diz, mas apesar do que diz, e apenas porque irrita a situação, acabou por ter bastantes votos. Quem votou nele ficou satisfeito por ver como o seu voto conseguiu irritar os nossos governantes.

O vencedor é o mais completo retrato do nosso regime, e por isso faz sentido ter ganho. É filho da nomenclatura do regime anterior, mas desde os primeiros instantes do que temos, esteve envolvido em tudo o que nos levou ao ponto em que estamos.

Mesmo após 20 anos de estagnação económica, os políticos no poder continuam a pensar que criam riqueza por decreto, e que se assim o entenderem, à força da lei farão os leões voarem e as zebras rugirem. Eu quando os escuto com atenção só oiço zurrar.

Demasiada gente pensa que ao fazer por ignorar as mudanças as consegue evitar, mas esse é um erro antigo da humanidade, para o qual não existe bom senso que impeça que se repita.

Lá fora o tempo continua de chuva. Os últimos dias foram de um burranho que, juntamente com as notícias, nos encharcaram a alma e os olhos. A chuva não se distingue do nevoeiro, tal e qual como aquela que terá caído nos Invernos das pestes medievais.

É um luto permanente.

Quando numa saída para comprar víveres, pela voz, fisionomia ou pelos movimentos, reconhecemos um amigo, sorrimos por detrás de duas máscaras sobrepostas, chocamos com as nozes dos punhos resguardados dentro de luvas de protecção e dizemos, como quem quer garantir: Enquanto não piorar, aguentamos!

A ética da responsabilidade

Pedro Correia, 27.01.21

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Portugal continua a ser o país do mundo com mais mortes e mais novos casos de Covid-19 por milhão de habitantes.

Vivemos num filme de terror - adiando decisões urgentes que acabam por ser tomadas tarde e a más horas. Em questões tão diversas como o encerramento das escolas, o fecho das fronteiras ou a retirada de circulação das chamadas máscaras comunitárias, que - elas sim - incutem uma falsa sensação de segurança perante as novas estirpes do coronavírus, ao ponto de já terem sido proibidas em países como Alemanha, França e Áustria.

 

Devemos questionar-nos: se chegámos a este triste primeiro lugar mundial, quem falhou?

Terão sido os especialistas técnico-científicos, que aconselharam mal, ou os decisores políticos, que não os escutaram devidamente e não agiram em conformidade? 

Se foram os primeiros, porque continuam a ser consultados? 

Se a falha vem dos decisores políticos, porque se mantêm em funções?

 

Impressionante, esta negação absoluta da ética da responsabilidade.

Com 11 pessoas a morrer por hora de Covid-19, questiono-me se uns e outros conseguirão dormir todas as noites.

 

 

ADENDA - Um abraço comovido e solidário ao José Meireles Graça.