Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Mr. Lamb, I presume

por Pedro Correia, em 04.06.20

VCA.png

 

Se há político que goza de "boa imprensa" em Portugal é o presidente da Região Autónoma dos Açores. Caso assim não fosse, Vasco Cordeiro teria recebido um ensurdecedor coro de críticas. Por ter praticado o acto político mais condenável desde que vivemos sob o signo da pandemia. Refiro-me à decisão de forçar todos os passageiros desembarcados no arquipélago a duas semanas de encerramento compulsivo num quarto de hotel escolhido pelo Governo regional.

Privação ilegal de liberdade, ferindo de modo chocante a Constituição da República. Ainda por cima discriminando cidadãos nacionais, pois a partir de 8 de Março o Executivo passou a financiar a quarentena apenas quando aplicada aos residentes habituais na Região. Decisão felizmente revertida graças à intervenção de uma juíza em funções no Tribunal Judicial de Ponta Delgada, que deferiu um pedido de habeas corpus interposto pelo advogado de um desses cidadãos.

Corajosa magistrada, corajoso advogado, corajoso cidadão. Nenhum se vergou à prepotência de Cordeiro.

 

"Uma vitória da cidadania", lhe chamei aqui. Em contraste com o pesado silêncio do Presidente da República, tão loquaz noutras ocasiões, ou do seu representante nos Açores. E contrastando igualmente com o expectável silêncio do primeiro-ministro, correligionário do líder açoriano, e até dos próprios partidos da oposição - o que, tratando-se do PSD, também não surpreende.

No seu blogue, o constitucionalista Vital Moreira, insuspeito de antipatias políticas face ao líder socialista dos Açores, deixou claro o seu pensamento quanto à quarentena obrigatória num quarto de hotel transformado em cela prisional: «Tal medida, tomada ao abrigo da lei regional de protecção civil, traduz-se numa violação grosseira da liberdade pessoal, pelo que só poderia ser excepcionalmente tomada em regime de estado de sítio ou de estado de emergência, que só pode se declarado pelo PR, com aprovação da AR.»

 

Apesar disto, Vasco Cordeiro manteve a boa aura na generalidade da imprensa: a maioria dos órgãos de informação nem se referiu ao assunto. Na mesma linha, nem parecem estranhar que o líder açoriano deturpe com aparente indiferença e talvez até algum orgulho o nome da própria Região a que preside, trocando Açores por "Azores" no endereço electrónico oficial do Executivo. Como se governasse Porto Rico ou a Samoa Americana, em vez de uma parcela inalienável do Estado português.

Caso para alguém o interpelar nestes termos, quando o vir: «Mr. Lamb, I presume.» Ele certamente reagirá com uma sonora gargalhada. Isto anda tudo ligado, como dizia o outro.

É preciso é que a bola role

por Pedro Correia, em 03.06.20

bola-futebol-ligado-relva-capim_23-2147817397.jpg

 

Recomeça hoje o mais estranho campeonato nacional de futebol das nossas vidas. À porta fechada, como se as bancadas dos recintos desportivos, ao ar livre, fossem perigosíssimos focos de contágio. Isto quando o Governo já autorizou a reabertura de centros comerciais.

Um campeonato que esteve parado quase três meses, que tenta mudar as regras da competição a meio como se isso não atentasse contra a elementar ética desportiva. Com uma equipa açoriana a jogar voluntariamente muito longe de casa, transformando numa farsa o discurso contra a macrocefalia lisboeta. Com a perspectiva inicial de se disputar "no menor número possível de estádios", que começaram por ser apenas nove mas que afinal serão dezassete. Tudo e o seu contrário sempre a pretexto do novo coronavírus.

 

Um futebol que assume o divórcio compulsivo entre jogadores e público, embora ainda lhe chamem espectáculo, apesar de proibirem sócios e adeptos de frequentar as bancadas dos seus estádios, enquanto se permite que a malta acorra ao Campo Pequeno para aplaudir o humorista Bruno Nogueira, com a complacente presença do primeiro-ministro. 

E a gente, do lado de fora, aplaude também. Cada vez menos cidadãos, cada vez mais súbditos deste Estado em incessante produção de decretos e portarias desdizendo numa semana o que dissera na semana anterior e vai tolerando chocantes excepções, até ao alegado "estado de emergência", enquanto proclama o primado da igualdade perante a lei.

 

É preciso é que a bola role sobre a relva e que a gente se entretenha de olhos fixos na pantalha. Todos embalados na cantilena do "novo normal" com o estribilho "vai ficar tudo bem" a servir de placebo enquanto nos dias pares se grita às pessoas para recolherem a casa (e se for preciso encerram-se em "cerca sanitária") e nos dias ímpares se estimula as pessoas a saírem de casa e "consumirem" seja o que for com o dinheiro que deixaram de ter.

Que soe o apito inicial. Quero lá saber do "desconfinamento", estou-me nas tintas para a "curva exponencial", tenho raiva a quem sabe o que é uma zaragatoa: quero é bola. Eis-me pronto a trocar o estádio pelo sofá, em festiva celebração do "distanciamento social" - expressão que todos usam sem fazerem a menor ideia do que significa.

Até já estou de cachecol, apesar do calor. E se a Senhora Directora-Geral da Saúde mandar, assisto obedientemente aos jogos em casa de máscara e luvas, como faz agora o Senhor Presidente quando frequenta um restaurante para mostrar aos portugueses como este doce país se tornou muito mais seguro com ele ao leme.

Falar menos e proceder melhor

por Pedro Correia, em 02.06.20

883a4f5dc1e062a757dd79182748af1b_N.jpg

 

O Presidente da República, na linha do que fizera dias antes a directora-geral da Saúde, lembrou-se este domingo, à entrada para a missa na Sé de Lisboa, de dar um ralhete aos jovens.

«Não faz sentido que os jovens estejam a organizar festas com centenas de pessoas e muito próximas, e sem a preocupação de distanciamento. As normas sanitárias devem valer para todos», declarou Marcelo, num esporádico regresso à sua anterior condição de professor. 

 

Creio que este ralhete presidencial chega um pouco tarde.

Devia ter-se ouvido um mês antes, e com outros destinatários, que funcionaram como péssimo exemplo para os jovens. Refiro-me aos dirigentes da CGTP, que - num claro incumprimento das normas sanitárias e do próprio estado de emergência então em vigor, que interditava a circulação interconcelhia - juntaram cerca de mil pessoas na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, num verdadeiro comício. Mobilizando para o efeito sindicalistas de concelhos limítrofes - incluindo Loures, Amadora e Seixal, que se encontram entre as áreas agora mais fustigadas pela progressão do Covid-19.

As fotografias na altura publicadas, também aqui, não deixaram lugar a dúvidas: foi um acto de inadmissível irresponsabilidade da central sindical. À qual o Presidente e a directora-geral da Saúde assistiram num respeitoso e resignado silêncio.

Esse mesmo mês de Maio chegou ao fim com números preocupantes: centenas de novas infecções diárias; a maioria dos novos casos ocorre na densa periferia de Lisboa, entre pessoas cujas idades oscilam entre os 20 e os 29 anos; e registamos pela primeira vez mais óbitos do que Espanha.

 

Agora, enquanto sustenta (e bem) que não faz sentido algum os jovens andarem por aí a organizar festas em tempo de pandemia, o Chefe do Estado mantém uma posição dúbia e timorata sobre a Festa do Avante!, que continua marcada para um dos epicentros do contágio - o concelho do Seixal.

Concedendo assim ao PCP o mesmo estatuto de inaceitável privilégio que já havia concedido à CGTP no decreto presidencial. Isto quando o PSD e o Bloco de Esquerda, responsavelmente, já cancelaram eventos similares. Isto quando o próprio partido do Governo tomou a iniciativa de adiar o congresso nacional e o processo de eleição do secretário-geral.

 

Marcelo, que muito antes de ser Presidente já era um académico de mérito reconhecido, é o primeiro a saber que a melhor pedagogia não se faz pela palavra, mas pelo exemplo. 

Menos falatório e melhores exemplos: só assim os jovens levarão a sério as gerações dos seus pais e seus avós.

Até sempre, Barata

por Pedro Correia, em 29.05.20

transferir (1).jpg

 

Sou há muitos anos cliente assíduo da Livraria Barata, na Avenida de Roma. Tenho até cartão de cliente, que permite um desconto residual em livros, de que ali me abasteço regularmente. Também nesta livraria lisboeta habituei-me a comprar com regularidade imprensa estrangeira há quase década e meia.

Desde que foi declarada a pandemia, a Barata fechou - como aconteceu com todos os estabelecimentos do ramo, que já atravessavam uma severa crise antes de o Presidente da República e o Governo - sabe-se lá porquê - terem considerado que as livrarias não mereciam ficar abertas durante o "estado de emergência". Ao contrário dos quiosques, das mercearias e das tabacarias. 

Na altura, não ouvi um sussurro de protesto dos chamados "agentes culturais". Todos acenaram, em sinal de concordância.

 

Entretanto, a Barata reabriu.

Acontece que desde então já tentei duas ou três vezes, mas ainda não consegui lá entrar. Motivo? Embora tenha uma área muito grande, só permitem um máximo de dez pessoas dentro do estabelecimento.

Em pelo menos duas ocasiões vi uma fila à porta, estendendo-se para o passeio: gente forçada a usar máscara, aguardando à torreira do sol, suando em bica, com notório desconforto.

Disse logo com os meus botões: nem pensar em aturar isto. E rumei a outras paragens.

 

Hoje, ao fim da manhã, tentei uma vez mais - talvez a última - entrar na Livraria Barata.

Não vi nenhuma fila à porta, fui avançando. Deparo-me então com o Presidente da República, mais a respectiva comitiva, acrescida de um batalhão de jornalistas. Todos juntos, perfaziam mais do dobro do limite máximo de pessoas estipulado. As regras "rigorosíssimas" haviam sido mandadas às malvas.

Disseram-me que Marcelo Rebelo de Sousa estava ali para "declarar o apoio" à livraria, que enfrenta sérias dificuldades de tesouraria, sem saber se conseguirá pagar os salários neste fim de mês. Aplaudo a generosidade do Chefe do Estado. E espero que Marcelo faça o mesmo com milhares de outras empresas deste país onde muita gente trabalha sem ver a remuneração a que tem direito. Pelo mesmíssimo motivo.

 

Tudo isto é muito bonito. Acontece, no entanto, que voltei a ver-me impedido de ali entrar. Escorraçado pelo sol, pelas filas, pelas absurdas regras de "confinamento" e hoje até pelo Presidente da República mais a sua comitiva.

Sem acesso à livraria, rumei ao talho mais próximo, onde me abasteci de imediato com 600 gramas de entrecosto, e vim para casa preparar o almoço. Despedindo-me da Barata, por prazo indefinido. Com um até para o mês que vem ou um até nunca mais, não faço ideia.

Há sempre um fim para tudo.

Estádios, aviões e televisão

por Pedro Correia, em 28.05.20

doc2020041128622859mac_110420_1248889615888default

 

 

2 de Maio:
O transporte aéreo de passageiros vai ser limitado a dois terços da lotação normalmente prevista para cada aeronave, definiu o Governo, em portaria no Diário da República.

21 de Maio:
A partir de 1 de Junho, o transporte aéreo vai deixar de ter um limite máximo de lotação, anunciou o Ministério das Infraestruturas.

 

Comecei por não entender. Agora, até julgo que entendo. E, por isso mesmo, fiquei irritado. Refiro-me ao duplo critério que o Governo tem vindo a adoptar, distinguindo o futebol de outras actividades.

Há dias, numa das suas conferências de imprensa quase diárias, a ministra da Saúde revelou-se muito firme na contínua recusa de jogos presenciados nos estádios. «Haver as habituais concentrações em determinados espaços, por ocasião das competições desportivas, é evidente que é algo que não vai poder acontecer da forma a que estávamos habituados a assistir», declarou Marta Temido.

Atalhando neste discurso cheio de rendilhados, isto significa que todos continuaremos proibidos de frequentar os estádios. Os jogos que faltam para completar a temporada 2019/2020 ocorrerão à porta fechada. E, aparentemente, não serão transmitidos pela televisão em sinal aberto. Duas espécies de encerramento, portanto.

 

Há aqui vários erros que convém denunciar desde já.

Que imperiosa lógica sanitária leva o Governo a interditar em absoluto estádios com capacidade para largos milhares de lugares sentados, ao ar livre, enquanto acaba de dar o dito por não dito, autorizando que sejam retomadas viagens aéreas - em cubículos estreitos, com ar rarefeito e onde as pessoas estão a centímetros umas das outras por vezes durante horas - sem qualquer limite máximo ao número de passageiros?

Alegam os decisores políticos que é vital proteger e revitalizar a aviação civil. Pois esta mesma lógica pode e deve aplicar-se à chamada indústria do futebol, que gera cerca de 80 mil postos de trabalho, directos e indirectos, em Portugal e movimenta receitas que abrangem quase 1% do PIB nacional. 

É um absurdo manter as bancadas dos estádios vazias enquanto se enchem aviões, em condições sanitárias de muito maior risco. Autorizar que pelo menos um terço dos lugares sentados nos estádios fossem preenchidos - nomeadamente pelos sócios que pagaram lugares de época - seria uma opção razoável. Tanto mais que o Governo - contrariando outra intenção inicial expressa em sinal oposto - acaba de dar luz verde à utilização de 14 estádios para disputar os jogos que faltam. Na prática, só não jogará em campo próprio quem não quiser.

 

Ao contrário do que sustenta a ministra da Saúde, as concentrações de maior risco a pretexto do futebol não ocorrerão junto aos estádios, mas longe deles. Em locais públicos e numa infinidade de reuniões privadas onde irá aglomerar-se muita gente, em todos os recantos do País, para assistir aos jogos caso se mantenha a intenção de que estes só sejam exibidos em canais codificados, nada acessíveis ao actual rendimento médio dos portugueses.

E é por isto que não entendo, de todo, o sururu criado em torno de Pedro Proença, só porque o presidente da Liga se atreveu a sugerir, em carta ao Presidente da República, a intervenção do poder político para que as partidas de futebol remanescentes possam ser exibidas em canais abertos, com a devia compensação financeira proporcionada com verbas públicas aos operadores televisivos.

Caiu o Carmo e a Trindade quando afinal Proença estava cheio de razão. Como o futuro próximo demonstrará.

 

Leitura complementar:

DGS queria "o menor número possível de estádios" e entretanto foram aprovados 14. O que aconteceu? Nada, era "apenas uma indicação".

Cambada de imbecis

por Pedro Correia, em 27.05.20

 

13 de Maio:

VÍRUS PODE NUNCA DESAPARECER

Michael Ryan, director-executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS) para Emergências Sanitárias, declarou que, na pior das hipóteses, o novo coronavírus pode nunca desaparecer, passando a integrar o lote de vírus que todos os anos afectam a população mundial.

 

17 de Maio:

VÍRUS PODE DESAPARECER NATURALMENTE

Karol Sikora, director médico dos Centros para o Cancro de Rutherford e antigo chefe do programa de oncologia da Organização Mundial de Saúde, afirmou que «há uma possibilidade real de o vírus desaparecer naturalmente antes que alguma vacina seja desenvolvida».

 

25 de Maio:

SEGUNDA VAGA É IMPROVÁVEL

A directora do departamento de Saúde Pública da Organização Mundial de Saúde, Maria Neira, considerou «cada vez mais» improvável uma segunda grande vaga do novo coronavírus, Na sua perspectiva, «há muitas possibilidades, desde novos surtos pontuais a uma nova vaga importante, mas esta última possibilidade é cada vez mais de descartar».

 

25 de Maio:

SEGUNDA VAGA ESTÁ QUASE A CHEGAR

O director-executivo do programa de Emergências Sanitárias da Organização Mundial de Saúde, Michael Ryan, alertou que «não podemos supor [que os números de novas infecções] vão continuar a descer», advertindo que «temos alguns meses para nos preparamos para uma segunda vaga».

 

Ler em tempo de pandemia

por Pedro Correia, em 26.05.20

Como quem me conhece sabe, há dias em que nem quero ouvir falar em política. Este é um deles. Apetece-me antes fazer-vos um desafio: partilhem connosco quais têm sido as vossas leituras desde que foi declarada a pandemia. E não me refiro às anedotas distribuídas por telemóvel nem às teses conspiranóicas que circulam nas redes à cata de novos cliques. Falo em leitura à moda clássica - a do "papel pintado", para recorrer à suave ironia pessoana.

Livros mesmo. Dos antigos, dos bons. Dos que resistem a todos os embates, superam todas as adversidades e contrariam qualquer certidão de óbito. Cem vezes declarados mortos, mil vezes renascidos geração após geração - inesgotáveis fontes de emoção, infindáveis transmissores de sabedoria. Borges confessava sentir orgulho não dos livros que havia escrito, mas dos livros que havia lido. Que livros poderão produzir o mesmo efeito em cada um de nós?

O barbilho social

por Paulo Sousa, em 20.05.20

Os camponeses, depois do trabalho, sentam-se junto do balcão, apoiam os cotovelos no mármore da mesa, e ouvem. As palavras fatigam.

Já há duas horas a despejar copos de vinho, o Barbaças olhando para os demais, todos envergando a máscara dita social, abriu a goela e disse a rir:

- Agora andam todos com um barbilho!

(...) um homem que saiba atirar com uma frase bem recheada e oportuna preenche uma hora de cogitações.

 

Os excertos são parte d'O trigo e o joio de Fernando Namora. O Barbaças, além de personagem dessa obra, é aqui a designação fictícia de um meu conterrâneo que além de recusar usar a máscara dita social, insiste em gozar com quem a usa.

Importa acrescentar que o barbilho, o original, é um objecto em vias de extinção usado nas vacas para as impedir de comer durante o trabalho, e cujo nome e utilidade apenas é conhecida pelos mais antigos.

barbilho.png

 

Um país, dois sistemas

por Pedro Correia, em 13.05.20

IMG-20200501-WA0007.jpg

Lisboa, 1 de Maio (em pleno estado de emergência)

 

IMG-20200512-WA0017-1.jpg

Fátima, ontem à noite (já sem estado de emergência)

Oxalá

por Teresa Ribeiro, em 07.05.20

À medida que a torre de escritórios onde trabalho volta a ganhar vida, começam a surgir situações como a de ontem: quando ia a entrar, uma rapariga preparava-se para sair, de modo que avancei, segurando na porta, que tem uma mola forte, para ela passar. Acto contínuo a menina passa e quando está bem em cima de mim, prega-me com um sorridente "obrigada" nas bochechas. Nem eu, nem ela tínhamos máscara. Hoje, pelo sim, pelo não, usei uma.

Imagino que incidentes destes começam agora a acontecer, aos milhares, todos os dias. A par das mais variadas manifestações que expressam a euforia do desconfinamento. Na segunda-feira, quando descia a pé o jardim do Campo Grande, topei uma miúda que conheço bem. Estava com um grupo de amigos, todos num alvoroço, ao colo uns dos outros, a matar saudades da vida. Por acaso sei que a mãe dela tem um grave problema de saúde que a coloca na primeira linha para... Enfim, tudo isto é inevitável, mas confesso que esta sensação de me encontrar à mercê da consciência cívica dos outros, me está a causar bastante desconforto.

Vamos, é claro, surfar uma segunda onda em grande estilo, lá mais para o Outono. Nessa altura, ainda hei-de ver muita desta gente que agora tanto se alvoroçou contra as abusadas interferências do Estado, a correr para o SNS a gritar pela mãe. Oxalá me engane...

Irão jogar de máscara?

por Pedro Correia, em 06.05.20

200427-face-masks-ew-514p_cff962fe6471fd72a7200ca3

 

Há coisas que custam a entender. Uma delas foi o anúncio, feito há dias pelo Governo, do regresso (sem espectadores) das competições referentes à primeira liga a partir do último fim de semana deste mês. É uma excepção dentro da excepção, pois os campeonatos das restantes modalidades colectivas (andebol, basquetebol, futsal, hóquei em patins, voleibol) já tinham sido declarados concluídos por via administrativa, sem haver campeão designado. Se esta disparidade já era digna de suscitar críticas, maior contestação deve merecer o duplo critério reservado ao futebol profissional: as regras agora anunciadas aplicam-se apenas ao primeiro escalão e não ao segundo.

Em nome de que equidade desportiva?

 

O mais incompreensível, para mim, é que este anúncio seja divulgado no mesmo pacote de medidas destinadas a reforçar as acções profilácticas no combate ao coronavírus.

Faz algum sentido decretar-se o uso obrigatório de máscaras no comércio, nos transportes públicos, nos estabelecimentos escolares e em muitos locais de trabalho para prevenir a expansão da pandemia e autorizar-se em simultâneo o regresso da principal competição de futebol, desporto de permanente contacto físico e sem possibilidade de imposição de regras de "distanciamento social", desde logo nos balneários?

Antecipo a resposta: não, não faz.

Que exemplo dá o futebol à sociedade, com o beneplácito do Governo? Antecipo também a resposta: um péssimo exemplo. A menos, claro, que os futebolistas passem a jogar de máscara. E paguem coima por cada cuspidela.

 

ADENDA - Em França, na Holanda e na Bélgica o futebol profissional terminou antes de concluído o calendário inicial previsto para as competições. E a Itália poderá seguir o mesmo rumo. Enquanto na Alemanha surgiram agora dez jogadores infectados com o coronavírus. O que vai suceder se o mesmo acontecer cá?

Tapetes e cascas de banana

por Pedro Correia, em 05.05.20

jporfirio_25abril_marcelo_covid-19_25_04_7-scaled.

 

1

O reitor do Santuário de Fátima acaba de dar uma lição de exemplar civismo à CGTP, que - com o suave beneplácito do Governo e do Presidente da República - juntou no primeiro dia do mês centenas de pessoas na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, transportando muitas delas em autocarros a partir de outros concelhos. Num momento em que eram proibidos os ajuntamentos públicos, a circulação interconcelhia era expressamente interditada e o País permanecia sob estado de emergência pela primeira vez na sua história constitucional. Uma escandalosa e vergonhosa excepção ao dever geral de recolhimento domiciliário imposto pelas supremas autoridades do Estado. Como se houvesse regras que se aplicassem apenas à central sindical de maioria comunista e outras destinadas aos restantes cidadãos.

Fez bem a Igreja Católica, pela voz do reitor Carlos Cabecinhas, em reiterar a decisão assumida anteriormente de organizar as celebrações do 13 de Maio este ano sem a presença de peregrinos. As instituições têm de adaptar-se aos contextos - e não são estes que devem moldar-se a elas, nestes dias de pandemia. Se até os Jogos Olímpicos - expressão máxima de convivência e fraternidade a nível mundial - foram anulados este ano, algo que só tinha acontecido durante as guerras mundiais, a "nova normalidade" de que tanto se fala (eufemismo para evitar a palavra anormalidade) deve seguir este padrão. Só a CGTP, na sua cega e obstinada intransigência, parece não ter percebido.

 

2

Mas a confirmação de que não haverá peregrinos católicos neste 13 de Maio é também uma resposta firme à titubeante ministra da Saúde, que contradizendo o que o Governo dissera antes - e o que a Igreja Católica já deixara claro - meteu os pés pelas mãos na mais recente entrevista à SIC, ao ser confrontada com o precedente estabelecido para a CGTP.

«Se essa for a opção de quem organiza as celebrações, de organizar uma celebração do 13 de Maio onde possam estar várias pessoas, desde que sejam respeitadas as regras sanitárias, isso é uma possibilidade», declarou Marta Temido. Estabelecendo tal confusão que, certamente por imposição do primeiro-ministro, se viu forçada a fazer no dia seguinte a hermenêutica das suas próprias declarações, estabelecendo «uma diferença entre peregrinos e celebrantes». Como se estivesse a falar para meninos muito pequeninos ou para gente com manifestas dificuldades cognitivas.

 

3

Se era uma casca de banana, para a pôr no mesmo patamar de irresponsabilidade da central sindical, a Igreja teve sabedoria suficiente para não escorregar nela. O que só pode justificar elogio nestes dias em que a calamidade sucede à emergência. Numa altura em que até o Presidente da República faz questão em demarcar-se da forma como a central pró-comunista assinalou o 1.º de Maio.

«A minha ideia era mais simbólica e restritiva», declarou ontem Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas. Como se não soubesse que aquele chocante ajuntamento da Alameda foi propiciado pelo artigo 5.º, alínea t, do decreto de execução do estado de emergência, que ele próprio assinou. «Participação em actividades relativas às celebrações oficiais do Dia do Trabalhador, mediante a observação das recomendações das autoridades de saúde, designadamente em matéria de distanciamento social», era uma das excepções previstas ao dever geral de recolhimento.

Que a CGTP tenha transformado o genérico e vago substantivo "actividades" num comício, parece ter sido novidade absoluta para o nosso supremo magistrado, que se mantém fiel ao seu estilo muito peculiar de comunicar. Neste teatro de sombras da política, enquanto uns estendem cascas de banana, outros vão tirando o tapete. O coronavírus lá vai servindo de desculpa para tudo.

 

Leitura complementar:

O que o Presidente não deve fazer: sacudir a água do capote. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

É tempo de acabar com o "distanciamento social"

por Pedro Correia, em 04.05.20

transferir.jpg

 

Não deixa de ser irónico que um Executivo do PS apele todos os dias ao "distanciamento social" - expressão criada por alguma luminária imersa na bolha de São Bento, talvez por tradução apressada do "amaricano", e que logo pegou como labareda em palha seca. 

É uma imbecilidade confundir distância física - por imperativo sanitário - para travar a expansão da pandemia com o tal "distanciamento social" que se apregoa. Não tem de haver "distanciamento social" nenhum. Aliás a simples comunicação por telefone, videochamada ou até de varanda para varanda ou de uma janela para a rua anulam de imediato essa distância. E muito bem. Porque em tempos difíceis e duros como este a última coisa que se deseja é "distanciamento social".

Estranho é que o último a perceber isto seja um Governo que se proclama socialista.

Os inimputáveis

por Pedro Correia, em 02.05.20

IMG-20200501-WA0011.jpg

 

Ridicularizando o "estado de emergência" que só deixa de vigorar a partir da meia-noite de hoje, a CGTP afrontou ontem a legalidade democrática e as severas normas sanitárias em vigor ao organizar um comício na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, com a participação de cerca de um milhar de pessoas, para assinalar o 1.º de Maio.

Isto numa altura em que são expressamente proibidos os ajuntamentos com mais de cinco pessoas. Isto numa altura em que foi suspensa a liberdade de culto, estando os membros das confissões religiosas impedidos de se deslocarem aos respectivos templos. Isto numa altura em que os espectáculos de índole cultural ou desportiva permanecem interditados. Isto numa altura em que subsistem fortes restrições à participação em funerais, impedindo-se familiares e amigos de se despedirem de entes queridos entretanto falecidos. Isto quando foram canceladas as peregrinações do 13 de Maio em Fátima.

 

IMG-20200501-WA0014.jpg

 

A CGTP não se limitou a mobilizar militantes, em claro desafio ao Estado de Direito. Fez deslocar muitos deles em autocarros fretados para o efeito, vários dos quais oriundos de outros municípios, quando o Governo anunciara a proibição expressa de circulação interconcelhia neste fim de semana alargado salvo em casos de absoluta necessidade, e milhares de efectivos policiais patrulham estradas zelando pelo cumprimento destas normas. Numa altura em que se contam já por centenas as detenções por alegado "crime de desobediência" que determinam o pagamento de duras sanções pecuniárias.

Comportando-se como uma espécie de estado dentro do Estado, a CGTP assume-se como aquilo que diz combater: como uma força detentora de privilégios, que manda às urtigas o dever geral de confinamento imposto à generalidade dos cidadãos e menospreza o direito à igualdade que lhe serve de bandeira. Como noutros tempos e noutros locais, confirma-se que também aqui há uns mais iguais que outros. 

 

Estes membros da elite sindical agem como inimputáveis perante o silêncio cúmplice, conformista e resignado das mais elevadas patentes deste Estado que dentro de poucas horas nos fará transitar da emergência para a calamidade. Ridicularizam a ministra da Saúde, que ontem mesmo proferiu estas palavras graves: «Não se espera que os portugueses saiam à rua na segunda-feira como se não estivéssemos debaixo de uma situação epidémica que temos de continuar a manter contida.» E ignoram olimpicamente o comandante das operações da GNR, que também ontem comunicava ao País: «As regras têm, mais que nunca, que ser cumpridas por nós.»

Depois querem que levemos toda esta gente a sério. Mas como?

Vidas amputadas

por Pedro Correia, em 01.05.20

A 3 de Abril, os danos provocados pela pandemia à escala mundial adquiriam uma configuração muito expressiva: ultrapassava-se a barreira das 50 mil vítimas mortais. Eram exactamente 51.500.

Decorrido menos de um mês, esta dramática estatística agiganta-se: são agora acima de 230 mil mortos. Os óbitos causados pelo novo coronavírus quadruplicaram em apenas 22 dias. E o número de pessoas infectadas triplicou em 25 dias: subiram de um milhão a 3 de Abril para três milhões na passada terça-feira. Ontem eram 3,4 milhões.

Mas as vidas humanas perdidas neste duro combate ao Covid-19 são muito mais do que dados estatísticos: a BBC, no exercício do jornalismo de qualidade a que nos habituou, revela aqui nomes e rostos de vários destes mortos registados pelas autoridades sanitárias britânicas num único dia. Vidas amputadas pela implacável propagação de um vírus que continua a ser letal, por mais que alguns pareçam ignorar tal facto.

A morte, essa perigosa socialista

por Teresa Ribeiro, em 28.04.20

A turma do resfriadinho está a ficar nervosa. Quer o povo na rua, a bulir, que é para isso que o povo serve, mas o mundo continua paralisado. Muito religiosa, esta seita sempre sacrificou tudo ao seu deus todo poderoso. O deus universal a quem na América chamam dólar e por cá é conhecido por vários nomes: massa, carcanhol, pilim, papel, taco, pastel, graveto, caroço, bago, guito... Quase tudo designações carinhosas, pois como diz a canção, "money makes the world go around".

De facto não há quem o possa negar, até os corações mais empedernidos, que teimam em colocar a vida humana acima da vida empresarial, admitem que não se pode viver muito tempo sem facturar. E é neste equilíbrio de prioridades que agora se está a jogar tudo. Só que não é fácil, pois estamos a falar de uma quadratura do círculo, em que ir trabalhar pode ser um perigo, apesar de ser perigoso não ir trabalhar. Mas já divago...

A turma musculada do resfriadinho considera que já se perdeu demasiado tempo com este choradinho. A Covid-19, afirmam a brandir estatísticas, mata menos que uma gripe vulgar. De facto os números, esses sonsos, servem para provar tudo e o seu contrário, portanto quando a turma do resfriadinho apresenta as suas contas, bate tudo certo.

O problema é quando a senhora da foice chega e lixa tudo. Contra factos não há estatísticas que valham e na pantalha nunca se viu nada assim. Gatos pingados sem mãos a medir, valas comuns abertas em Nova Iorque (dá para acreditar?). No Brasil já se viu familiares enterrar os seus próprios mortos por falta de coveiros disponíveis e até já houve defuntos a sair da pista em hora de ponta e a aterrar no funeral errado. Itália, Espanha, França, Reino Unido, o mundo dito civilizado ficou de joelhos e tudo por culpa dessa senhora que se veste de negro, mas cuja lingerie só pode ser vermelha.

Essa perigosa socialista que - já se percebeu - tem ligações óbvias ao lobby dos ambientalistas, com a sua foice (onde será que pôs o martelo?!), anda a gozar com quem só quer voltar ao business as usual, desacreditando a sua versão dos factos. Mas que estúpida!

Plural masculino genérico

por Pedro Correia, em 22.04.20

Tudo quanto é mau tem um lado bom, sempre ouvi dizer.

Quase nada de bom consigo associar a esta pandemia que destrói vidas, poupanças, empresas e empregos. Excepto no linguajar oficial imposto pela correcção política, que confunde sexo com género. Acabaram, ao que parece, as incontáveis duplicações de substantivos ignorando a norma gramatical que entende como genérico o plural masculino. Andámos anos a ouvir certos políticos matraquearem a pleonástica fórmula «portugueses e portuguesas, trabalhadores e trabalhadoras, funcionários e funcionárias, todos e todas».

Isto parece pertencer já ao passado. 

Tenho escutado mais conferências de imprensa neste mês de reclusão forçada do que em todo o ano que ficou para trás. Até ao momento não ouvi ninguém dizer «infectados e infectadas, desalojados e desalojadas, detidos e detidas, hospitalizados e hospitalizadas, recuperados e recuperadas, falecidos e falecidas». O velho plural masculino afinal sempre continua a revelar utilidade na comunicação política.

Antes assim.

 

«Acabei de ler mais um daqueles textos virais nas redes sociais que juntam na mesma frase palavras como “covid-19” e “gratidão” e confesso que estou, neste exacto momento, a martelar em fúria as teclas do computador. Já dei dezenas de voltas à cabeça e continuo sem conseguir perceber como é que alguém pode achar que devemos estar gratos por estar a viver uma situação de pandemia que nos obriga a medidas de isolamento social extremas.»

 

«A infecção por covid-19, para a esmagadora maioria da população, é uma experiência essencialmente de medo e há milhares de pessoas a braços com uma terrível e angustiante ansiedade. E não, o mundo não está a meter nada no lugar quando há cidades italianas onde os mortos são tantos que os caixões têm de ser recolhidos em camiões do exército. É verdade que a poluição atmosférica diminuiu e que os canais de Veneza estão mais limpos mas, pergunto eu, a que custo?»

 

«Depois lemos que devemos agarrar esta oportunidade para olhar para dentro e crescer… Como é que se olha para dentro numa altura destas é coisa que não faço ideia, confesso desde já. Pessoalmente só tenho olhado para fora, para lá dos muros do meu quintal, para lá das fronteiras do meu país. E tenho medo do que vejo e daquilo que ainda vou ver. Mesmo sem perceber nada de economia tenho medo do que aí vem, tenho medo do aumento do número de desempregados, tenho medo dos pequenos empresários que vão levar a estocada final com esta pandemia que outros parecem querer fazer-nos acreditar que chegou para bem da humanidade.»

 

Carmen Garcia, Podem parar de romantizar a pandemia? (excertos) 

Público, 21 de Março

Efeitos da pandemia

por Pedro Correia, em 15.04.20

 

Começo a achar sexys as mulheres de máscara.

 

Criminosos

por Pedro Correia, em 06.04.20

O coronavírus afecta já 200 países e territórios em todo o mundo. Não há praticamente uma parcela do planeta imune ao Covid-19.

A pandemia causa 2.700 mortes por dia nos cinco continentes - vitimando uma pessoa de dois em dois minutos. A cada dois segundos, regista-se um novo caso de infecção.

Apesar disto, três países persistem em manter os respectivos campeonatos de futebol: BielorrússiaBurundi e Nicarágua

Um procedimento criminoso, que devia encher de vergonha os dirigentes máximos destes países - respectivamente Aleksandr Lukashenko, Pierre Nkurunziza e Daniel Ortega.

Nenhum deles recomendável em matéria de respeito pelos direitos humanos. Não há coincidências.

 

Publicado originalmente (28/3) aqui


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D