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Então e o PAN?

por jpt, em 08.10.19

Na azáfama dos resultados eleitorais o PAN, apesar de crescer bastante, perdeu alguma visibilidade. As pessoas discutem o comentador Ventura do CHEGA (João Pedro George mostrou impressivos trechos do seu romance), a não-única nem primeira deputada negra do LIVRE (Alexandre Pomar é proto-lapidado por se incomodar com a sua gaguez, Paulo Pedroso saúda a sua proposta de uma nova lei de nacionalidade - o desvelo do PS com o PEV, perdão, com o LIVRE é notório) e há vários encomiásticos perfis biográficos do deputado Cotrim de Figueiredo, do IL, para além de inúmeras notas sobre as minudências dos partidos maiores.

Nisso esquece-se o PAN. E só agora percebo que em Setúbal os eleitores elegeram esta Cristina Figueiredo. No passado 30.9 partilhei no meu mural de Facebook este trecho de entrevista, espantado com a impreparação, o vácuo e a arrogância desta candidata, denotativos do pobre partido em que havia surgido. Mas nunca me passou pela cabeça que viesse a ser eleita. E foi! Os eleitores de Setúbal puseram esta mulher no parlamento. E ela não vem das "juventudes" nem é familiar de algum poderoso dos aparelhos dos grandes partidos que a houvesse colocado num qualquer lugar laboral, como tão costume vem sendo. É um rosto de um novo partido.

Que catastróficos plantéis, pessoais e intelectuais, dos partidos tradicionais para que a "novidade" atractiva seja esta. Patética.

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Fora da caixa (23)

por Pedro Correia, em 04.10.19

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«Entre o conhecimento do bem e do mal há uma grande diferença: o mal conhece-se quando se tem e o bem quando se teve; o mal, quando se padece, o bem, quando se perde.»

Padre António Vieira

 

Mário Soares fundou o PS em Maio de 1973. Sá Carneiro fundou o PPD (depois PSD) em Maio de 1974. Diogo Freitas do Amaral, agora falecido, fundou o CDS em Julho de 1974. Álvaro Cunhal, de algum modo, refundou o PCP na década de 40 e foi seu dirigente histórico durante quatro décadas. Fernando Rosas, Francisco Louçã, Luís Fazenda e Miguel Portas fundaram o Bloco de Esquerda em 1999.

E o PAN, que parece ter caído do céu há quatro anos, ungido por André Silva? Este partido tem um fundador, do qual todos os actuais dirigentes parecem demarcar-se, vá lá saber-se porquê. É o professor Paulo Alexandre Esteves Borges, budista praticante após ter sido entusiasta do Quinto Império: primeiro presidente do partido, em 2011, afastou-se da liderança três anos depois e desfiliou-se em 2015. Entre «divergências profundas quanto ao rumo que alguns comissários [pretendiam] dar ao PAN».

 

Seria interessante recordar a cascata de convulsões internas que levaram ao seu afastamento.

Seria interessante saber se André Silva se revê nos princípios doutrinários de Paulo Borges, discípulo espiritual do padre António Vieira e do professor Agostinho da Silva.

Seria interessante indagar se o professor Borges tenciona votar no partido que fundou.

Já agora, também teria interesse saber por que motivo o deputado do PAN preferiu votar em Fernando Negrão em vez de Ferro Rodrigues para presidente da Assembleia da República em Outubro de 2015.

Eis questões com relevância pública e que mereciam tratamento jornalístico se o PAN fosse encarado pelo mesmo prisma acutilante reservado à maioria das forças partidárias representadas no Parlamento.

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Pergunta ao deputado André Silva

por Pedro Correia, em 27.09.19

 

Qual é a posição do PAN perante a vespa asiática?

 

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Fora da caixa (16)

por Pedro Correia, em 26.09.19

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«É fundamental aumentar as infraestruturas de transportes colectivos, nomeadamente ferrovia da área metropolitana... metropolitana... da área... da área metropolitana de Lisboa, estender a rede... a rede de metro para várias... para várias zonas... assim como... assim como na... também... aaa... no Porto...»

André Silva, na RTP (23 de Setembro) 

 

Tenho acompanhado com a atenção possível as intervenções do solitário deputado do PAN nesta campanha eleitoral. Dele direi que é um dos candidatos mais previsíveis: quando abre a boca é seguramente para advogar novas interdições ou um acréscimo da carga fiscal. E é também um dos que preenchem mais tempo de antena, recorrendo a um velho truque popularizado por certos treinadores de futebol: repete as palavras que vai dizendo, em jeito de falso gago. (Se fosse gago a valer não seria candidato do PAN, mas do Livre.)

Assim foi, uma vez mais, no debate que segunda-feira reuniu na RTP os seis líderes dos partidos com representação parlamentar. André Silva não defraudou as expectativas: mal a moderadora, Maria Flor Pedroso, lhe pediu que especificasse «medidas concretas» sobre o combate às alterações climáticas, o porta-voz do PAN anunciou sem rodeios, naquele seu estilo muito peculiar, que quer extorquir dinheiro dos portugueses. Para o remeter a outros continentes.

 

Segui com tanto interesse a oratória do deputado que acabei por transcrever na íntegra o que ele disse:

«Eu gostava de… dizer… algo sobre aquilo que Portugal pode fazer… aquilo que Portugal pode fazer… aaa… relativamente a todo o impacto mundial. Está estabelecido que devemos criar um fundo mundial de combate às alterações climáticas para ajudar os países menos ricos, chamados menos desenvolvidos, para fazer esse combate, essa adaptação, às alterações climáticas. Ainda só conseguimos cerca de 25%. Portugal… aaa… deverá… contribuir com… aaa… cerca de dois milhões e meio de euros e nós entendemos que Portugal pode reforçar… os portugueses podem, em vez de darem cada um 25 cêntimos, cada um dos portugueses pode dar um euro, uma contribuição de um euro, e aumentar em dez milhões de euros a contribuição que Portugal pode dar ao resto do mundo para este efeito. E é justo. É justo porque Portugal, enquanto país rico que é, sempre utilizou os recursos e sempre emitiu gases com efeito de estufa ao longo destas décadas muito mais que os outros países. E é justo que nós tenhamos essa… essa capacidade financeira e que somos um país rico, do norte geográfico, possamos fazer essa… possamos fazer essa… essa… essa contribuição… esse esforço que é possível para… do nosso ponto de vista… para os portugueses.»

 

Desembarcado de Marte, André Silva imagina Portugal como «país rico», apto a financiar outras nações para expiar supostos pecados ambientais.

Eis outro aspecto em que o porta-voz do PAN é muito previsível: na importação para o discurso político da retórica dos tele-evangelistas, sempre prontos a lançar anátemas sobre os hereges, sempre dispostos a anunciar a redenção aos devotos que comungam das tábuas da lei.

Só não o sabia também já disponível a sacar o dízimo tão à descarada, ainda antes de acolitar o PS na próxima solução governativa. Nisto, pelo menos, inovou. Hossana, aleluia: o paraíso há-de chegar.

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Perguntas que gostava de fazer (3)

por Paulo Sousa, em 25.09.19

Eng. André Silva,

Dado que a ADSE é a versão premium do SNS, não acha que devia ter sido mais ambicioso sugerindo uma ADSE para os animais de companhia?

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Direitos sem obrigações

por Paulo Sousa, em 22.09.19

Ontem um cão de um vizinho conseguiu passar a rede que separa as duas propriedades e matou a nossa galinha preta. Chamávamos-lhe Unita. Quem não conhece o símbolo deste partido angolano achava que o nome era "bonita", o que também era verdade. Quando soube do desaparecimento dela fui perguntar pelo cão ao vizinho. Antes de chegar à porta dele encontrei logo o bicho no seu jardim a deliciar-se com a pobre da Unita.

Além da questão patrimonial que acabou por se acertar, questionei-me se a minha Unita, um dos nossos animais de companhia - com uma quase insignificante pegada de carbono - tinha perdido direitos pelo facto de ter sido atacada por um outro animal de companhia.

A lei protege-a de maus-tratos perpetrados por um humano. Li algures que um dos founding fathers dos EUA, corrijam-me se estiver errado no autor, disse que num sistema legal justo o mais fraco dos homens não tinha o que temer do mais forte e poderoso de entre os seus semelhantes.

O cão tem o direito de não ser mal tratado mas é inimputável quando dá largas ao seu instinto de caçador.

O que é que os founding fathers do animalismo têm a dizer sobre isto?

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Frases de 2019 (25)

por Pedro Correia, em 20.09.19

«As corridas de touros fazem parte da História de Portugal. Como faz a Inquisição, a tortura, a pena de morte, o colonialismo.»

André Silva, ontem, em campanha eleitoral no Alentejo

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Contra a tentação da carne

por Pedro Correia, em 18.09.19

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Pensava eu que uma universidade era um espaço de liberdade. Afinal não: é um espaço de interdição. Mais de meio século após a proclamação de Maio, que proibia todas as proibições, eis que a reitoria coimbrã, confundindo a academia com uma creche, restabelece a velha ordem com novos rótulos, tratando estudantes adultos como membros de um rebanho pastoreado pelos tele-evangelistas de turno que anunciam pragas bíblicas a quem ceder à tentação da carne.

«Razões ambientais» estarão na origem da decisão de eliminar o consumo da carne de vaca nas 14 cantinas a cargo da academia coimbrã, que se ufana assim de ser a «primeira universidade portuguesa neutra em carbono». Eis ao que chegámos: à universidade "neutra", onde a unicidade impera e os mais recentes dogmas em matéria de pureza alimentar são aceites sem um assomo de rebelião juvenil. «Vivemos um tempo de emergência climática e temos de colocar travão nesta catástrofe ambiental anunciada», anuncia com requintes de terror milenarista o douto reitor, Amílcar Falcão. Não podia ter retórica mais adequada nem apelido mais propício ao aplauso do partido animalista.

Os puritanos norte-americanos na década de 20 impuseram a Lei Seca. Agora os mastigadores de rúcula cá do burgo, com igual fúria proibicionista, pretendem impor com força legal os seus hábitos alimentares invocando - como os prosélitos de qualquer fé - o primado da moral pública, que se quer descontaminada e sã. Nada de novo debaixo do sol. Só me espanta o silêncio resignado - ia a escrever bovino - das associações de estudantes de Coimbra. Comem (algas e tofu) e calam. O que vai seguir-se? Substituição compulsiva da cerveja por água da bica? Imposição de cintos de castidade em material biodegradável? Recolher obrigatório para cumprir as horas de sono que as normas sanitárias recomendam?

Os basbaques erguem hossanas em louvor ao "progresso" contido nas novas tábuas da lei. Muitos totalitarismos começam assim: com caução "científica" e proselitismo higienista em nome de um ideal de pureza, sem um sopro de contraditório. Nunca é de mais recordar que o maior tirano que o mundo conheceu era vegetariano militante, muito amigo dos animais e quis impor o seu padrão alimentar ao mundo inteiro.

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Sobre o fim do mundo

por Paulo Sousa, em 17.09.19

O terramoto de 1755 - Pintura de João Glama Strobërle que pertence ao espólio do Museu Nacional e Arte Antiga

 

Se a vida na terra tivesse 24 horas, o ser humano teria aparecido apenas nos últimos minutos. Isto significa que o conceito do "fim do mundo" é geologicamente recente pois só existe desde que o primeiro humano formulou esse pensamento. Antes disso existia apenas mudança permanente e que afinal nunca foi interrompida.

Os equilíbrios da natureza são importantes porque dependemos deles, mas não são estáticos nem são definitivos.

A extinção de espécies é algo que aconteceu regularmente ao longo do comprido dia da vida na terra. Uma imensidão delas nem sequer fósseis nos deixaram e isso coloca-as em pé de igualdade com os dragões que, esses sim, nunca existiram. É triste saber que os ursos polares, uns animais fantásticos, irão provavelmente desaparecer, mas isso aconteceu regularmente desde que existe vida na terra.

Sem o aquecimento global que se verificou há cerca de 10.000 anos o gelo cobriria toda a Europa. A civilização como a conhecemos não teria acontecido e não estaríamos aqui a trocar ideias através da blogosfera, algo cujo conceito seria difícil de explicar há 50 anos.

Alguns ambientalistas criticam a espécie humana por se comportar como se estivesse no centro de toda a vida na terra. No minuto seguinte usam o futuro das próximas gerações de humanos como argumento de defesa das suas convicções. Não fazia mais sentido defender a natureza pelo que ela tem de fantástica?

O ponto óptimo de poluição não é a ausência de poluição. É claro que vivemos muito acima desse ponto óptimo e devemos fazer um esforço para a reduzir. Estou convicto da necessidade de se fazer um esforço para minimizar o impacto na natureza, principalmente porque… esta é extremamente bela.

Na dinâmica do combate às alterações climáticas, que no fundo não é mais do que um combate contra a mudança, existe uma histeria e uma vertente de fé que faz lembrar períodos na história em que se verificaram grandes catástrofes, como o terramoto de 1755 ou a peste negra. Nesses períodos conturbados sempre surgiram os pregadores do fim do mundo. Estas figuras apresentam-se como explicadoras do inexplicável e fonte de conforto a todos quantos queiram ouvir a mensagem de uma entidade superior.

Surgem ora com um sino, ora com um grande crucifixo, ora com os dois e garantem que todos os que almejem salvar a respectiva alma imortal devem deixar de pecar, arrepender-se, devem orar e devem sacrificar-se.

Actualizando a mensagem recomendo que:

Onde se lê deixar de pecar pode ler-se comprar um carro eléctrico.

Onde se lê arrepender-se pode ler-se viver como os Amish.

Onde se lê orar pode ler-se votar no PAN.

Onde se lê sacrificar-se pode ler-se ir de avião semanalmente para Bruxelas mas descarregar a consciência pagando a taxa de compensação pelas emissões de CO2.

Esta é a postura do PAN, da menina Greta e da sua legião de globetrotters passageiros frequentes das companhias de low cost.

Profetas do apocalipse existiram em todos os tempos e em todas as latitudes e sempre tentaram mudar o comportamento dos outros.

Se a mudança é permanente e se de facto estivermos a viver um período especial, o mais ajuizado será estarmos alerta e para tentar ser capaz de, como nos ensinou Darwin, se adaptar. A confirmar-se o que nos garantem os profetas desta nova religião, alguns territórios que agora tem um clima ameno podem vir a tornar-se inóspitos assim como o contrário. A geografia sempre foi um factor determinante no equilíbrio dos povos e das nações e isso não se alterará.

Só falta mesmo esperar pela confirmação das profecias.

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Vade retro fim do mundo

por Paulo Sousa, em 11.09.19

O PAN é o partido que nos defende do fim do mundo. Sempre que o PAN avança é o patife do fim do mundo que recua.

A medida nº 1081 do “programa eleitoral” do PAN consistia na realização de uma sessão semanal obrigatória dos criminosos com as suas vitimas, ou com os seus familiares em caso de homicídio, com o sentido de promover a reconciliação.

Bastava que não houvesse excepção nos casos de homicídio para parecer uma medida do PNR ou do Chega.

Mas alguém se terá lembrado que isto ainda podia descambar num cenário aterrador em que, numa eventual condenação futura do Eng. José Socrates, se pudesse aplicar. Considerando que as suas vitimas são todos os contribuintes, o fim do mundo esfregou logo as mãos.

Por sorte o André não imprimiu programas para adiar o fim do mundo. Bastou editar o documento - a medida 1082 vem logo depois da 1080 - fazer novo upload e já está. Mais um prego no caixão do fim do mundo. Respiremos de alívio.

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Fora da caixa (4)

por Pedro Correia, em 08.09.19
 

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«Precisamos de outras bússolas.»

André Silva, em entrevista à TVI, 4 de Setembro

 

«Estou quase a chegar ao Bairro Alto!», gritava a mulher ao telemóvel, na carruagem do metropolitano.

Em redor dela, ficámos todos a saber que aquela matrona opulenta, de unhas de gel e tatuagem no lombo, mentia com desenfado na plena pujança dos seus decibéis: seguíamos algures entre as estações de Sete Rios e Praça de Espanha. Ali perto, só o Bairro Azul.

Vejam lá em quem aquilo me fez pensar: em André Silva. O porta-voz do PAN está cheio de razão: anda por aí muita gente carente de novas bússolas.

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Fora da caixa (1)

por Pedro Correia, em 05.09.19

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«Há uma enorme confusão na definição ideológica dos outros partidos.»

André Silva

 

Espreitei parte da entrevista que o porta-voz do partido animalista deu ontem à noite à TVI. André Silva rejeita a dicotomia esquerda/direita e prefere «outras bússolas», segundo confessou, etiquetando de «progressista» o seu partido, assumidamente «pós-ideológico».

Convocado a descer da nuvem retórica, logo se apressou a desdizer o que dissera: «O PAN é um partido que se posiciona, acima de tudo, pela preservação dos ecossistemas.»

Tudo e o seu contrário, portanto. «Preservar os ecossistemas» é a definição perfeita de um partido conservador. O deputado único do PAN, que nesta entrevista se atreveu a acusar as restantes forças partidárias de fuga às respectivas matrizes ideológicas, devia olhar-se um pouco mais ao espelho. Não para acertar o nó da gravata, adereço que recusa usar talvez por lhe lembrar uma coleira, mas para ver a cara com que fica ao receber o ricochete dos tiros que dispara.

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Ecologistas da treta

por Pedro Correia, em 26.08.19

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Lançaram-se agora contra as beatas de cigarros na via pública, dedicando-se a um passatempo que adoram praticar: multiplicar impostos, taxas, coimas e um cortejo de proibições - da colheita mecanizada de azeitonas à noite ao "culto da vaca feliz" (seja lá o que isso for).

São livres de agir assim: cada partido escolhe as suas prioridades consoante a visão de sociedade que propõe aos portugueses e os instrumentos legais adequados para o efeito.

O que não faz o menor sentido é terem aproveitado a tribuna parlamentar, palco privilegiado de promoção política, para darem mais visibilidade a esta iniciativa... enquanto o dirigente máximo do partido, o deputado André Silva, exibia um vistoso garrafão de cinco litros em plástico. Precisamente o material que nos nossos dias provoca mais catástrofes ambientais.

Apetece-me chamar-lhes ecologistas da treta. E faço-o já, antes que concebam uma nova multa também para isto.

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Xenofobia, misoginia, animalismo

por Pedro Correia, em 01.07.19

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Nietzsche e o Cavalo, quadro de Eric Drass

 

Em 1889, Nietzsche vivia na praça Carlos Alberto, na cidade italiana de Turim. Nesse ano, viu ali um cocheiro a chicotear sem piedade um cavalo. Saiu em defesa do animal, abraçando-se a ele e beijando-o com fervor. O episódio, segundo rezam as crónicas, terá servido para atestar a propalada loucura do filósofo, pondo fim ao seu percurso público: a partir daí, e até à morte, ficou confinado aos muros de uma clínica para tratamento psiquiátrico, em Basileia.

Os tempos são outros: hoje ninguém considera louco quem possa beijar um bicho, até na boca, com as prováveis excepções de tarântulas ou jibóias. Mas sair em defesa de um animal maltratado pode custar uma carreira política, ainda que incipiente. Que o diga uma deputada municipal do PAN na Moita, forçada a resignar por ter feito esta observação no exercício das suas funções autárquicas: «Verifica-se que existe uma etnia que se multiplicou e que todos os dias se passeia pela Moita e arredores, [com os elementos] empilhados em cima de carroças puxadas por um único cavalo subnutrido, espancado, a desfazer-se em diarreias por não ser abeberado e alimentado sequer e que, por vezes, [cai] na via pública, não suportando mais.» Isto numa moção em que recomendava a identificação dos «detentores dos cavalos que se encontram abandonados, amarrados e sem alimento, no sentido de sensibilizar os mesmos para estes actos cruéis que levam os animais a situações de doença, exaustão e morte».

De nada lhe valeu o amor ao bicho vergastado, comprovando o seu zelo militante. Nem ter omitido o vocábulo "cigano". Aquelas palavras bastaram para configurar delito de opinião: foi acusada de xenofobia e viu o PAN retirar-lhe a confiança política num comunicado da Comissão Política Permanente que lamenta «profundamente a situação» e pede desculpa a todos os que se possam ter sentido «discriminados ou desidentificados com esta referência imprópria». Noutro contexto, talvez não faltassem acusações de sexismo e misogonia ao afastamento da senhora, que vê abortada a sua fugaz carreira política. Felizmente sem necessidade de internamento psiquiátrico.

Do animal escravizado e flagelado nunca mais ninguém falou - ao contrário do cavalo de Nietzsche, ainda lembrado 130 anos depois. «Até para se ser animal é preciso ter sorte», como dizia a minha avó. Jamais imaginando que haveria de existir um partido animalista em Portugal.

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O PAN que o Diabo amassou

por Rui Rocha, em 01.07.19

Era uma vez uma menina que vivia numa casinha em Pandora, a capital do país. Dois anos antes, em 2034, o governo de coligação entre o PAN, de André Silva, e o PS, de Paula César, tinha requisitado as mulheres com idade entre 30 e 35 anos para participarem na Grande Panificação, uma campanha destinada a erradicar a utilização de linguagem anti-animal por crianças e jovens. Expressões como “fazer figura de urso” tinham sido proibidas já em 2024, ainda durante o 2.º mandato do governo de Costa, o Magnífico, mas o partido Agro-Beto (antigo CDS) na clandestinidade tinha apelado à desobediência e, em zonas remotas do país, a sua utilização continuava. Agora, com a Grande Panificação, esperava-se resolver o problema de vez. A mãe da menina, chamada a participar nessa grandiosa tarefa, só ia a casa ao fim-de semana. Durante um tempo, o avô panterno da menina tinha vivido com eles, mas um vizinho com quem tinha criado certa animosidade acabara por denunciá-lo por blasfémia contra o Panteísmo, a religião oficial da República Pantuguesa. Julgado em processo sumário pelo Supremo Sacerdote Ivo Rosa, e apesar de negar ter proferido quaisquer ofensas contra o Deus Pug, o avô não tinha conseguido eliminar a presunção de culpabilidade e fora declarado Panasco (literalmente, aquele que mete asco ao PAN). Condenado, encontrava-se a cumprir pena de 3 anos no Panóptico, um estabelecimento de alta segurança situado em Panços de Ferreira. A condenação tinha sido publicada no Panfleto, o jornal digital oficial da República, e o respectivo texto afixado na porta da casa da menina, para vexame dos que ali moravam e de cada um que ali passasse, incluído o vizinho denunciante que, em todo o caso, acabara por ingressar também ele no Panóptico, na sequência de uma denúncia de um colega de trabalho. O pai da menina, por seu lado, saía de madrugada e nunca chegava antes das 10 da noite. Trabalhava no turno da manhã na apanha manual da azeitona (a colheita mecânica fora proibida em 2022) e, no turno da tarde, no Pombal Contraceptivo da Câmara Municipal de Pandora (antiga Lisboa). O dia da menina começava sempre cedo. Logo pelas sete soavam as sirenes que marcavam o início da jornada. Como todas as crianças, durante meia-hora, em jejum, entoava o Panegírico, uma ode à liderança de André Silva e às façanhas dos Deuses Pug, Pinscher e Poodle e um esconjuro contra as tentações do Pandemónio. Depois, era a hora de tomar a Panaceia (o comprimido homeopático para prevenir calos, joanetes, afrontamentos e bicos de papagaio) e a bebida de beterraba, hortelã e sementes de linhaça. Às 8 ligava a televisão para assistir na Pantalha (o canal único de televisão) às sessões formativas que tinham substituído a frequência da escola. A aquisição de conhecimentos era avaliada pelos Espantalhos, os funcionários que tinham sucedido aos professores, através de uma prova online com periodicidade mensal. Apesar de não se dar mal na disciplina de Biodança, a menina tinha apetência especial para a matéria de Tosas e Tosquias. Normalmente, concluídos os estudos, e depois de almoçar o prato diário de tofu, a menina teria passado a tarde a assistir à Pantomina, o programa de entretenimento conduzido pelas Irmãs Mortágua e Rita Ferro Rodrigues. Mas a avó materna da menina estava doente e era preciso levar-lhe o almoço. A menina, a quem chamavam Capuchinho Vermelho, pegou na sua capinha e chamou a cadela Beagle para a acompanhar uma vez que os humanos estavam proibidos de sair de casa sem a companhia de um animal não humano senciente. Desceram a rua, passaram pelo Panteão, última morada de heróis como Camilo Mortágua e Boaventura Sousa Santos, e dirigiram-se à floresta. No caminho, encontraram um lobo que perguntou onde iam. A menina explicou-lhe e o lobo correu para a casa da avó, chegou primeiro, comeu a avó, pôs a touquinha e enfiou-se na cama. Quando a menina chegou, apercebeu-se que a avó tinha umas mãos, uns olhos e uma boca muito grandes. Fez-lhe aquelas perguntas todas e, quando chegou à da boca, o lobo respondeu “é para te comer”, saltou da cama, comeu a menina e adormeceu. Um soldado da GNR que passava por ali, entrou, viu o lobo a dormir e lembrou-se que este podia ter comido a avó. Preparava-se para cortar a barriga do lobo quando apareceram 3 utilizadores do Facebook que o impediram: que não, que era preciso perceber se o lobo não teria justificação para proceder daquela maneira. Exigiram a elaboração de um relatório de integração social, um levantamento de condições económicas e oportunidades de vida, uma análise exaustiva da infância do lobo e diversas outras perícias. Fizeram uma petição que exigia a punição do soldado da GNR pelo crime de maus tratos na forma tentada. Graças à intervenção dos três utilizadores do Facebook, o lobo passou a viver na casa da avozinha, tendo direito a quatro refeições quentes diárias, visita semanal do veterinário e corte periódico de unhas. O soldado da GNR foi julgado e, com a excelente defesa de um advogado que uns anos antes ficara célebre durante a audição para lamentar de Joe Berado, foi condenado apenas a 20 anos de exílio numa reserva de ursos do Quebeque. A cadela Beagle, essa viveu feliz para sempre.

 

* publicado na edição de Junho do jornal Dia 15.

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Abaixo de chimpanzé

por Pedro Correia, em 24.06.19

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André Silva nunca pediu desculpa pela mais aberrante frase proferida por um político português nos últimos anos: «Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma.» Tendo em conta que este dislate já data de 2015, numa entrevista ao Expresso, devemos concluir que o porta-voz do PAN, se nem sempre é pessoa para pensar no que diz, pelo menos diz aquilo que realmente pensa.

Com o brilharete conseguido a 26 de Maio, ao superar os 5% e eleger um eurodeputado, o PAN goza dias de glória. Levado em ombros pelas mesmas trombetas mediáticas que quase o ignoraram na recente campanha eleitoral (houve até um canal televisivo que o excluiu do debate entre os cabeças de lista de maior relevo, optando em seu lugar pelo partido unipessoal de Marinho e Pinto, que saiu das urnas com 0,5%).

Mas toda a medalha tem um reverso. O partido animalista que ultrapassou a CDU em sete dos 20 círculos eleitorais e ficou à frente do CDS em Faro e Setúbal vai finalmente ser escrutinado – como aliás devia ter acontecido logo em 2015, quando André Silva se estreou como deputado. Com um atraso de quatro anos a comunicação social descobre só agora, muito surpreendida, que o PAN celebra congressos à porta fechada, quer impor a utilização do «copo menstrual» às mulheres e orgulha-se de ter conseguido nesta legislatura uma redução do IVA no consumo de algas. Entre os devastadores incêndios de Junho e Outubro de 2017, que causaram 116 mortos, entreteve-se a legislar sobre a admissão de animais de companhia nos restaurante citadinos, o que define bem as suas prioridades.

 

Eis um partido new age, digno de subscrever proclamações pela «paz no planeta» com a convicção de qualquer candidata a Miss Universo. Um partido «ideologicamente amorfo», segundo o rótulo que alguns politólogos contemporâneos adoptaram para caracterizar este pensamento capaz de cruzar o melhor do Dalai Lama com o pior de Paulo Coelho.

O maior indício da consistência gelatinosa do PAN detecta-se, aliás, no facto de já ter mudado duas vezes de nome desde que surgiu, faz agora dez anos. Começou por chamar-se Partido Pelos Animais. Em 2011 registou-se no Tribunal Constitucional como Partido Pelos Animais e Pela Natureza. Três anos depois, num dos tais congressos interditos a jornalistas, adoptou a actual denominação pleonástica: Pessoas-Animais-Natureza.

André Silva recorre às técnicas dos pregadores evangélicos, alternando o discurso do medo, próprio dos milenaristas de antanho, com a invocação subliminar do halo de santidade só ao alcance dos convertidos. Arauto da virtude, lança anátemas aos que insistem em repudiar o tofu: apenas um mundo convertido ao veganismo e ao ciclismo sobreviverá à inevitável catástrofe ambiental. Ele e os seus acólitos, magnânimos, estão dispostos a conceder-nos a absolvição dos pecados da carne e do plástico desde que cumpramos a indispensável penitência e abracemos «um novo paradigma disruptivo», seja lá o que isso for.

Quem ousar dizer o contrário, já está em coma, embora ainda não saiba. Desceu abaixo de chimpanzé.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

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Frases de 2019 (16)

por Pedro Correia, em 04.06.19

«Portugal não pode dizer que é um país civilizado enquanto tiver touradas.»

André Silva, porta-voz do PAN, em entrevista ao jornal Sol (1 de Junho)

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Europeias (20)

por Pedro Correia, em 24.05.19

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PESSOAS-ANIMAIS-NATUREZA: TRÊS PROPOSTAS

 

  • Fim do financiamento a sistemas de regadios, grandes barragens e unidades de prospecção e extracção petrolíferas, entre outros projectos.
  • Fim do transporte de longa distância de animais vivos, com particular incidência nas deslocações para fora da Europa.
  • Criação de um imposto europeu para gases com efeito de estufa, extensivo à indústria aeronáutica e náutica, e à agropecuária intensiva.

 

Do programa eleitoral

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Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 03.03.19

 

Animal é animal, ser humano é ser humano.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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