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Idolatria

por Pedro Correia, em 17.05.18

Nunca deixo de me espantar com as diversas facetas do fanatismo mais exacerbado. Nada cega tanto como a paixão idolátrica: quanto mais desligada da realidade, mais intensa se manifesta.

Hilda Hilst

por Patrícia Reis, em 17.11.16

"Eu adoraria estar apaixonada sempre. A minha mãe dizia uma frase que eu nunca esqueci: 'Tens um inimigo, deseja-lhe uma paixão'. Eu não entendia o que ela queria dizer, mas agora eu entendo. A paixão é uma doença mesmo, uma doença total. E eu gostaria de, velha, ter uma paixão, de me apaixonar."

Paixões

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.02.16

O João já cá não está. Mas lá por onde ele anda agora também deve haver maneira de ver esta beleza. Há paixões que são mesmo eternas. São casos perdidos. Esta é uma delas.

Esta coisa das palavras

por Isabel Mouzinho, em 30.07.15

Dentro da minha cabeça vou deslocando as vírgulas, substituindo um verbo por outro, afinando um adjectivo. Às vezes redijo mentalmente a frase perfeita e, no pior dos casos, se não a aponto a tempo, mais tarde foge-me da memória. Resmunguei e desesperei-me muitíssimas vezes tentando recuperar aquelas palavras exactas que iluminaram por um instante o interior do meu crânio, para depois voltarem a mergulhar na escuridão.

Esta é uma passagem de um livro que ando a ler, de Rosa Montero (La loca de la casa), que aborda um assunto que me apaixona desde sempre, ou pelo menos desde o tempo até onde a minha memória consegue chegar: as palavras, o que elas significam e a distância que as separa daquilo a que elas se referem e  daquele resto mais fundo que nunca se consegue dizer e apenas se sente. E por isso, também, a incessante procura da palavra mais exacta, ou mais aproximada do que se quer transmitir... 

E depois há nas palavras a ambiguidade de trazerem em si a morte e a impossibilidade de morrer: ao  serem nomeadas, as coisas deixam de existir, adquirindo  outra forma de ser. A palavra que as designa nega-lhes a existência real e dá-lhes uma existência nova, na palavra. Ao fazê-lo, a linguagem adquire um carácter destrutivo, em certa medida: reduz as coisas a meras ausências, criando uma incomensurável distância entre elas e as palavras que as designam.

E, no entanto, a distância que a utilização da linguagem implica é a condição do entendimento possível das coisas, o único modo de elas nos serem comunicadas, de nos aproximarmos delas e de as conhecermos. É, pois, pela realidade da linguagem que se acede à realidade das coisas, como única visão possível do mundo.

Anterior a toda a palavra, há uma existência de que temos de nos separar para podermos falar e compreender. A linguagem traz em si  a marca do que lhe falta e a precede, do que ela exclui ao manifestar-se. Mas, se é verdade que a linguagem começa por negar a existência do que afirma, podendo por isso considerar-se num certo sentido portadora de morte, há nela também uma ambiguidade intrínseca que faz dessa morte uma impossibilidade. Ao conter em si a negação e a afirmação, a morte e a vida, a linguagem faz com que uma e outra de certo modo se neutralizem, tornando a morte impossível.

Mantendo uma forte relação com a linguagem, a literatura acentua estas questões, assumindo-as de uma forma ainda mais radical. Ao reconhecer a linguagem como a única forma possível de apreender o mundo, a literatura distancia-se da linguagem tal como ela é utilizada usualmente e, a partir da infinita distância que estabelece, subverte a experiência do homem e do mundo, criando outros mundos possíveis e um modo próprio de os nomear. É essa diferença que nos enfeitiça e que determina a forma como lemos, escrevemos, pensamos, vivemos.

Apaixonadamente

por Isabel Mouzinho, em 17.06.15

É um dos meus grandes  amores. Entrego-me nos seus braços como quem regressa ao colo de um amante antigo, no encanto apaixonado do que já conheço e me seduz, enamora, entontece, e na exaltação emocionada do que me falta descobrir. O que nos liga é intenso, muito antigo e inexplicável. Porque há amores assim: infindáveis, grandiosos, requintados, românticos, diferentes, excepcionais e desmedidos, irredutíveis às palavras, avessos a definições e que apenas se podem sentir.  

Conheci-a nos livros, nas fotografias, nas canções, nos filmes, antes de a conhecer na realidade; idealizei-a ao sabor da minha imaginação, deixando-me encantar pelo romantismo e a boémia que lhe estão associados, num tempo em que a cultura francesa era ainda a cultura dominante, embora já em fase de declínio.

Quando a visitei pela primeira vez, devia ter uns dezanove anos. E foi uma enorme emoção. Sonhara com esse encontro vezes sem conta. Ainda me lembro como se fosse hoje da minha entrada inicial em Paris, de madrugada, na excitação de tudo o que se quer muito e acontece pela primeira vez, na alegria desassombrada  de poder por fim estar num lugar que nunca vira antes e que, no entanto, já me pertencia. E da comoção de tudo ser  tão real e palpável, daquele mundo, até aí sonhado e imaginário, subitamente tornado verdade para os meus sentidos; e daquela primeira impressão de grandiosidade, de que tudo era afinal imenso, ou, pelo menos, muito maior do que  eu idealizara.

Hoje, já não sei quantas vezes lá voltei. Conheço Paris em quase todas as estações do ano: sei do sol abrasador nas tardes de Verão do Quartier Latin - que eu adoro -, do frio cortante que se sente ao caminhar nas Tuileries, em manhãs gélidas de Inverno, do encanto da cidade tão justamente apelidada cidade luz (ville lumière) intensificado pelo brilho das iluminações na época de Natal, da doce tranquilidade das manhãs na Place des Vosges, do sol de Primavera amenizando o silêncio e a quietude dos cais do Sena, luminoso, reflectido no rio, ou fazendo brilhar os  típicos telhados, na deslumbrante vista da cidade desde Montmartre. Falta-me apenas Paris no Outono;  e imagino como devem ser fantásticos os fins de tarde no Jardin du Luxembourg,  - que é um dos meus locais preferidos -, com as árvores e os extensos relvados cobertos de folhas douradas.

Gosto de tudo em Paris: dos monumentos e dos edifícios, das ruas e dos cafés, das praças, dos jardins, da cidade construída à volta do rio, da dissemelhança das suas inúmeras pontes, dos bateaux-mouche, passeando de cá para lá no Sena, da arte em cada esquina, do requinte de cada detalhe, do ar em que se respira cultura e sofisticação, da atmosfera simultaneamente retro e avant-garde.

Paris é uma cidade apaixonante, um daqueles lugares com alma onde o amor apetece. Há nesta cidade uma magia qualquer, uma luz especial, um magnetismo insondável, que me faz querer sempre voltar, e que faz dela um sítio  verdadeiramente especial. Talvez só em Baudelaire, na sua Invitation au Voyage, encontro algo que se aproxima vagamente do que Paris me faz sentir, no dístico que se repete como um estribilho: Là, tout n'est qu'ordre, beauté, luxe, calme et volupté.

Apaixonam-me as cidades. E depois de Lisboa, é Paris que trago no coração. 

Música para os nossos ouvidos

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.07.14


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