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Pós-eleitorais (10)

por Pedro Correia, em 08.02.16

Continuo a ler por aí que Marcelo Rebelo de Sousa venceu com evidente facilidade a eleição presidencial "por não ser o candidato que a direita verdadeiramente queria". Esta tese, disseminada pelos cultores de etiquetas que proliferam na "análise política" à portuguesa, baralha os factos com brutal desfaçatez. As invectivas contra Marcelo, por parte dos seus adversários à esquerda, não pouparam pormenor algum nos meses que antecederam o escrutínio - dele disseram que era um novo Cavaco, que escrevia cartas a Marcelo Caetano, que fugiu à tropa, que tocava às campainhas das portas quando era miúdo, que chamou lelé da cuca ao doutor Balsemão, que mergulhou no Tejo, que perdeu um debate televisivo em mil novecentos e troca o passo.

Os eleitores votaram como lhes apeteceu, indiferentes à vozearia dos tudólogos. Agora aqueles que o invectivaram apressam-se a reclamar sem pudor um quinhão da vitória, garantindo ao País que "a direita anda aziada", Costa ficou feliz e Passos Coelho teve de engolir um elefante. Falam como se Marcelo fosse troféu de estimação em vez do alvo a que fizeram pontaria nos últimos meses. Sobre Sampaio da Nóvoa, que foi o candidato de quase todos eles, ninguém voltou a ouvir-lhes sequer um sussurro. Aplicam à política os versos do António Variações: "Eu só quero ir / Aonde eu não vou / Porque eu só estou bem / Onde não estou."

Pós-eleitorais (9)

por Pedro Correia, em 05.02.16

Do Tribunal Constitucional, postado em sossego, nada mais soubemos desde o dia 18 de Janeiro, quando entendeu interferir na campanha presidencial para anunciar um relevante acórdão sobre subvenções vitalícias atribuíveis aos titulares de postos parlamentares anteriores a 2005 que perfizessem 12 anos no hemiciclo de São Bento. Estava o tema em apreciação no Palácio Ratton desde 2014 quando logo por fatal coincidência – e uma urgência difícil de vislumbrar – o acórdão sobressaltou o País, determinando tendências de voto naquela recta final da campanha. Muito à portuguesa, do sobressalto passou-se num ápice ao esquecimento: o tema regressou à poeira das gavetas já com a página eleitoral virada. Nós, portugueses, somos assim – do taxista ao magistrado: especialistas em transformar calmaria em vendaval e logo reverter o vendaval em calmaria.

Pós-eleitorais (8)

por Pedro Correia, em 04.02.16

Três eleições presidenciais, três derrotas sucessivas dos candidatos da área socialista. Por clamorosos erros de estratégia política - todos atribuíveis ao chamado sector soarista do PS. Em 2005 Manuel Alegre já estava no terreno quando viu levantar-se uma onda interna destinada a derrubá-lo: a onda afinal era pequenina mas bastou para sagrar Cavaco Silva vencedor à primeira volta. Em 2010, novamente com Alegre em palco, do mesmo sector surgiu a candidatura alternativa de Fernando Nobre - e de novo Cavaco agradeceu o brinde. Na Primavera de 2015 eis que da mesma trincheira irrompe um ilustre desconhecido: Sampaio da Nóvoa. Era o impulso que faltava para um passeio triunfal de Marcelo Rebelo de Sousa com destino a Belém.

Tanto erro acumulado - e nenhuma lição extraída.

Pós-eleitorais (7)

por Pedro Correia, em 03.02.16

É algo normal. Os partidos comunistas italiano e francês, outrora os mais poderosos do Ocidente, desapareceram do mapa. Deixaram de apresentar-se com as suas siglas (o que, de resto, também o PCP faz desde 1979) e viram os eleitores, em certos casos, transferir o voto directamente para a direita soberanista e xenófoba. Também em Espanha o PC deixou praticamente de existir. O mesmo sucede nos países do Leste da Europa, até há um quarto de século submetidos ao jugo do "socialismo real".
Os 4% agora obtidos pelo candidato presidencial Edgar Silva são o pior resultado desde sempre registado nesta área política em Portugal. Mas ainda são muito superiores à média eleitoral dos comunistas na Europa. O PCP resiste, logo existe.

Pós-eleitorais (6)

por Pedro Correia, em 02.02.16

De todos os lamentos pós-eleitorais oriundos da área do partido do Governo, o mais original foi este veemente desabafo da inconfundível Ana Gomes: «Teria gostado que o PS tivesse apoiado claramente um candidato», disparou a eurodeputada. Bem prega Frei Tomás: muitos socialistas teriam gostado que Ana Gomes começasse por clarificar a sua própria posição em matéria de campanha presidencial. Foi ela quem lançou Maria de Belém como candidata para depois apoiar Sampaio da Nóvoa. Todo um modelo de coerência.

Pós-eleitorais (5)

por Pedro Correia, em 01.02.16

O PCP parece viver numa realidade paralela, como bem demonstra a mais recente edição do jornal oficial dos comunistas. Analisando o escrutínio presidencial de 24 de Janeiro, o impagável Avante! conclui o seguinte: «Não há resultados eleitorais capazes de apagar o carácter ímpar da candidatura de Edgar Silva e do colectivo imenso a que deu expressão; o projecto que corporizou é, também ele, inapagável, pois radica nas aspirações mais profundas dos trabalhadores e do povo.» Dir-se-ia a celebração de uma vitória. Mas não: trata-se afinal da leitura que os comunistas fazem do descalabro oficial do seu candidato - o pior resultado de sempre do PCP nas urnas. Por mais pesada que seja a derrota, o partido da foice e do martelo transforma-a sempre numa radiosa tomada do Palácio de Inverno. Com esta lógica discursiva, os amanhãs jamais cessarão de cantar.

Pós-eleitorais (4)

por Pedro Correia, em 29.01.16

Continuo a ler e a escutar alguns tudólogos que anunciam ao País ter sido Sampaio da Nóvoa um dos "vencedores" da eleição presidencial. Isto autoriza-me a revisitar a história. E a reescrevê-la. Estou assim em condições de garantir-vos que foram estes os verdadeiros "vencedores" das eleições presidenciais ocorridas nos últimos 40 anos: Otelo Saraiva de Carvalho em 1976, Soares Carneiro em 1980, Freitas do Amaral em 1986, Basílio Horta em 1991, Cavaco Silva em 1996, Ferreira do Amaral em 2001 e Manuel Alegre em 2006 e 2011. Triunfadores, todos eles.

Pós-eleitorais (3)

por Pedro Correia, em 28.01.16

As chamadas esquerdas quiseram medir forças nas presidenciais. Perverteram o espírito deste escrutínio, transformando-o numa segunda volta das legislativas (e em novo round das primárias do PS, no caso do confronto Nóvoa/Belém). Alegavam que só a multiplicação das candidaturas conseguiria travar o passo ao "candidato da direita". Pura mistificação, como a linguagem das urnas demonstrou: as esquerdas multiplicadas valem hoje apenas 38,1%. Em política o aumento de parcelas costuma produzir efeitos destes: subtrair em vez de somar.

Pós-eleitorais (2)

por Pedro Correia, em 27.01.16

Pedro Silva Pereira salientava na noite de segunda-feira, na TVI 24, que o bom resultado eleitoral de Marisa Matias "premeia o contributo do BE para uma governação à esquerda". Este raciocínio do eurodeputado socialista conduz-nos fatalmente à conclusão que o PCP tem dado um contributo negativo à governação, visto ter obtido o seu pior resultado eleitoral de sempre.

Pós-eleitorais (1)

por Pedro Correia, em 26.01.16

Ouço e leio que Sampaio da Nóvoa, rejeitado por mais de três quartos dos eleitores, "cumpriu os seus objectivos". O jornal Público,  para meu espanto, chegou a incluí-lo entre os vencedores da eleição presidencial. Pensava eu que o maior objectivo do antigo reitor era passar à segunda volta. Afinal estava enganado.


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