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Rescaldo de um jogo em futebolês

por Pedro Correia, em 04.05.14

 

-- Boa noite. O que achaste deste jogo tão emocionante?

-- Duas palavras bastam. Em futebol o desequilíbrio pode tomar números absolutamente impensáveis. Tivemos aqui um choque entre um modelo de jogo e a estratégia. O modelo de jogo que mais gosto de ver é aquele que tem posse de bola e futebol largo e tentativa permanente de domínio do adversário. A dimensão estatégica do jogo, ou seja a abordagem em concreto do adversário, pode ser determinante sobretudo quando estamos perante duelos a eliminar. A equipa vencedora teve uma abordagem de quatro-quatro-dois inicial procurando diagonais com mais uma unidade ofensiva mas defendendo sempre com duas linhas de quatro e subidas. Apertou sempre a construção dos centrais e dificultou muito a saída da turma antagonista. E travaram os corredores, que são o grande ponto de força dos rivais, com um futebol mais rendilhado. Podemos chamar àquilo um quatro-dois-três-um, mas aquilo em rigor é quatro-dois-quatro. Jogaram com os extremos projectados, muito na órbita dos laterais, e em subida permanente. Os outros, sem um médio de recuperação de bola, revelaram uma estratégia quase suicida. Falharam a abordagem estratégica, mas isso pode sempre acontecer aos melhores. Fiz-me entender?

-- Bem... não propriamente. Não te importas de repetir tudo outra vez, mas um pouco mais de-va-gar?

-- Impossível, pá. Já não faço a menor ideia do que disse.

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O admirável mundo da 'vox pop'

por Pedro Correia, em 21.11.13

"Portugal não tem uma grande selecção."

"Paulo Bento é um treinador fraco tacticamente."

"Já chega de falar de Cristiano Ronaldo."

"O Cristiano não merece que falemos mais dele."

"Cristiano Ronaldo não é o melhor do mundo."

"Miguel Veloso é um jogador banalíssimo."

"O Nani não rende nada."

"Pepe não é português."

"O que é que Scolari fez em Portugal?"

 

Frases de "populares" escutadas durante a tarde de ontem na televisão

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Frases de 2013 (30)

por Pedro Correia, em 06.11.13

«Para ser humilde parece que tenho de vender o meu Porsche.»

Costinha, treinador dispensado do Paços de Ferreira

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Isto não é apenas sobre futebol

por Pedro Correia, em 24.10.13

Fredy Montero é uma das melhores aquisições do futebol português nos últimos anos. Natural da Colômbia, jogava nos Estados Unidos e foi descoberto em boa hora pelos olheiros de Alvalade. No Sporting, em oito jogos disputados esta época, fez 12 golos -- a melhor marca do género registada por algum jogador do clube pelo menos neste século, contribuindo em larga medida para que a equipa leonina seja de momento a que tem maior índice ofensivo a nível europeu, acima do Real Madrid, do Manchester City e do Barcelona. "O ataque mais mortífero da Europa", como titulou o Record, recorrendo à típica terminologia da imprensa portuguesa especializada em futebol.

Com ele em campo, ao contrário de quase todos os restantes jogadores do nosso campeonato, a notícia não é quando marca: é quando não marca.

 

 

Dir-se-á, para quem veja de fora: os adeptos sportinguistas devem andar eufóricos. A resposta só pode ser afirmativa.

Mas nem sempre foi assim. Recuemos três meses.

Montero acabara de chegar a Lisboa, tendo sido apresentado aos sócios no estádio José Alvalade. Tiraram-se as primeiras fotografias, já com o colombiano vestido de verde e branco, ao lado do presidente do clube, Bruno de Carvalho.

A esmagadora maioria dos sportinguistas nunca o vira jogar. Aguardou, portanto, com genuína expectativa, para o avaliar em campo.

Mas não faltou também quem desde logo começasse a dizer mal da escolha, ruminando argumentos contra o atleta colombiano e a escolha feita pela direcção sportinguista, duramente criticada em blogues que dizem ser leoninos e cujas caixas de comentários reflectem o desvario que por vezes se apodera de certos adeptos da bola, sejam ou não do Sporting.

Mantenho o meu arquivo sempre actualizado. E do arquivo desenterro frases como estas, então publicadas nesses blogues:

«O Ghilas [avançado entretanto contratado pelo FC Porto, onde não tem passado do banco de suplentes] é dez vezes superior a este Montero. Mas este dá uma comissão maior.»
«Parece um jogador mediano, penso que será mais para fazer número.»

«Ao contrário do que diziam, ele não é craque, longe disso.»
«Dado que Montero não é um jogador de área, temos aqui alguns problemas.»
«Para mim não é um verdadeiro goleador e tenho dúvidas que faça 15/20 golos numa época.»
«Troco Montero pelo Bruma [ex-jogador sportinguista entretanto transferido para um clube turco], esse é craque, é o único que me vai levar a ir a Alvalade.»
«Montero não mostrou instinto goleador.»

«Não vale a pena andar a contratar por contratar, sem dinheiro muito dificilmente se consegue qualquer acréscimo de qualidade.»

«No dia em que o Bruno [de Carvalho] contratasse mesmo um jogador a sério punha o Sporting nas primeiras páginas de toda a imprensa internacional.»

Gostaria de saber o que os ressabiados que escreveram tudo isto pensarão de Montero agora. Imagino que festejam  com a mesma satisfação que eu os golos marcados pelo avançado que tanto denegriram. E são até capazes de garantir nas conversas de café, muito à portuguesa, que anteviam desde o início que seria um excelente reforço. No momento em que a Europa do futebol já tem os olhos postos em Alvalade, à espreita das próximas prestações em campo do jovem colombiano.

O problema é que isto não sucede só no futebol.

A ignorância é muito atrevida. As palmas de aprovação e os polegares ao alto nas redes sociais são sempre mais prováveis quando se utilizam palavras contundentes. E dizer mal do que não se conhece -- sem conceder sequer o benefício da dúvida ao destinatário das críticas, por mais gratuitas que sejam -- é um verdadeiro desporto nacional.

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Lição de futebolês em dia de Portugal-Israel

por Pedro Correia, em 11.10.13

 

É um quatro-dois-três-um mas muitas vezes é mais um quatro-cinco-um de uma equipa que não se desorganiza nem se desposiciona muito e que sai bem na transição sobretudo nas bolas a passar em momentos de definição dessa transição ofensiva com alguma criatividade e alguma atenção à bola parada e ao jogo aéreo muito forte com os laterais a centrar nessa circunstância pois quando pressionada em bloco meio alto a equipa vai jogar tendencialmente em bloco baixo sobretudo quando os alas não são jogadores de largura e têm dificuldade nas acções de construção e a contratransição é vital porque quando se perde a bola em zona ofensiva se o pressing foi imediato pode ser recuperada instantaneamente e a contratransição numa equipa que a faça bem e que tenha qualidade de finalização muitas vezes é fatal e este é um jogo em que interessa revelar capacidade de pressionar alto e de recuperar alto e de meter grandes intensidades sobretudo na primeira parte sem deixar o adversário trocar a bola naqueles dois metros de construção da zona defensiva nem jogar no risco pois quando se recupera mais atrás eles encontram-se lá todos.

 

Fui suficientemente claro ou preferem que faça um desenho?

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Siga a dança

por Pedro Correia, em 07.01.13

 

Franky Vercauteren abandona Alvalade 75 dias depois de ter sido contratado. Convém avivar as memórias mais fraquinhas: "É uma pessoa que aposta na formação, é ganhador e é um antigo jogador de qualidade. Houve dezenas de treinadores que se ofereceram para treinar o Sporting. Enquanto os nomes iam correndo, nós já tínhamos escolhido Franky Vercauteren."

Estas palavras foram proferidas a 30 de Outubro pelo presidente Luís Godinho Lopes, que acrescentou: "Agradeço a paciência que os adeptos têm tido e a forma como apoiam a equipa. Estou a trabalhar para criar um projecto sustentável e isso não se cria resolvendo os problemas à pressa."

Palavras carregadas de involuntária ironia, como hoje bem se vê. Godinho Lopes reclama para si próprio algo que não concede a mais ninguém no clube: tempo e paciência. Na grelha de Alvalade foram triturados quatro treinadores desde Fevereiro de 2012. Avança agora Jesualdo Ferreira. O quinto em menos de 11 meses. Depois de Domingos Paciência ("espero que fique o tempo suficiente para atingir o sucesso no Sporting"), Sá Pinto ("trouxe outro ânimo à equipa"), Oceano Cruz ("faz parte do presente e do futuro") e do macambúzio belga que parte como chegou: de rosto carrancudo.

Como eu o compreendo. Havia de rir-se de quê?

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Um esticado, dois encolhidos

por Pedro Correia, em 20.11.12

Passei ontem os olhos por um desses programas de paleio futebolístico que pretendem animar os serões televisivos de segunda-feira. Comentava-se qual seria a forma ideal de fazer determinado gesto. Segundo um dos intervenientes, a coisa só merecerá certificado de validade se tiver dois dedos encolhidos entre um esticado. Parecia quase uma metáfora do referido programa: um esticado, dois encolhidos.

Replicava outro interveniente que "à americana" basta um dedo esticado, não havendo necessidade de encolher nada.

Fiquei elucidado, uma vez mais, sobre a qualidade do programa e za(r)pei rapidamente para outro canal. Nestas ocasiões, nada melhor do que premir o dedo indicador no botão de comando. É quanto basta.

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Frases de 2012 (32)

por Pedro Correia, em 18.06.12

«Alguns já estarão a afiar as facas e a comprar cachecóis da República Checa para ver se saímos na próxima quinta-feira.»

Paulo Bento

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As continhas

por Bandeira, em 15.06.12

Penso ter finalmente compreendido. Se Portugal vencer a Holanda mas a Dinamarca ganhar à Alemanha por 3-2, caímos fora. Caso Portugal perca com a Holanda por 1-0 e a Alemanha vença a Dinamarca, estamos dentro. Imagine (faça um esforço) que Portugal vence com triplo hat-trick de Postiga e a Alemanha se vai abaixo com um auto-golo de Mario Gomez: A dívida pública portuguesa desaparecerá sem deixar rasto e Ratzinger, que ficará com muita vergonha, abdicará, sendo Paulo Bento eleito papa com o nome de Bento XVII. A Irlanda regressará ao Euro, tendo Leopold e Molly Bloom como adjuntos de Trapattoni, na eventualidade de todas as selecções (todas mesmo) perderem amanhã, Bloomsday. Caso a Dinamarca vença a Alemanha e Portugal perca contra a rainha da Holanda em badminton, Passos Coelho enviará um beijinho à senhora Merkel (que perderá o cargo de chanceler para António Borges), mas não conseguirá evitar que a Moody's atire Portugal para a categoria de Vinagre de Tinto- (com perspectivas negativas). Se, porém, a Alemanha perder por 50 golos ou mais, a Grécia será repescada do fundo lodoso do rio Meandro, onde agora se encontra, e atirada ao Egeu (perdoe a vírgula antes da copulativa), desta feita com cópias em tamanho real do Hermes de Praxíteles presas aos artelhos ou, em alternativa, artigos seleccionados das nossas sucessivas Leis do Arrendamento Urbano. Se acha que nada disto faz sentido, consulte as regras da UEFA e depois falamos.

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Vai uma apostinha?

por Pedro Correia, em 14.06.12

Confesso: ando cansado de ouvir falar do Nélson Oliveira. E tenho bons motivos para isso. Na segunda-feira, 48 horas antes do Portugal-Dinamarca, dois diários desportivos puseram o jovem suplente do Benfica em destaque nas suas primeiras páginas. "Estamos de cabeça levantada", dizia o jovem, cujo retrato ocupou praticamente a capa inteira desse dia do diário A Bola. A justificação para o destaque fotográfico, esclarecia o jornal, tinham sido os três golos apontados pelo rapaz... no treino da véspera.

Como não há coincidências, no mesmo dia O Jogo apressava-se a antecipar a presença do jovem Nélson no lugar de Helder Postiga como ponta-de-lança da selecção. A sua inexperiência em jogos internacionais, o facto de nem Jorge Jesus o incluir no onze titular das águias e a certeza de não ter marcado um único golo no campeonato pareciam irrelevantes perante a onda mediática que ia engrossando em torno do seu nome, agigantando-se qual tsunami a chegar à costa. "Nélson Oliveira ganha espaço", titulava nesse dia o Record, tentando não perder a corrida. "Nélson Oliveira é um trunfo para Paulo Bento", dizia a RTP no dia seguinte, citando o treinador Rui Vitória.

Foi preciso Paulo Bento pôr fim a tanta especulação com quatro palavras apenas: "Vai jogar o Helder." Que por acaso até marcou contra a Dinamarca.

Nélson jogou meia hora, como suplente de Postiga. Sem marcar. Mas nem por isso desaparecerá das manchetes. Vai uma apostinha?

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Frases de 2012 (30)

por Pedro Correia, em 06.06.12

«Depois do jogo com a Macedónia, todos vimos os jogadores a ir de folga em carros de 400 mil euros, num país que está em crise. Isto só aumenta a responsabilidade e, depois, a agressividade do povo. Isto depois vai ser pago.»

Manuel José

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De que falamos quando falamos em "ser feliz"?

por Pedro Correia, em 20.05.12

 

Um dos mais irritantes chavões da bola é aquele em que se procura justificar a vitória de um determinado clube dizendo que este "foi feliz". Ontem à noite, na SIC Notícias, lá recorreu o comentador Joaquim Rita a tal chavão, procurando assim desvalorizar a conquista da Liga dos Campeões pelo Chelsea.

Mas afinal em que é que este clube "foi feliz"? Por ter jogado em casa do adversário, o Bayern de Munique? Por ter actuado sem três dos seus mais emblemáticos jogadores? Por ter dado uma lição de táctica no Arena de Munique? Por ter confirmado que possui uma defesa sólida e um perigoso contra-ataque? Por ter revelado um inegável índice de eficácia ofensiva ao ponto de marcar um golo no primeiro pontapé de canto que teve a seu favor? Pelo facto de o guarda-redes Cech ter defendido dois penáltis?

Dizer que o Chelsea "foi feliz" é o mesmo que dizer que jogou de azul. Um lugar-comum idêntico a tantos outros. Uma "explicação" que nada explica.

Uma frase nada feliz.

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Direito à multiplicação de cachecóis

por Pedro Correia, em 05.04.12

O João Gobern tem todo o direito de se assumir como adepto benfiquista. E, sendo convidado para fazer comentário futebolístico na RTP precisamente como analista de cachecol, tem naturalmente também o direito - e neste caso quase o dever - de assumir a sua condição de benfiquista. Nada a objectar quanto a isto. Sendo assim, quem poderá espantar-se que vibre em directo com a marcação de um golo da sua agremiação ao minuto 92 de um jogo contra um clube que ameaça disputar-lhe o título? Fará sentido compará-lo ao ex-ministro Manuel Pinho que foi afastado do Governo socialista por ter feito um feio gesto a um deputado da oposição na respeitável sede da democracia que é a Assembleia da República?

Quanto a mim, o caso pode e deve servir de pretexto para a indignação sportinguista mas sem ter Gobern como alvo. Quem merece críticas é a RTP, que inclui há quatro anos na grelha regular do seu espaço informativo um programa de comentário futebolístico, intitulado Zona Mista, que apenas permite um adepto de cachecol. O do Benfica. À revelia das suas obrigações de serviço público que lhe impõem normas acrescidas de isenção, pluralismo e equidade. Como se uns cachecóis fossem mais iguais que outros...

A questão é só esta. E é quanto basta para merecer debate. E suscitar legítima indignação.

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Prognósticos depois do jogo

por Pedro Correia, em 12.03.12

 

Em matéria de prognósticos posso revelar aqui em rigoroso exclusivo a todos os eventuais interessados que o Sporting vencerá o difícil desafio da primeira mão contra o Manchester City dado que se encontra num excelente momento de forma demonstrando os seus jogadores muita ambição e querer e denodo e arreganho como aliás eu sempre disse. Prevejo mais ainda que essa vitória se concretizará por um golo sem resposta numa inegável confirmação de que Ricardo Sá Pinto foi a melhor escolha para o lugar anteriormente desempenhado pelo Domingos Paciência que não tinha o controlo do balneário e só os treinadores que conseguem conquistar o balneário são dignos de almejar as vitórias em campo e eu nunca ocultei que o Sá Pinto era a minha opção natural para o lugar do Domingos pessoa que aliás eu nem sequer nunca elogiei. E mais prevejo que essa vitória se materializará através de um fantástico tento do Xandão destinado a confirmar em Alvalade os magníficos dotes exibicionais que anteriormente o tinham notabilizado naquele clube brasileiro de que me falha agora o nome. E concluo este meu prognóstico vaticinando que o golo será marcado de calcanhar como fazia o Sócrates não o filósofo mas o médico atestando assim o atleta Xandão os extraordinários dotes de defesa-goleador que eu aliás sempre tive ocasião de enaltecer e que a massa adepta do Sporting tardava em reconhecer por não ter a rara intuição para detectar talentos que modéstia à parte é apanágio da minha humilde e brilhante pessoa.

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Azares

por José Navarro de Andrade, em 12.03.12

Os ex-jogador de futebol Philip Cocu é o novo treinador do PSV Eindhoven. Tal como Paulo Futre, creio que nunca conseguirá  fazer carreira num clube francês.

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Frases de 2012 (11)

por Pedro Correia, em 14.02.12

«Os cobardes morrem sós.»

Domingos Paciência, ex-treinador do Sporting

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O respeitinho é muito bonito

por Pedro Correia, em 01.02.12

 

"Há que reflectir sobre o paradigma deste futebol."

"A boa colocação das linhas virtuais permite-nos fazer a avaliação certa dos lances."

"O clube não conseguiu traduzir a intensidade do seu jogo."

"Há jogos com outra intensidade competitiva."

"Essa resignação pode ser uma projecção da falta de exigência mais acima e de uma liderança mais efectiva em termos de balneário."

"A equipa não tem níveis de coesão suficientes para introduzir um jogador tão jovem."

"Caiu numa zona de bloqueio da qual vai ter de sair."

"Tem de integrar-se na filosofia colectiva da equipa que representa."

"As grandes equipas da Europa conseguem atingir níveis exibicionais significativos."

"O conceito do treinador baseia-se numa marcação mais subida."

"Do ponto de vista do esqueleto táctico, a disposição no terreno faz sentido."

"São dois jogadores verticais que dão mais profundidade à equipa."

"O jogador X mostrou um ritmo baixo, mostrou alguns pormenores."

"Queremos contribuir para um futebol menos macrocéfalo."

"O futebol é uma lógica de conjunturas."

 

Perceberam?

Eu também não. É uma espécie de dialecto autónomo, só praticado por alguma gente da bola e que tem como principal cultor um jornalista televisivo capaz de rivalizar em fôlego com Fidel Castro, que em 1998 falou sete horas e um quarto sem parar na Assembleia Nacional cubana, ou Hugo Chávez, que no passado dia 14 discursou igualmente sem parar durante nove horas e meia no Parlamento de Caracas.

Quem não seja iniciado neste jargão muito particular dos "níveis exibicionais", do "esqueleto táctico" e da "intensidade competitiva" mantém-se totalmente à distância. Porque o dialecto acima transcrito, ao contrário da esmagadora maioria dos restantes, não foi criado para comunicar: existe para cavar um fosso deliberado entre o seu inventor e o comum dos mortais. A razão? Incutir respeito. Ou respeitinho, mais à portuguesa.

É uma receita infalível. Porque, em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem. E aqui entre nós: quem é que entende minimamente o que significa "filosofia colectiva", "zona de bloqueio", "jogadores verticais" e "marcação subida"?

O respeitinho é muito bonito.

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O longo ocaso de Queiroz

por Pedro Correia, em 02.10.10

Deco "apresentou-se no estágio do Mundial de forma miserável". A acusação, mais que tardia, vem da boca do ex-seleccionador nacional, Carlos Queiroz. O que diz muito do seu carácter - e também da sua incapacidade de liderança. Se Deco estava assim, compreende-se muito mal que tenha permanecido no estágio da selecção, que tenha viajado para a África do Sul e que tenha até alinhado a 15 de Junho como titular no primeiro jogo, contra a Costa de Marfim. Pior ainda: depois do fracasso nos relvados sul-africanos, Queiroz afirma agora que Portugal "não merece ganhar um Campeonato do Mundo" de futebol. Eu suspeitei disso mesmo em 2008, quando Gilberto Madaíl escolheu o ex-adjunto do United para treinador principal da nossa selecção. Muito antes deste seu longo ocaso, lamentável a qualquer título.

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Bateu no fundo

por Pedro Correia, em 09.09.10

 

Há dois meses, uma manchete do semanário Sol, no rescaldo imediato do Mundial da África do Sul, incendiou o País. "Tendo em conta a estrutura amadora da Federação, as coisas correram muito bem", desabafava o seleccionador nacional de futebol, sacudindo a água do capote: a prestação da turma das quinas nos relvados sul-africanos não fora além de uma previsível mediania e Queiroz ensaiava já uma segunda versão da célebre frase que proferiu em Novembro de 1993, ao falhar a qualificação para o Mundial dos EUA também como seleccionador português. "É preciso varrer a porcaria que há na federação portuguesa. Há muita coisa para mudar!", disse então, selando o seu destino. Numa situação e noutra, com 17 anos de diferença, a táctica era a mesma: descarregar responsabilidades. Desta vez, porém, houve uma pequena diferença: acossado pelos ecos da polémica, Queiroz procurou desmentir o que dissera, acusando a notícia do Sol de ser uma "desonestidade, uma vigarice, execrável, de uma baixeza que não tem limites".

Sendo as coisas o que são, e tendo nos últimos dois meses sucedido o que sucedeu, ninguém tem hoje a mínima dúvida de que aquelas palavras foram realmente proferidas, como na altura sustentou o jornal, contra as exclamações de dúvida do clube de fãs do seleccionador. Depois disso Queiroz disse muito pior, nomeadamente ao aludir à "cabeça do polvo" numa inenarrável entrevista ao Expresso em que pôs em causa a sanidade mental de Nani e revelou que Cristiano Ronaldo perderia a braçadeira de capitão sem ter falado previamente com o jogador. Para trás tinha ficado uma inaceitável agressão ao comentador Jorge Baptista, a mal explicada lesão de Nani e um acto de indisciplina de Deco que ficou impune. Em qualquer dos casos, o seleccionador esteve mal.

Nada que surpreenda excessivamente quem ande atento ao futebol. Queiroz tem protagonizado uma história de desencontros com federações ao nível das selecções A. Não só em Portugal. Em Março de 2002 foi afastado do cargo de seleccionador da África do Sul por ter entrado em ruptura com os dirigentes federativos locais - um caso que não tem sido devidamente recordado para ajudar a enquadrar melhor o lamentável processo que culmina agora com o seu despedimento pela FPF.

Há dois anos, quando retomou o cargo de seleccionador, praticamente todos os comentadores futebolísticos - com a notória excepção de Jorge Baptista - elogiaram a escolha do presidente da FPF, cumulando Queiroz de elogios. Houve mesmo quem confundisse análise com idolatria dizendo frases como esta: "Eu não duvido nunca das capacidades de Carlos Queiroz." E como esta: "É um treinador necessário a qualquer federação de futebol do mundo."

Agora, depois dos jogos contra Chipre e a Noruega, estas frases adquirem um tom de involuntária ironia, naturalmente digna de registo. O problema é que foi também por causa disto - desta falta de perspectiva crítica de certos comentadores com demasiada tendência para exibirem as suas relações de amizade - que o futebol português bateu no fundo. E tão cedo não se levanta.

Foto Record

ADENDA - Ler Dados para uma equação a várias incógnitas, de António Boronha.

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Lava mais branco

por Pedro Correia, em 06.09.10

O Tempo Extra das noites de domingo, na SIC Notícias, transformou-se num tempo de antena do ainda seleccionador nacional de futebol. Nunca isso se tornou tão evidente como esta noite, quando no rescaldo desse pesadelo que foi o Portugal-Chipre o comentador titular deste programa, Rui Santos, se revelou incapaz de pronunciar uma única frase de crítica a Carlos Queiroz, responsável pela convocatória para o jogo, como aliás acentou o seu adjunto, Agostinho Oliveira.

A culpa então foi de quem? Da conjuntura, diz Rui "do meu ponto de vista" Santos. Do secretário de Estado do Desporto. Dos jogadores, tanto a nível individual como colectivo. "Temos que responsabilizar os jogadores", referiu, autoritário. "Faltou maturidade no meio campo", anotou. "A defesa jogou muito subida, os da frente não defenderam", observou. "Há uma ausência de liderança dentro do campo", acentuou. "Os jogadores têm que acabar com a ideia de que a selecção nacional é um recreio, uma feira de vaidades", exclamou.

Rui Meireles? "Teve um jogo infeliz." Bruno Alves? "Não fez uma antecipação para ganhar a bola." Miguel? Fez um "péssimo jogo posicional." Danny? "Não consegue integrar-se no espírito de equipa."

Só?

Parece que sim, até porque "uma situação destas seria difícil para qualquer treinador" e "não há nenhum seleccionador que, sozinho, ganhe os jogos". Mas não haverá mesmo nada a apontar à equipa técnica - e a Queiroz em particular? Hum... Terá havido "hipotéticas falhas na orientação táctica do jogo", admitiu o comentador da SIC Notícias, em tom suave, sem esclarecer sequer se com estas palavras visava o seleccionador que esteve na bancada ou o adjunto que se sentou no banco. "Se calhar não foram bem pensadas as utilizações iniciais quer de Raul Meireles quer de Manuel Fernandes", concedeu ainda. Se calhar, hipotéticas falhas. E foi tudo.

O programa terminou de forma apoteótica, com as conclusões de um inquérito telefónico feito aos espectadores enquanto durava o programa: Carlos Queiroz é o nome mais indicado para presidir à Federação Portuguesa de Futebol. Talvez porque, como Rui "do meu ponto de vista" Santos sublinhou nos minutos iniciais deste Tempo Extra, "Carlos Queiroz pensa o futebol, em termos de organização, como poucos em Portugal."

Extraordinário: só faltou o hino nacional. Por mim, fiquei rendido.

 

ADENDA - Ler O porta-voz, de António Boronha.

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