Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

É um problema do País

Pedro Correia, 19.07.21

                                              1024.jpg

 

Somos esmifrados em impostos: a carga fiscal predomina nos combustíveis que consumimos. Hoje atingimos um novo máximo nesta matéria, tanto na gasolina como no gasóleo. Com preços a disparar e Portugal a reforçar o seu lugar no pódio europeu: só Holanda e Dinamarca pagam impostos sobre combustíveis ainda mais elevados - o que penaliza o cidadão comum, pois esta carga fiscal não distingue pobres de ricos.

Neste contexto, o ministro das Finanças ainda tem a suprema lata de dizer que este Governo não pratica "austeridade". Julgo que ele desconhecerá o real significado da palavra: só isso poderá abonar em sua defesa.

Perante tudo isto, o que faz o PSD? Rui Rio apresenta uma proposta de revisão constitucional e confia que o PS vai colaborar com ele. Seria quase cómico, se não fosse dramático: nenhuma democracia sobrevive sem uma oposição sólida e credível.

Esta ausência de alternativa a António Costa já não é só um problema do PSD: é um problema do País.

Com ele o PS anda descansado

Pedro Correia, 11.02.21

original.jpg

 

Teme-se o pior: Rui Rio anuncia ao País que entrou em reflexão. Sobre o quê? O presidente do PSD admite propor o adiamento das eleições autárquicas, que deverão ocorrer no próximo Outono.

Extraordinário. O hipotético "líder da oposição" procura, uma vez mais, fazer um frete aos socialistas. Parecendo querer perpetuá-los sine die à frente da maioria das câmaras municipais do País. O que não admira, vindo do mesmo dirigente político que «para evitar desgastar a imagem do primeiro-ministro» tomou a iniciativa de reduzir de 24 para seis o número de sessões anuais de fiscalização e controlo do Governo na Assembleia da República - o que logo mereceu o entusiástico apoio do PS.

Nada para admirar, vindo de quem ainda há dias proferiu esta espantosa declaração: «O Governo pode queixar-se de tudo menos do PSD. Não temos obstaculizado em nada.»

Desta vez, porém, Rio parece condenado ao fracasso. O PS apressou-se a declarar que não está disposto a adiar a data prevista para as eleições. Mostrando-se assim mais receptivo à rotação dos titulares do poder autárquico do que o dirigente máximo da alegada oposição.

Os socialistas têm muitos motivos de preocupação. Mas com Rio ainda à frente do PSD ninguém no partido do punho fechado padece de insónias: este "opositor" é o sonho de qualquer governo.  

Oposição mais fofinha não há

Pedro Correia, 04.02.21

1Q9A6910_1.jpg

 

O alegado "líder da oposição" é um caso de estudo. Num momento de evidente gestão caótica da pandemia, em que o Governo não cumpre uma das promessas feitas aos portugueses e falha todos os objectivos traçados, a principal preocupação de Rui Rio é não melindrar António Costa. Mesmo que o primeiro-ministro nem se preocupe em ocultar o imenso desprezo que sente por ele, como evidenciou na célebre entrevista ao Expresso, no Verão passado: «No dia em que a sua subsistência depender do PSD, este governo acabou.»

Quanto mais me bates, mais gosto de ti - parece suplicar Rio a Costa. Falando ontem aos jornalistas, nos Passos Perdidos da Assembleia da República, o presidente do PSD voltou a fazer um panegírico do seu suposto adversário: parecia falar mais como assessor do chefe do Governo do que como dirigente da oposição. «O primeiro-ministro não está a trabalhar 24 horas por dia, mas está a trabalhar muito, disso não tenho dúvida», declarou. Enquanto confirmava que a sua preocupação central é que Costa não fique a pensar mal dele: «O Governo pode queixar-se de tudo menos do PSD. Não temos obstaculizado em nada.»

 

Oposição mais fofinha não há. Este é o mesmo Rio que ainda há poucos dias se insurgia contra quem ousasse criticar a eventual precedência concedida ao primeiro-ministro no plano de vacinação. «Imaginemos que o primeiro-ministro do país ficava infectado e com sintomas e até tinha de ser hospitalizado, o que é que o País ganhava? Só perdíamos, não podemos estar com esta demagogia. A minha posição é fácil, para quem me conhece e está atento: eu discordo completamente da demagogia de não vacinar político nenhum.» E jurava que não recusaria a vacina para oferecê-la a um idoso e assim «fazer um brilharete».

Isto foi a 27 de Janeiro. Três dias depois, Rio acabou mesmo por «fazer um brilharete», declarando que o mandassem excluir de uma lista de 50 deputados pré-seleccionados para a vacina. Lá conseguiu assim o título noticioso que, na sua própria definição, o inclui no lote dos demagogos. Provavelmente nem reparou na contradição. 

 

Já vai sendo tempo de Costa lhe conceder a esmola de uma atenção. O pobre homem que se esforça a todo o momento para lhe agradar, que verte palavras de admiração pela capacidade de trabalho do primeiro-ministro, que se preocupa com a hipótese de ver o chefe do Governo infectado com COVID-19 e assegura que o Executivo «pode queixar-se de tudo menos do PSD», bem merece um ligeiro afago, uma palavrinha doce, um sorriso contrafeito. 

Não custa nada, António. Mostra lá ao Rui que afinal não o desprezas tanto assim.

Líder da oposição

Pedro Correia, 16.10.20

Ana-Gomes.png

 

O Governo, denotando um autoritarismo galopante que o leva a remover personalidades incómodas, como a anterior Procuradora Geral da República e o cessante presidente do Tribunal de Contas, quer agora pôr as polícias a invadir a intimidade das nossas comunicações móveis.

Com o ar expedito que já adoptou para insultar médicos e apoiar a recandidatura do presidente do Benfica, António Costa anunciou o uso obrigatório, em contexto estudantil e laboral (começando pelos trabalhadores da administração pública), de uma aplicação com nome "amaricano" que coloca cada cidadão sob escrutínio permanente das autoridades sanitárias, fornecendo metadados aos gigantes da tecnologia digital Apple (iOS) e Google (Android). Em nome da "geolocalização de infectados" - empestados e leprosos do século XXI.

Esta medida, inexistente na União Europeia, foi instituída pela ditadura chinesa. Cenário distópico - digno das páginas do 1984, de Orwell - tornado realidade a pretexto do combate à pandemia. A mesma ditadura que impõe testes clínicos a todos os súbditos numa cidade com 9,4 milhões de habitantes em apenas cinco dias, apenas porque ali surgiram seis casos de infecção com o novo coronavírus. Quem recusar, fica sob a alçada imediata da "polícia de vigilância e defesa do Estado".

 

Acontece que não vivemos em ditadura: a polícia portuguesa não existe para violar a privacidade de cidadãos pacíficos. Aliás o Tribunal Constitucional já chumbou a utilização dos metadados de telecomunicações pelos serviços de informações para prevenir actos de terrorismo. Nada autoriza o primeiro-ministro a assinar decretos por capricho autoritário, vulnerando direitos fundamentais: o Governo tem de submeter-se ao império da lei.

Felizmente a nossa democracia conta com uma oposição activa e enérgica. «É inconstitucional tornar obrigatória a app #StayAwayCovid: além da violação da privacidade num país em que a Comissão Nacional de Protecção de Dados não tem dentes, da ineficácia e da análise custo-benefício, equivaleria a consagrar a discriminação contra pobres e idosos mais vulneráveis. Espero que a AR chumbe o projecto-lei», apressou-se a opinar a líder da oposição.

Sem papas na língua, como sempre.

Um caso irrecuperável

Pedro Correia, 17.09.20

Rui-Rio.jpg

 

António Costa intromete-se na campanha eleitoral em curso no Benfica, violando o Código de Conduta que ele mesmo fez aprovar para o seu governo. A pandemia retoma o ritmo galopante em Portugal, regressando aos preocupantes números de Abril, quando o País estava sob estado de emergência. Uma remodelação governamental atira para fora do Executivo a secretária de Estado da Saúde sem uma palavra pública de justificação, desmentindo o primeiro-ministro quando há seis meses garantia que «não se mudam generais a meio da batalha» 

Enquanto isto decorre, o alegado "líder da oposição" mostra-se preocupado... em transferir a sede do Tribunal Constitucional para Coimbra.

Já não sei se é colaboracionismo conveniente, militância convicta pelo bloco central ou mera inépcia de quem não nasceu para isto.

Sei, isso sim, que estamos perante um caso irrecuperável.

Quase

Pedro Correia, 08.07.20

A democracia suspensa?

Pedro Correia, 04.07.20

imagem_imagem_1_ok_9.png

Foto: Mário Cruz / Lusa

 

Daqui a seis meses, os portugueses serão convocados às urnas para escolherem entre os diversos candidatos presidenciais. Enquanto o actual titular do cargo mantém um silêncio sepulcral sobre as sua provável recandidatura.

Mandaria a mais elementar transparência que Marcelo Rebelo de Sousa já tivesse deixado claro qual é a sua intenção nesta matéria, em vez de esperar pelos bitaites do primeiro-ministro, pertencente a uma família política diferente da sua. 

Do alto do pedestal em que as sondagens o colocam, Marcelo opta pela posição mais confortável: gere o silêncio até ao limite possível, condicionando toda a margem de manobra à direita do PS, e vai fazendo campanha sem se declarar candidato. O que pode ser divertido para ele mesmo mas não é salutar para a vida democrática.

 

Enquanto se desenrolam estes jogos de bastidores, só favoráveis ao actual inquilino do Palácio de Belém, Rui Rio rompe mais uma cura de silêncio, propondo agora o fim dos debates quinzenais na Assembleia da República - sede insubstituível de fiscalização e controlo do Governo. Alegando que «o primeiro-ministro não pode passar a vida em debates», algo de que nem o próprio António Costa alguma vez se lembraria

Com esta declaração em que parece advogar a suspensão da democracia, Rio comprova assim ter mais vocação para mordomo do chefe do Governo do que para "líder" da oposição. Alguém imagina o novo líder do Partido Trabalhista britânico, Keir Starmer, advogar o fim dos debates (semanais, não quinzenais) na Câmara dos Comuns para poupar maçadas a Boris Johnson?

 

ADENDA: Será que, na cúpula do PSD, não falam uns com os outros? No mesmo dia em que Rio faz estas declações absurdas contra o excesso de debates na AR, Paulo Rangel diz isto (no Expresso da Meia-Noite, da SIC Notícias): «Os governos, em democracia, estão sujeitos ao escrutínio democrático. E, quando há erros, apontar os erros não é ser antipatriótico.»

"Líder da oposição": procura-se

Pedro Correia, 09.06.20

20200608_221544-1.jpg

 

«Eu não estou aqui para dizer que tudo o que o Governo faz é mau.»

«Não estou a criticar nada.»

«Não estou a dizer que as medidas do Governo são boas ou más.»

«Algumas das medidas que o Governo apresenta até são iguais às nossas, penso que até eventualmente tiradas das nossas, porque nós apresentámos primeiro - o que está bem, não estou a criticar nada, bem pelo contrário.»

«É um bocado difícil fazer a comparação. Posso fazer a comparação medida a medida, e até algumas que estão nós também propomos...»

«O Governo tem lá, nas medidas deles, o mesmo objectivo [apoio à aquisição e fusão de pequenas e médias empresas]. Se depois é materializado da melhor maneira, isso é outra coisa. Estou a dizer uma coisa positiva.»

«Nós não somos o Governo. Nós não vamos fazer nem o orçamento suplementar nem o orçamento de 2021.»

«O PSD não vai inundar o orçamento suplementar com cem propostas. Poderá fazer algumas, poucas, simbólicas. Mas eu não vou depender [o voto de aprovação] porque [no Governo] acolheram esta ou aquela medida. Isto não é assim.»

«Se houver uma ou duas medidas com que não concordo, haverá outras com que concordo.»

«Eu tenho de fazer uma análise positiva [sobre a estratégia governamental de combate à pandemia]. É muito fácil dizer: "Falharam nisto e naquilo..." E se fosse outro, não tinha falhado? Estamos todos treinados a combater pandemias!»

«Houve erros? Claro que houve erros. E se estivesse lá eu também havia erros, como é lógico. Não sou o Super-Homem.»

 

Frases de Rui Rio, ontem, numa entrevista de meia hora ao Jornal das 8 da TVI

A pátria está em perigo

Pedro Correia, 12.05.20

32740628_24967237_WEB-1060x594-1539544480.jpg

 

A 15 de Abril, Rui Rio estabeleceu por escrito a doutrina oficial no PSD: quem entre os laranjinhas se atrevesse a criticar a gestão da actual crise pelo Executivo socialista cometeria o pecado de lesa-patriotismo. 

«Não raras vezes, aparecem os que não resistem à tentação de agravar os ataques aos governos em funções, aproveitando-se partidariamente das fragilidades políticas que a gestão de uma tão complexa realidade sempre acarreta. Em minha opinião, essa não é, neste momento, uma postura eticamente correcta. E não é, acima de tudo, uma posição patriótica», escreveu o presidente dos sociais-democratas em carta aos militantes.

Imagino que nem em sonhos António Costa tenha ousado alguma vez chegar tão longe, confundindo o Governo com a pátria.

 

Acontece que o sucessor de Passos Coelho não anda a seguir as directrizes que ele próprio estabeleceu. 

«Rui Rio critica aumentos na função pública», li há dias, com manifesta surpresa.

«Rui Rio critica apoios do Governo destinados à comunicação social», ouvi-o reclamar num telediário.

«Rui Rio critica Governo por dar mais dinheiro ao Novo Banco», atreveu-se ele, pisando claramente o risco.

Rui Rio critica até os ajustes directos promovidos pelo Ministério da Saúde no âmbito das medidas postas em prática para travar o Covid-19. Já chegámos a isto.

 

Começo a ficar preocupado. 

Um dia destes, Rio ainda acorda disposto a imitar o seu colega Pablo Casado - líder da oposição em Espanha e parceiro do PSD no Partido Popular Europeu - a disparar farpas contra a «arrogância, a incompetência e a ineficácia» do Executivo de Pedro Sánchez.

Ou lembra-se de parafrasear o novo dirigente máximo do Partido Trabalhista britânico, Keir Starmer, que denunciou na Câmara dos Comuns a «confusão» estabelecida pelo primeiro-ministro Boris Johnson no combate à pandemia.

Ou segue o rumo de Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, que contesta sem rodeios a «política errática» do Presidente Emmanuel Macron.

Ou - sabe-se lá - cede à tentação de endurecer o tom, imitando Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA e opositora de Donald Trump, que acusa o inquilino da Casa Branca de «deixar morrer» milhares de compatriotas. Ou até mesmo o ex-presidente norte-americano Barack Obama, que aludiu à gestão do seu sucessor, nesta crise pandémica, como «um caótico desastre».

 

Temo o pior. A pátria está em perigo.

O raspanete

Pedro Correia, 26.03.20

polc3adticos-rui-rio-foto-google-images-refc2aa-20

 

Em tempo de emergência, e não estando em funções o governo de unidade nacional que o ex-ministro socialista Marçal Grilo reclama, a oposição cumpre o seu estrito dever fiscalizando o Executivo e criticando-o, se for caso disso. Seja aqui, seja em qualquer outro país democrático. Aliás, não é preciso inventar nada: basta proceder agora, por exemplo, como fez o PS quando militou na oposição activa à coligação governamental PSD-CDS durante a grave emergência financeira que durou de 2011 a 2014.

Mas com Rui Rio investido no papel de "líder da oposição", o padrão altera-se. Este presidente do PSD continua a opor-se não ao Governo mas ao seu partido. Anteontem quebrou um prolongado silêncio para criticar duramente os seus deputados, dando-lhes um público raspanete. Porque assinaram a folha de presença e desapareceram, como fez o secretário-geral José Silvano na legislatura anterior? Não, porque se encontravam presentes no hemiciclo de São Bento, cumprindo a função para que foram eleitos.

«Tenho aqui um conjunto de senhores deputados que não deviam estar aqui e estão. E vou ser o primeiro a sair para dar o exemplo àqueles que aqui estão e não deviam estar.» Foi este o raspanete que Rio deu ao grupo parlamentar, com as televisões a registarem em directo e os socialistas a assistirem de poltrona. Como um menino queixinhas e birrento, abandonou a sala das sessões e deixou todo o hemiciclo atónito com esta desqualificação inédita aos seus deputados. Não aos "tenebrosos passistas", como Maria Luís Albuquerque, Luís Montenegro, Hugo Soares ou Miguel Morgado, que já não integram a bancada, mas por gente que ele escolheu.

 

É pena que Rio, tão indignado com os seus, não tenha reservado uma réstia dessa energia para se indignar contra a falta de condições dos hospitais públicos no combate à pandemia, cumprindo à risca o assumido lema de «colaboração com o Governo» que dias antes anunciara. Isto impediu-o, portanto, de questionar o primeiro-ministro sobre a grave carência dos meios de saúde pública no combate ao coronavírus: faltam médicos, faltam camas hospitalares nos cuidados intensivos, faltam ventiladores, falta equipamento de protecção individual. O que tem levado os profissionais de saúde a fazerem desesperados apelos a empresas para a oferta de máscaras e luvas. E agem assim por saberem melhor que ninguém o que lá se passa: neste momento, 8% do número total de infectados em Portugal com Covid-19 são profissionais de saúde.

«Continuam a chegar-me todos os dias vários relatos de médicos que trabalham sem condições mínimas de segurança, por falta de equipamentos básicos para todos os profissionais de saúde», denunciou o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, contradizendo o primeiro-ministro, que na fleumática entrevista ao Jornal das 8 da TVI, segunda-feira, garantira sem hesitar: «Até agora não faltou nada e não é previsível que venha a faltar o que quer que seja.»

Para Rui Rio, nada disto parece importar. Daí que ninguém se admire ao vê-lo protagonizar o passatempo habitual deste partido: fazer oposição a si próprio. O país real, como de costume, vai passando ao lado.

A "direita" a medir pilinhas

Pedro Correia, 28.01.20

Clube-do-Bolinha---capa_1[1].jpg

 

Transição acelerada em marcha-atrás: depois de ter sido liderado pela primeira vez por uma mulher, Assunção Cristas, o CDS acaba de afugentá-las dos seus órgãos directivos. No congresso de Aveiro, imperou a tendência testicular: um presidente, sete vice-presidentes, um secretário-geral e um coordenador-autárquico. Todos homens. Na Comissão Política Nacional, com 59 membros, só seis mulheres. Eis como as aparências iludem: mal se começa a raspar o verniz da novidade, algo muito velho surge à tona.

Este CDS insuflado de androfilia pode regredir em ritmo ainda mais acelerado: basta que o novo líder, Francisco Rodrigues dos Santos, ceda à tentação de empurrar para fora da Assembleia da República a actual líder parlamentar, Cecília Meireles, para ascender ele próprio - ex-número dois da lista do Porto, encabeçada por Cecília nas legislativas - à condição de deputado. Se assim acontecer, o Largo do Caldas amanhecerá travestido de Clube do Bolinha, entre hossanas ao marialvismo mais serôdio.

Rio, Ventura, Cotrim e o recém-surgido Chicão vão passar os próximos dois anos a medir pilinhas, evitando perturbar o sossego do Governo. António Costa descontrai e boceja: Assunção Cristas, única dirigente da oposição que o irritava até às entranhas, saiu de cena e já não lhe causa incómodo. A chamada "recomposição da direita" produz nele um efeito conjugado de valeriana com camomila. Nada mais relaxante para um socialista.

Fora da caixa (29)

Pedro Correia, 11.10.19

8172397_rES28[1].jpg

 

«A estratégia de uns não é isolada. Conta também a estratégia dos outros, que são os adversários e também têm a sua estratégia para ganhar.»

David Justino, ontem, em entrevista à RTP 3

 

Vi ontem, com atenção e alguma comiseração, uma entrevista concedida à RTP 3 por David Justino, antigo ministro da Educação e actual braço direito de Rui Rio. A comiseração deveu-se ao facto de este estratego-mor da direcção laranja ter implorado pela enésima vez a necessidade de haver «entendimentos alargados» com o partido do Governo.

Natalidade, impostos, descentralização: eis três áreas concretas que integram o conjunto das preces de Justino aos socialistas. «Estes problemas, para nós, são fundamentais e sabemos de antemão que só são concretizáveis se houver um entendimento alargado com várias forças políticas, em especial com o maior partido do Governo», declarou o vice-presidente do PSD no seu léxico muito peculiar. No preciso momento em que António Costa, como decorre da lógica natural das coisas, estabelece pontes com todos os partidos à sua esquerda, ignorando olimpicamente os desesperados apelos emanados da Rua de Santana à Lapa.

Na entrevista ao canal público, muito bem conduzida pela jornalista Cristina Esteves, Justino chegou ao ponto de entoar este madrigal a Costa: «Após quatro anos a distribuir rendimento, com sacrifício de investimento público e de crescimento económico, é natural que as pessoas não tenham razões objectivas para mudarem a sua opção de voto. Estes quatro anos, de alguma forma, correram bem à "geringonça".»

Com toda a franqueza, mal consigo distinguir esta "oposição" do Executivo socialista.

É este um líder da oposição?

Pedro Correia, 09.07.19

hugo_delgado58057ced[1].jpg

 

 

1. Elogios ao Governo (do PS):

«O produto interno bruto cresceu, nestes quatro anos, cerca de 30 mil milhões.»

«Têm sido criados empregos.»

«As taxas de crescimento que nós temos não são muito diferentes das do PS: são um pouquinho acima.»

 

2. Críticas ao Governo (do PSD/CDS):

«No tempo da tróica, o que é que se fez? Cortes nos salários, cortes nas pensões, cortes na despesa. Porque, ao mesmo tempo, já se estava a aumentar os impostos.»

«Inventaram-se os vistos gold, que eram uma espécie de exportação de casas, sendo que a mercadoria fica cá e não é exportada...»

 

3. Dúvidas existenciais:

«Eu estou em Lisboa pelo menos três dias por semana. E não quer dizer que nos outros dias esteja no Porto.»

«Podem duvidar se eu sou capaz, se o PSD é capaz. Isso, podem duvidar.»

«O apego pessoal que eu tenho ao lugar [de presidente do PSD] não é nenhum.»

 

Rui Rio, ontem à noite, em entrevista ao principal telediário da TVI conduzida por Miguel Sousa Tavares e Pedro Pinto

A política não é para aprendizes

Pedro Correia, 05.05.19

Os partidos da oposição - com destaque para o PSD - acabam de oferecer a António Costa o melhor dos troféus: o da responsabilidade orçamental, demarcando-o da esquerda que ainda não aprendeu a fazer contas.

No actual contexto de campanha eleitoral para as europeias, confrontado com sondagens pouco animadoras, Costa precisava com urgência de surgir aos olhos dos portugueses como um dirigente moderado e "centrista". PSD e CDS fizeram-lhe a vontade numa farsa em dois tempos com epicentro na Assembleia da República: na sexta-feira, uniram-se à esquerda radical na questão da contagem do tempo de serviço dos professores; ontem e hoje, acossados por Costa e certamente pressionados pelo Presidente da República, saltaram dessa carruagem, desautorizando os seus deputados e dando de si próprios uma imagem de penosa incompetência. Enquanto Pires de Lima, ex-braço direito de Paulo Portas no CDS, se atira a Assunção Cristas, personalidades do PSD como Pedro Duarte e Luís Montenegro não poupam nas justas críticas a Rui Rio. E Marques Mendes, na SIC, acaba de reconhecer o óbvio: «António Costa teve talvez a melhor prestação desde que é primeiro-ministro.»

A política não é para meninos. Nem para aprendizes.

A oposição

Pedro Correia, 07.12.18

tomada_de_posse_xxi_governo_376356c8ce[1].jpg

 

Reparem em quem causou maior mossa a António Costa no último mês. Terá sido alguém da oposição? Nem por sombras. Foi o líder parlamentar do PS ao promover um levantamento de rancho da sua bancada contra a ministra da Cultura, incondicional de Costa e protegida do primeiro-ministro. Carlos César não hesitou em partir praticamente ao meio o grupo parlamentar socialista para encostar às cordas a ministra a propósito da pseudo-superioridade civilizacional dos cidadãos urbanos que detestam touradas, forçando o Executivo a baixar para a taxa mínima do IVA os ingressos em espectáculos tauromáquicos.

Isto, repito, foi a maior contrariedade sofrida pelo chefe do Governo neste último mês, marcado pela discussão parlamentar do Orçamento para 2019. A oposição, encabeçada por Rui Rio, foi dócil e branda: aliás passou o tempo a lamber as feridas, pois afogou-se em trapalhadas devido ao escândalo dos deputados que marcaram presença nas sessões parlamentares mesmo quando estavam a centenas ou milhares de quilómetros de distância, só para empocharem a espórtula diária que a lei lhes confere.

Está nisto, a oposição: totalmente inane. Já repararam no sorriso de Costa, cada vez mais rasgado?

O idílio entre Rio e Costa

Pedro Correia, 14.08.18

img_818x455$2017_10_11_14_07_05_675918[1].jpg

 

Monchique ardeu. A maior mancha vegetal do Algarve - com as actividades económicas que lhe estavam associadas, da criação do porco preto à apicultura, passando pelo cultivo do medronho - ficou em larga escala reduzida a cinzas durante oito dias dramáticos: foi até agora o maior incêndio florestal do ano em toda a Europa.

O Governo voltou a revelar a inabilidade que o caracteriza nestes assuntos. No início de Junho, o primeiro-ministro escolhera precisamente a Serra de Monchique para garantir ao País que todos os meios operacionais estavam a postos para salvaguardar novos desastres ambientais, gabando o «trabalho extraordinário» que ali estaria a ser feito.

No final de Junho, falando cedo de mais na sequência da mais fresca Primavera registada em Portugal neste século, o ministro da Administração Interna não resistiu a proclamar que havia menos 71% de área ardida este ano - «graças a Deus, à meteorologia, a Protecção Civil, às câmaras e às entidades de segurança», não necessariamente por esta ordem.

Já com Monchique calcinada, o chefe do Governo voltou a pronunciar-se em termos inaceitáveis, utilizando a palavra  «sucesso», que nem o mais desbragado propagandista de turno à geringonça teve a ousadia de aplicar perante as dolorosas imagens que nos iam chegando nesses dias.

Sabe-se hoje que no preciso local onde começou o incêndio de Monchique não havia plano de intervenção florestal: este projecto estruturante aguardava luz verde por questões burocráticas. O que tornou tudo ainda mais chocante.

 

Matéria mais que suficiente para a intervenção do maior partido da oposição? Claro que sim. Mas onde andou Rui Rio? Ninguém sabe.

O presidente do PSD não se dignou comparecer no Algarve envelhecido, pobre e esquecido, no Algarve do interior rural e serrano de que Monchique é por estes dias um pungente símbolo.

Nem uma palavra de conforto, nem um gesto de solidariedade e amparo às populações flageladas pelo fogo: não lhe ouvimos o mais vago sussurro. Nem um leve reparo nem sequer um tímido franzir de sobrolho perante a desastrada actuação do Executivo, reincidente na insensibilidade perante as desprotegidas populações do interior.

É uma estranha forma de "liderar" a oposição, enquanto o primeiro-ministro - certamente não por acaso - escolhe esta mesma ocasião para demonstrar uma calorosa palavra de apreço ao PSD.

O idílio entre Rio e Costa está no ar. A tal ponto que apetece perguntar se existe neste momento oposição ao Governo em Portugal.

Um sorridente acto de vassalagem

Pedro Correia, 19.04.18

img_3054_770x433_acf_cropped[1].jpg

 Foto: João Porfírio/Observador

 

«Para mim, pessoalmente, no dia em que faz dois meses em que tomei posse como presidente do PSD, posso fazer um balanço positivo por, ao fim de 60 dias, ter já estes dois acordos assinados com o Governo.»

Palavras de um sorridente Rui Rio, parecendo viver ontem o mais feliz dia do seu curto mandato como "líder da oposição", que tem passado a cortejar António Costa e a prestar bons serviços ao Governo.

 

Nesta quarta-feira prestou mais três: ao assinar dois "pactos de regime", sobre descentralização e gestão dos fundos europeus, com o primeiro-ministro na residência oficial de São Bento e ao ter aceitado agendar este acto de vassalagem a meio da semana previamente designada pelo seu partido para fazer o diagnóstico do sector da saúde em Portugal e no próprio dia em que a bancada social-democrata no Parlamento interpelava o Governo sobre o mesmo tema, que tanto preocupa os portugueses.

Como seria de supor, estas iniciativas foram totalmente ofuscadas pela operação de marketing conduzida por Costa, com a risonha anuência daquele que só por ironia ainda pode ser chamado "líder da oposição".

 

Em política, os símbolos contam muito. O facto de os acordos subscritos por Rio terem sido celebrados na sede do Governo e não no Parlamento, certamente por amável indicação do primeiro-ministro, demonstra bem quem dita as regras. Entretanto, durante a inútil abordagem às questões da saúde na sala das sessões da Assembleia da República, o líder parlamentar social-democrata geria mal o tempo da sua intervenção e mendigava "trinta segundos" suplementares à própria bancada do Governo.

Em suma: um dia memorável para Costa. Já com a esquerda extrema no bolso, demorou apenas dois meses a dobrar o "novo" PSD e vê a oposição circunscrita ao CDS. Governa, na prática, com a mais alargada maioria de sempre na democracia portuguesa.