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Sobre a greve pelo clima

por Paulo Sousa, em 01.10.19

Com a devida vénia a estes senhores que vinte anos depois continuam actuais. Souberem captar o espírito dos estudantes e das suas motivações. Reparem só na letra:

Escola boa, escola má
Quem está livre, livre está
Passará, não passará
E quem não passa fica cá

Ficam cá os radicais
Violentos marginais
Que se baldam às propinas
E às provas globais

E é uma fezada
A escola está fechada
Hoje há manifestação!
Aulas não! Aulas não!

E é p'ra palhaçada
A malta está animada
Pode vir a intervenção
Que nós estamos cá para...

Copiar o TPC,
Estudar livros de BD,
Decorar o pavilhão
P'ra festa da associação.

No pátio da C+S
Estudar nunca apetece
E no bar da faculdade
Vai-se o resto da vontade

E é uma fezada
A escola está fechada.
Hoje há manifestação
Aulas não! Aulas não!

E é p'ra palhaçada
A malta está animada
Pode vir a intervenção
Que entramos noutra dimensão

Bué da baldas
Bué da baldas
Bué da baldas

Bué da baldas
Bué da baldas
Bué da baldas

Muita falta, muito estrilho
Muito chumbo, que sarilho
Já mandaram os postais
Para a reunião de pais

Bué da baldas, muita nega
Bué da Mega Drive da Sega
Entrei noutra dimensão
Bué da faltas, aulas não

E é uma fezada
A escola está fechada
Hoje há manifestação
Aulas não! Aulas não!

E é p'ra palhaçada
A malta está animada
Pode vir a intervenção
Aulas é que não!

E é uma fezada
A escola está fechada
Hoje há manifestação
Aulas não! Aulas não!

E é p'ra palhaçada
A malta está animada
Pode vir a intervenção
E entramos noutra dimensão

Bué da baldas
Bué da baldas
Bué da baldas

Pra salvar o planeta
E às aulas baldar
Até escutamos a Greta
Ao Guterres ralhar

Foi de barco a bolinar
Veio de avião a planar
Para fuel poupar
E pró mundo não acabar

(modesta adenda em itálico deste fã dos Despe e SIga)

 

A ONU a rir-se.

por Luís Menezes Leitão, em 26.09.18

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Acho inacreditável que uma assembleia geral da ONU se permita rir do Presidente dos Estados Unidos, sabendo-se que é esse o país que sustenta a organização e que pode muito bem cortar a sua contribuição. A assembleia geral deveria respeitar quem lhe paga e ouvir atentamente os discursos, como se espera num forum internacional. Desde o tempo de Ronald Reagan que estou habituado a o resto do mundo considerar os presidentes republicanos como imbecis e idiotas. Quando são democratas, já são uns génios, mesmo no caso da desastrada presidência de Carter, que até permitiu reféns americanos no Irão. Ninguém consegue perceber que, se o presidente americano fosse um imbecil, nunca teria chegado a presidente dos Estados Unidos. E quanto a rir-se de Trump, muitos o fizeram durante as eleições americanas. Viu-se o resultado.

A leviandade jornalística

por Alexandre Guerra, em 07.06.18

Lia-se esta Quinta-feira um título no Observador que dizia o seguinte: “Militares portugueses acusados de ‘crimes contra a humanidade’ na República Centro Africana.” Uma informação destas, pela sua gravidade, levou-me a ler a notícia de imediato e, curiosamente, constatei que, afinal, aquele título, além de enganador, é pouco condizente com o que está, efectivamente, escrito no texto. Por um lado, ainda bem, já que mantém intacta a reputação de elevado profissionalismo que os militares portugueses têm demonstrado nas várias missões internacionais que têm desempenhado, seja sob a badge da ONU, da NATO ou da UE. Por outro lado, não percebo a razão que levou o jornalista a optar por um título que, de certa maneira, está muito pouco (ou nada) “defendido” e que poderia afectar, injustamente, a reputação daqueles soldados ao serviço da MINUSCA, e que não reflecte o espírito daquilo que a notícia objectivamente diz. Além disso, ao enfatizar em título “crimes contra a humanidade”, está-se a empolar um dos mais hediondos crimes que pode ser praticado por um ser humano.

 

Mais à frente no texto percebe-se de onde vem o “crimes contra humanidade”. Vou limitar-me a transcrever a passagem, porque vale a pena perceber a “credibilidade” (ou falta dela) da “fonte” e a leviandade com que se propagam estas coisas: “Nas imagens postas a circular nas redes sociais são visíveis largas centenas de pessoas (os testemunhos diretos falam em 20 mil) que participam numa marcha, algumas das quais empunhando bandeiras da RCA e de França. À frente do cortejo, numa faixa branca, lê-se: 10 de abril de 2018 no PK5 (Bangui) e 30 de maio de 2018 em Bambari, os contingentes ruandês e português da MINUSCA [a missão das Nações Unidas no país] cometeram graves crimes contra a humanidade”. Sim, o leitor leu bem. A “fonte” é o que está escrito numa faixa durante um cortejo de contestação de populares e daí parte-se, imprudentemente, para o título: “Militares portugueses acusados de ‘crimes contra a humanidade’ na República Centro Africana.”  

 

É verdade que no já longo histórico das missões militares internacionais, sobretudo aquelas sob comando da ONU, têm acontecido alguns episódios poucos dignos e, nalguns casos mesmo, de atrocidades e violações de direitos humanos. Por vezes, por acção, noutras situações, por omissão. Situações que têm afectado em particular a reputação da ONU e que o Secretário-Geral Antonio Guterres definiu como prioritárias no seu mandato. Perante isto, qualquer pessoa conhecedora minimamente do que tem sido as missões dos "capacetes azuis", sejam elas de “ peace enforcement” ou de “peacekeaping”, terá sempre que admitir a possibilidade de existirem eventuais abusos no terreno por parte das forças internacionais estacionadas em determinado palco de operações.

 

Ora, a questão é que dificilmente se acredita que os militares portugueses possam ter cometido os crimes de que são acusados na tal “faixa” e replicados no título da notícia do Observador. Na verdade, e atendendo à complexidade do teatro de operações na República Centro Africana, e ao que se vai sabendo, a actuação das forças portugueses tem sido de enorme competência e profissionalismo, à semelhança, aliás, do que tem acontecido noutros palcos de conflito. Daquilo que se lê (e vê) na própria notícia do Observador, e também do conhecimento teórico que se tem daquele conflito e das dinâmicas vis da região, mais facilmente se acredita na manipulação e instrumentalização das populações indefesas, através da intimidação (prática muito comum nestes cenários) e da contestação artificial, servindo interesses de determinados grupos. As reacções oficiais do Estado-Maior General das Forças Armadas e da ONU vão nesse sentido.

 

É claro que este tipo de notícias remete-nos para uma outra questão que tem a ver com a “morte” da reportagem de guerra. Porque, na verdade, tendo em conta a presença de um contingente significativo de militares portugueses num palco tão complicado, como é a República Centro Africana, o que as redacções já deveriam ter feito há algum tempo era ter enviado jornalistas para o “terreno”, de modo a fazerem reportagem a sério, trabalho de investigação e apuramento de factos.

Ler os sinais

por Rui Rocha, em 06.10.16

Nas últimas décadas, os dois chefes de governo portugueses que abandonaram funções quando o país se encontrava em situação difícil assumiram, mais cedo ou mais tarde, importantíssimos cargos nas mais relevantes organizações internacionais. Os que por cá ficaram, em contrapartida, acabaram por conformar-se com posições comparativamente menores e houve mesmo um que esteve preso. A bem do país, era bom que António Costa se apercebesse disto o mais rapidamente possível.

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Para aqueles que vivem isolados de formas de vida pubescentes, uma breve nota prévia: o fenómeno Twilight consiste numa saga livresca adaptada ao cinema cuja história, em traços gerais (aqueles que a saga merece), se resume a um jovem vampiro e a um jovem lobisomem que se digladiam pelo coração de uma rapariga apática e sem graça nenhuma. Foi um fenómeno de audiências intenso e à escala planetária. A legião de meninas adolescentes que acompanharam a saga divide-se, portanto, em dois bandos: a Team Edward, que torce pelas ambições amorosas do vampiro; e a Team Jacob, que apoia os sonhos românticos do lobisomem. Ambos os bandos são de um fanatismo implacável, onde qualquer concessão ao adversário é entendida como uma traição imperdoável. Foi dos fenómenos populares mais profundamente imbecis dos últimos vinte anos.

 

O processo de selecção para o cargo de Secretário-Geral da ONU foi uma espécie de Twilight dos crescidos e, finda a saga, parece que ganhou a Team Guterres. Julgo ser um bom desfecho. António Guterres tem um perfil mais do que adequado ao desempenho da função em apreço. As suas prestações nas diversas rondas de avaliação foram quase sempre notáveis e, gostando-se ou não, a verdade é que António Guterres não só domina tecnicamente os assuntos, como demonstrou ter pensamento próprio sobre o sistema das Nações Unidas. Foi um excelente candidato, merecedor de todos os louvores. E, claro, como somos portugueses, ficamos sempre muito satisfeitos quando um patrício singra no estrangeiro.

 

Porém, apesar de meses de paixões arrebatadas e de críticas encarniçadas, nenhum apoiante ou detractor se deu ao trabalho de explicar a importância do cargo ao qual António Guterres era candidato. Tal como a saga Twilight ignorou por completo o folclore e a tradição literária do género, de Bram Stoker a Alexandre Dumas, passando por Oscar Wilde ou Robert Lewis Stevenson, o debate sobre a eleição de um novo Secretário-Geral da ONU ignorou, pelo menos em Portugal, temas prementes como a reforma do sistema da ONU, a representatividade do Conselho de Segurança, os procedimentos da Assembleia Geral, os limites da polémica R2P, as sérias debilidades das missões de 'Peacekeeping', entre outros assuntos. No espaço público português, este processo foi um deserto onde as ideias foram obliteradas pelas emoções. E agora que a vitória de António Guterres é um facto, a Team Guterres, embevecida, insiste no tom de candura juvenil e disparatada, defendendo que, por exemplo, a eleição deste nosso compatriota é na verdade um reconhecimento da enorme relevância de Portugal no mundo. Se a racionalidade não acompanhou o processo de selecção, agora que temos novo Secretário-Geral o registo do debate público continua pobre e fanático. Mas enfim, o que interessa é que o nosso galã ganhou. E, já agora, a miúda dele é muito mais gira do que aquele pãozinho sem sal dos filmes.

Mérito de Guterres, naturalmente

por Pedro Correia, em 06.10.16

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A ridícula manobra de última hora, patrocinada por Berlim, de lançar uma vice-presidente da Comissão Europeia de nacionalidade búlgara para travar a candidatura de António Guterres a  secretário-geral da ONU demonstrou que a Alemanha continua a ter um papel na política internacional muito inferior à sua relevância na economia.

A manobra foi canhestra a vários títulos. Desde logo pela aparente incapacidade da Comissão Europeia em perceber que Guterres, enquanto ex-primeiro-ministro de um país membro da UE e candidato oficial do Estado português, já representava o espaço geográfico europeu. Depois por introduzir uma segunda búlgara no processo, sob o demagógico pretexto de corrigir uma histórica desigualdade de género na liderança das Nações Unidas, sem que a primeira candidata – Irina Bokova, secretária-geral da Unesco – tivesse anunciado a desistência.

 

Enfim foi possível perceber que a própria Kristalina Georgieva – comissária europeia com os pelouros do Orçamento e Recursos Humanos – acreditava pouco ou nada no sucesso da sua própria candidatura: lançou-se para Nova Iorque mantendo um pé em Bruxelas, limitando-se a solicitar uma  licença sem vencimento de um mês à Comissão Europeia, logo autorizada por Jean-Claude Juncker.

Acresce que na audição informal prestada esta semana perante os membros da Assembleia Geral da ONU, exprimindo-se num inglês pouco menos que sofrível, Georgieva viu-se em apuros quando o representante diplomático de Kiev a questionou sobre a crise ucraniana: limitou-se a balbuciar umas inanidades que evidenciaram a sua impreparação para o cargo. O ex-eurodeputado português Mário David, que integrava a sua lista de apoiantes, devia ter-lhe dado recomendações suplementares, evitando que a comissária búlgara fizesse tão lamentável figura.

 

Ouvi durante toda a tarde de ontem vozes a proclamar que “a diplomacia portuguesa está de parabéns”.

Temos este costume atávico de diluir o mérito individual num anódino embrulho colectivo. Discordo, pois: o mérito cabe por inteiro a Guterres, político experiente e candidato sem anticorpos, que superou com distinção o mais complexo processo de escolha para secretário-geral desde sempre ocorrido nas Nações Unidas. Exprime-se com fluência em vários idiomas, conhece por dentro a pesada máquina institucional da ONU por ter sido durante uma década alto-comissário da organização para os refugiados. E soube resistir com fleuma a todas as pressões, incluindo as deselegantes declarações do secretário-geral cessante, Ban Ki-moon, que fez campanha pela neozelandesa Helen Clark e pela costarriquenha Christiana Figueres – altas funcionárias da ONU – sob o pretexto de que o cargo devia passar a ser exercido por uma mulher.

 

Mérito dele, pois. Por muito competentes que sejam os nossos circuitos diplomáticos, e por maior que tenha sido o voluntarismo do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, incansável apoiante de António Guterres apesar de ter sido seu adversário político, jamais conseguiriam promover o candidato se o ex-primeiro-ministro socialista revelasse a mediocridade demonstrada pela comissária búlgara. Que o diga a diplomacia germânica, reduzida à insignificância entre os gigantes do Conselho de Segurança ao longo deste processo: do querer ao poder às vezes vai um passo demasiado longo.

Um trabalhinho para o engenheiro Guterres

por Inês Pedrosa, em 06.10.16

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As sauditas iniciaram há 90 dias uma campanha no twitter, sob a hashtag #StopEnslavingSaudiWomen, tentando acabar com a prisão masculina a que estão sujeitas para absolutamente tudo, incluindo tratamento médico. Sim, se o "guarda" de uma mulher da Arábia Saudita decidir proibir-lhe a assistência médica, tem esse direito. A Arábia Saudita prometeu na ONU acabar com o sistema de "guarda masculina" para as mulheres em 2009, depois em 2013. Agora atira esse projecto para 2030, e as sauditas fartaram-se de viver nesta hedionda escravatura e iniciaram a corajosa campanha sobre a qual escrevi aqui 

Espero que o novo secretário-geral da ONU use o seu poder e as tais qualidades extraordinárias que dizem que ele tem para pôr fim a esta ignomínia. Se o conseguir, talvez eu consiga encontrar-lhe atenuante para o desprezo que mostrou pela saúde reprodutiva das portuguesas, em 1998, quando substituiu a lei da interrupção voluntária da gravidez aprovada no Parlamento por um referendo que prolongou por mais dez anos o drama da mutilação e morte por aborto clandestino em Portugal.

Cantemos!

por Rui Rocha, em 05.10.16

For he's a Jolie good fellow,
For he's a Jolie good fellow,
For he's a Jolie good fellow,
And so say all of us.

Muito pouco cristalino!

por Luís Menezes Leitão, em 05.10.16

Afinal um processo que eu sempre julguei ser cristalino, revelou-se muito pouco cristalino, sendo até profundamente opaco. Nunca me passou pela cabeça que a Comissão Europeia fosse envolver a sua vice-presidente numa corrida à ONU, com o apoio declarado da Alemanha, sem que a vitória estivesse assegurada à partida. Mas afinal parece que a Kristalina Georgieva não soube aproveitar da licença sem vencimento de um mês que tão generosamente lhe foi concedida. Regressa assim rapidamente ao cargo de origem, depois de uma frustrada experiência de poucos dias em Nova Iorque. Confirma-se afinal a regra dos comissários europeus: só assume essas funções quem não consegue ter sucesso político em lugar nenhum. Tudo normal, portanto.

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Não se esqueçam de avisar a Merkel e o David

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.10.16

Today after our sixth straw poll we have a clear favourite and his name is António Guterres,” the Russian UN ambassador, Vitaly Churkin, told reporters with his 14 council colleagues standing behind him.

We have decided to go to a formal vote tomorrow morning at 10 o’clock, and we hope it can be done by acclamation.”

Então e a outra?

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.10.16

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Guterres - 13, abstenções - 2, votos contra - 0. Venha a próxima.

O arranjo floral

por João Campos, em 05.10.16
 

Se a memória não me falha, só na ficção científica vi o Secretário Geral das Nações Unidas ter alguma importância prática: foi em Childhood's End, romance de 1953 de Arthur C. Clarke. Logo na primeira parte do livro, a Terra recebe a inesperada visita de uma civilização alienígena que estaciona sobre as principais cidades do planeta naves colossais; o líder aparente dos Overlords escolhe o Secretário Geral da ONU como porta-voz da Humanidade, e é através dele que os extraterrestres comunicam à Humanidade o seu propósito, assim como a intenção de só após 50 anos ser revelada ao mundo a forma física dos visitantes. Fora do livro e da ficção científica, sempre tive a sensação de que o cargo é mais ou menos equivalente a uma jarra sobre um naperon, ou, se quisermos ser um bocadinho menos kitsch, a um arranjo floral no centro da mesa dessa relíquia da ordem emergente do pós-Segunda Guerra Mundial que é o Conselho de Segurança (que, por obsoleta que possa ser, é onde está de facto o poder). Sim, seria porventura simpático que Guterres se tornasse nesse arranjo floral, mas dado o cargo e dada a personagem, não há nesta eleição peculiar nada que mereça grande exaltação patriótica. 

 

(de qualquer forma, podemos ficar sempre com a imagem mirabolante que seria uma civilização alienígena não hostil a fazer o mítico "primeiro contacto" com Guterres)

до свидания, António Guterres!

por Luís Menezes Leitão, em 05.10.16

A Rússia está a declarar que apoia uma mulher do Leste para a ONU. Conforme escrevi aqui, tratava-se de algo mais do que previsível, levando a que Guterres tenha acabado de ouvir em russo o adeus – до свидания (Dasvidanya) – à sua candidatura. Mas na verdade a sua candidatura estava morta à nascença, porque António Guterres tem dois graves pecados originais: nasceu rapaz e ainda por cima na freguesia de Santos-o-Velho em Lisboa. Trata-se de duas situações que ele não pode alterar e que o tornam absolutamente inapto para um cargo que neste momento é  reservado a mulheres da Europa do Leste. Até agora ainda ninguém se tinha apercebido disso?

Cristalino!

por Luís Menezes Leitão, em 29.09.16

Acompanhei com bastante cepticismo a euforia nacional em torno do "sucesso" da candidatura de António Guterres à ONU, expressa em sucessivas votações. Sempre achei que essas votações não serviam absolutamente para nada, uma vez que a Realpolitik é que iria decidir quem iria ser o Secretário-Geral da ONU. E, por isso, a figura dos candidatos a responder a interrogatórios sucessivos "para inglês ver" é perfeitamente patética.

 

Neste momento, por razões geopolíticas, está assente que o próximo secretário-geral da ONU deverá vir da Europa Oriental e que deverá preferentemente ser uma mulher. Não faz por isso qualquer sentido esperar que um homem da Europa Ocidental possa ganhar a eleição. Mesmo que ganhe todas as votações, haverá sempre um veto de um membro permanente a inviabilizar a ascensão ao cargo. E não vale a pena falar em violação às regras democráticas: a ONU não é uma democracia já que, se o fosse, não haveria direito de veto.

 

A questão tem paralelo com o que se passou com o austríaco Kurt Waldheim em 1981. Tendo sido indiscutivelmente um bom secretário-geral da ONU, cumpriu dois mandatos à frente da organização com o agrado geral. Quando se tentou recandidatar a um terceiro mandato, surpreendentemente surgiu o veto da República Popular da China. Era o único país que se opunha à reeleição, pelo que Waldheim insistiu. 16 vezes se apresentou a votos e 16 vezes a China o rejeitou. A justificação para o veto foi apenas esta: Waldheim fora um excelente secretário-geral, mas em 35 anos da organização esse cargo fora ocupado durante 25 anos por homens do ocidente. Agora a China queria um secretário-geral oriundo do terceiro mundo. E assim Waldheim acabou por retirar a sua candidatura, tendo sido eleito o peruano Javier Pérez de Cuellar, que teve um mandato sem qualquer brilho à frente da organização.

 

Portanto, não vale a pena os nossos políticos fazerem de virgens ofendidas, e proclamarem a sua indignação pela entrada na corrida de Kristalina Georgieva, que já se percebeu muito bem que vai ser a escolhida. Aliás, já se sabia desde o início que, a bem ou a mal, o próximo secretário-geral será da Europa do Leste. Um dos maiores problemas actuais na esfera internacional é a ascensão da Rússia, e é necessário um secretário-geral que possa fazer a ponte entre a Rússia e o Ocidente, essencial para resolver antes de tudo o conflito na Síria. Neste quadro não é o currículo de Guterres na área dos refugiados que lhe permite qualquer expectativa de ascender ao cargo. Como ele próprio costuma dizer: "é a vida!". Na verdade, ele de nada se pode queixar que isto desde o princípio foi sempre absolutamente cristalino.

O mar e os submarinos

por Alexandre Guerra, em 30.05.16

Os portugueses adoram o seu mar, orgulham-se dele e banham-se nele. Os políticos, académicos, jornalistas e toda a alma pensante cá do burgo vêem no imenso oceano a salvação do País, tal como já o foi nos tempos em que corajosos aventureiros nas suas caravelas se fizeram à vida para outras paragens. Ao fim e ao cabo, é o mar que faz de Portugal um país especial no contexto europeu e mundial e que, apesar de tudo, lhe deu uma dimensão geopolítica e geoestratégica relativamente significativa no sistema internacional, se se tiver em consideração a pequena dimensão do país. Naturalmente, que essa importância foi evoluindo de acordo com as contingências históricas, no entanto, basta recuarmos um pouco até à II GM para se perceber facilmente a relevância que o mar português teve para os Aliados. Já durante a Guerra Fria, essa importância manteve-se, materializada com a entrada de Portugal na NATO enquanto membro fundador daquela organização. Sem correr grande risco de exagero, pode dizer-se que, atendendo à extensa faixa costeira de Portugal Continental e dos respectivos arquipélagos, o nosso país foi sempre uma espécie de "guardião" de parte do Atlântico Norte, sobretudo no que diz respeito à sua imensa Zona Económica Exclusiva (ZEE), uma das maiores do mundo e que poderá aumentar, caso as Nações Unidas reconheçam os argumentos das autoridades nacionais para a extensão da Plataforma Continental portuguesa.

 

A questão principal, e um pouco à semelhança do que aconteceu no século XIX com o princípio da "ocupação efectiva" imposto aos governantes portugueses no território africano, não basta que políticos e cidadãos em geral olhem para o mar e digam que ele é bonito e que providencia boas sardinhas. É preciso exercer soberania efectiva sobre a actual ZEE, porque só dessa forma se pode potenciar e proteger os seus recursos de todo o tipo de ameaças. Este é um ponto fundamental e que, à luz daquilo que se vai lendo e vai ouvindo, não parece ainda estar bem percebido. Os anos passam, mas continuam a ser habituais os artigos de imprensa (como ainda esta Segunda-feira) sobre os tão polémicos submarinos, Arpão e Tridente, que estão ao serviço desde 2010. As suas despesas de manutenção são um tema recorrente, como se o erário público estivesse a ser usado para divertimento de alguns almirantes. Na verdade, trata-se de uma abordagem pouco acertada por parte da nossa "intelligentsia", já para não falar do povo, geralmente menos sabedor destas coisas. Mas admite-se que parte do problema está no facto dos Governos envolvidos na compra dos submarinos (e foram tanto do PS como do PSD) nunca terem tido a arte de explicar objectivamente as razões estratégicas que sustentaram a aquisição daqueles equipamentos. Porque, efectivamente, existiam e existem razões válidas e importantes à luz dos interesses nacionais que mereciam ser conhecidas pelos portugueses. 

 

É certo que Portugal actualmente não tem os problemas de outros países no que diz respeito à disputa militar de territórios insulares, sendo que aqui o território está claramente demarcado em relação aos seus vizinhos mais directos, Espanha e Marrocos. No entanto, muitos outros problemas surgem nas águas portuguesas directamente relacionados com questões de soberania e de interesse nacional. É certo que em termos geoestratégicos e geopolíticos o conceito de soberania vai hoje muito além do território físico do Estado, porém, a sua defesa e o seu controlo efectivo continuam a ser vectores basilares para qualquer Governo responsável. E aqui Portugal tem uma missão hercúlea na defesa do seu espaço marítimo. Uma defesa feita a vários níveis, tais como militar, económico, ambiental e até mesmo social. A vertente militar no sentido mais clássico está hoje mais atenuada, sobretudo depois do fim da Guerra Fria. Em contrapartida, assistiu-se nos últimos anos a uma ameaça crescente aos interesses económicos, ambientais e sociais de Portugal no mar.  

 

A defesa da economia do mar deve merecer a maior atenção por parte das autoridades portuguesas porque quanto menor for o controlo do seu território marítimo, maior serão as delapidações dos recursos feitas por terceiros, como acontece com as pescas. Além das imposições de quotas legais de Bruxelas, os portugueses certamente que desconhecem as incursões ilegais feitas por embarcações de pesca espanholas e marroquinas em águas portuguesas. Dizia há uns anos uma fonte militar ao autor destas linhas, que até "histórias de tiro" costumava haver entre embarcações de patrulha e de vigilância portuguesas e barcos de pesca espanhóis e marroquinos.

 

O controlo e a vigilância dos mares assume hoje uma particular importância na defesa do ambiente e neste capítulo Portugal tem uma enorme responsabilidade. O caso da tragédia ambiental de 2002 na Galiza, provocada com o derrame de petróleo do Prestige, é um bom exemplo de como os interesses nacionais foram ameaçados no mar. A determinada altura do processo de gestão de danos, no qual a Espanha estava sem capacidade de resposta, Portugal foi obrigado a intervir com a sua marinha para evitar que os espanhóis "empurrassem" o Prestige para as águas nacionais. Este foi um episódio muito grave, mas muitos outros casos há. A existência de uma capacidade naval forte é totalmente justificada quando se tem uma ZEE que é corredor de passagem para todo o tipo de navios de várias partes do mundo. É por isso vital que a Marinha portuguesa esteja atenta contra todo o tipo de ameaça à integridade ambiental do seu território, tais como pequenos derrames, lavagens de tanques, despejo de detritos no oceano, e por aí fora. 

 

Muito do trabalho preventivo e reactivo que é desempenhado pela Marinha a este nível (e também por outros ramos, como é o caso da Força Aérea) não é do conhecimento público e, seguramente, não é valorizado quando as pessoas se banham alegremente nas águas limpas das belíssimas praias portuguesas de Norte a Sul do país. Ou então, quando diariamente chega às lotas portuguesas o pescado que delicia os portugueses e alimenta uma boa parte da economia. Para garantir a integridade do mar, é preciso muito esforço e investimento. Custa dinheiro e que ninguém tenha qualquer dúvida disso. 

 

Socialmente, a defesa do mar é também um pilar basilar dos interesses nacionais. O combate à imigração ilegal, ao tráfico humano ou ao contrabando de armas e de droga tem de ser uma obrigação do Estado português. Trágicas realidades para a qual a Marinha portuguesa tem de estar preparada para as enfrentar. Um Estado responsável e desenvolvido deve ter em consideração todos estes factores. Mesmo no que diz respeito aos compromissos militares propriamente ditos, Portugal deve estar dotado de capacidade naval para dar resposta aos compromissos internacionais, como o tem feito exemplarmente, inclusive com o Arpão e o Tridente, que nestes seis anos de actividade já participaram em inúmeros exercícios e missões, algumas das quais de combate ao terrorismo. Os submarinos não devem ser vistos como realidades isoladas, mas sim como parte de um modelo naval ajustado aos desafios do século XXI, no qual todos os tipos de navios, embarcações e sistemas de vigilância costeiros se complementam. 

 

Publicado originalmente em O Diplomata

Um sintoma.

por Luís Menezes Leitão, em 24.12.12

Este caso é um sintoma do estado do nosso país. Quando nos anos 60 Portugal travava uma guerra colonial sem sentido, o regime dizia que não tínhamos outra alternativa e que o mundo acabaria por nos dar razão. O mundo, porém, deixava-nos completamente isolados. Precisamente por isso quando houve uns pândegos que se resolveram mascarar de sheiks árabes em visita ao país foram recebidos pelas mais altas instâncias nacionais e objecto de grande cobertura mediática. Depois o país descobriu estupefacto que tudo não passava de uma brincadeira e que os verdadeiros árabes não nos ligavam absolutamente nenhuma.

 

Hoje o país trava igualmente uma guerra perdida, sendo que os resultados do combate ao défice que são anunciados correspondem a derrotas sucessivas. Mas mesmo assim o Governo prossegue inabalável até ao colapso final. O país sonhava por isso que aparecesse alguém com credibilidade internacional a chamar a atenção do Governo para os riscos em que estava a colocar o país e o sofrimento que causava às pessoas. E nestes casos há sempre alguém disposto a aproveitar a oportunidade, bastando invocar uma qualquer pertença internacional, que os indígenas acolhem-no veneradamente. Para isso as Nações Unidas eram o organismo ideal. Assim, se alguém aparecesse a dizer que vinha da ONU a avisar da preocupação do organismo com o estado do país, naturalmente que teria tempo de antena e exigir-se-ia que o Governo o ouvisse. E se ele dissesse que tinha uma tropa de capacetes azuis pronta a invadir Portugal para pôr o Governo na ordem, continuariam a dar-lhe o mesmo crédito.

 

Como nos anos 60, o país acaba assim a descobrir que as Nações Unidas também não ligam nada a Portugal e que o país vai afundar-se completamente sozinho. O que é grave é que esta credulidade é um péssimo sintoma do actual estado dos portugueses.

Como se a culpa fosse das vítimas

por Pedro Correia, em 05.06.12

 

Mesmo numa região como o Médio Oriente, habituada às maiores atrocidades, este foi um massacre particularmente chocante: 108 pessoas mortas a sangue-frio, degoladas ou assassinadas com tiros na cabeça à queima-roupa, incluindo dezenas de crianças. Aconteceu em Houla, no centro da Síria: as chocantes imagens desta barbárie correram mundo, não tardando a ser disseminadas pelas redes sociais e fazendo abrir os olhos a alguns que ainda condescendiam com a feroz ditadura de Bachar al-Assad. Por unanimidade, o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou estas atrocidades, atribuídas à milícia pró-governamental Shabiha. Ao contrário do que sucedeu em ocasiões anteriores, desta vez China e Rússia juntaram-se à condenação, que deixa o ditador de Damasco ainda mais isolado.

"Os responsáveis por estes crimes brutais serão responsabilizados", garantiu o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, enviado desta organização e da Liga Árabe à Síria. Enquanto Barack Obama se confessava "horrorizado" por estas atrocidades e diversas capitais - incluindo Washington, Paris e Londres - expulsavam diplomatas sírios em sinal de vigoroso protesto. Assad pode vir a ser julgado por crimes contra a humanidade, admite Navi Pillay, alta-comissária das Nações Unidas para os direitos humanos.

O mundo comoveu-se com a história do menino de 11 anos que se fingiu de morto, esfregando-se com sangue do seu próprio irmão assassinado, para poder escapar com vida e contar aqueles momentos aterrorizantes que o assombrarão para sempre. "Eu estava apavorado. Todo o meu corpo tremia", relatou o pequeno Ali, que viu a sua família mais próxima ser massacrada.

Não admira, por tudo isto, que o tirano sírio conte cada vez com menos adeptos. Mas, embora poucos, são indubitavelmente fiéis. Com destaque para o Avante! "O massacre está a ser atribuído ao regime, mas o governo liderado por Bashar Al Assad nega a responsabilidade pelo crime e acusa os grupos terroristas", tranquiliza-nos o jornal comunista numa notícia com onze parágrafos em sintonia com as teses do ditador. Como se a culpa fosse das vítimas e não dos verdugos.

Ao fim de 14 meses, a revolta popular síria já provocou cerca de 13.400 vítimas mortais, mas nem isso perturba o inabalável Avante!: noutra notícia desta mesma edição, o órgão central do PCP relata que os "povos estão em luta do norte de África ao Médio Oriente". Mas não na Síria, claro. Com uma chocante indiferença pelas vítimas de Assad. E um solene desprezo pela sensibilidade e pela inteligência dos seus leitores.

Franco, herói de Kadhafi

por Pedro Correia, em 20.03.11

 

Sem réstia de pudor, Muammar Kadhafi comparou-se a Francisco Franco. Sem sombra de vergonha, comparou Bengazi de 2011 a Madrid de 1939. Não é preciso mais nada para definir o homem que asfixia a Líbia há 42 anos: para perpetuar o seu poder, não hesita em esmagar uma cidade que constitui o maior bastião rebelde invocando o modelo franquista. Felizmente o direito de ingerência sobrepõe-se hoje ao conceito de soberania nacional, como Portugal reivindicou - e muito bem - em 1999 para defender o povo irmão de Timor-Leste contra as atrocidades cometidas pela tirania indonésia. Felizmente o Conselho de Segurança da ONU, a Liga Árabe e a União Africana não permitem que Kadhafi faça agora em Bengazi o que o caudillo fez em Madrid no termo da guerra civil espanhola.

Por cá, só o PCP prefere solidarizar-se com o ditador em vez de se mostrar solidário com o povo líbio. Os comunistas portugueses dizem-se internacionalistas, mas o único "internacionalismo" que aplaudiam era o das invasões soviéticas, obviamente à margem do direito internacional. Polónia, 1939. Finlândia, 1940. Letónia, 1940. Lituânia, 1940. Estónia, 1940. Hungria, 1956. Checoslováquia, 1968. Afeganistão, 1979. Em nenhum destes casos os povos invadidos contaram com os comunicados solidários do PCP exprimindo protesto pela «intervenção directa nos assuntos internos de um Estado soberano». Um privilégio reservado ao Franco do Magrebe, o que constitui um verdadeiro insulto a todos os comunistas que combateram o franquismo pagando com isso, tantas vezes, o preço da liberdade e da própria vida. 

Portugal e o Conselho de Segurança da ONU

por Paulo Gorjão, em 15.03.11

José Amaral, Sara Martins and Rui Macieira, "All for one, as long as there is not one for Europe" (Portuguese Journal of International Affairs, No. 4, Autumn/Winter 2010): 31-39.

Os jagunços do ditador líbio

por Pedro Correia, em 20.02.11

 

Financiou o terrorismo internacional. Sob o seu mandato, pelo menos 250 presos políticos "desapareceram" misteriosamente. Os partidos são rigorosamente proibidos no país. A tristemente célebre Lei 71 pune a "dissidência", em casos extremos, com a pena de morte. Agora o ditador há mais tempo em funções no planeta não hesita em virar as armas contra o seu próprio povo para se perpetuar no poder: a tentativa de esmagamento do movimento pró-democracia na Líbia já ali provocou 233 mortos, segundo o Observatório de Direitos Humanos. Muammar Kadhafi, que procura censurar toda a informação, tem no entanto direito a assento oficial na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Não é preciso mais nada para se avaliar como é urgente a reforma das instituições internacionais e para se perceber a que ponto chegou o descrédito da ONU, que alguns sonham ver como sede de um futuro governo mundial.

Portugal, que em Dezembro de 2007 o recebeu com honras de estadista na lamentável cimeira dos ditadores realizada em Lisboa, mantém um envergonhado e vergonhoso silêncio sobre o massacre de cidadãos líbios às mãos dos jagunços de Kadhafi, como já muito bem o Rui Rocha sublinhou aqui. Um silêncio que não pode prolongar-se. Ser membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas não pode servir só para os habituais rodriguinhos de propaganda interna.

 

Adenda das 00.38: actualizei o número de mortos - de 173 para 233. A fonte é a mesma.


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