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Cresci no bairro dos Olivais, em Lisboa. Uma urbanização dos anos 1960s, uma mescla sociológica ("melting pot" a la Portugal de então) a acolher a alvorada da macrocefalia urbana no país, o crescimento da cidade "capital do Império" de então - estatuto bem marcado na toponímia do bairro, os Olivais-Sul com as ruas nomeadas segundo as localidades ultramarinas (eu sou "da Bolama") e as dos Olivais-Norte dedicadas a evocar os mortos na guerra colonial (a minha irmã viveu na "Alferes Barrilaro Ruas").

  

 [O Presidente da República, Almirante Américo Thomaz, descerrando a lápide onde se perpetua o nascimento da nova urbanização (imagem encontrada aqui)]

 

Obra de regime, do Estado Novo tardio. Na ideologia, no simbólico, na visão sociológica. E no urbanismo projectado. Um ideal "civilizador" baseado num irenismo sociológico, "vizinhando" diversos estratos sociais, crente nas "boas influências", nos mecanismos de integração cultural e, até, na possibilidade de assim induzir alguma mobilidade social e cultural. Desde uma classe média mais abonada, o pessoal "das vivendas", ali à "rotunda do relógio", passando pelo funcionalismo público de alto estatuto (os tempos eram diferentes ...) agregado nos "prédios dos juízes" ou dos "militares" (oficiais superiores) ou às vivendas para quadros com prole avantajada (que ainda os havia). E, no outro extremo da pirâmide, mas contíguos nas residências, outro tipo de habitação social para reinstalados de zonas pobres, até refugiados das cheias que avassalaram Lisboa em finais dos 1960s, alguns conjugados em zonas que adquiriram nomes pitorescos como "Aldeia dos Macacos" ou "Vietname", que o célebre "Cambodja" era além-fronteiras, apesar destas porosas, já no início de Chelas.

Locais esses, e outros, temidos em criança, de onde vinham as vagas de perigosos "ciganos" (que não o eram), primeiro para nos roubar as bolas e outros "gadgets" (que não se chamavam assim e eram bem poucos), depois para nos entre-aliarmos, aprendendo a viver no mundo como ele é, e, finalmente já como criança-mor, os invadirmos para comprar as diversas drogas com que esfuziámos a chegada da idade. Caldeirões destas mezinhas eram as "escolas" de então, o célebre D. Dinis (também lá em Chelas mas frequentado por gente do "nosso" lado), a "Piscina", os "Viveiros" que fundei e onde andei durante anos, em cima daquela areia vermelha que afinal era tóxica. Escolas de peculiar funcionamento, cuja memória sempre me faz sorrir diante dos tontos queixumes d'agora, esses de que "a escola dantes é que era boa".

Enfim, nisso resultou uma enorme freguesia, então com uma população jovem e descabelada (um dia deu-me a saudade e escrevi este "Olivais", memórias quase em regime etnográfico). Com uma cultura "regional", "tribalista" se se quiser. Calão, percursos, ícones, referências próprias. E mecanismos de solidariedade, que foram ficando, mesmo que algo esgarçados pelas décadas passadas - ainda hoje em Maputo descubro, de quando em vez, um tipo dos Olivais. "Do norte ou do sul?" logo é a questão, "do Modesto, do Tó ou Tosta, do Brisa?", logo segue o inquérito, a ver das raízes e percursos traduzidos pelos cafés, fortins de então, exactamente como outros perguntam colégios ou duplas consoantes ou falsos tios. E fico de olho no "tipo dos olivais", a ver se precisa de algo (e, confesso, se justifica a atenção). Tudo isso porque a gente gostou de lá crescer. Há alguns anos os projectistas, alguns arquitectos que vieram ser célebres, fizeram rescaldo e lamentaram o rumo do bairro e até deixaram entender que reconheciam erros. Talvez. Mas os utilizadores gostaram.

Bem, vem esta memória a propósito do que vai acontecendo no velho bairro. E também para justificar esta minha atenção. Pois um tipo dos Olivais, mesmo que vivendo do outro lado do mundo, fica atento ao que lá se passa.

 

No centro dos Olivais um baldio ficou "esquecido" durante décadas. Originalmente pensado para "centro social", comercial e cultural, mas as convulsões da sociedade nos 70s e 80s estancaram o processo. 

 

 

O baldio foi mato até à democracia. Então aconteceu a reforma agrária. No Alentejo e não só. Pois também ali o terreno foi tomado pela população, as franjas mais "populares" circundantes foram-se a ele e retalharam-no em courelas, dedicadas ao auto-consumo, lembro que em particular de viçosas couves. Cresci nestes prédios, literalmente com machambas diante do nariz.

Anos passados, na euforia da europa e da "economia de serviços", finalmente se avançou com a urbanização. Prédios de habitação, escritórios e um centro comercial (entretanto, após o Acordo Ortográfico, chamado shopping centre). E mais haveria, hotel para o Euro-2004, se calhar mesmo pensado para a EXPO-98, para apoiar o aeroporto, enfim. Claro que ainda não está pronto. A obra começou há 20 anos, em 1993, como mostra esta retrospectiva apresentada no Olivesaria, um blog colectivo dedicado ao bairro que partilhei com alguns velhos amigos-vizinhos.

 

 

 

 

 (Abril de 1993)

A primeira parte do projecto ficou assim, uma "grande muralha", completamente esquecida do tom original do bairro, sempre residencial. Esquecida qualquer ideia de zona verde (certo que há uns canteiros dentro do shópingue). Muitos logo protestaram, até porque o estabelecimento de serviços cívicos, culturais se se quiser, foi apagado. Pois nestes tempos "sem ideologias" o cívico é o centro comercial, que a gente ou vai às compras ou vai ver as montras. E os calhamaços.

 

[grandemuralha.jpg]

 

 (Primeira parte do projecto concluída)

 

Depois, logo depois, avançou-se para a segunda parte do projecto. Mais prédios, nada mais do que prédios. Tudo tão apertadinho, tão utilizado, que um deles está mesmo, literalmente, em cima do passeio. Apesar do grande espaço daquela rotunda. O espantoso é que vinte anos depois do início do projecto as obras não estão concluídas. Claro, há anos que os últimos prédios terminados estão vazios e que vários outros estão ainda em estrutura. A demência, a cupidez, a irracionalidade económica na república da "economia de serviços", da "indústria da construção civil" e do sacrossanto "poder local".

Repito: há vinte anos que começou a construção na rotunda central dos Olivais, entretanto passado de bairro arrabalde a zona central da cidade, pelo crescimento a leste, pela Expo-98. E ainda não está terminada. Nem há actividade construtora.

Neste festim de betão surgiu o óbvio, já anunciado há décadas atrás. Tanto foi o espaço ocupado, inutilizado, e a falta de planificação, que o estacionamento no centro daquele bairro residencial se tornou um quebra-cabeças. A solução camarária demorou. Mas depois foi simples. (Quase literalmente) Lapidar.

 

 

 

Foi-se à rotunda (esta, onde está um tal de "Spacio Shopping") e instalou o sentido único para os automóveis. Para facilitar o estacionamento em espinha, claro. Mas assim constituindo um autódromo.

Dada a dimensão da área é uma total violência naquela área urbana. Sob o ponto de vista urbanístico. E também securitário, tornando uma aventura pedonal uma mera ida às compras. Ainda para mais num universo tão envelhecido ("pai, porque há tantos velhos em Portugal?" pergunta-me a minha filha, espantada, aquando nos Olivais).

A desmesurada e irreflectida medida está em "experiência" durante este semestre. Alguns olivalenses, de rija têmpera, lançaram agora uma petição. Para refutar esta insensatez. Urbanística. E também securitária. A petição está aqui: contra as alterações no trânsito e na mobilidade nos Olivais Sul.

Não será apenas um assunto para "olivalenses". Será, com toda a certeza, assunto para qualquer habitante do país com sensibilidade . Para qualquer peão. Para qualquer cidadão. Nem que seja apenas para ensinar algo aos autarcas. Educá-los, civilizá-los. Exactamente, o tal propósito que alimentou o projecto "Olivais" ...


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