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Delito de Opinião

Já votei

jpt, 09.06.24

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Fui votar de manhã (e votei bem). Como desta vez se pode fazê-lo em qualquer lugar, em vez de ir até às traseiras de casa, como sempre, fui até ali à frente, à Biblioteca dos Olivais. Foi forma de matar saudades pois a Biblioteca está fechada há mais de três anos (há quem afiance que há já 4...), devido a umas obras superficiais que a Junta de Freguesia tem descurado de modo escandaloso (dizem-me que até foram financiadas duas vezes mas não posso afiançar). O que é engraçado é que indo à página da Junta vê-se como Rute Lima (a presidente em part-time) e seus correligionários PS anunciam os trabalhos sobre um novo jardim que vão instalar em homenagem ao Zé Pedro. Mas nada sobre a reabertura da biblioteca. O que muito me faz lembrar aquilo dos "coronéis" brasileiros do Jorge Amado, que se limitavam a ajardinar para legitimar as malandrices....

Enfim, é o PS nos Olivais, em Lisboa. E Portugal. A "esquerda", dizem, avessa ao "obscurantismo", gabavam-se. E nós, que não gostamos de duplos financiamentos para obras públicas e até vamos às bibliotecas, somos ... "neoliberais", "reaccionários". De "direita"....

Entrevista para as eleições europeias

jpt, 31.05.24

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Ontem, cerca do fim da tarde, recebo uma sorridente mensagem filial: "pai, ouve a partir do minuto 20...". Respondo com esta fotografia, num "verei mas agora estou num ocaso olivalense" - pois sempre em luta ideológica contra estes pacóvios escravos da gamela turística que grunhem "sunset". Estava eu num muito agradável convívio, alguns casais vizinhos agregando este exemplar pós-moderno de solteirão, todos em torno de um belo vinho do produtor, canapés gentis, boa conversa, tudo em varanda defronte ao esplêndido Tejo, longínquo mas sempre vivificador. Lesta vem a resposta dela, jocosa: "dizes-me isso já depois de ouvir?". "Não", pois apenas justificava a minha pouca celeridade na audição...

Ouvi à noite, e percebi o envio e a sorridente resposta. Trata-se da entrevista de Guilherme Geirinhas - de quem já ouvira falar mas nunca vira - a Sebastião Bugalho, o cabecilha AD para as "europeias". A piada era a de que ambos aludiam aos "mitras dos Olivais", esses sempre dizendo "eu sou dos Olivais", e nisso a minha filha logo me reconheceu... Não veio aquilo com ponta de maldade, Geirinhas aludia ao seu próprio pai, Bugalho ao seu antigo chefe, o jornalista Vítor Rainho (que julgo ser da Catió, aqui nas minhas traseiras, ou pelo menos ter por lá parado aquando chavalo). E sim, aceito(-me), a "malta" dos Olivais gostou de crescer aqui, e nisso ganhou uma identidade perene. Mas há algo que estes mediáticos de agora não percebem, por mera ignorância, a qual afixam entre as suas graçolas: não éramos nem somos "mitras", o enorme "bairro" era um caldeirão multiclassista, congregando uma parte do espectro do que eles agora alisam (devido à tal ignorância), como "classe média", gente da média burguesia, da pequena-burguesia, além do operariado e, também, núcleos homelécios então reinstalados. (E continuo na minha, um bom barómetro sociológico seria estudar o acontecido na interacção classista na conjugalidade olivalense, pois é aí que se deverão encontrar os limites ao tal caldeirão...).

E nisso surgimos a estes mais novos menos dados aos "condomínios fechados", mais dados à abrangência dos contactos. Assim "mitras"... E tudo isto se me solta depois ter ouvido a entrevista toda, por muito representar as  mundividências dos dois participantes. Trata-se de uma série financiada pela FFMS, e até posso perceber o objectivo: através de Geirinhas mobilizar o público mais jovem para a participação eleitoral. Virtude que não impede o meu esgar. Pois assisto àquilo e lembro-me da velha piada "- Estás com ela por amor ou por interesse? - Deve ser amor, pois interesse não lhe vejo nenhum." Neste caso a pergunta será "- És entrevistado por humor ou por interesse? - Só pode ser por interesse, que humor não lhe vejo nenhum". Entrevistador vácuo, para não dizer pior. E, já agora, um político não precisa de ser erudito, nem precisa de ser melómano. Mas quando se entrega a mediação entre políticos e público a um tipo que nem sabe o que é música de câmara estamos (a FFMS e todos os espectadores) a delegar essa articulação a gente que nem lê. Gente com "piadolas" mas mais nada... Este abandalhamento da política está na moda, os auto-retratos do PR são um sintoma, Costa a cozinhar na "Cristina" o sopé de tudo isso. E a actual obrigatoriedade de "ir ao RAP" (esse que me lembro a fazer entrevista "humanizadora" ao já então consabido mariola Sócrates) instalou-se, no predomínio do sorrisinho para o incauto eleitor... Mas para animador político o RAP ainda tem equipa. Este é pungente.

Tudo isso se reflecte na entrevista. Bugalho é sabido e expedito, um talento natural. E irá longe. Apesar dele próprio. Nota-se ali, com o pobre entrevistador agarrado a dois temas pretensamente humorísticos: a juventude do homem, ainda que este seja mais velho do que o Pitt Jr. quando este chegou a PM do maior império mundial, para arquétipo. Ou, na contemporaneidade, seja da idade de Durão Barroso quando chegou ao governo. Ou da mesma geração de Attal, actual PM francês. Ou mais próximo de Macron do que eu sou dos meus convivas de ontem... E Bugalho corre apenas para deputado europeu. Mas bem pior do que isso é a longa deriva sobre o estatuto social (o estrato social) do candidato, um "quem és tu?" apinocado. E é notório que Bugalho se deixa ir nesse exercício. Ambos reproduzindo, com ironia prazerosa, o edifício da estratificação social. Não são "betos" nem "queques", são burguesotes convictos. Incapazes de se afastarem - por mais retóricas avulsas que façam actuar - das reais loas bem-dispostas a um estratificação crescente. Pois esta lhes é afectiva, identitária.

Bugalho deixou ainda dois apontamentos. Um será até secundário, e não lhe é novo - já o ouvira propalar isso num debate no qual dissolveu uma pobre adepta do dr. Mamadu Ba: confunde racialismo com racismo. Mais uma vez ilustra o seu anti-racismo por o seu padrasto, negro, ter sido tomado por infantes como motorista. Ora meras expectativas plausíveis em determinado contexto não  implicam racismo: se este comendador Teixeira, sob vestes mal-amanhadas, em Schaerbeek é tomado como operário da construção civil por uma idosa flamenga ou um boémio bruxelense, isso não é racismo, nem me faz içar os (parcos) pergaminhos académicos. 

Mas o segundo apontamento, o que me arrepia, é que Bugalho gosta de toda a gente, é amigo de toda gente, qual avatar de Rogério Alves, aquele bastonário comentador que a todos trata por "meu querido amigo". Ouça-se a entrevista, Bugalho é "amigo" de todos. Excepto, está explícito de modo sublinhado, do "doutor Passos Coelho", do qual é apenas "admirador" - o que dirá muito, e bem, de Passos Coelho e não de todos os outros. Talvez Bugalho seja assim, um verdadeiro "gajo porreiro". Mas, caramba, soa a falso como o Judas, e senti-o em pleno dia do "Corpo de Deus".

Enfim, eu não voto em cabecilhas de listas, e muito menos o faria nas eleições europeias, no qual tal figura é, por si só, irrelevante. Voto em partidos que apresentam listas. Mas, ainda assim, não será após esta iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos que irei votar AD. 

Há Cultura nos Olivais?

jpt, 02.05.24

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Ontem, após o Bayern-Real Madrid, visto em grupo de amigos no café agora "must" dos Olivais, e enquanto se escorropichava a última "imperial", lamentei-me de estar esfaimado. Logo me levaram à Encarnação, onde decorrem as "festas populares". À chegada ouvia-se os UHF. Acorri, constatando que há quase 40 anos não via o grupo de António Manuel Ribeiro ao vivo, laivos saudosistas até.... Quando lá chegámos tocavam a célebre "Cavalos de Corrida"... Depois vieram os "encore", uma "Grândola..." apenas vocal, entoada em registo roufenho com uma senhora da organização (quiçá da Junta).

Entretanto abastecemo-nos dos ambicionados petiscos, fornecidos nas barracas de "comes e bebes", vizinhas dos carrinhos de choque, eu com uma bifana das antigas, daquelas oriundas daqueles pântanos de molhanga com ar vetusto. Enquanto deglutia o manjar voou-me a mente para alhures. Um dos camaradas de comezaina notou-o e indagou o que comigo se passava.

"Estou velho!", resmunguei, lamentando-me. E expliquei-me. Pois no meu bairro de sempre, junto a amigos, diante de imperial e bifana, UHF a rockarem, no que atento é nisto: em pleno centro de Lisboa, esta Junta de Freguesia do PS, essa da presidente Rute Lima (colunista do "Público") e da "vereadora" Vanda Stuart, monta mais uma festarola e clama em cartaz "Há Cultura nos Olivais". E associa isso ao democrático e desenvolvimentista "25 de Abril".

E entretanto a Biblioteca dos Olivais, a antiga BDteca, está encerrada há três anos, ou mais, devido a obras até superficiais, mas tão proteladas de esquecidas, depois como se abandonadas, pois nunca cuidadas. Apenas por desinteresse desta gente PS. Vil e ignorante gente.

"Sou um reaccionário!", concluí. Rimo-nos. E pedimos mais uma rodada de imperiais.

O PS não muda: o caso paradigmático dos Olivais

jpt, 04.03.24

                   

O governo do PS caiu na sequência de um conjunto de "casos e casinhos" - expressão criada para desvalorizar uma inusitada sucessão de desatinos (como o patético "affaire computador"), os quais culminaram no verdadeiro "casão" Escária. E os seus dois antecessores caracterizaram-se por despistes em exercício, em particular o segundo (como os trambolhões sonoros na Defesa e na Administração Interna), e por uma demasiada "endogamia" - incorrecto termo usado para aludir à teia de relações familiares que albergavam, em particular o primeiro. E é ainda indelével no historial PS ter o período Costa sucedido à governação Sócrates, o pior momento deste regime, mas ainda assim defendido até à última pelo partido e pela sua mole de produtores de opinião pública (como Galamba ou Adão e Silva, que Costa veio a recompensar ao elevá-los ao governo).                                   

Não se trata de clamar que tudo isso é "corrupção", que não o é - isto para além de "corrupção" existir em todos os regimes, em todos os quadrantes ideológicos, e de poder grassar em todo o tipo de poderes quando eleitos ou nomeados. Ou nepotismo, pois nem tudo o é. E também não se pode reduzir isto a uma "incompetência" que seja típica daquele partido e seus "companheiros de estrada", disponíveis para com o PS governar ou administrar o sector público. Pois também em todos os regimes e quadrantes ideológicos há escolhas desadequadas ou efeitos do inesperado nas coisas públicas.

Mas tudo isto enuncia duas características deste PS de XXI: a incapacidade - talvez devida à crença da sua  desnecessidade - para cooptar um amplo leque de "homens bons" (de competentes pessoas de bem, dir-se-á hoje) da sociedade para o exercício do poder; e, talvez mais do que tudo, a inexistência de uma autocrítica, interna que seja, algo que sempre transparece um enquistar castrense típico em "partido de poder" exaurido.

Haverá gente do PS, e não só, crente em que a mudança de líder inflectirá alguns rumos políticos e influenciará as práticas no poder. Independentemente disso ser pouco crível com Santos. Não só porque vem demonstrando um verdadeiro e atrapalhado vácuo programático mas, acima de tudo, porque foi consagrado como o "campeão" do aparelho partidário. E é neste que radica o problema.     

Ou seja, não se justifica esperar mudanças positivas - desenvolvimentistas, por assim dizer - no PS. Não por causa deste novo secretário-geral ou de qualquer seu hipotético sucessor. Mas devido à mundividência que grassou e acampou no partido, nas redes que este constitui com a "sociedade civil", esse amplexo do qual emana Santos e emanarão seus sucessores. Mundividência e respectivas práticas que seguem, repito, imunes à autocrítica. E encastradas na aversão a críticas alheias.

Um exemplo paradigmático, pois denotativo, de tudo isto é o que vem acontecendo na Junta de Freguesia dos Olivais. Uma minudência, dirão alguns. Mas são 32 mil eleitores - muito mais do que em tantos municípios -, sitos no centro da capital. O PS domina a Junta desde 1990, diz-se que nele teve o presidente de Junta com mais tempo em funções no país, Rosa do Egipto, ao qual sucedeu a actual presidente, Rute Lima.

Desde que regressei a Portugal tenho escrito alguns postais como freguês desta freguesia: alguma fragilidade dos serviços da Junta - à qual agora se pode aduzir o encerramento da biblioteca pública (a ex-Bedeteca) desde há anos, para se realizarem umas relativamente simples obras de reabilitação, uma situação lamentável e incompreensível de inércia. E o tom verdadeiramente populista da sua presidência, com a desbragada utilização dos serviços da Junta - e seu boletim mensal gratuito - para engradecimento pessoal da figura da presidente Rute Lima, no posto há vários mandatos.

Também aqui deixei nota - e testemunho iconográfico - da minha irada estupefacção quando em recentes eleições ter notado que o pessoal contratado pela Junta para assistência nas assembleias de voto surgir com camisas com símbolos gémeos ao da candidatura socialista, evidente caciquismo rasteiro. Enfim, um rosário de indigências mentais, surpreendentes por vigorarem nesta Lisboa actual. Quanto ao resto, o verdadeiro funcionamento da Junta, há o constante "diz-que-diz" de fregueses, coisas até plausíveis mas apenas "conversas de café", impublicáveis.

E bem aqui insisti, com pormenor, que nas últimas autárquicas para a surpreendente derrota eleitoral do candidato socialista Medina foram suficientes os votos que o PS perdeu na freguesia Olivais.   

Entretanto, no ano passado houve três reportagens televisivas, detalhadas, anunciando desmandos económicos na Junta. Algumas das referências eram até pungentes - gravações que demonstram haver uma vogal que alimenta a família com a comida das cantinas escolares, por exemplo. Contratações de familiares directos de gente em funções. Aparentes minudências dessas. Nesses dias houve alguns ecos mas mais nada se soube. A presidente Rute Lima - que exerce (ou exerceu) o seu cargo em part-time, pois foi cooptada para a gestão municipal de Loures pelo seu novo presidente socialista, algo peculiar numa freguesia desta dimensão - seguiu incólume.

No final do ano 23 saiu mais um dos característicos boletins da Junta, sempre "Rutecentrados", como comprova a imagem que encima o postal. Ombreando com (mais) uma longa entrevista auto-laudatória a omnipresente Lima escreve no seu editorial, dedicado aos seus "Queridas e Queridos Olivalenses", uma denúncia daquela "espuma que é uma nova forma de estar na política" que conduziu "a forma sórdida a que todos fomos expostos, naquele que foi um ataque inqualificável ao Executivo". Em Fevereiro a Polícia Judiciária fez buscas durante um dia na Junta.

Friso, não há arguidos, não há culpados. Mas há décadas "disto": de comer das cantinas, pelo menos. Deste despautério caciquista. E do PS ser incapaz de se apartar, autocriticamente, deste tipo de gente. Deste tipo de práticas. Desta... mundividência.   

Entenda-se bem, o PS não muda, nem mudará. Pois o PS, este que vai a votos, é Rute Lima.                                             

No metropolitano

jpt, 29.08.23

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Ontem, Estação de Metropolitano de Chelas, quase 23 horas. Comboio parado, luta de grupos - verdadeiramente multicultural. Tem ar de coisa avulsa, mera "zangadaria", não aparentando ser confronto de grupos "orgânicos" (os sempre ditos "gangs"). Nada de tiros, felizmente, nem se vêm brandir naifas, pedras ou coisas do género. Mas muito mais a tradicional gritaria histérica. A passageira brasileira que me ladeia - talvez por me ver seráfico, ainda que amarfanhando o pobre livro de bolso - pergunta-me "é preciso esperar que chegue a polícia?" antes que retomemos o nosso rumo, pois "assim vou perder o autocarro das 11...". Respondo-lhe, fleumático - já espreitei, notei a tal ausência de armas e a prevalência dos apenas símios gritadores, tendencialmente inofensivos - "não faço a mínima ideia, nunca vi uma coisa assim". Crianças choram, mulheres praguejam, transumância entre carruagens, velhos caducos caducam. Um destes, que é da zona - di-lo pelo sotaque e, mais do que tudo, através dos trejeitos -, logo avança a bom som as suas explicações para o caso pois "há pretos", olhado com algum espanto pelos circundantes ali retidos, entre os quais haverá um ou outro "branco" para além de mim e dele, e da brasileira (a qual talvez se reclamasse, lá no país dela, "parda" para ver se colheria alguns apoios estatais). Os dois sikhs estão calados, ainda que os turbantes lhes pendam um pouco.  Imensos brasileiros brasileiram, e como praguejam!, comprovando os seus "avôs transmontanos", apesar de serem - se necessário - também "afrodescendentes". Os chavalos de Chelas seguem a la Olivais, não se ficando atrás no esbracejar e no vernáculo, mas este sai-lhes sem o trinado arábico típico do nosso bairro. Não há dúvida, para além da Marechal Gomes da Costa o sotaque é diferente. A malta PALOP está calada e furiosa com estes atrasos a atrasar o descanso. E alguma olha-me, quero eu imaginar, com simpatia - haverá algo no meu semblante que dirá por onde andei? Ou será por ser o único dos dois velhos tugas brancos que ali não clama "há pretos"? Os funcionários estão excitados, cais acima, cais abaixo, armados de velhos Motorola, ou similares. Enfim, espera-se a polícia. Milhazes é citado com abundância. Uma das alas contendoras avança e dissemina-se na minha carruagem, continuando a gritar os impropérios que são rescaldo, catarse e ressaca. 

O comboio avança. Mais uma estação e chego ao destino. Estou, verdadeiramente, em casa. Na escada rolante um companheiro de viagem, talvez angolano, murmura-me, entreolhando-me, "filhos da puta!". Sorrio-lhe, encolhendo os ombros. E não lhe digo o que penso: somos, de facto, aqui e agora, nós os dois, lusófonos!

Crepe

jpt, 26.08.23

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Durante quase meio século sentei-me nesta esplanada olivalense, se, quando, por cá. Aqui bebi do Ucal de chocolate à (dulcíssima) amêndoa amarga, bicas, comi inúmeras tostas mistas, fumei charros, regressei para as melhores empadas de galinha da vida, e entretanto bebi alguns gins, magníficas imperiais, uísques bem servidos... Nisso sucederam-se incontáveis conversas, encantei-me com vizinhas e visitantes, ombreei com quem é ombreável - e até me zanguei com um ou outro. E em tudo isso, nestes todos anos, sempre fui o Zezé.
 
Após bastante tempo regresso hoje aqui para frugal jantar. Agora restaurante chinês, no qual sou um evidente Zé-ninguém. O decente crepe e a fresca Super Bock são-me trazidos por uma simpática (e bonita, se me permitem) empregada nepalesa, recém-chegada ao país. E neste meu recanto olivalense, onde cresci e agora degenero, com ela tenho de falar em inglês.
 
Peço uma segunda cerveja, e constato: a única coisa que mudou é que é uma sexta-feira nos Olivais e eu janto sozinho. De facto, todo o resto são pormenores...

O fim de uma era: a morte do "Arcadas"

jpt, 30.06.23

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Há tempos aqui falei do café do meu bairro, meu poiso durante décadas, desde petiz: o "Arcadas". Então saudava a sua reabertura sob a antiga e prestigiada gerência. Mas foi curto o regresso à actividade, passados alguns meses os proprietários regressaram à merecida reforma, ao remanso dos seus "anos doirados". Ficou encerrado o café, sito na loja do prédio, como tantos outros exemplos aconteceram nos Olivais, característica da urbanização daquela década de 1960s a induzir o pequeno comércio local. A clientela, envelhecida e cada vez mais esparsa, esperando um trespasse que mantivesse um mais ou menos "como sempre" na sua vida de vizinhança...

Os pequenos cafés e restaurantes (as tascas, casas de pasto, etc.) serão um modelo de negócio urbano algo condenado. Os hábitos de consumo mudaram, pelo envelhecimento da população - e em alguns nichos pelos devastadores efeitos na saúde física e mental que a pandemia de Covid-19 teve; pelas sucessivas crises económicas, a retrair hábitos tornados "despesistas". Na redução da procura de alguns produtos típicos, a "bica" substituída pelas máquinas domésticas, o bitoque ou a tosta mista trocados pela entrega de fast-food (e não só) ao domicílio, a desnecessidade de ir comprar (ou ler) o jornal, dada a profusão televisiva e digital. E o convívio migrado para as redes sociais e os telefonemas tendencialmente gratuitos. Tudo sublinhado pela concentração de clientela causada pela construção de enormes "grandes superfícies" - patadas urbanísticas advindas na incultura estuporada do período cavaquista. Por outro lado, o pequeno negócio - quantas vezes familiar, concentrado em torno de um casal, coadjuvado pela prole ou parentela - deixou de ser um factor de mobilidade, social e geográfica, com mais atractivas hipóteses laborais para uma população já urbanizada, e que assim se escapa à sobrecarga horária que esta actividade implica. E está sobrecarregado de taxas e regulamentos, numa sociedade e economia estatistas, escorada numa fiscalização digitalizada implacável face às pequenas empresas, e que veicula uma ignara visão do que é higiene, consignando-a à utilização de "detergentes certificados" ou quejandos detalhes.

Enfim, tudo isso é o pano de fundo mas o libreto depende de cada lugar... Tenho andado longe do meu velho bairro. Nisso do convívio com os vizinhos olivalenses, entre os quais me restam um punhado de velhos amigos. Na expectativa de que o "Arcadas" reabrisse, pretexto para lá ir, rever gente, retomar conversas. Há dias um amigo enviou-me esta fotografia, sublinhando o fim de uma era. No final do beco ermo surge agora um restaurante chinês... Nada tenho contra imigrantes e imigrações - ainda que sempre me interrogue sobre a particularidade do modelo migratório chinês, mas isso é outra conversa. Nem contra a pluralidade de oferta gastronómica, em especial os já tradicionais "restaurantes chineses", cuja disseminação por cá até terá sido pioneira - e sempre lembro as juvenis patuscadas num chinês barato na Duque de Loulé, desde as quais neles como sempre o mesmo (os eternos crepes, chop suey e porco doce, cardápio que presumo inexistente na própria China).

Mas, raisparta, ao ver (mais) um restaurante chinês alojado na loja do (meu) "Arcadas", lá no fim do ermo beco, lembro-me do final de recente leitura, pois é exactamente assim que me sinto. O então afamado escritor e cronista Júlio César Machado foi viajar uns meses por Itália na década de 1860, lá palmilhou o Norte, conviveu com Milão, calcorreou Veneza - sob o pérfido domínio austríaco -, isto, dizia, numa época em que "os portugueses não viajam". Dessas andanças deixou um livro interessante, "Do Chiado a Veneza". E a narrativa dessas até aventuras termina assim, explicitando o que realmente importante retirava da sua passeata pela bela Itália, berço da nossa cultura, onde não podia sair à rua sem se deparar com o monumental legado de História e Arte:

"Ao voltar porém daquela formosa Itália, que é a pátria das artes, da graça, da benevolência, do bem-estar e das doçuras da poesia, vim encontrar em Lisboa um grande acontecimento, que durante a minha ausência tivera lugar aqui:

Fechara o Marrare!...

Ora, devo dizer-lhes, Portugal é Lisboa, Lisboa é o Chiado, e o Chiado era o Marrare. O Marrare não era o primeiro nem o melhor botequim, era o único botequim. (...) Era a casa das noites e das manhãs: de tarde, ninguém; à hora em que nos outros botequins não havia mãos a medir para atender aos fregueses, que iam tomar café, a essa hora os fregueses do Marrare estavam a vestir-se para ir jantar. Mas pela noite adiante, que agitação, que vozearia, que teorias transcendentais acerca da arte, que discussões políticas, que dissertações com respeito à música (...)

Conquanto nos últimos anos houvesse perdido alguma coisa do esplendor antigo, e cada dia lhe fosse deixando um vácuo que o dia de amanhã não preenchia, o Marrare era ainda nos últimos tempos um dos lugares mais curiosos de Lisboa. Conservava-se ali a tradição; ali morava o Entrudo; vivia já de recordações, mas vivia; era um veterano a contar as campanhas!

Palavra de honra! Quando cheguei e vi no Marrare aquela loja de sapateiro que lá está agora, percebi que há uma cidade mais devastada ainda do que Veneza... é Lisboa!"

(Júlio César Machado, Do Chiado a Veneza, Tinta da China, 217-218)

O PS (também) nos Olivais

jpt, 14.02.23

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Cresci nos Olivais (Lisboa), bairro sui generis para tal, a nossa geração sabe-o - e lá voltei após 25 anos, já cinquentão . Nestes últimos anos botei breves postais face a uma "junta de freguesia" com características de puro caciquismo, mediocridade intelectual e executiva e anunciado nepotismo. Nas últimas eleições municipais sublinhei como as perdas de votação do PS na freguesia - muito devidas às manigâncias e arrogâncias da sua presidente - foram, por si só, suficientes para a derrota da candidatura de Medina à câmara. Enfim, 40 anos de PS, sob apenas dois presidentes de junta, culminaram na evidência de que o PS só tem esta indigência para propor no centro da capital, algo denotativo de estado degenerado daquele partido.

Ontem o telejornal da TVI emitiu uma reportagem letal sobre os socialistas da junta de freguesia, comandados há uma década pela peculiar Rute Lima (uma colunista do jornal "Público", o que denota o servilismo político das direcções do jornal). Nela são denunciados múltiplos exemplos de puro nepotismo - por exemplo, várias contratações de parentes por afinidade ou consanguinidade dos membros da junta, contratados em feriados (inclusive num 1º de Janeiro recente....!) , manipulação de concursos públicos, etc. E termina a reportagem com uma nota escandalosa, anunciando uma reunião dos eleitos decorrida no último domingo, destinada à destruição documental...

Alguns dirão que é apenas um caso pouco relevante, uma minudência paroquial, mera questiúncula de freguesia - apesar de esta ser bem maior do que muitas das câmaras do país, e sita no centro da capital. Mas não é correcta essa visão. De facto, todos os regimes, todos os sistemas políticos, todos os partidos e ideologias, são permeáveis a (más) influências de grandes interesses económicos... Mas o problema é quando os regimes ficam prisioneiros deste tipo de petty-corruption (a contratação da namorada do vereador e putativo novo presidente, a contratação do filho da presidente, a adjudicação directa da pequena prestação de serviços ao camarada de partido, etc.). Pois isto significa a degenerescência do regime, evidente caso de top-down, de cima a baixo... E patenteia a inexistência de dinâmicas internas dos partidos incumbentes em se regenerarem, enviesarem para rumos democratizadores e desenvolvimentistas. 

Sobre este caso dos Olivais há ainda três pontos relevantes: nada disto é surpreendente, não só ecoa a fatigada vox populi do bairro como traduz todo o aspecto caciquista que este poder lisboeta patenteava, diante da cumplicidade apoiante da liderança partidária; tudo isto vem a público devido a uma reportagem jornalística inserida naquilo a que os próceres socialistas constantemente atacam - e convém lembrar o tétrico actual presidente da Assembleia da República, agora a pavimentar a sua candidatura a Belém, sempre na sua peleja contra a investigação jornalística, a que chama "jornalismo de sarjeta", e pronto a procurar legislar para obstar à efectiva liberdade de expressão e fértil em pressões sobre as administrações e direcções dos órgãos de comunicação social. E finalmente, ainda mais demonstrativo do que é o PS actual: como deixei aqui no final de 2021, a socialista Rute Lima, que tem este entendimento do exercício  dos poderes autárquicos, foi logo cooptada para em tempo parcial trabalhar na gestão da câmara de Loures, conquistada pelo seu partido nas últimas eleições. Pois é isto que o PS considera relevante e necessário  para o exercicio do poder. Autárquico e nacional.

Programa sobre os Olivais

jpt, 10.12.22

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Vizinhos elogiosos dão-me a conhecer este programa radiofónico (aka podcast) "Lisboa e os Lisboetas" devido a esta sessão (51 minutos) sobre o meu bairro Olivais. Avanço para o ouvir, enquanto leio: interessa-me o bairro e conheço o "entrevistado" (é uma conversa, não uma entrevista) Pedro Bidarra há 40 anos, olivalense de gema, publicitário renomado, romancista, tipo refinado e de bela verve.
 
Na introdução da conversa o autor do programa deixa algumas indicações sobre "os Olivais" (é assim que se diz) rural, pré-1950s, incidindo na rede de "quintas" das quais há apenas alguns vestígios remanescentes. E mais para a frente alude à evolução da actual "Avenida de Berlim", a velha "Entre Aeroportos" (o de Cabo Ruivo, para hidroaviões, e o posterior da Portela), memórias corográficas decerto que interessantes para os fregueses que as desconheçam.
 
No início da conversa o Pedro Bidarra deixa um pouco da sua, que é a nossa, a da geração fundadora dos Olivais, memória sobre como foi crescer no bairro no pós-25 de Abril - e faz muito bem em lembrar que algo disso deixou no seu ríspido e tão interessante romance "Azulejos Pretos" (ele tem outra ficção, "Rolando Teixo", que é um mimo, e vou avançando isto porque vem aí o Natal e dar livros é bom, e ambos são uma boa opção).
 
Depois a conversa desenrola-se, e torna-se um espaço para o autor do programa - José Sá Fernandes, um antigo vereador municipal (surgido com o BE e prosseguido no PS) -, "mudando a agulha" com constantes derivas elogiando ... a sua obra camarária. Deixo cair o livro, deliciado, ficando só a ouvir - pois ter-se-á perdido um bocado do fio à meada olivalense, mas com ganhos, pelo menos para mim, crente que sou no método indutivo. Pois é um documento, delicioso (repito-me) sobre "lisboa", aquela "que anoitece" como (não) cantava o cantor... Lá mais para o fim o Bidarra (com algum carinho - é notório que são amigos - quiçá irónico) deixa uma breve pérola, tentando matizar o fervor intervencionista, até demiúrgico, do político agora radiofónico.
 
Enfim, terminado o programa não resisto e prometo-me: depois dos quartos-de-final de hoje ouvirei o programa (30 minutos) dedicado ao "Bairro Alto" (post-Frágil, claro), cuja "entrevistada" é a articulista do "Público" Carmo Afonso, comunista, putinesca e que se queixa de os taxis lisboetas federem a "trabalhadores portugueses". Mais "lisboa", decerto...

Sou o José dos Olivais, tenho 58 anos e já fui emigrante...

jpt, 28.10.22

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Acabo de conhecer este episódio parlamentar. É o da "Ana dos Olivais" - uma historieta sobre uma imaginada "Ana de 25 anos" do meu bairro lisboeta, narrada como se exemplar por um deputado do PSD, Alexandre Poço, que assim a quis projéctil endereçado ao primeiro-ministro António Costa.
 
O breve episódio (na ligação estão as duas curtas intervenções) causa-me duas constatações: 1) Alexandre Poço, um ex-jotinha PSD agora já adulto deputado, e que foi conhecido por nós-vulgo através de uma fruste candidatura autárquica que quis "engraçadista", nem televisão vê. Pois se o fizesse em qualquer "filme de tribunal" americano teria aprendido o célebre mandamento: nunca fazer perguntas para as quais não se está preparado para a resposta. E como tal foi-se ele à bancada fazer uma pirueta retórica - um ademane engraçadista -, e em resposta levou "pela medida grande". Para melhor me fazer entender direi que Poço, a putativa "jovem estrela PSD", esteve para Costa como há dois dias Flávio Nazinho esteve para Harry Kane... Encomende-se o rapazola ao VAR ou ao gongo, a ver se se safa nos seus próximos atrevimentos no hemiciclo que, pelos vistos, imagina qual campo da bola ou ringue.
 
2) O episódio chamou-me a atenção por ter sido invocado o meu bairro. No qual cresci até aos 25 anos, ao qual voltei aos 50. Conheço alguma coisa do que se passa. Várias vezes botei sobre os Olivais: notando os maus efeitos de uma atrapalhada, pois voluntarista, reforma da administração autárquica; notando a ausência de políticas de "reanimação" urbana; vendo o predomínio de uma visão assistencialista de paternalismo clientelar; clamando contra o - de facto - boçalismo das lideranças que o PS implantou numa freguesia central da capital (com 32 mil eleitores, repito-me até à exaustão). E sublinhando, com a ênfase que me foi possível, que só aquilo que o PS perdeu nos Olivais nas últimas autárquicas foi suficiente para derrotar Medina (malvada a Sorte, pois a este lhe serviu para chegar a ministro, e sorridente como se vê nestas gravações...).
 
Mas notei também, e botei-o, a total irrelevância, a candura ignorante, das restantes candidaturas autárquicas, das atenções partidárias, sobre este meu bairro (o tal dos 32 mil eleitores sitos no centro da capital). Nem à esquerda, nem à direita, nem ao centro, nada foi proposto, nada foi pensado e discursado, um vácuo completo. Mais surpreendente ainda num partido com traquejo, experiência de poder nacional e autárquico, como o é o PSD e que tinha uma candidatura municipal pujante. Nada mesmo, apenas umas candidaturas fundidas, uns candidatos mudos e quedos.
 
Avançaram alguma coisa no último ano? Ouviram o real, pensaram-no, projectaram algo? Que se saiba nada disso aconteceu, nada disso foi divulgado. Resta apenas este jotinha engraçadista, qual um galamba psd, a invocar o bairro e seu universo num destemperada patetice... Convirá perceber que não há pior, não há rumo mais eunuco, do que o engraçadismo (o que serve para o PSD deste jotinha e também para a IL, a qual, ou muito me engano, ou com Rui Rocha ainda mais perseguirá esse aparente trunfo). E, acima de tudo, convirá que o PSD (e não só) perceba que "o que é preciso é pensar a malta". Não é animá-la...
 
Enfim, sou "o José dos Olivais, tenho 58 anos e já fui emigrante...". E não tenho paciência para estes jotinhas vácuos.

Pastelaria Nova Arcadas

jpt, 21.09.22

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Ficou célebre a definição que é descrição feita por George Steiner, que hoje ainda mais actual surge: “A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa, frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos Cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter­-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa”. Atrevo-me a deixar adenda ao dito do sábio, é esta "civilização" Europa - esse eixo de Lisboa a Odessa, da Sicília a Copenhaga - o local dos cafés individuais, cada um com seu dono, configuração única, estilo próprio e clientela particular, assim conteúdo específico, "personalidade" por assim dizer, e não dessas cadeias americanófilas, Starbucks ou quejandas "padarias portuguesas"...
 
E se isso é para Lisboa, cuja biografia pode ser traçada em levas de "cafés", "leitarias" e "tascas", com suas nomenklaturas e seu lumpen, por maioria de razão o digo para os Olivais, esse meu bairro onde cresci e, agora, me aquiesço nas vésperas do forno. Uma grande extensão construída nos 1960s, abarcando a anterior Encarnação, orlada pelo vetusto Olivais Velhos, costas viradas ao Tejo, tornou-se o bairro "a maior freguesia da Europa", gabávamo-nos sem preocupações de rigor, povoada por casais jovens carregados de filhos, como era então costume. Uma enorme população, que Salazar mandara ser multiclassista, nisso saudavelmente desprovida de "condomínios" securitários e fronteiras finórias. População essa, a juvenil e respectivas parentelas, que se associava em torno dos cafés pelos quais cada grupo optava, por motivos de vizinhança, classe, estrato, estilo ou consumos... Do "Gordo" ao "Modesto", do "Tosta" à "Nanu", entre tantos e tantos outros - de tal forma que décadas depois ao conhecer-se alguém que tenha crescido nos Olivais logo se impõe a sacramental pergunta "onde é que paravas?", como quem pergunta "quem és tu?".
 
Eu "era" do "Tó" - na Cidade do Lobito -, nome que marcava o estabelecimento do (óbvio) Senhor António, que o deteve durante décadas, pastelaria com ares de "classe média" (como então não se dizia), algo excêntrica no tal caldeirão interclassista da azáfama do bairro. As décadas passaram, eu parti (tal como quase todos os do bairro), o "Tó" foi trespassado, assumiu o nome "Arcadas" e foi prosseguido em boas mãos conjugais, o sempre "Senhor" João e a "Dona" Júlia , a propiciarem o bom ambiente necessário.
 
Nestas décadas as formas de convívio muito foram mudando. Nesse entretanto o bairro envelheceu, e nisso empobreceu. Os indígenas partiram, em múltiplas direcções. Novas levas de habitantes foram chegando, muito menos atreitas ao "estarmos juntos" e encapsuladas pelos efeitos do paradigma "centro comercial" que se instalou. Como é óbvio, o espectro de "cafés" foi-se atrofiando e os ambientes respectivos unificaram-se, no primado de uma rudeza vigente, atrofiadora de qualquer vislumbre de tertúlia.
 
A tudo isso foi resistindo o "Arcadas", como o comprovei quando regressei aos Olivais, 25 anos depois de ter partido. Ainda albergando a terceira idade original e, mais do que tudo, ponto de encontro da nossa "Velha Guarda" quando em visita ao bairro. Ali havia uma boa "imperial". E um bom ambiente: gente educada e gentil no serviço - uma tradição de décadas que unia as gerências que lhe conheci -, que assim moldava (e filtrava) a clientela. E onde encontrava eu amigos e (ex-)vizinhos que vêm da primária, do liceu, da adolescência. E também da juventude adulta. E até, imagine-se, feitos nesta era cinquentenária. Ali se falava de quase tudo: talvez não de Kierkegaard mas decerto que de Babel ou Steiner... De trabalho, do ânimo - nosso e dos outros-, de política, de futebol, da saúde própria e alheia, do rame-rame, dos nossos queridos, de gastronomia e culinária, de livros, das memórias e até ainda dos anseios, e (hélas, já não) de mulheres. E durante tudo isso bebia-se..
 
Há dois anos o casal proprietário entendeu, merecidamente, ter chegado o momento da reforma e trespassou o café. Passado a uma dessas "cadeias". O descalabro foi imediato. E ficou o bairro completamente desprovido de uma esplanada com um mínimo de elegância, nisso indutora de convívio apetecível, de ponto de encontro.
 
Enfim, agora, dois anos depois, hoje mesmo, o (Senhor) João e a (Dona) Júlia reabrem o café, a por tantos de nós, habitantes e ex-habitantes, ansiada Pastelaria "Nova Arcadas". De lá um amigo logo me enviou um efusivo "Já abriu!!!" com esta fotografia. Eu estou alhures, em nenhures. Mas exulto, e amanhã aproximar-me-ei do Trancão, irei ali à cidade do Lobito, para um imperial ou até mais. Espero uma mesa composta. Apaziguada até, pela felicidade de nos podermos encontrar no nosso sítio. Aprazível. E com aquele leve travo, tão precioso, da alguma elegância. Apenas a q.b., sem ademanes. Como sempre ali foi.

Olivais de novo

jpt, 17.07.22

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Aqueles que me vêm aturando nestes anos - e em particular desde que regressei à Pátria Amada - talvez se lembrem das minhas cíclicas investidas sobre a Junta de Freguesia dos Olivais (Lisboa), sua respectiva presidente, a inefável (sim...) Rute Lima, e o conjunto de decisões, práticas e demagogias que dali vai brotando. Os que me dedicam mais paciência recordar-se-ão ainda de como provei - matematicamente - que foi devido ao trambolhão eleitoral socialista nos Olivais que o presidente da Câmara teve o ensejo de ascender a Ministro das Finanças, pavimentando o seu óbvio rumo a São Bento... Santa serendipidade, deve murmurar Medina, louvando assim as patacoadas dos seus correligionários na freguesia.

Alguns dirão que exagero, que aquela equipa PS de Lima não pode ser tão má como eu a pinto. Pois então comprovo-me, deixando a notícia de há dias que só agora vejo: a Junta de Freguesia desinterpretou a indicação governamental e mandou fechar todos os parques infantis dos Olivais. Foi a única Junta a borregar desta maneira, tamanha a incompetência (para não dizer pior) que lá grassa. E, ao que consta, aos fregueses que acorreram ao seu sítio pedindo esclarecimentos, os autarcas defenderam a sua posição alegando que "está calor, isso faz mal às crianças". Depois, dias passados, lá emendaram a patetice.

Espero que este exemplo, entre o pungente e o patético, sirva de vez para que me votem indulgência: quando me irrito com a Junta do meu bairro não é coisa de "partidos". É mesmo porque Rute Lima (colunista do prestigiado jornal de referência "Público", convém recordar) e sua equipa ultrapassam o imaginável. E sempre insisto, colocados no poder pelo PS em Lisboa, capital do país, entre o Parque das Nações e as Avenidas Novas - numa freguesia com 32 mil eleitores.

Isto deve dizer qualquer coisa sobre a natureza daquela agremiação.

Chamuças nos Olivais

jpt, 01.05.22

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Há anos que o bom do José Paulo Pinto Lobo faz o favor de ir lendo o que boto em blogs. Por isso sabe bem da minha única adesão ideológica: o chamucismo. Já explicitei a minha crença de que o motor da História é a demanda de chamuças, a Utopia pregnante é perfeição da Chamuça, e que a Estética se funde na Ética no propósito da correcta condimentação sob o crocante da massa.

Disso conhecedor o Pinto Lobo logo me avisou que na festa popular na Encarnação (Olivais) - a decorrer até ao próximo fim-de-semana - ali estaria um templo da Chamuça. Logo acorri e pude comprovar da verdadeira, e inolvidável, excelência das chamuças que o simpaticíssimo Edgar Bragança ali está a distribuir, iluminando mentes e palatos.

Comi várias, falámos um pouco da "Pérola do Índico" - de onde ele é oriundo - e de alguns amigos comuns, mas pouco pois ele não tinha mãos a medir, face aos gulosos clientes que se enfileiravam ali defronte. Para culminar abarquei uma fatia de bebinca que estava, pura e simplesmente, e para não exagerar, soberba.

Parti, com a alma sossegada, pois dotado do folheto do World Masala - Comida com (C)Alma, assim com possibilidades de encomendar a decerto que magnífica "comida ao domicílio" que a equipa do Edgar Bragança providencia.

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Quando é para resmungar um tipo deve fazê-lo. Mas para isso também deve louvar quando é para louvar. E nisso há que frisar que está muito bem a Festa que a Junta de Freguesia dos Olivais está a organizar durante estes quinze dias. Ide lá, mesmo que fregueses de outras paragens. E, insisto, visitai o sítio das chamuças

Olivais & Loures

jpt, 21.11.21

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Nos últimos tempos fui botando sobre os Olivais - onde resido - e a sua peculiar Junta de Freguesia. Referi (aqui e aqui) o seu inaceitável e desavergonhado comportamento durante o dia de eleições, com o pessoal contratado pela Junta para acompanhar as votações a envergar vestes propagandísticas da lista do PS. Pouco antes antes aludira (por exemplo aqui e aqui -  para além de textos bem anteriores) a essa mediocridade caciquista dos elementos PS que ali dominam desde há décadas. E depois das eleições sublinhei como as perdas de votação do PS naquela freguesia - e que muito se deveram às manigâncias e arrogâncias da sua presidente face aos interesses da população - foram, por si só, suficientes para a derrota da candidatura de Medina à câmara (aqui, aqui, aqui).

Tal insistência minha poderá parecer demasiada a quem não conheça o "bairro" e não possa assim perceber a intensidade do baixo nível daqueles eleitos para a Junta, a indigência intelectual da abrasiva demagogia, o exercício pessoalizado do poder autárquico - histriónico no caso da presidente da junta. E, acima de tudo, o efectivo desrespeito pelos fregueses, patente na forma altaneira e paternalista de exercício de funções. De facto, uma atitude anacrónica, já excêntrica pois situada no centro da capital. E a qual foi, repito, bastante punida nas últimas eleições, ainda que a lista do PS tenha mantido a Junta apesar dessas grandes perdas de votos - insisto, faltou aos restantes partidos a tempestiva apresentação de candidaturas informadas e preparadas para este exercício.

O que é interessante - e tão denotativo da prática política dominante, do modus operandi socialista - é que a nossa presidente da Junta e colunista do prestigiado jornal "Público", Rute Lima, após este percurso na gestão da freguesia, irá acumular o seu posto com um outro cargo remunerado na câmara de Loures, recentemente ganha pelo PS, isto independentemente de futuros "concursos" para os postos públicos, ascensão ancorada na "amizade" entre os políticos locais. "Nada de ilegal", diz a autarca e colunista do "Público". Não é ilegal, é imoral, como se refere neste artigo de jornal. Bem sublinhando que estas "contratações" (ainda por cima em acumulação de funções) "em regime de substituição" servem para aplainar o terreno, de molde a que estes contratados a "prazo" possam garantir os lugares nas futuras encenações de concursos públicos...

E assim tudo isto, este conúbio entre o PS de Loures e o PS dos Olivais, será apenas aquilo constante do les beaux esprits se rencontrent. E é notório: os anos passam e as pessoas do PS não aprendem, não mudam, nunca melhorarão. Estão lá para isto mesmo. Aquele partido, feito desta gente, é irreformável. Há os maviosos "parolos" a la Santos Silva, disfarçados do "não sei nada" E há os quem nem de "parolos" se mascaram, a la Carlos César...

Enfim, os meus desejos de boa sorte para os vizinhos de Loures. Que bem precisarão. Tal como nós, sofrendo estas Rutes Limas e estes Ricardos Leões. Desde o topo do governo até cá abaixo, até à mais ínfima e recôndita das caves da coisa pública...

 

O Polígrafo, a queda de Medina e os Olivais

jpt, 04.10.21

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A propósito dos hipotéticos efeitos nos resultados eleitorais de Lisboa tidos pela reportagem da "Sábado" sobre as práticas aquisitivas da presidente da junta de freguesia de Arroios, o Polígrafo tem hoje um artigo - de Carlos Gonçalo Morais - que mostra terem sido substanciais as perdas da candidatura de Medina nessa freguesia. E através da comparação com as outras freguesias lisboetas onde o PS não ganhou a freguesia (perdendo a presidência ou repetindo a derrota) evidencia ser Arroios uma das freguesias onde a punição eleitoral do PS, tanto para a Câmara como para a Junta, foi maior, apenas ultrapassada pela acontecida no Lumiar, deixando assim implícito (quase explícito...) que o desvendar daquelas deselegantes práticas da presidente da Junta terão lesado a candidatura camarária do partido incumbente. Para comprovar isso o artigo apresenta uma tabela com os resultados dessas freguesias. E conclui, certeiramente, que "é verdadeiro que a freguesia presidida por Margarida Martins – Arroios - foi uma daquelas em que o PS perdeu mais votos nas últimas autárquicas em Lisboa, quer para a Câmara Municipal, quer para a Assembleia de Freguesia, com a erosão a ser ainda maior para Margarida Martins do que para Fernando Medina."

Eu direi que é "Verdadeiro, Mas...". E recordo este meu postal, "Os Olivais e a derrota de Medina" - nisso para ele apelando à atenção do Polígrafo, se tal for possível. É certo que na freguesia dos Olivais o PS não perdeu a presidência da Junta (o critério que o artigo escolheu para a comparação). Mas as suas perdas foram substanciais, e isso será um dado interessante para esta reflexão sobre o peso global da derrota em Arroios. 

Para o evidenciar vou aduzir Olivais à lista de freguesias apresentadas pelo Polígrafo:

 

 

Os Olivais e a derrota de Medina

jpt, 30.09.21

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Eu cresci nos Olivais e um quarto de século depois, já cinquentão, a eles regressei - e fui blogando sobre isso (2.3.2004, 16.6.2016,  31.7.2019). Também estive no Olivesaria, blog colectivo dedicado ao historial do "bairro". Nos últimos anos, e até antes de ter retornado ao país, de vez em quando sobre ele escrevi, até breves textos com alusões políticas - como em 27.3.2013, 28.11.2014, 21.6.2016, 29.3.201721.9.2017, 30-9-20172.10.2017, 3.12.2017,  29.11.2019, etc. Nunca um texto sistemático, fora de blogs, e devia tê-lo feito, nisso pensei e até como resultado de inúmeras conversas com vizinhos amigos sobre a situação do bairro e as deficitárias características dos incumbentes autárquicos. Fiquei-me na preguiça dos meros resmungos bloguísticos.  

Tendo residido 18 anos em Maputo quando regressei aos Olivais três factos - para além de intuir acentuadas alterações sociográficas - chamaram-me a atenção. O mais visível foi o mau estado da recolha de lixo e da manutenção dos muito vastos ajardinados - e se alguém chegado de uma cidade com os problemas urbanos como Maputo tem reparava naqueles disfuncionamentos é porque algo estava mesmo mal . Maldisse sobre isso, até em blog. Mas, justiça seja feita, só depois soube que houvera uma relativamente recente alteração nas responsabilidades municipais, com o aumento das tutelas das juntas de freguesia. As quais, provavelmente, estariam suborçamentadas para enfrentar as novas tarefas e estariam também desprovidas dos recursos humanos adequados para as executar. 

 

 

O meu voto amanhã

jpt, 25.09.21

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Esta cena do Estado nos tratar como criancinhas estúpidas, proibindo que falemos publicamente de política na véspera das eleições, tem que acabar. Mesmo.
 
Para quem se possa interessar: amanhã, domingo, para a CML votarei na lista encabeçada por Carlos Moedas. Faço-o resmungando. Pois votar num tipo que trata Medina pelo primeiro nome dá-me uma enorme azia - pois a proximidade a Medina só descredibiliza, polui. E, também, porque não tenho paciência para estes gajos que me tratam por "tu". Nem andámos juntos na escola nem fizemos a tropa ao mesmo tempo. Para falar comigo que usem a terceira pessoa, porra. No singular, com apelido. No plural, respeitando quem os elege. Alguém que diga isso a Moedas, se voltar a ir a votos. E aos outros patetas que montaram a campanha (que assim começou, dizem-me, por mero e preguiçoso decalque de similar expressão numa velha campanha espanhola).
 
Para a minha Junta de Freguesia dos Olivais - onde manda uma inenarrável presidente socialista, que será secundada por Vanda Stuart e Ágata? Que se lixe, votarei no PCP.

Olivais, Lisboa: a autofilia camarária

jpt, 27.03.13

Cresci no bairro dos Olivais, em Lisboa. Uma urbanização dos anos 1960s, uma mescla sociológica ("melting pot" a la Portugal de então) a acolher a alvorada da macrocefalia urbana no país, o crescimento da cidade "capital do Império" de então - estatuto bem marcado na toponímia do bairro, os Olivais-Sul com as ruas nomeadas segundo as localidades ultramarinas (eu sou "da Bolama") e as dos Olivais-Norte dedicadas a evocar os mortos na guerra colonial (a minha irmã viveu na "Alferes Barrilaro Ruas").

  

 [O Presidente da República, Almirante Américo Thomaz, descerrando a lápide onde se perpetua o nascimento da nova urbanização (imagem encontrada aqui)]

 

Obra de regime, do Estado Novo tardio. Na ideologia, no simbólico, na visão sociológica. E no urbanismo projectado. Um ideal "civilizador" baseado num irenismo sociológico, "vizinhando" diversos estratos sociais, crente nas "boas influências", nos mecanismos de integração cultural e, até, na possibilidade de assim induzir alguma mobilidade social e cultural. Desde uma classe média mais abonada, o pessoal "das vivendas", ali à "rotunda do relógio", passando pelo funcionalismo público de alto estatuto (os tempos eram diferentes ...) agregado nos "prédios dos juízes" ou dos "militares" (oficiais superiores) ou às vivendas para quadros com prole avantajada (que ainda os havia). E, no outro extremo da pirâmide, mas contíguos nas residências, outro tipo de habitação social para reinstalados de zonas pobres, até refugiados das cheias que avassalaram Lisboa em finais dos 1960s, alguns conjugados em zonas que adquiriram nomes pitorescos como "Aldeia dos Macacos" ou "Vietname", que o célebre "Cambodja" era além-fronteiras, apesar destas porosas, já no início de Chelas.

Locais esses, e outros, temidos em criança, de onde vinham as vagas de perigosos "ciganos" (que não o eram), primeiro para nos roubar as bolas e outros "gadgets" (que não se chamavam assim e eram bem poucos), depois para nos entre-aliarmos, aprendendo a viver no mundo como ele é, e, finalmente já como criança-mor, os invadirmos para comprar as diversas drogas com que esfuziámos a chegada da idade. Caldeirões destas mezinhas eram as "escolas" de então, o célebre D. Dinis (também lá em Chelas mas frequentado por gente do "nosso" lado), a "Piscina", os "Viveiros" que fundei e onde andei durante anos, em cima daquela areia vermelha que afinal era tóxica. Escolas de peculiar funcionamento, cuja memória sempre me faz sorrir diante dos tontos queixumes d'agora, esses de que "a escola dantes é que era boa".

Enfim, nisso resultou uma enorme freguesia, então com uma população jovem e descabelada (um dia deu-me a saudade e escrevi este "Olivais", memórias quase em regime etnográfico). Com uma cultura "regional", "tribalista" se se quiser. Calão, percursos, ícones, referências próprias. E mecanismos de solidariedade, que foram ficando, mesmo que algo esgarçados pelas décadas passadas - ainda hoje em Maputo descubro, de quando em vez, um tipo dos Olivais. "Do norte ou do sul?" logo é a questão, "do Modesto, do Tó ou Tosta, do Brisa?", logo segue o inquérito, a ver das raízes e percursos traduzidos pelos cafés, fortins de então, exactamente como outros perguntam colégios ou duplas consoantes ou falsos tios. E fico de olho no "tipo dos olivais", a ver se precisa de algo (e, confesso, se justifica a atenção). Tudo isso porque a gente gostou de lá crescer. Há alguns anos os projectistas, alguns arquitectos que vieram ser célebres, fizeram rescaldo e lamentaram o rumo do bairro e até deixaram entender que reconheciam erros. Talvez. Mas os utilizadores gostaram.

Bem, vem esta memória a propósito do que vai acontecendo no velho bairro. E também para justificar esta minha atenção. Pois um tipo dos Olivais, mesmo que vivendo do outro lado do mundo, fica atento ao que lá se passa.

 

No centro dos Olivais um baldio ficou "esquecido" durante décadas. Originalmente pensado para "centro social", comercial e cultural, mas as convulsões da sociedade nos 70s e 80s estancaram o processo. 

 

 

O baldio foi mato até à democracia. Então aconteceu a reforma agrária. No Alentejo e não só. Pois também ali o terreno foi tomado pela população, as franjas mais "populares" circundantes foram-se a ele e retalharam-no em courelas, dedicadas ao auto-consumo, lembro que em particular de viçosas couves. Cresci nestes prédios, literalmente com machambas diante do nariz.

Anos passados, na euforia da europa e da "economia de serviços", finalmente se avançou com a urbanização. Prédios de habitação, escritórios e um centro comercial (entretanto, após o Acordo Ortográfico, chamado shopping centre). E mais haveria, hotel para o Euro-2004, se calhar mesmo pensado para a EXPO-98, para apoiar o aeroporto, enfim. Claro que ainda não está pronto. A obra começou há 20 anos, em 1993, como mostra esta retrospectiva apresentada no Olivesaria, um blog colectivo dedicado ao bairro que partilhei com alguns velhos amigos-vizinhos.

 

 

 

 

 (Abril de 1993)

A primeira parte do projecto ficou assim, uma "grande muralha", completamente esquecida do tom original do bairro, sempre residencial. Esquecida qualquer ideia de zona verde (certo que há uns canteiros dentro do shópingue). Muitos logo protestaram, até porque o estabelecimento de serviços cívicos, culturais se se quiser, foi apagado. Pois nestes tempos "sem ideologias" o cívico é o centro comercial, que a gente ou vai às compras ou vai ver as montras. E os calhamaços.

 

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 (Primeira parte do projecto concluída)

 

Depois, logo depois, avançou-se para a segunda parte do projecto. Mais prédios, nada mais do que prédios. Tudo tão apertadinho, tão utilizado, que um deles está mesmo, literalmente, em cima do passeio. Apesar do grande espaço daquela rotunda. O espantoso é que vinte anos depois do início do projecto as obras não estão concluídas. Claro, há anos que os últimos prédios terminados estão vazios e que vários outros estão ainda em estrutura. A demência, a cupidez, a irracionalidade económica na república da "economia de serviços", da "indústria da construção civil" e do sacrossanto "poder local".

Repito: há vinte anos que começou a construção na rotunda central dos Olivais, entretanto passado de bairro arrabalde a zona central da cidade, pelo crescimento a leste, pela Expo-98. E ainda não está terminada. Nem há actividade construtora.

Neste festim de betão surgiu o óbvio, já anunciado há décadas atrás. Tanto foi o espaço ocupado, inutilizado, e a falta de planificação, que o estacionamento no centro daquele bairro residencial se tornou um quebra-cabeças. A solução camarária demorou. Mas depois foi simples. (Quase literalmente) Lapidar.

 

 

 

Foi-se à rotunda (esta, onde está um tal de "Spacio Shopping") e instalou o sentido único para os automóveis. Para facilitar o estacionamento em espinha, claro. Mas assim constituindo um autódromo.

Dada a dimensão da área é uma total violência naquela área urbana. Sob o ponto de vista urbanístico. E também securitário, tornando uma aventura pedonal uma mera ida às compras. Ainda para mais num universo tão envelhecido ("pai, porque há tantos velhos em Portugal?" pergunta-me a minha filha, espantada, aquando nos Olivais).

A desmesurada e irreflectida medida está em "experiência" durante este semestre. Alguns olivalenses, de rija têmpera, lançaram agora uma petição. Para refutar esta insensatez. Urbanística. E também securitária. A petição está aqui: contra as alterações no trânsito e na mobilidade nos Olivais Sul.

Não será apenas um assunto para "olivalenses". Será, com toda a certeza, assunto para qualquer habitante do país com sensibilidade . Para qualquer peão. Para qualquer cidadão. Nem que seja apenas para ensinar algo aos autarcas. Educá-los, civilizá-los. Exactamente, o tal propósito que alimentou o projecto "Olivais" ...