A Junta da Freguesia nos Olivais

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]


Há um mês, nestes meus 61 anos, iniciei-me na actividade política. Pois há sempre uma primeira vez. Não lhe dei exclusividade, mesmo nos últimos dias dispersei-me por outras vias. Ainda assim, ontem acorri lá do sul para votar. Na lista de Carlos Moedas. E para tentar expurgar a minha freguesia dos desde há muito acampados na Junta. Encerro-a agora, à tal actividade. E deixo o meu rescaldo destas autárquicas, nas quais atentei como nunca antes o fizera:
1. Em Palmela, onde muito bem vivi grande parte destes últimos anos, ganhou o PCP - ainda que por muito pouco, que o CHEGA ali assomou. Fico contente. O presidente Álvaro Amaro - um tipo porreiro que foi um excelente autarca - cumprira muito bem os seus três mandatos e deixa um bom concelho para a sua camarada Ana Teresa Vicente. Avante!
Em Esposende - onde recentemente me candidatei a viver os últimos anos da vida mas fui vetado - ganhou um independente por larga margem, Carlos Silva, que havia sido torpedeado pelo PSD central. E assim aquele partido perdeu uma sua autarquia tradicional. Óptimo, "o povo é quem mais ordena"...
Em tempos até recentes visitei Castelo de Vide (sem deixar grande impressão, para não dizer pior, pois ali surgi "inapropriado"). O bom presidente António Pita, do PSD, também acabava agora o seu tempo. Hoje o então seu nº 2 foi eleito, uma boa notícia.
Em Faro, por onde tenho passado, um bom amigo - da direita profunda - ali residente dizia-me que o gajo do PS, até agora presidente de Olhão, que para lá se candidatava era boa peça. Ganhou! Boa notícia, presumo que o seja (Olhão está bem...).
Em Lisboa Moedas ganhou - aumentando 30 mil votos e número de vereadores. Apesar de todas as atoardas, da imprensa e dos "intelectuais" (a malta funcionária, subsidiada e/ou avençada). Exulto!
2. Aqui nos Olivais - onde segui como 17º suplente da lista "Para Ti, Lisboa" para a Junta de Freguesia - Moedas praticamente empatou nas votações para a Câmara, apenas menos 200 votos neste universo de 16 mil votantes em cerca de 30 mil eleitores.
Apesar dessa tendência, para a Junta de Freguesia a nossa lista perdeu, por cerca de 800 votos. Lamento, mesmo! Lacrimejo, até! Pois o PS olivalense é execrável. E essa característica enquistou, após 36 anos de poder aqui ininterrupto.
As razões para esta disparidade local, para a nossa derrota, serão várias - para além da retórica "soberania do eleitorado". Uma candidatura tardia - pois apresentada apenas após a coligação partidária CDS/IL/PSD, quando outras três listas locais já se propagandeavam há meses. Défice de interlocução local - as duas listas emanadas da Junta PS há anos que interagem com o "bairro" e nós apenas "apalpámos" o sítio. Uma grande carência de meios propagandísticos (verdadeiramente surpreendente para mim, neófito nestas coisas julgava que os "aparelhos partidários" existissem). E, assumo-o, coisas da nossa abordagem sociológica. Aquilo a que nós, os da ciências sociais, chamamos obstáculos epistemológicos, que fazem incompreender os terrenos.
Mas houve outra razão, evidente. Importante, por permitir pensar Lisboa. Aqui surgiu uma lista independente, "Olivais em Acção". Gente olivalense, jovem (enfim, quarentões, trintões - mas para mim agora quase todos são jovens). Empenhada, algo criativa, voluntarista. Sim, nisso tudo também desconhecedora do âmbito de acção de uma Junta, por isso algo verborreicos atrapalhados. Mas esforçaram-se, apareceram, generosos. Resultado? Ficaram em terceiro lugar, à frente do CHEGA e do PCP! Assim colheram parte da oposição local ao tétrico status quo PS...
Uma lista independente precisa de mil assinaturas para se poder candidatar. Há meses eu já presumia que viria a estar na nossa lista, via IL. Mas subscrevi-os, e disse à rapaziada amiga para que o fizessem. "É a democracia", resmungava irónico. E é!
Na noite do último dia da campanha cruzei as instalações da Biblioteca dos Olivais (aquela que a Junta PS encerrou durante um quinquénio). No jardim decorria a festa final dessa lista. Reconheceram-me, convidaram-me a entrar, fi-lo com o sorridente álibi de recolher material para "denúncias"... Estava muita gente, classe média remediada (o meu meio), vários vizinhos conhecidos, até bons amigos. Tudo ali se congregava na ideia de intervenção social e, também, de convívio. Este animado por "comes e bebes", organizados pelo pessoal da lista: o farnel pessoal incluía um caldo verde e uma bifana. Preço? 2 euros... - sem quaisquer subsídios. É isto uma campanha, mesmo sem meios financeiros.
Uma gentil candidata ofereceu-me uma mini (e depois outra) e falámos sobre o que queremos para os Olivais - o mesmo, diga-se. Resmunguei ser evidente não terem eles noção do que é uma Junta - ela riu-se e disse-me que já me lera sobre isso, mas não ripostou. Muito provavelmente porque, bem lá no fundo, concordará. Entretanto amigos próximos e vizinhos aproximaram-se, cutucando-me por ali estar. E concordavam que "espero que vocês ganhem" (apear este PS daqui era vontade unânime) mas aduziam "não voto em vocês, não voto na direita". Diante disso eu disse dois ou três "foda-se" (pois não conhecia a referida gentil candidata que tão bem me acolhia, quis-me conter) e pensei mais algumas dezenas deles.
Fui para casa. Cedo, que seguia para o Algarve no dia seguinte. Não fiz apelo ao "voto útil". Sim, resmunguei um bocado sobre a deficiência daquela candidatura. E sobre o voluntarismo festivo, generoso que seja, deles. Tambem sobre a ineficiência sociológica da nossa candidatura. Mas, repito, não apelei ao "voto útil".
Estou mesmo lixado por o PS ter ganho outra vez a nossa Junta, uma ralé que aquela gente é. Mas, e insisto, não apelei nem apelo ao "voto útil". Não sou, mesmo, um "intelectual" avençado, subsidiado. Funcionário. Como tantos desses que andaram a perorar nestes últimos dias. Sobre Lisboa.

A campanha para as autárquicas acabou ontem. Aqui nos Olivais os elementos da Junta de Freguesia - sob responsabilidade do PS desde 1989 -, atolados em investigações sobre más práticas e invectivas de inacção, cindiram-se em duas listas. A “oficiosa”, sob inspiração da actual presidente, e a “oficial”, sob liderança do actual n.° 2. Dessa mole também emanou o cabecilha da lista CHEGA (!)...
Uma das críticas mais constantes à actual Junta é o descuido desde há anos com os espaços verdes olivalenses. Anteontem, quinta-feira, 3 dias antes das eleições, a Junta foi até à Rua Cidade do Lobito, àquela agora mini-charneca que em tempos fora ajardinada. E plantou 3 árvores...! “Para freguês ver”...
Bem para além das identidades partidárias, das sensibilidades ideológicas - e até de hipotéticas simpatias pessoais - como é possível ainda votar neste tipo de vizinhos?
***
É um anacrónico paternalismo estatal - de facto, uma tutela verdadeiramente inadmissível - este chamado "dia de reflexão". Uma espécie das velhas aulas de "estudo", nas quais os "setôres políticos", sob vistoria do Reitor Legislador, nos querem obrigar a "reflectir" sobre as coisas num silêncio disciplinado.
As décadas passam e em nenhuma legislatura se termina esta fantochada. Os senhores deputados de todos os partidos ainda pensam que nos devem tutelar. Ou seja, não se vêem como nossos representantes mas sim como nossos tutores.
Resmungo à parte: para quem se possa interessar afixei na página inicial do meu "O Pimentel" alguns textos que escrevi nos últimos tempos sobre as eleições autárquicas nos meus Olivais. Não para que os infantes compatriotas (e os residentes estrangeiros, que também podem votar) os "estudem". Mas porque tenho todo o direito de o fazer hoje. Como em qualquer outro dia.

Nestas eleições autárquicas em Lisboa a freguesia dos Olivais surge como um “swing state” - desses afamados Estados-pendulares tão ambicionados nas eleições americanas, devido ao peculiar sistema eleitoral daquele país.
Como aqui disse, agora estreei-me, nestes meus 61 anos, na actividade política: independente apontado pela Iniciativa Liberal sou o 17º suplente da lista da coligação Por Ti, Lisboa que se candidata à nossa Junta de Freguesia. No topo da nossa lista está um conjunto de pessoas capazes, com bons currículos profissionais, e que vêm desinteresseiros. Ou seja, estão por cidadania, querem contribuir para a necessária e urgente melhoria do bairro onde há muito vivem. E não para se aboletarem em quaisquer funções autárquicas. Ou destas fazer trampolim para outros poisos.
Neste âmbito tenho participado em acções de campanha, de contacto pessoal. Nessas o vizinhos logo elencam os problemas mais evidentes: a imensa degradação dos espaços verdes sob responsabilidade da Junta; a decadência dos serviços de higiene urbana; a inacção da própria Junta - quantas vezes desrespeitosa dada a total ausência de respostas aos problemas colocados. Em algumas áreas da freguesia - vasta - também se referem as questões do estacionamento e da progressão da EMEL. E muitos resmungam os consabidos nepotismo e clientelismo que grassam na Junta de Freguesia: como nos disse ontem um vizinho, nem particularmente connosco efusivo, “boa sorte, a ver se lavam o nome do bairro!”.
Eu tenho escrito em blogs sobre o bairro, “os Olivais”. Parte dos mais antigos estão aqui. Os mais recentes numa secção deste “O Pimentel”. Não os refiro para reclamar precedentes no diagnóstico. Uso apenas alguns para demonstrar o quão antigos são estes desajustes da Junta da Freguesia, num poder que perdura há já 36 anos: ao “O capim dos Olivais”, sobre zonas verdes, escrevi-o em 2016. Ao “O dejectismo a céu aberto” é de Janeiro de 2017, tal como o “A EMEL nos Olivais”. Sobre a ignorante incúria cultural da Junta deixei há pouco este “Os Olivais e o Futuro”, um texto também retrospectivo. Etc.
Ou seja, estes não são problemas de agora. E os actuais membros da Junta - que se cindiram agora numa lista oficial do PS e uma outra dissidente, sob inspiração da actual presidente, muito devido aos questões judiciais que estão a ser investigadas - não só comungam do conúbio com o velho nepotismo clientelar que ali grassa como da incapacidade para resolverem os problemas da freguesia.
Neste contexto a freguesia dos Olivais pode ser um “swing state”, há uma verdadeira hipótese de se mudar a gestão da Junta. Mas não só por isso. Recordo o que escrevi há quatro anos, aquando da surpreendente vitória de Moedas, em “Os Olivais e a derrota de Medina”.
“O PS e Medina perderam a Câmara Municipal de Lisboa por 2194 votos, não tanto assim. Na freguesia dos Olivais em 2017, e com o mesmo cabeça de lista e já em exercício, o PS tivera 7922 votos. Agora teve 5545. Ou seja, perdeu 2377. Só aqui mais do que a diferença que o fez perder a Câmara. Aduzo que para a Junta de Freguesia o PS em 2017 tivera 8444 votos e que agora obteve 5164, perdendo ainda mais votos, 3280.” E ainda mais, depois deixei os resultados percentuais das eleições locais em 2017 e 2021: PS: 34,7% [53,52% em 2017]; PSD+CDS et al: 24,9% [12,6 % + 7,8%]; CDU: 13,8% [10,5%]; BE: 8% [6,4%]; CHEGA: 6,8%; PAN: 4,5% [3,8%]; IL: 3,4%.
Os números são esclarecedores. Também para as eleições camarárias os Olivais são um “swing state”. O pêndulo decisório sobre quem ganhará a presidência da Câmara decerto será muito bafejado pelos olivalenses.
Nós aqui, os da lista e seus apoiantes, com poucos meios humanos e escassíssimos meios materiais - não temos aquele mítico de perdulário “aparelho partidário” por detrás - mas com muita perseverança e competência, faremos os possíveis.
Se alguém se quiser juntar…
(E para aqueles que me venham com as lérias da “direita” e da “esquerda”, deixo ligação para o meu postal “A Câmara de Lisboa e o país”, de 2019, onde liguei uma entrevista de Fernando Nunes da Silva. Absolutamente devastadora das gestões da tal “esquerda” da autarquia lisboeta.)
(Postal no "O Pimentel")


Fomos nós, fregueses, informados que finalmente a biblioteca dos Olivais vai ser reaberta. Aqui vou falando deste meu bairro. Aludindo ao caso da biblioteca deixei o mês passado um (spinolista) "Os Olivais e o Futuro". E ainda sobre esse caso aludi à simpatia que a imprensa "de referência" (qual "Diário da Manhã") dedica à equipa PS desta Junta.
Não me vou alongar em repetições, apenas sumarizo: 36 anos de gestão PS; noticiadas - e tão faladas por cá - rasteiras práticas nepotistas; um demagógico assistencialismo, "popularucho" (sim, o tão em voga "populismo" é outra coisa); comadres PS zangadas neste final de mandato. E este caso, exemplar: uma preciosa biblioteca que, após as intermitências devidas ao COVID, ficou encerrada três anos e meio - desde 3 de Janeiro de 2022 -, obras alongadas apenas por incúria incapaz. (Leio que a presidente da Junta discursou agora em Assembleia de Freguesia contestando que a demora tenha sido tamanha. Esquecida que haviam sido emitidos cartazes - que encontro nos grupos-FB de habitantes do bairro).
Neste próximo sábado será reaberta a preciosa biblioteca. Espero duas coisas: que a Câmara não se venha fazer representar "ao mais alto nível", protocolarmente obscurecendo este despautério. E que não venha a ser confirmado o rumor, por cá audível: que o novo responsável da instituição será um para-cônjuge de membro da Junta - prática por cá comum.
E uma nota além-Olivais: é consabido o deslizar eleitoral (para não dizer pior) do PS. Intelectuais e lumpen-intelectuais apontam causas para isso: a "irrazão", o "ressentimento", a "incultura", os "preconceitos" (no sentido de discriminação pejorativa) dos eleitores compatriotas. Proponho uma alternativa: atente-se no PS dos Olivais. No centro da capital, uma freguesia com 32 mil eleitores, maior do que tantas das câmaras nacionais. 36 de anos de domínio da Junta, sob apenas dois presidentes. Baixo nível, arrogância, incúria, autoconvencimento. Nas penúltimas autárquicas obteve - grosso modo, noto que escrevo de memória - 52% de votos, diante de uma péssima, quase inexistente, candidatura do PSD. Nas últimas 32%, diante de similar vácuo alternativo. A semana passada, nestas legislativas (coisa diferente, eu sei) obteve 26%.
São os próprios socialistas, militantes e simpatizantes, que deviam olhar para isto. E, já agora, os dos partidos congéneres também o deveriam fazer.


1. Hoje é o "dia de reflexão", esse anacrónico paternalismo estatal que quer impor à imprensa e aos legítimos partidos e associações cívicas o silêncio político-partidário. E que os ignorantes julgam também abarcar o vulgar cidadão. Nos últimos anos o voto antecipado foi-se estabelecendo - li algures que este ano terão sido 300 000 os eleitores inscritos para o fazerem. O próprio PR o fez. Ou seja, o presidente da república eximiu-se ao "dia da reflexão", assim explicitando a sua desnecessidade. Ao fim de dois mandatos, durante os quais nada induziu para terminar este bafiento item da mundividência estatista, atreve-se a votar antes de tempo. É um pormenor? É. Mas é denotativo da vácua superficialidade de Rebelo de Sousa, um penoso desajuste da nossa democracia.
2. Ontem fui a um encontro político - vou votar IL, fui a uma "cerveja liberal". Entre um grupo com cinco interlocutores - dos quais só conhecia um - perguntaram-me o que penso do "almirante" (Gouveia e Melo).
Não mudei de opinão, apenas a sublinhei após a sua intervenção desta semana anunciando a sua candidatura. Assim desvalorizando as eleições legislativas, mostrando que se pensa (e sente) acima dos partidos e até da assembleia da república. Podemos pensar que os partidos vão fracos, contestar a qualidade do pessoal partidário. Mas a democracia faz-se com partidos. Não com homens "acima" dos partidos, julgando-se salvíficos. E, já agora, a sociedade não é um quartel, uma fragata (ou mesmo um submarino), para sermos apostos numa qualquer parada ou convés, a receber instruções emanadas do topo hierárquico. Ou seja, o que o nosso almirante precisa - e nesta semana mostrou-o bem - é de ser posto em sentido. E depois nós, comandantes-em-chefe, poderemos instruí-lo. Num simpático "à vontade" ou mais ríspido "pode retirar-se" (não se diz "destroçar" a um almirante). Entenda-se bem, Gouveia e Melo não é o homem para o lugar... Nem nós-todos somos objectos para um paternalismo estatista militarizado.
Que farei eu? Esperar pelo rol de candidatos e sopesar. Até agora só poderei dizer: malgré tout, votarei Marques Mendes.
3. Estamos em plena campanha eleitoral para as legislativas. A péssima equipa da Junta de Freguesia dos Olivais está desagregada, em compita interna - há pouco abordei o assunto aqui. E de súbito os fregueses são surpreendidos com o anúncio - neste contexto poder-se-á dizer "pela calada" - da extensão do parqueamento pago controlado pela EMEL. O qual agora irá abranger mais zonas residenciais, com algum até decadente pequeno comércio local, e nas quais não há peculiar pressão de estacionamento.
A introdução da EMEL neste bairro tem sido muito polémica, ao longo de anos - como aqui ecoei. Os Olivais têm particularidades: sociológicas mas também geográficas, no seu relevo, na sua extensão, que apartam a sua situação das de outras freguesias urbanas. Em algumas das suas zonas a pressão de estacionamento automóvel decorreu não da estreiteza de espaço mas da radical inexistência de políticas camarárias desde a década de 1990. Desde então foi criada a EXPO 98, a construída a adjacente Ponte Vasco da Gama, introduzidas estações de metropolitano, erguido um sobredimensionado complexo em torno do centro comercial (que fora planeado como um mais modesto "centro cívico"). E proliferaram os serviços internos ao aeroporto. Nada disso foi acompanhado pela introdução de parques de estacionamento. Nada!, repito. A câmara municipal / o Estado abstraíu-se.
Como consequência, em algumas zonas do bairro aumentou a pressão do parqueamento temporário durante os períodos laborais. A solução camarária foi a típica deste nosso Estado: fazer pagar. Alguns dos vizinhos, residentes nas áreas mais pressionadas até defendem isso. Munícipes de outras freguesias apoiam, num pobre "se nós pagamos vocês também devem pagar", desatendendo às diversas características do bairro.
Vivi em Bruxelas - tal como o actual presidente da câmara. Cidade que sofreu tamanho impacto com a tranformação em capital europeia que brotou o termo "Bruxelização" como conceito urbanístico. Onde a pressão do trânsito automóvel é enorme. Mas onde o sistema de parqueamento pago é muito mais diferenciado do que o lisboeta, com alguma criatividade, convocando autoresponsabilização dos automobilistas, e nisso ordenando o parqueamento e o próprio trânsito. Mas não esbulhando o automobilista (e seus passageiros) - como este modelo "cego" a la EMEL faz.
Pois esta EMELização do espaço público lisboeta tem subjacente essa mundividência: os cidadãos são meros pagadores de impostos e taxas, as suas vivências "ordenam-se" fazendo-os pagar. É um esbulho! No caso do nosso extenso bairro implicará redução da mobilidade intra-freguesia, redução de frequência do empobrecido comércio local, e o acréscimo do isolamento dos habitantes mais velhos - e são muitos ainda, nesta freguesia construída durante os 1960/70.
Carlos Moedas pode argumentar que é um presidente minoritário, que pouco pode mudar. Mas a esta questão vital, do "império" das taxas, virou costas. Demonstrando ser mais um "dos do Estado", o partilhar dessa mundividência estatista, altaneira e medíocre. (Uma ressalva: há uma década que não tenho carro, não é por mim que protesto).
Aqui em Lisboa há hoje um jogo de futebol decisivo: o Sporting tenta ganhar o campeonato, um segundo título consecutivo pela primeira vez em 70 anos. Os sportinguistas estão ansiosos por comemorar isso. Encherão o estádio. Carlos Moedas manda fechar os cafés e restaurantes circundantes. Afirma que o faz por conselho policial, para minorar os perigos dos festejos. É a tal mundividência estatista a sobrepor-se. Um paternalismo patético. Há perigo no futebol? Todos sabemos que há - em particular nos "jogos grandes". Então siga-se mesmo esta mentalidade policiesca: proíba-se a assistência, façam-se os jogos "à porta fechada", ficará a PSP descansada. Agora isto, encerrar os sítios onde a rapaziada sportinguista quererá beber um copo para comemorar (ou lavar as mágoas, longe vá o agoiro)? É de uma tacanhez intelectual, de um "estatismo", inaceitável.
Nas últimas eleições não só votei Moedas como muito saudei a derrota daquele Medina. Mas se os restaurantes e bares circundantes do nosso Estádio não abrirem hoje - se a câmara não reverter a decisão - não mais votarei em Moedas. É um pormenor? É. E eu nem sequer irei ao estádio e casas de pasto adjacentes. Mas é também um pormaior porque denota a mentalidade de Moedas, da sua concepção de exercício do poder político. E em assim sendo irei votar noutro, pois estou cansado deste tipo de políticos.


Aqui no Delito de Opinião tenho deixado vários postais aludindo à freguesia "dos" Olivais, o bairro onde cresci e ao qual voltei há uma década. Vários são relativos ao meu quotidiano, outros a memórias dos "tempos". E outros sobre o poder autárquico que aqui vigora: desde 1989 a junta tem eleitos PS, cinco mandatos de um presidente, os seguintes da que agora finda o seu período. E a qual exerce o mandato a tempo parcial, pois após as últimas eleições foi contratada para a câmara de Loures, após o seu partido a esta ter conquistado. Várias vezes referi as características desta Junta: muito baixo nível dos eleitos, caciquismo desbragado, "popularuchismo" ("populismo" é outra coisa), nepotismo - este já devassado em reportagens televisivas que seriam letais noutros contextos. Um "boçalismo", por assim dizer. E ineficiência.
Completado o número de mandatos legalmente permitidos a presidente da junta tentou impor uma lista sucessora, composta por alguns dos seus correligionários. Num processo de "faca e alguidar", a concelhia do PS refutou e retirou-lhe a "confiança política". Mandatando uma lista concorrente incluindo outros dos participantes nesta gestão autárquica - incluindo o "vice" actual. Entretanto a lista patrocinada pela presidente decidiu concorrer como "independente" (assim uma espécie de PS "B"). E já por aqui anda fazendo propaganda.
Uma matéria muito demonstrativa da mundividência e incompetência do colectivo PS (o "A" e o "B" - pois ambas as listas estarão pejadas de membros das últimas juntas) neste bairro é o longo processo de reabilitação da biblioteca dos Olivais, verdadeiras "obras de Santa Engrácia", pois o equipamento está encerrado há cinco anos, desde o COVID. Abordei o assunto em postal recente.
Volto a referi-lo devido a isto: muitas vezes aqui referi ser a presidente desta Junta, Rute Lima, "colunista" do "Público". Por considerar isso absolutamente denotativo do que é o "Público", sempre referido como "jornal de referência". Não vou adjectivar Lima. Mas sempre me interroguei: há milhares de presidentes e ex-presidentes de Junta no país. E impunha-se a "pergunta" (ou a constatação) sobre qual a razão para que o jornal cooptasse uma política com este conteúdo - repito, sublinhando: o caciquismo aqui é até anacrónico, de uma patente "incultura", ou seja, um modo inverso ao proclamado "de referência". Mas para o "Público", às suas direcções e, quiçá, aos seus proprietários, é este tipo de voz autárquica que interessa ecoar.
Enfim, há alguns dias - e exactamente sobre o tal "caso biblioteca dos Olivais" - o "Público" publicou esta "reportagem" (para ler basta engrandecer a imagem). E a propósito desta vergonhosa trapalhada constate-se a placidez do texto, a simpatia para com a Junta, para com a "colaboradora" do jornal da SONAE. E disso, a propósito desta minudência de freguesia, conclua-se sobre o pobre estado dos axiomas deste jornal.

1. Nos Olivais (Sul) está a casa dita Palácio do Contador-Mor - título que era uma espécie de Ministro das Finanças, passe o anacronismo da analogia. Foi mandada construir por um Van-Zeller - e ainda mantém o seu escudo de armas - descendente do primeiro deles por cá: um embaixador prussiano que em 1746 recebeu o cargo, assim um verdadeiro Conde de Lippe do erário público (uma "troika" de então?), o qual ficou na posse da família até à sua extinção (um FMI perene?). A lenda local di-la, até, a "Casa dos Maias" - os "Olivaes" queirozianos - fazendo por esquecer que aquilo era ficção.
Cresci na vizinhança. Durante a minha meninice, adolescência e jovem adultice, a casa estava semi-abandonada, entregue a uma associação popular que ali explorava uma taberna bem rústica (ou "centro social", se assim se quiser chamar), e se animava com umas festarolas episódicas. Os jardins estavam silvestres e nacos do edifício arruinavam-se. Eram usados pela rapaziada para ocasionais namoros, muito frequentes charros e mais ou menos episódicos "caldos".
Nos anos 90s, a Câmara restaurou o edifício e ali instalou a BDteca, um "must" então. Estive, "penetra", na inauguração. E ainda lembro o vibrante discurso de João Soares, o presidente de então, em veemente apologia da banda desenhada - algo não tão habitual entre a literatazinha intelligentsia portuguesa. E até invocando o combatente anti-fascista e "valente ribatejano" "Major James Eduardo de Cook e Alvega" - de facto, o Battler Britton, mas que nós, seus eternos admiradores continuamos e continuaremos a naturalizar, nisso fazendo-o "nosso". A BDteca foi deixada à direcção do João Paulo Cotrim, boa escolha pois homem da bdfilia, empenhado e sagaz.
Emigrei, e nos anos subsequentes pouco fui sabendo da casa. Constou-me que o sucessor camarário Santana Lopes nela desinvestira, até mesmo a afrontara, se aversão à nona arte se coisas lá das "capelinhas" partidárias não sei: o Cotrim partiu para as suas andanças, mas aquilo foi resistindo, em boas mãos funcionárias. Depois perdeu a sua identidade especializada, "desviada" para mera biblioteca da câmara. Quando voltei em 2015 encontrei-a arrumada e funcional: um serviço de internet gratuito, então algo precioso, pois a "nuvem" era ainda menos vigente; um simpático espaço de leitura de periódicos, estes cada vez mais escassos, por razões do rumo da imprensa; um acervo aceitável mas muito valorizado pela sua inserção na rede de bibliotecas públicas, assim potenciando o acesso bibliográfico aos bastantes leitores; um afável corpo de funcionários. A velha "bdteca" fora reduzida a uma secção - entregue a um diligente responsável, um saudável "nerd" da BD, ele próprio editor, e resistente: todas as semanas, num expositor em literal vão de escada, apresentava uma nova pequena exposição temática, de facto uma demonstração do "estamos aqui". Mas o seu fundo estava muito desactualizado, empobrecido - e desconfio que muitas das parcas novidades seriam até dádivas que receberia ele da solidária rede de editoras dedicadas.
Entretanto a biblioteca fora despromovida, pois a câmara entregara-a à junta de freguesia, coisas de rearranjos legislativos, disparatados. Implicava isso menores recursos humanos, desprovimento de técnicos superiores, de direcção. De rumo. Uma ausência óbvia. Situada no verdadeiro centro da freguesia, ladeando a Quinta Pedagógica (o ponto mais visitado do bairro), defronte a uma igreja e ao centro comercial (uma desmesurada patada urbanística inflaccionada durante o boçalismo cavaquista), rodeada de escolas, básicas e secundárias, com metropolitano à porta, entre uma fiada de cafés de bairro e restaurantes, seria natural que fosse um pólo de actividades culturais. Nada disso, apenas um quiosque preguiçoso e um vazio sem rebuliço, num primado do "cinzentismo".
Em 2020 veio a era confinada, entremeada com os episódios ditos de "postigo". O que abrangeu, como foi curial, a biblioteca. Depois, em 2021, ela foi encerrada para obras. O tempo foi passando. E muito. Como todos os dias por lá passo, rumo "à bica", fui observando a diminuta azáfama, para não dizer mais... Indaguei junto de antigos funcionários transeuntes sobre o que se passava. Com contenção lá me foram dizendo o que não posso afiançar: que as obras não são estruturais, que haviam sido cabimentadas duas vezes - da primeira vez algo desviante acontecera, tendo depois a Câmara exigido a sua realização; que a adjudicação fora - evidentemente - incompetente; que a equipa da Junta não sabia o que fazer da biblioteca, por isso não se preocupara. Etc. Em finais de 2023 nas redes sociais a presidente da Junta anunciava, em louvores à responsável da "cultura" da sua equipa, cidadã que exerce sob nome artístico e cabelo azul, que a abertura estava iminente. No Verão de 2024 voltei a cruzar um funcionário, perguntei-lhe sobre a data prevista de reabertura. Deu-me um sorriso, mesclando desdém e descrença. E anunciou: "diz-se que estará pronta em Outubro, alguns dizem que será reaberta em Janeiro. Mas acredito que esperarão pela campanha das eleições para a... pompa e cerimónia".
Contrariamente ao seu pai, a minha filha gosta de estudar em sítios públicos, ajuda-a a concentrar-se, nisso negando o "Tal Pai, Tal Filha...": em grupo, em cafés, em bibliotecas, etc. Quando vinha a Portugal e a (esta) casa, logo demandava locais para isso, junto aos amigos. Entrou na universidade em 2019, cursou a licenciatura, fez um mestrado, depois outro. E dizia-me há meses, "pai, vou acabar os estudos e nunca pude estudar na biblioteca" (que está diante de nossa casa, entenda-se). E assim foi, ela já partida para o primeiro emprego. Num sítio onde há… bibliotecas.
Em suma, de seguida ao império do Covid vieram, pelo menos, 3 anos e meio de encerramento da biblioteca dos Olivais. Devido a obras menores. Agora para lá andaram a colocar um elevador externo, coisa de que se ouve falar há... anos. E murmura-se que o futuro responsável contratado será um ... cônjuge de candidata eleita, rumor que não posso confirmar. A qual, com evidente desplante, se recandidatará. Isto tudo em Lisboa, no centro da capital do país, terceira década de XXI, numa freguesia com 32 000 eleitores!
2. Há dias, no tapete rolante do metropolitano cruzei um colega mais-velho, o qual ainda me dera algumas aulas no mestrado. Lá fez ele meia-volta para o abraço real que se impunha, não o via desde uma das suas últimas sessões lectivas a que eu fora assistir, forma de homenagem, há já quase uma década!... Combinámos um almoço. E veio ele - aos 80 anos está numa espantosa boa forma física e intelectual, mais expedito do que eu - aos Olivais. Abancámos no "Cabeça do Touro", falámos que nos fartámos. De assuntos e de gentes... Ele gabou o aspecto do bairro, do qual não é visitante frequente. Eu discorri sobre algumas mudanças sociológicas existentes, que o rejuvenescem. E resmunguei sobre a incapacidade de induzir melhorias na vida "social". Às tantas, entre o labirinto de pessoas que evocávamos, falou ele do Aventino Teixeira (quem é que o "Coronel" - como sempre fiz questão de o tratar...- não conhecia?).
Tínhamos estado a falar da falta de "memória" dos universitários - eu já discorrera a minha irritação com a forma preguiçosa como os antropólogos tinham referido a morte do Rui Mateus Pereira, seu querido amigo (demorar dois anos e meio para publicar uns textinhos numa das revistas da especialidade?, que gente...). E mais ainda com a ausência de homenagem textual condigna ao grande Armando Trigo de Abreu, também seu amigo, meu excelso professor: um homem de percurso político rico, que foi fundamental no sempre elogiado "momento" Mariano Gago da "Ciência e Tecnologia" nacional, e verdadeiramente estruturante no desenvolvimento da área "Estudos Africanos" no país (e sobre o qual deixei breve e muito superficial texto aquando da sua morte). Ao que, sobre "o Armando" - como eu nunca o tratei -, e comigo imensamente concordante, me respondeu que no "Instituto" não o homenagearam porque "nunca fez o doutoramento", e assim menosprezando um percurso imensamente rico e diversificado. Que gente!
Mas isto que digo não é lateral! Porque prende-se com o uso da "memória", e como ela é cultura activa e vida social. Pois falando ele do Aventino - e até porque há pouco uma das suas filhas me lembrou terem já passado 16 anos desde a sua morte! - lhe disse "vamos beber um café ao Tosta", um pouco abaixo do restaurante onde estávamos. Lá chegados disse-lhe ser aquele o prédio onde o Aventino Teixeira vivera, tal como no prédio defronte vivera o general Soares Carneiro, e a 150 metros vivera até à morte o Álvaro Cunhal. São meros exemplos, entre a imensidão de pessoas que vieram morar desde os anos 1960 para os Olivais. O colega mais-velho, que até "é" (julgo) do PS, concordando com o meu resmungo: "há anos que andam a celebrar "Abril" e esta Junta que faz?". Pois só a propósito destes três prédios o que se poderia ter feito, as gentes que se poderiam ter convidado, as actividades dedicadas? As interacções com centros de dia, com as associações da cidade, as actividades nas escolas... Já para não falar na animação (imediata e diferida) do comércio local.
Nada disso, apenas a ignorância eleita. Um jardim "Zé Pedro" inaugurado ainda incompleto - e o que me irritei com o Moedas (de quem gosto) a aparecer naquilo. Uma biblioteca fechada há anos... E umas "animações" populares ocasionais, ao Vale e Silêncio e Encarnação, músicas e comes-e-bebes. Nada contra... mas nada suficiente.
3. Desde que voltei aos Olivais que debito em blog uns resmungos sobre a péssima junta de freguesia. É evidente que, se vendo isto em termos nacionais, todos estes assuntos parecem minudências, irrelevantes. Mas a vida é feita disto, nas vizinhanças, entre "fregueses".
Aqui vem reinando a incompetência (até iletrada), um atrevidíssimo populismo (a presidente da Junta é um arquétipo, mesmo). E um clientelismo mascarado de (assim pérfido) "assistencialismo". O qual vem sendo afixado pela imprensa, em reportagens que noutros contextos seriam letais para os eleitos - mas, como se sabe, é muito difícil apear os poderes das "concelhias" do PS (e, também, do PSD) nas grandes cidades.
Para quem torce o nariz a estes protestos - "lá está ele a dizer mal do PS", "ainda por cima em período eleitoral..." - lembro que o PS ganha aqui desde 1989!, que a presidente actual secundava o anterior - um "dinossauro autárquico", com 5 mandatos consecutivos - e chega agora ao limite de mandatos. Trata-se de uma verdadeira dinastia.
Em reportagens televisivas do ano passado, não só se arrolavam os desmandos clientelares na equipa da Junta - como concessões favorecidas, empregos para familiares (ao que consta tem um rol de funcionários muito superior aos das suas congéneres), ineficiências (basta falar com professores das escolas locais para as ouvir). Mas isso chegava mais longe, ao pungente, a um miserabilismo: uma eleita que desvia doses de sopa distribuídas nas escolas para sua casa ("hoje são mais porque tenho visitas", ou coisa assim, ouvia-se nas chamadas...). É um baixo nível até tétrico.
Entretanto "as comadres" do PS local zangaram-se: parte, da "facção" da actual presidente, avançou para uma lista independente, à qual a (agora) "concelhia" do partido "retirou" confiança política. E a outra "facção", do seu vice, actual encarregado, avançará nas listas "oficiais", como se nada disto, desta forma de fazer política autárquica, seja com eles...
Nas últimas duas eleições, que acompanhei, o PS vem perdendo votos (grosso modo de 50% para 30%), uma perda só aqui superior à diferença de votos que permitiu a surpreendente vitória camarária de Moedas. As candidaturas do PSD aqui são sempre péssimas, uma iniquidade de vácuas. O velho PCP (no qual aqui cheguei a votar nos 80s, tempos do candidato Pimentel, presente lá bem no fundo do rol de suplentes) inexiste, nem sequer produz documentos sobre a freguesia (já não há "intelectuais orgânicos"). O BE diz umas festividades, o PAN preocupa-se com gatis (é verdade, não é ironia).
Entretanto, agora a TVI voltou a referir a freguesia, mais uns desmandos clientelares desta Junta. "Coisa pequena", repetirão. Pois apenas as trapalhadas da concessão pela junta da exploração de um café em instalações municipais - a uma das eleitas, que agora se arroga a encabeçar uma lista de candidatura. Basta ver a reportagem. Para se perceber quem é esta gente. Que há décadas aqui predomina.
Numa "sociedade aberta", com grandes partidos com um mínimo de compostura, isto seria o suficiente para uma limpeza de quadros, uma verdadeira desbaratização. Claro que não existirá. Ou seja, somos nós, fregueses, que temos de fazer alguma coisa. Nos Olivais.


(Fotografia de Stephan Vanfleteren)
Não está a chover e por isso - acolchoados nas vestes de inverno - alguns amigos agregam-se na esplanada do bairro, bebericando até à "abaladiça" do antes do jantar, como é hábito quase diário. Rodam os temas, os constantes, estruturais às (nossas) formas de estar locais - as imprecações contra o cadáver de Pinto da Costa, os achaques que acometem a vizinhança (e os seus estimados animais), a inaceitável junta de freguesia dos Olivais, notícias de bons restaurantes (re)visitados, séries das "netflixes" e quem deverá ganhar os óscares, até um ou outro novo livro folheado, a eterna questão, essa se Lage ou Borges. Mas também os da mera "espuma dos dias", simples e irrelevantes motes de convívio - laivos de resmungos com as rivieras de Gaza e da Comporta, insurgências com o trumpinismo, "como está aquilo em Moçambique, Zezé?", a fealdade da Bemformoso. E, hoje, esta novidade, isto "do Montenegro", cai ou não, deve ou não ficar?
A roda das rodadas é variada, como é bom nisto do ombrear. Ninguém é "político" - se alguém o fosse tal seria até, presumo-o, motivo para o seu ostracismo, num quase certo "vai lá para o Parque das Nações", explícito ou subentendido... Mas (quase) todos tendem para o resmunguismo, dito opinativo. Nisso há, minoritários é certo, os mais dados ao Largo do Rato - por ora mais acabrunhados, menos loquazes nestas coisas -, ombreando com os laranjas agora tonitruantes, e um ou outro liberalóide, a mais a vertente Chega mas mansa, o desiludido bloquismo - decerto que matutando nas virtudes do prof. Tavares, mas sem o confessar -, ocasionais visitantes new age, atreitos ao vegetarianismo mas militantes das "minis". Enfim, no belo mosaico só me falta alguém dos "ortodoxos", essa espécie em vias de extinção, e disso dou conta - quando regresso a casa, pizza do Lidl na mão - ao Camarada Pimentel. "Pai, por aqui já não há ninguém do Partido!", repito-lhe e ele, todos os dias, me explica as causas disso: "a alienação promovida pela imprensa capitalista!". E eu, "afenal!" (como tanto se exclama em Moçambique), não deixo de lhe dar (alguma, alguma...) razão, pois sigo sempre resmungando com estes comentadeiros tão superficiais.
Mas adiante! Ou avante!, melhor dizendo... Pois hoje veio à tona esta das "moções", a tal do "Montenegro, deve ou não ficar?". Tópico que colheu o mutismo de alguns, desses já saudosos das geringonças - acabrunhados, já o disse, também porque descrentes com o plantel que têm para esta época, feitos uma esquerda "Villas-Boas" por assim dizer. E o geral desagrado de tantos outros, contestando a relevância da minudência de que o nosso Primeiro-Ministro é acusado, uma mera campanha politiqueira. E Portugal - afiança-se certeiramente - ainda para mais no meio desta situação internacional não precisa mesmo de instabilidade, de crises. E todos concordam, concordamos.
Levanto-me, para ir lá dentro ao balcão buscar uma imperial. Faço a curial pergunta, "alguém precisa de alguma coisa?...", matizada forma de pedir mais uma rodada. E acrescento, sacaninha, "se este Montenegro fosse do PS que estaríamos aqui a dizer? Uns diriam "mata!!!". Eu diria "esfola!!!". Qual a diferença agora?". Promovendo assim o silêncio (concordante, concordante...) alheio. O qual logo aproveitei para me escapulir, rumo à minha nova imperial. Assim me safando, por episódico acabrunhamento alheio, de ter de pagar mais uma rodada.

Já aqui o disse, julgo ser injusto crucificar um partido devido a um radical desvio de um dos seus militantes, até deputados, e ainda mais se isso não se prende minimamente com os princípios e propostas políticas desse movimento. Mas a situação do deputado Miguel Arruda é tão excêntrica, patética mesmo, que o humor grassou. Da torrente de piadas recebidas aquela com a qual mais me ri foi esta, coincidente com a vaidade de Ventura por ter sido convidado para a posse de Trump...
Mas para além da evidente inocência dos seus (ex-)pares partidários diante do abstruso comportamento do deputado açoriano, o caso levanta uma interrogação. Sobre o substrato dos critérios de recrutamento e selecção dos dirigentes (e até militantes) do partido em questão - e, secundariamente, também dos outros -, em especial neste CHEGA que tanto se projecta através de discurso moralista e invectivador. Pois tendo agora o deputado Arrruda aparecido em várias entrevistas torna-se evidente que não se trata de um ardiloso camuflado, em busca de esconsos objectivos. É evidente que o homem não mostra ser o que afinal é, tão ridículo. Mas evidencia ser descabido - isto mesmo descontando que o ouvimos já a posteriori, conhecedores do seu desvario real. Mas ainda assim... Quem confraterniza politicamente com alguém assim, quem aceita e escolhe para postos elevados um perfil daqueles?
É impossível conhecer as pessoas, e os políticos, a priori? Até certo ponto é, mas não totalmente. Eu ilustro isto com um episódio, nestas croniquetas do quotidiano. Há dias eu e um amigo fomos a uma pequena actividade de cariz partidário ocorrida no nosso bairro. Ambos sexagenários, aqui crescidos, para cá regressados já maduros (até um pouco "tocados"). Ambos - tal como tantos outros fregueses - sempre refilando contra a inaceitável junta de freguesia, de socialistas pejada (desde 1980), gente tão abstrusa que o próprio PS encetou a sua pré-campanha eleitoral para a câmara de Lisboa retirando-lhes a confiança política, mas - atenção - sem nessa desconfiança abarcar a actual presidente Rute Lima, apesar das broncas tão noticiadas.
Enfim, tendo sabido daquele encontro anunciado como dedicado a questões de freguesias, incluindo a nossa, lá fomos. Para ver e ouvir, e talvez dizer algo - veteranos que daqui somos, repito. Era afinal um muito mais pequeno encontro do que antevíramos. Mas fomos acolhidos pelo contingente presente, alguns bons fregueses saudavelmente disponíveis para uma intervenção de cidadania, e dois dirigentes (locais?, nacionais?) do partido em questão. Dito isto, eu e o meu amigo, que íamos só assistir, excitámo-nos e estivemos horas a desbobinar uma sabatina sobre os Olivais, passado e presente. E em estereo... A determinado momento os dirigentes tiveram de se ir embora, o que não nos cortou a verve. Enfim, já a desoras para dia de semana lá concedemos descanso aos nossos vizinhos e todos nos despedimos, com simpatia mútua (espero...). Entrámos no carro, o Manel ao volante, e ao mútuo "eh pá!, o que é que achaste?!" coincidimos, em imediata exclamação, no vernáculo profundo sobre um dos dirigentes e no adjectivo suspeitoso sobre o outro. E desatámo-nos a rir, dada a nossa coincidência, tão imediata, epidérmica mesmo, diante dos verdadeiros políticos. Dois "maduros", nós, até já "tocados", repito... "Mas gente boa, estes nossos vizinhos...", "sim, muito!". E o Manel meteu a primeira e fomos comer uma sopinha...
Ora, e dito isto, o CHEGA não tem quem escolha as pessoas, quem as perceba? Ou tem, e é daquilo que procura?

Foi ontem notícia comentada aqui nas esplanadas dos Olivais, no frenesim que antecipava o "reveillon". Aproveitando a quadra festiva, e concomitante relativa desmobilização das associações comunitárias locais e a dos órgãos eleitos (estes em extensa licença laboral decidida pelo "carinho" da sua presidência), a PSP promoveu uma rusga no nosso bairro, tendo detido alguns dos fregueses - e, ao que ilustra o jornal "Público", em plenas imediações do centro da benfazeja sociabilidade vizinha.
É evidente o carácter discriminatório da polícia, que muito ofende o bom nome e a pacatez cidadã da esmagadora maioria dos nossos habitantes. E exactamente no momento ritual festivo anual. Imagine-se o estado de espírito com que nós, aqui residentes, atravessámos para 2025! Sabendo, de modo assim reforçado, que a qualquer momento poderíamos - e poderemos - ser interpelados por uma força policial. Apenas por sermos olivalenses. "Originários" ou, mesmo até, meros "vientes", advindos.
Como alguns clamavam ontem, esta PSP não tem estas investidas nas cercanias da São Domingos à Lapa. Em redor do Largo do Rato. No Restelo junto a Belém. Nas Telheiras e nos Chiados da nossa cidade. Apenas a nós, comunidades "bairrizadas", aponta. É tempo de travar esta injustiça, estas más práticas policiais.

Este é o "cabaz de Natal" que a Junta de Freguesia dos Olivais - essa agremiação do PS, que tanto brado vem dando devido às suas propaladas más práticas - doa a alguns dos fregueses. Desconheço os critérios de selecção, mas presumo que sejam etários - e serão independentes de hipotética escassez de recursos económicos dos ofertados, a ajuizar pela contemplada que me fez chegar esta imagem.
Simpatias partidárias à parte, isto de andar a dar bodo aos... velhinhos é uma peculiar (para não dizer pior) concepção do exercício do poder autárquico. Enfim, é a Lisboa que temos, as gentes que escolhemos...
E, já agora, aproveito o tópico e a benevolente fotografia para a todos vós pedir Boas Festas!.


Há umas semanas o Pedro Correia foi aqui muito gentil comigo. Hoje sou de novo mimado, e pelo Afonso de Melo. Que deixa no "...Sol" está este afabilíssimo texto sobre o meu livro "Torna-Viagem" - esse que só se compra através desta ligação. Aqui o partilho na esperança de nisto despertar alguma curiosidade leitora. Ou mesmo solidariedade divulgadora.
(E, já agora, isto de uma edição de autor - desconhecido, e em formato de impressão por encomenda via plataforma editorial - chegar a um semanário nacional tem "o seu quê...". Sim, é muito "mafia olivalense". Mas mostrará a outros que é possível publicar para além do remoinho das "editoras").
Enfim, aos que se decidirem interessar: espero que apreciem este meu "Torna-Viagem". E, se puderem, que o divulguem.

Torna-Viagem, de José Pimentel Teixeira
Edição Bookmundo, 2024
368 páginas
Podia começar este texto de várias maneiras. Começo pela mais convencional: estamos perante uma recolha de postais datados de 2001 a 2023 e publicados nos blogues Ma-Schamba e Nenhures, alguns também no DELITO.
Quase uma centena.
São crónicas que reflectem o percurso biográfico, existencial, do autor. José Pimentel Teixeira é antropólogo de formação, tendo exercido esta profissão em Moçambique, onde foi também adido cultural da embaixada portuguesa e professor universitário. Ali viveu entre 1997 e 2014.
Sem este percurso, não haveria livro. Sem ele, este rapaz lisboeta, «filho do senhor engenheiro Pimentel», criado no interclassista território urbano dos Olivais, o último bairro erigido na era de Salazar, teria sido outra pessoa. Talvez funcionário público com carácter vitalício, talvez mais solvente no plano financeiro, talvez mais apegado à rotina burguesa dos acomodados na vida.
Escolheu um rumo diferente - ou o destino terá escolhido por ele, uma vida inteira não basta para desvendarmos tais enigmas com certezas inabaláveis. Devoto desde a infância das aventuras de Corto Maltese, este será um elemento-chave para entendermos o que o levou a galgar fusos horários e lançar âncora à beira-Índico, na metade sul do globo.
Aportou a Moçambique quando ali mal se despertara do pesadelo da guerra civil e do devastador "socialismo real" dos anos de chumbo da Frelimo, durante demasiado tempo servil ao dogma soviético com o seu cortejo de penúria e opressão.
O jovem antropólogo encontrou ali uma segunda pátria e tomou-se de amores por ela. Sem renegar a cidadania portuguesa nem os valores republicanos que bebeu no berço. Consciente de estar num país estrangeiro, sem embarcar em utopias lusófonas. Duplamente estrangeiro, num certo sentido, pois ali a cor da pele não é irrelevante: vários fragmentos de textos da sua lavra confirmam isso. «Esqueço-me ser minoria étnica», desabafa na p. 171.
Leitor voraz, José Teixeira sentiu urgência em passar a escrito o que ia experimentando naquele seu desterro voluntário, tão longe dos Olivais onde em miúdo se deliciava com as aventuras do D'Artagnan e do Corsário Negro.
Em Maputo, foi um dos pioneiros da blogosfera portuguesa. Imprimindo-lhe marca autoral inconfundível, compondo uma persona em larga medida inspirada noutro dos seus heróis da banda desenhada: o Capitão Haddock, genial criação de Hergé. Sujeito iracundo mas magnânimo, cultor do vernáculo, utente da palavra de ponta-e-mola, bebedor impenitente, irredutível na certeza de que a amizade é um posto, intranquilo por natureza, alguém que tão depressa está como não está.
Defensor convicto de causas perdidas, no fundo «as únicas por que vale a pena lutar».

Esta persona tem traços expostos em profusão nas páginas de Torna-Viagem. Estamos perante um ateu assumido, muito preocupado com a erosão do tempo (confessava já sentir-se «velho» antes dos 40 anos), sportinguista militante mas capaz de se emocionar quando conheceu Mário Esteves Coluna, glória eterna do Benfica.
De esmerado estilo, com sintaxe inconfundível, tenaz opositor à mutilação de consoantes, contraditório sempre que lhe apetece - até na prosa semeada de arcaísmos e neologismos em proporções idênticas. Sabendo captar na escrita o tom da fala. Que também tem sexo e género e cor.
José Flávio Pimentel Teixeira - Zezé para os amigos íntimos, Zé para parceiros esporádicos, Flávio para antigos condiscípulos da faculdade, «doutor Teixeira» em ocasiões solenes, mais em Maputo (onde foi agraciado como comendador, segundo recorda numa divertida crónica) do que na terra natal.
Tal como Camões e Fernão Mendes Pinto, entre tantos outros, um torna-viagem: cumpridas quase duas décadas em Moçambique, novo desterro voluntário, desta vez no retorno à «Pátria Amada» (como observa, com assinalável ironia). Após ter sido europeu em África, ei-lo agora com muito de africano em Lisboa, até ao nível do vocabulário que assume como património pessoal.
Corto Maltese fechando um círculo. Que pode voltar a abrir-se, nunca se sabe.

Lago Niassa
Cerca de dois terços destes textos têm ambiência moçambicana: agrupam-se sob a epígrafe "A Oeste do Canal". Contagiados pela sua vibração vital, acompanhamos o autor de descoberta em descoberta. Eis a maior de todas: ainda é possível viver aventuras à moda antiga no plácido mundo contemporâneo.
Aventuras como a do nascimento da "nação arco-íris" naquela África do Sul de 1994, em que Nelson Mandela, de regresso ao convívio com os seus conterrâneos num estádio repleto de apoiantes, inicia o discurso em africânder, deixando evidente que o trilho a seguir era o da reconciliação nacional. José Teixeira estava lá, integrando a equipa de observadores credenciados para observar o processo eleitoral: não podia ter sido mais empolgante o seu baptismo de África.
Viajamos com ele às aldeias do Norte, tão esquecidas do poder central, tão abandonadas à sua sorte, sulcadas pela pobreza endémica. Deslumbramo-nos através da sua prosa com a beleza perene do Lago Niassa, dos areais de Pemba. Compartilhamos da sua parca refeição em Montepuez: «galinha macua no restaurante do João, tempos em que não havia electricidade daí que cervejas várias e quentes para ganhar embalo, esse para a árdua tarefa de roer o bicho.» (p. 17)
Angustiamo-nos, tal como ele, ao ver a Ilha de Moçambique, catalogada como património da UNESCO, ameaçar ruína. Enquanto aquele «pesado organismo pejado de funcionários políticos embrenhados nas suas agendas globais» nem consegue obter fundos para ali manter aberto o seu escritório.

Ilha de Moçambique
Comecei este texto aludindo a Torna-Viagem como recolha de crónicas. Mas dou um passo adiante: é mais do que isso. Estamos em larga medida perante verdadeiros contos, dignos de figurar numa antologia do género em língua portuguesa.
Destaco alguns, sugestivos logo pelos títulos: «Nas cheias do Zambeze»; «Na aldeia»; «O camião»; «On the road»; «Um símio em calções»; «O apito»; «As cores na véspera do eclipse»; e o delicioso «Che Guevara na Feira Popular». Além dos admiráveis «Limpopo» e «As estradas do Niassa», inscritos na linhagem de um Ernest Hemingway. Ou «Na torre de anúncios», já retornado aos Olivais, na ressaca da aventura africana.
Entre os imperdíveis, «Autobiografia ideológica»: réplica sui generis a quem costuma acusá-lo de reaccionário. Também o tocante «O meu irmão». E, acima de todos, «Marjorie, o meu primeiro amor» - apaixonado hino em prosa à BD, forma de expressão artística que fascina crianças dos 7 aos 77 anos.
Alguns são comoventes. Como um dos mais breves, que singelamente o autor intitula «A despedida». Em Setembro de 2014 almoça pela última vez em Maputo com a filha pré-adolescente, Carolina, e um casal amigo. Citando o poeta Rui Knopfli, outro torna-viagem: «Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me, obliquamente, nos olhos: / "Não voltas mais?" Digo-lhe só que não.»
Resta-lhe, semanas decorridas, sentir-se «turista na própria cidade», no melancólico regresso a Lisboa. Confissão impressa na segunda parte da obra, intitulada "Ocaso Boreal".
Podia também fazer seus estes outros versos de Knopfli: «Cansados de tantas pátrias, de pátrias / rejeitados, na pátria indesejados, /silentes volvemos, vultos espectrais / no mar lento de negrume e escombros, / ao cais cinzento do destino original.»
Mas outro destino o aguarda: transformar em literatura a vasta experiência vivida. A primeira etapa acaba de cumprir-se aqui.

1. Um amigo, camarada de anos a fio em Moçambique, e que comunga o meu interesse pelo país e pelo que faz o nosso Estado nas relações bilaterais, e em particular nas questões culturais, avisa-me desta notícia: a nomeação de um novo adido cultural para a embaixada de Maputo, José Amaral Lopes, antigo secretário de Estado da Cultura e antigo presidente do Conselho de Administração do D. Maria II, deputado, entre várias outras posições de destaque. Dado o seu perfil "alto" é surpreendente a sua indicação para este posto, até modesto. Mas para todos que se interessam por estas matérias - a mescla entre "acção cultural externa" e "cooperação" - uma nomeação de alguém com este peso biográfico tem um significado: denota um grande e assisado interesse governamental no desenvolvimento destas relações culturais, decerto articulado com alguma capacidade para reforçar os meios, materiais e humanos, dedicados a essas interacções. Fica-se assim - e mesmo que sem "pedir a Lua" - na expectativa de um período de grande desenvolvimento nas conjugações culturais entre ambos os países. Possamos nós fruir disso!
2. Paralelamente - mas sendo, de facto, uma irrelevância - a notícia desta nomeação tem um factor denotativo da mesquinhez intelectual dos mecanismos partidários, em particular os do PS. Amaral Lopes exerce actualmente as funções de presidente de junta de freguesia, eleito pelo PSD. Abandonará o posto para assumir estas novas funções.
O dirigente lisboeta do PS, David Amado, critica-o por ter abandonado a freguesia, dela fugido. Deixando assim até implícito um elogio ao actual presidente, dado que considera gravosa a sua substituição. Mas é a demonstração da total impudicícia desse dirigente socialista. Pois há poucos meses, nesta mesma sua concelhia partidária, um também presidente de junta de freguesia, o socialista Costa, abdicou das suas funções, indo (sem currículo que o justificasse) liderar um mecanismo televisivo de produção de opinião pública. Amado então nada contestou. Entretanto, aqui nos Olivais a socialista presidente de Junta, Rute Lima, aquando reeleita logo se foi a trabalhar para a nova Câmara PS de Loures, e vem por cá "exercendo" funções em regime "parcial". E Amado ficou mudo.
E já agora, até porque o postal é sobre "cultura" e nisso "bibliotecas" - a do Camões em Maputo é muito relevante na cidade - convém relembrar que a biblioteca da Junta de Freguesia dos Olivais, a antiga Bedeteca, sita no Palácio do Contador-Mor (sempre associado aos Olivaes de "Os Maias") está fechada há mais de três anos. Devido a umas obras não estruturais, que se diz terem sido cabimentadas 2 vezes (!!!), e que se vieram arrastando por incúria da junta - estando agora aparentemente culminadas sem que a biblioteca reabra. Diz-se no bairro, e quem sabe, que esteve prevista a reabertura para o início deste Verão, transitando depois para Outubro. Mas que deverá acontecer apenas cerca do Ano Novo - para agitar as águas em ano de eleições autárquicas. Sobre tudo isto - e tanto mais - não fala o tal David Amado. Nem as hostes socialistas.

Fui votar de manhã (e votei bem). Como desta vez se pode fazê-lo em qualquer lugar, em vez de ir até às traseiras de casa, como sempre, fui até ali à frente, à Biblioteca dos Olivais. Foi forma de matar saudades pois a Biblioteca está fechada há mais de três anos (há quem afiance que há já 4...), devido a umas obras superficiais que a Junta de Freguesia tem descurado de modo escandaloso (dizem-me que até foram financiadas duas vezes mas não posso afiançar). O que é engraçado é que indo à página da Junta vê-se como Rute Lima (a presidente em part-time) e seus correligionários PS anunciam os trabalhos sobre um novo jardim que vão instalar em homenagem ao Zé Pedro. Mas nada sobre a reabertura da biblioteca. O que muito me faz lembrar aquilo dos "coronéis" brasileiros do Jorge Amado, que se limitavam a ajardinar para legitimar as malandrices....
Enfim, é o PS nos Olivais, em Lisboa. E Portugal. A "esquerda", dizem, avessa ao "obscurantismo", gabavam-se. E nós, que não gostamos de duplos financiamentos para obras públicas e até vamos às bibliotecas, somos ... "neoliberais", "reaccionários". De "direita"....

Sebastião, és um bom partido?
Ontem, cerca do fim da tarde, recebo uma sorridente mensagem filial: "pai, ouve a partir do minuto 20...". Respondo com esta fotografia, num "verei mas agora estou num ocaso olivalense" - pois sempre em luta ideológica contra estes pacóvios escravos da gamela turística que grunhem "sunset". Estava eu num muito agradável convívio, alguns casais vizinhos agregando este exemplar pós-moderno de solteirão, todos em torno de um belo vinho do produtor, canapés gentis, boa conversa, tudo em varanda defronte ao esplêndido Tejo, longínquo mas sempre vivificador. Lesta vem a resposta dela, jocosa: "dizes-me isso já depois de ouvir?". "Não", pois apenas justificava a minha pouca celeridade na audição...
Ouvi à noite, e percebi o envio e a sorridente resposta. Trata-se da entrevista de Guilherme Geirinhas - de quem já ouvira falar mas nunca vira - a Sebastião Bugalho, o cabecilha AD para as "europeias". A piada era a de que ambos aludiam aos "mitras dos Olivais", esses sempre dizendo "eu sou dos Olivais", e nisso a minha filha logo me reconheceu... Não veio aquilo com ponta de maldade, Geirinhas aludia ao seu próprio pai, Bugalho ao seu antigo chefe, o jornalista Vítor Rainho (que julgo ser da Catió, aqui nas minhas traseiras, ou pelo menos ter por lá parado aquando chavalo). E sim, aceito(-me), a "malta" dos Olivais gostou de crescer aqui, e nisso ganhou uma identidade perene. Mas há algo que estes mediáticos de agora não percebem, por mera ignorância, a qual afixam entre as suas graçolas: não éramos nem somos "mitras", o enorme "bairro" era um caldeirão multiclassista, congregando uma parte do espectro do que eles agora alisam (devido à tal ignorância), como "classe média", gente da média burguesia, da pequena-burguesia, além do operariado e, também, núcleos homelécios então reinstalados. (E continuo na minha, um bom barómetro sociológico seria estudar o acontecido na interacção classista na conjugalidade olivalense, pois é aí que se deverão encontrar os limites ao tal caldeirão...).
E nisso surgimos a estes mais novos menos dados aos "condomínios fechados", mais dados à abrangência dos contactos. Assim "mitras"... E tudo isto se me solta depois ter ouvido a entrevista toda, por muito representar as mundividências dos dois participantes. Trata-se de uma série financiada pela FFMS, e até posso perceber o objectivo: através de Geirinhas mobilizar o público mais jovem para a participação eleitoral. Virtude que não impede o meu esgar. Pois assisto àquilo e lembro-me da velha piada "- Estás com ela por amor ou por interesse? - Deve ser amor, pois interesse não lhe vejo nenhum." Neste caso a pergunta será "- És entrevistado por humor ou por interesse? - Só pode ser por interesse, que humor não lhe vejo nenhum". Entrevistador vácuo, para não dizer pior. E, já agora, um político não precisa de ser erudito, nem precisa de ser melómano. Mas quando se entrega a mediação entre políticos e público a um tipo que nem sabe o que é música de câmara estamos (a FFMS e todos os espectadores) a delegar essa articulação a gente que nem lê. Gente com "piadolas" mas mais nada... Este abandalhamento da política está na moda, os auto-retratos do PR são um sintoma, Costa a cozinhar na "Cristina" o sopé de tudo isso. E a actual obrigatoriedade de "ir ao RAP" (esse que me lembro a fazer entrevista "humanizadora" ao já então consabido mariola Sócrates) instalou-se, no predomínio do sorrisinho para o incauto eleitor... Mas para animador político o RAP ainda tem equipa. Este é pungente.
Tudo isso se reflecte na entrevista. Bugalho é sabido e expedito, um talento natural. E irá longe. Apesar dele próprio. Nota-se ali, com o pobre entrevistador agarrado a dois temas pretensamente humorísticos: a juventude do homem, ainda que este seja mais velho do que o Pitt Jr. quando este chegou a PM do maior império mundial, para arquétipo. Ou, na contemporaneidade, seja da idade de Durão Barroso quando chegou ao governo. Ou da mesma geração de Attal, actual PM francês. Ou mais próximo de Macron do que eu sou dos meus convivas de ontem... E Bugalho corre apenas para deputado europeu. Mas bem pior do que isso é a longa deriva sobre o estatuto social (o estrato social) do candidato, um "quem és tu?" apinocado. E é notório que Bugalho se deixa ir nesse exercício. Ambos reproduzindo, com ironia prazerosa, o edifício da estratificação social. Não são "betos" nem "queques", são burguesotes convictos. Incapazes de se afastarem - por mais retóricas avulsas que façam actuar - das reais loas bem-dispostas a um estratificação crescente. Pois esta lhes é afectiva, identitária.
Bugalho deixou ainda dois apontamentos. Um será até secundário, e não lhe é novo - já o ouvira propalar isso num debate no qual dissolveu uma pobre adepta do dr. Mamadu Ba: confunde racialismo com racismo. Mais uma vez ilustra o seu anti-racismo por o seu padrasto, negro, ter sido tomado por infantes como motorista. Ora meras expectativas plausíveis em determinado contexto não implicam racismo: se este comendador Teixeira, sob vestes mal-amanhadas, em Schaerbeek é tomado como operário da construção civil por uma idosa flamenga ou um boémio bruxelense, isso não é racismo, nem me faz içar os (parcos) pergaminhos académicos.
Mas o segundo apontamento, o que me arrepia, é que Bugalho gosta de toda a gente, é amigo de toda gente, qual avatar de Rogério Alves, aquele bastonário comentador que a todos trata por "meu querido amigo". Ouça-se a entrevista, Bugalho é "amigo" de todos. Excepto, está explícito de modo sublinhado, do "doutor Passos Coelho", do qual é apenas "admirador" - o que dirá muito, e bem, de Passos Coelho e não de todos os outros. Talvez Bugalho seja assim, um verdadeiro "gajo porreiro". Mas, caramba, soa a falso como o Judas, e senti-o em pleno dia do "Corpo de Deus".
Enfim, eu não voto em cabecilhas de listas, e muito menos o faria nas eleições europeias, no qual tal figura é, por si só, irrelevante. Voto em partidos que apresentam listas. Mas, ainda assim, não será após esta iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos que irei votar AD.

Ontem, após o Bayern-Real Madrid, visto em grupo de amigos no café agora "must" dos Olivais, e enquanto se escorropichava a última "imperial", lamentei-me de estar esfaimado. Logo me levaram à Encarnação, onde decorrem as "festas populares". À chegada ouvia-se os UHF. Acorri, constatando que há quase 40 anos não via o grupo de António Manuel Ribeiro ao vivo, laivos saudosistas até.... Quando lá chegámos tocavam a célebre "Cavalos de Corrida"... Depois vieram os "encore", uma "Grândola..." apenas vocal, entoada em registo roufenho com uma senhora da organização (quiçá da Junta).
Entretanto abastecemo-nos dos ambicionados petiscos, fornecidos nas barracas de "comes e bebes", vizinhas dos carrinhos de choque, eu com uma bifana das antigas, daquelas oriundas daqueles pântanos de molhanga com ar vetusto. Enquanto deglutia o manjar voou-me a mente para alhures. Um dos camaradas de comezaina notou-o e indagou o que comigo se passava.
"Estou velho!", resmunguei, lamentando-me. E expliquei-me. Pois no meu bairro de sempre, junto a amigos, diante de imperial e bifana, UHF a rockarem, no que atento é nisto: em pleno centro de Lisboa, esta Junta de Freguesia do PS, essa da presidente Rute Lima (colunista do "Público") e da "vereadora" Vanda Stuart, monta mais uma festarola e clama em cartaz "Há Cultura nos Olivais". E associa isso ao democrático e desenvolvimentista "25 de Abril".
E entretanto a Biblioteca dos Olivais, a antiga BDteca, está encerrada há três anos, ou mais, devido a obras até superficiais, mas tão proteladas de esquecidas, depois como se abandonadas, pois nunca cuidadas. Apenas por desinteresse desta gente PS. Vil e ignorante gente.
"Sou um reaccionário!", concluí. Rimo-nos. E pedimos mais uma rodada de imperiais.