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Delito de Opinião

O mundo nunca deixa de me surpreender

Paulo Sousa, 06.06.25

Não há muito tempo tropecei num dos muitos artigos com que as redes sociais nos bombardeiam, segundo o qual, em 2030 a China seria o primeiro, ou segundo (não me recordo), país do mundo com maior número de católicos. Tive o impulso de morder o isco e, a partir daí, ir à procura de mais dados e informação. Por falta de tempo não o fiz. Numa conversa com amigos introduzi o assunto à baila, o que não deixou de os surpreender.

Em sequência a esse meu mote, um deles relatou que numa viagem profissional a Viena, num intervalo entre vários compromissos, deu por si a passear por um bairro habitacional que, não pertencendo ao centro histórico, se distribuía todo ele ao redor de uma igreja católica. Por curiosidade entrou no templo. Já tinha séculos suficientes para ter uma nave gótica, vitrais e um cadeiral. Reparou numa imagem de um Santo António com o Menino Jesus ao colo. Pela etiqueta que na sua base dizia “Von Padua”, entendeu que era o nosso, o de Lisboa.

Às horas em que não decorrem celebrações, o silêncio das igrejas choca sempre quem nelas entra, especialmente se do lado de fora das portas existir uma cidade. Certamente que à mesma hora não muito longe dali, na Catedral de Santo Estêvão, a coqueluche turística da capital austríaca, os visitantes produziam um ruído incomparavelmente maior do que o silêncio quase sepulcral daquela igreja de bairro. A única excepção vinha de uma minúscula capela localizada logo à direita da entrada. Empurrado pela curiosidade, entrou. Mesmo sem dominar a língua germânica, entendeu que o sacerdote atrás do altar estava a celebrar uma missa. Dois idosos assistiam à cerimónia. Com a sua entrada em cena a assistência à missa aumentou em 50%. Sentiu-se constrangido e, por solidariedade àquela escassez de público, foi ficando. Os dois idosos lá iam respondendo às frases que os ritos definem que sejam ditas pelos fiéis. Mesmo condoído por aquela falta de participação, este meu amigo permaneceu em silêncio. As limitações de alemão em geral e do alemão litúrgico em particular, justificaram tal mudez.

Disse-nos depois que, como em nenhum outro momento até então, teve consciência da descristianização da Europa. O padre seria sexagenário e era o mais novo daqueles três cristãos austríacos.

Ao lado da Igreja funcionava uma creche, que talvez até fosse gerida pela paróquia. Apesar da gritaria distante das crianças e dos inúmeros reformados que preenchem as cidades, mais ninguém ali estava.

 

Foi com este relato fresco na memória que recebi uma newsletter do Expresso com um texto do Henrique Raposo que tinha como título “Lamento, mas o catolicismo está a voltar em força”. Pelo que entendi o texto está apenas disponível nesta mensagem e não no sítio do jornal.

Por não me ser possível resumir o que ali apresenta sem o amputar toscamente, passo a transcrevê-lo:

É suposto vivermos num ocidente laico e pós-religioso. Essa é uma das grandes lentes do nosso tempo, sobretudo quando é aplicada à Igreja Católica, a besta negra das duas grandes narrativas que dominaram a modernidade nos últimos 200 anos: a narrativa francófona e laica baseada em 1789, e a narrativa anglo saxónica e protestante baseada na revolução inglesa e depois em 1776.

Mas a verdade é que o catolicismo é, neste momento, uma força triunfante no mundo inteiro, em África, na China e na Ásia em geral. Na Coreia do Sul o crescimento do catolicismo no último meio século é para lá de inacreditável: já temos quase 6 milhões de católicos coreanos.

Mas queria salientar que esta coolness do catolicismo está a crescer dentro do ocidente alegadamente pós-religioso. No ocidente das apps de telemóvel, o mercado das apps religiosas está a crescer. Da próxima vez que vir um jovem a andar na rua de phones nos ouvidos, pense que ele talvez esteja a rezar com o Passo a Rezar, por exemplo.

Estamos a viver, de facto, algo parecido ao revivalismo católico de há cem anos. Depois de décadas de globalização (segunda metade do século XIX e início do XX) ligada à ciência e à economia, tivemos na primeira metade do século XX um renascimento católico simbolizado por escritores como Greene, Bernanos, Chesterton.

Parece que estamos a chegar de novo a esse ponto.

E não estamos a falar apenas de um crescimento da religiosidade em países onde à partida isso seria expectável, como a Polónia. Embora isto tenha de ser dito: a nova potência europeia, da economia às forças armadas, é uma potência católica, que faz do catolicismo uma identidade fortíssima.

Mas avancemos para os países da Europa ocidental.

Neste momento, em França, o número de adultos que se batizam está a conhecer uma subida incrível. Porquê? Além do óbvio (procura de sentido e pertença num tempo tão marcado por mudanças), é impossível não pensar nesta hipótese: o aumento do islamismo radical dentro de França tem vários efeitos, um deles é o aumento da religiosidade católica. Se as mesquitas estão cheias, porque é que as igrejas estão vazias?

Este fenómeno – batismo ou entrada na vida católica já em adulto – não é apenas um fenómeno francês. Está a acontecer noutros países. Na Inglaterra, em breve, os católicos vão superar os anglicanos. Apetece perguntar: para quê tanto esforço, Henrique VIII? A ascensão silenciosa do catolicismo no Reino Unido é mesmo algo extraordinário que talvez merecesse mais atenção. Até o “Guardian” não tem outro remédio senão falar desta questão. E fica aqui um dado ou pista relacionada com um tema que já abordei noutra newsletter: as sucessivas vagas de imigrantes na Europa trazem pessoas mais religiosas e mais conservadoras e isso tem impacto nesta nova adesão à religião organizada. É por isso que eu dizia há uns meses que a esquerda é que devia ser mais rígida na política de entrada de imigrantes.

Nos EUA, como diz esta peça da Free Press, há dioceses dos EUA que tiveram um aumento de 30% no número de catecúmenos adultos. O tom elegíaco de certas dioceses é claro. Ou seja, o revivalismo católico nos EUA é evidente. O que coloca duas questões.

Primeira: no contexto das crises das igrejas evangélicas, altamente politizadas e desgastadas, a identidade cristã dos EUA vai ser liderada pelo catolicismo, até porque o Papa é americano e porque há um crescimento natural da população hispânica?

Segunda: se a resposta à pergunta de cima for sim, isto é uma profunda mudança na identidade americana, que, num certo sentido, foi feita contra o centralismo da igreja católica. Ross Douthat, cronista católico do “NY Times”, tem dito muitas vezes que o catolicismo, que no passado era associado nos EUA aos imigrantes mais pobres, é hoje visto como a religião mais cool nas elites, substituindo nesse ponto correntes protestantes como o presbiterianismo ou o episcopalismo.

Seja como for, a pergunta "precisa o ocidente de um revivalismo religioso?" já não é um absurdo ou uma discussão meramente académica.

Porque é que isto está a acontecer? As respostas a esta pergunta saem um pouco fora da natureza desta newsletter. Mas parece ser claro que o ritualismo católico, a começar por exemplo no véu das raparigas, tem um encanto e um sentimento de pertença a algo antigo, o que é importante numa era de tantas mudanças drásticas. Quando tudo está a mudar à nossa volta, pertencer a um rito com 2000 anos talvez dê algum conforto e pertença. Eu sou daqueles que ficam incomodados com este apego ao lado externo e meramente litúrgico da fé: o véu, as missas tridentinas em latim. Mas este revivalismo existe e é um dado importante.

Para terminar, deixo um ponto interessante para desenvolvermos em breve. Parece que são os homens que estão a liderar este revivalismo. Nos EUA, elas estão a deixar a igreja(s), são eles que estão a ingressar. Idem para Inglaterra. Ou seja, este revivalismo religioso faz parte da diferença em curso entre homens mais conservadores e mulheres mais progressistas? De que forma o ingresso dos homens na Igreja pode atenuar ou reforçar os excessos da tal masculinidade tóxica que alimenta parte do populismo? Um homem católico pode olhar para Trump e Ventura e sentir-se representado?

Termino o postal, que já vai longo, com uma outra ideia. Apesar da não coincidência temporal entre a laicização do Ocidente e a sua perda de centralidade geoestratégica, não deixa de ser curioso que os novos polos dessa centralidade, sejam também os novos polos do catolicismo.

O Ocidente sob fogo no sofá

Pedro Belo Moraes, 27.10.23

Habituados ao fast food, os ocidentais só toleram a fast war. Viciados na transacção de emoções, na partilha de sentimentos, os ocidentais pululam entre Apps. Num dia ficam esmagados pelos pushes da torrente de notificações que dão acesso às imagens horríficas do terror do Hamas no dia 7 de Outubro; nos outros indignam-se, revoltam-se, enfurecem-se com a operação militar israelita que “ocupou” a miríade de Apps.

De palas nos olhos, os ocidentais passam a ver apenas a destruição de Gaza e o drama humano por ela provocado. E a emoção mais recente é a que os move. Comove. E tudo à distância de um clique num ecrã do telemóvel ou do lesto polegar carregando nas teclas do comando remoto do televisor. E o comando ser remoto é o eufemismo disto tudo.

É o Ocidente no sofá. Sempre descansado porque mero mirone a salvo das injustiças que o ofendem. Insurgido com as atrocidades cometidas sobre inocentes, claro!, mas raras vezes assustado, raríssimas vezes vislumbrando que a peça que o ofende é, apenas e só, uma pequena parte de um puzzle que uma vez construído - e o dito está em construção - destruirá a ordem mundial que nos coloca a nós Ocidente como a única representação dos valores da tolerância, liberdade, democracia, diversidade. Os mesmos que estão sob fogo porque como as normas que nos regem há séculos o Ocidente está sob fogo. E tem de se defender.

Mas voltemos às emoções. Lembremo-nos da comoção geral nos Parlamentos vários, muitos, das democracias liberais, de cada vez que foram bradadas declarações do tipo: “Os ucranianos estão a lutar por nós.”; “É a Ucrânia que combate aquele que ameaça o nosso estilo de vida.”; “Uma vez derrotadas as forças de Kiev, o imperialismo vai querer expandir-se Europa fora.” Tudo isto, claro, replicado, retuitado, reencaminhado redes sociais fora. A necessária e tão desejada ração de emoção servida minuto-a-minuto, hora a hora. Like it!

Não tenhamos dúvida: como os ucranianos, também os israelitas estão a defender-nos. A destruição de uns e outros faz parte de um puzzle. A invasão russa da Ucrânia e o ataque do Hamas a Israel (a única democracia liberal da região) fazem parte de um plano que tem como objetivo primeiro e último destruir o referencial de civilização que é o Ocidente.

Os que nos ameaçam e acossam, os nossos inimigos, são os mesmos numa guerra e noutra. Uns às claras, outros na sombra, juntos compõem um eixo anti-Ocidente, anti-democracia liberal. Reúnem-se, negoceiam, recebem-se com honras de Estado o presidente que se eterniza no poder e invade um país soberano; as lideranças do regime dos ayatollah detentores do poder supremo; os obreiros da aparente benevolente mas omnipresente e poderosa nova rota da seda. Todos estão às claras ou na sombra por detrás das duas guerras que emocionam, comovem e revoltam as sociedades ocidentais.

Não há coincidências. Não há.

As repetidas barbaridades cometidas pelo Hamas no interior de casas onde executaram com fúria famílias inteiras, violaram mulheres, degolaram bebés, e nas ruas onde espancaram homens até à morte e cujos cadáveres sobre os quais cuspiram com raiva e não menos desprezo, e mais ainda o massacre levado a cabo num festival igual em música, idêntico no espírito e na liberdade que sentimos nos festivais em que estivemos inteiros e seguros; tudo isso, tudo isto, no seu horror mais íntimo que acabou por provocar um grito de terror mundial, tudo isto coincidiu com a proximidade da assinatura de um acordo de normalização das relações entre Israel e Arábia Saudita. Uma aproximação geopolítica, geoestratégica que ameaçava de morte o plano de poder regional do Irão, essa teocracia que – rufem os tambores! – é o grande financiador do Hamas. E também não há coincidências quando a Rússia quis aprovar uma resolução no Conselho de Segurança da ONU sem condenar o acto terrorista do Hamas. E não é mesmo coincidência a dependência russa dos drones iranianos na guerra da Ucrânia. Facto que coincide com outro: Irão e Rússia vêem nos EUA o Grande Satã. Expressão que não tenho tempo para traduzir para mandarim, mas que estou seguro será dita à boca cheia nos gabinetes de Pequim.

Sim, o Ocidente extravasa o mero hemisfério ocidental. É a NATO, a UE, e está na Austrália, no Japão, na Coreia do Sul, as democracias liberais na Ásia, etc. E não disputa o domínio dos EUA. Antes aceita que o Ocidente domina os valores que não são respeitados por quem disputa a civilização ocidental, desprezando a liberdade religiosa, os direitos das mulheres, a liberdade de imprensa, a democracia, a tolerância, a defesa das minorias.

Os ocidentais produzem e consomem muito entretenimento sobre ameaças terroristas ou conspirações de países e protagonistas com planos maléficos para destruir a antiga ordem mundial, fazendo nascer uma nova na qual são a força dominante.

O entretenimento é tanto melhor quanto mais verosímil for. Quem o consome sabe-o mas fica-se pelas pipocas. Quanto muito, entre tramas, passa para as bolachas e chocolates e, na medida do possível, mexendo-se pouco, pouquíssimo do sofá. Isso, quanto muito, fará para receber à porta de casa um Glovo ou um UberEats, pedidos feitos na App e pelos quais esperará enquanto recebe e abre as notificações dos horrores cometidos porque foi atacado e ataca. De verdade. Enquanto se comove com o drama de quem trava uma guerra existencial contra quem não lhe reconhece a existência. O direito a existir.

Convençamo-nos e preparemo-nos: não há fast-war. As guerras que existem não acabam, não se resolvem mudando de canal de TV ou apagando as notificações no telemóvel. E quem lançou os dois conflitos sangrentos que hoje minam a estabilidade mundial despreza as cadeias de fast-food e mais que isso considera abjectas as fast war. Mas amam as longas. As guerras que travam e alimentam são antigas, longas e preparadas. As que grassam no Médio Oriente e no Leste da Europa são disso exemplo.

E nós, Ocidente, temos de nos preparar e acordar para isso mesmo. Não podemos mais continuar apenas no sofá.

 

(Artigo de opinião publicado no dia 20 de Outubro na página da CNN Portugal)

O declínio do Ocidente.

Luís Menezes Leitão, 20.12.14

 

Tenho vindo a falar várias vezes da guerra das civilizações que me parece cada vez mais evidente a cada dia que passa. O que, no entanto, verdadeiramente me escandaliza é o declínio do Ocidente nesta nova guerra que se avizinha. Um dos factores mais preocupantes é a fraqueza com que o Ocidente defende os seus valores, entre os quais a liberdade de expressão e de imprensa. Um dos primeiros sintomas da força do Ressurgimento Islâmico foi a forma como o Ocidente reagiu ao livro de Salman Rushdie, The satanic verses, que indignou Khomeiny, lançando uma fatwa contra o seu autor. Na altura vários países ocidentais optaram por não publicar o livro, por receio de represálias, quebrando assim uma tradição da liberdade de imprensa. 

 

Agora, no entanto, o ataque foi ainda mais sério, com a Sony Pictures a abandonar a distribuição do filme The Interview, que satirizava o líder da Coreia do Norte, filme que já levou os chineses a acusar Hollywood de "arrogância cultural absurda". Não me espanta que os chineses acusem um filme de Hollywood desses epítetos, já que tenho a certeza que os alemães à época terão dito muito pior do filme de Charles Chaplin, The Great Dictator, que ridicularizava brutalmente Hitler.

 

A questão é que em 1938 quando toda a gente olhava para o lado perante a perseguição dos judeus na Alemanha, Charles Chaplin teve a ousadia de rodar um filme contra Hitler. Mais tarde, em 1940, Hollywood não hesitou em distribuí-lo, ainda os Estados Unidos não tinham entrado na guerra. Hoje pelos vistos a Sony Pictures termina a distribuição de um filme por o mesmo desagradar ao líder da Coreia do Norte e ter receio de represálias de hackers. Se alguém tinha dúvidas sobre o declínio do Ocidente, aqui está a prova irrefutável.