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Lamento

por Pedro Correia, em 09.01.19

Uma das melhores livrarias de Lisboa, de que fui durante anos visitante e cliente habitual, era a Bulhosa, situada no extremo sul do Campo Grande, já quase em Entre-Campos. Um dia, há pouco mais de um ano, encerrou "para inventário", como rezava o letreiro. Não voltou a abrir: morreu assim, ingloriamente, perante o alheamento quase total desta cidade que anda de costas ostensivamente viradas para a cultura.

Há dias passei por lá. Onde morou a Bulhosa está agora um desses estabelecimentos pindéricos que prometem "depilação total nas axilas e nas virilhas" em letras garrafais estampadas à entrada. É uma actividade em expansão, ao que parece. A malta preocupa-se com a fachada e marimba-se para o intelecto: os neurónios não propiciam fotos giras no Instagram.

Lamento, claro. Mas não estranho. Ainda há pouco, numa roda de amigos com um nível cultural supostamente acima da média, perguntei-lhes quantos livros tinham comprado em 2018. Zero, nada: nem um. «Li por obrigação quando andava na escola, felizmente hoje já não preciso disso», respondeu um, sem sombra de ironia. Daí as livrarias - que também eram um espaço de convívio, de socialização, de buscas e descobertas - irem fechando, umas atrás das outras, por esse país fora. Pobre e frívolo país, tão mal instruído e tão bem depilado.

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Expressamente

por Pedro Correia, em 26.12.18

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Ah, doce país este, em que aquele que é considerado o mais influente jornal cá do burgo, ao lado de uma manchete com pura propaganda governamental, elege como notícia mais relevante da semana, ao alto da sua primeira página, nada menos que isto: «Expresso abandona o saco de plástico». Em nome da «sustentabilidade do nosso planeta» e em parceria com um destacado grupo empresarial português, naturalmente mencionado com todas as letras. Para ficar bem claro que naquela respeitável montra jornalística a propaganda não é só política. Expressamente.

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Do amarelo ao encarnadinho

por Pedro Correia, em 22.12.18

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Esta frase ontem dita por um indivíduo aos jornalistas destacados no terreno - e que, somados aos polícias, suplantavam os manifestantes em número - resume o fiasco dos "coletes amarelos", versão tuga: «Eu sou solidário com eles... mas tenho de trabalhar.»

Há uma diferença enorme entre os indignadinhos de sofá, sempre prontos a clicar contra o "sistema", seja lá o que isso for, e aqueles que estão dispostos a sair à rua, consequentes com a revolta que dizem sentir. A verdade é que - isso ficou bem demonstrado ontem - não basta copiar o que lá fora se passa nem ser campeão das bravatas em redes sociais. Quando há que dar a cara, assumir a identidade, ter o incómodo de mergulhar no país real, esvai-se a ousadia oculta em pseudónimos na Rede.

 

Se fosse o próprio Governo a organizar este "protesto", não lhe teria saído melhor: duas dúzias de mabecos gritando slogans inconsequentes no Nó de Francos ou na rotunda do Marquês de Pombal, como se ali houvesse sedes de órgãos de soberania. Prejudicando afinal apenas o cidadão comum que diziam representar, enquanto desafinavam penosamente, tentando trautear umas estrofes do hino nacional perante as televisões.

Pretenderam imitar os franceses. Esquecendo que os gilets jaunes não desceram às praças e avenidas numa sexta de manhã, mas em sucessivas tardes de sábado - podendo assim agregar gente que trabalha durante a semana. E escolheram os locais mais emblemáticos das cidades - desde logo Paris - para centro nevrálgico dos protestos. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa aludia ontem, ironicamente, à sua passagem episódica pelo Marquês de Pombal, ao fim da tarde, para «observar o que se passava», já que a vasta praça fronteira ao Palácio de Belém fora deixada em sossego apesar de reunir todas as condições para dar visibilidade a qualquer manifestação de rua.

 

Os promotores deste "fiasco amarelo" revelaram a sua inépcia, desde logo, na lista de putativas "reivindicações" que difundiram nas redes: querem, ao mesmo tempo, diminuir a receita fiscal e aumentar a receita pública. Tudo e o seu contrário: menos IRS, menos IRC, IVA mais baixo, salário mínimo a disparar, pensões de reforma e subsídios de desemprego mais elevados. Uma quadratura do círculo que equipara qualquer deles aos mais incompetentes membros da classe política que dizem abominar.

Sou capaz de entender porque não marcaram para hoje os tais protestos: faltam só três dias para o Natal. Imagino-os atarefados, a esta hora, na corrida às grandes superfícies, cartão de crédito na mão. Já não de amarelo, mas de encarnadinho - a cor do Pai Natal.

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As ruínas do interior

por Pedro Correia, em 17.06.18

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 Foto: Global Imagens

 

Faz hoje um ano. Vamos lembrar-nos para sempre desta data trágica: 17 de Junho de 2017. O mais mortífero conjunto de fogos florestais ocorridos em simultâneo em Portugal, a 11.ª mais devastadora tragédia do género de que há registo desde 1900 a nível mundial.

Houve 66 mortos oficialmente contabilizados nos incêndios que devastaram 53 mil hectares de território, abrangendo 11 concelhos*, durante uma semana -  47 dos quais apanhados pelas chamas, naquele dia fatídico, em plena Estrada Nacional 236. E 254 feridos, pelo menos sete deles em estado muito grave.

Cerca de meio milhar de casas (169 de primeira habitação) e quase 50 empresas foram destruídas, perdendo-se 372 empregos directos. Mais de um milhar de animais mortos - no caso dos mamíferos, sendo incalculável o número de aves e outras espécies dizimadas pelas chamas.

Quase 200 milhões de euros em prejuízos globais - floresta, agricultura, habitações, actividade industrial e turística, rede viária.

Um ano depois, muitas cinzas já estão cobertas por mantos verdes - neste ciclo incessante da natureza que sempre se renova. Mas o luto persiste, irrevogável, no calcinado Portugal do interior. O mais velho, o mais pobre, o mais frágil. O que sempre mais sofre.

 

* Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Góis, Penela, Pampilhosa da Serra, Sertã, Alvaiázere, Ansião, Arganil e Oleiros

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'Melting pot' à portuguesa

por Pedro Correia, em 15.06.18

Diz-me o merceeiro do Bangladeche, estabelecido cá no bairro há pouco mais de um ano: «Hoje vamos ganhar. Cristiano Ronaldo é o maior!»

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Peças descartáveis

por Pedro Correia, em 06.05.18

 

Este país não é para velhos.

 

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'Chic' espertismo

por Pedro Correia, em 04.04.18

O chico-espertismo tuga não é menos condenável quando surge com rótulo cultural. Há quem prefira chamar plágio ao roubo, o que soa sempre mais chic.

Mas quando o roubo é caucionado pelo Estado, com a Direcção-Geral da Educação a exibi-lo em itinerância pelas principais cidades do País e com "condições especiais de acesso para escolas", a coisa torna-se ainda mais grave.

Se há experiência pedagógica a que as criancinhas devem ser poupadas é à da exibição do furto de propriedade intelectual. Se a moda pega, o Ministério da Educação ainda vai pô-las a ouvir o Tony Carreira: ou há moralidade ou plagiam todos.

Encurtando razões, exprimo aqui a minha solidariedade com Deana Barroqueiro. Como canta o Fausto, "quem conquista sempre rouba / quem cobiça nunca dá".

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Quando os analfabetos imperam

por Pedro Correia, em 02.04.18

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O analfabetismo funcional está aí, aos olhos de todos, em doses galopantes. Até em folhas e trombetas que fazem gala em examinar à lupa o currículo académico de figuras públicas, várias das quais fariam melhor em adoptar tamanha exigência na própria casa.

Esse analfabetismo faz comprimir o vocabulário até doses ínfimas, adultera a ortografia à mercê de pseudo-normas que ninguém pode levar a sério (ainda ontem, numa série legendada em acordês, li “para aqui” quando pretendia dizer-se “pára aqui”) e põe a sintaxe portuguesa a fazer o pino, à boleia da vulgata brasileira que impera na Rede.

Há dias, uma determinada figura pública presumindo-se culta colou numa mensagem digital uma pomposa citação de Oscar Wilde em tradução brasileira, sem reparar sequer que aquela não é a nossa sintaxe. Pretendia ser coisa séria, mas soou como as velhas dobragens no país vizinho que punham John Wayne a mandar vir com os índios em espanhol.

 

Um excelente romance em língua inglesa traduzido para português torna-se quase ilegível dada a opção do “tradutor” em utilizar o nosso idioma com a sintaxe original, abusando dos pronomes pessoais e possessivos, usados com extrema parcimónia em português, ao contrário do que sucede em inglês – daí resultando frases como “ela esperava que a sua mãe não estivesse a dormir e ficou à espera que a sua mãe abrisse a porta”.

As traduções literalíssimas, atendendo só à forma sem prestar a menor importância ao conteúdo, já levaram a que vin rouge fosse traduzido para “vinho vermelho”. Parece brincadeira, mas não é: deparei com esta barbaridade numa série francesa vista há meses.

E por falar nisto: a nossa maltratada língua sofre entorses diárias com traduções pedestres que adulteram por completo a carga semântica dos vocábulos. De súbito, somos brindados com “demonstrações” como equivalente a manifestações (demonstrations, em inglês) ou “realizar” como surpreendente sinónimo de “entender” ou “perceber”, relegando para longa distância o antiquíssimo significado de empreender ou concretizar. Há mesmo um escritor muito galardoado que povoa as suas páginas de realizar – embusteira tradução literal do to realize inglês.

 

Há umas semanas abriu em Lisboa um muito badalado espaço de culinária gourmet protagonizado pelas figuras do costume, que são sempre as mesmas. Anos atrás chamar-se-iam cozinheiros, hoje só respondem a quem os trate por chef – assim mesmo, sem e final, à francesa.

Esse espaço está a ser promovido nas tais folhas e nas tais trombetas como mostra de “cozinha casual”. E eis que por nova colagem do inglês um adjectivo que no nosso idioma sempre significou imprevisto ou acidental se cola ao significado de importação, que é “informal” ou “descontraído”.

Alguns exemplos, entre tantos outros, do tal analfabetismo militante. Que impera por aí e teima em impor-nos as suas regras. Se não falarmos ou escrevemos como eles querem, ainda nos chamam ignorantes.

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Já não há paciência

por Pedro Correia, em 15.05.14

 

Para a palava maldição e para esta tendência tão portuguesa de justificar desaires próprios com a suposta intervenção de forças ocultas. Basta percorrer os olhos pelas capas dos jornais de hoje e lá salta o famigerado lugar-comum que nada explica e dá uma imagem muito pálida do nosso talento jornalístico:

«Maldição» (Record)

«Derrota na maldição dos penáltis» (Correio da Manhã)

«Beto foi maldição que chegue» (O Jogo)

«A maldição de Beto Guttman» (Jornal de Notícias)

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Depois dos submarinos e dos carros, chegou a hora do aeromodelismo

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.14

Já se sabia que o ministro da Defesa era um apaixonado de brinquedos, mas aqui talvez arranjassem alguma coisa mais barata onde gastar o nosso dinheiro. E que voasse, mesmo investindo no treino.

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E se fossem sempre sete em vez de treze?

por Pedro Correia, em 24.08.13

Segundo o Expresso de hoje, o Tribunal Constitucional prepara-se para duas semanas de frenética actividade com apenas metade (mais um) dos seus membros em plenitude de funções. Nem o facto de o Palácio Ratton estar a ser inundado de pedidos de impugnação de candidaturas às eleições autárquicas de 29 de Setembro, tanto a nível de câmaras municipais como de juntas de freguesia, e dos recursos das decisões já tomadas por tribunais de primeira instância pró ou contra as referidas candidaturas levou Suas Excelências a abdicar do tradicional período de férias, fixado anualmente de 15 de Agosto a 14 de Setembro, quer chova quer faça sol.

Cabendo decisões tão importantes da nossa vida colectiva como o destino de candidaturas autárquicas em Lisboa, Porto, Aveiro, Évora, Beja, Oeiras e Loures, com reflexos directos no eventual desfecho eleitoral, cabe perguntar se este facto não devia bastar para alterar o programa de férias dos senhores magistrados do Constitucional, que auferem 6.130 euros mensais e cumprem um mandato de nove anos, não prorrogável, gozando das "garantias de independência, inamovibilidade, imparcialidade e irresponsabilidade", conforme consigna a Constituição da República.

Nas próximas duas semanas, o Tribunal Constitucional terá também de pronunciar-se sobre outra questão muito polémica: o pedido de fiscalização preventiva oriundo da Presidência da República sobre o sistema de requalificação dos funcionários, que abre pela primeira vez a porta a despedimentos na administração pública. Nem isto fez alterar os costumes no Palácio Ratton. Segundo salienta o Expresso na notícia que faz manchete do semanário, estes revelantes assuntos de Estado, do qual depende o destino de centenas de milhares de portugueses, estão confiados ao escrutínio de apenas sete juízes, em vez dos 13 que compõem o órgão máximo de apreciação de leis em Portugal.

"Ou seja, bastam quatro juízes para fazer a maioria que decide o destino de milhares de trabalhadores. O mesmo 'piquete' de turno vai ainda decidir sobre a eligibilidade de 11 candidatos a presidentes de câmara", lê-se na notícia, assinada pela jornalista Rosa Pedroso Lima.

Se basta uma frágil maioria de quatro contra três para fixar doutrina jurídica tão decisiva ao longo deste mês com uma agenda preenchidíssima, cabe perguntar se o Tribunal Constitucional não poderia funcionar o ano inteiro com apenas sete juízes. Sempre seria possível poupar algumas "gorduras do estado" neste país em crise.

 

Leitura complementar: Férias judiciais no Tribunal Constitucional, do Luís Menezes Leitão.

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Como é diferente o país de Agosto

por Pedro Correia, em 13.08.13

 

Zapo pelos canais de notícias, por estes dias, e não encontro nenhum dos comentadores televisivos que ainda há bem pouco prediziam as maiores desgraças neste país assolado pela crise. Onde está a douta eminência que no pretérito Inverno sentenciava que "a crise do sistema político português pode fazer o poder cair na rua até ao Verão"? Onde foi parar aquela alma perturbada que proclamava com solene gravidade há pouco mais de um mês: "Estamos perante a uma crise política de dimensões colossais, a nível de Portugal e da Europa." E o que será daquela voz tremebunda que em Julho assegurava aos assustados compatriotas: "Há uma situação de manifesta irregularidade no funcionamento das instituições"?

A banhos, dizem-me.

Foram todas a banhos - a douta eminência, a alma perturbada, a voz tremebunda estarão neste preciso momento a estender a toalha ao sol enquanto douram as requintadas epidermes. Durante todo o mês de Agosto, o país terá de resignar-se à ausência destas sumidades. Apesar da crise. Apesar do iminente segundo resgate que já anteviam em directo nas pantalhas. Apesar da provável saída de Portugal do euro, que tiveram o desassombro de profetizar. Apesar da possível fragmentação da pobre União Europeia, como não se coibiram de prever em tom caviloso. Apesar dos tumultos nas ruas que consideraram ser tão fatalmente inevitáveis como o Outono suceder ao Verão.

Ligamos as televisões e deparamos com amenidades. A esplanada da moda, a praia ideal, o passeio imperdível, a música mais em voga, as romarias campestres, os artesãos das aldeias, as iguarias inigualáveis. Retalhos de um discurso jornalístico que, à míngua da agenda política e sindical, transmite a ilusão de estarmos num país onde não sucede nada. O país de Agosto, antagónico daquele que as mesmíssimas televisões nos mostraram de Janeiro a Julho.

Em Setembro, vão-se as amenidades e regressam as sumidades. Mais bronzeadas, mais anafadas e ainda mais empenhadas em fazer soar o trovão do apocalipse. Levanta-se a toalha da areia, voltam a ouvir-se de novo frases como estas, ao ritmo de um thriller em sessões contínuas: "Portugal atravessa uma crise da qual muito dificilmente sobreviverá"; "Isto chegou ao fundo dos fundos"; "Assistimos ao apodrecimento das instituições".

Mal posso esperar.

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Uma tempestade perfeita era assim

por Rui Rocha, em 30.10.12

Domingo - Clara Ferreira Alves estica o pescoço em diferido. Marcelo Rebelo de Sousa pede a remodelação do governo pela 4ª (quarta) vez em 10 (dez) minutos. O Sporting faz uma exibição miserável em Fornos de Algodres. 

2ª feira - Mário Soares diz do governo o que João Miranda não disse dos impostos de Sócrates. Vítor Gaspar inicia, a meio da tarde, a 3ª (terceira) explicação da progressividade reforçada do imposto sobre o rendimento. Medina Carreira anuncia o fim dos tempos pela 140ª (centésima quadragésima) vez.

3ª feira - João Miranda descobre as vantagens redentoras do aumento da carga fiscal. João Galamba apresenta o perfil da dívida pública na segunda metade da primeira década do século XXI (expurgada dos efeitos do incentivo ao abate de veículos). Manuel Alegre declama um poema sobre o estado de conservação dos dentes dos credores. 

4ª feira - Tó Zé Seguro proclama intransigência na defesa do Estado Social. Vítor Gaspar conclui a explicação da progressividade reforçada do imposto sobre o rendimento. Jorge Sampaio pigarreia. Pedro Santos Guerreiro publica um artigo notável no Jornal de Negócios em que usa a adversativa pelo menos 13 (treze) vezes.

5ª feira -  O Jornal de Negócios publica uma entrevista de Fernando Ulrich. O Sporting faz uma exibição miserável, agora na Liga Europa. Pacheco Pereira põe as mãos sobre a barriga, António Costa sorri e faz boquinha e Lobo Xavier tenta encontrar posição mais confortável na cadeira. O Jornal de Negócios abre o acesso à entrevista de Fernando Ulrich na edição online.

6ª feira - Paulo Campos dá entrevista exclusiva a canal de televisão. D. Januário recupera em directo da sinusite minutos antes de Vítor Ramalho desfiar, na cara de Mário Crespo, as virtudes da ética republicana. Enquanto assistes de olhos esbugalhados, lembras-te que perdeste a única emissão radiofónica do Governo Sombra que passa a horas cristãs.

Sábado - um membro do governo diz uma patacoada qualquer sobre as fábulas de Esopo ou sobre a indumentária dos comentadores. A CGTP promove uma manifestação multitudinária. Na RTP 1 (um) o Chefe Cordeiro resmunga contra a consistência do bacalhau confitado em cama de alface frisada e espuma de rabanete no preciso momento em que uma das crianças muda para o Gosto Disto.

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Após a batalha todos somos generais

por Pedro Correia, em 04.04.12

 

Nunca os economistas estiveram tanto em voga: quanto maior é a crise, mais rivalizam com os futebolistas enquanto campeões da permanência nos ecrãs televisivos. A esmagadora maioria limita-se a dizer-nos o que todos já sabemos, embora o diga com indisfarçável convicção: que as coisas estão más, que a situação é difícil, que a recuperação será penosa, que os problemas sociais poderão multiplicar-se, que a criação de emprego é um objectivo prioritário mas de concretização problemática. Patati, patatá.

Ouço este corrupio de crânios em desfile na pantalha, noite após noite, e questiono-me por que motivo não terão eles surgido com a sua palavra avisada e esclarecida quando o rumo dos acontecimentos era ainda incerto e a prosperidade parecia prolongar-se em rota ascendente ao contrário do que sucedeu depois.

Há um velho aforismo que me vem à memória em momentos destes: depois da batalha, todos somos generais.

E lembro-me de outro: Deus criou os economistas para que os meteorologistas tivessem credibilidade.

Estamos bem entregues com tantos génios a velar por nós.

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Macro, micro

por Pedro Correia, em 09.02.12

As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. Alguém sopra uma coisa via telemóvel, o sopro salta para o twitter ou o facebook -- e é quanto basta para se assemelhar a ignição de fogo pronta a incendiar a pradaria mas que afinal se limita a chamuscar uns canteiros. Mal as chamas irrompem num determinado local, logo outro foco se propaga noutro sítio com o mesmo grau de aparente intensidade do anterior e com a mesma duração média, que raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso.

E assim sucessivamente. Tudo macro indignado. Até à micro indignação seguinte.

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Serviço público descarrilado

por Pedro Correia, em 18.01.12

 

Gare do Oriente, meio dia menos dez. Um casal de meia idade e aspecto humilde acerca-se da bilheteira: "Podemos comprar aqui dois bilhetes para o comboio das quatro e tal para Irún?" Resposta seca e ríspida do funcionário: "Aqui, não. Só no guichê do lado, que está fechado, como podem ver. Só abre às 12 e 40."

-- E então o que podemos fazer? -- insiste o homem, provavelmente emigrante em França, de chapéu na mão.

-- Se querem comprar agora o bilhete terão de ir a Santa Apolónia.

Assim trata a CP os seus utentes: remetendo-os de um extremo ao outro de Lisboa. Só porque um guichê não está aberto por volta do meio-dia e o funcionário do guichê do lado pode vender bilhetes para uns destinos mas não para outros. Como se vivêssemos na era pré-digital, quando a informação não circulava em rede.

O casal lá se afastou, melancólico e cabisbaixo, procurando um lugar abrigado na inóspita gare para entreter o tempo. Faltavam 50 minutos para o guichê abrir e mais de quatro horas até o comboio passar.

Um quadro de meados do século XX em pleno século XXI. Exceptuando a noção elementar de serviço público: essa sim, perdeu-se pelo caminho. Descarrilou, para usar um termo mais apropriado à situação.

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'Vox populi' tuga

por Pedro Correia, em 09.12.11

 

É sempre muito estimulante escutar a voz do "povo" nas emissões televisivas. Hoje, particularmente, tornou-se incontornável -- como agora se diz -- saber o que a vox populi tuga tinha a perorar sobre a cimeira europeia.

O resultado não podia ser mais edificante. Como sempre sucede nestas circunstâncias, fiquei mais sábio ao fim de uma hora de emissão recheada de judiciosas opiniões de telespectadores na SIC Notícias -- o canal que esta tarde escolhi para o efeito.

Transcrevo, com a devida vénia, algumas das opiniões que me pareceram mais relevantes, deixando qualquer juízo suplementar naturalmente à consideração dos leitores deste blogue.

 

1. Agora é que as coisas vão piorar mesmo

«A cimeira não vai resolver nada. Se não resolveu nada até agora, também não vai resolver. Em Portugal as pessoas estão a viver muito mal. Agora é que as coisas vão piorar mesmo. Tem que haver uma mudança radical. Portugal tem de sair do euro, não há outra solução porque nós estamos a endividar-nos ainda mais.»

 

2. A solução é sairmos da União Europeia

«O grande erro de Portugal foi ter aderido à União Europeia. O dinheiro nunca foi aplicado como devia ter sido: metade foi para as empresas e a outra metade para comprar carros de luxo. Agora a solução é sair da UE. Isto o que vai dar é cada um olhar por si. A UE vai acabar porque é uma fantochada e só serve os interesses dos mais poderosos.»

 

3. Primeiro-ministro não prescinde do salário

«O primeiro-ministro italiano, Mario Monti, prescindiu do salário. E em Portugal? O primeiro-ministro recebe cinco mil euros enquanto o funcionário público recebe só mil euros. O primeiro-ministro foi para Marselha e para Bruxelas, continua a viajar e não é responsabilizado por aquilo que ganha. E quem paga? Os funcionários públicos.»

 

4. Eixo Washington-Londres é o problema

«A cimeira não leva a nada. Só serviu para mostrar que há uma cisão entre a Inglaterra e o resto da Europa. O eixo Washington-Londres é o problema fundamental da crise mundial. O problema é como nós iremos resolver isto daqui para a frente. Sinceramente, não sei.»

Publicado também aqui

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Uma cidade roída pela solidão

por Pedro Correia, em 18.07.11
Nos longos dias de Verão, quando muitos dos que aqui trabalham vão de férias, percebemos melhor como Lisboa está a transformar-se numa cidade povoada por velhos. Os jovens são cada vez mais empurrados para a periferia, tornando o centro da capital um domínio praticamente exclusivo de gente idosa, que quase nem sai à rua e se limita a espreitar o mundo pelo ecrã da televisão ou por um olhar furtivo à janela. Entre os recenseamentos de 1981 e 2001, Lisboa perdeu 20 por cento da sua população fixa. Há ruas onde não mora ninguém. E tudo isto, que devia ser tema de intenso debate público, parece não espantar ninguém. “On s’ habitue, c’est tout”, cantava Jacques Brel numa das suas mais belas canções. É isso mesmo: vamo-nos habituando à invasão do insólito no nosso quotidiano e já não estranhamos rigorosamente nada.



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A lata tem os dias contados

por Pedro Correia, em 16.03.11

 

 

Tanto barulho para nada. Andam os espíritos muito alvoroçados porque um simpático duo intitulado Os Homens da Luta, composto pelos irmãos Jel e Falâncio, venceu o Festival RTP da Canção com um tema “revolucionário”. Que horror. As tias “socialistas” tremem de indignação: que mau aspecto, que falta de chá, a imagem portuguesa ficará manchada por estes nossos representantes no certame da Eurovisão, a realizar em Düsselforf. A começar pelo nome da cançoneta que se atreveram a levar ao palco do Teatro Camões, em Lisboa: A Luta é Alegria.

Nada disto faz sentido. O Festival RTP permanecia moribundo há pelo menos 15 anos. Jel e Falâncio acabam de recuperá-lo do estado comatoso em que se encontrava: de repente quase não se fala de outra coisa em Portugal. A RTP vive, graças a eles, um inesperado (e talvez indesejado) momento de glória como só tinha ultimamente por ocasião de uma ocasional partida de futebol. Além disso, os Homens da Luta não nasceram ontem: têm muita estrada percorrida. Começaram há anos com um programa intitulado Vai Tudo Abaixo , na SIC Radical, que era uma corrosiva diatribe aos hábitos e costumes portugueses, sem poupar nada nem ninguém. Munidos de uma viola e de um megafone, irrompiam em comícios, manifestações, celebrações laicas e religiosas, e até em posses de governos, como herdeiros improvisados das sátiras vicentinas à dimensão dos tempos actuais. Não se especializaram no humor politicamente correcto, liofilizado e engomadinho de outros: eles adoram mesmo disparar em todas as direcções. Por isso a rábula que levaram ao palco do festival visa caricaturar, em primeira linha, certos baladeiros pós-25 de Abril, com a sua música pseudo-revolucionária misturando estribilhos com batida folclórica, e em segunda linha funciona como uma farpa afiada aos actuais detentores do poder político, autênticos vendedores de ilusões.

Se Portugal fizer má figura na Alemanha, nos tempos mais próximos, certamente não será por culpa dos Homens da Luta. Segundo as mais recentes sondagens, 60 por cento dos contribuintes alemães – muitos dos quais irão a votos este ano, em sucessivas eleições estaduais – recusam continuar a financiar a dívida pública de países como Portugal com os seus impostos. A luta continua. Mas a nossa velha lata de persistir em viver de dádivas alheias, muito acima das nossas possibilidades e sem olhar a consequências, parece ter os dias contados. Ainda bem.

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O estado agiota

por Pedro Correia, em 15.02.11

 

 

Já se presumia, mas agora tivemos a certeza: para o estado somos só um número. Um número fiscal, de preferência. É a conclusão a que chegamos com o triste caso de D. Augusta Martinho, a senhora de 87 anos que morreu sem assistência num apartamento da Rinchoa e só veio a ser encontrada nove anos depois, simplesmente porque o andar tinha um novo proprietário após ter sido posto à venda em hasta pública pela administração fiscal.

"Estado social"? Que "estado social"? Todas as entidades públicas falharam neste caso: D. Augusta era um número que não lhes dizia respeito. PSP, GNR, Polícia Judiciária, Ministério Público, Tribunal de Sintra, CTT, serviços de saúde, segurança social, junta de freguesia: o dinheiro dos nossos impostos sustenta todas estas entidades, que revelaram total ineficácia neste caso. Eficaz, só mesmo a máquina fiscal. Que foi capaz de confiscar o apartamento a uma morta e levá-lo a leilão, certamente na convicção de que desempenhava uma nobre missão de "serviço público".

Ouço com frequência o líder do Bloco de Esquerda falar nos "agiotas" internacionais que mantêm sob o fio da navalha a chamada "dívida soberana" portuguesa. Aquilo a que nenhum dos nossos políticos aponta o dedo acusador é ao estado agiota. O estado que não policia, não julga, não vela, não zela, não cuida, não protege, não defende - o estado que apenas confisca. De que outra forma podemos designar a entidade capaz de se apropriar do apartamento de uma octogenária morta, a pretexto de uma dívida fiscal inferior a 1500 euros, e vendê-lo em hasta pública por trinta mil?

"Como é que é possível num país civilizado penhorar e vender a habitação de uma pessoa, aliás, por uma dívida insignificante, sem que essa pessoa seja citada para contestar? Sem que ninguém se certifique de que o visado tomou conhecimento desse processo? Como é possível comprar uma casa sem a avaliar, sem sequer a ver por dentro? Quem avaliou a casa? Quem fixou o seu preço?", pergunta - com toda a pertinência - António Marinho Pinto no Jornal de Notícias.

O estado que lucra com a morte de uma senhora velha, doente e solitária não pode ser considerado uma pessoa (colectiva) de bem. É mesmo uma exigência de cidadania recusar-lhe liminarmente esse rótulo.

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