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Os ecos das revoluções tunisina e egípcia não chegam apenas aos países vizinhos. Na China, a elite que detém o poder também os escuta. E quer abafá-los. A ideia de que os chineses comuns possam sentir-se inspirados pelos ventos da liberdade aterroriza os seus dirigentes. Por isso, a palavra Egipto foi banida nos motores de busca utilizados em território chinês. Sempre presente, está o fantasma de Tiananmen. À partida, a situação da China não é comparável à de qualquer dos países em que o processo revolucionário está em curso. A China atravessa um período de fortíssima expansão económica. E, apesar de alguns desequilíbrios evidentes, é previsível que a economia chinesa possa continuar a crescer a um ritmo acelerado. À primeira vista, o contexto parece favorável ao aproveitamento pelos dirigentes da expansão económica para melhorar o nível de vida, assim se  perpetuando o poder. Todavia, o gráfico infra, roubado no blog de Paul Krugman, poderá ter parte da explicação para o nervosismo das autoridades chinesas. O Egipto, apesar de tudo, tem um perfil bem diferente daqueles que, por exemplo, as Filipinas e a Indonésia apresentavam antes de sofrerem graves convulsões. No fundo, a pista que o gráfico deixa no ar é a de que a razão fundamental do descontentamento não está sempre indexada aos indicadores de crescimento económico. Em certas circunstâncias, será ainda mais relevante a capacidade de promover a redistribuição da riqueza criada. E poderá bem acontecer que seja isso que os dirigentes chineses não querem ou não sabem fazer. Sendo esta uma pista de análise, resta uma outra justificação para a inquietude dos líderes chineses. O estômago vazio é um bom detonador do sentimento da revolta. Mas, a liberdade é um valor em si mesmo. O seu aroma é inebriante e a sua ausência agride igualmente o mais básico sentido da dignidade humana. E é particularmente preocupante para o regime que esta aragem chegue através do Google às imediações da cidade proibida. Até porque pode bem acontecer que numa futura revolta, tal como aconteceu na Tunísia, o exército se recuse a tomar partido contra o povo.DESCRIPTION

Começa a ser recorrente a comparação entre a revolução egípcia e aquela que ocorreu no Irão em 1979. Esta é uma das declinações do argumento do perigo islâmico. O risco que se acena existe. Todavia, devem sublinhar-se algumas diferenças entre uma situação e outra. Até este momento, a revolução egípcia tem apresentado uma origem não ideológica. A actividade da Irmandade Islâmica tem sido discreta e não é comparável com a intervenção dos seguidores de Khomeini na revolução iraniana. Por outro lado, um dos factos que precipitaram o desenlace iraniano foi o ataque, ainda em 1978, das forças de Reza Pahlevi sobre manifestantes. A carnificina ocorrida (4000 a 5000 mortos?) eliminou qualquer possibilidade de sucesso de correntes moderadas. O banho de sangue radicalizou as posições e acabou por abrir a porta para os resultados que se conhecem. No Egipto, adivinha-se uma escalada de violência. Para evitar a concretização da ameaça de repetição da história é fundamental evitar que o ódio e a ira atinjam o ponto de não retorno. No estado actual da situação só a queda imediata de Mubarak assegura este objectivo. Às diplomacias americana e europeia não resta outro caminho senão promover esse desenlace antes que seja tarde demais. Os acontecimentos de ontem são bem a evidência de que o desastre pode acontecer nas próximas horas.

 

Uma certa casta de comentadores continua a investir o seu esforço na tarefa de encontrar argumentos que contrariem a legitimidade das revoluções populares da Túnisa e do Egipto. Depois de invocada a ameaça islâmica, há quem tenha avançado para i) a constatação da falta de alternativas credíveis às lideranças dos ditadores desses países; ii) para a tese da inviabilidade da democracia em certas geografias, iii) para a defesa das múmias. Estamos, ainda e sempre, perante a afirmação da mais bacoca superioridade civilizacional. Para os egípcios e tunisinos, dizem, é melhor um ditador competente do que um democrata impreparado. Este é um argumento com inaceitável conteúdo totalitário. A liberdade é um valor. A competência é uma qualidade. A competência nunca poderá ser moeda de troca da liberdade. A ausência de lideranças alternativas é um desígnio da própria ditadura. Não é por isso que se deve beneficiar o infractor. Para além disso, a premissa é falsa. Seria bom que estes postadores ilustrados pudessem apresentar o seu argumento sobre a preparação e competência de Mubarak às centenas de milhares de pessoas que vivem na mais miserável indigência nos arredores do Cairo. Por outro lado, não consigo encontrar racionalidade na ideia de que um país ou uma região, não estando preparados para a democracia, possam estar preparados para uma ditadura. Francamente, a fábula do ditador útil e bonzinho não é para gente crescida. Como teste definitivo à validade destas teses proponho um caso de estudo. Em que posição ficaria nesse argumentário o Portugal que foi entregue às mãos de Vasco Gonçalves? No que diz respeito à tese da defesas das múmias, parecem-me estas muito importantes. E penso que devem ser feitos todos os esforços para preservar o património cultural que é uma marca da humanidade. Mas, não encontro ponto de partida que nos permita aceitar que uma parte de humanidade viva em privação de liberdade e dignidade com o objectivo de preservar as múmias. No fundo, o que este tipo de argumentos esconde é uma desorientação e um incómodo. O erudito geo-estratega da bloga ou da imprensa tem o seu quadro mental preparado para uma certa tipologia de acontecimentos: as revoluções não acontecem em países liderados por ditadores 'amigos'. Perante a evidência de que esta asserção estava errada, resta-lhes recolher do baú dos trastes uma ou outra sentença de condenação dos povos em causa a uma vida de injustiça. Antes isso que pôr em causa as verdades absolutas em que querem continuar a acreditar. Para além do mais, sempre asseguram a si próprios o conforto de poderem acertar nas piores previsões. Equiparam-se, neste aspecto, aos relógios parados que têm razão duas vezes ao dia. E esquecem-se que tornam evidente a diferença que existe entre os que defendem a liberdade em qualquer lugar e os que pensam que a liberdade é o lugar onde se defendem os interesses (ainda que este interesse seja a mera validação das suas teses auto-confirmatórias).

O Europa e os Estados Unidos gostam de afirmar-se campeões da democracia. Trata-se, todavia, de uma proclamação com validade limitada no espaço. A mesma voz que enaltece os valores da liberdade ocidental tem apoiado velhos regimes autocráticos instalados na margem sul do Mediterrâneo. A submissão das massas populares dos países em causa facilitou, ao longo dos anos, a permanência dessa contradição, permitindo um silêncio complacente nas intervenções públicas sobre o assunto. Com a relação entre Israel e a Palestina a dominar a agenda americana e a Europa sempre incapaz de se articular em torno de uma diplomacia coerente, a democratização dos regimes do sul da bacia mediterrânica podia e devia esperar. Pelo meio, admite-se, alguma pressão diplomática inconsequente, em surdina, no aconchego dos gabinetes. A faísca tunisina veio, no entanto, alterar o estado de adormecimento dos povos vizinhos de tal forma que a questão já não será qual o próximo regime a abanar (ou a cair), mas qual dos regimes autocráticos ou militarizados da região será capaz de sobreviver. Perante a crise egípcia, que parece caminhar resolutamente para o precipício de um banho de sangue, a Europa vai sussurrando a várias vozes uma cantilena imperceptível. A administração americana, por seu lado, opta ainda por uma posição ambígua de apelo à implementação de reformas como contrapartida para estancar a violência. Obama devia saber que a vertigem revolucionária no Egipto não tem ouvidos para ecos longínquos e que as únicas vozes que têm uma remota possibilidade de ser ouvidas são as transmitidas pela Al-Jazeera. E que mesmo em relação a estas é duvidoso que se consigam sobrepor aos gritos que circulam nas redes sociais das mil e uma noites dos jovens egípcios. São estes que já não se contentam com medidas pontuais como subsídios ao preço dos cereais ou com a substituição de um governo para que tudo fique na mesma. O jogo que se iniciou nas ruas de Tunis e que agora se disputa nas do Cairo é um mata-mata. Ou morre o regime (agora ou mais logo) ou morrem milhares nas esquinas da revolução. Por uma vez, a diplomacia ocidental, acostumada aos interesses dúbios, à ambiguidade e à duplicidade, vai ter que tomar partido. Ou está do lado do esmagamento da rebelião pelos actuais detentores do poder no Egipto e nos estados que se seguirem no dominó da revolução, ou está do lado oposto. As meias tintas não são, neste caso, terra de ninguém. Pelo contrário, são o exacto local onde está o pasto que pode alimentar o incêndio do fundamentalismo islâmico. E as colunas de fumo que se levantam dos subúrbios do Cairo são o sinal evidente de que o tempo para decidir é, nem mais nem menos, o que resta até ao jovem militar Samir premir o gatilho da arma que tem apontada a Khalil, o não menos jovem universitário que, empurrado pelo twitter, acabou de chegar a uma avenida do centro do Cairo para lutar pela liberdade.

Acho piada a certos comentários que sublinham a possibilidade de a revolução da Tunísia e a agitação social que já existe no Egipto e se adivinha em outros países do norte de África darem origem a regimes ainda piores. Digo que é o mesmo que afirmar-se, antes do 25 de Abril, que era melhor não o fazer devido ao perigo de Portugal se tornar um país comunista. No fundo, a ideia que está subjacente é:

Eh pá, coitados dos tipos do norte de África, hã!?!? Mas, olha que eu, se fosse aos gajos, estava mas é quietinho e contente com um regime corrupto, militarizado e ou ditatorial. Para eles sempre é melhor que o fundamentalismo islâmico; Ainda acabam todos de burqa. Depois não digam que não avisei. Agora que já falei sobre o tema, vou ali fazer um aviãozinho de papel com o boletim de voto das eleições presidenciais.

É de facto uma posição confortável.  Sobretudo para quem está comodamente instalado num sofá europeu, entretido a arbitrar o direito à liberdade dos outros. O que talvez não passe pela cabeça destes limitadores de esperança encartados é que a ditadura e a corrupção, sempre associadas à injustiça social, à pobreza e à exclusão, são causa directa da radicalização e do extremismo religioso. E que os perigos inerentes à luta contra a opressão não podem constituir motivo para paralisar a legítima aspiração dos povos a uma vida mais justa. Cabe a esses povos medir os riscos e suportar as consequências. A nós, o respeito que temos à nossa liberdade impõe-nos que sejamos, quando menos, solidários. Mantendo a honestidade intelectual de não admitir para os outros, sob uma capa de compungida preocupação, o que não gostaríamos de ter para nós.


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