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4 da manhã 1 de Janeiro, 2014

por Patrícia Reis, em 01.01.14

 O mais velho ficou em casa, com os amigos, num jantar que organizou. A vida dele.

O mais novo, na aldeia, está contente. Tem o amigo. Tem amigos.

O cão olha-o com uma ternura imensa.

Choveu muito de manhã, mas não teve importância.

O ano começou com uma sala num restaurante a gritar 5, 4, 3, 2, 1. O meu marido fez de DJ durante três horas e meia. Tudo começou com bee gees, acabou com xutos e pontapés. O mais novo dançou e mostrou a sua camisa preta, muito cool. Está contente por a aldeia ser assim, os mesmos rostos, os amigos de sempre.

Além de paz, desejou-se saúde e brindou-se à família.

O mais velho ligou a dizer que a cozinha incendiara. Mantive a calma. Era uma brincadeira,  já sabia; não posso dizer, porém conheço-lhe a voz, de gozo, de aflição, de dúvida.

Gozou a sua passagem de ano com 18 anos, em casa, com os amigos, na cidade, longe de nós. Pela primeira vez. Não custou nada.

Nada custa muito. Ou pouco.

Não sinto os pés e ninguém pode dizer que tenha usado mais que uns ténis, são mesmo os meus ossos que não prestam. Quando cheguei à caixa de fósforos que temos na aldeia, acendi a lareira, tomei banho, deixei o keith jarrett tocar a melody at night with you, um disco para sempre, e fiquei no meu quarto branco sozinha.

Os miúdos na sala, no sofá cama, na brincadeira, quentes, perto do lume.

Podia ler ou deixar-me estar. Lembro-me da minha tia Chica. Francisca Celeste Garcia. Se fosse viva, faria hoje anos. Já perdi a conta a quantos.

Estamos numa idade em que começamos a ver as pessoas morrer, já se sabe. Foi de repente que me lembrei dela. A pedir para lhe ler uma novela de Mary Love, o meu tio fora de casa, ela a ouvir, atenta, e eu, uma miúda, com jeito para leituras alto.

Nessa altura, o meu mundo era outra aldeia: o meu tio-avô, as minhas tias, a minha bisavó. Não pensava em muita coisa má. Só quando estava longe daquele consolo.

Ao mesmo tempo, sabia que o melhor seria envelhecer rapidamente, para ter a certeza de ter sobrevivido. Não mudei de ideias. A velhice não me rala.

O que mudou foi apenas a compreensão relativa ao tempo.

Precisamos de tempo. Para viver os filhos, para descobrir que o amor é estranho, que a morte e a vida se combinam, que a paz não é o contrário da guerra, não obrigatoriamente. O ano velho foi-se e os doze desejos foram engolidos de uma só vez. Tive vários pensamentos em simultâneo, a coisa treinada. Celebrando um ano novo, não me esqueci dos meus mortos e a esses saudei.

No restaurante, numa cadeira de rodas, um homem novo ocupava a parte da pista de dança improvisada. Há lições que só mesmo tempo é que nos pode dar.

São 4h16, os miúdos ainda riem na sala, o cão ficou por aqui.

Fui.

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os miúdos

por Patrícia Reis, em 14.09.13

Os miúdos já não são miúdos, são quase-homens, podem fumar e beber mojitos, aprender a guiar e depois ter as dúvidas que os miúdos têm, as mesmas que os homens terão. Uma mãe assiste. A partir de uma certa altura, uma mãe é uma espectadora. Participa se lhe pedem, cala e ouve e aprende. Eu aprendo com os miúdos o que é ser miúdo hoje. O mais novo não está, portanto, parece que é tudo uma coisa de adultos. Não é. Adormecemos a ver o panda Kung Fu II.

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