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Gostava de ter escrito isto

por Pedro Correia, em 03.11.19

«Peter Handke ganhou com mérito o Nobel, apesar das suas loas a Milosevic e à turva causa sérvia. Mas, claro, a extravagante exaltação dos genocidas não tem sido esporádica entre os escritores contemporâneos: é quase uma doença profissional, tal como a silicose entre os mineiros. No entanto, se Handke houvesse sido acusado de ter tocado há trinta anos no traseiro da sua secretária sem autorização prévia, ficaria sem o Nobel.»

 

Fernando Savater, no El País (2 de Novembro)

O sucesso é um fracasso adiado

por Pedro Correia, em 24.10.19

O que têm em comum livros como Guerra e Paz, Lolita, O Coração das Trevas, A Casa de Bernarda Alba, A Condição Humana, O Poder e a Glória, 1984, Admirável Mundo Novo, O Processo, Memórias de Adriano, Debaixo do Vulcão, Viagem ao Centro da Terra, Em Busca do Tempo Perdido, O Grande Gatsby, Servidão Humana, Música Para Camaleões, Longe da Multidão e A Oeste Nada de Novo? Foram todos escritos por autores que, podendo ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, se viram privados deste galardão, do qual os académicos de Estocolmo não os acharam merecedores.

A lista de galardoados com o Nobel, que no campo das letras se destina a premiar anualmente “a obra que mais se distinguir, numa perspectiva idealista”, conforme Alfred Nobel deixou escrito em testamento, é – salvo raras excepções – uma antologia da ilegibilidade. Que começou aliás logo em 1901, com um poeta francês pouco menos que obscuro: Sally Proudhomme.

É uma lista que ignora a grande maioria dos gigantes da literatura do século XX, e mesmo de escritores do século XIX que ainda viviam em 1901: esquece Lev Tolstoi, Émile Zola, Joseph Conrad, Marcel Proust, Pérez Galdós e Thomas Hardy. E se até nem admira que nomes imensamente populares – como Júlio Verne, Somerset Maugham, Erich Maria Remarque, Georges Simenon e Conan Doyle – tivessem sido esquecidos pela exigentíssima Academia Nobel, outros estão ausentes da lista de premiados de forma quase escandalosa, como Henryk Ibsen, Rainer Maria Rilke, Pio Baroja e Anton Tchekov. Enquanto autores como Wladyslaw Reymont, Carl Spitteler, Karl Gjellerup, Verner von Heidenstam, Gerhart Hauptmann, Rudolf Eucken, Grazia Deledda e Giosuè Carducci integram a lista de premiados. Ninguém hoje os lê, e provavelmente ninguém nunca os leu, mas também já ninguém lhes retira a distinção que foi negada a Marguerite Yourcenar, José Lezama Lima, Malcolm Lowry, Paul Bowles, Ernst Jünger, Katherine Mansfield, Evelyn Waugh, John dos Passos, Tolkien, Italo Calvino e Norman Mailer.

 

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As omissões são, pelo menos, democraticamente distribuídas por diversos idiomas. A começar na língua inglesa, que não viu conferir o Nobel a autores como Henry James, Scott Fitzgerald, G. K. Chesterton, Aldous Huxley, D. H. Lawrence - ou até Jack London, de quem Lenine, no leito de morte, pedia que lhe lessem alguns dos trechos que mais admirava.

Da língua francesa estão ausentes autores como André Malraux, Marguerite Duras e Saint-Exupéry.

Entre os italianos, nenhuma menção a Cesare Pavese ou Alberto Moravia. Dos russos, nada de Vladimir Nabokov (que até escreveu principalmente em inglês), Marina Tsvetaeva ou Maiakovski.

Escandalosa também a omissão de grandes figuras da literatura de expressão espanhola, como Federico García Lorca, Unamuno, Rubén Darío, Julio Cortázar, Cabrera Infante, Antonio Machado e Juan Carlos Onetti. Ou da literatura germânica, como Franz Kafka, Robert Musil e Stefan Zweig. Ou mesmo da japonesa, como Yukio Mishima.

A língua portuguesa, que até hoje viu apenas reconhecidos os méritos de José Saramago (em 1998), é das que tem mais razões de queixa: a Academia Nobel ignorou Fernando Pessoa - o que até pode desculpar-se pelo facto de o autor de Mensagem ter sido quase nada publicado em vida. Mas também Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Clarice Lispector. Havia que premiar, em alternativa, ilustres desconhecidos, como Erik Axel Karlfeldt, Harry Martinson e Eyvind Johnson, representantes das línguas nórdicas, as mais favorecidas por Estocolmo.

 

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A lista de omissões é interminável. Inclui Virginia Woolf, Dylan Thomas, Sylvia Plath, Raymond Carver, John Updike e Arthur Miller, por exemplo. Em flagrante contraste com Winston Churchill, galardoado em 1953, quando exercia pela segunda vez as funções de primeiro-ministro do Reino Unido – menos por motivos de ordem estética do que de ordem política.

Não deixa de ser irónico, já que muitos autores ficaram à margem do Nobel por motivos políticos – uns de esquerda, como Bertolt Brecht, Arthur Koestler e George Orwell, outros de direita, como Ezra Pound, Céline e Jorge Luis Borges. Embora Churchill escrevesse inegavelmente bem e até tivesse deixado um dos mais sábios conselhos de escrita aos seus leitores: «Das palavras, as mais simples; das mais simples, a menor.»

Graham Greene, uma das ausências mais imperdoáveis na lista dos premiados, encolhia os ombros em cada ano que passava sem lhe atribuírem o Nobel. E costumava afirmar: «Para um escritor, o sucesso é apenas um fracasso adiado.» De muitos que a Academia Nobel distinguiu não se pode dizer mais nada senão isto.

 

Imagens: Jorge Luis Borges e Graham Greene

Nobel da Paz

por Diogo Noivo, em 11.10.19

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O prémio Nobel da Paz foi atribuído a Abiy Ahmed Ali, Primeiro-Ministro etíope, um homem que está a tentar abrir a arena política do país que lidera – creio que liderança é, de facto, o termo correcto. Legalizou partidos políticos, libertou jornalistas detidos, deu à Justiça condições para acusar funcionários do Estado envolvidos em práticas de tortura, mitigou as tensões étnicas latentes. Abriu o espaço necessário para que a Etiópia elegesse de forma livre e plural Sahle-Work Zewde, actualmente a única mulher a ocupar uma Chefia de Estado em África. Mais importante, conseguiu um acordo de paz com a Eritreia, algo praticamente impensável até então. 

Está por ver se estas mudanças são estruturais, ou se dependem de Abiy Ahmed Ali. Está também por ver o grau de compromisso do Primeiro-Ministro com as medidas que tem implementado. São, contudo, suficientemente importantes para merecer o reconhecimento dado pelo Nobel. Este ano, o Comité não se deslumbrou com intenções nem com mediatismos. Que para o ano seja igual.

 

ADENDA: Quem tenha interesse em conhecer um pouco da História contemporânea da Etiópia e perceber os problemas que Abiy Ahmed Ali encontrou quando assumiu funções pode encontrar aqui uma espécie de diário de viagem político que fiz há dois anos após percorrer o país.

 

Handke

por jpt, em 10.10.19

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Logo que a guerra acabou fui trabalhar na Bósnia-Herzegovina, colocado em Tesanj. Na Europa muito difícil será encontrar um contexto fisicamente duro, e ali não o foi. Mas, e ainda que apenas tenha sido um mês, foi -me moralmente muito duro. Pois deu para perceber a inacreditável razia que ali acontecera, demoníaca. Anos depois escrevi um textinho, balbuciadas memórias sobre isso, a modos que catarse. E lembro também, já questões pessoais, do meu horrível regresso a Lisboa, um domingo de manhã, abatido pois comovido com tudo aquilo que vira e ouvira, e o chegar a casa para sofrer uma separação totalmente inesperada, por espúrias e até patéticas razões, uma verdadeira crueldade que me derrubou. Isso são outras contas, é certo, mas nunca me lembro da Bósnia sem elas virem ao de cima. Mas o que agora conta é que muito me irrito cada vez que vejo gente a defender os sérvios - e esse é um discurso muito presente nos (ex)comunistas portugueses, ocamente reduzidos a uma eslavofilia. Mesmo sabendo da enorme complexidade daquela guerra jugoslava, do verdadeiro pan-demónio que ali grassou.

Isso é uma coisa. A outra coisa é ver agora as reacções na imprensa, nacional e estrangeira, ao Nobel atribuído a Handke. Li um punhado dos seus livros, autor que esteve em voga. Muito provavelmente o primeiro terá sido este "A Hora da Sensação Verdadeira", uma das primeiras capas - e bem bonita - do meu amigo Emílio Vilar - mais ou menos contemporânea da belíssima linha gráfica que então ele criou para a muito boa colecção "Memória e Sociedade" também da Difel. Lembro-me bem disso, e que foi ele que me deu um dos exemplares que tinha. Depois li o tal punhado de Handke. E marcou-me, em particular o "Para Uma Abordagem da Fadiga" (vou relê-lo agora, como reagirei 25 anos depois?). 

Mas antes fico só com uma questão, que a mim próprio responderei. Pois, e mesmo que nada goste dos defensores dos sérvios, tão malvados que estes então foram, interrogo-me: que gente é esta que avalia os escritores principalmente (ou mesmo somente) pelas suas opiniões políticas? Imprestável. Vizinhos imprestáveis.

Quem será o Nobel da Literatura?

por Pedro Correia, em 09.10.19

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Quem serão os contemplados com o Nobel da Literatura? Este ano deverão ser anunciados dois - não apenas o de 2019 mas também o de 2018, que não chegou a ser atribuído.

Faltam 24 horas para sabermos. Gostaria de perguntar aos leitores do DELITO em quem apostam. Pela minha parte, reitero desejos antigos: ver Milan Kundera ou John Le Carré distinguidos pelo Comité Nobel. Mas talvez o Nobel, desta vez, premeie uma mulher. A canadiana Margaret Atwood ou a norte-americana Joyce Carol Oates, por exemplo.

Seria justo.

Um Zandinga com Nobel

por Pedro Correia, em 27.07.19

 

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Paul Krugman sempre foi péssimo nas previsões, talvez por transformar cada texto jornalístico sobre economia em peças mais apropriadas a comícios políticos, confundindo opiniões com factos. 

Mal Donald Trump foi eleito, Krugman previu nada menos que isto: «Uma recessão global, sem fim à vista.» Num artigo que publicou em Novembro de 2016 no New York Times, o Nobel da Economia interrogava-se quando iriam os mercados recuperar, fornecendo de imediato a resposta: «Nunca.»

Previsão tão certeira como a que fizera meses antes, em entrevista à SIC, quando disse acreditar que Hillary Clinton sucederia a Barack Obama na Casa Branca.

No fundo, nada que destoasse do que anunciara em Maio de 2012, ao proclamar em primeiríssima mão que a Grécia «sairia da eurozona nos próximos doze meses»

Os factos, para azar de Krugman, persistem em ser teimosos. Ao contrário do que apregoava este profeta da desgraça, a economia americana tem registado um crescimento sem precedentes. Em Fevereiro, atingiu o centésimo mês de expansão contínua, reflectida na criação de postos de trabalho e na redução do desemprego para níveis que não se registavam há perto de meio século.

Mas o que seria de esperar de alguém que em 1998 anunciou «o fim da Internet» para daí a sete anos, equiparando-a à máquina de faxe? Apenas aquilo que é: um Zandinga com Nobel. Ora se não damos crédito ao júri de Estocolmo que na literatura já premiou gente tão obscura como Harry Martinson, Carl Spitteler, Shmuel Agnon e José Echagaray, porque haveremos de reconhecer mais lucidez intelectual aos que ali laurearam Krugman em 2008?

Denis Mukwege, Nobel da Paz

por jpt, em 11.12.18

Um discurso absolutamente extraordinário, meia hora iluminadora. (Infelizmente não encontro versão legendada em português. Existirá? Não há um serviço público televisivo?)

Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 08.10.18

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 

 

Texto reeditado no dia em que se assinalam 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago

 

Química aplicada

por João André, em 03.10.18

Os prémios Nobel científicos estão atribuídos e aquele que me salta de imediato à vista é o da Química, atribuído a Frances Arnold, George Smith e Gregory Winter. O trabalho deles foi dedicado à evolução controlada (directed evolution) de enzimas no caso de Arnold, e de modificação genética de fagos (phages) no caso de Smith e Winter. Metade do prémio foi para Arnold, o que me parece da mais pura justiça quando se olha pra o enorme campo de aplicações que a tecnologia tem, embora a parte do trabalho de Smith e Winter, com aplicações na medicina, talvez acabe com mais atenção.

 

O trabalho de Arnold permitiu controlar a evolução de enzimas (proteínas especiais capazes de catalisar - isto é, acelerar, ou iniciar em condições adversas - reacções químicas) para gerar propriedades que de outra forma não seriam possíveis de encontrar. A forma como controlou a evolução foi com a introdução de mudanças genéticas aleatórias e posteriormente mantendo as enzimas cujas mutações genéticas levaram a propriedades úteis. Isto é comparável à analogia das slot machines onde é possível manter certas rodas em posições fixas (como quando se obtém cerejas, estas não mudam mais, até termos a sequência desejada).

 

No caso, o que Arnold fez foi, por exemplo, partir de uma enzima que pudesse catalizar uma reacção específica (de X com Y, por exemplo) e ir introduzindo mudanças interessantes. Podia então tornar a enzima estável em solventes orgânicos (as enzimas são habitualmente estáveis em água) e dando-lhe eficiência superior a temperaturas mais baixas. Assim seria possível eliminar o uso de catalisadores inorgânicos, frequentemente muito caros e ambientalmente adversos e catalizar a reacção a temperaturas mais baixas. A quantidade de aplicações desta tecnologia é infindável.

 

O trabalho de Smith e Winter teve duas partes. Os fagos são uma espécie de vírus para as bactérias, ou seja, invadem as bactérias e obrigam-nas a gastar os seus recursos a produzir cópias dos fagos, assim destruindo a bactéria e perpetuando o ciclo. O que Smith fez foi descobrir como mudar o material genético do fago para produzir determinadas proteínas à sua superfície. Isto permitiu usar os fagos para identificar qual a relação entre genes e proteínas cuja produção codificam (isto é, de certa forma descobriram quais eram os genes que tinham a "receita" para cada proteína). Isto é fundamental para a compreensão dos nossos "códigos genéticos".

 

Como estas proteínas são produzidas à superfície do fago, Winter levou-o um passo mais à frente e usou a tecnologia para produzir anticorpos específicos. Os anticorpos são como que detectores moleculares altamente específicos. Um anticorpo que encontre o seu "alvo" ligar-se-à ao mesmo e não o largará. Se os colocarmos na superfície de um corpo (seja uma célula, seja um nanotubo, por exemplo) o anticorpo capturará o seu alvo de forma controlada. São usados em cromatografia de afinidade para retirar componentes tóxicos específicos de líquidos (por exemplo na purificação de medicamentos na indústria farmacêutica).

 

O que Winter fez foi usar a tecnologia para colocar anticorpos específicos na superfície dos fagos para determinar quais os anticorpos que poderiam ser usados para fazer terapias específicas para tratar, por exemplo, doenças autoimunes ou cancros. Isto permitiu desenvolver medicamentos muito mais eficazes, porque muito mais específicos na forma como seleccionam os seus alvos. Na quimioterapia, o objectivo no passado foi o de introduzir venenos (é o que os medicamentos de quimioterapia são) para matar as células cancerosas esperando que estas morressem mais depressa que as saudáveis. É por isso que os pacientes sofrem imenso durante a terapia e é também por isso que algumas terapias não funcionam (o paciente aguenta menos o veneno que o cancro). A técnica de Winter permite reduzir o impacto ao tornar o veneno mais selectivo.

 

Há alturas em que o prémio Nobel da Química celebra descobertas fundamentais (no seu sentido mais... "fundamental"). As que hoje foram laureadas contemplam aplicações vastas e com enorme impacto no mundo. Como engenheiro químico, este é um prémio cuja atribuição facilmente subscrevo.

 

PS - quaisquer imprecisões ou erros na informação prestada acima são minha responsabilidade. Se detectarem imprecisões, ficarei agradecido caso mas indiquem para corrigir o texto.

Erros meus, má fortuna

por Pedro Correia, em 27.10.16

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Anda muita indignação à solta – até aqui no DELITO DE OPINIÃO – pela atribuição do Nobel da Literatura ao cidadão norte-americano Robert Allen Zimmerman, conhecido há mais de meio século pelo seu nome artístico: Bob Dylan.

Aplaudi o prémio desde a primeira hora e nenhum dos argumentos aduzidos contra a atribuição do Nobel 2016 me convenceu. O júri da Suécia, num gesto inovador, entendeu desta vez galardoar um escritor de canções. Se queremos atribuir-lhe um rótulo, este é o que mais se adequa a Bob Dylan, que encaminhou milhares de jovens em várias latitudes para a poesia ao som de música.

 

É de poesia que falamos, não de “letras”, como alguns mencionam com indisfarçável desdém. Não é preciso puxar do cânone: os monólogos interiores e os sinuosos labirintos estilísticos concebidos por Dylan são poesia. Mais qualificada do que a mediana produção poética de um Derek Walcott, o galardoado de 1992, sem escândalo aparente.

Alegam os críticos que a poesia de Dylan não vale um Nobel por emergir como subsidiária de outra arte ao ter sido escrita para fins musicais. Parece-me um argumento débil. Pela mesma lógica nunca o Nobel devia ter sido atribuído ao italiano Dario Fo ou ao britânico Harold Pinter, prolíficos autores de textos destinados a ser representados nos palcos. O teatro está para ambos como a música para Dylan. E ninguém contestou os prémios que receberam em 1997 e 2005. Ibsen e Lorca, dois outros mestres da arte teatral, também teriam sido dignos destinatários do Nobel da Literatura.

O teatro não os menorizou: engrandeceu-os.

 

Muitos esquecem que a Academia Nobel já distinguiu com este galardão muitos autores fora do padrão dominante, que pretende confinar a literatura à ficção e à poesia. Do historiador alemão Theodor Mommsen (1902) ao filósofo francês Henri Bergson (1941), do ensaísta britânico Bertrand Russell (1950) à jornalista bielorrussa Svetlana Alexeivich (2015). Sem esquecer que também Winston Churchill, vencedor em 1953, integra a lista dos premiados.

Serão as entrevistas de Svetlana Alexeivich mais dignas de encómios literários do que as narrativas musicadas de Dylan?

Julgo que não.

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A poesia teve sempre uma forte ressonância oral: fez-se para ser recitada, declamada, cantada. Assim o comprovam as remotas rimas medievais – cultivadas por alguns dos nossos primeiros reis – e as estrofes trovadorescas. Sem esquecer os clássicos, de Dante a Yeats.

Toda a poesia de Camões, épica ou lírica, pode ser cantada. E muita já foi. Vale a pena lembrar o frémito de indignação que percorreu a intelectualidade pátria, em meados da década de 60, quando a grande Amália se atreveu a cantar Camões – como fez com tantos outros poetas, de Vinicius de Moraes a Alexandre O’ Neill.

Ela estava certa, ao contrário dos intelectuais que a consideraram indigna de intrepretar Lianor e Erros Meus com a sua voz incomparável. Estou convicto de que daqui a uns anos diremos o mesmo do júri que agora ousou distinguir Bob Dylan com o Nobel da Literatura.

O ridículo do Nobel.

por Luís Menezes Leitão, em 22.10.16

Já tinha escrito aqui o que pensava do disparate da atribuição do Nobel a Bob Dylan. Agora o único autor que de facto deve ter merecido o prémio nos últimos vinte anos, Vargas Llosa, veio criticar a escolha e perguntar se da próxima vez dão o prémio a um futebolista? Acho de facto que a pergunta faz todo o sentido, uma vez que pelo mesmo critério de escolha de Bob Dylan, até as frases de Jorge Valdano poderiam aspirar a um Nobel.

 

Bob Dylan é um excelente autor de canções, mas não é comparável a qualquer escritor a sério. Nunca os textos das suas canções recolhidos em livro podem sequer ser comparados às extraordinárias obras de Vargas Llosa, como A Festa do Chibo, A Guerra do Fim do Mundo, O sonho do Celta ou mesmo até o último Cinco Esquinas. O problema é que muitas pessoas endeusam os cantores da sua juventude e fazem tudo para os premiar, caindo no ridículo. O critério que fez o júri sueco premiar Bob Dylan é o mesmo que fez o Presidente Jorge Sampaio condecorar os U2 com a Ordem da Liberdade: homenagem em saudosismo pela juventude perdida. É também a mesma coisa que faz Marcelo evocar a sua juventude para aplaudir oficialmente a atribuição deste prémio Nobel, e insistir em ver Fidel Castro ao vivo quando se deslocar a Cuba.

 

A questão é que os próprios homenageados também acham ridícula a homenagem. Os U2 foram ao Palácio de Belém receber a condecoração vestidos informalmente e Bob Dylan nem sequer se dá ao trabalho de atender o telefone ao júri sueco, quanto mais deslocar-se a Estocolmo para receber o prémio. Fidel Castro é também capaz de receber Marcelo em fato de treino enquanto aguarda pela enfermeira para os tratamentos matinais. Se há coisa que pessoas em funções de responsabilidade nunca podem perder é a noção do ridículo. Infelizmente esta gente há muito que a perdeu.  

Quando o telefone toca

por Rui Rocha, em 21.10.16

- Senhor Murakami?

- Sim, o próprio.

- Olá, viva, está bonzinho? Estamos a ligar da Academia Sueca...

- Oh, pá, oh pá. Eu sabia, eu sabia! Quando li... não conseguiam contactar o Dylan, oh pá, oh pá, nem acredito nisto, pensei logo que se iam lembrar de mim!

- É verdade, Senhor Murakami. Estivemos a pensar e chegámos à conclusão que o melhor era mesmo ligar-lhe.

- E fizeram muito bem, valha-me Deus.

- Que bom! Estávamos com medo que levasse a mal. Já sabe: tantos anos à espera e agora... só porque não conseguimos contactar o homem...

- Ora essa! Ora essa. Aqui estou totalmente disponível, não faltava mais nada...

- Pronto, Senhor Murakami. Então se tivesse o número de telefone do Dylan e fizesse a gentileza de o partilhar connosco... Senhor Murakami? Está... Senhor Murakami? Senhor Murakami...!

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 15.10.16

Bob Dylan, o escritor: uma genuína voz americana. De Dwight Garner, no New York Times: «Este prémio [Nobel] reconhece aquilo que há muito nos parecia uma evidência: Dylan está entre as vozes mais genuínas que os Estados Unidos produziram, um artífice de imagens tão audazes e vibrantes como sucedeu com Walt Whitman ou Emily Dickinson.»

O Nobel tem a importância que lhe quisermos dar

por João André, em 14.10.16

Uma outra nota sobre os que não receberam o prémio. É verdade que a lista de autores não contemplados é longa, distinta e, de certa forma, infâme. O prémio Nobel, qualquer ele seja, é uma reflexão do seu tempo e resultado da reflexão de pessoas, no caso sempre um grupo relativamente pequeno de pessoas. Irão cometer erros e injustiças. Todos teremos a nossa opinião sobre o merecimento e falta dele na atribuição do prémio.

 

Mas deixo uma questão: quantos de nós (e sim, incluo-me na lista) que criticamos a atribuição de qualquer dos prémios conhecíamos antes da mesma a obra do/a contenplado/a? Ainda hoje não li nada de Svetlana Alexievitch. Mo Yan, Tomas Tranströmer, Herta Müller ou J. M. G. Le Clézio ainda me são essencialmente desconhecidos. Li Modiano, mas não sei dizer se é mais ou menos merecedor que De Lillo, Lobo Antunes ou seja lá quem for que continue a ser esquecido.

 

Já levantei esta questão algures no passado: quantas pessoas são capazes de dizer as omissões flagrantes nos prémios Nobel da Física, Química ou Medicina? Ou os erros (entre os quais ou outro Nobel português, Egas Moniz, provavelmente se encontra)? O prémio da Literatura é contestável porque é mais facilmente acessível e porque os seus potenciais laureados existem em enormes números.

 

Quando um prémio é atribuído à porta fechada por uma dúzia ou dúzia e meia de pessoas que não podem, num único ano, ler tudo e mais alguma coisa, temos que aceitar o que o dito prémio é: uma reflexão da opinião dessas pessoas. Mudássemos uma única pessoa do grupo e o resultado seria outro. Mudássemos o grupo para outro país e o panorama seria consideravelmente diferente. Não se trata de um prémiod e popularidade nem devemos tratá-lo com tal. Para tal existem as vendas.

 

Não sou tão ácido como o Luís, mas partilho em parte a sua opinião. O prémio não tem muita importância. Como todos, tem a importância que lhe quisermos dar. Mas o simples facto de, todos os anos, continuarmos a discutir os seus resultados demonstra que ainda lhe damos muita importância. E isso já basta para lhe dar uma certa patina de credibilidade que vai além do valor monetário.

Zimmermann: músico para ser poeta

por João André, em 14.10.16

Não tenho conhecimentos suficientes sobre poesia (ou literatura em geral) para avaliar se um prémio Nobel da Literatura é bem ou mal atribuído. Sei ler e dizer se, na minha opinião, o que li é bom ou mau. O mesmo vale para a música ou cinema ou teatro ou pintura ou...

 

No caso de Bob Dylan, gosto de algumas músicas e de outras nem tanto. De algumas de que não gosto, consigo no entanto apreciar as letras, a sua poesia. Noto isso ainda mais noutros grandes autores, Leonard Cohen ou no herdeiro de Dylan Bruce Springsteen. Ouço as músicas, não me agarram, mas sendo quem são acabo por pegar nas letras e gostar mais delas lidas, em silêncio.

 

Por isso penso que se podem ler as letras das músicas sem rpestar atenção à música, porque são letras que se sustentam a si mesmas. Noutros casos é necessária a música, as letras seriam ridículas se não incorporadas na melodia e estruturadas por esta. Com Dylan raramente se vê isso.

 

Por isso tenho uma posição diferente da Francisca: penso que as letras, mesmo que escritas para serem inicialmente acompanhadas por música, podem ser lidas separadamente (tal como já li peças de teatro sem as ver em palco). Compreendo no entanto a posição dela e, na maior parte dos casos, estaria de acordo. Há apenas alguns, como os que nomeei acima, onde penso que a música é desnecessária, mesmo quando complementa o conjunto.

 

Robert Zimmermann escolheu o apelido Dylan em homenagem a Dylan Thomas. Aquilo que primeiro chamou a atenção foram as suas letras, mas isso aconteceu porque as cantava. Numa comparação canhestra, lembro-me de algo que li em tempos sobre Puff Daddy e Jay Z: o primeiro era empresário para poder ser rapper, o segundo era rapper para ser empresário. Na minha comparação canhestra, tenho vontade de escrever que Zimmermann se tornou um músico para poder ser poeta, para que o ouvissem e lessem. Para tal se tornou Dylan. E devemos, tanto os leitores como os ouvintes, ficar felizes por isso.

O que dizem de Dylan

por Pedro Correia, em 14.10.16

"Para mim, foi como terem dado a medalha ao Evereste: ele é o mais alto do mundo."

Leonard Cohen, El País

 

"De Orfeu a Faiz, canção e poesia sempre estiveram estreitamente ligadas. Dylan é um brilhante herdeiro da tradição trovadoresca. Grande escolha."

Salman Rushdie, Twitter

 

"Uma inspirada escolha do Comité Nobel. Muitos de nós fomos (quase literalmente!) assombrados pelas canções de Dylan na década de 60 - poderosos monólogos dramáticos e versos surrealistas (It’s All Over Now, Baby Blue,” “With God on Our Side,” “Blowin in the Wind,” “Like a Rolling Stone”)."

Joyce Carol Oates, Wall Street Journal

 

"Dylan e Leonard Cohen são grandes poetas."

Francisco José Viegas, Correio da Manhã

 

"Dylan é um dos grandes poetas do nosso tempo."

João Pereira Coutinho, Correio da Manhã

 

"Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais."

Miguel Esteves Cardoso, Público

 

"Já ouvi reacções indignadas de escritores portugueses, e até de um músico, o que é extremamente ridículo. Este é um prémio justíssimo."

Sérgio Godinho, Diário de Notícias

Dylan

por José António Abreu, em 14.10.16

O primeiro Nobel da literatura que é bom para cantarolar.

Dylan Once Again

por Francisca Prieto, em 13.10.16

Hoje o mundo veio abaixo, com um míssil disparado de Estocolmo. Atribuiu-se a Bob Dylan, o desgrenhado compositor de voz rouca, o Prémio Nobel da Literatura.

Passei o dia a ouvir opiniões de dois grupos antagónicos. De um lado, gente petrificada com a chegada do apocalipse e, do outro, malta a pulular em euforia pela ousadia da escolha. A mim, coube-me o desconforto. Porque de alguma forma, sentia que letras de canções não encaixavam na categoria.

A Velha do Restelo e a Rapariga Prá Frentex que coexistem no meu córtex pré-frontal e que arbitram os casos difíceis, degladiavam-se em argumentos ininterruptos.

Pois que letras de canções são poesia. E já foi premiado mais do que um poeta. Devia valer. E um dramaturgo? Também já foi premiado, ora. Será uma peça de teatro literatura? E o Chico Buarque? é poeta, caramba. Macacos me mordam.

E andei nisto todo o dia, a querer à brava ser a favor da nomeação de Bob Dylan para ser moderna, mas sem me conseguir render.

Até que, chegando à noitinha, e para meu grande alívio, percebi porque é que letras de canções e peças de teatro não se deviam misturar no campeonato da literatura. A questão é que, se na forma as podemos ver como semelhantes, na função nada têm a ver.

Um letrista escreve poesia para ser cantada. Um dramaturgo escreve teatro para ser levado a cena. À letra acrescenta-se música. Ao argumento, acrescentam-se actores, luzes, som.

A literatura é, simplesmente, para ser lida. Não tem outra função, não é apenas uma parte de outra coisa maior.

E nisso que reside a diferença. E é por isso que não faz sentido premiar a partir do mesmo saco.

 

Dylan.JPG

 

Até nem é mau acompanhamento para o Pulitzer...

por José António Abreu, em 13.10.16

Blogue_Nobel_Pulitzer.jpg

Tudo menos literatura.

por Luís Menezes Leitão, em 13.10.16

Consta que, quando Winston Churchill recebeu o prémio nobel da literatura, Somerset Maugham comentou: "Deveria ter-me dedicado era à política". Acho que todos os escritores do mundo poderão dizer, depois da atribuição do prémio a Bob Dylan, que deveriam ter-se dedicado era à música. Porque podem dar as justificações que quiserem, mas uma obra musical não é uma obra literária. E o prémio destinava-se a premiar os autores de obras literárias, não os compositores de canções, como é o caso de Bob Dylan.

 

A verdade é que isto não conta para nada, uma vez que o prémio Nobel só tem premiado escritores medíocres. Já o imortal Saramago, que até considero um escritor razoável, dizia que nesta treta do Nobel a única coisa que interessa é o dinheiro. Na verdade, se o prémio não fosse de um milhão de dólares ninguém ligaria absolutamente nada a este júri com critérios obscuros, que conseguiu negar sistematicamente o Nobel a grande escritores, como Tolstoi, Jorge Amado, e Jorge Luís Borges. Este chegou a dizer com ironia, depois de ter sido mais uma vez rejeitado: "Não me darem o Nobel é um velho costume sueco. Desde que eu nasci que não mo dão". Por isso, quando o Nobel é raramente atribuído a um grande escritor, como aconteceu com Vargas Llosa, a surpresa é geral. Por isso, terem dado o prémio a Bob Dylan significa apenas a continuidade do absurdo do Nobel. As apostas sobre o  vencedor do Nobel têm por isso tantas hipóteses de ser bem sucedidas como acertar na chave do euromilhões. 

 

Valha-nos que o nosso afectuoso Presidente da República ache mais importante justificar aos portugueses perplexos a atribuição do Nobel do que nos informar a sua posição sobre o brutal aumento de impostos que se avizinha. Temos assim direito a um comunicado presidencial intitulado The Times They Are a-Changin’ que nos informa que "o Presidente da República, evocando a sua juventude, não pode deixar de se associar a esta homenagem, inesperada mas significativa, com a atribuição do Prémio Nobel a Bob Dylan, alguém que para além da riqueza das suas letras se notabilizou pelas suas músicas, sinal claro de que os tempos estão a mudar...". Claro que os tempos estão a mudar, Senhor Presidente. E olhe que é para muito pior. Só é pena que isso não o preocupe nada.


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