Como figura central em fita de corsários

Sensação crescente de que vivemos um momento sério e grave, com evidente erosão da ordem global tal como a conhecíamos há quatro gerações. O direito internacional fundado em 1945 com a Carta da ONU - estabelecida em larga medida por iniciativa dos EUA - acaba de ser torpedeado, sem paliativos, pelo próprio país que o impulsionou.
Donald Trump envia um grupo de operações especiais à capital de um Estado distante com o qual Washington mantém relações diplomáticas, ordena que o seu homólogo local voe algemado para Nova Iorque e proclama-se de imediato regedor supremo dessa nação, sem qualquer mandato para o efeito. Do mesmo passo, desconsidera a oposição democrática, sem lhe reconhecer estatuto para assumir o poder na Venezuela após um quarto de século no combate à clique mafiosa do Palácio de Miraflores. Imitando um senhor feudal, com direito de pernada.
Para já, tolera a posse da número dois da ditadura bolivariana, inaugurando um insólito madurismo sem Maduro. Segue-se o quê? A designação para Caracas de um vice-rei, um alto-comissário ou um governador-geral replicando os modelos coloniais? Logo nos EUA, que fundaram a sua soberania, no século XVIII, em luta aberta contra o colonialismo inglês.
Falando aos jornalistas junto ao WC do avião presidencial, mostrando a cara mas mantendo parte do corpo escondido, o chefe do Executivo norte-americano vai multiplicando ameaças: ao Irão, a Cuba, à Colômbia. Sem esquecer o México, vizinho do sul. E o Canadá, vizinho do norte.
As mais impensáveis, por visarem uma nação aliada, são as que tem dirigido ao Reino da Dinamarca com a intenção deliberada de tomar posse da Gronelândia - como se fosse figura central numa fita de corsários. «Precisamos dessa ilha, em nome da nossa segurança nacional», afirmou o inquilino da Casa Branca. Parecendo esquecer que os EUA já lá possuem uma base militar desde 1951.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, respondeu-lhe à letra. Com linguagem contundente - única que Trump parece entender. Se Washington cometer algum acto de agressão contra a Gronelândia, a OTAN termina nesse mesmo dia.
Teve o mérito de ser directa e clara, atributos que nem sempre caracterizam os líderes europeus, viciados no balofo linguajar diplomático.
Turbulência total: ainda antes de decorrer um ano desde que tomou posse, o sucessor de Joe Biden já subverteu o quadro de relações internacionais, tratando amigos e aliados como inimigos, a partir da sua mansão da Florida, entre duas tacadas de golfe. O cenário tornou-se caótico ao ponto de a República Popular da China surgir hoje como aparente sentinela da legalidade, apelando ao respeito pela soberania dos povos.
Trump não tornou apenas o mundo muito mais perigoso: anda a voltá-lo do avesso. Isto tem tudo para acabar mal. E provavelmente terminará mesmo.










