Doze sugestões de Natal
Obras para esta quadra e para cada mês do ano que vai seguir-se

O ÚLTIMO AVÔ, de Afonso Reis Cabral (D. Quixote). De novo a família no eixo ficcional, onze anos após O Meu Irmão, que projectou de imediato o autor para o primeiro plano da novelística nacional. Aqui revisitando os traumas da guerra em Angola num cenário pós-colonial - a guerra menos falada mas mais devastadora, a que sepultou os sonhos da libertação, tornados pesadelos totalitários já em esboço sangrento nos dias crepusculares da administração portuguesa. Onde terminam os factos e começam lendas e mitos? Eis a interrogação fundamental deste romance sem uma palavra a mais. Com o jovem protagonista convicto de que «o passado dos pais é muitas vezes o presente dos filhos».

A CASA DOS KRULL, de Georges Simenon (Cavalo de Ferro). Romance sem o comissário Maigret, quase sem temática policial. Publicado originalmente em 1939, com toque premonitório: fala-nos de uma família originária da Alemanha mas residente em França, entalada entre dois mundos sem pertencer a qualquer deles: «Embora sejamos naturalizados, tratam-nos como estrangeiros.» Com os ecos da I Guerra Mundial ainda frescos e a segunda já tão próxima, a pretexto de insanáveis ódios transfronteiriços. Drama doméstico marcado por pulsões xenófobas prenunciando a tragédia colectiva prestes a incendiar outra vez a Europa. Obra-prima de Simenon (1903-1989) com irrepreensível tradução de Diogo Paiva.

A HORA DOS PREDADORES, de Giuliano da Empoli (Gradiva). O autor recorre à sua experiência como conselheiro do antigo primeiro-ministro italiano Matteo Renzi (2014-2016) para descrever os meandros da política mundial em linguagem sofisticada mas cáustica. Relatando neste curto ensaio o que testemunhou na sede da ONU, no hotel Ritz em Riade perante o príncipe herdeiro saudita ou num hotel de Lisboa onde escutou Henry Kissinger. O tom geral é pessimista face ao predomínio dos oligarcas da tecnologia e à generalizada incompetência da nova casta dirigente: «A guerra está de novo na moda. Os dirigentes que a invocam ganham eleições. Alguns passam seguidamente aos actos.» Temos imensa informação, mas nunca o futuro foi tão imprevisível.

PORQUE SOU LIBERAL, de João Cotrim de Figueiredo (Zigurate). Raras vezes vemos políticos no activo escreverem com tanto desassombro sobre si próprios. Respondendo a um repto lançado pelo editor ainda antes de ter decidido candidatar-se a Belém, o eurodeputado liberal aceitou desfiar memórias - da família, dos estudos, das várias etapas profissionais e da sua tardia iniciação à vida partidária que o levaria em 2019 à estreia em São Bento. Não conta tudo, mas desvenda muito. Com escrita elegante e sem pedir licença seja a quem for por pensar como pensa. Com a consciência plena de que «tudo é uma escolha, tudo tem um custo», e «nada de verdadeiramente importante se consegue sem trabalho».

JOSÉ SÓCRATES: ASCENSÃO, de João Miguel Tavares (D. Quixote). Certos livros são puro jornalismo: eis um deles. Durante anos, João Miguel Tavares acumulou informação de todo o tipo sobre o primeiro chefe de um governo português levado a tribunal por ilícitos criminais. Este volume - que inaugura um tríptico - segue o percurso do "animal feroz" desde a infância transmontana até à vitória de 2005, por maioria absoluta. Nessa era de ilusão, muitos portugueses apostaram todas as fichas nele, enquanto uma imprensa desatenta permanecia alheia aos sinais. Aqui se explica como e porquê: é serviço público. «Sem a história completa dos anos Sócrates corremos o risco de continuar a fingir que o tempo em que estivemos doentes foi passado de óptima saúde.» Dá vontade de assinar por baixo.

D. JOÃO VI E A DESGRAÇADA FAMÍLIA, de José António Saraiva (Gradiva). O século XIX, para nós, começou mal: Portugal foi três vezes invadido pelos franceses, depois ocupado por forças inglesas, entretanto a família real fugiu para o Brasil, acabando esta jóia da coroa por cortar laços com a metrópole europeia. Seguiu-se a súbita morte do rei, envenenado, e uma sangrenta guerra civil que fracturou o país em duas parcelas, cada qual liderada por um infante. Drama em vários actos que tantos ainda ignoram: o antigo director do Expresso relata-os nesta envolvente obra terminada pouco antes de morrer, a 6 de Março. Merece leitura atenta, mesmo com erros de pormenor a remover de edições futuras.

RECORDAÇÕES E ANDORINHAS, de J. Rentes de Carvalho (Quetzal). Registo de três anos (2007, 2008, 2009) na vida do autor de Ernestina, dividido entre a aldeia transmontana dos ancestrais e a cosmopolita Amesterdão, onde ancorou há décadas sem afrouxar os intensos laços afectivos que o ligam à pátria-mãe. Diário de temas muito variados, ora em registo de crónica de costumes (deliciosa, a das andorinhas que pousaram no título da obra), ora de evocação de outras gentes noutras eras, ora de discreto confessionalismo em diálogo tantas vezes irónico com o leitor tornado cúmplice. «Mal vai aquele a quem o mundo não surpreende.» Voz inconfundível, a de Rentes: hoje com 95 anos e ainda tanto por dizer.

ALMAS ARTIFICIAIS, de Luís Naves (Astrolábio). Catorze histórias com fundo comum: um presente carregado de incertezas, um futuro sem amanhãs que cantam. Personagens que funcionam como arquétipos da inadaptação: o desempregado, o divorciado, o mendigo - seres bloqueados no elevador social. Aqui pairam ecos de Kafka, Vonnegut, Dino Buzzati, Philip K. Dick - em registos que vão da literatura do absurdo à ficção científica. Alguns contos dignos de antologia: "A Última Greve", "Baltasar e Joaninha, o Primeiro Casal no Espaço". Ou "Máscaras", a propósito da pandemia: as pessoas andam dois anos de cara oculta com receio do vírus e perdem a identidade quando a máscara cai. O reconhecimento facial torna-se impossível, todas as aparências podem iludir.

A NOVA PESTE, de Manuel Maria Carrilho (Desassossego). Desassombrado libelo contra os novíssimos torquemadas embalados por conceitos como "apropriação cultural" e "micro-agressões" enquanto entoam hossanas ao transexualismo e praticam o cancelamento ameaçando a liberdade de expressão e, no limite, a própria democracia. Este ensaio rema contra os ventos dominantes, por isso não admira o manto de silêncio que o rodeou - como se fosse um livro maldito. E assim será para alguns: o antigo ministro da Cultura vergasta aqui os apóstolos da ideologia de género: «O seu mundo é o mundo do impensar, é como designo a forma hoje dominante do politicamente correcto e da sua fábrica de ignorâncias.»

ASSASSINATO NO COMITÉ CENTRAL, de Manuel Vázquez Montalbán (Quetzal). Reedição que já tardava. Policial atípico, cruza tópicos do género com sátira política. Teve êxito imediato, em 1981: Montalbán (1939-2003) estava no auge do seu talento ao relatar as peripécias do detective Pepe Carvalho, ex-agente da CIA, gastrónomo impenitente e leitor compulsivo que alimenta a lareira com livros - O Problema da Habitação, de Engels, é aqui devorado pelas chamas. Excelente crónica da Espanha pós-franquista, quando a democracia ainda gatinhava. Cheia de críticas mordazes à bússola errante dos comunistas sem revolução no horizonte: «Abandona-se o marxismo e acaba-se a acreditar no zodíaco e sem saber distinguir o bem do mal.» Imperdível, a receita de arroz de amêijoas.

PORQUE SE ENGANAM OS INTELECTUAIS, de Samuel Fitoussi (Bertrand). Alguns dos mais afamados pensadores do século XX vendiam gato por lebre. Enganaram-se em quase tudo - e levaram muitos incautos por maus caminhos. Acolheram com bonomia os regimes totalitários e chegaram a cantar-lhes odes por cegueira ideológica ou irreparável má-fé. Gente como George Bernard Shaw, que comparava Estaline a Voltaire. Ou Simone de Beauvoir, que no regresso da China «publicou um livro de 500 páginas em louvor do maoismo». Ou Bertrand Russell, que desvalorizou a ameaça nazi exigindo o desarmamento unilateral do Reino Unido já com Hitler no poder. Disto fala o autor, jovem investigador e ensaísta francês. Sem ocultar nomes nem venerar vacas sagradas.

QUE SE PASSA COM O BAUM?, de Woody Allen (Edições 70). Vítima da "cultura do cancelamento", impedido de filmar no seu país e na cidade natal que tanto ama, o criador de Annie Hall reconverte-se em romancista aos 90 anos - completados no passado dia 30. Esta sua memorável estreia lembra as comédias que rodou na década de 70, em torno de um judeu novaiorquino envolto em crises emocionais. Apresenta-nos um alter ego chamado Asher Baum, escritor hipocondríaco que ao dobrar os cinquenta adquire o hábito de falar sozinho, sem filtro, um pouco por toda a parte. Marcado pela culpa, «esse poderoso elemento envolvente, tão predominante como o oxigénio e porventura tão necessário quanto ele».




















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