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Delito de Opinião

Doze sugestões de Natal

Obras para esta quadra e para cada mês do ano que vai seguir-se

Pedro Correia, 12.12.25

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O ÚLTIMO AVÔ, de Afonso Reis Cabral (D. Quixote). De novo a família no eixo ficcional, onze anos após O Meu Irmão, que projectou de imediato o autor para o primeiro plano da novelística nacional. Aqui revisitando os traumas da guerra em Angola num cenário pós-colonial - a guerra menos falada mas mais devastadora, a que sepultou os sonhos da libertação, tornados pesadelos totalitários já em esboço sangrento nos dias crepusculares da administração portuguesa. Onde terminam os factos e começam lendas e mitos? Eis a interrogação fundamental deste romance sem uma palavra a mais. Com o jovem protagonista convicto de que «o passado dos pais é muitas vezes o presente dos filhos».

 

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A CASA DOS KRULL, de Georges Simenon (Cavalo de Ferro). Romance sem o comissário Maigret, quase sem temática policial. Publicado originalmente em 1939, com toque premonitório: fala-nos de uma família originária da Alemanha mas residente em França, entalada entre dois mundos sem pertencer a qualquer deles: «Embora sejamos naturalizados, tratam-nos como estrangeiros.» Com os ecos da I Guerra Mundial ainda frescos e a segunda já tão próxima, a pretexto de insanáveis ódios transfronteiriços. Drama doméstico marcado por pulsões xenófobas prenunciando a tragédia colectiva prestes a incendiar outra vez a Europa. Obra-prima de Simenon (1903-1989) com irrepreensível tradução de Diogo Paiva.

 

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A HORA DOS PREDADORES, de Giuliano da Empoli (Gradiva). O autor recorre à sua experiência como conselheiro do antigo primeiro-ministro italiano Matteo Renzi (2014-2016) para descrever os meandros da política mundial em linguagem sofisticada mas cáustica. Relatando neste curto ensaio o que testemunhou na sede da ONU, no hotel Ritz em Riade perante o príncipe herdeiro saudita ou num hotel de Lisboa onde escutou Henry Kissinger. O tom geral é pessimista face ao predomínio dos oligarcas da tecnologia e à generalizada incompetência da nova casta dirigente: «A guerra está de novo na moda. Os dirigentes que a invocam ganham eleições. Alguns passam seguidamente aos actos.» Temos imensa informação, mas nunca o futuro foi tão imprevisível.

 

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PORQUE SOU LIBERAL, de João Cotrim de Figueiredo (Zigurate). Raras vezes vemos políticos no activo escreverem com tanto desassombro sobre si próprios. Respondendo a um repto lançado pelo editor ainda antes de ter decidido candidatar-se a Belém, o eurodeputado liberal aceitou desfiar memórias - da família, dos estudos, das várias etapas profissionais e da sua tardia iniciação à vida partidária que o levaria em 2019 à estreia em São Bento. Não conta tudo, mas desvenda muito. Com escrita elegante e sem pedir licença seja a quem for por pensar como pensa. Com a consciência plena de que «tudo é uma escolha, tudo tem um custo», e «nada de verdadeiramente importante se consegue sem trabalho». 

 

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JOSÉ SÓCRATES: ASCENSÃO, de João Miguel Tavares (D. Quixote). Certos livros são puro jornalismo: eis um deles. Durante anos, João Miguel Tavares acumulou informação de todo o tipo sobre o primeiro chefe de um governo português levado a tribunal por ilícitos criminais. Este volume - que inaugura um tríptico - segue o percurso do "animal feroz" desde a infância transmontana até à vitória de 2005, por maioria absoluta. Nessa era de ilusão, muitos portugueses apostaram todas as fichas nele, enquanto uma imprensa desatenta permanecia alheia aos sinais. Aqui se explica como e porquê: é serviço público. «Sem a história completa dos anos Sócrates corremos o risco de continuar a fingir que o tempo em que estivemos doentes foi passado de óptima saúde.» Dá vontade de assinar por baixo.

 

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D. JOÃO VI E A DESGRAÇADA FAMÍLIA, de José António Saraiva (Gradiva). O século XIX, para nós, começou mal: Portugal foi três vezes invadido pelos franceses, depois ocupado por forças inglesas, entretanto a família real fugiu para o Brasil, acabando esta jóia da coroa por cortar laços com a metrópole europeia. Seguiu-se a súbita morte do rei, envenenado, e uma sangrenta guerra civil que fracturou o país em duas parcelas, cada qual liderada por um infante. Drama em vários actos que tantos ainda ignoram: o antigo director do Expresso relata-os nesta envolvente obra terminada pouco antes de morrer, a 6 de Março. Merece leitura atenta, mesmo com erros de pormenor a remover de edições futuras.

 

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RECORDAÇÕES E ANDORINHAS, de J. Rentes de Carvalho (Quetzal). Registo de três anos (2007, 2008, 2009) na vida do autor de Ernestina, dividido entre a aldeia transmontana dos ancestrais e a cosmopolita Amesterdão, onde ancorou há décadas sem afrouxar os intensos laços afectivos que o ligam à pátria-mãe. Diário de temas muito variados, ora em registo de crónica de costumes (deliciosa, a das andorinhas que pousaram no título da obra), ora de evocação de outras gentes noutras eras, ora de discreto confessionalismo em diálogo tantas vezes irónico com o leitor tornado cúmplice. «Mal vai aquele a quem o mundo não surpreende.» Voz inconfundível, a de Rentes: hoje com 95 anos e ainda tanto por dizer.

 

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ALMAS ARTIFICIAIS, de Luís Naves (Astrolábio). Catorze histórias com fundo comum: um presente carregado de incertezas, um futuro sem amanhãs que cantam. Personagens que funcionam como arquétipos da inadaptação: o desempregado, o divorciado, o mendigo - seres bloqueados no elevador social. Aqui pairam ecos de Kafka, Vonnegut, Dino Buzzati, Philip K. Dick - em registos que vão da literatura do absurdo à ficção científica. Alguns contos dignos de antologia: "A Última Greve", "Baltasar e Joaninha, o Primeiro Casal no Espaço". Ou "Máscaras", a propósito da pandemia: as pessoas andam dois anos de cara oculta com receio do vírus e perdem a identidade quando a máscara cai. O reconhecimento facial torna-se impossível, todas as aparências podem iludir.

 

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A NOVA PESTE, de Manuel Maria Carrilho (Desassossego). Desassombrado libelo contra os novíssimos torquemadas embalados por conceitos como "apropriação cultural" e "micro-agressões" enquanto entoam hossanas ao transexualismo e praticam o cancelamento ameaçando a liberdade de expressão e, no limite, a própria democracia. Este ensaio rema contra os ventos dominantes, por isso não admira o manto de silêncio que o rodeou - como se fosse um livro maldito. E assim será para alguns: o antigo ministro da Cultura vergasta aqui os apóstolos da ideologia de género: «O seu mundo é o mundo do impensar, é como designo a forma hoje dominante do politicamente correcto e da sua fábrica de ignorâncias.»

 

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ASSASSINATO NO COMITÉ CENTRAL, de Manuel Vázquez Montalbán (Quetzal). Reedição que já tardava. Policial atípico, cruza tópicos do género com sátira política. Teve êxito imediato, em 1981: Montalbán (1939-2003) estava no auge do seu talento ao relatar as peripécias do detective Pepe Carvalho, ex-agente da CIA, gastrónomo impenitente e leitor compulsivo que alimenta a lareira com livros - O Problema da Habitação, de Engels, é aqui devorado pelas chamas. Excelente crónica da Espanha pós-franquista, quando a democracia ainda gatinhava. Cheia de críticas mordazes à bússola errante dos comunistas sem revolução no horizonte: «Abandona-se o marxismo e acaba-se a acreditar no zodíaco e sem saber distinguir o bem do mal.» Imperdível, a receita de arroz de amêijoas.

 

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PORQUE SE ENGANAM OS INTELECTUAIS, de Samuel Fitoussi (Bertrand). Alguns dos mais afamados pensadores do século XX vendiam gato por lebre. Enganaram-se em quase tudo - e levaram muitos incautos por maus caminhos. Acolheram com bonomia os regimes totalitários e chegaram a cantar-lhes odes por cegueira ideológica ou irreparável má-fé. Gente como George Bernard Shaw, que comparava Estaline a Voltaire. Ou Simone de Beauvoir, que no regresso da China «publicou um livro de 500 páginas em louvor do maoismo». Ou Bertrand Russell, que desvalorizou a ameaça nazi exigindo o desarmamento unilateral do Reino Unido já com Hitler no poder. Disto fala o autor, jovem investigador e ensaísta francês. Sem ocultar nomes nem venerar vacas sagradas.

 

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QUE SE PASSA COM O BAUM?, de Woody Allen (Edições 70). Vítima da "cultura do cancelamento", impedido de filmar no seu país e na cidade natal que tanto ama, o criador de Annie Hall reconverte-se em romancista aos 90 anos - completados no passado dia 30. Esta sua memorável estreia lembra as comédias que rodou na década de 70, em torno de um judeu novaiorquino envolto em crises emocionais. Apresenta-nos um alter ego chamado Asher Baum, escritor hipocondríaco que ao dobrar os cinquenta adquire o hábito de falar sozinho, sem filtro, um pouco por toda a parte. Marcado pela culpa, «esse poderoso elemento envolvente, tão predominante como o oxigénio e porventura tão necessário quanto ele». 

Comprar para esquecer

Teresa Ribeiro, 05.12.25

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Nada como passar pelo supermercado para apreciar o efeito de rebanho que as campanhas natalícias provocam nos consumidores. Parecem abelhinhas numa colmeia. E isto já se observa há semanas. Os senhores que nos pastoreiam lá sabem por que o Natal deve começar cada vez mais cedo. Apesar de termos uma vida difícil, gastamos mais quando pressionados. É esta a premissa número 1 de um bom marketeer.

O consumidor é um animal manso e obediente. Já assumiu que o Natal começa em Outubro e que a febre das compras tem de se cumprir, com ou sem dinheiro para gastar, logo se vê. Como se consegue este efeito multiplicador? É um mistério da fé. A verdade é que todos os anos os congestionamentos de trânsito em torno dos centros comerciais e as filas quilométricas para os caixas do supermercado se cumprem. Aos que resistem a esta via crucis por terem a mania que são diferentes, restam as pequenas excentricidades como a de só comprar em lojas de rua, de preferência no bairro, ou melhor ainda, fazer as compras natalícias ao longo do ano. Também há quem teime em festejar o Natal apenas a partir do dia 1 de Dezembro, como antigamente. Sou um orgulhoso membro deste grupo de resistentes. De alguma forma sinto que me redime de todo este desconcerto consumista em que me deixo arrastar.

Também compro quase tudo em lojas de rua. Menos mal. De resto compro, compro e compro o Natal como se não houvesse amanhã. Talvez para esquecer - visto que não tenho filhos ou sobrinhos pequenos, nem netos - que o Pai Natal não existe.

Espíritos de outros Dezembros

Maria Dulce Fernandes, 02.12.25

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O pensamento é inevitável.  Mesmo quem pensa mal, pensa sempre. É o que define a nossa existência como seres pensantes e, dizem, o que nos separa dos outros animais.

“Não quero pensar nisso", dizemos, como se não pensar fosse uma decisão que se toma e pronto. Não é fácil, não pensar. Requer uma série de mecanismos, de artimanhas de resultado duvidoso, que levem a mente a divagar por becos e ruelas longe da praça principal. Nem sempre funciona, mas enquanto se tenta, estamos embrenhados na intenção.

Este ano entrou louco, correu assustador e chegou à recta final com aquela calma de quem venceu uma guerra com as mãos vazias. Mas somos gratos por cada dia em que cada pequeno passo contribuiu para esta primeira grande vitória.

Dezembro entrou e já começa a parecer-se bastante com o Natal. Há muitos anos que as cadeiras se vêm tirando de volta da mesa nas comemorações familiares, para não marcarem os lugares vazios onde ninguém se quer sentar. Já fomos muitos.

É inevitável construir uma linha temporal que nos remete à infância, ao primeiro Natal, ao bulício atarefado da cozinha, aos sorrisos dos convivas, ao calor da ternura. Ao amor. Tanta gente, tanta alegria.

A alegria continua nos sorrisos das nossas crianças, o calor, a ternura, o amor não se perderam nem se diluíram no passar dos anos. Apenas no nosso coração, por mais transbordante que esteja, dói a falta de todos aqueles lugares por preencher. Embora o seu espírito viva luzente nas nossas memórias, a saudade é sempre pungente e cresce doida a cada ano que passa.

Setúbal, pós-Natal 2024

Pedro Correia, 29.12.24

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«Aparentes senhores de um barco abandonado, / nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem... / Aonde iremos ter? - Com frutos e pecado, / se justifica, enflora, a secreta viagem!»

(David Mourão-Ferreira)

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«Lá vão os cercos plo Sado abaixo, / Ao mar vizinho, à sua lida. / "Voltem pesados, co’a borda em baixo!" / Gritam gaivotas em despedida

(Luís Cabral Adão)

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«O rio abre um largo e irregular estuário, as águas entram profundamente pela terra dentro.»

(José Saramago)

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«Ah seja como for, seja por onde for, partir! / Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo,  pelo mar.»

(Álvaro de Campos)

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«Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado, / Mansa corrente deleitos, amena, / Em cuja praia o nome de Filena / Mil vezes tenho escrito e mil beijado.»

(Bocage)

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«Todo eu me alevanto e todo eu ardo. / Chego a julgar a Arrábida por Mãe, / quando não serei mais que seu bastardo.»

(Sebastião da Gama)

Fotos minhas

Reflexão do dia

Pedro Correia, 25.12.24

«Quando se apaga, o calor que resta não domina, mas insiste. Um resíduo quase silencioso, mas irreprimível. Talvez seja aqui que o Natal encontra a sua natureza: não no esplendor de uma luz plena, mas no intervalo entre claridade e penumbra. Um momento onde o tempo pausa e a escuta se torna possível.

Não há conclusões no fogo, como não há no mistério. Apenas um convite para habitar a incerteza. Para olhar, para esperar. Talvez seja aí, na hesitação, que se encontra aquilo que julgávamos perdido: a diferença, o Outro, o mundo.

A dúvida que nos humaniza.»

 

Maria Castello Branco, no Expresso

Santarém, Natal 2024

Pedro Correia, 25.12.24

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«Scabelicastro, cujo campo ameno / Tu, claro Tejo, regas tão sereno...»

(Camões)

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«O Ribatejo deve ser visto das Portas do Sol de Santarém, num dia de cheia.»

(Miguel Torga)

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«Mira-te no Tejo Santarém, princesa que foste e rainha que és…»

(Alexandre Herculano)

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«Um comboio que partisse / Sem sair da estação / No lado esquerdo da linha / Transporte dum coração.»

(José do Carmo Francisco)

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«Santarém, nobre Santarém, a Liberdade não é inimiga da religião do céu nem da religião da terra. Sem ambas não vive, degenera, corrompe-se, e em seus próprios desvarios se suicida.»

(Almeida Garrett) 

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«Na minha juventude antes de ter saído / da casa de meus pais disposto a viajar /eu conhecia já o rebentar do mar / das páginas dos livros que já tinha lido.»

(Ruy Belo) 

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«Livre, liberta em pedra. / Até onde couber / tudo o que é dor maior, / por dentro da harmonia jacente, / aguda, fria, atroz, / de cada dia

(Natércia Freire)

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«Tenho um pátio andaluz no meio de mim. / Todo água, espelhos e pedras preciosas.»

(Rita Tormenta)

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«Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.»

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

Fotos minhas

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 25.12.24

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Hoje lemos: Vasco Graça Moura, "Gloria In Excelsis - As Mais Belas Histórias Portuguesas de Natal".

Passagem a L-Azular: "Na obra de Aquilino, para além das páginas que, em Terras do Demo, dedica à quadra natalícia, avultam o conto "D. Quixote contra Herodes", (Estrada de Santiago, 1922), aqui seleccionado pela sua bem-humorada paródia pós-cervantina de D. Quixote aceitar não acometer os gigantes, para ficar de guarda ao Menino Jesus do presépio contra as anunciadas malfeitorias do rei Herodes, e toda uma série de esplêndidas sequências. De "O Livro do Menino Deus" (1945), de que seleccionei, por afinal se tratar de um pequeno conto, "A Missa do Galo", com a sua saborosa discussão, teológica e não só, entre um velho fidalgo céptico e o abade da freguesia."

Podia ter sido outra passagem qualquer. O livro é como um peru natalino, criteriosamente escolhido, finamente preparado, cuidadosamente cozinhado e magistralmente recheado do melhor que a literatura portuguesa produziu. Bom proveito e Feliz Natal.

Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram

Pedro Correia, 24.12.24

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«Os pastores disseram uns aos outros: "Vamos, então, até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer." Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira. E, quando os viram, começaram a espalhar o que lhes tinham dito a respeito daquele Menino. Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram os pastores.»
 
Lucas II, 15-18

Livros: doze sugestões de Natal

Pedro Correia, 21.12.24

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AUTOCRACIA, INC., de Anne Applebaum (Bertrand). Lúcida, apaixonada e vibrante defesa da democracia liberal num mundo em que a ameaça dos regimes autocráticos se vai tornando cada vez mais preocupante em diversas latitudes - da Rússia oprimida pela ditadura de Vladimir Putin à Venezuela chavista hoje transformada em narco-Estado sob a força dos fuzis, sem esquecer a anquilosada teocracia iraniana, especializada em enforcar jovens que se atrevem a contestar os dogmas islâmicos e em torturar mulheres por ousarem sair à rua de cabelo descoberto. Sem achismos, com muitos dados factuais, o que torna este ensaio político ainda mais aliciante.

 

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O FIM DAS POLÍTICAS DE RAÇA, de Coleman Hughes (Guerra & Paz). Oportuno e desassombrado ensaio de um jovem colunista e comentador norte-americano que critica com dureza os movimentos racialistas prontos a atribuir todos os males do mundo à "culpa do homem branco", num infindável cortejo de atrocidades. Filho de pai norte-americano com origem africana e de mãe natural de Porto Rico, Coleman Hughes insurge-se contra o espírito de seita dos activistas ultra-radicais que acusam todos os brancos do pecado mortal da escravatura, merecendo penitência perpétua. Defende o "daltonismo" racial como proposta revolucionária. Para ele importam as ideias, não a cor da pele.

 

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A MULHER DO MEIO, de Ivone Mendes da Silva (Língua Morta). Há livros inclassificáveis. Este é um deles. Diário sem datas? Crónicas? Microcontos? Fragmentos de romance em construção? Paira aqui um ambiente de novela campestre inglesa do século XIX. Longe da multidão, Ivone Mendes da Silva descreve um quotidiano circular e sincopado, mas onde não faltam notas dissonantes. Observa com minúcia o que a rodeia - pessoas, animais, flores, cores, luzes, sombras. Este é o seu reino - só com pontos, sem uma vírgula. "Tenho às vezes insensatos desejos de viagem que nunca concretizo." Acima de tudo, a qualidade de escrita impera nesta obra de 2019 agora reeditada. Resgatando palavras bonitas, com sabor antigo: esparso, esgarçado, aprumo, afinco, afadigar.

 

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DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE DIREITA, de Jaime Nogueira Pinto (Bertrand). Estimulante ensaio com intuito pedagógico de um dos raros intelectuais portugueses que se intitulam de direita sem sentirem necessidade de se chegar cada vez mais ao centro. Mas existem várias direitas, não apenas uma, ao contrário do que alguns mais apressados ou superficiais supõem, reproduzindo catalogações esquemáticas. De meados do século XIX aos nossos dias, Jaime Nogueira Pinto conduz-nos em visita minuciosa a esse hemisfério, tantas vezes desconhecido e estigmatizado. Com escrita ágil, elegante e esclarecida.

 

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A NOITE MAIS SANGRENTA, de João Miguel Almeida (Manuscrito). Relato algo sumário, mas com sugestiva atmosfera daquela noite de terror do 19 de Outubro de 1921, quando uma alegada "camioneta fantasma" carregada de militares e civis com vocação para o homicídio conduziu à morte, por execução sumária, o presidente do Governo cessante, António Granjo, um liberal moderado, suprimindo também a tiro dois heróis da revolução republicana desencantados com aquela demencial república: Machado Santos e Carlos da Maia. Foi a página mais sinistra do regime implantado em 1910 e viria a apressar o seu fim, traçando-lhe um epitáfio nada lisonjeiro.

 

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JOHNNY MAN, de João Van Zeller (Afrontamento). Livro de memórias com mais de 500 páginas, um tanto desequilibrado e demasiado exaustivo em aspectos secundários, mas com um segmento fundamental, centrado no fim da presença portuguesa em Angola. Van Zeller viveu alguns anos em Luanda, acompanhou tudo de perto em 1974 e 1975, assistiu à rápida derrocada, teve de sair à pressa para nunca mais voltar - como aconteceu com centenas de milhares de compatriotas. Testemunho importante sobretudo para historiadores futuros. Meio século depois, urge pôr fim ao tabu sobre a desastrosa descolonização portuguesa e os regimes de pendor totalitário que deixámos instalados em Bissau, Praia, São Tomé, Luanda e Lourenço Marques.

 

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A TRADUÇÃO DO MUNDO, de Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara). Este volume resulta de um ciclo de conferências do consagrado escritor colombiano a convite da Universidade de Oxford. Juan Gabriel Vásquez faz aqui uma fascinante digressão por obras-primas da literatura mundial: Em Busca do Tempo PerdidoGuerra e PazMemórias de AdrianoCem Anos de SolidãoConversa na CatedralO Coração das TrevasLord JimO Bom Soldado, Beloved. Partilhando com os leitores algumas das suas paixões literárias. «Tornamo-nos homens (ou mulheres) enquanto lemos - em busca de algo similar, temos, pois, recorrido à ficção ao longo dos séculos», conclui. Impossível não nos sentirmos contagiados por ele.

 

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O HOMEM MORTO, de Luís Naves (Astrolábio). Romance quase policial que durante cerca de dois terços parece integrar-se num género literário popularizado por Patricia Highsmith sobre homens solitários que vivem cercados de ameaças imaginárias e num quadro mental que oscila entre a neurose mais delirante e a amoralidade mais completa. Obviamente ambientado em Portugal, numa vila de província, mas em época imprecisa, que tanto pode ser um futuro próximo ou um passado nada distante. Pondo em paralelo a corrupção moral dos indivíduos com a degeneração da sociedade e a corrupção no país. No terço final ocorre uma incursão talvez demasiado rudimentar pela sátira política que desgradua o eixo ficcional. Mas merece elogio pela escrita ágil que prende o leitor do princípio ao fim.

 

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CONVERSAS SOBRE A FÉ, de Martin Scorsese e Antonio Spadaro (Casa das Letras). Livrinho que resulta do diálogo entre o cineasta norte-americano e um sacerdote italiano seu amigo sobre a relação entre crença religiosa e sensibilidade artística. Scorsese - nascido em Nova Iorque numa família de imigrantes italianos - confessa com notável franqueza a sua relação muito próxima com o Deus do catecismo. É católico, acredita na graça divina e a sua obra cinematográfica está impregnada desta crença. Confidencia que alimentou o sonho de filmar o Evangelho Segundo São Mateus até perceber que Pasolini se tinha antecipado. Declarações que constituem nova chave para compreender filmes como Os Cavaleiros do Asfalto, Taxi DriverO Touro EnraivecidoTudo Bons Rapazes e Casino

 

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COMO ESCREVER, de Miguel Esteves Cardoso (Bertrand). Nos dias que correm, abundam os livros de "escrita criativa", muitos dos quais assinados por gente com reduzida aptidão tanto para escrever como para ensinar. Um dos mais influentes e experientes cronistas portugueses, com suave intenção irónica, desmonta nas entrelinhas esses manuais que enxameiam as prateleiras. E diz-nos, muito a sério, como tudo deve começar. Terá sido assim com ele ao vencer pela primeira vez o fantasma da folha em branco. Passo a passo, sem ter medo. Consciente de que «escrever não é um passatempo, ou uma arte, ou uma competição de talentos: escrever é o nosso melhor meio de expressão.» Um dos mais recomendáveis livros de 2024 em Portugal.

 

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O OUVIDOR DO BRASIL, de Ruy Castro (Tinta da China). Conjunto de 99 crónicas originalmente publicadas na imprensa tendo como denominador comum um nome maior da música popular do século XX: Antônio Carlos Jobim (1927-1994), que o autor conheceu bem no exercício da profissão de jornalista em que atingiu o patamar supremo de talento e fama. Aqui mergulhamos na paisagem artística e boémia do Rio de Janeiro e no inigualável mundo da bossa nova, precioso contributo do Brasil para o mundo. Ruy Castro desvenda segredos de Jobim com uma leveza de escrita que nunca deixa de ser profunda.

 

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VERMELHO DELICADO, de Teresa Veiga (Tinta da China). Ficção de pequeno formato com inegável qualidade. Confirma-se a capacidade de efabulação de Teresa Veiga, com uma escrita expurgada de adornos verbais: sente-se que mantém o gosto de narrar uma boa história. Num estilo muito próprio, mesclando simplicidade e complexidade em doses sábias, com insólitos desfechos que surpreendem e seduzem o leitor. Destaque para três contos dignos de figurar em qualquer antologia do género: "A Estalagem de Aldebarã" (o primeiro e maior), "Equinócio da Primavera" e o que dá nome ao livro.

A Pedir Boas Festas

jpt, 19.12.24

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Este é o "cabaz de Natal" que a Junta de Freguesia dos Olivais - essa agremiação do PS, que tanto brado vem dando devido às suas propaladas más práticas - doa a alguns dos fregueses. Desconheço os critérios de selecção, mas presumo que sejam etários - e serão independentes de hipotética escassez de recursos económicos dos ofertados, a ajuizar pela contemplada que me fez chegar esta imagem.

Simpatias partidárias à parte, isto de andar a dar bodo aos... velhinhos é uma peculiar (para não dizer pior) concepção do exercício do poder autárquico. Enfim, é a Lisboa que temos, as gentes que escolhemos...

E, já agora, aproveito o tópico e a benevolente fotografia para a todos vós pedir Boas Festas!.

Canto dos Torna-Viagem

jpt, 19.12.24

(José Mário Branco, Canto dos Torna-Viagem)

 "Então é Natal e estás a publicitar os livros dos outros? E o teu", Zé?, amigo alveja-me no Whatsapp, a propósito de eu (merecidamente) louvar/recordar o "Sair da Estrada" do Dentinho...

Ok, tem razão esse meu amigo. Assim aqui fica esta magnífica "Canto dos Torna-Viagem" do José Mário Branco, na qual ele - entre outras luzes - acendeu a "Cândida ignorância / Grande desimportância / Os frutos da errância / Já lá vão...". Que é também a minha.
 
E a qual procurei deixar no meu "Torna-Viagem". Livro que já aqui impingi várias vezes. Fica a insistência, para quem (ainda) se possa interessar durante esta quadra consumista.

Óbidos, pré-Natal 2024

Pedro Correia, 19.12.24

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«Em qualquer aventura, / O que importa é partir, não é chegar.»

(Miguel Torga)

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«E contudo perdendo-te encontraste. / E nem deuses nem monstros nem tiranos / te puderam deter. A mim os oceanos. / E foste. E aproximaste.»

(Manuel Alegre)

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«Imagem dos gestos que tracei, / irrompe puro e completo. / Por isso, rio foi o nome que lhe dei. / E nele o céu fica mais perto.»

(Eugénio de Andrade)

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«Há um nascer do sol no sítio exacto, / À hora que mais conta duma vida, / Um acordar dos olhos e do tacto, / Um ansiar de sede inextinguida.»

(José Saramago)

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«Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu, / eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia. / No céu podia tecer uma nuvem toda negra. / E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas, / e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.»

(Herberto Helder)

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«Este céu passará e então / teu riso descerá dos montes pelos rios / até desaguar no nosso coração.»

(Ruy Belo)

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«Como nuvens pelo céu / Passam os sonhos por mim. / Nenhum dos sonhos é meu / Embora eu os sonhe assim.»

(Fernando Pessoa)

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«Sinto a terra na força dos meus pulsos: / O mais é mar, que o remo indica, / E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.»

(Vitorino Nemésio)

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«Cada manhã o alvoroço da lua / Me acorda: a luz atravessa a paisagem e a casa! / - A dormir tinha esquecido não as coisas / Mas a sua meticulosa beleza / Múltipla.»

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Fotos minhas

Festas Felizes

Bom Natal e Feliz Ano Novo

Maria Dulce Fernandes, 03.12.24

Voto de Natal


Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.
.
E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!
.
Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.
.
Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.


 David Mourão-Ferreira