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Delito de Opinião

Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram

Pedro Correia, 24.12.20

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«Os pastores disseram uns aos outros: "Vamos, então, até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer." Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira. E, quando os viram, começaram a espalhar o que lhes tinham dito a respeito daquele Menino. Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram os pastores.»
 
Lucas 2, 15-18

Feliz Natal

Maria Dulce Fernandes, 23.12.20

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Desejar "Feliz Natal" pode parecer paradoxal neste ano estranho e pouco feliz, mas é importante realçar que a família  nunca significou tanto, para todo o mundo, como nestes tempos  de incerteza.

Desejo o melhor Natal possível para toda a grande família que é o Delito de Opinião. Que haja paz e saúde, e que se possa retirar da tristeza alguma alegria.

Permuta de Natal

Maria Dulce Fernandes, 17.12.20

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Troco conduta de lixo limpa e desinfectada por espaço de quintal em bom estado, de preferência de uns, mas sem problema se for de outros, durante a semana do Natal.

Tenho também compota de tomate para trocar por doce de ginja ou de amêndoa amarga.

Pede-se a todos os interessados que enviem mensagem pessoal.

Boas Festas

 

Foto do Google

Um Natal triste

Cristina Torrão, 13.12.20

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Mercado de Natal em 2010 - Stade

Por altura do 1.º Domingo do Advento (que este ano foi a 29 de Novembro), arrancam os Mercados de Natal, na Alemanha, prolongando-se até aos dias 22 ou 23 de Dezembro. É uma grande tradição, que, além de inaugurar a época natalícia, vem trazer luz e calor num clima extremamente agreste. Em Dezembro, começa a escurecer pelas três e meia da tarde. E, se o céu estiver nublado, nem chega bem a clarear, durante todo o dia. A isto se juntam temperaturas normalmente negativas. No caso de haver positivas, raramente sobem acima dos 5ºC.

Por isso, todos os anos, as pessoas aguardam ansiosamente os Mercados de Natal, onde, além dos enfeites e quinquilharias natalícias, se encontram comes e bebes e onde o Glühwein é rei (vinho quente com especiarias). Para as crianças, ou adultos que não queiram ou não possam beber álcool, há ponche quente de sumo de frutas, também com especiarias. Até se aprecia o frio cortante, os alemães costumam dizer que o Glühwein só sabe bem, quando está um frio de rachar. E têm razão.

 

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Brindar com Glühwein, no Mercado de Natal (Philipp von Ditfurth/dpa)

 

Assim se enchem os centros das cidades de calor humano e convívio. Raramente, os alemães são tão extrovertidos como nos Mercados de Natal. Também há vários palcos espalhados pelo recinto e Stade, onde vivo, não é excepção. O Horst e eu costumamos actuar com o nosso coro Gospel. O público aplaude eufórico, o que nos aquece os corações, mesmo sabendo que muitas das pessoas talvez o faça apenas por já estarem com um grão na asa.

Este ano, não há Mercados de Natal. Apesar de alguma iluminação e uma ou outra árvore enfeitada, os centros citadinos estão vazios. Dezembro parece que custa mais a passar, as pessoas andam tristes. Em Janeiro, os dias são igualmente curtos, mas o facto de estarem a crescer e de se ter iniciado um novo ano, tem um efeito psicológico benéfico. Em Dezembro, são os Mercados de Natal que costumam afugentar as depressões de Inverno.

E a situação vai piorar. O governo decidiu hoje um lockdown total a partir da próxima quarta-feira, ou seja, além dos restaurantes, já fechados desde o início de Novembro, vão fechar todas as lojas (à excepção de supermercados e farmácias) e as férias de Natal começam mais cedo, a fim de se fecharem as escolas. Nos festejos familiares, apenas se podem juntar, no máximo, quatro pessoas a um agregado familiar. E os revellions foram proibidos, assim como ajuntamentos ao ar livre (muitos alemães costumam ir para a rua lançar foguetes, à meia-noite, um pretexto para se formarem ajuntamentos, com muito álcool à mistura).

À semelhança do que se passa no resto do mundo, a situação nunca esteve tão má, apesar das restrições impostas desde o início de Novembro. Não trouxeram o efeito desejado, pelo contrário: batem-se recordes de números de infectados, na passada sexta-feira, quase se atingiram os 30.000! Se não se encontrar um travão, os hospitais podem mesmo entrar em colapso, no país com um dos melhores sistemas de saúde do mundo.

Mesmo com a vacinação planeada, as pessoas não conseguem ver a luz ao fundo do túnel. Todos temos ainda na memória as imagens do papa Francisco praticamente sozinho, na celebração da Sexta-Feira Santa. Nessa altura, não imaginávamos que as imagens natalícias seriam ainda mais tristes.

Natal virtual

Pedro Correia, 13.10.20

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Quase em uníssono, numa verdadeira demonstração de unicidade institucional, o Presidente da República (nas linhas) e a ministra da Saúde (nas entrelinhas) vieram alertar-nos: o Natal, este ano, não será Natal.

Será um Natal virtual, à distância, com a brigada anti-contágios sempre vigilante. Contra o novo coronavírus, enquanto os portugueses vão morrendo (mais seis mil do que a média dos cinco anos anteriores) sobretudo com as velhas doenças. Mas morrem entre as quatro paredes domésticas, solitários como nunca, cada vez mais fechados em casa por terem medo de frequentar os hospitais.

Como não recear a nova peste se todas as noites, serão após serão, somos brindados com horas de noticiário em exclusivo sobre a pandemia, criando-se assim a ilusão de que todas as outras causas de infecção e morte foram banidas do planeta?

 

Deixou de haver doenças cardíacas, deixou de haver doenças oncológicas, deixou de haver acidentes vasculares cerebrais. Já não há homicídios, já não há suicídios, já não há "sinistralidade rodoviária" (eufemística alusão aos assassínios no asfalto), já não há violência doméstica. Ninguém mais ouviu falar de tudo isto, que antes dominava os telediários.

Nem sequer uma palavra, nos dias que vão correndo, sobre os riscos do aquecimento global, o degelo no Pólo Norte e a desmatação da Amazónia. Até a menina Greta se eclipsou do mapa mediático. "Vinte-vinte" é o ano do vírus. E 2021 ameaça repetir a dose, sem fim à vista.

 

Entretanto os centros comerciais vão fazendo pela vida nesta era de incertezas. Num deles, vi há uma semana exacta o cartaz que ilustra este texto - prova evidente de que o Natal se tornou mera abstracção, alheio às contingências do calendário. Falta pouco para começar na Páscoa. Ou no Carnaval.

Natal partilhado à distância de um clique no ilusório aconchego do zoom. Com distância física de tudo, excepto de um ecrã de computador.

O passo seguinte será a instalação de barreiras de acrílico em todas as divisões dos apartamentos domésticos, sob minuciosa fiscalização das brigadas sanitárias. E depois outras, a dividir cada divisão. Até cada um de nós se encerrar, devidamente "higienizado", no metro quadrado tumular que lhe couber em sorte ainda em vida.

 

Prendas para a quadra? Façam desde já a vossa lista: máscaras com símbolos natalícios, luvas da cor da barba do Pai Natal, álcool gel com aroma de rena nórdica - tudo made in China, o país de origem do vírus. Deve ser isto a que alguns chamam "economia circular".

Feliz Natal, portanto. Seja lá o que isso for.

Natal 2019

Pedro Correia, 25.12.19

 

O Natal mais bem humorado de 2019 é, sem surpresa, o da Rádio Comercial. Aqui fica esse risonho postal natalício, com a devida vénia ao Nuno Markl, ao Ricardo Araújo Pereira e ao Vasco Palmeirim. E, com ele, os meus votos de Boas Festas a todos os leitores do DELITO DE OPINIÃO.

Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram

Pedro Correia, 24.12.19

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«Os pastores disseram uns aos outros: "Vamos, então, até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer." Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira. E, quando os viram, começaram a espalhar o que lhes tinham dito a respeito daquele Menino. Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram os pastores.»

Lucas 2, 15-18
 

O Natal e os enjeitados

Cristina Torrão, 18.12.19

São cerca das 19h 30m, de uma sexta-feira, em Stade, a pequena cidade alemã onde vivo.  A escuridão é já completa, estamos em Dezembro. A temperatura ronda os 5ºC e o vento forte faz salpicar a chuva miudinha no rosto dos transeuntes. O parque de estacionamento do pavilhão de eventos está quase vazio e um casal que foi convidado para jantar nas imediações aproveita para ali estacionar o carro.

Mal abrem as portas, ouvem o choro do bebé. A senhora admira-se por soar tão perto. Terão sido os pais de alguma criança obrigados a trocar as fraldas do filho no carro? Ou talvez uma mãe amamente o seu bebé. Tenta perscrutar algum sinal de vida dentro das poucas viaturas estacionadas, algum sinal de luz. Em vão. Apesar da chuva e do vento, resolve dar alguns passos na direcção de onde lhe parece vir o choro. Numa das faixas de relva que permeiam o parque de estacionamento, vê um tecido cor-de-laranja enrodilhado debaixo de um arbusto. O local está mal iluminado, ela aproxima-se e mal acredita nos seus olhos: enrolado numa toalha de banho está um bebé pequenino, recém-nascido. O casal chama a emergência médica e a polícia. A menina é transportada para a maternidade do hospital.

Esta cena passou-se há quase duas semanas. A menina, a quem o pessoal da maternidade deu o nome provisório de Luísa, encontra-se bem e em breve será entregue a uma família de acolhimento*. A polícia continua à procura da mãe, ou dos pais, da bebé. Atente-se ao pormenor: as notícias não referem apenas a mãe. Não resisti a contar este episódio, depois de algo semelhante ser ter verificado há poucas semanas, em Lisboa. As notícias portuguesas, mesmo antes de se saber que a mãe era prostituta, referiam sempre andar-se à procura da “mãe”.

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Museu Casa da Roda, Torre de Moncorvo © 2016 Horst Neumann

O abandono de recém-nascidos é prática antiquíssima. Durante muitos séculos, existiu a roda dos expostos, ou dos enjeitados, numa tentativa de proporcionar algum futuro às crianças, ou mesmo evitar o infanticídio. As razões que levam as mães a cometerem acto tão chocante, ontem como hoje, são das mais variadas. Vão desde a prostituta ignorante (e talvez viciada em drogas e sem meios), a casos de incesto (pais que violam filhas, por exemplo) e mulheres pressionadas a livrarem-se do bebé, tanto pelo pai da criança, como pelos seus próprios familiares. Em todos os casos, porém, penso haver um factor comum: a mãe sente-se sozinha, ela própria abandonada, sem apoios de parte nenhuma, o que a torna incapaz de assumir a responsabilidade, ou a leva a recear a rejeição familiar. E, no entanto, nenhuma mulher engravida sozinha. Acho, por isso, profundamente injusto ser apenas a mãe a responsabilizada e a pagar pelo crime. A carga de culpa do pai é equivalente, ou maior ainda: ele não abandona apenas o filho, abandona também a mãe do seu filho. Mesmo que o pai ignore sê-lo, não deixa de partilhar a culpa, quanto mais não seja, por ter usado uma mulher como quem usa o sofá num momento de lazer.

A Suécia, esse país tão liberal, proibiu, há uns anos, a prostituição. Em caso de transgressão, não é a prostituta a autuada, mas o cliente! Afinal, ele não quer saber se a mulher que está a usar exerce a “profissão” por vontade própria ou por ser obrigada. Nem sequer se preocupa com o facto de ela poder engravidar, o que se tornou raro, nos nossos dias, mas não deixa de acontecer. A Alemanha, onde a prostituição é permitida e considerada, pelo menos, a nível legislativo, como outra profissão qualquer, tornou-se um paraíso para bordéis e tráfico humano, onde muitas jovens, normalmente oriundas do leste europeu, são mantidas à força (violência, chantagens) e, muitas vezes, se viciam em drogas para aguentarem a sua miséria. Enfim, um assunto que dá pano para mangas e que ficará para um próximo postal, até porque não sei se este caso está relacionado.

O que me levou a relatá-lo foi o facto de os dois casos (em Portugal e na Alemanha) terem ocorrido em época natalícia. Recordemos que no Natal se festeja o nascimento de uma criança. Cada vez mais me convenço de que é o nascimento em si o verdadeiro milagre do Natal. Todo o nascimento é um milagre, independentemente da maneira de como o bebé foi concebido. Apesar de ser católica, pergunto-me: porque é tão importante insistir na virgindade da mãe do menino? Porque é que uma mãe virgem há de valer mais do que as outras mães? Atentemos a que estamos a falar de uma mãe que apenas não está sozinha, porque o noivo decidiu ampará-la, mesmo sabendo não ser ele o pai do bebé. Pergunto-me se não será essa a verdadeira mensagem do Natal. Não será a função de São José, essa figura tão apagada, a mais importante de todas?

Ainda uma palavra de apreço para a senhora de Stade, que não descansou, enquanto não encontrou o bebé que chorava. Quantos de nós iriam à procura da origem do choro, numa noite de frio e chuva? Quantos de nós não encolhiam os ombros, virando as costas, pensando: “seja o que for, não é nada comigo”?

A pequena Luísa teve muita sorte. Espero que o seu anjinho-da-guarda a continue a proteger e a faça muito feliz!

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* A última notícia que li sobre o assunto, no jornal bissemanário local, e de onde copiei esta imagem, data do passado dia 14 de Dezembro.

Obs: Na imagem, vê-se o subtítulo: „Ainda não há pistas sobre a mãe” (Noch keine Hinweise auf die Mutter). No artigo, porém, encontra-se a frase: „Está por esclarecer quem é a mãe, ou quem são os pais” (Wer die Mutter bzw., die Eltern sind, ist ungeklärt).

Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram

Pedro Correia, 24.12.18

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«Os pastores disseram uns aos outros: "Vamos, então, até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer." Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira. E, quando os viram, começaram a espalhar o que lhes tinham dito a respeito daquele Menino. Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram os pastores.»
Lucas 2, 15-18

Sugestões de prendas natalícias

Pedro Correia, 23.12.18

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                       Caminhos para Deus                   Contos Ínfimos

                       Helena Sacadura Cabral             Ana Vidal

 

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                    A Construção do Vazio               Marcello Caetano, um Destino

                         Patrícia Reis                                 Luís Menezes Leitão

 

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                    Terra Firme                                  Portugal Visto pela CIA

                         José Navarro de Andrade          Luís Naves

 

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                   Segurança Contemporânea          Delito de Opinião

                        Diogo Noivo (e outros)                 (vários de nós)

 

Jingle Bells

Ana Vidal, 23.12.18

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Há os fanáticos do Natal, que todos os anos são os primeiros a manifestar-se.

 

Contam os dias para começar enfeitar a casa e logo a meio de Novembro, mal aparecem nas televisões os primeiros vislumbres de publicidade a brinquedos e perfumes, ninguém os detém. Trazem das lojas de chineses toda a parafernália necessária a um Natal colorido e brilhante: pais-natais trepadores de saco às costas, panos vermelhos com uma estampa do Menino para pendurar nas janelas, árvores desmontáveis de escovilhão verde, bolas de todos os tamanhos e cores, purpurinas, sprays de neve, autocolantes para os vidros, frisos, velas, luzes intermitentes, caixas mecânicas que tocam músicas de Natal em non-stop, napperons de papel brilhante, figuras de presépio, barretes com leds e bandoletes com hastes de rena, papéis de embrulho e fitas para os presentes que rodearão a árvore de Natal. Montam o presépio e a árvore com um entusiasmo de crianças, fazem bolos e pratos tradicionais para a noite da Consoada em família. Deixam-se imbuir de uma beatitude que suspende, por umas semanas, a ira e o cansaço dos dias comuns. Deslumbram-se com as ruas enfeitadas, tiram selfies com o Pai Natal de serviço. Disparam alegremente vídeos e postais de Natal em emails e mensagens nas redes sociais. Oferecem-se para acções de voluntariado, são solidários e empáticos como nunca, distribuem sorrisos e estão dispostos a perdoar o mundo. Chegam ao Natal exaustos mas felizes.

 

Há os ansiosos do Natal. Entram em stress logo aos primeiros acordes de um jingle bell, antecipando o caos: as intermináveis filas nas lojas e nos supermercados, o dinheiro extra que vão gastar, o excesso de trânsito, o crash do cartão de crédito, a correria para comprar todos os presentes, a falta de imaginação para dar presentes que não sejam iguais aos do Natal anterior, a casa por enfeitar, a pressão das crianças com listas de desejos impossíveis, a insinuação insistente de Popotas e Leopoldinas, o olhar crítico dos voluntários de associações de solidariedade perante a recusa de uma contribuição. Arrastam-se pelos centros comerciais como quem caminha para a forca. Chegam ao Natal exaustos e em estado de internamento.

 

Há os deprimidos do Natal, que se distinguem dos anteriores por uma crescente aversão a tudo o que nesta época os lembre de quem já morreu ou se afastou, de que envelheceram, de que estão sozinhos ou mal acompanhados, de que cristalizaram numa infelicidade cultivada, alimentada a anti-depressivos. Chegam ao Natal exaustos e profundamente infelizes.

 

Há os snobes do Natal, que fazem questão de afirmar publicamente a sua total indiferença, ou mesmo repulsa, por festas religiosas ou populares. Desprezam tudo o que cheire vagamente a Natal, reviram os olhos e encolhem os ombros de enfado. São impermeáveis ao espírito da quadra, gostam de mostrar-se desalinhados. Concedem, quando muito, numa árvore de Natal monocromática, de designer, de preferência integralmente preta. Chegam ao Natal devidamente enfastiados.

 

E há o Natal.

Postal de Natal II

Teresa Ribeiro, 20.12.18

No supermercado, secção de chocolates:

- Ajuda-me lá a escolher.

- Olha, estes são óptimos.

- Ah, nem pensar! São muito caros. 

- E estes?

- Está melhor, mas mesmo assim não quero gastar tanto.

- Ehehe! Forreta!

- Ouve, afinal qual é a relação que eu tenho com os filhos do Jaime? Nenhuma! Os miúdos não querem saber de mim para nada. Vejo-os só no Natal! Para que hei-de então gastar dinheiro com eles? Levo um chocolate para cada um, só porque parece mal não lhes dar nada! 

O Fim do Pai Natal (conto revolucionário infantil não aconselhável a crianças)

José António Abreu, 25.12.17

 

Capítulo 4

Forças do Mercado

 

«E agora?»

«Agora vamos fazer brinquedos iguais para todas as crianças e distribui-los», respondeu o duende barbudo, com o gorro do Pai Natal enfiado na cabeça. Alguns dos outros duendes haviam de dizer que ele podia não acreditar em hierarquias, mas tratara logo de se apoderar dos símbolos do poder cessante.

«Sem o Pai Natal e sem as renas? Como os vamos transportar? E como é que vamos pagar os materiais?»

«Como é que ele fazia?»

«Nos últimos anos, o negócio cresceu por causa dos patrocínios. Da Coca-Cola e outras multinacionais.»

«Isso não pode ser. Esses contratos têm de ser rasgados.»

«E então onde é que vamos buscar o dinheiro?»

O duende barbudo coçou a barba. Apercebeu-se de que ela tinha um nó, mas resistiu a desfazê-lo naquele momento.

«Se calhar», disse lentamente, «até nem seria má ideia aproveitarmos o dinheiro da Coca-Cola para boicotarmos a lógica capitalista da distribuição de brinquedos. Temos é que manter a morte do velho em segredo.»

Toda a gente concordou quase imediatamente que era isso mesmo que se devia fazer.

A princípio, até pareceu que ia resultar. Manteve-se secreta a morte do Pai Natal em todas as comunicações, incluindo com a Coca-Cola, e fizeram-se as encomendas aos fornecedores como de costume. Mas depois o presidente da Coca-Cola exigiu falar pessoalmente com o Pai Natal. O duende barbudo pegou no telefone e disse: «Ho-ho-ho!», ao que o presidente da Coca-Cola respondeu: «Você não é o Pai Natal. O que se passa aí?» O duende barbudo inventou uma desculpa que envolvia uma doença tropical grave («provavelmente apanhou-a na viagem do ano passado»), mas o presidente da Coca-Cola não ficou convencido e enviou uma equipa de consultores ao Pólo Norte. Sem quaisquer hesitações ou remorsos, mas com mais dificuldade do que teriam antecipado (eram criaturas surpreendentemente resilientes), os duendes mataram-nos. Dias depois, contudo, chegou outra equipa. Como a primeira, era constituída por gente ainda nova, vestindo aquele tipo de roupas que as pessoas nas latitudes mais temperadas pareciam achar ser adequada para a neve. Houve de imediato muitas perguntas básicas e tomada de apontamentos, mas depressa os duendes lhes puseram fim através do mesmo método que haviam usado dias antes. Perante os corpos caídos na neve, ligeiramente triste por não ter conseguido evitar fazer um rasgão numa parka que, embora pouco adequada ao Pólo Norte, era bonita e de boa marca, o duende barbudo resmungou: «Não é possível que continuem a enviá-los. Afinal, quantos consultores pode ter a Coca-Cola?» Mesmo nesses tempos já antigos, verificou-se que tinha ainda bastante mais. Os duendes foram-nos abatendo e finalmente eles deixaram de aparecer. (Num dado que merecia algum estudo – existissem consultores interessados em fazê-lo –, a Coca-Cola viria a apresentar os melhores resultados da sua história nos anos imediatamente seguintes a estes acontecimentos.) Estava-se então já em Dezembro e os duendes pensaram que o pior fora ultrapassado. Mas então a Coca-Cola enviou um telegrama avisando ter despachado uma carta registada a denunciar o contrato de financiamento. Na carta, que chegou dias depois no comboio Expresso Polar, acrescentava-se que, em resultado de uma alínea existente no contrato («cuja cópia se anexa»), a Coca-Cola podia indefinidamente, se assim o entendesse, usar a imagem do Pai Natal na sua publicidade. O duende barbudo ficou tão furioso que chegou a arrancar pêlos da barba, mas nada havia a fazer. Realizou-se uma última reunião geral, que decorreu aos berros, com muitos lamentos e acusações. Não havia dinheiro para pagar aos fornecedores, que ainda só haviam enviado uma pequena parte dos produtos e se recusavam a enviar o resto. Pior: também não havia dinheiro para pagar salários. Alguém mencionou um velho mito segundo o qual o Pai Natal teria um tesouro escondido algures e procedeu-se a uma busca desesperada, com muita destruição de instalações e de equipamento, mas, se o conteúdo da gaveta de uma mesinha-de-cabeceira do quarto do Pai Natal ainda suscitou risos e piadas deselegantes («Alguém tem andado a portar-se mal...», «Agora percebe-se o ‘ho-ho-ho’ que se ouvia durante a noite…», «Com este frio, as pilhas hão-de durar pouco», «Também se arranja em tamanho XS?»), nada de valor significativo foi encontrado. Nessa altura a raiva dos duendes voltou-se contra o duende barbudo, que tentou fugir. Foi apanhado, morto à paulada como se fosse uma foca e espetado num pau. Dizem que era tão resiliente que as barbas lhe continuaram a crescer durante meses.

 

E foi assim que, nesse ano, pela primeira vez, o Pai Natal não visitou as casas dos meninos bem comportados durante a noite de Natal. Muitas crianças ficaram tristes e muitos pais irritados. Tendo retirado os anúncios em que usava a imagem do Pai Natal no início de Dezembro, as vendas da Coca-Cola não foram afectadas. No ano seguinte, os pais já não confiaram no Pai Natal e adquiriram brinquedos que, durante a noite, pé ante pé, foram colocar debaixo da árvore ou pendurar na chaminé, consoante a tradição de cada sítio ou país. Naturalmente, os pais mais ricos compraram presentes mais caros. Como, de forma geral, os pais preferiram manter a ilusão das crianças, continuando a falar-lhes no Pai Natal, a Coca-Cola voltou a usar a imagem dele na publicidade.

No Pólo Norte, os vestígios da aldeia do Natal desapareceram. Os duendes espalharam-se pelo planeta. Às vezes, vê-se um ou outro por aí (na Irlanda, são confundidos com leprechauns e, em Portugal, há conhecedores desta triste história que defendem que alguns comentadores televisivos de reduzida estatura ainda são «crianças do Pólo»). Quanto ao destino de Rodolfo, não existem certezas. Mas todos os anos as televisões mostram a saída do Pai Natal da Lapónia, no seu trenó puxado por renas. Se o Pai Natal é claramente um velhote com barbas e barriga postiças, as renas são verdadeiras. E a da frente parece estar sempre a caminhar com cuidado extremo. Algumas pessoas suspeitam que tal se deve ao esforço que tem de fazer para não levantar voo. Há também quem diga que, por vezes, o nariz dela brilha como se fosse uma lâmpada. Mas outras pessoas defendem que aquele estilo de passada é a forma normal das renas caminharem e que o brilho se deve apenas a gelo na ponta do nariz e a televisores mal regulados. É possível que nem a Coca-Cola conheça a verdade.

 

FIM

Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram

Pedro Correia, 24.12.17

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«Os pastores disseram uns aos outros: "Vamos, então, até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer." Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira. E, quando os viram, começaram a espalhar o que lhes tinham dito a respeito daquele Menino. Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram os pastores.»
Lucas 2, 15-18

O Fim do Pai Natal (conto revolucionário infantil não aconselhável a crianças)

José António Abreu, 24.12.17

 

Capítulo 3

Revolução

 

Foi em meados de Outubro, e o duende barbudo havia de dizer que fazia todo o sentido ter sido naquela altura. O dia amanheceu com uns amenos vinte e três graus negativos, mas soprava um vento fresco vindo de Sul (no Pólo Norte o vento vem sempre do Sul e tende a criar remoinhos) que se metia pela gola das camisolas e arrefecia o nariz e a ponta das orelhas. O Pai Natal despediu-se da Mãe Natal com um beijo e um mau pressentimento. Ela disse: «Põe o gorro e não comas porcarias.» No Pólo Norte, havia poucos legumes e vegetais, mas ela dizia sempre aquilo.

Ao chegar à fábrica, o Pai Natal descobriu que pouco mais de uma dúzia de duendes comparecera ao trabalho. Tentou parecer bem disposto, esboçou mesmo um «ho-ho-ho» que saiu pouco convincente, e, porque não valia a pena dizer-lhes para irem trabalhar (faltava muita gente essencial para operar as máquinas e, de resto, quantos brinquedos poderia fazer aquele conjunto de gatos pingados?) ficou a conversar com eles, a explicar-lhes que não podia alterar assim as regras de um momento para o outro, a pedir-lhes que o ajudassem a convencer os colegas a esperarem pelo início do ano seguinte, altura em que poderiam discutir a questão mais calmamente. A certa altura, começou a repetir-se, mas continuou a falar porque – sentiu um bocadinho de vergonha ao percebê-lo – não queria deixá-los e ficar sozinho. Por um lado, sentia-se agradecido àqueles duendes, os mais fiéis, os poucos que continuavam a confiar nele; por outro, sabia que ia pôr-se a pensar na injustiça que tudo aquilo constituía e isso só lhe faria mal.

A conversa decorria há mais de uma hora quando se ouviu o ruído da multidão a aproximar-se. O Pai Natal foi à janela e disse «Oh-oh!» (Quando dizia apenas duas vezes, era sinal de preocupação.) Lá fora havia mais de uma centena de duendes. Tinham cartazes, mas – o que era muito mais preocupante – também tinham forquilhas, paus e machados. Embora a maioria fosse do sexo masculino, viam-se igualmente várias mulheres. Aos berros, o duende barbudo exigiu que o Pai Natal fosse lá fora. O Pai Natal hesitou. Leu alguns dos cartazes: O Natal é para Todos, Pai Natal - Símbolo do Imperialismo, Brinquedos Iguais para Crianças Iguais, A Chaminé dos Ricos é Mais Larga. Abriu a porta e saiu. O duende barbudo, brandindo uma forquilha, avançou dois passos e declarou que os trabalhadores haviam decidido tomar as instalações. O Pai Natal que se afastasse ou sofreria as consequências.

O Pai Natal tentou um «Oh-oh-oh!» pausado e em voz de desafio que não lhe saiu bem. Depois acrescentou: «O que é isto? Estão a expulsar-me da minha própria empresa? Fui eu quem pôs isto tudo de pé.»

Era a resposta errada. O duende berrou: «Só conseguiu fazê-lo com a ajuda de centenas de trabalhadores a quem sempre pagou uma ninharia! E para manter um sistema injusto, que privilegia os mais ricos! Não o voltaremos a avisar: saia da frente ou afastá-lo-emos à força.»

As caras dos duendes que haviam vindo trabalhar surgiram nas janelas, o que só pareceu irritar mais o duende barbudo. «Traidores!», gritou. «Preferem ficar do lado do capital em vez de se juntarem aos vossos camaradas!» E logo a seguir, sem dar hipótese ao Pai Natal de voltar a falar: «Em frente! À carga!»

Correu para diante, um bocadinho aos tropeções porque os pés se lhe enterravam na neve, com a forquilha apontando para a frente. Durante um instante, foi o único a mover-se, mas depois todos os outros o seguiram, largando os cartazes e agitando as armas.

O Pai Natal constituía um alvo fácil. Tentou desviar-se, mas a forquilha atingiu-o no joelho esquerdo. Era uma táctica antiga dos duendes quando batalhavam seres de maiores dimensões: atingi-los nas pernas, de modo a fazê-los tombar, e depois acabar com eles. Quase resultou mais uma vez. O Pai Natal soltou um único «Oh!» abafado, rodopiou, quase caiu, mas, de forma surpreendentemente ágil para alguém tão velho e tão volumoso, conseguiu manter-se em pé e fugiu a coxear para o interior da fábrica.

O que se passou a seguir foi tão violento que mais vale não descermos a um nível de pormenor muito grande. O ataque à fábrica incluiu o arremesso de cocktails molotoff, feitos com óleo de foca, e, porque tudo isto era novidade para os duendes e alguns haviam percebido mal as instruções do duende barbudo, também de alguns pudins molotof. Com as instalações a arder, o Pai Natal e os duendes que tinham ido trabalhar foram obrigados a sair e os restantes lançaram-se a eles. O duende barbudo voltou a atacar o Pai Natal com a forquilha e desta vez espetou-lha na perna direita. O Pai Natal caiu e depois já não teve hipótese. A última coisa que disse foi um «Oh» muito baixinho e prolongado.

 

Os duendes olharam para as renas. Via-se que elas sentiam o perigo. Mantinham-se juntas, de cabeça erguida, orelhas espetadas, narinas a tremer, como que detectando o odor a sangue espalhado pela neve.

«O que lhes vamos fazer?» perguntou um dos duendes.

«Não podemos confiar nelas» disse o duende barbudo. E acrescentou: «Temos de as matar. De resto, a carne dá-nos jeito.»

Dirigiu-se para o redil. Os outros seguiram-no.

As renas pareciam atordoadas e nem tentaram voar. Limitaram-se a correr de um lado para o outro. À medida que iam sendo atingidas nas pernas por machados ou facas, caíam e eram rapidamente abatidas. Só depois de estarem todas mortas, a neve mais vermelha do que branca, é que os duendes se aperceberam de que Rodolfo não estava entre elas. Procuraram-no, mas em vão. Rodolfo, a rena preferida do Pai Natal, conseguira escapar.

Mais tarde, alguns duendes viriam a manifestar remorsos pela morte das renas, mas nenhum recusou a sua parte da carne.

 

A Mãe Natal julgava-se bondosa e, por isso, muito apreciada, mas tal não era inteiramente verdade. Bastantes duendes, especialmente do sexo feminino, achavam-na falsa, demasiado habituada aos benefícios de ser casada com o Pai Natal e nada preocupada com as dificuldades deles. Claro que apenas o diziam quando ela não estava presente, pelo que a Mãe Natal continuava a manter a ilusão. No dia da revolta, as coisas passaram-se tão depressa que ela nem chegou a perceber a verdade.

Fora às traseiras buscar um par de costelas de alce e preparava-se para as meter na frigideira previamente untada com gordura de foca quando o duende barbudo e outros dois duendes entraram sem bater à porta. A Mãe Natal achou isto muito estranho. Mas depois pensou que o Pai Natal devia ter sofrido um acidente e nem chegou a criticar o duende barbudo e os outros dois duendes pela falta de respeito. Perguntou apenas: «Aconteceu alguma coisa ao meu Nico?» (Só costumava chamar-lhe assim quando estavam sozinhos, mas naquele momento, com a preocupação, escapou-lhe.)

Ligeiramente surpreendido por ela não se ter apercebido de nada, o duende barbudo disse: «Em nome da Revolução, vimos prendê-la.»

A Mãe Natal franziu a testa. «Em nome da quê? Agora não tenho para brincadeiras, tenho que fazer o almoço.»

Voltou-se outra vez para o fogão e tratou de colocar as costeletas na frigideira. Como a gordura de alce já estava quente, começaram imediatamente a ouvir-se estalinhos.

O duende barbudo dissera aos outros que não iam magoar a Mãe Natal, apenas prendê-la num barracão até ser decidido o que fazer com ela. Dissera-o porque não queria suscitar discussões e porque lera ser esse o procedimento correcto a ter com familiares do líder deposto. Mas a verdade é que também lera que, mais tarde, eles deviam ser executados a tiro, o que o deixara com muitas dúvidas sobre a lógica do processo (infelizmente, o livro era vago neste ponto). Deixar a Mãe Natal viva significava correr o risco de que ela conseguisse manobrar os duendes que fossem entretanto perdendo o ímpeto revolucionário. E seguir o procedimento do livro criava ainda um problema logístico: por imposição da Coca-Cola, preocupada com a possibilidade de reportagens negativas, as armas de fogo verdadeiras estavam proibidas no Pólo Norte e até as de brinquedo eram fabricadas em quantidades cada vez menores.

Assim, quando a Mãe Natal lhe voltou as costas para tratar das costeletas, o duende barbudo viu uma oportunidade para acabar de imediato com o assunto. Deitou a mão ao atiçador da lenha que estava pousado ao lado do fogão (não há gás canalizado no Pólo Norte), saltou para cima de uma cadeira, e acertou com ele na cabeça da Mãe Natal. Ela ficou muito surpreendida, mas durante pouco tempo, porque ele lhe bateu mais duas vezes logo a seguir, fazendo-a cair no chão.

Então o duende barbudo saltou da cadeira e, perante o ar espantado – e até um bocadinho horrorizado  - dos outros dois duendes, disse: «Pronto. Agora a Revolução está completa. Se alguém perguntar, ela tentou fugir.»

Cheirou o ar, onde já se notava o odor das costeletas a fritar, e pensou que a Mãe Natal podia ter muitos defeitos, entre os quais uma total indiferença pelas injustiças sociais, mas que sabia cozinhar, lá isso sabia.

 

O capítulo 4 (de 4) será publicado amanhã às 11 horas e 11 minutos.