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Não há coincidências (20)

por Ana Vidal, em 06.09.12

Supunha eu que a prática do plágio é recurso de quem não tem talento próprio. Estava redondamente enganada, como têm provado à exaustão as pesquisas que vou fazendo para documentar esta série. Nomes de talentos consagradíssimos, tanto na música erudita como na ligeira, deixaram-se tentar pelo facilitismo ou pela preguiça de copiar melodias de outros, mesmo tendo capacidade de sobra para produzir os seus próprios êxitos. Em alguns casos, é muito possível que estejamos em presença de uma influência insconsciente, uma traição dos sentidos. Noutros, por maior que seja a nossa boa vontade, é impossível aceitar tanta coincidência sem acreditarmos em malévolos poderes ocultos...

 

O caso de hoje pertence claramente à última categoria. Quem mo deu a conhecer foi precisamente um leitor do Delito, na caixa de comentários do post anterior desta série. Gostaria sinceramente de acreditar tratar-se de uma dessas traições do subconsciente, até porque envolve uma parceria com Rui Veloso, por quem tenho grande, enorme consideração. É um dos meus músicos portugueses preferidos de sempre e autor de dezenas de canções de qualidade indiscutível, que fazem parte do património mais valioso da nossa música ligeira. Se ele foi apenas um convidado dos Per7ume para fazer este dueto no seu álbum de estreia, em 2007, a responsabilidade não pode ser-lhe atribuída. Por mais que procurasse, não consegui apurar se é ele ou os Per7ume quem reclama para si a autoria da música. Mas, mesmo não sendo Rui Veloso... será que ele não deu pelo gato? Até hoje, nunca ouvi ou li qualquer comentário seu sobre o assunto. Nem dos maiores beneficiados desta canção batoteira, que guindou o grupo para a fama em tempo record a ponto de ter sido eleita como "tema do ano" no Top de Rádios Europeu, feito nunca antes alcançado por um artista português. Os Per7ume foram ainda nomeados para os Globos de Ouro em 2009 como "Banda Revelação do Ano" e para os prémios EMA, da MTV, na categoria "Best Portuguese Band de 2010". Com tanto e tão meteórico sucesso, nunca mais pararam. Bem podem agradecer a Alanis Morissette.

 

Não, neste caso não há desculpas. Qualquer ouvido sem acuidade especial detecta a semelhança melódica, que é óbvia e longa. Nem sequer o ritmo foi alterado. Em causa estão as canções Your House, o original; e Intervalo, a cópia. É inegável que a casa é de Alanis, já que foi "construída" em 1995 (a canção pertence ao ábum Jagged little Pill, o segundo álbum mais vendido na década de 90, só ultrapassado por Baby One More Time, de Britney Spears). Mais de dez anos depois, o intruso foi o grupo Per7ume, aproveitando um Intervalo e entrando na casa à socapa. "Went through your drawers / And I found your cologne", diz a letra de Alanis. Pois aí está a confissão do crime: este perfume é roubado.

 

 

Ficam ambas as canções à vossa apreciação. Por mim, "não tenho dúvidas e raramente me engano", como diria um reformado bem conhecido da nossa praça.

 

 

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Não há coincidências (19)

por Ana Vidal, em 03.07.12

Uma grande canção, mil vezes ouvida ao longo de uma vida, pode ser o pior inimigo de quem faz... canções. Não, não estou baralhada. É que um clássico, uma canção de que gostamos muito, vai muito mais longe do que ficar-nos só no ouvido. Como canta o Chico na sua "Terezinha" (uma canção maravilhosa, a propósito), a melodia "instala-se feito posseiro" nos interstícios do nosso património musical e emocional, colando-se-nos irremediavelmente à pele e tornando-se nossa para sempre. Essa invasão amiga do inconsciente pela música é um fenómeno comum, e não é por acaso que determinadas sequências musicais nos evocam de imediato lembranças (boas ou más, mas sempre ligadas às emoções) a que estão associadas.

 

Para quê toda esta introdução? Para vos lembrar de que, se isso acontece a todos nós, mais facilmente acontece a quem faz da música a sua vida. Por excesso de exposição e interesse permanente, a mente não reconhece o déjà vu (déjà entendu, no caso) e "acredita" estar a criar uma nova sequência musical, quando, afinal, está apenas a reproduzir uma que tem gravada na memória. Esta é a explicação mais lógica para os muitos casos de plágio inconsciente, alguns deles já relatados nesta série, que atingiram compositores da craveira de Paul Simon, George Harrison, Mark Knopfler, Sting, John Lennon, etc, para já não falar nos compositores da chamada música erudita. Claro que não é por falta de criatividade própria que todos eles caem no logro da "cópia", mas, quase sempre, devido à traição dos sentidos.

 

O caso que vos trago hoje é nacional, e por isso mais delicado: envolve músicos que conheço bem e respeito, que já nos deram inúmeras canções dessas que forram o património musical que gostamos de preservar. Falo de João Gil (Luís Represas é apenas intérprete nesta canção, segundo a informação da editora). Falo ainda de João Monge, um grande letrista português, porque também na letra há uma coincidência espantosa. A canção em causa é recentíssima - faz parte do último álbum de originais que Gil e Represas gravaram em Novembro de 2011 - e chama-se Quando eu voltar a nascer. Pois é, o título parece premonitório. Logo que a ouvi pela primeira vez, a melodia dos couplets soou-me a alguma coisa conhecida, de tal maneira que foi fácil trauteá-la e adivinhar-lhe os acordes sem nunca a ter ouvido antes. Não tardei a identificar a semelhança: havia uma terceira voz por detrás das vozes do João e do Luís, e essa voz era a do Caetano Veloso. Cantava, só para mim e em uníssono com eles, o seu terno e eterno Leãozinho. E o leãozinho voltou a nascer nesta canção.

 

 

 

Aqui estão os dois videos para o vosso próprio julgamento, porque às vezes penso que estou a ficar "apanhada" por este meu ouvido implacável. Acrescento uma curiosidade: reparem em como a palavra "entristecer" (na letra de João Monge) cai praticamente no acorde que corresponde, na letra brasileira, à palavra "desentristecer". Que las hay, las hay.

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Não há coincidências (18)

por Ana Vidal, em 25.03.12
Trago-vos hoje um dos mais curiosos casos da história dos plágios musicais. Não só porque envolve um dos Beatles (possivelmente os mais amados ícones da música contemporânea) mas também porque se trata de uma das suas canções mais emblemáticas, My Sweet Lord. A canção faz parte do premiadíssimo All Things Must Pass, o primeiro álbum a solo de George Harrison após a inesperada e muito atribulada separação da banda. Composta ainda em 1969, com os Beatles ainda oficialmente juntos, foi oferecida por Harrison em 1970 a Billy Preston, tendo por essa razão sido este o primeiro a gravá-la. Mas a canção não deu nas vistas até ser o próprio George Harrison a gravá-la, acrescentando-lhe um solo de guitarra que ficou célebre e uma aura mística que a catapultou definitivamente para a fama. Ofuscado durante anos pelos mais mediáticos John Lennon e Paul McCartney, George Harrison lançou então grande parte do material que havia acumulado e iniciou a sua carreira solo de forma brilhante. All Things Must Pass é considerado por muitos como o melhor disco de um ex-beatle e um dos melhores discos da história da música ligeira.
My Sweet Lord (1970) - George Harrison
Mas este enorme sucesso ficaria manchado por uma contenda legal cheia de episódios controversos, que durou décadas. Pouco tempo depois do êxito surgiu nos tribunais uma acusação de plágio da canção He's So Fine, composta por Ronnie Mack para The Chiffons. As semelhanças eram inegáveis, pelo que George Harrison, que inicialmente negou a acusação, acabou por admitir a hipótese de ter "inconscientemente" a melodia de He's So Fine no ouvido quando compôs My Sweet Lord. Quanto às letras, não há qualquer proximidade: a canção dos Chiffons é uma brincadeira leve e romântica, enquanto a de Harrison tem um conteúdo sério e muito forte, e por isso se tornou rapidamente num hino à paz universal e num apelo à aproximação entre religiões. Mas a melodia, essa, é praticamente a mesma. O tribunal decidiu a favor dos queixosos em 1976, e só o solo de cordas de My Sweet Lord - ausente da canção original - permitiu a Harrison conservar um terço dos créditos (e das receitas) de My Sweet Lord. As discussões sobre os pagamentos pelos danos causados levaram o caso a arrastar-se nos tribunais até aos anos 90. A defesa de Harrison usou como arma de arremesso um outro suposto plágio, alegando que He's So Fine era, por sua vez, uma reinterpretação do antigo e muito conhecido gospel Oh, Happy Day. Mas não teve sorte, e (embora haja de facto, na minha opinião, alguns pontos em comum entre as duas melodias) o tribunal não lhe deu razão. O processo trouxe também à luz da ribalta os desentendimentos entre os Beatles, tendo ficado para a história o depoimento de John Lennon, negando a não intencionalidade de George Harrison no plágio e afirmando que ele "sabia muito bem o que estava a fazer".

He's so fine (1963) - The Chiffons

 

A história não ficaria por aqui. Aproveitando ao máximo a onda de fama que My Sweet Lord e a guerra legal tinham gerado, os Chiffons decidiram gravar a sua própria versão da canção e conheceram, assim, um grau de notoriedade que nunca tinham atingido com a canção anterior. E, num curioso volte face desta autêntica novela, mais tarde foi George Harrison quem fechou o círculo, gravando He's So Fine após ter comprado finalmente os direitos de ambas as canções. Quanto a My Sweet Lord, ganhou novo título quando o álbum foi remasterizado em CD: a nova versão passou a chamar-se "My Sweet Lord 2000".

 

My sweet Lord - The Chiffons
Houve ainda outros episódios dignos de registo nesta autêntica novela: a traição ética de Allen Klein, ex-empresário dos Beatles, o qual - com a intenção óbvia de capitalizar os pagamentos dos danos que Harrison eventualmente teria que assumir - comprou, enquanto decorria o processo legal, a editora Bright Tune, dona dos direitos autorais de He's so Fine, trocando assim de barricada e entrando na justiça contra Harrison. Mas acabou por perder esse processo, tendo o tribunal considerado que tinha havido conspiração e abuso por parte do empresário.

 

Nota: Para quem estiver interessado em saber todos os pormenores deste curioso caso, pode ler a história toda aqui.

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Não há coincidências (17)

por Ana Vidal, em 11.03.12

Ode to Joy (Hino à Alegria), último movimento da Nona Sinfonia de Ludwig Van Beethoven, é possivelmente o mais célebre de todos os temas da música dita "clássica". Tão célebre e tão representativo da excelência alcançada pelo génio humano, que, no arranjo do igualmente aclamado maestro Herbert von Karajan, foi incluído no disco de ouro de Carl Sagan enviado para o espaço na Voyager II, juntamente com outras informações consideradas essenciais sobre a humanidade, na esperança de uma possível comunicação com alguma forma de inteligência alienígena.

 

O Hino à Alegria tem um papel cultural de extrema relevância no mundo actual, já que se tornou no hino da União Europeia. Outra prova da sua importância foi o valor de 3,3 milhões de dólares atingido pela venda de um dos seus manuscritos originais, em 2003, pela Sotheby's de Londres. Com Hamlet e Rei Lear, de Shakespeare, a obra foi considerada um dos maiores feitos artísticos de todos os tempos.

 

Não é portanto de admirar que o tema continue a servir de inspiração a muitos outros temas musicais. É o caso destas três canções que hoje aqui apresento: Road to Joy, de Conor Oberst/Bright Eyes (ironicamente parecida até no título), Mr. Brightside, de The Killers e Himno a la alegria, de Miguel Rios. Nos dois primeiros casos não houve qualquer referência a essa preciosa fonte de inspiração, talvez porque as semelhanças não são tão evidentes para ouvidos mais desatentos. Mas está lá a matriz, em ritmo e sequência, como poderá comprovar nos videos abaixo. Fica mal aos músicos não o terem reconhecido publicamente, até porque toda a obra de Beethoven era há muito do domínio público e não havia qualquer lugar a pagamento de direitos. No terceiro caso, seria verdadeiramente escandaloso não referir nos créditos o mestre: a melodia está lá toda, e também o título. 

 

Road to Joy - Bright Eyes (2005)


A canção faz parte do álbum I'm Wide Awake, It's Morning, de 2005, e abre com uma interpolação (a introdução de uma frase ou sequência musical, alheia ao resto da melodia, entre duas sequências lógicas) da melodia do Hino à Alegria, e depois segue em tom de marcha épica até ao epílogo, tão intenso que num dos espectáculos em que foi tocada Oberst e o trompetista Nate Walcott destruiram os instrumentos em palco, num gesto que contradiz absolutamente o espírito pacífico da melodia original. "It's best to choose the side that's gonna win", um dos versos da letra, parece resumir a escolha segura desta "inspiração" musical. A verdade é que a canção se transformou num ícone da banda e encerra quase todas as suas actuações ao vivo.

 

Mr. Brightside (2004) - The Killers (> 2.58')

 

Mr. Brightside foi considerada a "canção da década" por duas rádios inglesas. Em Abril de 2010 a Last.fm revelou ter sido o tema mais ouvido até essa data desde o lançamento do serviço de música online, com quase 8 milhões de acessos no Youtube. Esteve 71 semanas no Top 100 do Reino Unido.  Os autores creditados são Brandon FlowersDave Keuning. Beethoven? Não consta.

 

Himno a la alegria (1970) - Miguel Rios

 

Gravada em 1969 pela primeira vez, Himno a la Alegria foi o maior êxito da carreira do espanhol Miguel Rios. É uma adaptação do tema de Beethoven (e reconhecida como tal nos créditos da gravação) feita pelo argentino Waldo de los Ríos, conhecido pelas suas versões pop de grandes obras clássicas. Surgiu em plena era do rock sinfónico e o sucesso foi tal que acabou por ser gravado também em inglês por Miguel Rios, com o título lógico A Song of Joy. O disco vendeu 7 milhões de cópias em todo o mundo e chegou ao primeiro lugar nos tops de muitos países.

 

 

Ode to Joy - Ludwig Van Beethoven

 

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Não há coincidências (16)

por Ana Vidal, em 04.03.12

Na história da música ligeira, dificilmente uma canção terá levantado tanta polémica e acusações de plágio quanto Viva La Vida, da famosa banda inglesa Coldplay. A canção foi a estrela maior do quarto álbum da banda, Viva la Vida or Death and All His Friends, gravado entre 2006 e 2009 e considerado um turning point da banda depois dos três primeiros álbuns que, segundo o vocalista Chris Martin, podem ser considerados como uma trilogia. O longo tempo de gestação do álbum ficou a dever-se a várias interrupções e pausas de gravação, entre as quais uma tournée pela América Latina no início de 2007, com espectáculos ao vivo no Chile, Argentina, Brasil e México. A canção Viva La Vida contém referências históricas e religiosas (influências hispânicas que a banda atribui a essa passagem pela América Latina e por Espanha), e foi apresentada no episódio "Million Dollar Maybe" da série Os Simpsons. Lançada em 12 de junho de 2008 (foi o segundo single do álbum), teve desde logo um assinalável sucesso crítico e comercial, atingindo o topo da UK Singles Chart e da Billboard Hot 100 e tornando-se o primeiro single da banda a atingir o primeiro lugar no Reino Unido e nos Estados Unidos. A canção venceu o prémio de Canção do Ano no 51º Grammy Awards em 2009. É a sexta canção com mais downloads digitais pagos, atingindo a marca de 4 milhões. O álbum vendeu 300.000 cópias em três dias.

 

Viva La Vida - Coldplay (2008)

 

Mas o estado de graça de Viva La Vida em breve se desvaneceu. A primeira acusação de plágio, objecto de uma acção em tribunal, partiu de uma banda americana pouco conhecida chamada Creaky Boards, que reclamava para si a autoria da música. Ironicamente, a canção dos Creaky Boards tinha o nome de The Songs I Didn’t Write. Andrew Hoepfner, o vocalista, alegou que Chris Martin tinha ouvido a música num show ao vivo em Nova Iorque, em Outubro de 2007. A banda chegou a lançar na net um vídeo-clip no qual compara secções de ambas as canções. Os Coldplay negaram acusação, através do porta voz da banda, Murray Chambers, que afirmou categoricamente que Chris Martin estava a trabalhar no AIR Studios, em Londres, na data alegada. Afirmou ainda que uma versão demo de Viva la Vida tinha sido gravada em Março de 2007, meses antes da actuação dos Creaky Boards. Conscientes de que seria uma luta em tribunal de David contra Golias, os Creaky Boards acabaram por retirar a acusação, beneficiando da publicidade que o assunto gerou. Como saída airosa, sugeriram que ambas as canções poderiam ter sido inspiradas pelo videogame The Legend of Zelda.


The Songs I Didn’t Write (2007)- Creaky Boards 

 

Mas a sombra do plágio não estava afastada para Viva La Vida. Em Dezembro de 2008, arrumado o assunto com os Creaky Boards, foi o guitarrista Joe Satriani quem requereu para si a autoria da música com uma ação de processo de violação de direitos autoriais contra os Coldplay, em Los Angeles. O processo alegava que a canção incorpora "substanciais partes originais" da faixa instrumental If I Could Fly, do seu álbum de 2004 Is There Love in Space?. Uma vez mais a banda negou vigorosamente a acusação, alegando que as semelhanças eram "mera coincidência". Em 14 de Setembro de 2009, o caso foi julgado pelo California Central District Court, acabando num acordo extra-judicial entre as partes.

 

If I could fly - Joe Satriani (2004)

 

O pesadelo não tinha ainda acabado. Em Maio de 2009, Yusuf Islam (aka Cat Stevens) declarou que Viva La Vida era muito semelhante à sua canção Foreigner Suite, uma longa composição com a duração de 18 minutos incluída no álbum homónimo de 1973. Nas próprias palavras de Cat Stevens  "Foi o meu filho quem me chamou a atenção para o facto, perguntando-me se eu não achava que a melodia soava como Foreigner Suite. E eu achei que ele tinha razão". O músico chegou a ponderar seguir os passos de Satriani, mas a sua habitual bonomia acabou por concluir, após mais uma categórica negação dos Coldplay, que a colagem não tinha sido intencional. "Eles copiaram a minha música, mas não acho que eles tenham feito isso de propósito" disse mais tarde, acrescentando "Eu não quero que eles pensem que eu estou zangado. Gostava de sentar-me e tomar com eles uma xícara de chá, para que eles saibam que está tudo bem."

 

Foreigner Suite - Cat Stevens (1973)

E com este happy ending acaba a negra saga de Viva La Vida, pelo menos até ao momento. Os Coldplay, no entanto, nunca mais se livraram da fama de plagiadores. Até porque houve outros episódios semelhantes na história da sua discografia, como é o caso da muito aclamada canção Fix You, escrita por Chris Martin para o seu terceiro álbum X&Y, de 2005. Fix You é, nas palavras do seu criador (?), "provavelmente a canção mais importante que já escrevi." Chris Martin afirma ter-se inspirado num órgão de igreja. Como não era possível ter acesso ao instrumento, utilizou um teclado velho que era do falecido Bruce Paltrow (pai de Gwyneth Paltrow, mulher do músico). Quando inquirido sobre o desenvolvimento da música, Martin disse: "O meu sogro Bruce Paltrow comprou um teclado grande, pouco antes de morrer. Ninguém nunca havia tocado nele. Toquei-o e tinha um som incrível, que eu nunca tinha ouvido antes. Todas estas canções derivaram desse som. O facto de ser o teclado do meu sogro, inspirou-me ainda mais." Depois do seu lançamento, o vídeo foi dado como uma homenagem às vítimas dos atentados de 7 de julho de 2005, em Londres.
Fix You já foi também considerada uma "cópia" do hino da banda inglesa de rock alternativo Elbow, Grace Under Pressure, de 2003. Pessoalmente, não lhe discubro semelhanças relevantes com a melodia em questão. Mas o mesmo não se aplica a Imagine, o imortal êxito de John Lennon que está claramente explícito como pano de fundo da canção, como pode comprovar no último vídeo de hoje, aqui em baixo.
Fix You (Coldplay - 2005) / Imagine (John Lennon - 1971)

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Não há coincidências (15) - 2ª série

por Ana Vidal, em 26.02.12

A partir de hoje, aos Domingos volto a armar-me em detective musical, de lupa no ouvido, para dar-lhe conta de plágios, batotas, "inspirações" e estranhas coincidências musicais. E começo com uma descoberta recente, um tanto decepcionante por envolver dois músicos de quem gosto muito e respeito: Eric Clapton e Mark Knopfler. Mais do que decepcionante, foi uma descoberta que me deixou boquiaberta. É que não acredito que tenha sido eu a única pessoa no mundo a ver o gato escondido, tão de fora deixou ele o rabo, mas a verdade é que não encontrei nada sobre o assunto nas pesquisas que fiz. Enfim, pensando bem, também eu já ouvi estas duas melodias tantas e tantas vezes e só agora se fez luz...

 

Em 1986, Eric Clapton apresentava pela primeira vez no Festival de Jazz de Montreux a canção Holy Mother, que viria a incluir nesse mesmo ano no álbum August, um estrondoso êxito de vendas cuja produção esteve a cargo de Tom Dowd e Phil Collins. Este último participou também como vocalista e percussionista, a sua maior especialidade. No booklet do álbum, os créditos da canção estão bem explícitos: Stephen Bishop/Clapton. É um tema tocante, uma prece sofrida de alguém que se sente perdido e pede a protecção divina. Tendo em conta a própria história de vida de Eric Clapton, a letra da canção impressiona e comove ainda mais. Como quase todas as canções de August, Holy Mother foi um sucesso e ficou na discografia de Eric Clapton como um tema-chave repetido em inúmeros concertos, inclusive com Luciano Pavarotti nos celebérrimos "Pavarotti and Friends". Aqui, ao vivo em Londres, 1996:

 

 

Em 1987, Mark Knopfler foi convidado a compor uma banda sonora original para o filme The Princess Bride, um conto de fadas romântico/cómico com argumento de William Goldman. Segundo o realizador do filme, Rob Reiner, entregou a tarefa a Mark Knopfler porque só ele seria capaz de entender profundamente o espírito da história e criar uma banda sonora que lhe fizesse inteira justiça. E tinha razão, porque o filme foi um sucesso e ficou a devê-lo, em boa parte, ao fundo musical. De tal forma que o tema principal, Storybook Love, esteve nomeado nesse ano para o óscar da Academia na categoria de "melhor canção original". No filme, a canção é interpretada por Willy DeVille, que aparece creditado como co-autor, juntamente com Knopfler. Pode ouvi-la aqui em baixo (em versão instrumental), a partir do 1.05'. Vai perceber, espero, porque fiquei tão espantada ao ouvi-la um destes dias como se fosse a primeira vez. Quando reconheci nela a bela melodia de Holy Mother, que Eric Clapton compôs apenas um ano antes da ultra-mediática banda sonora do seu amigo Mark Knopfler. Porque será ele que nunca se queixou da colagem flagrante, impossível de ter escapado ao apuradíssimo ouvido de músico? Por outro lado, será que Mark Knopfler alguma vez se apercebeu do que tinha feito? Se a resposta for "não", o plágio foi involuntário. Mas custa muito a crer... e não deixa de sê-lo.

 

Entende agora porque me perturbou a descoberta? Pois bem, como golpe de misericórdia deixo-lhe outra ainda, que agrava a pena de Mark Knopfler ao acrescentar um segundo plágio à mesmíssima banda sonora. Ouça com atenção o início do video. Logo nos primeiros acordes de Once Upon a Time, não reconhece outra música, bem mais antiga? Ouça outra vez. A mim não escapou a semelhança, talvez porque Peer Gynt é uma das minhas peças musicais favoritas. Neste caso, só Edvard Grieg poderia ter-se queixado, mas já cá não estava para fazê-lo. Ouça aqui em baixo a maravilha que é Morning (Suite no 1, Op. 46: no 1, Prelude) e diga lá se não tenho razão.

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Não há coincidências (14)

por Ana Vidal, em 06.07.10

Segui a pista do nosso Pedro Correia, tentando encontrar informação que me esclarecesse sobre esta canção, popularizada por Curado Ribeiro e mais tarde incluída no musical Concerto para dois – Fernando Curado Ribeiro, o último galã, da autoria da sua filha (também cantora e actriz) Rita Ribeiro. Tudo o que encontrei, e foi muito pouco, está nos links que aqui deixo*. Não tenho, por isso, forma de saber se os créditos da melodia foram  ou não atribuídos a Tchaikovsky. Se isso não aconteceu é um verdadeiro escândalo, porque não preciso de ouvir mais do que estes 30 segundos para saber que nem sequer de "inspiração" se pode falar. A canção é, de A a Z, o Concerto nº 1 do compositor russo. Ora oiça:


Concerto nº 1 (1º Movimento)
para piano e orquestra - Tchaikovsky

Aqui pela Orquestra Sinfônica da Fundação CSN de Volta Redonda - Rio de Janeiro - com o pianista Arthur Moreira Lima e o maestro Laércio Diniz - num insólito momento de música clássica no programa popular da Globo Domingão do Faustão.

*Nota: Se alguém tiver mais informações sobre este assunto, agradeço que as deixe em comentário. Nem o
YouTube, meu precioso auxiliar nesta série,  nem os audio-players que pesquisei, têm a canção completa.

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Não há coincidências (13)

por Ana Vidal, em 25.06.10
 

Lacrymosa (2006)
- Evanescence

 

É a sétima faixa do álbum The Open Door, o segundo gravado em estúdio pelos Evanescence. Depois do fulgurante sucesso de Fallen - o álbum que lançou a banda no estrelato em todo o mundo - The Open Door é considerado o seu disco de consagração: maduro, poderoso e denso. Vendeu oito milhões de cópias, esteve mais de cem semanas no topo da lista da famosa Billboard e tem rendido ao grupo concertos esgotados e muitos, muitos dólares. Os autores creditados de 12 das 13 canções de The Open Door são Amy Lee (vocalista) e Terry Balsamo (guitarrista), e Lacrymosa não é a excepção. No entanto, apesar do título sugestivo, do coro e da orquestra de fundo, nem como "inspirador" o genial Amadeus tem direito a umas letrinhas de agradecimento...

É a vida.

 

 

Lacrimosa (Requiem) -  Wolfgang Amadeus Mozart

 

O deslumbrante Requiem de Mozart, aqui pelo Coro da Ópera de Viena e Orquesta Filarmónica de Viena, dirigida pelo maestro Karl Böhm.

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Não há coincidências (12)

por Ana Vidal, em 07.06.10

 

 

 

Because (1969) - The Beatles


 

 

Chegaríamos fatalmente aos Beatles. Que não me trucidem os amantes incondicionais dos 4 magníficos (eu própria sou fã,  embora não de tudo o que eles fizeram), mas também eles sucumbiram à tentação. Because é uma belíssima balada escrita por John Lennon (créditos, no álbum Abbey Road, para a dupla Lennon/McCartney).  Uma das curiosidades desta canção é a tripla dobragem de vozes de Lennon, McCartney e Harrison, de maneira a obter um resultado final de nove vozes, que lhe dão uma projecção muito especial.  Outra, é o facto de ter sido "inspirada" - a  palavra usada por Lennon - na celebérrima Moonlight Sonata, de Beethoven. Segundo John Lennon, a sua mulher Yoko Ono estava a tocar essa peça musical quando ele lhe pediu, subitamente: "importas-te de tocar isso ao contrário"? E pronto, assim surgiu Because, uma espécie de luar invertido, seja lá isso o que for. Valha-nos a melodia, porque a letra é esta pobreza confrangedora:

 

 

Because the world is round it turns me on
Because the world is round...aaaaaahhhhhh

Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high......aaaaaaaahhhh

Love is all, love is new
Love is all, love is you

Because the sky is blue, it makes me cry
Because the sky is blue.......aaaaaaaahhhh

Aaaaahhhhhhhhhh....

 

 


Moonlight Sonata - Ludwig Van Beethoven

 

 


A melodia original, aqui ainda antes de ser virada do avesso...

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Não há coincidências (especial)

por Ana Vidal, em 27.05.10

"A economia portuguesa está a recuperar. No primeiro trimestre de 2010, Portugal foi o país da Europa que apresentou o maior crescimento, um dos que mais cedo saiu da condição de recessão técnica e que melhor resistiu à crise económica mundial".

 

José Sócrates

(Maio 2010)

 

"A situação económica e financeira de Portugal não é comparável à da Grécia, e nem mesmo à de Espanha. O elevado crescimento da economia portuguesa no primeiro trimestre prova a diferença em relação a outros países do sul da Europa".

Ricardo Salgado

(Maio 2010)

 

Plágio? Não é o caso. Coincidência? Não me parece.

O que dizer de tanta e tão bonita sintonia, no panorama actual?

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Não há coincidências (11)

por Ana Vidal, em 24.05.10

 


All over the World (2009) - Pet Shop Boys

Já em 1987 - dois anos antes de lançarem Yes, o álbum a que pertence All over the World - os premiadíssimos Pet Shop Boys tinham sido acusados por Jonathan King de plagiar Wild World, de Cat Stevens, com a canção It's a Sin. Pecado ou não, o certo é que inverteram a acção, a ganharam e, num golpe publicitário de mestre, ofereceram a choruda indemnização conquistada por danos de imagem a uma obra de caridade. Mas "uma vez bandido, sempre bandido"... e a verdade é que reincidiram dois anos depois com esta canção, omitindo descaradamente a presença óbvia de uma longa frase melódica de Tchaikovsky, sem sequer lhe mudar o ritmo. E logo a tão conhecida Marcha do Quebra-Nozes. Tennant/Lowe é a dupla a quem é atribuída a autoria de All over the World, mas ouçam bem a canção (especialmente a partir dos 2.25')  e  comparem-na com o original. E tirem as vossas conclusões.

 



Marcha do Quebra-Nozes
- Tchaikovsky

 

A melodia original, aqui interpretada pela Orquestra de Câmara de S. João da Madeira, num concerto no Conservatório de Música do Porto (em honra da nossa comentadora Ana de Sá, que me sugeriu a “coincidência” de hoje).

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Não há coincidências (10)

por Ana Vidal, em 21.05.10

Russians
(1985)- Sting

 

Em 1985, Sting - não preciso de apresentá-lo, pois não? - lançou, pela primeira vez a solo, o álbum The Dream of the Blue Turtles. Depois do êxito dos Police, uma carreira a solo seria sempre um risco. Mas a qualidade musical de Sting e o excelente elenco de músicos da área do jazz que foi buscar para disco, garantiram que ele fosse muito bem aceite, tanto pela crítica como pelo público. A mim conquistou de vez, e eu nem era grande fã dos Police (com excepção de uma ou duas canções). Desde logo sobressairam deste primeiro álbum alguns hits: "If You Love Somebody Set Them Free", "Fortress Around Your Heart","Love is the Seventh Wave" e Russians, a nossa canção de hoje. The Dream of the Blue Turtles deu a Sting, nesse ano, o Grammy de melhor álbum europeu. Seguiram-se outros enormes sucessos e um sem-fim de prémios, a partir daí. Por curiosidade, destaco o álbum da dupla platina imediata, Nothing Like the Sun - recheado de pérolas como "Fragile", "Englishman in New York" e "We'll Be Together", por exemplo - que teve mais tarde a sequela latina Nada como el Sol (1988), uma selecção de canções em que Sting canta em espanhol e em português.

 

Mas voltemos a "Russians": a canção fala-nos do equilíbrio instável da Guerra Fria e dos perigos da estratégia militar MAD (mutual assured destruction), defendendo que não há vitória possível numa guerra que faça uso de armas nucleares, entre duas potências capazes de destruir-se mutuamente. Na frase "I hope the russians love their children too" ecoa o grito de desespero de um dos lados da barricada, depositando nesse amor a única esperança de evitar um holocausto. A canção apoia-se, justamente, na obra (Lieutenant Kijé) de um compositor russo: Sergei Prokofiev. Sting admitiu-o desde logo e, segundo as minhas investigações (porque não tenho aqui o álbum para confirmá-lo), os créditos devidos são atribuídos ao compositor original. Sendo assim, não há plágio.

 

(Nota: Russians não é a única canção de Sting a utilizar uma melodia clássica. Há-de passar por aqui também "The Secret Marriage", do álbum Nothing Like the Sun, que é a adaptação de uma melodia do compositor alemão Hanns Eisler)



Lieutenant Kijé Suite - Sergei Prokofiev

A melodia original, de Prokofiev.

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Não há coincidências (9)

por Ana Vidal, em 17.05.10
I can (2002) - Nas

Nas, nome artístico de Nasir bin Olu Dara Jones, é um conhecido rapper americano. Em 1994, o seu ábum de estreia Illmatic foi considerado por muitos como um dos melhores ou mesmo o melhor álbum de hip hop de todos os tempos e valeu-lhe um lugar elevado nos rankings musicais, pelo  grau de exigência que imprime às suas criações. No ano de 2002 Nas lançou God's Son, do qual se destaca a canção I Can, aqui apresentada. Desta vez não há lugar a críticas de plágio: o tema Für Elise aparece em fundo, intocado, a referência no álbum é explícita e pretende ser um tributo a Beethoven, como que a provar que todas as fusões musicais são possíveis. Fica a curiosidade.

 

 

Per Elisa (1981) - Alice

 

Alice (que ficou conhecida também como Per Elisa depois deste episódio) é o nome da cantora e autora italiana que ficou famosa por ter ganho em 1981 o festival de Sanremo com um rock "da pesada", em vez das tradicionais baladas que sempre costumavam ficar em primeiro lugar. A canção chamava-se justamente Per Elisa e colou-se-lhe à pele, a ponto de Alice tê-la incluído em mais do que um dos seus álbuns posteriores e até de tê-la gravado com o simbólico nome "Una notte speciale", em memória dessa noite de glória. Alice pode agradecer também a Beethoven pelo êxito que teve, porque Für Elise está presente nesta canção sem quaisquer dúvidas, até para os ouvidos mais abstrusos.  No entanto, apesar do título dizer já tudo sobre a "inspiração", apesar da potente voz de contralto de Alice ter uma amplitude invejável (quase quatro oitavas, segundo apurei) graças a uma aprendizagem e técnicas do canto lírico, apesar de um dos co-autores referidos no álbum - Giusto Pio - ser um violinista clássico, a verdade é que no disco "Per Elisa" os créditos de autoria são atribuídos apenas a três nomes, sem outras referências: Alice, Franco Battiato e Giulio Pio. Não pode talvez considerar-se um plágio, mas não prima pela correcção. Talvez seja por isso que me irrita tanto.

 

 

Für Elise - Ludwig Van Beethoven

 

O tema original, de Ludwig Van Beethoven. Este é um daqueles casos em que uma melodia, por ser "orelhuda", é tocada e aproveitada à exaustão ao longo dos tempos, chegando mesmo a tornar-se enjoativa até na versão original.

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Não há coincidências (8)

por Ana Vidal, em 07.05.10

 

 

Little Atoms (1996) - Elvis Costello

O curriculum musical de Elvis Costello é de tal maneira impressionante que ele já ganhou o epíteto de "enciclopédia da pop". Colaborou ou fez parcerias com quase todos os grandes músicos seus contemporâneos, faz crítica musical e escreve sobre música em reputadas publicações, fez e desfez diversas bandas e é um músico de refência, respeitado pelos seus pares. Faz parte, inclusivamente, do ranking dos "100 grandes artistas de todos os tempos", uma selecção da Rolling Stone Magazine. Sugiro que siga o link acima - vale a pena, garanto - quem quiser conhecer toda a extensão da obra de Declan Patrick MacManus, o verdadeiro nome de Elvis Costello. Como todos os músicos, sofreu diversas influências musicais, das quais faz questão de salientar Joni Mitchel, uma das suas grandes musas. Tem com a cantora Diana Krall um casamento que ambos classificam de feliz e duradouro. Mas... apesar de tudo isto,  também ele se deixou tentar pelo plágio não confessado. Aconteceu em 1996, na segunda canção do álbum "All this useless beauty": Little Atoms. No disco está bem explícita a informação "All songs written by Elvis Costello (AKA Declan MacManus) unless otherwise indicated". E não há qualquer indicação de outro autor na canção Little Atoms. Pode dizer-se, neste caso, que não foi nada inútil a beleza criada por Haydn...

 

 

 

 

Deutschland Uber Alles - Joseph Haydn

 

(Nota: a melodia aqui representada faz parte do Haydn's Kaiser Quarteto, de Haydn, e foi transformada no hino nacional alemão.)

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Não há coincidências (7)

por Ana Vidal, em 03.05.10

 


Do, Re, Mi / The sound of music (1959) - Rodgers and Hammerstein

 

Não me batam. Eu sei que The Sound of Music é um dos filmes da infância ou da adolescência de quase todos nós e que, apesar das repetições ad nauseam de que somos vítimas todos os Natais, continuamos a comover-nos com a ingenuidade da história e a beleza das melodias. A canção  Do-Re-Mi é um desses mágicos momentos do filme, em que a maçadora aprendizagem do solfejo se transforma numa brincadeira divertida e contagiante e a cumplicidade se estabelece definitivamente entre Maria e as crianças. Do-Re-Mi acabou por ganhar vida própria e tornar-se numa das primeiras melodias ensinadas nas escolas de música, pela facilidade de memorização das sete notas da escala básica.

 

Nem a canção nem o filme precisam de apresentações, pelo que não vou alongar-me. E talvez a canção não seja um vulgar caso de plágio, já que me parece mais uma propositada e provocatória piscadela de olho ao compositor alemão. Ou até mesmo uma pequena vingança, se tivermos em conta o teor da história. Mas uma coisa é certa: a vertiginosa sequência melódica de Wagner dá o mote à canção, sem que haja lugar a grandes dúvidas. E, que eu tenha apurado, não há registo de "inspirações" reconhecidas. Fica a curiosidade.

 

 


Tannhauser Overture - Richard Wagner

Sou uma apaixonada pelas geniais aberturas e coros de Wagner (embora nunca tenho tido a paciência de ouvir as óperas completas, que são intermináveis) e esta é uma das minhas preferidas. Vale a pena ouvir estes sete minutos completos, pela sua beleza, ainda para mais quando a batuta é a do grande Karajan. Para quem não quiser ouvir tudo, peço a especial atenção para o intervalo de tempo que vai do minuto 07':16 ao 07':24 deste video. E depois digam-me o que acharam.

 

Obrigada à Gi pela preciosa dica de hoje.


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Não há coincidências (6)

por Ana Vidal, em 30.04.10

Um contra o outro (2010) - Deolinda

 

Interrompo os clássicos para dar-vos conta de um episódio (recorrente em mim, como já aqui expliquei) que voltou a acontecer-me recentemente. Desta vez, num concerto do grupo Deolinda. Gostei de vê-los/ouvi-los ao vivo e percebi que o seu grande trunfo é a comunicação directa com o público. Não sendo o tipo de música que oiço em casa, reconheço que Ana Bacalhau tem uma fortíssima presença em palco e pôs toda a gente a cantar e a dançar. Mas... mal tinham arrancado os primeiros acordes desta canção (foi a primeira do alinhamento, se não me engano) e eu já estava a ouvir outra. Uma outra letra, em inglês, que nem sequer recordava bem, mas - diga-se em abono da verdade - com muito menos graça e qualidade do que a letra portuguesa. Para além de um sopro familiar de António Variações no refrão, havia uma melodia conhecida a buzinar-me ao ouvido, que atravessava toda a canção. Cheguei a casa e fui investigar, claro. Encontrei as Baccara e o seu Yes, sir, I can boogie. Estava explicado.

 

Acredito piamente que Pedro da Silva Martins, apresentado no novíssimo álbum dos Deolinda como autor de todas as letras e músicas, não tivesse feito de propósito. Há memórias que nos ficam escondidas num canto qualquer do subconsciente e se insinuam, feiticeiras, nas criações que acreditamos serem nossas. Com as melodias isso deve acontecer muito. Pero que las hay, las hay... e o single de estreia de "Dois Selos e um Carimbo", Um contra o outro - cuja semelhança com uma canção anterior é mais subtil do que as que tenho aqui trazido - será talvez um bom exemplo disso. Ironicamente, começa assim a letra: "Anda/ Desliga o cabo/ Que liga a vida/ A esse jogo/ Joga comigo/ Um jogo novo/ Com duas vidas ...".

 

Ora bem, o que se passou comigo foi eu não ter conseguido desligar o cabo. Por isso fui parar à vida anterior deste "jogo com duas vidas".

 

 

Yes, sir, I can boogie - Baccara

 

Esta canção, que foi um êxito estrondoso desde o primeiro momento - o mais significativo na carreira das Baccara, se não o único - teve inúmeros covers. O último conhecido data de 1977, num álbum de êxitos chamado Top of the Pops, Volume 62 , que usou a canção sem atribuir os créditos devidos aos músicos originais. O último? Não. O último, para mim, é o refrão de "Um contra o outro", a canção dos Deolinda. Deixo ao vosso imperial polegar o julgamento da minha tese.

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Não há coincidências (5)

por Ana Vidal, em 26.04.10

 

 

Love of my Life (1999) - Carlos Santana & Dave Matthews

 

Carlos Santana é, tal como Paul Simon (ver post anterior desta série), um desses músicos que, aparentemente, não precisam de copiar ninguém para ter êxito. Chamando a si vários músicos que foram variando ao longo dos tempos, este excepcional guitarrista criou a banda genericamente conhecida por Santana, que levou o conceito Rock Latino a todo o mundo. Do palmarés do grupo fazem parte três Latin Grammy Awards e oito Grammy Awards, para além de mais dois dos últimos, conquistados a solo por Carlos Santana. Exactamente trinta anos depois e vinte e dois álbuns já gravados, muitos deles hits de vendas na Europa e nos Estados Unidos da América, Supernatural revelou-se um verdadeiro fenómeno: quinze vezes disco de platina (nos EUA) e nove Grammy Awards, entre os quais o de Álbum do Ano. Os números de vendas foram astronómicos - ultrapassando os 25 milhões de cópias em todo o mundo - e o álbum manteve-se nos tops por muito tempo. Smooth, Corazón Espinado e Maria, Maria foram, possivelmente, as três principais responsáveis por este esmagador sucesso. Mas não é nenhuma dessas canções que chamo à pedra nesta série. A "coincidência" de hoje é Love of my life, igualmente incluída no álbum-maravilha Supernatural. Porquê? Porque este amor já tinha sido de outra vida... a de Brahms. E nos créditos de Love of my Life apenas consta o nome de Carlos Santana como autor, não há nem sombra de alusão ao compositor alemão.

 

 

Symphony nr.3 Poco Allegretto - Johannes Brahms

 

(Nota: Escolhi propositadamente um video biográfico de Brahms - que tem por fundo a melodia original - porque ele conta a história desse amor que deu origem a uma inspirada sinfonia, mais tarde plagiada por Carlos Santana. Chamo a atenção para algumas das palavras de Brahms citadas neste filme, pela ironia da comparação entre o seu perfeccionismo, honestidade e grau de auto-exigência e o facilitismo com que, pouco mais de um século depois, outros se apropriaram de uma obra sua).

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Não há coincidências (4)

por Ana Vidal, em 23.04.10

 

American Tune (1975) - Paul Simon

 

Há quem defenda que este caso, ao contrário dos que já apresentei anteriormente, é pura coincidência. E eu confesso que tenho vontade de acreditar que sim, que Paul Simon seria incapaz de usar uma melodia de Bach sem atribuir os créditos devidos ao autor original. E também de acreditar que Paul Simon, senhor de uma criatividade e de uma qualidade musical muito acima da média, não precisaria de copiar ninguém. Mas... vejo-me obrigada a admitir que tendemos, todos nós, a usar dois pesos e duas medidas nas nossas avaliações, consoante se trate de quem admiramos ou de quem não consideramos ou não gostamos de todo. E tenho de admitir também que a descoberta desta "coincidência" que hoje trago aqui, a fiz sozinha, primeiro intrigada e depois desiludida, durante um concerto maravilhoso. Já contei o caso aqui, para quem estiver interessado em saber a história toda. O certo é que, pelo menos no disco de Paul Simon que tenho onde consta American Tune, não há qualquer alusão a Bach. Para mim, e por mais que me custe, é um claro caso de plágio.

 

 

Matthaus Passion.1.11.Choral.Ich will hier bei dir stehen - J.S. Bach

 

O que eu não sabia – só descobri nas pesquisas para esta série – e me deixou muito mais aliviada, devo confessar, é que este  magnífico coro de Bach já é também, ele próprio, uma espécie de cover de "Mein Gmüth ist mir verwirret" (sem video disponível), uma melodia criada por um compositor anterior: Hans Hassler. Curiosamente, um outro grupo da Pop Music – Peter, Paul and Mary – fez dela "Because All Men Are Brothers" (video aqui), um dos seus muitos êxitos. Toda esta sequência de aproveitamentos prova, uma vez mais, que a tentação da cópia não poupa ninguém, nem os músicos mais talentosos.

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Não há coincidências (3)

por Ana Vidal, em 19.04.10

 

 

Midnight Blue (1983) - Louise Tucker & Charlie Skarbek

Este não é um vulgar caso de plágio. Louise Tucker, uma mezzo-soprano inglesa, começou a carreira aplicando a sua formação lírica à transformação de melodias clássicas (sobretudo da autoria de Beethoven) em canções da pop music, e essa ideia deu-lhe uma projecção mundial. Midnight Blue foi o seu primeiro grande êxito comercial. Tem o mérito de nunca ter escondido a fonte das suas adaptações. Pessoalmente, não gosto da voz nem desta versão "pimba" da bela Patética de Beethoven. Mas é só o meu gosto, e gostos não se discutem. Mesmo assim, atrevo-me a dizer que o bom do Ludwig Van também não gostaria, se pudesse ouvi-la.  Felizmente, ainda deve estar surdo.

 


This Night (1983) - Billy Joel

Como tantos outros músicos (estes são só dois exemplos), também Billy Joel não resistiu à 8ª de Beethoven (por acaso, no mesmo  segundo andamento). Mas Joel, com a ironia que lhe é característica, não só incluiu a canção This night num álbum a que chamou An innocent man - que foi nomeado para os Grammys na categoria "Álbum do ano" - como incluíu, entre os créditos citados na lista de músicos e letristas que colaboraram no disco, um nome ligeiramente mais famoso do que os outros: Ludwig Van Beethoven, como autor dos coros desta música. Deste modo não deixou de citar a fonte, e ainda o fez com graça.


Pathetique Sonata - 2nd movement - Ludwig Van Beethoven

Eis a melodia original, aqui executada pelo grande Horowitz.


Nota: Agradeço à Teresa a dica de uma das "coincidências" de hoje (Louise Tucker).

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Não há coincidências (2)

por Ana Vidal, em 16.04.10

 

Daydream (1969) - Wallace Collection

 

Gravado no já mítico Abbey Road Studio, "Laughing Cavalier", o álbum de estreia desta banda, lançou-a directamente para os hits de 21 países. Graças a quê? À canção Daydream, pois claro. O single deu a volta ao mundo e rendeu aos belgas prestígio, fama e muito dinheiro. Apesar da semelhança gritante com o tema melódico central do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, nunca os Wallace Collection admitiram, sequer, a influência do compositor russo na inspiração que deu origem a este êxito retumbante. Talvez como "castigo divino"  (das divindades da música, pelo menos) por tão ingrata conduta, nunca mais outro tema dos Wallace Collection alcançou o sucesso de Daydream e a banda acabou por extinguir-se, dois anos depois.

 


Swan Lake / Scene - Part 1/8  (1876) - Tchaikovsky

A melodia original em todo o seu esplendor, tocada pela Orquestra de Filadélfia e conduzida pelo maestro Riccardo Muti.


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