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Notas políticas (4)

por Pedro Correia, em 11.11.15

António Costa garantiu que iria integrar pela primeira vez o BE e o PCP no "arco da governação" como se derrubasse o Muro de Berlim. Esquecendo-se de que o PCP foi partido do governo durante mais de dois anos, no período pré-constitucional, entre 1974 e 1976. Omitindo também outros factos, que vale a pena lembrar aqui. Os comunistas não regressaram ao Executivo na era constitucional por vontade própria, preferindo ser um partido de protesto do que de soluções governativas. E também por vontade do eleitorado, que nestas quatro décadas nunca escolheu o PCP para governar. Além disso, um quarto de século depois, os comunistas portugueses ainda choram a queda do Muro de Berlim em vez de celebrarem a sua queda.

Frases de 2015 (58)

por Pedro Correia, em 10.11.15

«É como se estivéssemos a deitar abaixo o resto do Muro de Berlim.»

António Costa

Os saudosistas do muro

por Pedro Correia, em 10.11.14

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O Muro da Vergonha caiu, mas o PCP continua a defendê-lo sem vergonha nem um pingo de pudor um quarto de século depois. Contra todas as evidências mais gritantes, contra a vontade dos povos, contra o próprio "sentido da História" (mostrando assim ignorar a vulgata marxista sobre materialismo dialéctico).

Se os jornalistas parlamentares não andassem tão ocupados a registar diariamente as mesmas imagens e os mesmos sons, na contínua febre dos "directos" que na maioria das vezes não têm relevância noticiosa alguma, talvez um deles, fazendo algo diferente, se lembrasse de questionar os deputados do PCP sobre a nota oficial do partido reproduzida na última edição do Avante! e à qual o Rui Rocha já fez referência aqui.

Teria seguramente interesse jornalístico saber, por exemplo, se à renovação etária da bancada comunista, agora integralmente composta por deputados muito jovens, corresponde também um arejamento de ideias ou - pelo contrário - persiste o anquilosamento em dogmas há muito remetidos para o caixote do lixo da História (se me permitem usar o jargão marxista).

Nada melhor, para isso, do que exercer o elementar direito à pergunta. Questionando os jovens deputados do PCP - começando pelo simpático líder parlamentar - se subscrevem as palavras oficiais de doce nostalgia pela desaparecida República "Democrática" Alemã, único estado do mundo contemporâneo que mandou erguer uma muralha destinada a impedir a saída dos cidadãos, confinados à condição de prisioneiros no seu próprio país.

Subscreverão eles a entusiástica defesa póstuma da RDA, consubstanciada no elogio rasgado às "realizações económicas, sociais e culturais de mais de quarenta anos de poder dos trabalhadores" e do próprio muro, que segundo a saudosista nota inserida no Avante!, contrariando todas as evidências históricas, tinha simples "carácter defensivo" e constituiu um "incontestável acto de segurança e soberania"?

Eis uma questão interessante que eu bem gostaria de ver respondida por João Oliveira, Jorge Machado, Miguel Tiago, Bruno Dias, Paula Santos, Carla Cruz, João Ramos, Diana Ferreira, Paulo Sá, David Costa e Rita Rato.

Comunismo nunca mais

por Rui Rocha, em 09.11.14

Vera Lengsfeld nasceu na RDA. Até determinada altura cumpriu as regras. Inscrita na Partido Comunista, fiel à nomenklatura, leal ao pai que era agente da STASI desde o final da guerra. Depois converteu-se ao cristianismo. Uniu-se a um grupo pacifista, ligado à Igreja Luterana, que protestava contra a presença de mísseis nucleares na Europa, incluindo a de mísseis soviéticos na RDA. Foi expulsa do Partido Comunista. Foi constantemente vigiada. Foi presa por curtos períodos várias vezes. Foi afastada das suas funções de professora da Academia de Ciências Socias em Berlim. Em meados da década de oitenta, existia na RDA um agente da STASI por cada sessenta habitantes. Portugal tem hoje, vinte e cinco anos depois, quatro médicos por mil habitantes. Em meados da década de oitenta, cinco por cento do orçamento da RDA era consumido pela STASI. Vera Lengsfeld era vigiada, nessa altura, por sessenta agentes da STASI. Apesar das dificuldades, a vida de Vera continuava. Casou com o matemático Knud Wollenberger. Tiveram dois filhos. Em mil novecentos e oitenta e oito o pai de Vera foi afastado pela STASI. Para se manter na polícia secreta teria de cortar qualquer tipo de relação com a filha. O pai de Vera recusou. Em mil novecentos e noventa e dois Vera e Knud divorciaram-se. Knud tinha sido um dos sessenta membros da STASI encarregado de a vigiar. O primeiro encontro, a relação, o casamento, tinham sido um embuste. Uma forma de a manter sob observação muito próxima. Tão próxima que Knud informava o seu agente de contacto na STASI de cada detalhe da sua vida em comum, dos seus momentos íntimos, das conversas na cama, das chamadas telefónicas, das variações de humor, das alegrias, angústias e tristezas. Mais tarde, quando Knud se encontrava em estado terminal, Vera perdoou-lhe.O muro de Berlim caiu há vinte e cinco anos. Na altura, o Partido Comunista Português, cego a todas as atrocidades cometidas pelos regimes totalitários comunistas, condenou o acontecimento. Vinte e cinco anos depois, o Partido Comunista Português mantém-se do lado errado da história. Depois de tanto tempo, os veados vermelhos das florestas situadas na fronteira entre a então RFA e a Checoslováquia continuam a não atravessar a linha que era dividida por uma vedação eléctrica. O Partido Comunista Português, por seu lado, continua preso à sua cegueira histórica, incapaz de dar um passo no sentido dos princípios da democracia. Perante visões do mundo desta natureza, impõe-se agora, como há vinte e cinco anos, um grito inquestionável pela liberdade: comunismo nunca mais!

Dois assassínios a sangue-frio

por Pedro Correia, em 09.11.09

 

O número de pessoas mortas pelos guardas fronteiriços de Berlim-Leste, quando pretendiam fugir para o Ocidente, não é totalmente conhecido. Há quem fale em 125, há quem garanta que foram 290 ou ainda mais. Mas sabe-se quem foi o primeiro e quem foi o último da longa lista de vítimas da ditadura comunista que ergueu o Muro de Berlim com 45 mil blocos de cimento armado e 302 torres de controlo numa extensão de 155 quilómetros.

É justo recordar-lhes os nomes neste 20º aniversário do fim do mais sinistro símbolo da Guerra Fria.

O primeiro chamava-se Peter Fechter. Era um operário de 18 anos que ao princípio da tarde de 17 de Agosto de 1962 decidiu subir o Muro, perto do Checkpoint Charlie, na companhia de um amigo chamado Helmut. Não chegou ao cimo: foi alvejado com vários tiros que o fizeram cair. Gravemente ferido, gritou por socorro. Diversos transeuntes quiseram ajudá-lo, tendo sido dissuadidos pelos guardas fronteiriços que deixaram o jovem sangrar até à morte. Morreu cerca de uma hora depois, perante a dolorosa impotência de centenas de pessoas que testemunharam o episódio de ambos os lados da fronteira. Dos três guardas que alvejaram a sangue-frio este jovem desarmado, nenhum deles passou um só dia na prisão.

O último chamava-se Chris Gueffroy. Era um estudante de 20 anos que também na companhia de um amigo, chamado Christian, a 6 de Fevereiro de 1989 escalou a rede de arame farpado que fazia de fronteira entre Berlim Leste e Ocidental na zona do canal de Britz. Na véspera, um guarda fronteiriço assegurara-lhe que poderia passar para o Ocidente sem grande transtorno, pois havia novas instruções expressas, por parte do regime comunista, para não atirar a matar contra ninguém. A informação era falsa e Chris foi vítima dessa mentira: recebeu dez tiros, quando se encontrava já no topo do arame farpado, e ficou ali, agonizando até à morte. Cada um dos quatro guardas que o alvejaram recebeu um louvor e um prémio pecuniário de 150 marcos leste-alemães. Mais tarde, já após a reunificação da Alemanha, um deles viria a ser condenado a três anos e meio de prisão, sentença alterada para dois anos de prisão com pena suspensa.

Peter e Chris: dois jovens que pagaram com a vida por quererem rumar à liberdade.

 

Imagem de cima: Peter Fechter sangrando até à morte (17 de Agosto de 1962)

Os muros e os símbolos

por João Carvalho, em 09.11.09

Fico confuso. Paro para reflectir. O Pedro Correia destaca os vinte anos de liberdade a Leste com uma mão-cheia de verdades terríveis no interior da cortina-de-ferro que o Muro de Berlim tentava ocultar e cai, certeiro, em cima das lágrimas do Avante!, que chora saudosamente a queda do socialismo soviético. O Carlos Barbosa de Oliveira diz que o champagne ainda está no congelador por ainda haver muitos muros, outros muros que se ergueram após a queda do Muro de Berlim, o que impede a celebração.

Afinal, o que é que eu celebro? É difícil. Celebro a resistência contra o extermínio de homens por outros homens, o assassínio de opositores pacíficos pelo poder político, as novas escravaturas, as deslocações tolhidas, as leituras proibidas, os pensamentos julgados, os sonhos desfeitos, as famílias destruídas, os amigos traídos, as expectativas goradas, os desejos pisados. Não quero muros, não. Há 20 anos, ficou menos um. Outros há, outros haverá, mas um deles já caiu.

O que é que eu celebro? Celebro esse símbolo da vitória sobre um "muro da vergonha". Afinal, a opinião não deve ser delito. É isso que eu celebro: o sinal de que os muros caem sem sujarmos as mãos de sangue. Sujas de sangue estão, não raro, as mãos que os erguem.

Os saudosistas do Muro

por Pedro Correia, em 04.11.09

 

Por estes dias, o mundo assinala o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, um dos mais tenebrosos símbolos da Guerra Fria e do 'socialismo real' que vigorou durante quase meio século no Leste da Europa. Uma data que devia ser festiva para todos. Mas há sempre alguém que diz não: o PCP recusa associar-se às celebrações de júbilo pelo derrube do sinistro bloco de betão que dividiu a capital alemã durante 28 anos, chamando uma manobra da "contra-revolução" a essa incomparável explosão de liberdade ocorrida a 9 de Novembro de 1989.

Em comunicado hoje distribuído à imprensa, os comunistas portugueses exprimem a sua dolorosa nostalgia pelo caduco sistema soviético que implodiu há duas décadas. Celebrar para quê? Na óptica do PCP, "o mundo está hoje mais injusto, mais desigual, mais perigoso e menos democrático". De então para cá, conclui o partido liderado por Jerónimo de Sousa, aumentou a "opressão e exploração dos povos - a começar por muitos dos ex-países socialistas, com a regressão de direitos laborais, a privatização de funções do Estado, com a ofensiva contra direitos e liberdades historicamente alcançados". Como se vigorasse alguma liberdade na Europa de Leste anterior a 1989, mantida sob a tutela pura e dura dos blindados soviéticos.

O cenário actual é todo negro: "Em Portugal e no mundo, se há coisa que estes 20 anos confirmam é que o capitalismo não só é incapaz de resolver os grandes problemas da humanidade e do planeta, como é o principal factor do seu agravamento". Antigamente é que era bom.

O que mais impressiona, neste comunicado, é a defesa - cega e surda às evidências da História - de um sistema que acorrentou milhões de pessoas, impedindo-as até de circular dentro do seu próprio país. O PCP de hoje, nesta matéria, é mais fechado e mais sectário do que o de Maio de 1990, reunido no congresso extraordinário de Loures, onde Álvaro Cunhal deixou bem claro: "O nosso partido rejeita e condena situações, orientações e práticas negativas que conduziram países socialistas a crises e a derrotas."

Gostaria de saber se comunistas lúcidos e moderados - como António Filipe, Honório Novo, Rui Sá, Octávio Teixeira, Ruben Carvalho e Manuel Gusmão, só para mencionar alguns - se revêem no lamentável comunicado difundido hoje pelo gabinete de imprensa do PCP.

 

ADENDA

O último líder do Partido Comunista da Alemanha de Leste, Egon Krenz, disse ao correspondente da Lusa em Berlim, Francisco Assunção, que "cada morto foi um morto a mais", referindo-se aos 140 alemães de leste abatidos por guardas fronteiriços quando tentavam fugir para Berlim-Oeste entre 1961 e 1989. Mortos que o PCP esquece enquanto chora pelo muro que caiu.


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