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Delito de Opinião

Facto internacional de 2023

Pedro Correia, 17.01.24

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TERRORISMO DO HAMAS E VIOLENTA RÉPLICA DE ISRAEL

Este foi, por destacada maioria, eleito o Acontecimento internacional de 2023 pelos autores do DELITO DE OPINIÃO: o conflito bélico iniciado a 7 de Outubro com um sangrento ataque de centenas de milicianos do Hamas a civis no sul de Israel, incluindo velhos, crianças e até bebés - atrocidades nunca antes registadas neste país, independente desde 1948. Morreram cerca de 1200 pessoas e centenas de outras foram raptadas e sequestradas, permanecendo muitas em cativeiro nos túneis da Faixa de Gaza. «Foi o nosso 11 de Setembro», repetiu-se em Telavive.

A resposta do Governo de unidade nacional logo constituído em Israel, sob a liderança de Benjamin Netanyahu, foi duríssima e também sangrenta, merecendo a condenação categórica do secretário-geral da ONU e de grande parte da comunidade internacional. Com a evacuação forçada de metade da população palestina residente em Gaza e a morte de milhares de civis a pretexto da perseguição aos membros do Hamas, armados e apoiados pela ditadura teocrática de Teerão.

O conflito, ainda sem solução à vista, tem vindo a ampliar-se, adquirindo dimensão regional. Já com repercussões no Líbano, na Síria (onde se mantém a guerra civil iniciada em 2011), no Iraque, no Irão e no Iémene (outro país em prolongada guerra civil), de onde partem brigadas terroristas que têm condicionado as rotas dos navios no Mar Vermelho, também transformado em palco bélico. Com graves repercussões no abastecimento de bens à Europa, via Canal do Suez.

Já lhe chamam uma nova guerra israelo-árabe - como aconteceu em 1948, 1967 e 1973. Mas esta parece ter contornos mais amplos, como comprovam os navios de guerra norte-americanos e britânicos que agora navegam no Mediterrâneo Oriental e pelas zonas mais tensas do Mar Vermelho. 

 

Eis duas opiniões dos participantes na votação, resumindo esta tragédia em cascata que volta a enlutar a velha Palestina dilacerada por lutas milenares:

«O terrorismo do Hamas provocou uma resposta também com contornos terroristas de Israel.»

«Mesmo quando as causas são justas, os fins nem sempre justificam os meios, muito menos quando os meios envolvem o terror e a morte de inocentes.»

 

Como sempre acontece no DELITO DE OPINIÃO, é possível votar em mais do que um tema. O segundo mais mencionado foi esteeclosão da Inteligência Artificial. Assinalando o lançamento do ChatGPT e tecnologias similares. «Ainda está por compreender - ou sequer imaginar - o alcance do impacto que as nossas vidas vão sofrer», observou um dos participantes na votação.

Registaram-se ainda votos isolados na Cimeira do Clima no Dubai, na resistência ucraniana ao invasor russo, pelo segundo ano consecutivo, e na rebelião do grupo Wagner e morte de Prigójin que sobressaltou durante alguns dias o regime ditatorial de Vladimir Putin.

 

Figura internacional de 2023

Pedro Correia, 08.01.24

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VOLODIMIR ZELENSKI

Segunda vitória consecutiva do Presidente da Ucrânia como Figura Internacional do Ano aqui no DELITO. Do quase anonimato, Volodimir Zelenski. tornou-se celebridade à escala mundial. Pelo pior motivo possível, certamente, na opinião dele. Por ser um herói involuntário que soube manter-se de pé e liderar o seu povo agredido por Moscovo. É fácil presumir que nada disto estava nos seus planos quando se candidatou à presidência, em 2019.

Zelenski, que em 2022 teve um triunfo esmagador na votação do blogue, desta vez venceu por maioria simples.

Eis algumas das justificações apresentadas por quem votou nele:

«Essencialmente, pela capacidade de resistência.»

«Apesar de outros conflitos graves [em 2023], não pode ser esquecido.»

«Quem sabe o que sucederá, caso a Rússia ganhe a guerra.»

Enfim, um conflito gravissimo iniciado com a invasão decretada por Vladimir Putin, em 24 de Fevereiro de 2022, e que se mantém neste início de 2024. Sabe-se lá até quando.

 

E quem mais?

O segundo lugar coube à presidente da Comissão Europeia. Ursula von Der Leyen, que já tinha sido eleita Figura do Ano em 2020, esteve perto de revalidar esta distinção. «Interventiva, sem dúvida», houve quem dissesse, justificando ter votado nela.

A tal frase - provavelmente apócrifa - atribuída a Henry Kissinger sobre a impossibilidade de pegar no telefone e contactar alguém que «liderasse a Europa» talvez deixe enfim de fazer sentido com esta ex-ministra alemã da Defesa que tem assumido inegável protagonismo como porta-voz do espaço comunitário. E que parece estar muito longe da aposentação. 

 

O terceiro posto do pódio coube ao recém-eleito Presidente da Argentina, Javier Milei. Um assumido ultraliberal que venceu as eleições de Novembro para a Casa Rosada, com 56%, destronando o rival peronista Sergio Massa num dos países mais proteccionistas do mundo - e também um dos mais depauperados por décadas de péssima gestão económica e financeira.

Seguiram-se votos isolados no Papa Francisco (vencedor em 2013 e 2014), no Presidente norte-americano Joe Biden (Figura do Ano em 2022), na primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e no secretário-geral da ONU, o nosso compatriota António Guterres

 

Faltam mais três.

Ismail Haniya, líder do Hamas - «Pelas piores razões», diz quem votou nele.

Sam Altman, big boss da OpenAI. Motivo? «Abriu a porta para um futuro potencialmente tão assombroso quanto tenebroso – porque, quer queiramos quer não, o futuro já chegou e está em movimento uniformemente acelerado.»

Finalmente, um voto com dimensão colectiva. No povo palestiniano. «Vítima do Hamas, de Netanyahu e da inércia/impotência internacional. Não teve voz nem voto na matéria, limita-se a esperar a morte», assim foi justificado.

Para o ano há mais, fica prometido.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

Figura internacional de 2017: Donald Trump

Figura internacional de 2018: Jair Bolsonaro

Figura internacional de 2019: Boris Johnson

Figura internacional de 2020: Ursula von Der Leyen

Figura internacional de 2021: Joe Biden

Figura internacional de 2022: Volodimir Zelenski

O apoio homossexual à Palestina

jpt, 04.11.23

 
 
Via Whatsapp um amigo envia-me este curto filme, que decerto por aí anda rodopiando. Não percebo o conteúdo, que sinto grotesco, e pergunto-lhe "O que é isto, pá?!". Diz-me "é uma coisa chamada Fado Bicha a apoiar a Palestina!". E vem implícito o remoque, que também está generalizado, aos homossexuais que se afadigam em declarações públicas deste teor - sabendo-se bem que face ao mundo islâmico, ainda que esse bastante diverso, a liberalidade legislativa e de costumes israelita é um oásis para as sexualidades, hetero e homo (e as outras que agora andam a ser indexadas com afã).
 
Sorrio. Já o disse, aos ademanes em palco sinto-os como grotescos. Sinto-os ainda mais assim - que quereis?, sou um homem nascido nos anos 1960s, justifico-me, glosando o abissal sábio de Coimbra -, do que quando diante daquelas dançarinas dos play-back pimbas nos programas televisivos da tarde, elas bojudas "como deve ser", pulando e gingando, seus refegos, lascas de celulite e proto-varizes ressaltando sob as minissaias. E destes Fado Bicha apenas tomara conhecimento ao sabê-los apoiantes - ou mesmo inspiradores - daquele prostituto brasileiro que invadiu um teatro municipal lisboeta. Apresentando-se apenas em cuecas e com os implantes mamários desnudados, algo que considerava suficiente para ali exigir um emprego - para desvelo de alguma "comunidade artística" -, ainda que, como se soube depois, considere o teatro uma chatice e prefira ir ao futebol com o namorado.
 
Não seja por isso. Esta rapaziada (ou raparigada, como preferirem, que não quero parecer preconceituoso) não inova grande coisa. De facto, sabendo-o ou não, seguem o Papa Foucault, esse "grande educador da classe genderária", o que se desunhou em apoios e viagens solidárias para com o fascismo teocrático de Teerão enquanto gozava a liberdade existencial americana. "They love Teheran but they fuck in Frisco", resumi eu em postal de blog, aludindo literalmente à foucauldiana deriva.
 
Mas o que se pode criticar a esta malta histriónica do "género" (ou lá o que é) é o facto de sempre se calarem com as maldades (e que maldades) "alheias" enquanto sempre anunciam hiperbólicos horrores nas sociedades "ocidentais". "Nós" demónios, os "outros" húmus multiculturais, por assim dizer. É uma pantomina, travestida de pensamento, e por vezes - como neste caso - mesmo por trajes. Um patético "anti-capitalismo", de facto nada mais do que um esparvoado "anti-americanismo". Dará prestígio, entre a "comunidade" que lhes é "público" e entre "instituições" e "câmaras" que contratam e financiam. É uma incongruência, de hipocrisias e dislates feita.
 
Mas tudo isso não impede uma outra faceta. É perfeitamente legítimo - até honroso - que alguém defenda outrem que dele não gosta ou até persegue. Se se reconhece a esse outrem pertinência nas reclamações como evitar expressar solidariedade? Especialmente em momentos dramaticos? "Faz o bem sem olhar a quem"... está escrito num qualquer texto judaico, julgo. Ou seja, é errado criticar os homossexuais por defenderem causas ou posições oriundas de países islâmicos. Pode-se discordar. Mas é perfeitamente legítimo - insisto, até honroso. Mas o que é inadmissível é que tantos desses movimentos, e seus locutores, demonizem as sociedades liberais. Porque essa atitude, verdadeira contradição - que é tão generalizada, tão constante -, não passa de um pobre e ordinário travesti de cidadania.
 
Quanto a estes Fado Bicha que me atiraram ao telefone só tenho uma coisa a dizer, pois sou muito reaccionário. Há algo fundamental, nisso obrigatório, quando se ergue a bandeira de alguém, em especial se a nacional, para se lhe demonstrar apoio. Não se arrasta essa bandeira pelo chão.
 
(Um pequeno detalhe, alguns dirão. Sim, é um pequeno detalhe. Mas bem demonstra a abjecta pantomina que é tanto "disto", quase tudo disto "genderístico".)

Israel e Palestina, as causas de um conflito

jpt, 02.11.23

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Já aqui deixei nota que - com a minha vetusta idade, a qual me permite lembrar de Moshe Dayan, Golda Meir e Yasser Arafat -, não tenho qualquer disponibilidade para escutar/ler os doutos que  na imprensa se afadigam a explicar o que se passa lá no longínquo Mediterrâneo.
 
Mas tenho solidariedade e piedade. Solidariedade com as vítimas dos estrategas do fascismo palestino. E, concomitantemente (que bela articulação retórica me sai aqui), com as dos "falcões" israelitas - esses que desta não se safarão durante as próximas décadas. E julgo que após ter exarado esta profunda opinião, arguto diagnóstico da situação, o mundo melhorará.
 
E tenho piedade - cristã, a do cristianismo ateu - por tantos dos meus compatriotas (ou de países aliados) que têm enchido o meu Facebook com as suas aceradas opiniões, quase sempre comprovadas com indiscutíveis fontes bibliográficas ou filmográficas.
 
Entre estes há os mais arqueológicos, que se desdobram na partilha de "mapas étnicos" dos tempos bíblicos - comprovando que os "judeus" já então eram os "donos da terra", assim julgando resolver as coisas de hoje. E há os mais sociológicos, incansáveis na proclamação da justeza das reclamações históricas da também imorredoira "nação palestiniana". Gentes futebolistas, estas minhas ligações-FB, sempre adeptos fervorosos sobre tudo o que mexa, seja qual for o campeonato em causa, fiéis ao mandamento do grande holigão René Descartes, fundador da claque do Paris-St. Germain, e autor do lendário lema "Torço, logo existo!".
 
Entretanto, sobre o continuado confronto entre israelitas e palestinianos, no canal Sic Notícias, no programa Toda a Verdade, está a ser transmitido este esplêndido documento "A Origem de um Conflito". Tem três episódios, são transmitidos a cada domingo (dá para recuar e ir ver). Já passou o segundo. É muito recomendável.
 
Mas será, também, um desperdício de tempo para judeófilos e para palestinianófilos. Para esses recomendo o canal Onze - que está porreiro. Em especial o aprazível programa "Sagrado Balneário", charlas sobre velhas histórias dos jogadores e treinadores de futebol,

Êxodos, massacres, genocídios e omissões

Pedro Correia, 26.10.23

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Crianças arménias refugiadas em 1915: o primeiro genocídio documentado do século XX

 

Também em matéria de "catástrofes humanitárias" (como agora tantos dizem, numa tradução imbecil do 'amaricano') há umas mais iguais do que outras.

A Arménia, lá nos confins do Cáucaso, sem jornalismo nem "activismo" nas redondezas, pode ser chutada para o rodapé pelo supremo responsável da segurança global (atenção: as cinco anteriores palavras são em registo irónico).

 

Convém nunca esquecer que os arménios sofreram o primeiro genocídio documentado dos tempos modernos. Há pouco mais de cem anos, cerca de milhão e meio foram massacrados pelo já decadente Império Otomano, avô da Turquia actual - incluindo deportações e assassínios em massa.

Seguiu-se o tenebroso Holodomor - a condenação de um povo inteiro à morte pela fome. Neste caso ucranianos, submetidos à mais cruel pena capital colectiva pela URSS de Estaline em 1932/1933.

 

Massacres étnicos originaram também grandes êxodos - de dezenas de milhões de pessoas. É outro dramático legado do século XX.

Entre 1944 e 1949, 1,7 milhões foram expulsos da Polónia para a Ucrânia - e vice-versa.

Após 1945, cerca de 8 milhões de alemães foram evacuados dos chamados "territórios de Leste" para o perímetro da actual fronteira alemã - e, depois, muitos fugiram da RDA para Ocidente.

O desmembramento do Hindustão britânico originou entre 1947 e 1951 o êxodo cruzado de 15 milhões de pessoas da União Indiana para o Paquistão - e vice-versa. Nessa traumática jornada entre fronteiras recém-estabelecidas, terão morrido cerca de dois milhões de pessoas.

O genocídio ocorrido no Camboja submetido ao domínio totalitário comunista de Pol Pot, entre 1975 e 1979, custou pelo menos dois milhões de vidas humanas.

A disputa pelo enclave que acaba agora de mudar de mãos no Cáucaso originou em 1994 a deslocação forçada de cerca de 400 mil arménios e de mais de um milhão de azeris.

Menos expressivo, mas não menos doloroso, foi o êxodo ocorrido em Chipre na sequência do golpe ilegal ali protagonizado pela Turquia em 1974 que dividiu a ilha até hoje: 200 mil gregos e 60 mil turcos desalojados.

Viria a acontecer, em escala maior, nas guerras dos Balcãs da década de 90 - ainda cheia de chagas por cicatrizar.

E no Ruanda, na sanguinária guerra civil de 1994: cerca de um milhão de mortos em apenas três meses apenas por pertencerem à "etnia errada" (tútsis, sobretudo).

Sem esquecer a guerra no Sudão, culminada na "limpeza" étnica no Darfur, em 2003: pelo menos 2 milhões de mortos e 6 milhões de refugiados nos vinte anos seguintes. Primeiro genocídio documentado deste já tão triste século XXI.

 

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Guterres na fronteira entre Gaza e o Egipto (20 de Outubro)

 

Existirá, nos casos de grandes êxodos, uma figura da justiça internacional denominada "direito ao regresso" dos desalojados, apenas invocada no caso da Palestina?

Fica à consideração dos especialistas.

Ao secretário-geral da ONU nem é preciso perguntar: dirá logo que sim. Num reflexo condicionado semelhante ao que no passado dia 20 o levou a mostrar-se aos repórteres do lado da fronteira egípcia com Gaza numa arenga cheia de bonitas frases humanitárias que esqueceram os mais de 200 reféns israelitas e de outras nacionalidades levados à força pelo Hamas, em circunstâncias bárbaras.

Também se peca por omissão. Eis um destes casos.

Centenário

Pedro Correia, 27.05.23

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«As dificuldades são também um desafio. Não têm de ser sempre um obstáculo.»

Henry Kissinger, The Economist (Maio de 1923)

 

Viveu muito, leu muito, viajou muito, conheceu muito.

Ensinou muito - e continua a fazê-lo, com plena lucidez intelectual, neste dia em que celebra cem anos.

Henry Albert Kissinger, nascido a 27 de Maio de 1923 na Baviera, fugido com os pais do regime nazi, refugiado em Nova Iorque aos 15 anos. Em 1943, naturalizou-se cidadão americano. Serviu no exército dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Escapou à morte, mas o sistema totalitário tocou-o de perto: 13 dos seus parentes sucumbiram no Holocausto.

Admirado, invejado e detestado em partes iguais, pontificou nas administrações Nixon e Ford entre 1969 e 1977. Primeiro como conselheiro da Segurança Interna, depois como secretário de Estado - terceiro posto na hierarquia governamental. No auge do caso Watergate, chegou a ser ele a segurar no leme. Enquanto rasgava horizontes na política externa norte-americana: liderou o degelo diplomático com a República Popular da China ao avistar-se com Mao Tsé-tung, levou Washington a substituir os soviéticos como força dominante no Médio Oriente ao assumir-se como interlocutor entre israelitas e árabes, negociou a limitação de armas estratégicas com Moscovo em plena Guerra Fria. 

 

Doutorou-se com uma tese sobre Metternich (1773-1859), príncipe da diplomacia no império austríaco, expoente máximo da doutrina realista contra os idealistas, responsáveis por tantos conflitos bélicos.

Nos anos 50 e 60 foi um dos mais famosos professores em Harvard, onde leccionou Ciência Política antes de rumar aos palcos mundiais como comandante norte-americano para os assuntos externos. Com várias sombras entre muitas luzes, incluindo o apoio activo às ditaduras de Pinochet no Chile e de Suharto na Indonésia (dando cobertura à invasão de Timor em 1975) e a sua falhada visão de um Portugal mergulhado no comunismo em 1975, útil como «vacina para a Europa». Ao contrário do que previa, os comunistas foram derrotados aqui. Enquanto ganhavam terreno em África e no Sueste Asiático: o Nobel da Paz que recebeu em 1973 pelos acordos de Paris anteriores à retirada norte-americana do Vietname ainda suscita polémica.

Facto inegável: foi um dos mais brilhantes intelectuais que trabalharam nos últimos 60 anos na Casa Branca. Após abandonar funções públicas, tornou-se consultor de monarcas, presidentes e primeiros-ministros. Já nonagenário, continuou a percorrer o mundo: só a pandemia, em 2020, o reteve na sua casa rural no Connecticut. Mas ainda frequenta regularmente o seu escritório, no 33.º andar de um edifício art déco em Manhattan. E continua a publicar livros. Tem dois muito recentes. Um sobre inteligência artificial (tema que o fascina e preocupa), outro sobre seis políticos que conheceu pessoalmente: Konrad Adenauer, Charles de Gaulle, Richard Nixon, Anwar Sadat, Lee Kuan Yew e Margaret Thatcher (Liderança, já com edição portuguesa da Dom Quixote).

Do antigo Presidente francês, cita com frequência uma frase emblemática sobre comando político: «Assumir riscos constantes numa perpétua luta interior.»

 

Em recente entrevista ao Sunday Times, pronunciou-se sobre a invasão russa da Ucrânia. Elogiando Zelenski: «Não há dúvida de que cumpriu uma missão histórica.» E criticando Vladimir Putin: «Chefia um país em declínio e perdeu o sentido das proporções nesta crise.»

Judeu, aos 9 anos o pequeno Heinz (só viria a chamar-se Henry na América) viu Hitler ascender ao poder no seu país natal, onde em menino adorava jogar futebol. Nem o exílio forçado nem o incêndio da Europa que testemunhou ao vivo diminuíram o proverbial optimismo que muitos lhe reconhecem. Mas vai advertindo contra os sinais de crescente desagregação da ordem mundial que imperou nas últimas três décadas: «A segunda Guerra Fria será ainda mais perigosa do que a primeira.»

Um aviso que deve ser levado a sério. Vem de quem sabe mais e viu muito mais do que qualquer de nós.

O passado não regressa

Pedro Correia, 12.04.23

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É impossível usufruirmos do melhor de dois mundos: não há benefícios sem sacrifícios.

Do qual estamos afinal, nós, europeus, dispostos a abdicar?

Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora.

Já não vivemos no tempo dos amplos mercados coloniais, nem das matérias-primas a desaguar na Europa a baixos preços, nem da natalidade elevadíssima, nem dos níveis de crescimento económico superiores a 5% que fizeram do nosso continente o que é, nas três décadas posteriores ao pós-guerra, e permitiram que o Estado-providência se tornasse no que se tornou.

Temos graves problemas estruturais numa zona euro que oscila entre a inflação e a recessão. Enquanto outras parte do globo crescem.

O Plano Marshall é irrepetível. E, se o não fosse, apontaria noutras direcções. Porque a guerra na Europa terminou há 78 anos.


De que parcela deste Estado-providência estamos dispostos a abdicar?

Que nível fiscal estamos dispostos a suportar?

Aceitaremos a redução das pensões de reforma para adequar os pagamentos ao nível de contribuições existente quebrando um pacto intergeracional devido às novas imposições da demografia? Ou, em alternativa, deverão cada vez menos cidadãos suportar contribuições cada vez maiores?

Estas perguntas não são retóricas. São cruciais. Iludi-las não nos conduzirá a lado nenhum. Ou antes: conduzirá ao progressivo definhamento da Europa, que vista de outras paragens parece uma senhora parada no tempo, alimentando-se da difusa nostalgia de um passado que não regressa.

Uma espécie de Gloria Swanson em Sunset Boulevard.

Facto internacional de 2022

Pedro Correia, 11.01.23

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AGRESSÃO RUSSA À UCRÂNIA

Este foi, por larguíssima maioria (quinze em vinte dos participantes), eleito o Acontecimento internacional de 2022 pelos autores do DELITO DE OPINIÃO: a invasão da Ucrânia pela Rússia, obedecendo à voz de comando do ditador de Moscovo, Vladimir Putin. 

Iniciada na madrugada de 24 de Fevereiro, esta agressão bélica faz lembrar tempos que há muito não víamos no Europa, tendo provocado um número impressionante de vítimas (fala-se em cerca de cem mil, entre baixas militares e civis dos dois lados), a destruição de grande parte do território da Ucrânia e uma onda de refugiados sem precedentes no continente desde a II Guerra Mundial: calcula-se que 15 milhões de pessoas - cerca de um terço da população do país agredido - tenha sido forçada a abandonar os seus lares. Muitos procuraram refúgio noutros países, incluindo Portugal. 

A guerra - que Putin desencadeou pensando que fosse concluída a curto prazo, com a ocupação de Kiev, a deposição das instituições do país invadido e a detenção ou assassínio do Presidente Volodimir Zelenski - tem-se prolongado, tendo os ucranianos já recuperado cerca de 55% do território inicialmente invadido. Cidades como Butcha, Irpin e Mariúpol tornaram-se tristemente famosas em todo o mundo, pelos massacres que os esbirros armados do Kremlin lá cometeram. 

A agressão motivou uma unidade inquebrantável dos países ocidentais no apoio à Ucrânia - financeiro, humanitário e militar. Com Zelenski enaltecido como símbolo da resistência e países até há pouco neutrais, como a Finlândia e a Suécia, envolvidos na estratégia global de defesa face ao imperalismo russo - ao ponto de terem aderido à NATO, algo impensável há um ano.

 

Passo a citar algumas das opiniões emitidas pelos participantes nesta votação:

«A partir de 24 de Fevereiro o mundo mudou de forma abrupta.»

«A guerra na Ucrânia modificou mesmo as nossas vidas; esperemos que não modifique ainda mais.»

«A chocante invasão da Ucrânia pela Rússia, em pleno século XXI, fez soar todos os alarmes. Põe em risco a ordem mundial tal como a conhecemos, tem como alvo as sociedades democráticas liberais, e é afirmação da autocracia feita ruidosamente ao som dos tambores bélicos, a única e verdadeira força de Moscovo. Este conflito tem provocado alinhamentos e realinhamentos geostratégicos. Ironicamente, teve o condão de unir o Ocidente e de alargar a NATO até às fronteiras da Rússia. Quanto mais tempo a guerra durar mais perto estaremos de que se torne global, com consequências imprevisíveis para o planeta.»

 

Como todos os anos acontece, é possível cada um votar em mais do que um tema. Assim, eis dois acontecimentos do ano passado que também mereceram referência nesta eleição: planeta Terra ultrapassou os 8 mil milhões de habitantes (três votos) e revolta popular no Irão (dois votos).

Registaram-se ainda votos isolados na morte da Rainha Isabel II, na inflação como fenómeno global e no desrespeito pela vida no planeta («guerra, alterações climáticas, agravamento do fosso entre muito ricos e muito pobres»).

 

33 anos após o derrube do Muro de Berlim

jpt, 14.11.22

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Lembro um episódio, longo, entre tantos. Em 1994 segui à África do Sul, para trabalhar nas eleições que fizeram ascender o ANC ao poder. Era a primeira missão de observação eleitoral da UE, coisa de três meses  - ricos como se muito tempo fossem, tão longa, milionária, pareceu aquela experiência. Ombreámos com os observadores da ONU, ali já colocados há muito tempo, que lhes era missão mais demorada. Na zona onde fui colocado vários desses estavam no país há mais de um ano, e vinham já experientes de outras áreas. Entre outros muito lembro o seu coordenador, Brian (ninguém usava apelidos), um velho com quase 50 anos, irlandês, ruivo, alcoólico (não tocava em álcool, num corajoso sorriso "já bebi o suficiente na minha vida..."), um tipo finíssimo. E Slobodan, um ex-diplomata jugoslavo, náufrago etilizado da "former Yugoslavia", trepidante num volante lesto de morrer, nisso um susto de coabitação, e homem "maior do que a vida" e isso também por todo aquele abissal desespero de recém-apátrida. E Marie-Vi, uma jovem e belíssima francesa, que a todos seduzia no seu simples estar (ainda assim não tanto a mim naquele tempo, apaixonado que seguia). E alguns outros, menos memoráveis.

Lembro-os também porque já então veteranos das missões de paz, eleitorais. Vinham de longas estadas, anos até, decorridas no Cambodja. Lembro-me daquelas noites diante do Índico, bebericando sôfregos, embrenhados naquele magnífico momento sul-africano. Até que, a um determinado momento, uísques ou cervejas cruzadas, muitos e muitas, seguiam eles a falar do que haviam vivido no Cambodja. Do que sabiam que fora, e ainda era.

Agora, décadas depois e por cá, leio ouço estes intelectuais, estes académicos, estes jornalistas, que continuam, ano após ano, a louvar o que chamam "socialismo" - de facto estão a falar dos países comunistas -, e sempre negam o horror. Alhures, entre outros, contado e recontado, olhos pesados, copos rodados entre-dedos, estes que tendem a trémulos. Dir-vos-ão (nunca a mim, que o insulto imediato logo me brota) que não era aquilo o "projecto", o "ideal". Utilizam para o seu miserável sonho (ou para os meros laiques de funcionários públicos burguesotes da descansada europa ocidental) um crivo totalmente diferente do que usam para o que dizem "pérfido capitalismo". Liberalismo? Gritam Pinochet (ignorantes que são nem invocam o ainda pior Videla). Socialismo (aliás, comunismo)? Refugiam-se num qualquer mito, nunca sobrevivido às pérfidas ditaduras. Aos massacres, aos genocídios, aos sociocídios, aos etnocídios, à tortura, à tanta coisa. Se lhes apontamos alguma memória histórica? Não é esse o ideal, respondem ... E ilibem-se, em conúbio entre eles, militantes e funcionários públicos do real.

A muitos o Estado paga-lhes salários. E eles seguem na sua abjecta falcatrua ideológica. E dela fazem profissão. Alguns, mais serenos, limitam-se -  quotidianamente nas "redes sociais" e ciclicamente nas urnas - ao sufragar dos grandes assassinos da história. Enquanto ensinam as novas gerações. E a nós - crentes na mediocridade trôpega da democracia, da necessidade de a sempre melhorar - dizem-nos desconhecedores da concepção de "dignidade humana", como um dia até se atreveu um renomado lente de Coimbra. E vão limpando a memória dos polpotismos ou outros comunismos, querendo apagá-la. Apenas 30 anos após aquelas gigantescas desgraças.

E não têm qualquer vergonha. Nem os locutores. Nem os "laicadores".

33 Anos Após Tiananmen

jpt, 04.06.22

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("Goo Goo Gai Pan", 12º episódio, 16º ano de "Simpsons" - censurado na China.)

Há 33 anos o massacre em Pequim... No dia seguinte ao início da mortandade este episódio:

É sabido o "cancelamento" deste episódio. Não só a ditadura chinesa o apaga da história - chegando a censurar o episódio dos "Simpsons" que a ele alude. Mas também a ele pouco ou nada se alude no imensa produção cultural internacional "empenhada", anti-capitalista, alter-globalista. De facto, no seio da "esquerda" "cosmopolita" este "Homem do Tanque" não ascendeu a ícone, não foi aposto à fileira desde o "No pasáran!" e por aí afora, não desce a Avenida em Abril, nenhum dos que se tatuam com o guerreiro Guevara lhe associam este incógnito no outro peito ou braço, barriga da perna que seja, não há t-shirts nem grafitis emporcalhando paredes, não abundam trinados da "música popular brasileira" em sua memória ou qualquer poemaço exaltado, até transposto a faduncho. Todos os anos alguns "reaccionários", gente da "direita" malvada, o lembram por este Junho, e nisso colhem, quanto muito, uns "decoloniais" comentários, quais "o cabrão do chinoca tinha tomates, lá isso é verdade". E lá seguem os "democratas" no seu rosário de "boas causas", ufanos... 
 
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Nisso, bem especioso veio o PCP, que em 2011 achou necessário avisar os militantes que isso de Tiananmen "foi uma farsa" - os detalhes pouco importam pois, como bem é sabido pelo povo camarada, com a verdade me enganas. Seguindo o tal partido sempre ciente de que urge lembrar as massas de estar a vil imprensa ocidental (pior ainda a que se diz de "esquerda") em permanente campanha de difamação das democracias socialistas... Nesse inabalável rumo mostrando bem que o PCP não muda. Nós é que, às vezes e por mera preguiçosa distracção, nos surpreendemos.

Dies Mundi

Maria Dulce Fernandes, 02.03.22

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O mundo é aqui é agora, na porta ao lado, na próxima esquina. O mundo é a realidade que engoles ensonado, a fumegar, que empurra a panaceia matinal contra as maleitas do tempo.

O mundo é a atmosfera saturada que respiras ofegante através do trapo que te oferece fraco consolo como filtro das pestilências que te envolvem, as físicas, porque para as outras não há filtro nem machado.

O mundo é tudo o que sentes e pensas que sabes. Não sabes se sabes tudo ou se apenas sabes a realidade que te envolve e que te ilude.

O mundo é o lento girar das sombras que vês passar até ao regresso da luz que cada vez mais tarda em chegar.

O mundo é vida e palpitante . Podes nada entender da realidade do mundo, mas  sabes que mordaças e grilhões aguardam na parda antecâmara da morte de todas as mortes, aquela que deixa para trás o corpo vazio de alento de quem a alma se apagou nas chama da desolação e do terror.

O mundo é o espelho do medo.

O tigre de papel

Pedro Correia, 24.02.22

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A humilhante retirada do EUA e das "potências" europeias do Afeganistão só encorajou o ditador russo na sua estratégia - há muito delineada - de invadir e ocupar países soberanos que não se verguem à sua tutela, seguindo um guião que parece imitar o de Hitler na sua concepção de "espaço vital". Não a pretexto de reunir os povos germanófonos, mas russófonos. Não já de uma raça suprema, mas de um povo iluminado pela luz divina. Daí a Constituição em vigor na Rússia entoar hossanas à pátria «unida por uma história de mil anos, preservando a memória dos antepassados que [lhes] transmitiram os ideais e a fé em Deus».

Se esta concepção de relações internacionais prevalecesse, veríamos todo o nosso continente incendiar-se, com reclamações territoriais permanentes de parte a parte - de Gibraltar a Istambul, passando por Estrasburgo e Trieste. Como aqui escrevi em 1 de Setembro de 2009, ao cumprirem-se 70 anos do início da II Guerra Mundial, «a Europa é uma construção política demasiado frágil para podermos adormecer confiados em sonhos de paz perpétua» 

 

Putin ataca em larga escala a vizinha Ucrânia, despejando-lhe incontáveis mísseis de médio alcance, convicto da impunidade. Na certeza de possuir o maior arsenal atómico do planeta - exemplo supremo da razão da força, indiferente a qualquer força da razão. E tem a vantagem, relativamente ao genocida alemão, de estar sentado no chamado "Conselho de Segurança" da ONU, com direito de veto a qualquer decisão que possa lá tomar-se. Numa manifestação suprema de cinismo, aliás, invocou o artigo 51.º da Carta das Nações Unidas para ordenar a tomada da Ucrânia pelas armas. Imagine-se Hitler com idêntico poder formal de paralisar qualquer acção contra si próprio no inútil palácio de vidro em Nova Iorque...

Hoje na Ucrânia - após ter reduzido a Bielorrússia a um protectorado-fantoche, amanhã na Roménia e na Moldávia, depois de amanhã nos Estados bálticos e na Polónia. Quase numa repetição mimética do criminoso expansionismo nazi naquela terrível década de todos os perigos, há quase um século.

 

Os trágicos acontecimentos que presenciamos, vendo devorar uma nação europeia com 43 milhões de habitantes, não se esgotam nas três frentes de guerra na Ucrânia. Está em curso um sismo de máxima magnitude na geopolítica mundial, com a formação de um eixo Moscovo-Pequim, análogo ao pacto estabelecido em 1940 por Hitler e o seu fiel vassalo Mussolini (representado nos nossos dias por Lukachenko, o grotesto ditador bielorrusso) com os sinistros mandarins de Tóquio. Que mergulhou o mundo num cataclismo à escala planetária.

Poucos já se surpreenderão se o o drama ucraniano desta manhã venha a repetir-se num futuro próximo em Taiwan, com idêntica retórica imperialista e nacionalista a justificar as brutais acções de canhoneira. 

 

Num dia futuro, quando os historiadores fizerem o relato destes dias, aludirão ao prólogo. Escrito em Cabul, no Verão passado, quando os EUA bateram em retirada por ordem do patético "comandante supremo" em Washington, deixando aquele povo abandonado à sua sorte, engolido em novas trevas.

Demonstrando assim ao mundo inteiro que o autoproclamado "líder do Ocidente" mais não é do que um tigre de papel. 

Cabul, Agosto de 2021

Pedro Correia, 18.08.21

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Saigão, 1975: a história repete-se

 

É fatal, nestas ocasiões: vejo mil tudólogos a poisar nas pantalhas declarando-se especialistas em temas internacionais - e no drama do Afeganistão em particular. Não tardam a aparecer os relativistas militantes, sugerindo que devemos respeitar as «diferenças culturais» e o direito de cada povo a eleger os seus representantes. Como se alguém tivesse eleito ou viesse a eleger a turba talibã. Como se não houvesse o dever moral, da nossa parte, de declarar criminoso todo o poder que pretende legitimar-se à margem dos direitos humanos, exibe a todo o momento a supremacia dos canhangulos e transforma a palavra divina em instrumento de terror.

Nestes instantes, nunca faltam à chamada aqueles que, instalados no conforto ocidental, concentram as suas críticas no Ocidente. Por ter inaugurado no Afeganistão um «Estado falhado». Para desfazer dúvidas, basta no entanto perguntar aos afegãos se preferiam viver nesse «Estado falhado» que lhes trouxe inédita liberdade durante 20 anos - correspondendo a uma geração inteira - ou se preferem viver agora novamente sob o domínio cavernícola dos talibãs.



Nem é preciso perguntar. Eles - e elas, sobretudo - estão a responder há semanas, abandonando o país em massa. Como podem. Por vezes sem levarem mais nada senão a roupa que têm vestida.

Quem não consegue fugir, teme o pior.

Como a estudante universitária que alude às «faces hediondas dos homens que odeiam mulheres»: já são eles a mandar de novo. Ou a juíza que desempenhou estas funções durante dez anos e se confessa apavorada perante a perspectiva de se abrirem as portas das prisões cheias de reclusos a reclamar vingança.

Não há lugar para elas - nem para muitas outras - nas evacuações de emergência que prosseguem há 72 horas, com cada um a tratar de si, deixando para trás a multidão de heróis quotidianos que concretizaram vinte anos de frágil mas efectiva liberdade no Afeganistão. Já hoje, um avião militar australiano levantou voo de Cabul com apenas 26 pessoas tendo espaço para transportar 128.

Caso para perguntar: ninguém mais merecia ir a bordo?



Quanto a Joe Biden, nada de novo. Reedita o triste papel desempenhado por Gerald Ford em 1975, em Saigão, e Jimmy Carter em 1980, em Teerão. Limita-se a repetir, com menos poder de síntese, o que Henry Kissinger declarou há 46 anos, a propósito do Vietname caído às mãos dos comunistas: «A boa notícia é que a guerra terminou. A má notícia é que a perdemos.»

Mais do mesmo. O actual inquilino da Casa Branca terá direito a um belo rodapé nos futuros manuais de história.

O futuro já não é o que era

Pedro Correia, 20.05.21

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O futuro já não é o que era. Houve tempos em que vender ilusões sobre o dia de amanhã era receita garantida de sucesso e a futurologia quase chegou a atingir o patamar reservado às mais respeitáveis ciências. Houve tempos em que se acreditava que o futuro só podia ser melhor. E não é preciso recuar muito no calendário. Em 1970, Alvin Toffler – ex-editor da revista Fortune – alcançou fama planetária com um best seller intitulado O Choque do Futuro em que antevia dias radiosos, marcados por uma intensa mobilidade social e laboral, produção de bens em larga escala e muitas horas de lazer, centradas nas delícias da sociedade de consumo.

Esses dias parecem-nos hoje estranhamente remotos e estas profecias optimistas parecem-nos hoje totalmente deslocadas. A fé inabalável no progresso humano que caracterizou as décadas imediatas do pós-guerra justificaram milhares de textos recheados de optimismo que agora só nos parecem péssima literatura.

 

Em 1950, havia a crença generalizada de que por volta do ano 2000 os robots substituiriam o homem na maior parte das tarefas mecanizadas. Em 1960, o físico norte-americano Gerald Feinberg, da Universidade de Columbia, previu que na passagem do milénio nasceria o primeiro bebé num planeta artificial.

A crença cega em ilimitados recursos financeiros ao serviço da inovação tecnológica levou várias mentes brilhantes a acertar totalmente ao lado. Na década de 60, Wernher von Braun, um dos pioneiros do espaço, admitiu que por volta de 1984 se fundaria a primeira colónia na Lua, provavelmente por iniciativa da União Soviética, e o biólogo marinho Alister Hardy, professor em Oxford, antevia na mesma época que antes do final do século haveria tractores a lavrar o fundo dos oceanos.


“Ninguém conhece a história da próxima aurora”, ensina um milenar provérbio africano. Mas o optimismo histórico da civilização ocidental levou-nos a acreditar durante demasiado tempo que era possível antever os alicerces do futuro, com a certeza antecipada de que ele seria risonho.

World Future Society [Sociedade Mundial do Futuro] chegou a congregar 60 mil membros. Em 1973 teve como orador convidado o vice-presidente Gerald Ford. Treze anos depois, uma delegação era recebida na Casa Branca pelo presidente Ronald Reagan, que lhe emprestou dignidade institucional.
Era o tempo em que o futuro estava na moda. Figuras respeitáveis anteviam um novo século com veículos “inteligentes” de transporte sem necessidade de condução, a proliferação de hotéis nas profundezas submarinas e migrações em massa de terráqueos para satélites artificiais da Terra.

 

Esse tempo terminou.

A World Future Society está hoje reduzida a 25 mil membros. Quase ninguém quer saber o que nos reservará o futuro. Pelo simples motivo de que só pode ser mau. A crença mudou de campo.

Dia de Reis, 2021, fim de década

jpt, 08.01.21

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Dia de Reis, 2021: Washington, parlamento.

Estes anos 10 de XXI foram, de facto, a "década chinesa" - e isso notou-se bem quando em final de 2020 se assinou o tratado de comércio livre dos 15 da Ásia-Pacífico, enquanto a semi-intelligentsia cristo-"ocidental" discutia com minúcia erotizada o iminente Brexit e as eleições americanas. Julgo que daqui a largos anos sobre esta era os vindouros afirmar-lhe-ão ainda outros dois traços centrais: a continuidade do até surpreendente solavanco indiano (pois o choque dos gigantes asiáticos será estruturante desse futuro); e - num nível que lhes será bem mais fundamental do que tanto tonto ainda grasna - a incapacidade dos países ricos em enfrentarem a reconversão industrial ecologicamente imposta.

Mas neste nosso reduto, o tal "Ocidente" - esgarçando-se como o centro do mundo, que o foi nos últimos 250 anos -, a "década" teve outros traços fundamentais muito, demasiado, marcados pelos abalos internos nos EUA, provocados pela decadência da pax americana, promovida por forças bem mais relevantes do que a óbvia incompetência externa das suas últimas presidências. Por um lado, o crisma das eunucas "agendas identitárias" - total reprise do que a lenda narra como ambiente ideológico aquando da queda de Constantinopla diante do imperialismo islâmico, aquilo da querela sobre o "sexo dos anjos" - submergiu o velho pensamento progressista, metastizado após a queda do comunismo.

E por outro lado, o recrudescer das "agendas soberanistas" - mero invés das outras, pois de facto também elas apenas "identitárias" -, de cariz ferozmente reacccionário, mesclando laivos de liberalismo económico, demagogicamente apropriados, com um conservadorismo radical. Foi esta a "década" encetada pelo movimento Tea Party, de facto um proto-fascismo teocrático. E mais perto de nós, entre outros epifenómenos na Mitteleuropa, os manobrismos de Farage, acoitados pelo paupérrimo Cameron. E tudo isto exponenciado nesta ascensão de Charles Foster Kane à presidência do país mais poderoso do mundo. 

Muito se diz que a democracia ("sempre frágil, sempre vulnerável, corruptível e muitas vezes corrupta", disse-a Bobbio, quando dela fez a apologia) é frágil. Sim, é-o, tem esse enorme vigor. O da fragilidade. No Dia de Reis de 2021 a "década" acabou - esta, que tanto demonstrou essa fragilidade. Findou de modo algo sanguinolento. Mas como farsa. Resta-nos, acima de tudo, olhar os farsantes e seus adeptos, seja lá qual for a sua "identidade", como o que são: farsantes. Alguns malévolos. A maioria apenas imbecis. E combatê-los. Com denodo, aos primeiros. E com infinita ferocidade aos outros, pois muito mais perigosos. E numerosos. Vera pandemia que são.

Sintomas duma sociedade doente

Pedro Correia, 01.11.20

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«Crescemos em muitos aspectos, mas somos analfabetos ao acompanharmos, cuidarmos e sustentarmos os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar à margem, ignorar as situações até elas nos caírem em cima.»

 

«Ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios. São sintomas duma sociedade doente, que procura construir-se virando as costas ao sofrimento.»

 

«A parábola do Bom Samaritano mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a partir de homens e mulheres que assumem como própria a fragilidade dos outros, combatem situações de exclusão e tudo fazem para que o bem se torne comum.»

 

Papa Francisco, na Encíclica Fratelli Tutti